“Dar uma Zoada”, “Botar a Maior Marra”: Dispositivos Morais de Jocosidade como
Formas de Efetivação e sua Relação com a Crítica
Tá pensando que a coisa aqui é mole, parceiro? Aqui, o cara come o rato no
almoço pra matar o gato de fome e comer ele na janta (vendedor de um
camelódromo no Rio de Janeiro)
A situação tem lugar em um conhecido “calçadão”, rua de pedestres de intensa
atividade comercial formal e informal no coração de um grande bairro da Zona
Oeste do Rio de Janeiro: o rapaz, empregado de uma agigantada banca de camelô,
oferecedora de produtos que vão de pilhas e carregadores de celular a pequenas
utilidades domésticas, está atrasado. Quando finalmente chega, mostra-se
esbaforido.A camiseta, suada, indica que ele veio correndo de sua última
condução; a respiração, ofegante, torna a voz quase inaudível. Franzino, o
jovem praticamente não consegue falar para se desculpar com o patrão. Mas por
pouco não seria necessário: o comerciante não aparenta irritação com o deslize.
Pelo contrário, parece estar sensibilizado pelo sofrimento físico do jovem.
Tanto que acena com uma palavra de apoio: “– Ô, moleque, tá cansado, tá
passando mal? Vem cá tomar uma coisa...”. No entanto, ato contínuo, logo que o
outro faz menção de movimento: “– ... vem tomar um esporro”.
O caso, concluído com risadas de vários no entorno, sugere um aparente
paradoxo: a atitude mais esperada do dono da banca, controlador disciplinar do
horário do empregado, seria “pagar esporro”. Havia, aliás, em favor dessa
hipótese, um histórico: não era a primeira vez que o jovem se atrasava.
Contratado como favor para um conhecido do camelô e por isso “o tempo todo
sendo testado”, o rapaz, que estudava longe, “vivia vacilando”. O chefe, no
entanto, inicialmente parece optar por não lançar sobre ele uma crítica, o que
o levariaa assumira posição de pertencimento de um estado superior moral. Mas
embora não apresente armas e prefira fazer piada, permitindo entender uma
redução no peso do erro do outro, afinal não tem lugar a bronca prometida, ele,
podemos dizer, dá um esporro, sem dar: o “moleque” passa os momentos seguintes
envergonhado, não apenas pela exposição pública da falha, mas, e sobretudo,
como contaria, por se tornar objeto de chacota de conhecidos e desconhecidos
por algum tempo. A partir disso, a definição de um passante dá conta do caso:
em vez de admoestar o jovem, o patrão “preferiu dar uma zoada”.
“Dar uma zoada”, zoar, caminho de ação do camelô, é algo bastante recorrente
nas interações urbanas do Rio de Janeiro. A zoação é uma forma muito peculiar
de humor, na qual se faz piada com o outro por meio de uma crítica, real ou
não, feita de forma jocosa: é, ao mesmo tempo, uma agressão pacíficae um afago
agressivo– como disse Radcliffe-Brown_(1940:196), é um “desrespeito permitido”.
Quando se zoa alguém, fala-se a verdade como se fosse mentira, trata-se de
forma jocosa e, portanto, relativamente leve, de algo que poderia ser tratado
de maneira conflituosa, já que envolve o mecanismo central de situações de
conflito, aquilo que tem tudo para iniciar uma tensão interacional: a crítica.
Afinal, quando se zoa alguém, critica-se o que ele fazde errado, o que ele
temde errado, de torto, de estranho – de... “zoável”, como dizem vários
pesquisados. E a crítica, como veremos mais detalhadamente adiante, envolve a
geração de uma polaridade: de um lado, um crítico, alguém que se apresenta em
uma posição superior moralmente; do outro, um criticado, alguém que o outro
quer que seja lido como inferior moral. Quando se zoa, essa inferiorização é
operada com o polo acusado tornando-se objeto de uma narrativa cuja conclusão
se volta para o gracejo e, no horizonte, para certa paz.
O humor e a ironia, então, parecem ser operadores importantes na sociabilidade
urbana. A base da discussão aqui apresentada – com os primeiros resultados de
um projeto de pesquisa de dois anos1 – é a constatação da recorrência e da
relevância da jocosidade nas interações cotidianas e o tratamento desses
objetos, por meio de uma abordagem pragmatista, como dispositivos morais.O
ponto de partida éo reconhecimento da “capacidade crítica” (Boltanski e
Thévenot, 1987, 1991, 1999) dos atores sociais, afirmadora da lógica pela qual
eles constroem suas gramáticas morais; dela advém a importância de uma
situação-tipo, o “momento crítico” (idem, ibidem), no qual alguém manifesta
desacordo com os estados (grandezas) alcançados pelos envolvidos em uma
situação. Já na definição teórica desse modelo, os autores sublinham uma
característica determinante dessa situação: seu nome “faz referência, ao mesmo
tempo, à atividade crítica das pessoas e à raridadedos momentos de crise”
(Boltanski e Thévenot, 1999:359; ênfase minha). Trata-se, então, de uma ruptura
(questionadora) da rotina, aquela parcela da temporalidade social na qual ações
são efetivadas sem questionamento; é um instante de disputa, no qual duas
partes digladiam-se justamente em torno do conteúdo da crítica.
A partir disso, no entanto, a ideia do braço do projeto era analisar o papel
desempenhado por dispositivos capazes de efetivar a operacionalização da
crítica sem com isso promover uma ruptura radical da rotina – como no caso da
crítica direta, do momento crítico – nem se conduzir na direção do uso da força
desproporcional2. E a jocosidade, explorada neste texto por meio de dois
dispositivos, mostrou-se capaz de, ao fazer isso, ao mesmo tempo manter a
circulação do conteúdo crítico, e, ao relativizar e manipular criativamente a
forma-crítica, permitir a modulação de tensões no que tenho chamado de
“sociabilidade disputada” (Werneck,_2011, 2013), uma gramática do social
reconhecedora do caráter disputado entre seus componentes centrais, admitindo
que essa inclinação para a disputa corresponde a um caráter negociado, e não de
conquista dos interesses a qualquer custo (Thuderoz,_2010)3.
Esse pressuposto nasce de uma dupla articulação de perspectivas analíticas: por
um lado, o “situacionismo metodológico” (Cicourel,_1964; Knorr-Cetina,_1981;
Collins, 1981; Joseph,_1984), iniciado pelo pragmatismo filosófico de Charles
S. Peirce, William James e, na análise do social, em George Herbert Mead e
William I. Thomas – este, autor da máxima de que “se os homens definem as
situações como reais, elas são reais em suas consequências” (Thomas_e_Thomas,
1938:572) –, continuando com seus seguidores – em especial na Escola de Chicago
– e que estabelece como unidade analítica a situação, ponto fulcral da
abordagem pragmatista das économies de la grandeur(EG)4 que aqui me ajuda a
pensar. Por outro, uma visão compreensiva(Weber,_2001), centrada no
deslocamento dos valorespara a posição de unidade analítica, considerando-os
como objeto e tornando a análise o mapeamento de conteúdos que conferem sentido
às ações sociais. Essa articulação me levou a construir um modelo centrado na
ideia de efetivação(Werneck,_2012). Esse termo, vindo do latim effectîvus, “que
exprime um efeito”, aponta o questionamento a respeito da concretização de uma
situação para a geração de consequências(que podem adquirir diferentes
orientações morais), de maneira que a pergunta explicativa a respeito de uma
ação/situação se torna: uma vez que tenha ocorrido, o que fez com que ela
pudesse produzir consequências (o que, em última instância, significa que ela
ocorreu socialmente)? O objetivo deste artigo, assim, é compreender o papel da
jocosidade nesse quadro, considerando sua capacidade potencializadora
actancial, centrada em sua possibilidade de proporcionar uma dupla mecânica de
efetivação, de oferta de crítica e, ao mesmo tempo, garantia de paz.
Neste texto especificamente, dou ênfase a dois dispositivos5, diretamente
articulados e localizados nos polos opostos da fenomenologia interacional/
situacional: de um lado, a “zoação”, na qual a crítica é apresentada como se
não fosse séria ou relevante, mas proporcionando, ainda assim, a colocação de
algo do comportamento/das características do outro em questão; e, de outro, a
“disputa de marra”, na qual se recusa de forma competitiva a posição moral
superior produzida pela crítica, atacando-se jocosamente o crítico com outra
crítica – em geral também jocosa, iniciando-se uma disputa. A base desta
discussão é a observação etnográfica do calçadão citado anteriormente e de ruas
do Centro do Rio de Janeiro ao longo de 2012 e 2013. A partir dessa observação
de situações de sociabilidade e uso do humor, discutirei como esses dois
dispositivos se relacionam diretamente com a mecânica da crítica e com a vida
moral de maneira geral – a partir de uma discussão sobre o investimento
energético promovido pelos atores em uma vida social mutuamente avaliadora e a
modulação dessa economia por meio do que, inspirado em Hirschman, chamarei de
slack crítico.
O tema da jocosidade tem recebido atenção esparsa nas ciências sociais. Embora
haja área de estudos de humor relativamente consolidada, que une sociologia e
antropologia – Seckman_e_Couch_(1989); Fernandez_e_Huber_(2001); Billig_(2005);
Kuipers_(2006); Raskin_(2008)–, filosofia e psicologia – Morreall_(1986);
Critchley_(2002); Buckley_(2003); L’Yvonnet_(2012)6 –, estudos de comunicação e
teoria da linguagem – Palmer_(1994); Hutcheon_(1995); Ermida_(2008) – e
bastante produção sobre história do riso e do humor – por exemplo, Alberti_
(1999), Minois_(2003) –, a relação entre humor e sociabilidade tem merecido uma
leitura bastante menos fecunda do que poderia. Os investimentos mais densos no
tema estão na sociolinguística e na antropologia funcionalista britânica.
No primeiro caso, o trabalho de William Labov_(1972) merece o maior destaque.
Nele, a questão é, em geral, mapear os recursos linguageiros7 operados pelos
atores sociais em situações de insultos rituais, promovendo uma análise
pragmática dessas situações, com ênfase nas relações no interior de grupos de
pares. No caso antropológico, autores como F. J. Pedler_(1940), E. Lloyd Peters
(1972) e, mais notadamente, Radcliffe-Brown_(1940, 1949) dedicaram boas linhas
ao que chamaram de “relações jocosas” (joking relationships), nas quais,
segundo este último (1940:195), “por costume, é permitido, e por vezes
requerido, a uma parte, provocar ou fazer graça da outra, que por sua vez não
tomará isso como ofensa”8, o que podemos perfeitamente adotar como definição de
forma parcial, com a diferença de que aqui estamos falando de situaçõese/ou
interações(então potencialmente passageiras) jocosas. Mas esse tratamento
antropológico se manteve centrado em sua dimensão ritualística e de costume, em
especial no que diz respeito à dinâmica do parentesco ou das relações entre
grupos e a sociedade que os cerca. Na sociologia, Goffman (1952, 1959 e 1982),
por exemplo, chega a lhe dedicar suas linhas, mas o investimento no papel do
humor fora de sua dimensão lúdica e/ou ritualística tem sido reduzido. No
entanto, talvez o trabalho sociológico mais significativo sobre o tema tenha
sido o de Emerson_(1963, 1969), de inspiração goffmaniana, mas que faz um forte
movimento na direção do tema da negociação, apontando para a importância das
discussões situadas em ambientes de conflitos cotidianos.
Em todo caso, como boa parte dos trabalhos enfatiza a ritualidade do insulto9,
não tem merecido a devida atenção o papel da jocosidade na operacionalização da
crítica. Ou seja, o centro da argumentação tem repousado mais na agressividadee
sua modulação (e suas “funções”) do que no apontamentode erros como demandade
prestação de contas, dimensão central para uma leitura compreensiva da vida
social. Neste artigo, pretendo demonstrar o papel desempenhado por dispositivos
baseados na jocosidade na economia de recursos morais de sociabilidade
envolvendo a crítica10.
DA JOCOSIDADE COMO GRAMÁTICA DE DISPOSITIVOS BASEADOS NA FORMA-CRÍTICA
O conceito de dispositivo tem despertado grande interesse na teoria sociológica
contemporânea, em especial naquela de cunho pragmatista11, mais especialmente a
partir dos trabalhos de Bruno Latour e Michel Callon com a teoria dos atores-
rede, mas também na abordagem da EG e no trabalho “pragmatista reflexivo” de
Francis Chateauraynaud_(1991, 2011). Ao mesmo tempo, o conceito passou, nos
últimos tempos, em vários autores, por grandes transformações, de uma
perspectiva estrutural para uma interacional e, sobretudo, situacional12. Até
mesmo em Foucault, onde dizia respeito a aparatos de concretizaçãodas
estruturas abstratas de poder, o conceito passou a dizer cada vez menos
respeito a formas disciplinares e passou a traduzir uma agência estratégica
(Foucault,_1994). Trata-se, então, de deixar de lado uma abordagem baseada nas
disposições, traços incorporados, fixose definidores dos atores sociaise que se
tornam determinadores de suas ações, privilegiando-se, em vez disso, o
situacionismo metodológico e se falando em uma gestão da vida social por meio
de aparatos situacionalmente operados, como “coisas que funcionam” (Peeters_e
Charlier,_1999). No pragmatismo, essa perspectiva se encontra ainda com a ideia
de gramática, que, como a de competência, também oriunda da linguística
generativa, apresenta as lógicas contextuais não como normatividades
inelutáveis, regramentos prescritivos, mas como desafios, conjuntos de
indicações restritivas e/ou parcialmente prescritivas que levam os atores a
agir criativamente (Werneck, 2014b).
Nesse sentido, o dispositivo se torna uma coisa da qual se pode lançar mão,
algo que pode ser mobilizadopara lidar com os desafios gramaticais. É, então,
algo que adquire um sentido centrado na agência dos atores, indivíduos
autônomos que fazem escolhas de direcionamento das ações, e que descreve vida
social como encontro de indivíduos dotados de agência competente (Schütz,_1943;
Garfinkel,_1967; Boltanski_e_Thévenot,_1983), sem configurar individualismo
metodológico ou primazia do interesse. Agir no social, dessa maneira, passa a
ser se deparar com os desafios situacionais e lançar mão competentemente de
coisas do mundo para efetivar as ações/situações.
O conceito de competência, chave aqui, é operado pelo modelo das EG por
inspiração na linguística generativa, proposta por Noam Chomsky, por meio da
releitura da mesma pela antropologia da ciênciade Latour_(1997)13. Por
“competência”, entende-se uma faculdade apresentada pelos atores paraa
desenvoltura em uma determinada lógica de ação, ou, como querem Boltanski e
Thévenot (1991:183), “uma capacidade de reconhecer a natureza de uma situação e
de pôr em ação o princípio (...) que a ela corresponde”. Ou, em uma definição
mais actancial, podemos considerar uma competência como um traço demonstrado
nas ações situadas, apontando para sua alocação em determinada gramática
actancial moral, como desenvoltura em regras que verificam critérios de
concretização da ação, isto é, trata-se do critério nela procurado quando se
verifica se ela pode ou não ser efetivada14.
O tratamento oferecido aqui para a ideia de dispositivo permite tipificar
diferentes configurações daquilo que tenho chamado de forma-formal, uma
consolidação como forma – isto é, como abstração categorial, nos moldes de
Simmel_(2009) – de uma ação cujos elementos sejam reconhecidos reflexivamente
pelos atores (ou seja, que eles formalizam) e que, por isso mesmo, sejam
reprodutíveis em diversas situações práticas. Isso permite, conforme já
explorei em outro espaço (Werneck,_2012:120-122), entender as ações jocosas
aqui descritas menos como procedimentos– isto é, ações estritamente discretas
voltadas para um fim específicoe que nele se esgotam;e menos como rituais– quer
dizer, ações que prescindem de explicações e/ou prestações de conta e cuja
referência se localiza em uma abstração integradora (Durkheim,_2003; Goffman,
1982); e, em vez disso, pensá-las como práticas, ou seja, ações que, embora
sejam formalizadas, conservam um caráter simbólico, aberto à interpretação,
inserindo-se no jogo da accountability, isto é, à “indagação valorativa” (Scott
e_Lyman,_2008:140). Isso confere a elas uma dupla inserção, reveladora do
próprio estatuto dos dispositivos, envolvendo-se na vida social ao mesmo tempo
como ferramentas de uso reconhecido pelos atorese como objetosa serem por eles
interpretados e julgados – e que os permitem ainda interpretar e julgar outros
actantes.
Pensar a jocosidade como dispositivo, então, é chamar a atenção para sua
capacidade de potencialização das ações e das situações: se o conflito e seu
desenrolar na direção do uso da força desproporcional e da ruptura das
interações/relações têm que ser considerados como possibilidades reais de
resultado de uma crítica, é porque a crítica ela mesma pode ser representada e
julgada pelos atores de forma diferente daquela em que ela, a crítica,é
concebida como dispositivo. Vejamos:a crítica representa um momento especial na
vida social, um instante notempo no qual, segundo Boltanski e Thévenot (1999:
359), “pessoas, envolvidas em relações cotidianas, que estejam fazendo coisas
juntas (...) e que têm de coordenar suas ações, chegam à conclusão de que algo
está errado; de que eles não podem manter-se daquela forma por mais tempo; de
que algo deve mudar”, e a partir do qual
a pessoa que se dá conta de que algo não está funcionando raramente
permanece em silêncio. Ela não guarda seus sentimentos para si. O
momento em que se dá conta de que algo não está funcionando é, na
maioria das vezes, aquele em que percebe não poder mais suportar esse
estado de coisas. A pessoa deve, por essa razão, expressar
descontentamento em relação às outras com quem estivera
desempenhando, até então, uma ação conjunta (idem, ibidem).
É, assim, ao mesmo tempo, uma cenana qual tem lugar uma manifestação de
discordância, chamando-se a atenção para uma diferença de posiçõesentre
actantes A e B, e uma forma-formal discreta. Essa cena/forma-formal apresenta o
seguinte protocolo, que podemos chamar de forma-crítica:
1. A, que na mesma situação que B, se sente incomodado com o estado
(grandeza) ocupado por B, o que prova que A possui uma capacidade moral,
ou seja, uma faculdade para decidir o que acha certo e o que acha errado,
o que é bom ou mau para ele15.
2. A, que possui também capacidade crítica, “percebe não poder mais suportar
esse estado de coisas” (idem, ibidem) e se sente impelido a expressarsua
insatisfação – poderia perfeitamente ficar quieto, mas, em vez disso,
“não guarda seus sentimentos para si” (idem, ibidem).
3. A constrói uma afirmação – isto é, uma expressão linguageira com
pretensão de verdade – segundo a qual tenta demonstrar o caráter
problemático do estado do outro na situação, chamando a atenção para a
falta de legitimidade do estado, apontando, assim, a responsabilidadedo
outro, e demandando dele uma prestação de contas, um account(Scott_e
Lyman,_2008).
4. Como mostram Boltanski e Thévenot, essa tentativa de demonstração do
caráter problemático não pode ser articulada de qualquer maneira; ela tem
um protocolo, centrado em um componente inelutável da crítica, sua
necessidade de provas: nessas situações, “as pessoas (...) envolvidas
estão sujeitas a um imperativo de justificação. Aquele que critica outras
pessoas tem que produzir justificações para sustentar suas críticas,
assim como alguém que seja alvo de críticas tem que justificar suas ações
para defender sua causa” (1999:360).
A palavra-chave desse roteiro da crítica é seu fundamento, a responsabilidade.
Esta diz respeito à associação direta entre actante e estado (entre agente e
ação), por meio do preenchimento da mesma com um sentido– seja apontando ou não
seu caráter problemático. A responsabilidade – e, portanto, a crítica –
pergunta ao agente que sentido ele dá para uma ação, a princípio, sem sentido.
Esse sentido, pensado como uma operação mental, abstrata, assume uma forma
expressiva. Como mostra C. Wright_Mills_(1940), pioneiro no tratamento da
problemática dos “motivos” de Max Weber de uma forma pragmática/linguageira,
estamos falando de “um complexo de significado subjetivo que parece ao próprio
ator ou ao observador uma sustentação adequada à conduta em questão”, sendo
possível, então, fazer uma sociologia dos “vocabulários de motivos”, um
tratamento segundoo qual se possa pensar diferentes línguasnas quais os motivos
possam ser alocados, configurando uma tipologia de orientações de sentido para
as ações facilmente pensada como um conjunto de formas de falar a ação para que
elas possam acontecer, possam ser consideradas legítimas. Uma perspectiva
compreensivacomo essa permite pensar que uma crítica é um procedimento segundo
o qual se aponta a falta de sentido de uma situação, mas que, ao mesmo tempo,
convida à negociação. A falta de sentido se baseia na aposta de que, naquele
caso, o crítico imaginava que produzir sentido corresponderia a estar de acordo
com determinado vocabulário de motivos, ou, em outras palavras, a estar de
acordo com uma moral.
A crítica, então, aponta para o criticado a responsabilidadede dar sentidoà
situação, para a obrigação de oferecer uma resposta sobre a motivação do que
fez. A etimologia do termo é indicativa aqui: “responsável”, em português, vem
do francês responsable, derivado do verbo latino respondère, “afirmar,
assegurar, responder”. Ela é, assim, uma abertura à negociação: se a situação
parece descabida, ilógica, ela o é porque não foi falada (ou seja, atuada) na
língua de sustentação que se esperava que fosse usada em determinado caso, e
parte do pressuposto de que os envolvidos reconhecem a existência e a validade
de uma pluralidadedesses vocabulários morais e uma possibilidade comum de
mobilização de alguns deles em uma mesma situação.
Assim, a questão é a expectativa em torno das apresentações de sustentações
cabíveis para o que se fez, o que chama a atenção para o fato de o horizonte
potencial da crítica ser a paz. A crítica é um dispositivo de administração da
conflitualidadetipicamente moderno, uma gestão das diferenças entre os homens
por meio de um espaço de disputas regradas em torno dos sentidos das ações
(Boltanski,_2009). A responsabilização é um recurso do dever, que lança sobre o
criticado a lembrança de um compromisso: caso se queira pertencer a esse meio,
a vida social, é preciso se explicar, dar contado que se faz, e em uma forma
expressiva legível, compreensívelpara os outros. A aposta da crítica, então, é
que todos nós, diante de uma admoestação como ela, somos lembrados de nossa
responsabilidade com o mundo ao sermos responsabilizados pela falta de sentido
do que aconteceu e pelo próprio acontecimento em si: fomos nós que o causamos;
logo, somos nós que devemos dar sentido a ele.
Mas essa situação pode, evidentemente, ser entendida como agressão pela parte
criticada. Afinal, a parte crítica, ao apresentar o estado do outro como
problemático e lançar sobre este a responsabilidade de dele dar conta, cria uma
outra hierarquia além daquela estabelecida entre as grandezas na própria
situação, cria uma hierarquia moral, na qual alguém ocupa uma posição superior
ao se atribuir o lugar de correto, de bom (e, portanto, autorizado a criticar).
Como veremos adiante, os atores criticados, diante de críticas, podem
estabelecer uma contracrítica, referente ao desrespeito a uma certa etiqueta,
gerando algo que poderíamos chamar de conflito de justiça/humildade: como parte
do estabelecimento de uma grandeza superior, uma situação de demanda por
justiça pode ser compreendida como desrespeito porque, como dizem os atores
ouvidos, “falta de humildade” demonstra “marra”, arrogância, já que estabelece
aquela desigualdade moral questionável. Parece ser uma versão radical do que
Carole Gayet-Viaud chamou de “conflitos de cortesia”, situação em que “uma
forma de violência específica (…) pode surgir onde as interações constantemente
fazem referência às exigências da cortesia e das civilidades” (2008:63). Mas se
na descrição dela estamos diante de uma exigência de horizontalidade, nesta
versão, a exigência de humildade recusa qualquer possibilidade de hierarquia,
exigindo que para se construir igualdade, não se passe por nenhuma
superioridade – pelo contrário, a igualdade precisaria ser pedida humildemente,
configurando mesmo uma demanda pela inferiorização daquele que originalmente
seria o crítico16. Mas seja lida assim ou não, quando é entendida como demanda
de superioridade moral forte, é porque a crítica é lida – por qualquer um dos
polos – como acusação.
Pois como já mostrei, uma acusação é uma forma-formal tão específica quanto a
crítica (Werneck,_2014b). Trata-se, como esta, de uma maneira de apontar o dedo
para o outro e indicar a relação entre ele e o ocorrido, negativizando-
o moralmente17. No entanto, opera um movimento moral de estabelecimento de
papéis mais radical que aquela: de um lado, alguém que se investe do direito (e
do dever, por que não?) de apontar o outro como a “causa” de uma negatividade;
de outro, alguém cuja lógica moral de ação é questionada e a quem resta
defendê-la. A etimologia aqui também colabora: o termo vem para o português do
latim accusare, formado por ad, contra, e causari, apontar como causa. Mas,
para além da origem, o sentido de acusar é perceptível: ela, para funcionar,
depende de um operador distinto da responsabilidade, a culpa. Sobre ela,
Austin, diz que
Pelo menos duas coisas parecem se confundir nesse termo. Por vezes,
quando se culpa X por fazer A, digamos por quebrar um vaso, é uma
questão simplesmente ou principalmente de minha desaprovaçãoa A,
quebrar o vaso, o que, sem dúvida, X fez: mas o que por vezes ocorre,
em vez disso, é simples e principalmente meu profundo sentimentode
que X é responsável por A, o que inquestionavelmentefoi ruim (1979:
181; ênfases minhas).
Para ele, então, há duas dimensões nesse elemento: a intensidadeea
indiscutibilidade. Quando se atribui culpa a alguém, está-se afirmando que algo
gravefoi inegavelmentefeito por ele. A acusação, então, é construída em torno
de um operador que torna a causalidade uma simplificação da complexidade das
situações: só há duas possibilidades em uma de acusação: acordo ou desacordo
com uma regra, ou seja, culpaou não culpa.E uma vez que há uma relação direta
entre as ideias de culpa e de dívida(Graeber,_2011), a acusação é centrada na
punibilidade, ou seja, em uma operação de simplificação das possibilidades de
interação com aquele que praticou a ação reduzidas à reação compensatória do
sofrimento, de pagamento de dívida pelo ato cometido: quando não há mais o que
discutir, a gravidade do ato produz um imperativo de punição. A culpa afirma a
agênciados atores, chama a atenção para seu controlesobre a situação e para sua
opçãopor fazer algo errado (Werneck, 2014b), de maneira que não resta
alternativa senão o punir, já que é indiscutível que ele praticou uma ação
gravemente negativa. Como diz McEvoy_(1995:17), “o que é uma acusação senão um
meio de defender o mau tratamento do acusado?”.
E essa operação mobilizada na acusação mostra que ela é, no final das contas,
um caso particular, uma forma radicalizada da crítica. Pois a responsabilização
envolvida na crítica pode também ser (e muitas vezes é) operacionalizada
segundo um procedimento no qual se adota como ponto de partida uma pretensão de
universalidade do princípio moral, do vocabulário de motivo usado como base da
responsabilidade. Ou seja, trata-se de uma operação na qual o pluralismo de
gramáticas morais compreendido pelos atores é reduzido a uma unificação lógica
por uma reificaçãode uma das gramáticas, que passa a ser lida como absoluta,
indiscutível, ideal. Nesse caso, trata-se de construir um tom acusatorialpara a
admoestação: ali, pressupõe-se que tanto o criticado, lido a partir de então
como acusado, quanto aqueles no entorno reconhecem como legítimoe indiscutível
o princípio moral apresentado como desrespeitado pela manifestação do crítico,
aqui investido da posição de acusador. É por conta disso, por sua pretensão à
indiscutibilidade, que ela será operacionalizad(ora/a) da/pela culpa, ou seja,
a demanda pelo estabelecimento de um nexo entre a ação e sua necessária punição
(e não apenas sua prestação de contas, como na responsabilidade). Em vez disso,
procede-se a uma declaração de necessária punição. O centro da situação de
acusação não é a disputa em torno dos elementos de um acordo. É, em vez disso,
a legitimidade – a necessidademesmo – da punição. Parte-se, dessa maneira, de
uma operação de reificação: aquela que busca ocultar o caráter negociável das
disputas morais.
DA JOCOSIDADE COMO GRAMÁTICA DE DISPOSITIVOS MORAIS
Ao ser mobilizada nas situações de crítica, a jocosidade acaba em geral por
afastá-la da possibilidade acusatorial, mas sem conduzir a mesma para o debate
racional sobre princípios. No momento em que o humor é mobilizado na forma de
uma zoação, a insatisfação com a grandeza do outro é apresentada, mas sem que
isso signifique um convite nem à disputa a esse respeito, nem ao enfrentamento
– já que não se apresenta como uma acusação, algo agressivo. O humor possui
determinadas características que o tornam potencialmente um fecundo dispositivo
de sociabilidade. A primeira delas é seu caráter estritamente simbólico
(Peirce,_1998), isto é, seu tom aberto e ambíguo, contingente: não existem
elementos claros que o demarquem gramaticalmente, e nem um sistema formal que o
caracterize indubitavelmente18. De uma expressão jocosa, sempre se poderá dizer
tanto que ela era uma exposição séria quanto que era mentirosa (Kuipers,_2006;
Raskin,_2008). Por isso mesmo, pode ser constantemente mobilizada para “dizer
sem parecer que diz” (Colebrook,_2004) e, por conseguinte, para ao mesmo tempo
manter a paz e o fluxo de discursos.
Por outro lado, outra característica do humor o torna agente especial como
aparato de sociabilidade: ele “não tem papas na língua”. Como é leve por
encaminhar o riso e pode se escamotear e mascarar, o humor não se permite temer
as reações do outro e, portanto, pode dizer o que quiser. “Normalmente, uma
pessoa não é considerada responsável pelo que faz em uma brincadeira no mesmo
grau que seria por um gesto sério (...) Como o humor oficialmente não ‘faz
diferença’, as pessoas são induzidas a arriscar apresentar mensagens que seriam
inaceitáveis se ditas seriamente”, diz Emerson_(1969:169), para sustentar
porque “a jocosidade oferece um canal útil para a comunicação encoberta de
temas tabu”. E, por último,e mais importante para nós: o humor parece se
utilizar recorrentemente da forma-crítica para fazer sua graça (Ermida,_2008;
Raskin,_2008; Sacks,_2009). Mas e se for possível usar sua graça para denunciar
o defeito do outro?
Entrevistas com humoristas profissionais19 e textos técnicos da área – por
exemplo, Sacks_(2009) – reforçam essa caracterização. Referindo-se
especialmente ao gênero stand-up, eles descrevem uma forma elementar baseada no
apontamento do que há de estranho no objeto da piada. É recorrente, nesse
gênero, por exemplo, uma figura como “Eu estava vindo para cá e vi...”, seguida
de algo que ninguém reparou ser estranho, mas que ele denuncia em sua falta de
lógica quando “visto mais de perto” (como uma placa de trânsito ou um hábito
muito arraigado). Os humoristas, então, mobilizam constantemente a forma-
crítica para a construção de sua situação formal por excelência, a piada. Esta
costuma ser definida por vários autores – por exemplo, Palmer_(1994), Kuipers_
(2006) ou Sacks_(2009) – como uma narrativa, uma história com princípio, meio e
fim, cujo fluxo temporal de acontecimento se direciona para um desfecho,
chamado punchline, uma fala ou ocorrência que altera o fluxo dos acontecimentos
e induz ao riso. A punchlinepode ser cúmplice, previsível (como no caso do
humor de bordão, em que é mobilizada uma frase/ação que o observador sabe que
será dita/feita), ou enigmática(como no caso do humor de esquetes, em que
situações são criadas e é no caráter surpreendente da virada que se constitui o
humor). Pode ser física, verbal, estrutural, abstrata etc. Segundo uma
humorista entrevistada, “a punchlineé o correspondente no texto de humor, como
metáfora, do tombo no humor físico; tudo se resume ao palhaço que cai no chão.
O que ocorre na punchlineé sempre o tombo que encerra a situação da piada”20.
Na zoação e na disputa de marra, a punchlineparece seguir um protocolo de
sociabilidade: é sempre a fala que altera a situação de forma a tornar a
crítica algo singular, uma fala digna de observação, diferente de qualquer
outra fala mobilizável ali. A zoação torna a crítica algo notável e/ou a forma-
crítica torna a zoação algo notável. Mais importante para nós aquié que parece
que estamos diante de uma competência jocosa, de uma capacidade para converter
o procedimento de apresentação e comprovação da crítica em punchline, ou seja,
em tombo simbólico, que, em nosso caso, será um tombo moral. Tombo, mas com,
digamos, uma dor suportável. A situação de partição entre dois polos
estabelecida no momento crítico adquire aqui uma dupla dimensão: ao mesmo tempo
se estabelece a quedade um e a elevação do outro em uma escala de valores e o
amortecimentodessa queda, de maneira que a jocosidade adquire uma dimensão
dispositiva tanto na prática da crítica quanto no ritual da inclusão dos
atores. O resultado dessa articulação entre a forma-crítica e algo que podemos
chamar de forma-piadaé que, embora a jocosidade pudesse ter um efeito
intensificador do conflito, já que sugere a ridicularizaçãodo outro, o
desenrolar prático das situações observadas tende muito mais para a
continuidade do fluxo ajustado da rotina– com a mensagem da crítica
apresentada, mas sem que se estabeleça um debate substantivo sobre seus termos.
ZOAÇÕES
A zoação pode ser caracterizada como uma ação/situação/forma-formalna qual uma
crítica é construída por meio da afirmação da negatividade da ação/grandeza do
outro de forma jocosa, simulando ser ela uma mentira. Explorarei aqui dois
eixos de finalidade (inferida, evidentemente21) da mobilização da jocosidade:
a) Situações em que se mobiliza a zoação com resultados jocosos
Esse tipo de situação trata a crítica como elemento estético-dramático de um
mecanismo cuja consequência é a potencialização da sociação. E isso é possível
porque os atores têm conhecimento e controle sobre a mecânica da crítica. Zoar,
nesse sentido, funciona como uma quebra de gelo, um convite à sociabilidade: ao
se zoar alguém, estabelece-se com ele uma forma de “familiaridade” (Werneck,
2012:226-240)22. Um amigo encontra o outro e o chama de “viado” quando for
possível entrever algum flanco que o permita (se ele demonstrar, por exemplo,
uma fraqueza ou “frescura”); uma amiga chama a outra de “piranha” por motivos
semelhantes (por exemplo, por ela usar uma roupa mais espalhafatosa ou curta),
sem que nada disso seja um operador crítico em sentido formal (sem nem mesmo se
considerar negativo de fatoo que o outro fez); ou alguém zoa o outro porque
este tenha alguma característica, física ou não, algum estigma (Goffman,_1963),
como chamá-lo de “careca” se ele tiver pouco (ou mesmo se tiver muito) cabelo.
Mas uma coisa é sintetizar a zoação em uma palavra, responsável por concentrar
todo o investimento jocoso; outra, bastante diferente, é a construção de uma
narrativa, uma situação em toda sua complexidade.
Um caso observado a certa distância do calçadão, em um trailerde lanches em
frente à delegacia policial do bairro: um agente da Polícia Civil toma um
refrigerante e come um salgado no meio da tarde, em um rápido intervalo,
conversando com o pesquisador. Ao que passa um veículo da Polícia Militar
lentamente. Ele reconhece o motorista e dispara:
– Aí, ô vagabundo, já foi lá buscar teu arrego23? Tá me devendo
dinheiro, hein!
– Filho da puta! – responde o motorista, que para o carro e dele sai,
deixando-o no meio da rua secundária sob um viaduto diante da
delegacia. Ele se dirige a passos firmes na direção do civil e... dá
nele um abraço. – Seu filho da puta, tu fica aí nessa porra de BO24,
traficando arma de flagrante, e quer tirar onda?
– Tu vai morrer, hein, mermão– grita, de dentro do carro, o colega de
ronda do PM, rindo.
Depois, o agente da lei me diria que nunca poderia falar aquilo a/de um PM se
fosse verdade. Sobre arrego, não se fala assim abertamente, ainda mais se você
é civil e o outro é PM, sobretudo em uma área em que a atividade de milícias é
visada, como aquela região. “Falei pra zoar, porque o cara é meu camarada”, diz
ele, sublinhando a raridade da amizade entre agentes das duas forças e
explicando que eles tinham amigos em comum desde a infância. O caso é revelador
dos limites que podem ser alcançados quando o objetivo é convidar à sociação
por meio de uma “zoada”. Mas ele é mais importante por chamar atenção para o
caráter estético/lúdico do dispositivo: como tal, a zoação apresenta as mesmas
característica da forma-crítica: é preciso apontar um elemento de insatisfação,
um erro supostamente cometido pelo outro, ainda que fictício; e por mais
fantasioso que seja, ele precisa fazer sentido, permitir que “a carapuça
sirva”: não se pode propor uma crítica que não tenha a ver com o ator e/ou com
o contexto, ou seja, é preciso poder mobilizar essas características como
dispositivos elas mesmas. No caso observado, o policial civil inicia o “ataque”
lançando mão de uma acusação clichê (um estereótipo) sobre os policiais
militares, para sublinhar a factibilidade do que diz. Chega a chamar o outro de
“vagabundo”, adjetivo geralmente atribuído a criminosos, colocando no mesmo
saco o policial militar e aqueles que ele deveria perseguir. Igualmente, é
preciso apresentar expressivamente a crítica, “não guardar as coisas para si”,
mostrando indignação, insatisfação. Esta, no entanto, para ser percebida como
jocosa, deve ser modulada pela obviedade de seu caráter frágil: precisa ser
evidentementehiperbólica, evidentementefalsa. Não raro, a zoação nesse modelo
será apresentada já imersa no riso, tornando claro o uso do dispositivo. Além
disso, como vimos, é preciso apresentar provas, acrescentar à narrativa
detalhes, ampliando a comprovação, central na crítica: o zoador diz “Pensa que
eu não sei que vocês vão toda semana lá na [e diz o nome da favela] buscar 40
conto[R$ 40 mil]?” e “Cadê aquela [pistola calibre] 9mm de cabo de ouro que o
[diz o nome do traficante] te deu lá no churrasco?”. Igualmente, as provas
também deverão ser nitidamente hiperbólicas e não poderão deixar dúvida de que
se trata de uma pura zoação.
Um aspecto importante dessa forma mais lúdica do dispositivo é que ela ajuda a
neutralizar analiticamente a ideia da polarização de grandezas como disputa de
poder. Se pode operar como uma distribuição de papéis em uma dramaturgia de
pura demonstração e confirmação de familiaridade, é porque não depende de um
princípio energético que o impulsione como forma pura da dominação. Desse ponto
de vista, a perspectiva situacionista do modelo das EG se comprova ideal para
descrever aquela fenomenologia: é de uma distribuição desigual de grandezase
sua efetivação que se trata.O centro desse tipo de situação não é o conflito
essencial instaurado pelas diferenças disposicionais dos atores, e sim a
complexa mecânica de negociação dispositivamente operada voltada para uma
tendência ao acordo (Boltanski e Thévenot, 1987, 1991). O policial civil
explica:
– Você só pode zoar um cara assim porque vocês dois entendem que o
jogo tá valendo porque todo mundo por perto entende a mesma coisa.
Senão, neguinho ia achar que aquilo ali era cena de filme de caubói,
que o cara joga uma frase de efeito pra chamar o outro pro duelo,
outro morde a isca e sai tiro. Não tava chamando ninguém pra
tiroteio, tava chamando meu camarada pra um abraço, porque ele é tão
meu camarada que eu posso fazer aquilo.
b) Situações em que se mobiliza a zoação para fazer uma crítica
A forma que mais nos interessa aqui é aquela na qual um ator que se sente/diz
ofendido lança mão de uma zoação para dar forma a uma crítica em relação a uma
ação ou grandeza entendida por ele como criticável. Nesse caso, a forma-crítica
tem seus elementos muito mais proeminentes do que a forma-piada.
Por exemplo, vejamos um caso de desavença entre dois balconistas de uma
pastelaria: um deve dinheiro ao outro e “enrola” para pagar, sempre arrumando
uma desculpa. Aqui, a zoação toma a forma de uma “indireta”, lançada na frente
do outro, mas apontada ao patrão:
– Seu Chong [o nome é fictício], o Fulano já te ofereceu o serviço?
– Serviço? – responde o patrão, com sotaque.
– É, ele tá fazendo um bico aí de investidor.
– Qual é, Sicrano, tá me zoando, pô! – protesta o devedor.
– É verdade, Seu Chong, Fulano tá ficando rico aí com esse bico. Tem
dois mêsque ele pegou cem conto[R$ 100] meu e botou nesse fundo aí.
Diz que tá rendendo pacaralho! Já pode fazer a retirada, Fulano?
– Porra, Sicrano!
– Quando puder fazer retirada, me fala! O negócio, Seu Chong, é botar
no fundodo Fulano.
Nessa forma, a operação crítica se baseia em alguns elementos expressos de
comprovação: o valor emprestado, o período sem devolução, a sugestão de que o
tempo deveria se converter em juros (traduzidos aqui como rendimentos de um
fundo de investimentos). Os elementos de justificação estão ali, já que é
demonstrada, com uma série de elementos compreensíveis para os envolvidos, a
falta de legitimidade da grandeza conquistada por Fulano – na forma da posse
indevida do dinheiro do colega. Pode-se dizer que a mensagem, embora cifrada,
foi passada. Mas estão ali também os elementos estéticos centrais da zoação: a
hipérbole (“rendendo pacaralho”; o absurdo de um vendedor de salgados ser
apresentado como investidor; a sugestão de enriquecimento); a construção de uma
punchlinepara promover o tombo moral do colega (na pergunta sobre a
possibilidade de sacar o dinheiro “investido” e, sobretudo, na piada de duplo
sentido sobre “botar no fundo”).
Mas, apesar da forma-crítica aplicada, a situação não evolui para uma discussão
das provas e para a análise da justificação. Sequer evolui para a
accountability, aliás: Fulano não é conduzido a se justificar pelo atraso no
pagamento da dívida. Ele não é conduzido a uma discussão sobre a construção de
uma equivalência baseada em um princípio superior de bem comum. O “mundo
mercantil” (Boltanski e Thévenot, 1991:241-252), que poderia ser ali aplicado,
avaliando a situação por meio de uma lógica racional de preços e que
moralizaria a dívida como uma negatividade, não chega a se consolidar. A
oposição manifestada pelo devedor não é à crítica, é à punchline, ao tratamento
jocoso de seu comportamento, sua ridicularização: “Vou botar é no teufundo,
filho da puta”. E mesmo essa resposta, tão grosseira quanto a própria piada,
não conduz a situação para o uso desproporcional da força física. Não se
discute a dívida e não se discute a piada e a humilhação nela operada. A
jocosidade se sobrepõe às duas discussões.
DISPUTAS DE MARRA
Nossa outra situação-tipo parece se opor à relativa hospitalidade permitida
pela zoação. A marra é, em sua base, uma forma de demonstração de coragem. Mas,
mais que isso, é compreendida como demonstração de empáfia, soberba. Pois,
entendida como dispositivo moral linguageiro em vez de como demonstração de
valor de si e superioridade, a marra parece ser uma estridente exigência de
grandeza moral grande, e quando chega a se tornar elemento de uma disputa, de
não aceitação indignada de uma grandeza moral pequena atribuída pelo outro, com
consequente grandeza grande desse outro, sejam elas justas ou não. As situações
de marra chamam a atenção para uma conversão da disputa envolvida na crítica em
um conflito linguageiro cujos termos são justamente a posições de superioridade
e inferioridade moral propostos pela crítica. Na marra, discute-se não apenas
quem está “certo”; bate-se boca em torno de quem “estámais certo” e quem “éo
mais errado”. Tudo com vistas a definir quem está na posição mais elevada da
disputa de grandezas25.
a) Situações em que se disputa com marra com resultados jocosos
Dois amigos em uma mesa de bar. Fazem parte de um grupo de sete que troca
ideias sobre os mais variados assuntos, configurando uma típica “conversa de
botequim”, isto é, uma conversaçãona qual questões da vida privada se tornam
públicas e vice-versa (Vargas,_2008), de modo que os dois protagonistas, amigos
e colegas de trabalho, se permitem uma troca de gentilezasrelativa a seus
dispositivos de comunicação:
– Pô, cadê o Beltrano? Vou ligar para ele – e pega o celular no
bolso.
– Ué, mas você tem crédito, João? Que milagre, hein? Ah, você vai
ligar a cobrar, só pode.
– Tomar no cu, Pedro, meu telefone é de conta, porra!
– De conta porra nenhuma, teu telefone e daquele tipo pai de santo,
que só recebe.
– Ué, mas quem tem pré-pago é você, cacete!
– É pré-pago, mas pelo menos é [nome da operadora de serviços mais
caros e conhecida por ter a maior cobertura no país]. E o teu, que é?
[nome da operadora de serviços mais baratos].
– É [operadora], mas tenho iPhone, não é essa carroça sua aí. Parece
um Atari [videogame da década de 1980].
– iPhone porra nenhuma, isso aí é o “Ai, ai-Phone”, o “i-pobre”. Se
tu fosse bom, era um [e diz o modelo mais recente do aparelho, em vez
do anterior, que o outro ainda utiliza].
– Ah, tu vai mesmo zoar o meu iPhone tendo esse Gradoente? [alusão à
marca Gradiente].
– Vem cá: pelo menos a conta do telefone você paga? Porque a conta do
bar já tô vendo que tu vai calotear se teu namorado aí, o Beltrano,
não aparecer pra pagar pra você.
A “briga” segue um pouco mais, com mais críticas à qualidade do aparelho e da
linha telefônica e mais questionamentos de masculinidade de parte a parte. A
zoação, que poderia colocar um em posição de superioridade se fosse aceita
passivamente pelo outro, é forçada na direção da horizontalidade, em um
registro segundo o qual a disputa se torna mais lúdica – centrada na
competência de cada um para inventar uma tirada mais divertida – do que
conflitiva. Assim como no caso dos policiais, a disputa de fato converte-se em
disputa puramente esportiva e de inclusão: jogando juntos a brincadeira de
trocar críticas, os amigos sublinham a amizade. E aqui também está ativo o
caráter hiperbólico e/ou explicitamente fantasioso das afirmações – como ao se
dizer que o amigo tem um serviço telefônico que sabidamente ele não tem, ou
desfazer de um aparelho de alto valor ou de uma marca apenas porque seu nome
permita um trocadilho, sem que isso traga contra sua qualidade qualquer crítica
substantiva – isto é, baseada em experiências e provas.
b) Situações em que se mobiliza a marra em disputa com a crítica original
Estamos em outra lanchonete e, na hora do almoço, algumas pessoas se concentram
próximo à entrada, formando uma fila compacta perto do caixa, já que é preciso
pagar antes de consumir. Cada um que conclui o pagamento segue para o balcão
para pedir seu lanche. Um rapaz de cerca de 20 anos de idade passa pelo grupo,
desviando pelo canto da parede. Ele segue até o fundo do balcão e faz o pedido
a uma atendente. Mas antes que se possa acatar qualquer solicitação dele, um
homem de aproximadamente 40 anos, no terceiro lugar da fila, acompanhado da
namorada, lança sobre o jovem uma tentativa de zoação crítica:
– Qual é, meu tio! A fila de idoso é ali do lado, o senhor tem a
preferência.
– Que é que foi, companheiro?
– O senhor quer ajuda? Tô vendo que o senhor tem dificuldade de
andar, nem foi pra fila de idoso... A gente entende.
– Se mete com a tua vida, irmão. Não sou idoso porra nenhuma!
– Ah, desculpa, eu pensei...
– Pensou é o caralho. Você não tem que pagar teu lanche aí, não?
– Tô tentando que nem todo mundo que não tem a prioridade do senhor.
– Vem cá: tu me chama de velho, mas essa mocinha aí não é novinha
demais pra tu, não?
– Pelo menos eu não furo fila na cara de pau.
– E pelo menos eu não tenho a cara de pau que tu tem de pegar a
novinha, ô coroa.
O que se vê é a impossibilidade de aceitação da crítica, e não necessariamente
porque ela seja injusta, ilegítima. Nem entra em questão se o erro apontado na
crítica de fato teve lugar. Como disse antes, o que não é admitido por alguém é
a superioridade moral autoatribuída pelo outro ao tentar promovero tombo
moraldesse mesmo alguém. A zoação, o uso da jocosidade, é aqui lida como forma
de intensificação da humilhação já inscrita na crítica. “Se o cara viesse falar
comigo, tudo bem. Mas chega zoando, humilhando, sem humildade”, diz o rapaz
depois do bate-boca. O momento crítico, que poderia iniciar uma disputa em
torno das comprovações, é deixado de lado para se estabelecer uma discussão
cujo operador é o empoderamento: como dispositivo,a marra se torna uma forma de
construir a si comoo donoda posição, porque os elementos de prova, esses muito
menos explícitos, são mobilizados para dar conta da posição, e não da crítica
original. A condição de “idoso” é a justificativa que o outro poderia dar para
passar à frente se fosse de fato idosoe se houvesse de fato uma fila
preferencial que, ao ser mobilizada quandoé claro que não poderia servir para
sustentaro tom acusatorial do zoador, acaba servindo como prova de que o outro
está errado. A gentileza irônica, cínica mesmo, é um elemento de prova: ela
sublinha que, não sendo idoso, o outro é um aproveitador. Por outro lado, a
mecânica da prova, na disputa de marra, estáa serviço também do zoado: diante
da acusação, ele olha no entorno e é rapidamente capaz de encontrar elementos
para construir sua resposta. Se ele “é” idoso, por sorte o outro tem uma
namorada bonita – e que nem é tão mais nova que ele, aparentando ter pouco mais
de 30 anos – e que pode ser usada para comprovar que, sendo também velho, o
outro não tem estatura moral para criticá-lo. Mas poder-se-ia argumentar: a
acusação não é de ser velho, é de furar fila. Pouco importa: não é de
argumentação racional que se trata. Trata-se de deslocar o momento crítico para
uma disputa em outra geometria, com, como quereriam Schütz_(1943) e Garfinkel_
(1967), outra racionalidade. De qualquer forma, a “mesma moeda” com que se
pagaa agressãoéa “cara de pau”: de furar a fila, de “pegar a novinha”. O que se
segue é que a tradicional turma do deixa dissoarrefece as tensões e a disputa
de marra se conclui sem um vencedor declarado – embora, no final das contas, o
rapaz leve seu lanche para viagem.
Essa velocidade de reação de parte a parte, tanto de construção da zoação
inicial quanto da contrazoação, da tréplica etc. deixa explícitaa forma da
disputa de marra: ela é movida por algo que habitualmente é chamado de
“tirada”. Os atores, de cada lado, constroem frases-bomba26 a serem lançadas
sobre o outro, em geral reconfigurando a presença deste na situação de forma
irônica – contendo a crítica e a punchline, mas de forma mais reativa, mais
mutuamente determinada que na zoação –, caracterizando algo que poderíamos
chamar de uma competência metafórica, uma habilidade de construir uma metáfora
na qual a crítica se encaixe. É o ônibus do caso de Romário, citado na nota
anterior, ou a idade e a fila prioritária no caso da troca de gentilezas na
lanchonete. Essa competência se torna o elemento estético central da disputa,
que depende da troca de tiradas: metaforicamente, cada um vai lançando mão de
sua arma simbólica para emular uma competição que poderia ser operacionalizada
no momento crítico como querela de justiça, mas ali toma forma de uma disputa
em torno de uma competência estéticae metaforicamente esportiva.
ZOAÇÃO E MARRA, CRÍTICA VOICE, A JOCOSIDADE COMO OPERADOR DE UM SLACKCRÍTICO E
A EFETIVIDADE DA INDOLÊNCIA MORAL
O trabalho de Albert Hirschman_(1973) na economia tem se mostrado enormemente
inspirador para a sociologia, em especial para a sociologia da crítica27. Sua
análise de dois tipos de crítica de consumidores a empresas, a exit(saída) e a
voice(voz), constrói uma modelização comportamental dos atores sociais quando
diante de quedas de qualidade (isto é, daquilo que seria o ideal da açãodo ator
criticado) nas produções de entidades (o que pode ser analogicamente observado
em relação a qualquer um de quem se espere algo “bem feito”). No primeiro caso,
os atores dão forma a seu descontentamento rompendo a relação com a empresa e
seguindo para um concorrente – motivo pelo qual é associado diretamente à
economia e à mecânica da concorrência; no outro caso, os atores optam por
manifestar seu descontentamento chamando o fornecedor às vias de fato pela
apresentação expressa de uma crítica – o que oferece a ele oportunidade de
correções.
Pois pensada como veículo da crítica, a jocosidade pode ser lida como voice,
configurando uma voz que investe em si como voz, quase uma metavoice, que trata
da vocalidade, da possibilidade de se lançar a crítica quando houver uma
situação que a possa gerar. É uma tomada da palavra que chama a atenção para
determinados elementos de sua gramaticalidade, permitindo tornar a
agressividade retórica e lúdica acessóriade toda crítica o centro da própria
disputa. O caráter lúdico, esportivo e teatral da voz torna a crítica algo cuja
percepção reflexiva dos atores é inevitável. Se a crítica, quando mobilizada
para fins jocosos, se torna explícita para os próprios atores porque eles
precisam lançar mão de sua gramática para operar a zoação ou dela se defender
na disputa de marra, a jocosidade, quando usada para criticar, torna a crítica
igualmente explícita, porque ela se torna dependente de um mecanismo formal que
a ela conduz. Esse caráter reflexivo reforça ainda mais a afirmação da
capacidade crítica dos atores.
Antes de discutir as formas expressivas da crítica, o trabalho de Hirschman
analisa, como pressuposto, a afirmação de uma característica basal das
economias desenvolvidas quando em situações de concorrência: o fato de o “pleno
emprego” (de recursos) ser uma situação ilusória, o que, no final das contas,
é, economicamente falando, bom. Segundo ele, “o desenvolvimento não depende
tanto de achar combinações ideais para os recursos e fatores de produção dados
quanto de trazer à tona e aplicar para fins econômicos recursos e habilidades
inexplorados, dispersos ou mal utilizados” (1958:5). Essa ideia o leva a
observar um elemento comportamental central nas organizações produtivas: elas
não operam em seus limites máximos nas situações cotidianas. Isso significa
que, nesse cotidiano, esses atores apresentam um apreciável grau de slack, isto
é, de preguiça, indolência, acomodação. E de acordo com Hirschman e Lindblom,
Em qualquer espaço de tempo, os recursos de uma economia não devem
ser considerados tão rigidamente fixos em quantidade, e mais recursos
e fatores de produção entrarão em cena se o desenvolvimento for
marcado por desequilíbrios setoriais que incitem a iniciativa privada
ou as autoridades públicas à ação... Aqui, a hipótese básica é a
existência de certo grau de slackna economia; e, através de
mecanismos de pressão, pode-se extrair dele investimento adicional,
horas de trabalho e produtividade e tomada de decisão (1962:211-212).
O slack, então, representa um duplo estatuto: ao mesmo tempo, negação de
incapacidade cinética e afirmação de energia potencial, que, acumulada, serve
como poupança de um recurso a ser mobilizado em momentos de crise. E a tese de
Hirschman se estende para além da economia – ou melhor, se estende para os
comportamentos dos atores diante do traço universal comportamental que define a
economia, a gestão de recursos escassos. Ora, o pressuposto do modelo das EG é
que as grandezas são distribuídas de forma desigual, como recurso escasso, o
que constitui justamente uma economia, que encontra na crítica o elemento
central de sua operacionalização. A tese de Hirschman, então, é digna de ser
encarada como sociológica. Baseados nela, podemos perguntar: e se pudermos
considerar um slackcrítico, isto é, uma indolência de manifestação de
julgamento? A capacidade crítica é uma faculdade e, como tal, pode ou não ser
mobilizada. E não parece fazer nenhum sentido uma economia crítica de pleno
emprego: é óbvio que as pessoas, na vida social, não criticam tanto quanto
poderiam (Boltanski_e_Chiapello,_1999; Boltanski,_2009). A crítica, assim, pode
ser um recurso poupado para momentos de eventual maior necessidade, mais
oportunos ou simplesmente mais efetivos, sempre construídos de acordo com
disputas localizadas.
A observação da marra e da zoação lança luz sobre a ideia de dispositivo moral.
A categoria soa relativamente redundante, uma vez que, de certo ponto de vista,
todo dispositivo social é moral, já que tem a ver com a efetivação, fenômeno
moral por excelência. Mas sublinhar essa caracterização aponta para como a
moralidade é um elemento potencializador – e não limitador – da vida social
(Werneck,_2014b): trata-se de algo construído para contribuir com a ação, e não
para contê-la. E construir um dispositivo como esse é converter coisas do
mundo, dotadas tanto de características intrínsecas quanto representações que
os atores lhe atribuem, em operadores em funçãode uma situação específica de
direcionamento do bem.
Em um momento em que o sentido é a variável em teste para que uma ação possa
ser efetiva, entra em jogo a questão da actância: o sentido passa a poder ser
lido como uma energia de que os actantes – sejam eles pessoas ou entes não
humanos, como objetos e animais – carecem para se colocar em movimento e fazer
diferença, influenciando as ações uns dos outros. E um dispositivo passa a
representar o elemento mais rico que a metáfora mecanística que lhe nomeia
permite: como máquina, serve para converter uma forma de energia em outra. Daí
zoação e marra se converterem em equipamentos conversores não de outra energia
que não uma energia moral: eles se prestam a estabelecer uma efetividade
crítica sem o gasto de energia demandado pela colocação da forma-crítica em
prática explicitamente na vida moderna, na forma da ruptura chamada momento
crítico. A zoação e a disputa de marra – como a ironia sempre fez (Herzfeld,
1985; Hutcheon,_1995; Colebrook,_2004) – oferecem uma outra língua na qual a
apresentação da insatisfação com a situação e as grandezas relativas dos atores
pudesse ser falada, sem com isso ser preciso falar a língua da crítica. Mas
como dela se aproximam, são, digamos, componentes de um dialeto.
Dessa maneira, a jocosidade parece se configurar como um recurso útil para a
manutenção da potencialidade da crítica: seja na forma lúdica, seja na forma-
crítica, o humor crítico torna explícito o fato de haver um slack. Comoé
lúdico, tem a mesma forma do lazer, e é, digamos, preguiçoso. Uma preguiça
semelhante àquela das crianças que brincam, dos atletas que jogam; uma preguiça
ativa, que gasta energia, mas ainda assim uma indolência, porque não faz parte
da via mais cotidiana de ruptura do cotidiano. Os dois dispositivos que
observamos, assim, servemà crítica ao mesmo tempo como treinamento e aviso:
treinamento para os críticos potenciais e aviso aos criticáveis.
A discussão aqui proposta parte da ideia de disputa para conceber uma
sociabilidade disputada, na qual a vida social pode ser pensada – por
inspiração na perspectiva pragmática (Peirce,_1992, 1998; Mead,_1934) – como
uma temporalidade estendida entre rotina (hábito) e ruptura (questionamento),
sem que os momentos de ruptura descontinuem a malha do social definidora ela
mesma desses polos. A jocosidade, como dispositivo moral, chama a atenção para
uma outra dimensão dessa tópica: sua capacidade de abrir espaço para as
circunstâncias(Werneck,_2012), para aquilo que permite aos atores viver
socialmente sem um imperativo de absoluta coerência contido nas utopias morais
generalizadas, abrindo espaço para o imprevisível, o contingente e, sobretudo,
a criatividade (Joas,_1996).