Economia, Instituições e Estado de Bem-Estar Social: Respostas à Nova
Configuração do Capitalismo pós-1970
INTRODUÇÃO
Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, altas taxas de
crescimento econômico e uma conjuntura favorável permitiram a conciliação sem
precedentes entre prosperidade material e inclusão social, traduzida na
consolidação de amplos Estados de bem-estar social. A combinação favorável de
fatores, no entanto, perdurou por pouco tempo e as dificuldades do capitalismo
vieram à tona a partir dos anos 1970, traduzindo-se em aumento do desemprego e
em dificuldades para financiar as políticas de bem-estar social. O consenso
social-democrata foi abalado, abrindo espaço para propostas alternativas.
O artigo explora as respostas a esses constrangimentos, focando principalmente
nas mudanças nos Estados de bem-estar social. As dificuldades enfrentadas
motivaram interpretações extremas. Um exemplo é a interpretação de que os
constrangimentos macroeconômicos inviabilizaram a preservação de Estados de
bem-estar social abrangentes, pressionando os países a reestruturações que os
capacitassem a competir na economia internacional. Outra interpretação condena
o arranjo adotado como a consolidação de um consenso liberal em prejuízo dos
direitos sociais.
O artigo procura mostrar porque essas interpretações são incapazes de abarcar o
processo de transformação. Para isto, explora as inter-relações dos
constrangimentos econômicos, das características institucionais domésticas e
das reconfigurações no Estado de Bem-Estar Social. Argumenta-se que as mudanças
na ordem internacional, apesar de significativas, não implicam trajetórias
inexoráveis. O estudo retrata como as instituições, incluindo as
características dos Estados de bem-estar social, têm papel fundamental para
explicar as respostas. Um ponto central é apresentar como certas respostas
podem ser interpretadas como passos para preservar aspectos centrais do Estado
de Bem-Estar Social.
Atenção especial é dada a dois conjuntos de respostas. Inicialmente, mostra-se
como o neoliberalismo se configura como um conjunto de preceitos que oferece
uma alternativa ao impasse dos anos 1970. No outro extremo, exploram-se as
respostas dos países escandinavos, demostrando como foram conciliadas com a
preservação de aspectos centrais do Welfare State. Destaca-se o papel do
corporativismo e da capacidade institucional para o sucesso das reformas.
Importância central é conferida a mudanças no mundo do trabalho. Após anos de
altas taxas de desemprego, medidas foram adotadas na direção de conciliar o
desempenho do mercado de trabalho e a preservação da proteção social. O
tratamento das políticas de emprego se justifica tanto por ser essencial para a
viabilidade do Estado de Bem-Estar Social como por ilustrar a “recalibragem”
necessária para preservar a proteção social.
Em síntese, o artigo aborda pontos centrais no estudo da economia política.
Primeiro, por lidar com um aspecto central para a legitimidade do capitalismo,
a capacidade de conciliar desempenho e igualdade. Segundo, por explorar o
impacto das instituições e mostrar que o capitalismo continua diverso, não
havendo convergência em direção a um modelo. O percurso empreendido é essencial
para interpretar os processos de mudança e entender os desafios atuais. É
também essencial para evitar o determinismo presente em certas interpretações
que, além de empobrecer o fenômeno, traz implícitas implicações políticas.
A próxima seção explora o contexto internacional e as mudanças ocorridas a
partir dos anos 1970, indicando os impactos sobre a capacidade de financiamento
do Estado de Bem-Estar Social. A seção seguinte lida com as respostas imediatas
aos desafios, enfatizando a tendência à constituição de um trade offentre
desempenho (emprego) e igualdade. Em seguida o artigo aborda os principais
constrangimentos e pressões por reformas, avaliando o grau de mudança e recuo
verificado nos Estados de bem-estar social. A seguinte explora a resposta
inovadora, adotada pela Dinamarca, aos desafios do mundo do trabalho. Enfim, a
penúltima seção aprofunda aspectos da resposta escandinava, destacando a
capacidade de preservação das práticas igualitárias. A última traça as
considerações finais.
OS ANOS 1970 E O ABALO DO CONSENSO SOCIAL-DEMOCRATA
O período entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1970, conhecido
como idade de ouro do capitalismo, caracterizou-se por altas taxas de
crescimento, pleno emprego e aumento dos direitos sociais. Houve ampla melhoria
na qualidade de vida, diversificação no padrão de consumo, aumento da
expectativa de vida e avanços na seguridade social. A capacidade de conciliar
prosperidade econômica e melhoria nos direitos sociais fortaleceu a
legitimidade do regime.
Esses resultados se assentaram em uma rara combinação de condições favoráveis.
Internacionalmente, o período caracterizou-se pela estabilidade na ordem
econômica, alcançada pelas instituições de Bretton Woods. O Sistema de Bretton
Woods (SBW), estabelecido em 1948, concedia aos governos nacionais certa
autonomia na promoção dos objetivos nacionais, mas o fazia em um sistema de
taxas de câmbio fixas, que visava evitar as práticas de desvalorizações
competitivas ocorridas nos anos 1930. A promoção da abertura comercial,
efetuada pelo Tratado Geral de Tarifas e Comércio (GATT), contribuiu para altas
taxas de crescimento do comércio internacional (Borges_e_Guimarães,_2011).
Domesticamente, o crescimento se ancorou nos aumentos de produtividade e nas
oportunidades de investimento acarretadas pelo surgimento de novos setores e
pela expansão do consumo. A disseminação do fordismo, que se ancorava em
rotinas de trabalho padronizadas e nas linhas de montagem, propiciou enormes
ganhos de produtividade por meio de economias de escala e da simplificação do
trabalho (ibidem)1. Por sua vez, os setores automobilístico, farmacêutico,
eletroeletrônico, alimentício e de turismo, entre outros, puxaram os
investimentos. Havia amplo mercado e oportunidades para as empresas se
instalarem em outros países (Judt,_2008)2.
Os trabalhadores estavam organizados em sindicatos fortes. Este período foi
marcado pela consolidação de contratos assalariados estáveis, em que os
trabalhadores obtiveram ampla gama de direitos e serviços. O desemprego era
basicamente friccional. Os salários cresceram significativamente, o que, ao
lado das políticas macroeconômicas keynesianas, contribuiu para manter a
demanda aquecida (ibidem). As instituições do Welfare State,oferecendo
seguridade social, educação e treinamento, contribuíam para a harmonia social.
A social-democracia tornou-se hegemônica, sendo sua agenda, em diversos países,
absorvida pelos partidos conservadores3.
A ordem do pós-guerra trouxe uma prosperidade sem precedentes, conciliando
melhoria no padrão de vida, apoio social e legitimidade. Estava, no entanto,
alicerçada em características peculiares que permitiam o aumento, ao mesmo
tempo, dos investimentos, do emprego, dos salários e dos lucros. Tal situação
era rara e, devido aos elementos inerentes ao capitalismo, improvável de
perdurar. O que se ignorava é quão dependente o edifício social-democrata era
do desempenho da economia e, portanto, bem menos dependente das políticas
keynesianas do que se pensava (Gamble,_1988).
Nos anos 1970, os setores que puxaram a expansão perderam fôlego. Ao mesmo
tempo, novos produtores ampliaram a competição e a oferta, contribuindo para a
redução dos preços. A situação de pleno emprego, aliada ao poder dos
sindicatos, ampliava as pressões por aumento dos salários, representando
pressão adicional sobre a taxa de lucro (Arrighi,_2008). Enfim, houve o
estancamento do ritmo de crescimento da produtividade, resultado do esgotamento
do fordismo e das dificuldades inerentes a este padrão, que incluíam a
excessiva rigidez.
Dificuldades surgiram também no front internacional, fruto dos déficits norte-
americanos no balanço de pagamentos e dos efeitos negativos sobre o padrão
monetário baseado no lastro ouro-dólar, levando, em 1971, ao abandono da
conversibilidade e, em 1973, à adoção de um regime de taxas de câmbio
flutuantes. A ruptura do padrão trouxe incerteza e prejudicou o comércio. O
Sistema de Bretton Woods, embora deixando aberta a possibilidade de
desvalorizações, levava os países a se preocuparem com a inflação, dado que não
podiam desvalorizar o câmbio recorrentemente. Com a mudança nas regras, os
países passaram a responder às dificuldades com emissão de moeda, causando
inflação e a ulterior desvalorização do câmbio (Gamble,_1988).
Como consequência, o período 1971-1973 foi marcado por enorme liquidez
internacional, frequentes desvalorizações cambiais e pressões inflacionárias. O
preço das mercadorias subiu 70%, o dos alimentos 100%. É nesse contexto que se
insere o choque do petróleo, lançando o mundo em recessão. O aumento dos preços
do petróleo significou a aceleração das pressões inflacionárias, forçando os
países a cortar gastos no intuito de enfrentar a inflação e as pressões no
balanço de pagamentos.
Uma importante implicação diz respeito à impotência das políticas de estímulo à
demanda. Inicialmente, porque agravariam o quadro inflacionário. Em segundo
lugar, porque tenderiam a causar dificuldades no balanço de pagamentos,
potencializadas por outra importante mudança, a desregulamentação das operações
financeiras e a maior mobilidade no fluxo de capitais4. A partir de então,
países que adotassem políticas expansionistas, sinalizando para pressões
inflacionárias, tenderiam a sofrer fuga de capitais. Como resultado, o controle
da inflação tornou-se o principal objetivo, uma mudança com fortes implicações
sobre o mundo do trabalho.
Assim, os eventos do início da década de 1970 abalaram os alicerces da
prosperidade anterior. O menor crescimento da arrecadação colocou dificuldades
para o financiamento do Welfare State e, em face das altas expectativas, também
para a governabilidade dos programas social-democratas. Outro foco de mudanças
veio com o esgotamento do padrão fordista e com a introdução de novas técnicas
de produção, que tiveram o duplo impacto de reduzir a demanda por trabalhadores
na indústria e modificar o perfil dos trabalhadores exigidos.
Todo este quadro significou dificuldades para os trabalhadores. A competição
crescente por parte de países com menores custos ameaçou a viabilidade de
certos setores. Em segundo lugar, as mudanças no processo produtivo reduziram a
demanda por trabalhadores menos qualificados, aquela parte da força de trabalho
que mais havia crescido. Em terceiro, em um ambiente mais volátil as firmas
passaram a demandar regras trabalhistas menos rígidas (Borges_e_Guimarães,
2011).
Em síntese, estava-se diante de profundo processo de mudança estrutural. Houve
enorme diminuição do emprego na indústria, enquanto a tentativa das empresas em
driblar aspectos rígidos do contrato traduziu-se em práticas como
subcontratação e terceirização. Além do desemprego crescente, houve a
precarização dos postos de trabalho, uma vez que grande parte dos empregos
gerados passou a ser em tempo parcial ou por prazo determinado, oferecendo
menores direitos. O quadro de economias baseadas na indústria, com baixo grau
de segmentação entre trabalhadores qualificados e não qualificados, desaparece,
substituído por uma economia fluida e pelo aumento do desemprego de longo prazo
(Kerstenetzky,_2012:73).
Em face do novo quadro, uma questão fundamental diz respeito à capacidade de
resposta. Bem diferente dos anos 1960, a década de 1970 foi marcada por
impotência e desilusão (Judt,_2008). À semelhança dos anos 1930, os
policymakers não sabiam como responder. A magnitude das dificuldades chocava-se
com o sucesso anterior, enquanto o fortalecimento de certos grupos dificultava
a adoção de reformas.
ENFRENTANDO OS DESAFIOS: PADRÕES DIFERENTES DE RESPOSTAS
A crise, o aumento dos déficits públicos e o novo patamar de desemprego
sinalizaram a ocorrência de mudanças profundas. Uma implicação central se deu
sobre a capacidade de os governos entregarem o que haviam prometido,
contribuindo para desacreditar certos pilares do pacto social-democrata. Em
alguns países, a crise abriu a agenda política para que lideranças hábeis
ocupassem espaço com um novo receituário (Gourevitch,_1986).
Como reação imediata, os governos se abraçaram às práticas vigentes. O
protecionismo e outras formas de regulação foram restaurados, na tentativa de
salvar os empregos ameaçados (Judt,_2008). Com o tempo, percebeu-se que as
mudanças exigiam reformas profundas. As respostas foram influenciadas pelas
características institucionais de cada país, incluindo a organização dos
sindicatos e o tipo de Welfare State. Apresentaremos a seguir a resposta
dividindo os países em trêsclusters, que em grande parte refletem a divisão
original feita pelo trabalho clássico de Esping-Andersen_(1990). A análise
compartilha o que Hay_e_Wincott_(2012) classificam como modelos de welfare
capitalism que, ao lado das características do Welfare State, incorporam outros
elementos inerentes às respectivas economias5.
Em um primeiro cluster, de tradição anglo-saxã, o vácuo aberto pela crise foi
ocupado pela agenda neoliberal. A capacidade de esta agenda ocupar o espaço,
recuperando preceitos e direções que pareciam superados, deveu-se à existência
de um elaborado pensamento que havia sobrevivido aos anos de hegemonia social-
democrata (Gamble,_1988). Este conjunto de ideias, conhecido como aNew Right,
era mais que um pensamento econômico, contendo teorias sobre o Estado e sobre
as instituições. Um dos seus pilares era a necessidade de conter a intervenção
do Estado, uma vez que considerava a social-democracia a responsável pelas
dificuldades econômicas.
Apesar de se basear em preceitos aceitos antes de 1930, a New Rightapresentava-
se como um pensamento original. Uma novidade era a combinação da defesa da
livre economia com um pensamento conservador que defendia a autoridade do
Estado. Um Estado forte era considerado fundamental para derrotar os grupos de
interesse, incluindo os sindicatos e os servidores públicos, cujas demandas por
proteção prejudicavam o funcionamento da economia (Gamble,_1988).
Inicialmente, era necessário recuperar as condições para o funcionamento do
mercado, o que exigia uma política monetária rígida e orçamentos equilibrados.
O controle da inflação era prioridade, uma vez que ameaçava os pilares da
economia de mercado. Os sindicatos deveriam ser enfraquecidos, os impostos
reduzidos e a economia desregulada, visando criar as condições para a
recuperação do investimento e do emprego.
Outro pilar da New Right era a Teoria da Escolha Pública: políticos e
burocratas eram vistos não como agentes voltados à promoção do bem geral, mas
como atores voltados a maximizar as chances de reeleição e de ascensão nas
carreiras. Estes desenvolvem contatos diferenciados com grupos econômicos,
conferindo aos mais organizados canais privilegiados para a inserção de
demandas. A New Right colocava em xeque os resultados de algumas decisões
políticas e democráticas, consideradas inferiores às decisões do mercado. Uma
implicação é que a intervenção estatal, acusada de favorecer alguns grupos,
passa a ser criticada também em termos morais (ibidem).
A Grã-Bretanha ilustra o movimento de ascensão da New Right. O país sofreu os
impasses dos anos 1970, compartilhando o recrudescimento da inflação e as
pressões para a desindustrialização. Uma particularidade era a organização
sindical: os sindicatos eram fortes, mas faltavam organizações representativas
que favorecessem a negociação com o governo e com os empresários. Houve a
tentativa, malsucedida, de construção de mecanismos de negociação tripartite. A
resistência dos trabalhadores ao partido conservador foi grande e, no final da
década, a falha em cooperar com o governo trabalhista acarretou intensa onda de
greves, contribuindo para levar ao poder uma nova vertente do partido
conservador, liderada por Margareth Thatcher (ibidem).
Uma vez no governo, Thatcher colocou em ação pontos da agenda da New Right, com
forte ênfase em uma política monetária apertada para vencer a inflação. O
resultado foi uma grave recessão que a tornou um dos mais impopulares
primeiros-ministros da história. Entretanto, eventos como a Guerra das
Malvinas, em 1982, e a greve dos mineiros em 1984/1985, deram ao governo o
apoio para implementar outros pontos da agenda (ibidem).
Thatcher removeu as restrições aos movimentos financeiros, dando grandes
oportunidades às empresas britânicas. Forte ênfase foi dada à desregulamentação
do mercado de trabalho e à redução dos custos trabalhistas. Houve redução do
prazo e do valor do seguro-desemprego6 e das taxas de reposição relativas ao
auxílio-doença e aos acidentes de trabalho. Houve também enfraquecimento dos
sindicatos e significativa modificação nas políticas de emprego, com o
endurecimento das regras para os desempregados procurarem e aceitarem um
emprego7.
A estratégia britânica sumariza traços de uma estratégia compartilhada por
Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, que também privilegiaram a redução
dos custos trabalhistas e o enfraquecimento dos sindicatos. Houve queda nos
benefícios de aposentadoria, no seguro-desemprego e em outros benefícios. A
aposta era que a menor regulamentação favoreceria a criação de novos empregos.
De fato, esta estratégia produziu elevação na demanda por trabalho. A partir
dos anos 1980, o crescimento do emprego foi três vezes maior neste cluster e as
taxas de desemprego atingiram os níveis mais baixos entre os países
desenvolvidos (Azeredo,_1998; Kerstenetzky,_2012).
No entanto, as medidas resultaram também em deterioração das condições sociais
e em aumento da desigualdade. A redução dos salários e dos benefícios ampliou o
número de trabalhadores e de desempregados situados abaixo da linha de pobreza.
Houve crescimento do número de pessoas sujeitas a empregos precários e de baixa
remuneração8. Nos Estados Unidos, programas de assistência social foram
eliminados, em troca de obrigar os pobres a aceitar um emprego qualquer. Houve
aumento do número de trabalhadores sem acesso à previdência, aos planos de
saúde e ao seguro-desemprego. Destacam-se também as baixas chances de ascensão
social e a deterioração da situação de grupos mais vulneráveis. A incidência de
pobreza entre mães solteiras chegou a 50% (Kerstenetzky,_2012:109).
Apesar das mudanças, também nesse cluster o Welfare State encontrou
resiliência. Pierson_(2007) mostra como Reagan, após fazer cortes em programas
de auxílio aos pobres e crianças dependentes, encontrou dificuldades em ir
adiante e teve de recuar. Também no Reino Unido, a despeito da concentração de
poder pelo primeiro-ministro, muito do Welfare State permaneceu intacto. O
Estado de Bem-Estar Social criou lealdades em torno de suas políticas, tornando
difícil fazer cortes em benefícios valorizados pelos cidadãos (ibidem).
A variante liberal ficou restrita a alguns países, sendo que grande parte dos
países europeus optou por preservar e/ou adaptar as práticas anteriores. Um
segundo grupo, composto por países como Suécia e Dinamarca, era caracterizado
por um Estado de Bem-Estar Social universal marcado por alto grau de
desmercantilização(decommodification; Esping-Andersen,_1990). Na Dinamarca, o
seguro-desemprego podia durar 260 semanas, em um valor em torno de 70% a 80% do
salário prévio. Em ambos os países, havia sólidos arranjos corporativistas.
Em face das dificuldades, os suecos responderam com a preservação da política
característica das décadas anteriores9. Subsídios foram concedidos para
estimular o emprego e a qualificação dos trabalhadores foi reforçada
(Weishaupt,_2011). Outro pilar foi o recurso aos mecanismos corporativistas de
negociação salarial, que contribuíram para menores pressões salariais. A Suécia
recorreu também à intensa expansão do emprego público. O modelo sueco
demonstrou grande resiliência, sendo considerado um bastião de resistência às
novas tendências. Na contramão do que ocorria em outros países, as taxas de
desemprego não ultrapassaram os 3% e o desemprego de longo prazo era
praticamente inexistente.
Entretanto, essas políticas não resistiram ao acirramento da crise no início
dos anos 1990, agravada pelas dificuldades na vizinha Finlândia. Em face da
desaceleração econômica, o aumento do déficit público provocou especulação
contra a coroa e a fuga de capitais. Entre 1991 e 1993, a Suécia obteve taxas
negativas de crescimento e queda na produtividade. Em face do baixo crescimento
da oferta de emprego, a efetividade das políticas de emprego reduziu-se
significativamente. O desemprego passou de 2%, no final dos anos 1980, para 9%
em meados dos anos 1990 (Becker,_2011:48). Segundo Steinmo_(2013:93), a crise
refletiu também excessos do modelo. As alíquotas de impostos estavam
excessivamente elevadas, desestimulando o trabalho, enquanto a generosidade
excessiva de alguns benefícios indicavam casos de abuso.
A crise abriu a possibilidade de mudanças, favorecidas pela presença de um
partido de centro-direita no poder. Benefícios sociais foram cortados para
enfrentar o déficit, implicando cortes no seguro-desemprego, no auxílio-doença
e nas aposentadorias (Lindgreen, 2011:51). A proteção ao emprego passou por
leve relaxamento. Houve também reformas no sistema tributário e no sistema de
seguridade social, feitas com o objetivo de combinar igualdade e
sustentabilidade fiscal. Segundo Steinmo_(2013), foi essencial o alto grau de
insulamento da elite política, criando capacidade para implementar reformas
difíceis.
Um grande recuo marcou as práticas mais coordenadas de negociação salarial.
Após o abandono da negociação centralizada, em 1983, seguiram-se anos de tensão
entre empresários e sindicatos, resultando, em 1995, na mais descoordenada
rodada de negociação salarial desde a Segunda Guerra Mundial (Lindgreen, 2011:
55). Os resultados foram frustrantes, dada a reivindicação dos sindicatos por
reajustes muito altos. O evento mostrou que, em face da força dos sindicatos,
práticas coordenadas de negociação eram fundamentais para garantir paz e
estabilidade nas relações de trabalho.
A partir dos anos 1990 houve a recuperação da economia, marcada pelo
crescimento da produtividade e pela queda do desemprego, que atingiu, ao final
da década, níveis entre 4% e 6%. O partido social-democrata, de volta ao poder,
reverteu alguns cortes nos benefícios feitos, além de retomar o estilo mais
negociado de implementação das políticas. A ênfase na austeridade foi mantida.
A Dinamarca também respondeu à crise com políticas keynesianas, mas o aumento
do déficit público e os desequilíbrios no balanço de pagamentos motivaram o seu
abandono. O governo passou então a adotar direções mais monetaristas,
privilegiando a busca pela competitividade. O desemprego se elevou e manteve-se
alto ao longo da década de 1980. Diagnósticos destacaram, entre as principais
dificuldades, a baixa taxa de participação no mercado de trabalho e a baixa
qualificação da força de trabalho (Andersen_e_Svarer,_2007).
Enquanto a Suécia manteve-se firme à ideia de preservar o pleno emprego, a
Dinamarca privilegiou a proteção aos trabalhadores em dificuldades. Em 1979,
84% dos gastos com políticas de emprego era destinado à assistência aos
desempregados (Weishaupt,_2011:112). Ao longo dos anos 1980, no entanto, a
Dinamarca fortaleceu as práticas de qualificação e rotatividade no emprego.
Medidas foram adotadas para flexibilizar a negociação salarial e o governo
obteve dos sindicatos menores demandas por reajustes salariais. As reformas
implantadas no início dos anos 1990, exploradas na seção intitulada Enfrentando
oTrade off: O Modelo Social-Democrata e aFlexiseguridade(flexicurity), foram
acompanhadas por dez anos de crescimento do emprego (Mailand,_2011:93).
Em síntese, tanto a Dinamarca como a Suécia sofreram os impactos das mudanças
internacionais e os impactos sobre o Welfare State. As dificuldades foram
agravadas pela desindustrialização, que entre 1970 e 2005 levou à queda de 40%
dos empregos industriais (Einhorn_e_Logue,_2010). O novo contexto apontava as
dificuldades em preservar os benefícios: na ausência de reformas, poder-se-ia
comprometer a viabilidade doWelfare State. Assim, ampliaram-se as pressões para
melhorar a eficiência, estimular o trabalho e reduzir os gastos, levando os
governos a apertar os critérios para a concessão dos benefícios. As mudanças,
como se argumenta mais adiante, foram feitas de forma a preservar a ênfase
igualitária deste Estado de bem-estar social.
Uma terceira variante de respostas foi adotada por alguns países da Europa
continental, incluindo França e Alemanha. Nestes países, a força dos sindicatos
e a estrutura do Welfare State contribuíram para a preservação de altos
salários e benefícios aos trabalhadores segurados10. No entanto, a manutenção
destas práticas, tornando altos os custos trabalhistas e rígidas as demissões,
desestimulava a contratação. Enquanto os insiders eram protegidos, os
outsiders, principalmente jovens, mulheres e trabalhadores de baixa
qualificação, enfrentavam dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Como
resultado, as taxas de desemprego permaneceram altas, ultrapassando 10%.
Um fator a explicar a resistência às reformas é a estrutura do Estado de Bem-
Estar Social desenvolvido nesses países, centrado em benefícios seletivos
determinados a partir da estrutura ocupacional. Nesse regime, os benefícios
foram inicialmente concedidos aos operários industriais como forma de ampliar o
apoio político. Consolidou-se um regime em que os benefícios dependiam de
contribuições ligadas ao emprego e em que os programas de seguridade eram
separados por categorias. Os beneficiários, bem organizados, exerciam
resistência aos cortes. Outro fator a explicar a resiliência é a tradição de
proteção social baseada na família tradicional, em que a preocupação central é
salvaguardar o emprego dos homens chefes de família (Esping-Andersen,_1990).
Em síntese, a resposta inicial baseou-se na proteção aos trabalhadores
segurados. Outras políticas incluíram a redução das horas de trabalho e o
incentivo à aposentadoria precoce de trabalhadores desempregados a longo tempo.
Essas medidas, além de insuficientes, provocaram pressões sobre o déficit
público. A baixa participação da mulher no mercado de trabalho e as
dificuldades do Welfare State em lidar com estruturas de famílias não
tradicionais colocaram dificuldades adicionais (Esping-Andersen,_2007:54).
Após anos de alto desemprego, reformas foram adotadas na direção de
flexibilizar parte da legislação, sendo introduzida a possibilidade de
contratação por tempo determinado e por período parcial, principalmente nas
pequenas empresas. Outra mudança foi a redução dos encargos trabalhistas e nos
benefícios do seguro-desemprego11. Na Alemanha, as políticas de mercado de
trabalho ativas foram reforçadas, emulando práticas adotadas no Reino Unido
(Seeleib-Kaiser_e_Fleckenstein,_2007)12. Em síntese, embora a regulação do
mercado de trabalho e a proteção aos trabalhadores continuassem altas, os
países continentais passaram a adotar reformas para reduzir a rigidez do
mercado de trabalho. Os resultados foram positivos e o emprego passou a
crescer.
As respostas acima, que compartilham o desafio de lidar com os novos
constrangimentos, diferem amplamente. A rota liberal individualizou os riscos,
focando no “estímulo” ao trabalho e ampliando as desigualdades. A rota
continental privilegiou a proteção ao trabalhador segurado e ampliou a
divisãoinsiders-outsiders, passando, aos poucos, a introduzir medidas que
provessem maior flexibilidade. A rota escandinava fez ajustes e recuos
pontuais, socializando os riscos e reformulando as políticas de emprego
(Kerstenetzky,_2012). A seção seguinte sintetiza o papel dos constrangimentos,
abordando os principais fatores capazes de pressionar por mudanças no Estado de
Bem-Estar Social.
CONSTRANGIMENTOS, INSTITUIÇÕES E RESPOSTAS
Um passo importante é sistematizar o papel dos constrangimentos que poderiam
implicar recuo do Welfare State, avaliando também se houve recuo do Estado de
Bem-Estar Social e em que grau. Há, inicialmente, os constrangimentos
macroeconômicos que acompanham as mudanças no regime cambial e a
desregulamentação dos movimentos financeiros. A nova ordem econômica requer
disciplina fiscal e controle da inflação, reduzindo a capacidade dos governos
perseguirem políticas de pleno emprego. Este desafio fiscal é agravado pelas
mudanças na estrutura das famílias e pelo envelhecimento da população, que se
reflete na redução da relação contribuintes/aposentados13.
Um fator muito destacado pela literatura, particularmente por análises que
defendem a convergência em direção a um modelo liberal, são as mudanças que
teriam tornado o capital mais móvel, incluindo as novas regras internacionais e
as novas tecnologias de comunicação. Segundo esta tese, batizada de “tese da
globalização”, um contexto marcado por maior concorrência e facilidade de
deslocamento pressionaria os governos a promover um ambiente mais favorável ao
capital, reduzindo encargos e a proteção ao trabalho e levando a um recuo do
Welfare State.
Outra fonte de pressão estaria ligada à União Europeia (UE), que teria
implicado maior disciplina fiscal e a intensificação dos fluxos de mercadorias,
investimentos e recursos entre os países membros. Acreditava-se também que
regulações da UE poderiam levar a efeitos homogeneizadores na relação capital-
trabalho. Um quinto possível vetor de mudança viria de um processo cultural de
individualização, acentuando a responsabilidade do indivíduo e contribuindo
para reduzir a solidariedade em relação ao Welfare State (Becker,_2011). E em
sexto lugar, há os impactos das mudanças no mundo do trabalho, relacionados à
perda de empregos industriais, à mudança na natureza dos empregos e à
dificuldade de alcançar o pleno emprego.
Paul Pierson_(2001) avalia o impacto potencial de cada um destes fatores. Uma
de suas principais teses é o alto grau de resiliência do Welfare State, uma vez
que lealdades consolidadas em torno do mesmo teriam tornado o custo de
desmontá-lo alto demais (Pierson,_2007:147). Não obstante, ao abordar os
fatores capazes de explicar recuos, Pierson_(2001) encontra que o mais
relevante teria sido a queda dos empregos industriais de maior produtividade.
Schwartz_(2001) encontra que a maior mobilidade financeira, apesar dos
constrangimentos sobre a política macroeconômica, não seria fator relevante
para explicar recuos no Welfare State. A principal fonte de constrangimentos
viria do fator demográfico, a colocar pressões sobre os gastos em saúde e
aposentadoria.
Um ponto fundamental para o argumento do presente artigo é analisar a chamada
“tese da globalização”. Há várias críticas a esta tese. Um primeiro ponto é que
os principais Estados de bem-estar social desenvolveram-se em pequenas
economias com enorme grau de abertura, sendo a maior exposição à competição
acompanhada por mecanismos voltados a proteger a sociedade das flutuações no
ciclo econômico (Katzenstein,_1985). Em outras palavras, a correlação entre
abertura e gastos do Welfare State sempre foi elevada, havendo pouca base para
argumentar que a intensificação da abertura iria forçá-lo a recuar.
Um segundo ponto argumenta que o investimento produtivo é relativamente fixo,
beneficiando-se de externalidades locais, algumas relacionadas ao Welfare
State. Um Welfare State generoso implica não apenas custos elevados, mas formas
de beneficiar a economia (Hay_e_Wincott,_2012:71). Por um lado, tende a
favorecer a geração de trabalhadores saudáveis e educados, com efeitos
positivos sobre a participação no mercado de trabalho. A participação dos
trabalhadores nas decisões das empresas e a maior proteção ao emprego, por sua
vez, tendem a estimular o investimento em qualificação e a inovação no chão da
fábrica (idem:115). Como concluem Hay e Wincott, o “Welfare State tende a ter
papel-chave na consolidação de relações industriais cooperativas que favorecem
o investimento em capital físico e humano” (idem:129; tradução livre).
Em terceiro lugar, o Welfare State, ao proteger os indivíduos das flutuações
econômicas, tende a ter efeitos sobre o consumo, positivamente correlacionado
com o crescimento econômico (Becker_e_Kersbergen,_2011:187). Um quarto elemento
crítico está relacionado ao fato de que o Welfare State tende a reduzir os
custos de transação e a favorecer a confiança e a cooperação. Quinto, um
Welfare Statemais generoso, ao reduzir a desigualdade, tende a contribuir para
menores taxas de criminalidade e para a redução dos custos com encarceramento e
segurança, assim como dos efeitos negativos do crime sobre o capital humano14.
Um ponto central é que os países com Estado de Bem-Estar Social generosos
tendem a competir não por baixos custos do trabalho, mas por qualidade e
inovação (Hay_e_Wincott,_2012:115). Neste sentido, é interessante notar que as
principais dificuldades econômicas vêm sendo enfrentadas pelos países europeus
com menor capacidade de inovar, os mesmos que vêm sofrendo maiores pressões
para recuar o Estado de bem-estar social.
O argumento contrário à tese da globalização pode ser respaldado também em
bases empíricas. A maior integração econômica vem ocorrendo há algumas décadas,
sem que isto tenha levado a um fluxo de empresas abandonando os países europeus
mais desenvolvidos em direção a economias desreguladas. As principais empresas
continuam baseadas em seus países de origem, que apresentam resultados muito
consistentes em termos de competitividade e crescimento (ver a seção intitulada
Enfrentando os Desafios: As Lições da Resposta Escandinava, deste artigo).
Recusar a tese da globalização não implica, no entanto, que os constrangimentos
não sejam significativos e que não haja recuos do Welfare State. Os
constrangimentos macroeconômicos e fiscais são significativos, agravados pelas
mudanças demográficas e pelas novas tendências do mundo do trabalho. A União
Europeia coloca ainda constrangimentos suplementares, devido também a certas
decisões da Corte Europeia de Justiça, que podem comprometer a capacidade de
alguns países regularem o capital (Smith,_2011:169). Em relação à tese da
individualização, surveys mostram que apesar de haver certo fortalecimento de
teses individualistas, há inúmeras diferenças entre os países, assim como apoio
expressivo para o Welfare State (Becker,_2011:24).
Uma questão essencial é se houve um recuo do Welfare State e em que fica assim:
grau ele ocorreu. Kerstenetzky_(2012:cap. 4) argumenta que o recuo foi
relativo, com retração em algumas áreas acompanhado de resiliência em outras.
Hay_e_Wincott_(2012) seguem vários indicadores na tentativa de concluir algo
sobre o recuo dos Estados de bem-estar social. Ao observar o comportamento dos
gastos sociais em porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB), os autores notam
que há uma inflexão nos anos 1980, marcada pela desaceleração do crescimento e
depois pela estabilização dos gastos. Esta estabilização, no entanto, implica
redução na generosidade dos benefícios, o que se explica pelos custos
crescentes que tendem a acompanhar o envelhecimento da população e os mais
complexos serviços de saúde. Ou seja, se o grau de generosidade continuasse o
mesmo, os gastos em relação ao PIB tenderiam a crescer (ibidem:100 e 177).
Também Becker_(2011:34-35) encontra uma tendência geral à redução dos
benefícios e a um menor grau dedecommodification dos Welfare States. Nas suas
palavras, alguns Welfare States tornam-se menos inseridos (embedded), tendendo
a reduzir o grau de cobertura e o valor dos benefícios. A menor generosidade
traduziu-se na redução dos benefícios do seguro-desemprego, do auxílio-doença e
das pensões, mas também em menores graus de proteção ao emprego, com o
crescimento de empregos temporários e mal pagos.
Apesar do recuo, o impacto distributivo do Welfare State continua alto,
contribuindo para reduzir o coeficiente de Gini em proporções que variam de 44%
na Dinamarca e na Suécia a 17% nos EUA (Kerstenetzky,_2012:77). Além disto, não
se encontra convergência em direção a um cluster. Segundo Hay_e_Wincott_(2012:
103), o desvio-padrão entre os grupos de países continua o mesmo: o regime
nórdico continua o mais generoso, seguido pela Europa continental e com grande
diferença em relação aos países liberais. Isto é ilustrado pelos gastos em
transferências e serviços sociais: em 2009, os países escandinavos gastavam
algo como 37% do PIB, seguidos pelo cluster continental (30%) e pelocluster
liberal (25%) (Hay_e_Wincott,_2012:182). Em algumas áreas, como seguro-
desemprego e auxílio-doença, as diferenças se acentuaram.
Assim, outra conclusão essencial é que a relação entre as mudanças na economia
e as modificações no Welfare State é mediada pelas instituições nacionais. O
Welfare State representou um processo de construção econômica, moral e
política, introduzindo direitos que afetam diversos segmentos sociais. Isto
ajuda a entender não apenas a dificuldade de desmontá-lo, mas a relevância do
tipo de Welfare State e da capacidade de amarrar lealdades. Algumas reformas
foram mais fáceis nos países que compartilhavam o Estado de Bem-Estar Social
liberal, centrado no grupo mais carente e com maiores dificuldades de mobilizar
apoio político. O modelo continental mostrou-se mais resistente a reformas que
afetassem diretamente os trabalhadores sindicalizados. Enfim, o modelo social-
democrata tem conseguido negociar melhor as reformas consideradas necessárias.
A capacidade de incorporar a classe média, fazendo-a se beneficiar das
políticas, constitui fator decisivo para o apoio ao regime (Kerstenetzky,_2012:
118-134).
Em síntese, os novos constrangimentos implicaram recuo e reformulações em
certas políticas, mas de forma alguma convergência. Os clusterscontinuaram bem
delineados. Nos países liberais, consolidou-se maior segmentação nos programas
de proteção, com os serviços públicos oferecendo proteção básica e os mais
afortunados tendendo a recorrer ao setor privado15. Este regime tem apostado
nas deduções fiscais para estimular serviços privados de saúde e previdência,
mas as isenções tendem a se concentrar nos grupos de alta renda (ibidem:111).
No regime continental ou conservador, que apresenta grau intermediário
dedecommodification, vem ocorrendo crescimento da aposentadoria privada e de
serviços privados de saúde, medidas que contribuem para ampliar o dualismo
entre insiders e outsiders. Entre as principais dificuldades, encontram-se as
consequências da familiarização do bem-estar e a incapacidade de responder aos
novos riscos16. Enfim, os países escandinavos vêm demonstrando maior capacidade
de implementar mudanças e de preservar os aspectos igualitários do Welfare
State. A próxima seção explora a resposta da Dinamarca ao trade offemprego/
proteção, considerada paradigmática no enfrentamento dos desafios do mundo do
trabalho. A seguinte, explora o papel do corporativismo e de outros fatores
para a capacidade de Dinamarca e Suécia viabilizarem as reformas.
ENFRENTANDO O TRADE OFF: O MODELO SOCIAL-DEMOCRATA E AFLEXISEGURIDADE
Até os anos 1970, o modelo dinamarquês apresentou baixas taxas de desemprego e
generosos benefícios sociais. O seguro-desemprego durava cinco anos e podia ser
renovado pela participação em programas de treinamento. A crise alterou o
quadro, com grande crescimento do desemprego de longo prazo. A constatação de
que havia, ao mesmo tempo, grande número de desempregados e falta de
trabalhadores em certos setores foi decisiva para a adoção de mudanças em
direção a uma nova abordagem. Esta abordagem ilustra pontos importantes para o
objetivo do artigo. Primeiro, por se constituir em alternativa ao trade off
emprego/seguridade; segundo, por exemplificar a adoção de ajustes necessários
para a preservação do Estado de Bem-Estar Social.
O modelo dinamarquês é caracterizado pela grande proporção de pequenas empresas
e pelo alto grau de abertura ao exterior. A participação das pequenas empresas,
somada ao amplo histórico de negociação, contribuiu para gerar maior
flexibilidade nas relações de trabalho. Os empregadores têm autonomia para
variar as horas de trabalho, a jornada de trabalho e as funções desempenhadas
pelos trabalhadores. Esta flexibilidade, no entanto, é acompanhada pela
participação nas negociações coletivas, que definem padrões que devem ser
seguidos, incluindo o valor do salário mínimo, a igualdade de rendimentos entre
homens e mulheres e a duração da jornada de trabalho17. As empresas, por sua
vez, têm flexibilidade na forma de cumpri-los. No caso da jornada de trabalho,
as firmas podiam distribuir as horas entre os dias da semana e mesmo entre
semanas, flexibilidade que, após 1995, foi estendida para alguns meses (Einhorn
e_Logue,_2010).
Apesar da flexibilidade e do baixo tempo médio de permanência no emprego, há
ampla propensão das firmas a investir em treinamento18. Os trabalhadores têm
conhecimento das várias etapas de produção, o que contribui para a maior
flexibilidade (Mailand,_2011:81). O regime é também marcado por elevado grau de
proteção social: a duração do seguro-desemprego é alta, os critérios de
elegibilidade generosos e a taxa de reposição, principalmente para os grupos de
baixa renda, elevados (Becker,_2011:184). Esta combinação entre flexibilidade e
seguridade social levou à cunhagem do termo flexiseguridade, que se tornou
central no direcionamento das políticas de emprego na Europa.
A flexiseguridade, no entanto, mostrou-se inicialmente incapaz de deter a
escalada do desemprego. O diagnóstico apontou como principais dificuldades a
baixa qualificação da força de trabalho e a grande proporção de pessoas
dependentes dos benefícios sociais. A mudança mais significativa veio com a
introdução de práticas de ativaçãoe a adoção de um enfoque que procurava, ao
mesmo tempo, incentivar e pressionar os indivíduos a se inserirem no mercado de
trabalho (Andersen_e_Svarer,_2007). Um pilar foi o aperto dos critérios de
concessão de seguro-desemprego: o prazo máximo de recebimento do seguro foi
reduzido, com a exigência de participação, após o primeiro ano, em programas de
capacitação e em outras atividades. Houve também modificação nos critérios para
a renovação do seguro, que passou a exigir nova experiência de emprego. Embora
as condições tenham se tornado mais rígidas, os valores continuaram generosos.
A duração do seguro-desemprego era de 48 meses, com taxa média de reposição de
70%, chegando a 90% para as faixas de mais baixa renda. A participação dos
trabalhadores foi decisiva para a preservação dos altos índices de seguridade
(Weishaupt,_2011).
Houve também reforço das políticas ativas de mercado de trabalho, cujo gasto em
proporção do PIB passou de 1,1%, em 1986/1990, para 1,8% em 1994/1997. O
sistema público de emprego foi reformulado, com o fortalecimento dos serviços
de orientação, intermediação e treinamento de mão de obra. Na redefinição das
políticas de emprego, foram utilizadas várias técnicas ligadas à nova
administração pública, incluindo o gerenciamento por objetivos, a participação
do setor privado em programas de treinamento e oferta de emprego temporário e a
descentralização das tarefas (Borges_e_Guimarães,_2011). Medidas foram também
adotadas para favorecer o emprego temporário, muito regulado até os anos 1990,
e para estimular o trabalho, incluindo a redução dos impostos em faixas mais
altas de renda.
Um papel essencial foi desempenhado pelo reforço das políticas de treinamento,
fundamentais para manter a alta produtividade e ajudar o desempregado a
conseguir um emprego. Nessa política, a Dinamarca conta com órgãos tripartites,
em que trabalhadores e empresários participam na definição dos gastos, nas
fontes de financiamento e no balanceamento dos programas. Licenças foram
concedidas para favorecer a participação dos trabalhadores: cada trabalhador
com mais de dois meses no emprego passava a ter direito a duas semanas de
treinamento financiadas pelo fundo tripartite. Os empresários canalizavam certa
quantia por trabalhador para o financiamento dos programas (Mailand,_2011:85).
A partir da adoção do novo enfoque, mas também refletindo a recuperação da
economia, o desemprego passou a cair, atingindo 5,5% em 1998 e permanecendo
baixo por grande parte da década seguinte. Embora parte do resultado seja
creditada ao encaminhamento de pessoas para programas integrais de
escolarização e capacitação (Daguerre,_2007), há evidências de redução no tempo
médio de desemprego, de melhoria na taxa de saída do desemprego para o emprego
e de redução na taxa de dependência (Andersen_e_Svarer,_2007).
O enfoque dinamarquês tende a ser criticado por se considerar que a ativação
transfere o fardo para o indivíduo. É também criticado por ser considerado
parte de uma estratégia centrada na redução dos direitos e nos interesses do
capital (Daguerre,_2007). Estas críticas têm seu lado de verdade, uma vez que
na raiz das mudanças estão as dificuldades do sistema capitalista. O argumento
aqui defendido é que, uma vez que os países individualmente têm pouco controle
sobre certas variáveis, a reformulação deve ser vista como um passo para
enfrentar os novos constrangimentos e preservar a ênfase igualitária do modelo.
Andersen_e_Svarer_(2007) levantam uma questão esclarecedora: “por que não
simplesmente reduzir os benefícios, forçando as pessoas a procurar um posto de
trabalho?”. Segundo os autores, tal posição, ao ferir a percepção de que é
dever do Estado socorrer os necessitados, não seria tolerada. Não obstante, e
em face dos constrangimentos, torna-se legítimo pedir para que os indivíduos
trabalhem e contribuam para sustentar o Estado de bem-estar social. É neste
sentido que se pode falar de redefinição do pacto: o Estado continua a ter o
dever de assistir os indivíduos sem trabalho, mas estes devem fazer a sua parte
para conseguir um emprego, contando com os serviços viabilizados pela política
de emprego.
De forma similar, a combinação entre flexibilidade, ativação, seguridade e
reforço das políticas de emprego implica que o importante é garantir proteção e
oportunidades de emprego, e não segurança em um emprego específico, algo
difícil em face das novas configurações da economia. O arranjo anterior não
pode mais ser preservado, mas é fundamental que o Estado continue a proteger os
indivíduos em dificuldades. Os benefícios mantêm a renda em momentos de
necessidade, enquanto os serviços de treinamento, reciclagem e colocação
ampliam as chances de se conseguir um emprego.
Paralelamente à experiência dinamarquesa, foi amadurecendo um novo enfoque para
a política de emprego europeia. No início dos anos 1990, a Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fez um estudo que, influenciado
pelos resultados alcançados por EUA e Reino Unido, defendia medidas que
flexibilizassem o mercado de trabalho, reduzissem os encargos e endurecessem os
critérios de elegibilidade para os benefícios (Weishaupt,_2011).
Em contraponto, ocorreram as primeiras iniciativas da União Europeia na direção
de empreender reflexões que guiassem a política para os países membros. Embora
compartilhando a necessidade de reduzir os custos do trabalho e estimular a
busca por emprego, a abordagem abraçada pela UE enfatizava o papel dos governos
em auxiliar os indivíduos, principalmente os mais vulneráveis, a obter um
emprego. Em um influente documento de 1994, o Conselho Europeu destacava a
necessidade de promover um crescimento mais intensivo em trabalho e de contar
com a participação de empresários e trabalhadores no desenho e na implementação
das políticas (Weishaupt,_2011). Na Estratégia de Emprego Europeia definida
para o período 1997-2002, incorporaram-se direções como a adoção relativamente
imediata de medidas de treinamento e de empregabilidade para jovens e
desempregados de longo prazo; a necessidade de tornar o mercado mais flexível;
a maior participação de empresários e trabalhadores; o fortalecimento de
creches e serviços de cuidados e a redução das desigualdades entre homens e
mulheres.
Em síntese, a estratégia europeia incorporou muitos traços da via dinamarquesa,
a expressão, em âmbito supranacional, de práticas voltadas a enfrentar os novos
desafios sem abandonar princípios e valores que marcaram a construção dos
Estados de bem-estar social. Após a crise iniciada em 2007/2008, no entanto, a
possibilidade de uma política de emprego europeia foi atropelada pelas
dificuldades imediatas e pela vulnerabilidade de alguns países, cuja situação
dramática implicou a adoção de um programa macroeconômico radical e de medidas
de desregulamentação da economia. Nos países europeus mais desenvolvidos,
muitas direções daflexiseguridade foram conservadas, enquanto outros ajustes
foram adotados para enfrentar os aspectos mais urgentes da crise.
ENFRENTANDO OS DESAFIOS: AS LIÇÕES DA RESPOSTA ESCANDINAVA
A resposta dada pelos países escandinavos mostra que as novas configurações da
economia mundial não levam necessariamente a mudanças em direção a um modelo
liberal. Não obstante os constrangimentos, Suécia e Dinamarca adaptaram os
respectivos modelos sem abrir mão dos princípios igualitários e de
solidariedade inerentes ao Estado de Bem-Estar Social. O objetivo desta seção é
apresentar aspectos das respectivas respostas, destacando fatores que ajudam a
explicar a direção e os resultados.
Entre as mudanças, encontra-se a reforma nos sistemas de previdência. Suécia e
Dinamarca contavam com sistemas universais e generosos de previdência, pouco
dependentes da participação no mercado de trabalho. Estes sistemas passaram a
sofrer pressões em decorrência das mudanças demográficas. Como resposta, ambos
os países ampliaram a idade mínima de aposentadoria e introduziram planos de
contribuição individual, a complementar o programa público universal. Na
Suécia, a reforma preservou um padrão de vida decente para pessoas em idade de
aposentadoria, independente da história de trabalho anterior. Mas pessoas
nascidas após 1954 teriam um esquema de contribuição definida similar a um
sistema privado. A reforma introduziu elementos de equilíbrio fiscal, uma vez
que os benefícios da pensão básica estariam atrelados às contribuições
correntes e, portanto, ao crescimento econômico e aos salários (Steinmo,_2013:
96)19.
Já a Dinamarca optou por um sistema mais plano, com altas taxas de reposição
para os trabalhadores menos qualificados e um fundo suplementar para os
trabalhadores melhor remunerados. Medidas ulteriores estenderam a aposentadoria
por ocupação para grande parte dos trabalhadores, visando complementar o
sistema básico (Mailand,_2011:82). A contribuição suplementar, incidente sobre
trabalhadores e empregadores, é relativamente baixa e não compromete a
competitividade, além de contribuir para o aumento da taxa de poupança (Einhorn
e_Logue,_2010).
As reformas na previdência, assim como a expansão de serviços privados de saúde
e a introdução de práticas ligadas à nova administração pública, vêm sendo
realizadas sem comprometer a ênfase igualitária desse tipo de Welfare State.
Ambos os países têm preservado serviços universais de saúde com inexistência de
“mecanismos de verificação de carência”. As pensões e os serviços de
assistência continuam generosos, contribuindo para as baixas taxas de pobreza
entre os idosos. A taxa de reposição para os desempregados é elevada, há baixa
diferenciação entre os salários e é baixa a desigualdade entre homens e
mulheres. Além disto, as taxas de desemprego de longo prazo e a proporção de
trabalhadores que recebem baixos salários é bem inferior à média europeia
(Becker_e_Kersbergen,_2011).
Tudo isto reflete nos menores índices de desigualdade e pobreza. O índice de
Gini é um terço menor na Suécia e na Dinamarca do que na média de outros países
europeus e 40% inferior ao dos EUA (Einhorn_e_Logue,_2010)20. As taxas de
pobreza são bem inferiores às verificadas em outros países europeus (Becker_e
Kersbergen,_2011:182). Além disto, o cluster escandinavo apresenta as maiores
taxas de mobilidade social: a probabilidade de pessoas nascidas no quintil
inferior ascenderem é três vezes superior na Dinamarca em comparação com os EUA
(Kerstenetzky,_2012:123).
Entre os fatores decisivos para a preservação de Welfare Statesgenerosos
encontram-se os altos níveis de competitividade. Em 2007, Dinamarca e Suécia
encontravam-se nas cinco primeiras posições em índices internacionais de
competitividade (Einhorn_e_Logue,_2010). O ponto, como bem observado por Becker
e_Kersbergen_(2011:187), é que os países nórdicos alcançam altos índices de
competitividade apesar de adotarem várias das práticas criticadas pela teoria
neoclássica, incluindo impostos altos, alta proteção no emprego (exceto
Dinamarca), baixa desigualdade de salários e setor público inchado. Isto se
explica pelos bons resultados em termos de ambiente de negócios e inovação. A
Suécia gasta 4% do PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D), enquanto na
Dinamarca grande parte da inovação se dá no processo do trabalho, favorecida
pela alta qualidade dos trabalhadores. Em indicadores de condições para
inovação, incluindo infraestrutura, esforço ao nível das firmas e resultados em
termos de know how, os dois países estavam entre os primeiros na Europa
(ibidem:190). Na qualidade das instituições de educação, perdiam apenas para os
Estados Unidos.
Outro fator essencial são as políticas igualitárias de gênero e a alta
participação feminina no mercado de trabalho. Desde cedo, Suécia e Dinamarca
vêm promovendo iniciativas voltadas à conciliação entre a família e o trabalho,
incluindo a oferta de creches, generosas licenças-maternidade e paternidade e
um sistema de tributação em que uma família com dois provedores tende a pagar
relativamente menos impostos.
Merece especial ênfase a oferta de serviços sociais de cuidado às crianças,
estando disponível para 50% da população (ibidem:183). A expansão destes
serviços, ao elevar os custos do Welfare State e os impostos, pressiona a
mulher a entrar no mercado de trabalho, ao mesmo tempo que amplia a oferta de
empregos. Deve-se destacar que as creches são de tempo integral, contam com
professores especializados e contribuem para a baixa desigualdade educacional.
São serviços que atraem a classe média/alta e contribuem para legitimar a alta
carga tributária (Weishaupt,_2011).
O resultado são maiores taxas de natalidade e a alta participação feminina no
mercado de trabalho21. Como consequência, a taxa de participação da população
entre 15 e 64 anos teria alcançado 73,9% na Suécia e 75,5% na Dinamarca, 10
pontos percentuais acima da média europeia e 3 pontos acima do Reino Unido e
dos Estados Unidos (Einhorn_e_Logue,_2010:21). Além disto, quando duas pessoas
trabalham, o risco de pobreza das crianças reduz significativamente.
A capacidade de reformar deveu-se à participação de empresários e
trabalhadores. Ambos os países contam com arranjos corporativistas para a
definição e a implementação das políticas, havendo várias instâncias de
negociação entre capital e trabalho (Mailand,_2011). A filiação aos sindicatos
é alta, sendo que 79% dos trabalhadores na Suécia e 74% na Dinamarca estavam
filiados a sindicatos, contra, por exemplo, 10% na França e 25% na Alemanha
(Becker,_2011:23). A representatividade dos sindicatos e das associações
empresariais é essencial para o estilo consensual das reformas. Além disto, os
parceiros sociais (empresários e trabalhadores) são fundamentais para o sucesso
das políticas de emprego e para que aflexiseguridade produza bons resultados.
Como destaca Martin_(2004), a participação dos empresários muito contribui para
o sucesso das políticas de emprego, sendo essencial para a disponibilização de
vagas, para a antecipação das habilidades necessárias, para o desenho dos
programas de treinamento e para a contratação de trabalhadores com deficiência.
Martin (idem) mostra que a participação dos empresários nas políticas ativas é
muito superior na Dinamarca que na Grã-Bretanha (68% a 40%). No caso
escandinavo, os empresários encaram a participação como parte de suas funções,
o que é fruto de longa tradição de corporativismo e do legado de parceria.
A vigência de práticas institucionalizadas de participação foi parte essencial
do processo de reformas. Especialistas foram convidados a realizar estudos
abrangendo tópicos como reestruturação econômica e reformas do sistema de saúde
e da previdência. Os estudos, ao iluminarem os desafios, contribuíram para o
processo de negociação. Destacou-se também o enorme grau de realismo na
condução das reformas. Propostas de isenção e de redução de impostos tendiam a
ser acompanhadas por apresentação de alternativas de financiamento ou de corte
nos gastos (Einhorn_e_Logue,_2010).
O estilo consensual de policy making não implica inexistência de conflitos. Há
disputas árduas por reajuste de salários e outras fontes de conflito.
Negociação não implica falta de conflito, mas disposição para resolvê-los e
atingir algum grau de consenso (Becker_e_Kersbergen,_2011: 190). Nesta direção,
sindicatos e associações mais abrangentes, indicando a preocupação com questões
gerais, tendem a se mostrar mais sensíveis aos ajustes necessários (Olson,
1982; Einhorn_e_Logue,_2010). Destaca-se também o alto grau de capital social.
Na média, um dinamarquês pertence a 3,1 organizações e um sueco a 3,2. O
resultado tende a ser a maior preocupação com as questões gerais da sociedade e
a defesa de certo patamar de direitos para todos os indivíduos.
Os desafios são muitos. O sucesso do modelo deve-se à sua capacidade de
entregar serviços de alta qualidade. Assim, é fundamental que continue a
produzir bons resultados em termos de competitividade e eficiência dos
serviços. É também essencial que os sindicatos continuem fortes, condição para
garantir o equilíbrio com os empresários e preservar os resultados sociais.
Outros desafios podem vir da Corte Europeia de Justiça e de proibições a certas
restrições à mobilidade de capital, medidas que podem afetar a negociação entre
capital e trabalho (Smith,_2011).
Em síntese, destaca-se a grande capacidade desses países negociarem e gerirem
as reformas. Os novos constrangimentos implicaram redução dos benefícios e do
grau dedecommodification. A desigualdade aumentou levemente, com o índice de
Gini passando de 0,221 (em meados dos anos 1990) para 0,232 (em meados dos anos
2000) na Dinamarca, e de 0,211 para 0,234 na Suécia (Becker_e_Kersbergen,_2011:
182). Conforme argumenta Lindgreen (2011:64), as reformas foram muitas e houve,
de fato, redução dos benefícios. Mas a magnitude das mudanças foi pequena, de
forma que soam muito mais como um ajuste do que como um recuo. Smith_(2011:149)
sintetiza muito bem o ponto, argumentando que esses países introduziram
flexibilidade sem abandonar a proteção, tornaram pensões sustentáveis sem
reduzir significativamente a renda dos que as recebem e ajustaram benefícios
sem abandonar a ênfase na igualdade, solidariedade e universalidade. Portanto,
o mais importante a explicar não é o recuo, mas a preservação de tantos traços.
A resposta, como o artigo vem argumentando, relaciona-se ao conjunto de
instituições inerentes a esses países, incluindo a organização do Estado de
Bem-Estar Social, a consolidação de uma cultura nacional favorável à igualdade,
a força dos sindicatos e o papel dos parceiros sociais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O caso dos países escandinavos ilumina a relação entre conjuntura
internacional, constrangimentos econômicos e Welfare State. A conciliação entre
os imperativos do capitalismo e as políticas de solidariedade/distribuição não
foi inviabilizada pelas novas configurações da ordem internacional, pelo menos
em alguns países. O artigo ilumina o papel das instituições que fazem a
mediação entre os constrangimentos econômicos e as políticas do Welfare State.
Os resultados foram favorecidos pelo corporativismo, pelas políticas de emprego
e pelas medidas voltadas a viabilizar a participação da mulher no mercado de
trabalho.Becker_e_Kersbergen_(2011) perguntam se o modelo escandinavo pode ser
emulado por outros países da Europa. Não se trata de copiar as instituições,
mas de desenvolver confiança e um padrão discursivo para alcançar resultados
considerados desejáveis. Na Dinamarca e na Suécia o corporativismo é resultado
de longa tradição e continuidade, mas na Áustria foi construído em algumas
décadas. É difícil, no entanto, imaginá-lo em países com forte tradição
individualista, até porque a viabilização de sociedades igualitárias requer
aumento de impostos e tende a sofrer a oposição dos mais ricos.
Por trás do novo quadro encontram-se as mudanças no mundo do trabalho. Tornou-
se mais difícil atingir o pleno emprego, assim como garantir rendas elevadas
independentemente da participação no mercado de trabalho. Tornou-se necessário
reduzir os custos do emprego e aumentar a flexibilidade do contrato de
trabalho, mas essas medidas foram conciliadas com a proteção ao trabalhador e
com o fortalecimento das políticas de emprego.
Surgiram novos desafios para o Welfare State. O antigo estava muito centrado no
trabalho formal e na proteção à velhice. O novo tem de lidar com o trabalho
precário, com diferentes estruturas familiares e com os riscos de exclusão dos
imigrantes e dos trabalhadores com baixa qualificação. Um grande desafio é
reduzir o risco de pobreza entre os jovens e abrandar as dificuldades na
primeira infância. Outro é ampliar as chances de mobilidade social. Por fim, há
a necessidade de estimular o aumento da fertilidade. A adoção de medidas
visando conciliar trabalho e família tende a ser parte da solução
(Kerstenetzky,_2012:120-121; Esping-Andersen,_2007).
Cada regime tem seus desafios. No regime liberal, a residualização dos serviços
foi forte, acompanhada por desigualdade e deterioração das condições sociais, o
que pode agravar o déficit em termos de legitimidade e coesão social. Já o
regime conservador foi marcado por mudanças nas relações de trabalho e nas
políticas de emprego, indicativo de que a dependência da trajetória não é assim
tão rígida e que novos desafios, práticas e ideias podem contribuir para
reformulações nas estratégias (Weishaupt,_2011). Este regime enfrenta o crítico
desafio de reformular um Welfare State que foi alicerçado em uma divisão do
trabalho entre os gêneros que se modificou profundamente. Enfim, o regime
escandinavo destaca-se pela maior capacidade de conciliar a resposta aos novos
constrangimentos com a preservação de políticas igualitárias e universais.
Enfrentam, naturalmente, significativos desafios, incluindo o imperativo de
continuar oferecendo serviços de qualidade, essenciais para o apoio a umWelfare
State financiado por impostos elevados (Weishaupt,_2011).
A crise iniciada em 2007/2008 trouxe novos desafios e apreensões. Alguns países
europeus compartilharam a bolha imobiliária, enquanto outros sofreram com o
contágio do sistema financeiro. Outros países, como os escandinavos, sofreram
principalmente devido à queda do comércio internacional, que caiu muito mais
abruptamente do que a produção. Na Suécia, em 2009, as exportações caíram 5
pontos percentuais em relação ao PIB e na Dinamarca a queda foi de 8 pontos
percentuais. O resultado foi uma queda do PIB (em termos reais) de 5% na Suécia
e 5,1% na Dinamarca22. A Suécia recuperou-se rapidamente, beneficiando-se da
situação financeira mais sólida e das lições da crise dos anos 1990. A
capacidade de resposta foi amplamente elogiada (Steinmo,_2013:100). Já na
Dinamarca, o PIB recuperou-se levemente em 2010 e 2011 e voltou a cair em 2012
e 2013. A intensidade da crise implicou novas dificuldades em ambos os países,
incluindo novo aumento da desigualdade. É cedo para tirar conclusões, mas as
evidências indicam um padrão de respostas similar ao verificado nas últimas
décadas.
O principal impacto da crise vem sendo enfrentado pelos países do sul da Europa
e pela Irlanda. A situação gravíssima levou a políticas de austeridade, cortes
nos benefícios e flexibilização do mercado de trabalho. Hermann_(2014) fala de
convergência destes países na direção de um modelo mais liberal, mas não faz
menção aos países europeus mais desenvolvidos, como Alemanha, França, Holanda e
os países escandinavos. Estes, com maior capacidade de inovação e competição
por qualidade, têm maiores graus de liberdade para calibrar os respectivos
modelos.
O capitalismo, apesar do seu potencial em termos de expansão das condições
materiais, tem suas contradições e fragilidades. A solidificação dos Estados de
bem-estar social após a Segunda Guerra Mundial foi uma resposta a essas
dificuldades, visando garantir condições básicas de vida para todos. A
possibilidade de preservação do arranjo, no entanto, depende do bom desempenho
econômico e está vulnerável às vicissitudes do capitalismo. Neste sentido,
respostas que permitam conciliar bom desempenho econômico e alta proteção
social devem ser encaradas como possível fonte de lições.
Como argumentado, os constrangimentos econômicos não implicam necessariamente a
adoção de estratégias liberais. Quando o fazem, são parte de um arranjo
político que beneficia certos interesses e produz desigualdade. Encontramos, em
alguns países, configurações institucionais que se caracterizam pela
valorização da participação e do diálogo. Consideram que a economia está
inserida em um conjunto mais amplo de instituições e valores, entre eles os de
direitos sociais e cidadania. Estas experiências mostram que há alternativas a
um capitalismo mais desregulado e escravo das flutuações do mercado. Essas
alternativas, mesmo difíceis de serem institucionalizadas, têm implicações para
os países em desenvolvimento. Indicam que resultados promissores podem ser
alcançados por sociedades que valorizem o diálogo e defendam um patamar básico
de direitos e serviços. Mesmo estando muito distante da realidade desses
países, apontam um rumo possível, com relevantes implicações políticas.