Biopolítica e Desenvolvimento? Foucault e Agamben sobre Estado, Governo e
Violência
INTRODUÇÃO
Há cerca de três décadas, os trabalhos de Foucault despertam interesse para os
estudos sobre o fenômeno do desenvolvimento e seus dilemas nos países
considerados "Terceiro Mundo". É provável que o artigo de Escobar_(1984) tenha
sido o primeiro a buscar ler a realidade do desenvolvimento/subdesenvolvimento
pela ótica do autor francês, seis anos após a publicação de Edward Said em que,
de modo semelhante, a leitura de Foucault inspirou o desvelamento do olhar
orientalista como discursos de saber e poder.
Nesse espaço epistêmico, logo se sucederam muitas publicações acerca da
temática do desenvolvimento, como Ferguson_(1990), Crush_(1995), o mais
conhecido livro de Escobar_(1995), entre outros. Estes escritos situam-se num
campo crítico em que o subdesenvolvimento é resultado de construções
discursivas, portanto, as políticas de desenvolvimento não são analisadas em
suas falhas ou contradições que precisam de ajustes e melhorias; projetos e
estudos não apenas examinam e revelam realidades, eles produzem mundos,
constituem problemas e diagnósticos a serem tornados legítimos, fomentam a
formação de especialistas, agências e organizações e movimentam recursos que
acabam redundando em poucos resultados realmente benéficos (Esteva,
1992;Hobart,_1993; Rist,_2008). Igualmente importantes nesse debate, avaliações
críticas não faltaram como respostas aos estudos de inspiração foucaultiana
(para mencionar uns poucos, Corbridge,_2007; Storey,_2000; Ziai,_2007).
Dois elementos novos passaram a configurar essa teia de discussões e disputas
teórico-epistemológicas. De um lado, a publicação dos cursos de Foucault no
Collège de France, material que não estava integralmente disponível aos
pesquisadores nos anos 1980 e 1990. Ainda que o seu acesso tenha ocorrido em
publicações esparsas em revistas (tais como os que saíram na AutAut,na Critical
Inquiryeemoutras), coletâneas e análises (Rabinow_e_Dreyfuss,_1982) e em aulas
ou palestras de Foucault fora da França, não restam dúvidas de que as
compilações com quase integralidade dos cursos têm gerado algumas novidades
interpretativas, como por exemplo, sobre os olhares do pensador francês acerca
da importância do Estado e do pensamento econômico liberal, a segurança e o
planejamento, o social como um campo de intervenções e os processos de
subjetivação, ética e verdade. Entende-se que este é um terreno ainda fértil
com consequências para a compreensão da "era do desenvolvimento" inaugurada,
conforme Esteva_(1992) e Rist_(2008), no pós-1945. De outro lado,
interpretações sobre o par desenvolvimento/subdesenvolvimento se renovam com as
recentes publicações de Giorgio Agamben, as quais abalam nossas usuais
compreensões sobre o que constitui a política (pelo menos nas sociedades
ocidentais) e sob quais prismas podemos entender intervenções da máquina
estatal no corpo social, trabalhos que percorrem um caminho analítico amparado
em conceitos tais como violência, exceção e soberania.
Sob que condições pretende-se discutir o tema do desenvolvimento neste
panorama? Não parecem existir questionamentos sobre a relevância social e
política que o assunto continua a alimentar (Kerstenetzky,_2011;Diniz,_2011).
Como fato no mínimo curioso, enquanto setores da academia sugerem celebrar o
fim da equação entre desenvolvimento e crescimento econômico, a sociedade civil
e parte dos atores inseridos diretamente na máquina do Estado revigoram este
"casamento", particularmente sensíveis ao espantoso crescimento econômico
chinês dos últimos anos e à necessidade de superação da crise econômica na
Europa e nos EUA via incremento de empregos e do consumo. Especialmente para o
Brasil, a retomada desta confiança pode reconfigurar a posição do país no
cenário internacional, visto agora como financiador de programas e projetos
dentro e fora das suas fronteiras, a ver pelo festejado Programa de Aceleração
do Crescimento e pela internacionalização de entidades de financiamento ou
pesquisa fora do Brasil.
Com todos os apelos não é de se estranhar que inovações em práticas e políticas
acabem recebendo rótulos como neo ou "novo-desenvolvimentismo", que pululam em
periódicos e livros recentes, às vezes discutíveis se são novidades ou
anacronismo, como sustentou Werneck_Vianna_(2012). Estabelecer uma continuidade
entre o sonho desenvolvimentista das décadas que sucederam o pós-guerra com
seus planos grandiosos de crescimento econômico e os novos arranjos do
desenvolvimento parece tarefa menos factível. Mais ainda: não soa estranho
aceitar uma convergência entre violência e desenvolvimento, quando tudo aquilo
que deveria estar sob a "guarda" do último termo é a criação de melhores
condições de vida, expansão de liberdades, garantia de direitos econômicos e
acesso a políticas públicas?
Este artigo se coloca o desafio de mostrar estas relações de afinidade sem que
para tal seja preciso abdicar de todos os ganhos sociais que apenas alguns
testemunharam ao longo dos anos; mais que isto, não significa rejeitar o
desenvolvimentoapriorinem supor que, por motivos ecológicos (que já seriam
razoáveis), deveríamos aceitar a desigualdade de distribuição de "recursos"
entre países do Sul e do Norte. Então, se é assim, para que prosseguir nesta
linha de investigação já que as pesquisas marxistas, dependentistas e
estruturalistas mostraram as contradições inerentes a esses processos?
Algumas pistas indicam um problema adicional que, poder-se-ia dizer, está
associado a uma vontade irrefreável de desenvolvimento, a meio caminho da
mística e do desejo inacessível, e isto tem aparecido em monografias, tais como
Taussig_(1992) e De_Vries_(2007). Estas surgem num cenário posterior às
publicações de cunho pós-estruturalista (Escobar,_1995; Ferguson,_1990) ou em
torno do programa de decrescimento (Latouche,_2009), as quais procuraram
mostrar os efeitos deletérios do desenvolvimento e sua racionalidade
instrumental. No entanto, o que chama a atenção é que o desejo aparece em
alguns casos simultaneamente (e surpreendentemente) conjugado à repulsa ou ao
medo, geralmente em relação à figura estatal como ente que "leva" programas e
projetos aos recônditos proliferando vontades crescentes ou gerando
ambiguidades.
Assim foi que, em uma recente pesquisa de campo, tive que lidar com esta
situação. Depois de já estar realizando a investigação durante alguns meses
entre pequenos agricultores no oeste de Santa Catarina, e com um conjunto de
dados bastante razoáveis para a análise, percebi haver uma negligência do
trabalho que precisava ser corrigida: o Estado e sua participação nos processos
de desenvolvimento. O foco da pesquisa concentrava-se na agricultura ecológica
e, por razões que explico a seguir, era muito pouco estimulante buscar entender
as relações dos agricultores com o Estado durante o período inicial da
pesquisa. Ao verificar esta lacuna compreendi o motivo: em muitos momentos até
então convividos com os interlocutores em campo, a imagem/representação acerca
do Estado por parte deles era cambiante e ambivalente. Este processo parecia
deixar poucos subsídios para empreender um exame mais minucioso e desviava a
atenção para outros aspectos.
Em determinados momentos, isto assumiu a condição de impeditivo, fazendo com
que a incapacidade de um diagnóstico preciso se transformasse em negação da
questão. A ambivalência e a instabilidade dos discursos pareciam mistificar a
situação. De que se trata tal ambivalência? Em diferentes ocasiões,
agricultores ecológicos demonstravam expressiva atração pelo Estado; em outras,
e alternando sem problemas, sublinhavam repulsa com maior ou menor intensidade.
Entre uma e outra, situações em que a dificuldade de entender seus
posicionamentos gerava mais problemas.
Os dilemas dos processos e das políticas de desenvolvimento frente a essas
situações são, portanto, o objeto deste artigo. Além desta relação entre desejo
e repulsa, medo e atração, buscar-se-á precisar sob que condições torna-se
possível estabelecer conexões entre desenvolvimento e violência. Os dados
apresentados junto às reflexões são oriundos de pesquisa de campo realizada, em
sua maior parte, entre 2007 e 2009 no oeste do estado de Santa Catarina entre
distintos atores sociais envolvidos em programas e projetos de desenvolvimento,
especialmente para a promoção da agricultura ecológica. Do ponto de vista
teórico, a intenção é realizar uma incursão num terreno ainda pouco explorado.
Propõe-se uma interpretação sobre o nexoviolência/desenvolvimentona interseção
entredesejo/repulsae, com esta finalidade, acessar um locuscompreensivo
singular no vértice formado por Michel Foucault e Giorgio Agamben do triângulo
que inclui ainda Walter Benjamin.
Conhecido pela publicação da série Homo Sacer,Agamben tem polemizado os estudos
sobre biopolítica ao radicalizar os argumentos em favor de uma história mais
longa da noção de política sobre a vida (2002). A proposição corrói o argumento
(forte) do pensamento europeu ocidental que se imagina herdeiro direto do
exercício da deliberação e da democracia da Grécia antiga. Para o autor
italiano, e este artigo procurará mostrar sucintamente os caminhos
metodológicos de suas conclusões, a política ocidental vive a antiga - porém
crescente - inscrição da vida (nua) na ordem jurídico-política. Para tanto,
será preciso passar por Foucault e, após, examinar as conexões entre soberania
e o modelo gerencial-econômico de condução da sociedade e a administração da
vida. Interessa sugerir que esta possibilidade recoloca perguntas em torno de
programas de ação/intervenção sobre a sociedade para indagar se desenvolvimento
é expansão do bem-estar ou, inversamente, um conjunto heterogêneo de
intervenções de impulso modernizante - geralmente delocusestatal, porém não
exclusivamente - sobre a vida das pessoas e, por efeito, segue-se um
ordenamento de poder/violência juridicamente aceito (mesmo que a intenção seja
inclusiva).
O artigo está dividido em cinco seções após esta Introdução. Inicia-se
abordando o pensamento de Foucault e os problemas em torno de segurança,
normalização, biopoder e governo. Aparte seguinte examina os escritos de
Agamben sobre Estado, violência, biopolítica e banimento. Passa-se, então, ao
estudo de processos sociais em que a derivação da arquitetura conceitual entre
Foucault-Agamben forma um plano de análise. Ao final, considerações são
tecidas.
COLONIZAÇÃO OU NORMALIZAÇÃO: DA DISCIPLINA AO "GOVERNO COMO NÃO GOVERNO"
Para entender a disputa sobreoqueconsisteoprojetode"desenvolver os
subdesenvolvidos", pode-se partir do conflito de interpretações que rondam a
obra de Foucault. Um dos motes polêmicos é a possível equação entre colonização
e desenvolvimento, trabalhada especialmente por Escobar_(1995) quando afirma
que a realidade dos países do hemisfério Sul no pós-Segunda Guerra tem sido
colonizada por meio do desenvolvimento. No que consiste tal problema para os
críticos deste argumento? A própria obra de Foucault é lida como meio para
destituir esta afirmação, pois o problema reside em diferenciar minuciosamente
normalização de colonização. Nesta linha, teriam os críticos radicais do
desenvolvimento abusado da metáfora da colonização dos povos do "Terceiro
Mundo" pelodesenvolvimento? Brigg_(2002) entende que equacionar colonização e
desenvolvimento é recusar ver que o desenvolvimento constitui sua força por seu
modo sutil de "poder positivo" e preocupado com um tipo de administração que
visa superar o subdesenvolvimento e a pobreza (Brigg,_2002; Foucault, 2008a).
Normalização não opera pela supressão dos sujeitos, ao contrário, é pela
inclusão administrada que os integra aos regimes de poder (Brigg,_2002:428).
Retornarei a isto.
As interpretações de Escobar sobre o assunto são conhecidas e não serão
esmiuçadas; elas remetem a uma perspectiva em que o desenvolvimento
infantilizou os povos do Terceiro Mundo, organizou um dispositivo orientado à
promoção da mudança social por meio de intervenções organizadas por entidades e
profissionais e criou efeitos instrumentais ao permitir que o desenvolvimento
se tornasse uma espécie de teoria da salvação secular (Escobar, 1995; Ribeiro,
2008).
Recuperemos por instantes algumas passagens dos cursos publicados de Foucault1.
Observando-se com acuidade, existem importantes rupturas históricas e que
constituem desafios a pensar a continuidade linear entre normalização e
colonização. É possível que o ponto-chave seja o funcionamento e o mecanismo do
poder. Três diferentes manifestações do poder são recuperadas por Foucault: o
poder soberano, o disciplinar e o biopoder. O soberano é amplamente
fundamentado no poder absoluto e no uso do terror. Então, o autor adverte que a
partir dos séculos XVII e XVIII surge uma nova mecânica de poder diferente
daquela colocada em ação pelo soberano. É um poder disciplinar que age sobre
corpos, utiliza-se de técnicas de vigilância e procura extrair dos corpos
humanos o tempo e o trabalho. Conforme Foucault, esse poder disciplinar está
encaixado numa trama de coerções materiais e torna-se um vetor de propulsão do
capitalismo na maneira como essa rede de relações orientou a disciplina para o
trabalho (e para a formação do trabalhador sadio). As técnicas guiam-se por
coerções sobre o corpo individual em que se impõe um conjunto de disciplinas:
distribuição espacial, separação, alinhamento, serialização e vigilância, tanto
no ambiente de trabalho como na escola (Foucault, 1999:288 e ss.). Organizar e
visibilizar criavam condições para a manutenção das hierarquias e para a
consecução de inspeção e relatórios.
Nos séculos XVIII e XIX outra tecnologia começa a se apresentar, não exatamente
disciplinar. Mas Foucault ressalta: esta não substitui a anterior, ela a
integra, modificando-a parcialmente e, particularmente, aproveita-se da
disciplina prévia. Esta nova tecnologia se dirige não mais ao corpo, mas ao ser
humano vivo, homem-espécie. No homem-espécie, aparece o problema da massa
populacional a ser governada e normalizada. Estamos em face do biopoder.
Portanto, nessa relação do ser humano e sua natureza vemos a biopolítica
propriamente dita, e segue o autor afirmando numa conhecida passagem que
"depois da anátomo-política do corpo humano, instaurada no decorrer do século
XVIII, vemos aparecer, no fim do mesmo século, algo que [...] eu chamaria de
uma biopolítica da espécie humana" (1999:289). Seus procedimentos se amparam
tanto em aspectos demográficos (controle de natalidade, envelhecimento) como
médicos (saúde pública, anomalias e higiene) com a conexão a elementos
econômico-sociais, tais como seguridade, assistência, segurança, plane amento
agrícola, cuidado do bem-estar, policiamento das ruas e condições para
circulação de mercadorias. Retornarei a estas características mais adiante;
neste momento, vale destacar como a noção de biopoder aparece no curso de 1975/
1976 (também no volume A Vontade de Saber da História da Sexualidade) e é
retomada em 1977/1978 na primeira exposição do curso.
Biopoder é
o conjunto de mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana,
constitui suas características biológicas fundamentais vai poder
entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral
de poder. Em outras palavras, como [... ] as sociedades ocidentais
modernas, a partir do século XVIII, voltaram a levar em conta o fato
biológico fundamental que o ser humano constitui na espécie humana.
(Foucault, 2008a:3)
Seria o biopoder sinal de menos poder? Não, apenas um tipo diferente. A
distinção traçada entre o poder soberano e o biopoder sugere que, se o soberano
atuava pelo código "fazer morrer, deixar viver" como modo de controle sobre
vida e morte, o biopoder inverte os termos para "fazer viver, deixar morrer"
(ver Agamben,_2002). Normalizar é também incluir - por meio de um poder
positivo que procura preservar a vida ao custo de uma população
governamentalizada. E será no curso dos anos 1977/1978, redirecionando a
reflexão para governo e população, aquele em que Foucault define
governamentalidade como
o conjunto constituído pelas instituições, os procedimentos, análises
e reflexões, os cálculos e as táticas que permitem exercer essa forma
bem específica, embora muito complexa, de poder que tem por alvo
principal a população, por principal forma de saber a economia
política e por instrumento técnico essencial os dispositivos de
segurança (Foucault, 2008a:143).
Essa prática de governo teria nascido da articulação entre a pastoral cristã, a
técnica diplomático-militar e uma noção de polícia da época. No curso do ano
seguinte, O Nascimento da Biopolítica, o autor reconceitua governamentalidade
tornando a definição mais sucinta (e mais ampla) ao afirmar que ela significa
basicamente o "modo de conduzir as condutas" das pessoas, alicerçando-a em uma
análise do poder em geral, embora colocando o Estado neste cruzamento ao
deslocar a discussão de poder para governo e suas técnicas (Foucault, 2008a,
2008b; Senellart,_2008). Uma peça faltante até aqui é a que diz respeito ao
espaço de intervenção que possibilitou o exercício de uma biopolítica. Tal qual
havia declarado que o ser humano não existia até poucos séculos do modo como o
conhecemos hoje (Foucault,_2002), agora mostra algo paralelo à sociedade e à
economia. Em algum momento, já no que chamamos de modernidade, não é mais o
espaço (no sentido de controle territorial) o vital para a dominação soberana,
mas a população e as coisas. O poder não será medido pelo tamanho do território
de um país, e sim pela força de trabalho e pela capacidade de produzir objetos
valiosos. Assim surge a ideia de uma economia possível de ser pensada ou
planejada dentro das fronteiras do Estado, retomando a velha noção de economia,
mas enfatizando a administração de coisas (bens) e pessoas, que devem ser
disciplinadas pelos saberes médicos, escolares e pelo trabalho.
Se nesse eixo de coordenadas encontramos a economia, é num plano similar que o
social emerge também como campo de problemas e relações, especialmente nas
obras de pensadores clássicos que ajudaram a modelar nosso mundo.
A sociedade como uma naturalidade específica à existência em comum
dos homens, é isso que os economistas, no fundo, estão fazendo
emergir como domínio, como campo de objetos, como domínio possível de
análise, como domínio de saber e de intervenção. A sociedade como
campo específico de naturalidade própria do homem [...]. (Foucault,
2008a:470)
Não parecem existir dúvidas de que Foucault tem como projeto mostrar que essa
suposta "naturalidade" não tem nada de natural e a noção de polícia do século
XVII demonstra um elo fundamental. Os Estados europeus ocidentais testemunhavam
o crescimento de sua força e o sentido de uma sociedade regulada por premissas
de boa ordem setor na mais comum, em um termo, no escopo da polícia. Porém,
Foucault sustenta que essa noção de polícia é diferente da que hoje entendemos,
ela é mais vasta e possuía uma conotação positiva. Era tarefa da polícia criar
atividades para a população e zelar pelo bem-estar geral, conduzindo os Estados
e as sociedades a chegarem num patamar de perfeição. O autor mostra um conjunto
amplo de características e tarefas a cargo dessa instituição que incluía
policiamento, entretanto articulavam todo o tipo de regulação e disciplinamento
de condutas. Num momento em que parece coincidir com a emergência do biopoder,
esse antigo projeto de polícia se decompõe em quatro elementos: prática
econômica, gestão da população, direito e respeito às liberdades e polícia (no
sentido aproximado ao atual) (Foucault, 2008a, 2008b). Parece estar a um passo
a articulação entre polícia epolicy.
O que parece estar no horizonte do autor é uma articulação entre as noções de
poder, segurança e risco, haja vista o tipo de configuração social que emergia
na Europa depois do século XVII e que estará orientada para o policiamento e a
administração da sociedade por mecanismos de poder descentralizados e,
eventualmente, dispersos. Ainda assim, é importante observar que Foucault
percorre muitas aulas falando do poder do Estado, inclusive mostrando em
diferentes contextos nacionais a organização de uma Ciência do Estado2. No
regime anterior a disciplina regulamenta tudo, nada a escapa. Já o modelo da
segurança, o preceito se transmuta em deixar fazer. Começa a emergir um
pensamento que irá sustentar que a realidade tem um desenvolvimento próprio,
projeto típico do liberalismo, em que as coisas precisam "andar" sem
disciplinamento excessivo. Essa condição efetua uma mudança singela, porém
importante, para a qual não se trata mais de fazer coisas, pessoas e relações
funcionarem por meio de obrigações disciplinares. Já não estaria em curso uma
mera relação de obediência à vontade superior (do soberano ou à disciplina),
mas fazer os "elementos da realidade funcionarem uns em relação aos outros".
Segue dizendo que os processos devem ser físicos, ou seja, "naturais, elementos
da realidade" (Foucault, 2008a:86).
Acerca do "funcionamento natural do social", o andamento da exposição indica
que será somente no último curso examinado aqui que Foucault mostrará as
relações entre governar e laissez-faire.Nestemomento, o autor está interessado
em traçar genealogias do pensamento econômico-liberal e, particularmente, em
articular premissas liberais e neoliberais, caras ao nosso tempo. Neste terreno
surge uma importante luz sobre "não governo" como forma de governo. No que
consiste? Na mudança em direção à limitação da arte de governar que alicerça
uma espécie de razão governamental moderna (Foucault, 2008b:14). Para os
liberais, o problema do poder não é o abuso da soberania, maso excesso de
governo. Não há espaço para demonstrar o uso abrangente do autor de dados
históricos e obras do período de formação do liberalismo e suas transformações,
mas cabem algumas importantes observações sobre mercado. Essa categoria basilar
aos poucos adquirirá centralidade como palco da ação humana. Operando
modificações no regime de saber-poder, o mercado aparecerá, na ótica dos
economistas liberais, como um espaço de formação da verdade(ibidem:44).A
enunciação de verdade corresponderia ao intrínseco da interação humana,
portanto, o mercado como palco naturalizado da ação colocar-se-á como limitação
ao governo toda vez que este ensaiar intervenções indesejadas na ordem das
coisas e dos interesses. O bom governo torna-se aquele que pouco governa e
somente será compreendido por nós sob a condição de que esta arte é intencional
e não diz respeito a alguma natureza humana de fato, apesar dos anseios dos
liberais, afirma Foucault. Governar, para estes, é deixar os interesses se
manifestarem; e o mercado, através das trocas, determinar o valor das coisas.
É sob este prisma que o liberalismo será definido por Foucault com base em três
condições: " eridição do mercado, limitação pelo cálculo da utilidade
governamental e, agora, posição da Europa como região de desenvolvimento
econômico ilimitado em relação a um mercado mundial" (ibidem:83).
Justamente no âmbito de uma (bio)política inclusiva e que quer preservar a vida
que a máquina do desenvolvimento pode agir enquanto dispositivo de atração e os
argumentos liberais têm uma sutil participação nisto. Se a perspectiva do poder
soberano colonial se ampara, como mostram Mignolo_(1995) e Quijano_(2000), em
torno da diferença colonial irredutível, o desenvolvimento é como um aparato de
ligação em que se pode vislumbrar a superação das condições (subdesenvolvidas),
assim uma forma de narrativa e prática que permitirá o sonho do desenvolvimento
se tornar acessível aos povos do mundo. Provavelmente, e este mecanismo é
sintomático, o sonho estará para todos, e não sua realização. Como bem mostrou
De_Vries_(2007), a máquina do desenvolvimento coloca em movimento pulsões de
desejo e ela só pode se tornar factível de sonho tendo em vista a "possível" e
almejada realização. Sob este ponto de vista, o debate sobre colonização e
normalização volta a se apresentar. Brigg argumenta que "o desenvolvimento
opera através da mobilização dos interesses e aspirações dos sujeitos e nações
do Terceiro Mundo, em contraste com a modalidade [...] do poder colonial"
(2002:424)3. Embora o biopoder seja uma forma diferente, ele não parece
representar a dissolução dos mecanismos de sujeição. Operar pela aspiração e
pelo desejo pode ser conveniente, normaliza-se ao distribuir e incluir, porém
atualiza uma colonização não mais pelo terror, e sim pelo fechamento a
possibilidades que estejam além do desenvolvimento.
Curiosamente, no âmbito mesmo das políticas intervencionistas do
desenvolvimento, encontramos elementos que se assemelham a condutas liberais.
Foucault (2008a:391) nos adverte que, quando Estados ou príncipes não buscarem
mais se espelhar em impérios, tal como nos registros do passado (império
macedônio ou romano e mesmo no império espanhol, mais recente), é a
concorrência econômica que valerá como luta (no sentido de disputa no plano
internacional) e como regulador de conflito, já que surgem os pactos pela paz e
a noção de balança de poder. Não é sem razão que as trocas econômicas e os
tratados científicos procurarão demonstrar os ganhos nas teorias das vantagens
comparativas. No curso de 1978/1979, a distinção entre pensamento liberal e
neoliberal apresenta uma importante assertiva para tal problema: se entre os
liberais o mercado se apresenta como espaço de troca, entre os neoliberais ele
se coloca como lugar de concorrência, então a ideia geral de equivalência é
substituída pela de desigualdade (eventual resultado da competição, embora com
igualdade formal). Mais que críticas ao eventual excesso de governo, no
neoliberalismo o mercado é que se torna modelo de conduta, inclusive para
gestão do Estado, mesmo que o último ponto de distinção pareça contradizer: não
se trata de um mercado autorregulado puramente, o neoliberalismo do século XX
aposta no constante monitoramento da economia e na intervenção no socialde modo
a preservar a dinâmica de mercado (Foucault, 2008b).
ESTADO DE EXCEÇÃO, BANIMENTO E BIOPODER: A VIDA NUA ADMINISTRADA
Comecemos por um cenário conceitual em Agamben razoavelmente distinto do
traçado por Foucault na expectativa de encontrarmos ligações aos poucos. A
seguinte situação paradigmática é ilustrativa. Relacionando exceção, Estado e
poder de intervenção na economia, Agamben (2004:37) recupera um discurso de
Roosevelt na época de grande crise econômica americana: "Pedirei ao Congresso
um único instrumento que me resta para enfrentar a crise: amplos poderes
executivos [...], poderes tão amplos quanto os que me seriam atribuídos se
fôssemos invadidos por um inimigo externo". Argumento elaborado em poucas
linhas, para Agamben há um paralelismo no século XX entre a emergência militar
e a econômica.
Embora Agamben não afirme francamente, este tipo de intervenção econômica seria
paradigmática do modelo de condução política contemporânea. Aos poucos, espero
tornar claro ao leitor qual a pertinência disto para a temática do
desenvolvimento, contudo alguns caminhos intermediários necessitam explanação.
O ponto central está em afirmar que o estado de exceção, tema ao qual consagra
um livro, se desloca no mundo moderno de um artifício excepcional para casos
urgentes em direção a uma "técnica de governo" (Agamben, 2004:13). O autor
discorre dezenas de páginas traçando suas genealogias, as instituições da qual
deriva na Roma antiga, passando por diferentes termos empregados e teorizados
(estado de sítio e outros).
Paralelamente, um dos motes analíticos é orientar-se no debate travado entre
Walter Benjamin e Carl Schmitt sobre soberania e exceção nos anos 1920-1930.
Aparece em seus esforços mostrar que o estado de exceção não é uma zona fora do
estado de direito, mas, no limiardela e da qual ela se nutre, uma espécie de
zona de anomia. Noentanto,eleparece essencial à ordem jurídica, no sentido
estratégico, tal como Roosevelt acima apelava para poderes extraordinários.
Agamben afirma que "é a essa indecidibilidade e a esse não lugar que responde a
ideia de uma força de lei" e segue: "É como se a suspensão da lei liberasse uma
força ou um elemento místico, uma espécie de mana jurídico [...] de que tanto o
poder quanto seus adversários, tanto o poder constituído quanto o poder
constituinte tentam apropriar-se" (2004:79).
Grifei a palavra limiar anteriormente para demarcar um termo caro ao autor.
Qual a relação entre exceção, soberania e Estado? Esta parece ser uma
articulação que reverbera no assunto desenvolvimento, sobretudo quando se trata
de examinar o papel do Estado. Tudo indica que a política não emerge como
locusde deliberação e democracia na história ocidental, nem sequer é (na
realidade) seu modelo. Antes, a política para Agamben está vinculada ao
controle sobre a vida e ao limiar da ordem jurídico-política que a soberania
desenha (2002). Num dos livros que inaugura este problema, o autor sugere que
sua problemática consiste em traçar um cruzamento entre o modelo jurídico-
institucional da política com o modelo biopolítico, já que a implicação da vida
nua (a mera vida) viria a constituir o núcleo de origem do poder soberano.
Desta maneira, tal como Foucault apresenta - embora para este o fenômeno seria
relativamente recente -, o poder sobre a vida, tomando-a eventualmente como uma
vida sem qualificação como pura vida biológica, é o atrator sobre o qual o
poder será exercido. Sob este prisma Povinelli_(2012) afirma que para Agamben o
poder, sempre exercido sobre o corpo, está no limiar de tratar o humano como
vida nua e vida qualificada - este é o exercício soberano de poder, uma decisão
que a afeta com a possibilidade de morte (também em Sylvester,_2006; Fleury,
2013)4.
Ruiz nos apresenta mais argumentos para estabelecer elos entre o tema da
exceção e o poder soberano sobre a vida como problema fundamental da política.
Nos estados democráticos modernos, afirma Ruiz, o soberano é também aquele que
pode decretar quais populações são perigosas para sociedade como um todo e
afirma que "a vida humana é capturada dentro da ordem através da figura da
exceção. Isso significa que [...] a vida humana existe dentro do direito, mas
sempre com a potencial ameaça de ser excluída do direito" (2012:05).
Este panorama contradiz e se afasta dos argumentos de Foucault sobre biopoder e
sua armadura de dominação que preserva a vida? Aparentemente sim, porém no
núcleo dos detalhes há ressonâncias. Um ponto de expressivo contato encontra-se
na importância da lei para a ordem e no campo da soberania. Foucault (1999)
mostra que para a soberania o problema do direito no mundo ocidental está em
resolver a questão da dominação, no sentido de dissolver ou mascarar uma
enunciação violenta para os direitos legítimos tendo como contrapartida a
obediência como obrigação legal. Mais adiante, o autor sustenta que "a lei não
é pacificação, pois, sob a lei, a guerra continua a fazer estragos no
interiordetodososmecanismosdepoder,mesmoosmaisregulares" (1999:59). Ao
compararmos esta leitura aos escritos de Agamben, percebemos o ponto de união
possível no famoso ensaio de Benjamin_(1986), primeiramente traduzido no Brasil
com o título duplicado de "Crítica da Violência. Crítica do Poder" (e que uma
versão mais recente da tradução opta somente pelo termo violência), embora
Foucault não faça referências a ele. Agamben sinaliza que nossos esquemas
jurídicos justificam a lei como superação da violência, mas de maneira oculta
ela mesma se encontra justificada nos dispositivos legais. Claramente inspirado
no ensaio de Benjamin, a lei aparece como criação mítica e preservação dos
códigos jurídicos (Agamben, 2004). Para Foucault_(1999:197), diferente do que o
direito e a filosofia buscaram ensinar, a verdade e o logosnão iniciam no
momento em que a violência
cessa.Porisso,arecuperaçãodoensaiobenjaminianocujoobjetivoé garantir a
possibilidade de uma violência fora do direito, que romperia com o círculo ao
destruir a interdependência entre a violência que funda e a que conserva o
direito.
Parece-me que Agamben invoca as categorias de estado de exceção e da violência
não para pensar uma continuidade linear e sem rupturas entre o poder soberano-
territorial e as táticas modernas de governo dos vivos. Na realidade, entre os
livros Estado de Exceçãoe O Reino e a Glóriauma mudança de ênfase é percebida,
pendendo no segundo para os atributos do ato de governar, da aclamação política
e da teologia econômica. Em que consiste tal deslocamento? A partir de um
momento no Ocidente houve uma inflexão, de origem cristã e bastante antiga,
para um modo de conceber a política calcado nas noções de economia, gestão e
governo. Esta se orienta para administrar as coisas do mundo e os humanos e tem
como modelo a oikonomia,a "gestão/
administraçãodacasa"quenomundogregoantigoeraummodelode gestão doméstico5. Este
modelo na vida grega era privado e não democrático, diferente da vida pública.
Neste caso, Foucault (2008a:127) está muito próximo do argumento ao afirmar que
governar é trazer o modelo da economia (administração doméstica) para o mundo
político. Nos cursos de Foucault, no fim dos anos 1970, há clara propensão a
refletir sobre a noção de governo com base no modelo da gestão da população.
Agamben_(2011) relembra, ao comentar os escritos de Foucault, que um atributo
crucial da governamentalidade é sua vinculação à pastoral cristã e a expressão
omnes et singulatimem que aeconomiadas almas se atualiza na forma de governo
gerencial de todos e de cada um. Governar "todos e cada um", função do pastor,
parece operar bem o que Foucault procurava associar entre a disciplina do corpo
individual e o governo das massas, para os quais a máquina governamental em
movimento, execução e administração se torna capital.
Toda esta inflexão para a noção de governo inspirada na categoria
oikonomiaaponta novamente para o sentimento de que no mundo moderno ocorreria
menos poder, entendido como menos violência. Ocorre que gerenciar não pode
acontecer sem que dispositivosestejam operando, no sentido de dispor e
organizar (problemática central para programas e projetos de desenvolvimento).
Sob este prisma, vejamos o que mais Foucault assinala sobre o polêmico problema
da normalização. Entre lei e violência, o argumento torna-se mais nuançado e,
retornando à biopolítica, nos deparamos com as passagens em que o autor recorre
à convivência histórica entre disciplina e biopoder. Aqui a tensão aparece
entre a lei e a norma; Foucault utiliza exemplos das cidades operárias em que a
disciplina sobre os corpos individuais se combina com controles médico-
biológicos da população e da sexualidade e a norma opera como articulador. Aum
só tempo, a norma age sobre o corpo individual e regulamenta a população, e "a
sociedade de normalização é a sociedade em que se cruzam [...] a norma da
disciplina e a norma da regulamentação" (Foucault, 1999:302). Portanto, caberia
indagar se a normalização estaria de fato tão distante dos atributos de
colonização e violência e, paralelamente, refletir quais atributos deste modelo
de poder/governo são atualizados em todas as iniciativas que desejam
desenvolver uma populaçãopor meio de ações administradas e controladas. Uma
interpretação de Sordi para o problema teológico da governamentalidade em
Agamben pode seresclarecedora:"Se a governamentalidade é uma 'arte de
administrar pessoas e coisas', poderíamos argumentar que sua assinatura
teológica também a faz ser uma arte de administrar pessoas e coisas de acordo
com um projeto, de acordo com um fim" (2013:150).
Estaria a noção de governo gerencial mais para o âmbito da intervenção, da
regulação administrativa da vida social (e o desenvolvimento como melhorar as
coisas, fazer as relações entre pessoas e coisas funcionarem) e, portanto,
teria alguma relação com o problema não democrático do estado de exceção? Ora,
neste ponto Agamben auxilia a elucidar ao propor que exceção se torna
claramente técnica de governo. Esta tecnologia é utilizada para assuntos
considerados capitais, a de pender dos contextos, e menos como medida de
urgência, assim sempre que a ordem é ameaçada e planos de governo são travados.
Deparamo-nos num livro de Agamben com a figura conceitual que ilumina a
discussão: obando. Termo germânico que designa tanto a exclusão de uma
comunidade como o comando e a insígnia do soberano, ela é também compreendida
se tomarmos a forma "banido" (2002:36). A noção de bando (e banido) diz
respeito ao poder do Estado de deixar sujeitos à mercê, abandonados; assim, por
conclusão lógica, refere-se também aos que estão inclusos nesta ordem e que
fizeram um "contrato" que domestica e exige obediência. Portanto, novamente
Agamben oferece pistas para pensar que nesta interseção entre poder, soberania
e governo é crucial o controle do limiar da ordem política. O Estado pode ser
benfeitor e inclusivo, mas também pode marcar quem está fora na arbitrariedade
do poder - exclusão da política e daspolíticas.
Como eventual zona de anomia e indistinção entre ordem jurídica e exceção, o
banido enquanto excluído não parece estar totalmente fora do ordenamento, mas à
mercê. Esta possível vinculação ao "fora" (tanto quanto o "dentro") exerce
efeitos expressivos, e quem está dentro aceita o pacto para preservar sua vida
em favor de benesses. O argumento aqui sublinhado consiste em aludir que o
conceito de bando é a pista-chave para pensar a discutida relação entre
violência e Estado e entre a indecisão de desejo e repulsa às ações do Estado
via desenvolvimento.
Sobrevoando este tema, Taussig_(1992) discorre sobre a ambiguidade
entreosagradoeafascinaçãodoEstadosobreossujeitos,combinada com o desgosto, isto
é, um misto entre atração sedutora e repulsão (tema abordado também em Taussig,
1997). Particularmente, é frutífera a aproximação disto com a visão weberiana,
para quem o Estado aglutina razão e o monopólio legítimo da violência, que
aparece recorrentemente em Foucault também. O monopólio é legítimo porque uma
determinada razão o estaria amparando. No entanto, Taussig apresenta um
argumento inverso, uma espécie de "racionalidade irracional" que pode estar por
trás do problema. Se as pessoas enfrentam mensagens contraditórias de medo e
esperança, desejo e repulsa em relação ao Estado, Taussig (1992) - também
partindo dos escritos de Benjamin - observa que essa violência pode não possuir
racionalidade em última instância, mas é uma violência em si e misteriosa.
Mais que governamentalidade generalizada de ponta a ponta da sociedade, uma
mensagem possível da noção de bando e da perspectiva da
Mais que governamentalidade generalizada de ponta a ponta da sociedade, uma
mensagem possível da noção de bando e da perspectiva da ambiguidade atração-
repulsa está na sedação que emerge junto à sedução (na feliz expressão de Buck-
Morss,_2000). Esses problemas parecem oferecer elementos decisivos no que tange
ao tema do desenvolvimento. O Estado pode garantir sua providência se
igualmente exigir obediência legal como obrigação, portanto, despolitizando as
ações, os conflitos sociais e as insurgências (Ferguson,_1990) no mesmo momento
em que politiza a vida ao incluí-la, dispondo-a no âmbito das técnicas de
governo e de gestão. Sob esta insígnia os problemas do desenvolvimento podem
ser lidos, pois caberia ao Estado incorporar simultaneamente o papel de máquina
antipolítica e providencial de governo em que se conjugam biopoder e violência
a fim de administrar avida.
CERTIFICAÇÕES, TECNOLOGIA "INAPROPRIADA" E A RUÍNA COMO METÁFORA DO
DESENVOLVIMENTO
CompreenderosprocessossociopolíticosqueenvolvemoEstado,as organizações da
sociedade e os indivíduos no Brasil oportuniza testarmos os argumentos antes
examinados. Nesta seção, apresentam-se dados de pesquisa focando a interação
com práticas sociais, processos de desenvolvimento e governo. O caso examinado,
oriundo de investigações prévias do autor, diz respeito aos agricultores e às
organizações vinculadas ao Estado que desempenham ações para agricultura
ecológica.
Desde meados dos anos 1990 até 2007, o Brasil vinha sendo pressionado para
criar regras para os alimentos orgânicos. Esse processo foi implantado
primeiramente pelos países do hemisfério Norte e exerceu efeitos no país quando
a então Comunidade dos Estados Europeus e os Estados Unidos efetivaram suas
normas. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil
convidou entidades atuantes com grupos de produtores para estabelecer marcos
para a produção ecológica no país e, simultaneamente, discutir os processos de
certificação. Esse diálogo entre o Ministério e as entidades durou anos, e a
questão central girava em torno de que dificilmente o Brasil escaparia de uma
política de normas e de certificação de alimentos orgânicos.
Exatamente no mesmo período, a Organização Mundial do Comércio aprova regras
globais para tratamento de propriedade intelectual que precisam ser legalizadas
nos países signatários. Se desde o fim do século XIX havia acordos
internacionais neste âmbito, somente a partir de 1994 a regulamentação
transnacional torna-se semelhante à força de lei com possibilidades de sanções
e penalidades. Parte importante de leis de propriedade intelectual no Brasil é
do período de 1996 a 1998, que definirá os modos de apropriação sobre material
genético vegetal, assunto capital para agricultores. Se compararmos brevemente
estes dois vetores convergentes - propriedade intelectual e certificação (um
tipo especial de marca e, portanto, igualmente nos termos de proteção
intelectual) -, ocorre a orquestração neoliberal do "desenvolvimento" no plano
internacional para o qual as organizações e Estados fornecem condições para a
ação de agentes. O caso brasileiro, contudo, parece demonstrar que o Estado tem
ainda outras características.
A pesquisa entre os grupos de agricultores ecológicos do oeste de Santa
Catarina mostra que,para os indivíduos, o Estado deveria ser um ator primordial
na divulgação e na implementação da agroecologia, facilitando processos de
conversão de propriedades e ampliando canais de comercialização, aspectos que
de fato as entidades estatais realizam. Todavia, parece estar presente para a
quase integralidade dos interlocutores em campo que na ordem estatal impera a
ação lenta e burocrática; os relatos forneceram a imagem do Estado entendido
enquanto sujeito, como se fosse um ente "pesado" que, com dificuldades, está
atrasado em relação ao que a sociedade faz. Quando age passa a impressão de ter
um aspecto desarticulado. Na mesma medida em que consideram o Estado
ineficiente e devagar, agricultores demonstram que a partir dele a agroecologia
pode adquirir melhores condições. "Quase não há apoio" era uma expressão
recorrentemente escutada, o que significava algo muito distinto de não
existirem intervenções.
O caso dos mediadores sociais sugere as tensões sobre o que devem ser as
atividades dos quadros estatais para os agricultores. Comparando-se a atuação
de indivíduos lotados em instituições estatais aos agricultores-líderes,
percebe-se claramente uma inversão de papéis. Pessoas e entidades das quais se
esperam conhecimento técnico e facilidades para o acesso a políticas públicas
não exercem plenamente estas funções, abrindo possibilidades dos "espaços
vazios" em que se inserem a mediação exercida pelas associações da sociedade ou
cooperativas de agricultores. No caso da extensão rural, é emblemático que
agricultores-líderes se posicionem como conhecedores tanto quanto os expertsem
agroecologia. De qualquer maneira, o trabalho de mediação dos membros da Rede e
dessas vozes dissidentes no interior do corpo do Estado precisou "tocar" e
ressoar profundamente nos quadros majoritários para que eles se movimentassem.
Estes aspectos direcionam ao tema da ambivalência que aparece quando
agricultores avaliam o Estado. O que usualmente estrutura as ações nesse quadro
não é uma reação a condições impostas por instâncias externas, mas uma
percepção coletiva das possibilidades e dos limites que as transformações - no
âmbito jurídico-político - permitem aos grupos. Leis sobre agricultura
ecológica, regramentos sobre certificação, controle sobre associações, promoção
por meio de políticas públicas para o meio rural - são todas ações que tornam
as pessoas, por vezes, com receio de intrusão excessiva e também criam
oportunidades a serem aproveitadas.
Como compreender esses processos? Essas características aparecem em diversos
aspectos da estrutura organizacional e legal do Estado, mas um típico exemplo
pode ser citado: as recentes legislações sobre certificações, o excesso de
selos e de normas de produtos orgânicos nos âmbitos nacional e estadual
(somadas às leis municipais) sugerem sobreposições e sombreamentos,
interpretações confusas e problemas de aplicação. Leis, instruções normativas e
decretos foram aprovados com a sustentação em processos participativos e
articulações de setores da sociedade6, inclusive com mecanismos de ampla
divulgação, tal como a cartilha "O Olho do Consumidor", publicada em 2009 com
trabalho artístico do cartunista Ziraldo.
Nesse conjunto de procedimentos jurídicos, as certificações participativas,
difundidas no Brasil e fruto da organização dos grupos de agricultores/
consumidores, foram incluídas como legítimas e eficazes. Entidades da sociedade
civil organizada podem gerar e administrar selos de certificação de alimentos
orgânicos e esses procedimentos inauguraram os sistemas de regulação de
qualidade orgânica (não somente no país) para apenas depois serem englobados
pelas normativas legais. No entanto, os mesmos textos normativos tiveram
adendos cruciais para demarcar a diferenciação entre as certificações
independentes (consagradas como sistema "perito", imparcial e científico) e os
sistemas de garantia participativa em que a separação entre verificadores e
verificados não é necessária. A hierarquização não ficou evidente no texto, mas
existe, e grupos sociais com maior capacidade de articulação e poder obtiveram
êxito para que no âmbito do Estado os sistemas de garantias sejam - e poder-se-
ia afirmar inspirando-se em Agamben - incluídas para serem "excluídas".
A partir das novas normas para os sistemas de certificação orgânica no Brasil,
alguns depoimentos demonstram desaprovação e a sensação de imposição. Além de
desconstituir textualmente, criaram-se recentemente mais mecanismos de controle
externo se adendos que encarecem o orçamento das organizações que administram
as garantias. Com a aprovação das normas em âmbito nacional, o controle sobre
as organizações não governamentais e entidades aumentou. Particularmente,
observa-se nesse cenário a obrigação das Comissões Estaduais da Produção
Orgânica (CPOrgs) fiscalizarem a atuação das entidades e igualmente a inscrição
no Ministério da Agricultura para legitimar o selo. Adicional a isto, há a
obrigatoriedade de que cada entidade responsável por um selo participativo
possua comissões e conselhos para observância de recursos financeiros. Eram
associações que já partilhavam normas e regras gerais sobre produção ecológica,
cada qual com modos de regulação socialmente aceitos nos locais de atuação.
Como meio de dar apoio e legitimidade ao processo participativo o Estado acaba
por verticalizar o controle e dispor de regras de administração no âmbito de
associações e redes de garantia. A contradição do processo está no fato de que
as entidades foram pioneiras e participam da história da construção da
agricultura ecológica no Brasil. Depois que passaram a ser visibilizadas,
apoiadas e promovidas,começam a enfrentar legislações padronizadoras, caminhos
burocráticos que dão lentidão aos processos e necessidade de novos modelos de
organização, que tornam a certificação mais cara e demandam mais tempo de
trabalho (por exemplo, incessantes procedimentos de recadastramento de
produtores junto às entidades).
No entanto, creio não ser possível uma leitura das ações estatais (nos
diferentes níveis de governo) somente como imposição de regras e violência
simbólica. De certo modo, emerge certa aceitação desse controle, fato
verbalizado entre os produtores pela ideia de construção de um sistema mais
aprimorado para os alimentos orgânicos, sua divulgação e consolidação7.
Particularmente, as pessoas envolvidas observam que existe um efeito de poder e
harmonização que está relacionado a regulamentações de escopo nacional e
internacional. Contudo, costumam destacar os resultados benéficos de tais
intervenções para a legitimação da agricultura ecológica e o reconhecimento da
certificação participativa em outros espaços da sociedade.
Durante determinado momento ao longo da realização desta pesquisa com
agricultores do oeste catarinense, o Estado passou a promover bancos de
sementes para livre acesso - e neste feixe de problemas emaranham-se as
categorias de propriedade intelectual e controle sobre material genético.
Através da entidade de pesquisa agropecuária e extensão rural de Santa
Catarina, abriram-se espaços para pesquisa e manutenção de variedades. O banco
de sementes não é a única ação, mas significativo no que diz respeito ao
controle ou não do Estado sobre material genético, fato que importa aos
produtores rurais. Enquanto percebem a importância da entidade em realizar este
projeto, os agricultores manifestam preferência em manter certo controle sobre
as sementes (que entre eles redunda no controle sobre os conhecimentos
associados aos seus usos). Nos distintos momentos em que acompanhei os grupos,
observei que esse fato não tem intenção de tornar as sementes uma propriedade e
limitar o acesso de outros, porém existe o receio de que o Estado possa ser
ineficiente ou, num momento qualquer, limitar seu acesso aos recursos vegetais.
É conhecida a história de que as sementes paulatinamente deixaram de ser
trocadas no mundo rural para se tornarem mercadorias "melhoradas" e vendidas
por empresas de biotecnologia. Recentemente, isto configuraria uma fase
distinta que Shiva_e_Jalees_(2006) afirmam pertencer à "revolução do gene", não
mais à "revolução verde", propulsora da modernização do campo. Enquanto a
última era administrada por pesquisa e recursos públicos, a primeira sustenta-
se em capital privado, empresas, produção de transgênicos e controle de
direitos intelectuais. A produção de sementes híbridas ensejou um processo de
homogeneização dos cultivares e teve efeitos diretos na utilização e no modo de
apropriação por parte dos agricultores ao redor do mundo.
O problema das sementes, por sua natureza central na agricultura, vem a ser
crucial em outro aspecto, já que denuncia a desarticulação e a violência que
esferas do Estado efetuam. A partir de entrevistas realizadas, observou-se que
os sistemas de crédito rural possuem catálogos de sementes recomendadas para o
plantio, particularmente de grãos. Esse sistema funciona como base para
concessão de crédito rural e, quando a semente é "local" (rústica, também
chamada de crioula), os consultores tendem a reprovar o crédito ao agricultor
por estas sementes serem consideradas tecnologia inapropriada - expressão de
significativo impacto. É inevitável interpretar isto como um poder de veto em
que se aglutinam o poder do Estado com empresas públicas ou privadas de
biotecnologia, uma vez que unicamente sementes protegidas por patentes ou
"melhoradas" são as recomendadas; estas têm caráter híbrido ou são resultado de
modificação genética. Supostamente possuem resiliência, isto é, têm maior
aptidão a intempéries e pragas.
Observe-se que o sistema de crédito, parcialmente público, é parte do
mesmoEstadoquecriaprogramasparasementesrústicasecrioulas. Brumer_e_Spanevello_
(2012) mostram que o caso do crédito rural para mulheres encontra paralelos: a
demanda particular do programa com "recorte" de gênero não foi bem
internalizado nos bancos e muitas vezes não tem interesse em empréstimos
diminutos, em que pese a relevância para as mulheres beneficiárias. Contudo,
tal qual o problema da referência à "tecnologia inapropriada", o crédito rural
no Brasil passa pela mediação dos agentes financeiros, que são seletivos na
escolha do financiamento, inclusive sobre quem será o tomador de empréstimo, e
possuem poder de recomendar apoio a atividades que sejam de fato produtivas e
impliquem consumo de insumos agrícolas, o que nem sempre está no horizonte do
público interessado em tomar o recurso financeiro (idem).
É necessário perceber que, pelo menos no que diz respeito às sementes e sua
seletividade, as normativas convertem-se em constrangimento e incidem sobre a
vida com grande impacto, tornando-se válido anular a multiplicidade de
variedades vivas em prol da hegemoneidade e da estabilidade. O problema é que
estaríamos num espaço em que a anulação da multiplicidade das variedades
vegetais se justifica com a suposta supressão de riscos. Organismos vivos
(sementes) ancestrais fundamentados em conhecimentos mantidos por grupos
camponeses ao longo de gerações e cruzando continentes são desconstituídos por
pessoas, programas e sistemas profissionais que trabalham para a promoção do
desenvolvimento. Não exatamente uma biopolítica, tal como Foucault examinou
sobre a vida humana, mas uma política com efeitos na vida biológica e na
alimentação, o que está no limiar de produzir vida artificialmente e aniquilar
a sua espontaneidade.
Na introdução de seu Dicionário do Desenvolvimento,Sachs escreve: "A ideia de
desenvolvimento permanece como uma ruína na paisagem intelectual e já chegou o
tempo de escrevermos seu obituário" (1992:4-5, tradução livre). A metáfora da
ruína quando está em questão o que se passa com agricultores ecológicos não
encontra melhores ecos do que o sociodrama da erosão. A erosão da
biodiversidade tem consequências diretas nos conhecimentos a ela articulados,
perdendo-se a forma de vida vegetal dissolve-se também o saber a ela associado
e caminha-se, num passo, à homogeneização da agricultura e à padronização do
social assim administrado. Portanto, o problema vincula a diminuição da
diversidade da vida vegetal ao afunilamento dos conhecimentos sobre o mundo.
Argumentos variados e depoimentos de interlocutores de pesquisa sugerem que
este processo tem o ápice na programação genética da morte pela biotecnologia.
No ímpeto para conseguir controlar as variedades de sementes e fazer delas
mercadorias lucrativas, a proteção patentária foi o instrumento que
possibilitou o investimento das empresas no ramo, de tal modo que, no limite
extremo, a vida foi programada para não gerar mais vida (variedades que não
geram sementes para evitar a apropriação "indevida" por produtores rurais e
replantio nas safras seguintes). A erosão expressa em sua imagem o que o modelo
de desenvolvimento agrícola posto em movimento desencadeou. Na indecisão entre
vida e morte:
Se, em todo Estado moderno, existe uma linha que assinala o ponto em
que a decisão sobre a vida torna-se decisão sobre a morte, e a
biopolítica pode converter-se em tanatopolítica, tal linha não mais
se apresenta hoje como um confim fixo [...]. [É] uma linha em
movimento que se desloca para zonas sempre mais amplas da vida
social, nas quais o soberano entra em simbiose cada vez mais íntima
não só com o jurista, mas também o médico, com o cientista, com o
perito, com o sacerdote. (Agamben,_2002:119)
Num panorama em que a ciência eos poderes burocráticos se mesclam, a força da
lei associa-se ao saber científico perito efetuando uma despolitização que tem
relação direta com as iniciativas em torno do desenvolvimento. Por outro lado,
a indecidibilidade soberana sugere encontrar paralelos com a indecisão ou
ambivalência dos atores em "jogar" com a máquina estatal e suas formas de
administrar. A força mística da lei e o receio do banimento oferecem saídas
curiosas, tais como estar no limite de sedução e da sedação pela máquina
providencial. Esta capacidade de agência e os jogos de poder relacionados podem
indagar a eficácia do poder soberano em Agamben, ponto ao qual retornarei nas
considerações finais. Ainda assim, a chance de banimento pode estar no
horizonte, por isto mesmo tais jogos são relações cuidadosas para os atores da
sociedade civil. De alguma maneira, ser excluído das políticas parece ser
ameaça mais real do que da política, poisavoz, a palavra no espaço público e a
participação aparecem pouco, ao passo que a gerência e a normalização se fazem
presentes nas formas de governo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O plano de análise empírica proposto neste artigo manifesta potencialidades de
interpretação pela linha de argumentação Foucault-Agamben com uma tensão
originada em textos seminais de Benjamin, particularmente acerca de direito,
lei e violência. Os exemplos mobilizados apresentam situações em que grupos
assumem posições sociais em coordenadas imersas em relações desiguais. Para tal
a narrativa está em afirmar que as condições de mercado são apenas asseguradas
pelo Estado para a boa competição; antes, em Foucault esse espaço é
produzidocomolugardonãogoverno,gerenciadoparaseconstituir desse modo, e nisto
potencializa-se a concorrência econômica simultaneamente à
autorresponsabilidade de cada participante. O Estado
podeseafastardoplanejamentododesenvolvimentocomonopassa-do recente para que a
veridição do mercado exponha um mundo social de livre atuação, porém administra
a vida produzindo um tipo de sociedade e de economia através de atos
excepcionais, normalização, gerência do social e governo do desenvolvimento.
Refletindo criticamente acerca dos referenciais apresentados ao longo do
artigo, um problema pendente está em discutir a relevância que a noção de
governamentalidade - e todo o aparato conceitual que gravita em torno desta -
possui ao se pensarem processos históricos fora do eixo euro-americano.
Cesarino_(2012), em estudo sobre cooperação entre o Brasil e países africanos,
ressalta que recentes pesquisas sobre desenvolvimento e colonialidade apontam
que referenciais distintos podem apreender melhor tais processos, tal como a
noção gramsciana de hegemonia, entre outras. Seguramente, os estudos que partem
dos referenciais propriamente latino-americanos propõem modalidades endógenas
como as principais e se afastam do pós-estruturalismo (Mignolo,_2000) ou se
aproximam de problemas de uma modernidade periférica nos trópicos (Domingues,
2009).
Esses dilemas também se apresentam à dimensão da agência enquanto conceito
central da sociologia contemporânea. Parfitt_(2009)critica a noção de vida nua
recuperado por Agamben propondo que qualquer vida é culturalmente rica e a mera
vida biológica humana não se encontra em lugar algum. Este é um argumento
válido de se destacar, pois
Agamben parece afastar-se dos processos reais e contextuais em que soberania,
exceção e violência são culturalmente negociados e, assim, adquirem expressão
particular em cada caso - sendo que os recentes protestos nas capitais
brasileiras bem sinalizam a urgência de uma thick descriptionda opacidade da
soberania e das diferentes camadas de poder-resistência. Entretanto, Agamben
não simplifica a análise, mostrando que "não existem, primeiro, a vida como
dado biológico natural e a anomia como estado de natureza e, depois, sua
implicação no direito por meio do estado de exceção" (Agamben, 2004:132).
Inversamente, o autor segue afirmando na mesma página que a "[... ]
possibilidade de distinguir entre vida e direito, anomia e nomos coincide com
sua articulação na máquina biopolítica. A vida pura e simples é um produto da
máquina e não algo que preexiste a ela [...]".
Variações de biopolítica emergem dando contornos de que essa noção é válida
como um recurso de resistência e criação, tal como aparece em Roberto Esposito,
e a oportunidade de uma biopolítica afirmativa (2008). Situação interpretativa
instigante, pois quiçá remete a uma mutação no pensamento de Foucault em seus
últimos cursos. Sabersea biopolítica é o conjunto de biopoderes ou lugar de
emergência de contrapoderes, nas palavras de Boyer_(2012), é o panorama legado
pelo autor francês e o debate está em revelar se esta versão da biopolítica
pode ser associada à produção de subjetividades não totalmente subjugadas.
Deste modo, a indagação presente é se o desenvolvimento revigorado representa
uma ordenação que articula despolitização e providência, administração
normalizadora e vida nua no ditame do poder/violência, na figura do Estado
desejado e temido. Cabe registrar que para Agamben liberar a vida do cruzamento
entre a norma e a lei pode se traduzir na crítica radical da coincidência entre
a lei e a vida. Nesta história, seria possível experimentar o "desejo de
liberar a vida da culpa assegurada pelo contrato legal com o Estado [...]" e,
ainda que esta passagem seja recuperada de um contexto argumentativo distinto,
seu prosseguimento vale o risco da transposição e, para tal, "[...] este seria
um desejo que dá condições a uma violência contra a violência, aquela que
procura liberar a vida do contrato de morte com a lei" (Butler,_2006:211;
tradução livre).