Classe Social e Deslocamentos de Renda no BrasilClasse Social e Deslocamentos
de Renda no Brasil
Apronunciada desigualdade material existente na sociedade brasileira se espelha
na distribuição de renda pessoal captada em pesquisas domiciliares e mensurada
por diferentes índices sintéticos. Em anos recentes estes indicadores, que
serviram para mostrar esta faceta perversa, têm apontado melhoras na
distribuição da renda disponível para o consumo. Este trabalho pretende
apresentar uma abordagem diferenciada desta questão ao introduzir categorias
sociológicas na análise, indo além do foco na repartição da renda entre
indivíduos ou domicílios, que são tomados como se fossem unidades isoladas e
sem conexões sociais pelo paradigma da renda. A abordagem desenvolvida neste
artigo valoriza a conceituação e mensuração prévia dos determinantes de
resultados fora do controle dos indivíduos, em vez do foco direto nos
resultados em si, como critério fundamental ao tratamento analítico das
manifestações da desigualdade distributiva.
Esta lógica de análise tem servido de denominador comum de sociólogos e
economistas engajados na crítica às insuficiências do "paradigma da renda", que
em grande medida circunscreve a caracterização da desigualdade ao "espaço" dos
resultados expressos numa métrica monetária (Grusky_e_Kanbur,_2006;
Bourguignon,_2006). Ao investigar os problemas suscitados pela identificação da
"classe média", o veterano economista inglês Anthony Atkinson, num movimento
convergente, defendeu a importância de "reintegrar as análises das rendas
pessoais, da posição na divisão do trabalho e da estrutura de propriedade"
(Atkinson_e_Brandolini,_2011). A sociologia conta com um arsenal de teorias e
conceitos que podem ser mobilizados para introduzir as relações sociais entre
grupos no espaço de definição e mensuração da desigualdade (Tilly,_1998). O
enfoque sociológico, por sua vez, deve estar ciente dos limites de se destacar
relações sociais específicas em prejuízo da dimensão multidimensional da
desigualdade. Uma abordagem plena da desigualdade envolve naturalmente o
tratamento amplo dos sistemas multicausais que geram as consequências que a
caracterizam.
A tradição de análise de classes será mobilizada para abordar a dimensão
socioeconômica, estruturada, durável e relacional da desigualdade. Embora o
espaço da desigualdade possa em teoria ser bastante complicado, a análise de
classe supõe que na prática são institucionalizadas combinações em número mais
reduzido de determinados recursos (i.e., ativos) e resultados (i.e., renda)
(Grusky_e_Kanbur,_2006). Na tradição sociológica as noções relacionais de
classe social conectam-se a narrativas acerca das características salientes dos
sistemas de desigualdade econômica e dos mecanismos geradores de renda que
impac-tam nos resultados distributivos. Os privilégios materiais de grupos
privados originam-se da apropriação dos frutos da atividade coordenada de
trabalho ou da restrição do acesso dos outros a recursos produtores de valor
(Tilly,_1998). As desigualdades de bem-estar material e poder social entre
grupos são derivadas do que os seus membros têm e do que fazem com o que têm.
As desigualdades de poderes e direitos sobre os recursos produtores de valor
contribuem para que uma parte da sociedade adquira benefícios oriundos do que
os trabalhadores fazem (exploração) ou do que os excluídos não podem obter
(opressão econômica) (Wright,_2005). A investigação dos condicionamentos dos
fluxos de renda, entre grupos que diferem em termos de posição social
subjacente, definidos a partir de uma teoria sociológica clara e consistente,
pode cobrir aspectos de variação não capturados pelo paradigma da renda e
favorecer o entendimento dos padrões e das mudanças observadas. O recorte de
classe social privilegiado neste artigo não supõe naturalmente a
desqualificação dos poderes causais derivados de outros tipos relevantes de
divisões sociais.
CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA
A distribuição da renda pessoal no Brasil, historicamente muito desigual, foi
se tornando menos desigual em anos recentes. Enquanto a desigualdade de
rendimento das pessoas economicamente ativas diminuiu a partir de 1995, a
desigualdade de rendimento domiciliar per capitadiminuiu apenas a partir de
2001. Apesar do caráter "acentuado" do decréscimo recente, segundo diagnóstico
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em cerca de 90% dos países
para os quais se dispõe de informações as distribuições seriam menos
concentradas do que no Brasil. Mantido o ritmo atual de diminuição da
desigualdade, seriam ainda necessárias quase duas décadas para alcançar um
nível similar à média dos países com o mesmo grau de desenvolvimento do Brasil
(Barros_et_al,_2007, 2010; Hoffmann,_2007; Ipea,_2007).
A melhora na distribuição da renda derivada da atividade de trabalho aparece
como o principal fator contribuinte para a queda da desigualdade. Destaca-se em
segundo lugar o papel da renda não derivada do trabalho associada às
transferências do Estado para a redução da desigualdade (Ipea,_2007:72-73;
Barros_et_al,_2010:47). Economistas do Ipea atribuem ao conjunto das
transferências públicas, que envolvem a seguridade social, os mandamentos
constitucionais e os programas de governo, uma contribuição de um terço para a
redução da desigualdade entre 2001 e 2004. Os três componentes tiveram
contribuições similares, em torno de 10% cada (Ipea,_2007:54).
Uma avaliação de um período mais longo, baseada na decomposição do índice de
Gini, mostra uma contribuição de 21% do Programa Bolsa Família e de 7% do
Benefício de Prestação Continuada (BPC) para a redução da desigualdade entre
1995 e 2004 (Soares_et_al.,_2006:34-36). Reduções nos diferenciais de
rendimentos do trabalho entre municípios pequenos, médios e regiões
metropolitanas têm influído na queda da desigualdade no país (Barros_et_al.,
2010:49). A convergência de renda e a redução da desigualdade entre as regiões
metropolitanas e o restante do país, protagonizada por mudanças na renda do
trabalho, foi responsável por metade da queda da desigualdade na distribuição
nacional da renda domiciliar per capitade 1981 a 2009, segundo a decomposição
do L de Teil, que é particularmente sensível às mudanças na extremidade mais
pobre da distribuição (Souza_e_Osório,_2011). No elenco de fatores
contribuintes para as variações da desigualdade de renda estariam
particularmente educação, raça, programas sociais, região e demografia espacial
(Neri,_2011). A queda da desigualdade de renda no período recente tem uma
relevância substantiva especial tendo em vista a sua trajetória perversa nas
últimas décadas e o patamar elevado em que esta ainda se encontra. Entretanto,
a natureza dos fatores determinantes subjacentes das mudanças da distribuição
de renda, como algo distinto das influências mais imediatas, assim como a
escala e a durabilidade dos processos que alimentariam a sua continuidade,
ainda não foi devidamente conhecida e explicada (Ipea,_2007:78).
Este artigo pretende identificar os principais deslocamentos de renda e
alterações nas recompensas relativas das categorias de classe no período
recente de redução da desigualdade de renda pessoal. A análise almeja verificar
particularmente o papel dos diferentes empregos, ativos produtivos e fatores de
estratificação de classe nas alterações distributivas. Consideram-se igualmente
as implicações potenciais das mudanças operadas para as demarcações e
composições de classe existentes na sociedade brasileira.
Estudos da Desigualdade de Renda: Percursos e Lacunas
A sociologia despertou com certa lentidão para o estudo da desigualdade de
renda contemporânea mesmo em países que têm uma forte tradição de pesquisa em
estratificação social. Nos Estados Unidos esta letargia teve relação com um
processo anterior de mudança de foco do estudo da estrutura (ou grau) da
desigualdade para o processo de seleção dos indivíduos para posições dentro
desta estrutura. Além disso, parte importante do esforço de pesquisa se dirigiu
para o entendimento das discrepâncias entre subgrupos da população,
especialmente raça e gênero, com o foco igualmente nas variações da aquisição
individual do statusocupacional e dos rendimentos. Entretanto, estudos
comparativos na área foram observando que o grau geral de desigualdade de renda
nos países influencia a desigualdade de recompensas entre categorias de
statussocial (Myles_e_Myles,_2007; Kenworthy,_2007:584-587).
A longa tradição de pesquisa da distância média de recompensas entre grupos de
statustem enfrentado nos últimos anos certa estagnação teórica e empírica.
Novas formas de desigualdade estão aumentando a desigualdade dentro dos grupos,
tornando o "alvo" desta pesquisa cada vez mais móvel. Além disso, a distância
de grupo não significa a mesma coisa, nem tem o mesmo tamanho, em diferentes
pontos da dis-tribuição de rendimentos. No novo contexto torna-se ainda mais
importante identificar a desigualdade em diferentes localizações e no conjunto
da distribuição dos rendimentos. Aumentam as vozes defendendo uma agenda
sociológica organizada em torno de um amplo leque de fatores que afetam quem
fica com o que e porque, ou seja, as questões centrais da desigualdade social
(Leicht,_2008).
O aumento inquestionável das disparidades econômicas nos países desenvolvidos
nas últimas décadas deflagrou então pesquisas diversificadas sobre as causas e
consequências destas novas dinâmicas da desigualdade (Neckerman_e_Torche,
2007). Nestes países, o aumento da desigualdade a partir de meados dos anos
1990 tem se caracterizado por um rápido crescimento da renda e da desigualdade
entre os rendimentos mais altos. Interpretações desta nova tendência têm sido
formuladas, porém a maior parte deste aumento da desigualdade no topo permanece
ainda por ser explicada (Lemieux,_2008). A pesquisa sociológica tem se
estendido para domínios conexos, que afetam a distribuição da renda, como
formação de família e compartilhamento de renda, organização corporativa,
sistemas de pagamento por desempenho, política econômica e social (MacCall_e
Percheski,_2010). Na elaboração desta agenda de pesquisas, surgem igualmente
questionamentos acerca da capacidade dos modelos de classe para explicar estes
novos padrões de desigualdade, sob a justificativa de que a maioria das
discrepâncias tem ocorrido dentro dos grupos de classe e ocupacionais
(Kenworthy,_2007; Leicht,_2008). Uma investigação de fôlego nos Estados Unidos,
cobrindo o período de 1973 a 2005, procurou examinar se esta crescente
desigualdade de rendimentos tem enfraquecido ou fortalecido as divisões de
classe. O estudo concluiu que tem aumentado a parceladadesigualdadetotal
queocorreentre as classeseentreasocu-pações que compõem as grandes classes,
enquanto o resíduo da "desigualdade individualizada" está declinando em termos
de tamanho relativo. Esta ascensão da desigualdade gerou uma distribuição de
rendimentos ainda mais "concentrada" (lumpier),com distinções ocu-pacionaisede
classe relativamentemaisfortes(Weeden_et_al.,_2007).
Estudos prévios no Brasil (economia)
Tendo em vista os objetivos da presente investigação, realiza-se uma revisão
seletiva de estudos, a partir dos anos 1980, que exploram determinantes
posicionais da distribuição da renda pessoal no Brasil. Na análise da
desigualdade de rendimentos no país entre 1976 e 1985, Ramos procurou comparar
o modelo de capital humano (variáveis educação e idade, como indicadores de
qualificação e experiência) e o modelo estruturalista (setor, como indicador de
desequilíbrios de mercado, e posição na ocupação, como proxypara posse de
capital). Aplicou aos dados a técnica de decomposição, de modo especial a
decomposição dinâmica (entre dois instantes do tempo), que permite tanto
identificar a importância (bruta e marginal) das variáveis, quanto compreender
melhor a natureza da sua contribuição. A educação responde por 6,2% da variação
da desigualdade no subperíodo de 1977-1981 e 20,5% no de 1981-1985. Já a
posição na ocupação fornece uma contribuição bruta de 24,2% e 21,5% nos
respectivos subperíodos. Em ambos os casos, as mudanças nas rendas relativas
dos diversos grupos - o efeito renda - representaram o fator determinante
crucial;já o papel da realocação da força de trabalho entre os distintos grupos
- o efeito composição - foi bastante reduzido. O estudo destacou os papéis da
distribuição assimétrica da escolaridade e da posse de ativos na reprodução da
desigualdade (Ramos,_1993). Essa linha de análise de decomposição da
desigualdade aplicada a um período mais amplo (1977-1989) trouxe evidências
importantes. A educação contribui em cerca de um terço para a explicação da
desigualdade estática (ano a ano). Já o poder explicativo bruto da educação
sobre as variações da desigualdade no subperíodo de 1985-1989 é de apenas 9,3%.
Emana da análise desse desempenho a conclusão de que "as variações na
concentração de salários estão pouco relacionadas, seja com mudanças na
distribuição de educação, ou com alterações nos respectivos diferenciais de
salário" (Ramos_e_Trindade,_1991:439).
Bonelli_e_Ramos_(1993) analisaram os determinantes da desigualdade entre a
população masculina da área urbana do país de 1977 a 1989. O índice T de Theil
serviu para promover a decomposição estática e dinâmica da desigualdade. A
variável educação se revela a mais importante no plano da desigualdade estática
(em um ponto do tempo), com uma contribuição bruta de 29% a 36%, conforme o
ano, para a explicação da desigualdade total, enquanto a posição na ocupação
responde por um mínimo de 9% e um máximo de 13% da desigualdade. A consideração
dinâmica das mudanças da desigualdade entre 1977 e 1989 faz com que os papéis
se invertam: a contribuição bruta da posição na ocupação se eleva para 25,5% e
a da educação cai para 15%, além de flutuar bastante conforme os subperíodos
considerados. O conjunto dos dados demonstraria a inexistência da "evidência de
que a educação tenha afetado a dinâmica da distribuição de renda de uma forma
consistente ou sistemática" (ibidem:92). Estudo da desigualdade dos anos 1990
registra uma contribuição bruta (isolada) da educação de 70% entre 1992 e 1997,
sem considerar na partição a contribuição de outras variáveis, mas não faz o
mesmo procedimento para a posição na ocupação, e não oferece nenhuma explicação
para a discrepância em relação às evidências anteriores (Ramos_e_Vieira,_2000:
166).
Por fim, uma análise realizada no período mais recente de redução da
desigualdade desconsidera o método de decomposição dinâmica das mudanças da
desigualdade, apresentando resultados apenas da decomposição estática em anos
selecionados, o que compromete um entendimento mais adequado dos processos
subjacentes. As contribuições marginais da educação e da posição da ocupação,
ou seja, as contribuições adicionais à partição que já contêm as demais
variáveis, pouco mudam de 1995 a 2005, ficando respectivamente em 24,1% e 9,3%
ao final do período (Ramos,_2007:278). Estudo da contribuição das várias fontes
de renda para a desigualdade demonstrou que a renda dos empregadores é a mais
regressiva, pois o seu impacto no índice de Gini (15,5%) supera bastante a sua
participação na renda total (10,0%) em 2007. A contribuição da renda dos
empregados, exclusive servidores públicos, mostra um quadro oposto (33,1% no
Gini versus40,5% da renda) (Hoffmann,_2009:221). Merece destaque a constatação
empírica, particularmente em estudos do período de aumento da desigualdade de
renda, de que a "posição na ocupação" jogou um peso importante na explicação
das mudanças no conjunto da distribuição de renda. O uso deste indicador
relativamente elementar revelou o potencial que as demarcações estruturais
podem trazer para uma representação mais adequada dos fatores constituintes da
desigualdade de renda no país.
Estudos prévios no Brasil (sociologia)
A literatura sociológica no Brasil assistiu à trajetória de ascensão,
persistência em patamar elevado e diminuição recente da desigualdade de renda
como se este fenômeno estivesse fora da sua área de competência e interesse
disciplinar. Não trouxe para a sua agenda a questão da distribuição desigual da
renda e, ligado a ela, o tratamento dos determinantes de classe e dos
mecanismos geradores das desigualdades de recompensas constatadas. Este quadro
se alterou um pouco nos últimos dez anos. A investigação da desigualdade de
renda centrada na noção de classe social ou ocupacional, em levantamentos de
dados, pressupõe a criação de uma tipologiaque sirva para classificar os casos
a serem comparados. Três estudos sociológicos de publicação mais recente
compartilham o interesse analítico pela questão da desigualdade de renda e a
opção pelo uso de uma tipologia de classe ou sócio-ocupacional como instrumento
de análise dos levantamentos de dados produzidos pelas estatísticas nacionais.
Parte importante da investigação empírica do livro Estrutura de Posições de
Classe no Brasil,além do desenho e mapeamento de classes, volta-se para
demonstrar o efeito intrínseco das posições de classe na renda, ou seja, ofato
de que a renda que a pessoa obtém depende da posição ocupada na estrutura
social. Investiga-se a importância relativa dos efeitos sobre a renda entre a
posição de classe e o capital humano. A posição de classe revela um poder
explicativo de quase 39% da renda das pessoas de referência da família. Além
disso, a introdução da posição de classe promove sempre acréscimos
significativos de poder explicativo nos modelos de determinação de renda. A
renda pessoal se mantém polarizada entre os extremos da estrutura de classe, ao
serem controladas outras variáveis relevantes, e cresce de forma ordenada nas
principais dimensões de diferenciação de classe: ativos de capital, autoridade
e ativos de qualificação. Avaliam-se igualmente os efeitos intergeracionais da
origem de classe na renda dos indivíduos. A educação e a posição de classe
adquirida, ao promoverem de forma extremamente forte a redução do efeito de
origem na renda, revelam-se como importantes fatores mediadores
intergeracionais da realização de renda. Entretanto, persiste um ponderável
efeito direto da origem na renda, ou seja, um efeito não mediado pelo sistema
educacional e pela aquisição da posição de classe atual. Por fim, o trabalho
envereda pela problemática das relações causais mediadoras ao procurar
demonstrar que a posição de classe gera diferenças no porte relativo ou sentido
da associação entre as variáveis educação e renda. O conjunto dos resultados
ratifica a hipótese geral de que as propriedades das posições e dos segmentos
de classe condicionam o modo e a dimensão em que a educação se associa com
ganhos adicionais de renda (Figueiredo_Santos,_2002).
Ao focalizar a evolução das desigualdades entre grupos sociologicamente
relevantes, com o uso de uma tipologia de estratos ocupacionais, Valle Silva
forneceu um quadro do jogo diferenciado de perdas e ganhos que resultou em
mudanças relevantes na estrutura das desigualdades entre estratos ocupacionais
no período de 1992 a 1999. Os ganhos obtidos pelas ocupações situadas na base
da hierarquia, ao suplantarem aqueles conquistados no topo da pirâmide, geraram
uma redução significativa na desigualdade de rendimentos entre os estratos
ocupacionais. Entretanto, a tendência à redução da diferença entre grupos, além
de não ter revertido um quadro ainda preponderante de imensas desigualdades,
teria se combinado no período com um aumento das diferenças intragrupos (Valle
Silva,_2003a).
Por fim, estudo comparativo do papel de classe social e educação na
desigualdade de renda no Brasil mostrou que as categorias da tipologia de
classes usada neste artigo têm um poder explicativo bem maior (40% em 2011)
sobre os níveisde desigualdade (decomposição do índice L de Theil) do que as
divisões entre os grupos educacionais (30%). Além disso, como os dois fatores
juntos respondem por 46% da desigualdade total, isto significa que as
categorias de classe acrescentam bem mais explicação aos efeitos dos grupos
educacionais do que o inverso, demonstrando que a tipologia capta outras
dimensões da estrutura social, como capital e autoridade, que são bastante
importantes para entender a distribuição da renda no país. A variação
(diminuição) da desigualdade de renda entre 2002 e 2011 foi mais afetada por
educação do que por classe social. Em termos de pesos relativos, o percentual
das desigualdades explicado pela educação cai abruptamente, porém o das
variáveis de classe permanece constante (Souza_e_Carvalhaes,_2014).
METODOLOGIA: CONCEITOS, INDICADORES E MÉTODOS
Variável independente focal
Na classificação socioeconômica utilizada neste estudo a noção de classe é
definida e mensurada basicamente em termos de relações de propriedade. As
classes sociais são constituídas por desigualdades de direitos e poderes sobre
recursos produtores de valor que geram vantagens e desvantagens entre os grupos
(Wright,_1997 e 2005). As desigualdades de resultados que emergem entre as
classes definidas em termos de relações de propriedade podem ser deduzidas da
assimetria prévia na distribuição dos ativos (Roemer,_1988). As classes são
representadas como divisões ou "descontinuidades" na sociedade que afetam o
poder social e as chances de vida dos seus ocupantes. Estas categorias são
concebidas como um conjunto de posições estruturais que existem num ordenamento
relacional. Na delimitação das posições dentro da estrutura social o esquema de
classe valoriza as dimensões de propriedade, autoridade e perícia profissional,
escolha que reflete e suporta uma convergência teórica presente nos estudos de
classe. As relações de propriedade capitalista ficam claramente demarcadas
quando se trata de definir as posições de classe mais privilegiadas. O esquema
contempla o tratamento da heterogeneidade associada ao estiramento da base da
estrutura social brasileira.
Encontra-se nessa classificação uma sensibilidade sociológica ao entendimento
da particularidade da configuração social do país. A abordagem de classe social
baseada no controle de ativos fornece um conceito unificado que permite pensar
a diversidade de circunstâncias e relações que afetam o poder social e as
chances de vida das pessoas. O princípio teórico de exclusão do controle de
ativos ou recursos econômicos unifica a noção de posições destituídas de classe
e, ao mesmo tempo, serve para especificar os processos que geram destituição.
Os mecanismos de exclusão e depreciação de ativos, nas suas várias
manifestações, como ativos de capital, terra, qualificação, emprego e força de
trabalho, servem à demarcação, por exemplo, das categorias de autônomos
precários e trabalhadores elementares. Não são usados na construção desta
tipologia critérios distintos do conceito de classe social, como ramos de
atividade econômica e escolaridade individual. O autônomo agrícola se
caracteriza por controlar um tipo específico de ativo produtivo (terra). O
agrícola precário foi diferenciado por ter terra insuficiente, ser posseiro ou
vender a produção apenas em mercados locais (consumidor direto). Todos os
empregadores envolvem indistintamente atividades agrícolas e não agrícolas
(Figueiredo_Santos,_2005, 2010).
A classificação ocupacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) até o final dos anos 1990 incorporava "em certa medida, outros critérios
não estritamente ocupacionais, sendo possível, por vezes, distinções por ramo
de atividade ou posição na ocupação" (Valle Silva, 2003b:50). Entretanto, a
partir do Censo de 2000 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
de 2002, com a adoção da CBO-Domiciliar, que segue mais de perto a
classificação internacional ISCO-88, o sistema se tornou mais puramente
ocupacional, demandando com mais ênfase informações adicionais para uma melhor
aproximação da noção de classe social. A capacidade deste esquema de classe de
explicar desigualdades de recompensas é enriquecida pela conjugação de
informações sobre o statusdos empregos, os empreendimentos e os ativos
controlados.
Além disso, a estratégia teórica e empírica de construção da tipologia
restringe o impacto da informação puramente ocupacional, que sofreu uma
alteração profunda a partir da PNAD de 2002. Todos os empregadores e os
autônomos, de vários tipos, assim como os empregados domésticos, que
correspondem juntos a 32% da estrutura social em 2011, são diferenciados usando
dados sobre o statusdo emprego e os recursos dos empreendimentos, a depender do
caso, que não foram alterados nas PNADs a partir 1992, ou seja, dentro do
período de queda da desigualdade. Os problemas maiores de compatibilidade
devido ao uso de informação ocupacional estão circunscritos às categorias que
controlam qualificação escassa (especialista, autônomo especialista e empregado
qualificado) e exercem autoridade (gerente e supervisor), que perfazem 18,2% da
distribuição de classe1. Ao serem comparadas as distribuições entre 2001 e
2002, as alterações na classificação dos grupos ocupacionais promovidas pela
PNAD de 2002 em diante afetam nesta tipologia particularmente o tamanho
relativo das categorias próximas de empregado qualificado e trabalhador típico.
A categoria de empregado qualificado passou de 4,4% em 2001 (antes da mudança)
para 7,3% em 2002, enquanto o trabalhador típico se reduziu de 38,2% para 34,2%
no mesmo período. Os pesos das demais categorias foram pouco afetados pelas
alterações, o que garante uma boa comparabilidade da tipologia de classes mesmo
neste universo cuja operacionalização depende dos grupos ocupacionais.
Modelos estatísticos, variáveis de controle, período e unidade de análise
A regressão quantílica foi utilizada para calcular as medianas ajustadas de
todas as categorias. A regressão mediana reflete melhor a mudança de
localização central para a distribuição da renda que é altamente assimétrica ou
desequilibrada à direita, ou seja, na direção dos valores mais elevados. O uso
da mediana justifica-se por captar melhor o que se passa com a experiência da
maioria dos membros das categorias (Hao_e_Naiman,_2007). Esta medida sumária
minimiza as distâncias absolutas em relação ao centro da distribuição, de modo
que os casos se mostram mais próximos ou menos distantes deste valor. Além
disso, por estar sendo feita uma comparação com o ano de 1992, de inflação
muito elevada, a mediana representa uma medida bem menos sensível a problemas
de mensuração associados à flutuação inflacio-nária, ou seja, a uma variação
espúria e extrema de valores que distorceriam o "centro real" da distribuição.
Como estão sendo estimadas rendas típicas dos grupos, menos heterogêneos do que
a população, esta propriedade da mediana protege ainda mais as estimativas de
possíveis distorções.
Os valores ajustados foram usados para calcular as distâncias proporcionais
(desigualdade relativa) sem a necessidade de recorrer à transformação
logarítmica da variável dependente. As estimativas realizadas baseiam-se na
distribuição efetivamente existente da renda. Os valores ajustados em reais
foram obtidos com o procedimento "predxcat", criado por J. M. Garrett, que é
incorporado ao ambiente do programa Stata. Foram calculados os intervalos de
confiança (IC) ao nível de 99% e aplicados testes de diferenças entre as
medianas ajustadas (vide Tabela_A anexa). Os pesos amostrais foram usados em
todos os processamentos. O Stata ajusta os pesos usados (pweights) ao tamanho
efetivo da amostra, de maneira a não interferir nos parâmetros estimados e nos
erros-padrões. Foram consideradas nos modelos estatísticos, com o intuito de
ajustar as estimativas e de estabelecer comparações, as contribuições de
covariáveis independentes que estão associadas às circunstâncias de classe e à
determinação da renda. Os modelos com controles incorporam as variáveis raça,
gênero, setor econômico, região geográfica, dimensão da área urbana, tempo de
trabalho, horas trabalhadas e, em parte das estimativas, educação. Sexo foi
incluído como variável binária. Raça diferencia o grupo branco e o não branco.
Foram seis os setores econômicos considerados (indústria de transformação,
indústria extrativa, serviços produtivos, serviços de distribuição, serviços
sociais e serviços pessoais). As regiões envolvem Sudeste, Sul, Nordeste,
Centro-Oeste e Norte. A dimensão da área urbana demarca região metropolitana,
municípios autorrepresentativos (proxypara médio porte) e demais municípios. O
tempo de trabalho foi estimado pela idade atual diminuída da idade quando a
pessoa começou a trabalhar. As horas de trabalho na semana são relativas ao
trabalho principal, por motivo de ajuste com a renda. A variável educação
distingue as demarcações principais na aquisição da escolaridade no país: de 0
a 7 anos (inferior ao fundamental), 8 a 10 anos (fundamental completo), 11 anos
(segundo grau completo), 12 a 14 anos (superior incompleto) e 15 anos ou mais
(superior completo).
A escolha da unidade de análise depende da medida de situação econômica que
está sendo utilizada. A definição do indivíduo como unidade de análise parece
ser mais apropriada para examinar a relação entre estrutura de classe e
desigualdade de rendimentos (Wolff_e_Zacharias,_2013:1388). Tendo em vista que
a classificação socioeconômica para o Brasil foi construída com base em
informações sobre o trabalho principal, a variável dependente será a renda do
trabalho principal, por motivo de ajuste. A renda do trabalho foi expressa em
valores de 2011 usando deflatores baseados no Índice Nacional de Preços ao
Consumidor (INPC), com ajustes na transição para o Plano Real (Corseuil_e
Foguel,_2002). Foi escolhido o ano-base de 1992 visando ampliar a comparação
temporal para o contexto de desigualdade anterior à estabilização monetária. O
ano intermediário de 2002 for incorporado visando focalizar o período em que a
redução da desigualdade foi maior e mais consistente. Além disso, por ser o ano
de alteração do sistema ocupacional da PNAD, oferece uma comparação mais limpa
de ruídos de mensuração com o presente.
Estratégia de análise
O estudo combina o uso de medidas de diferenças observadas e de diferenças
ajustadas por regressão quantílica. A análise das mudanças na desigualdade de
renda no Brasil pode se beneficiar do uso de medidas descritivas que se
"distanciam" menos dos dados originais. As diferenças observadas refletem a
situação das pessoas concretas e não são afetadas pela modelização estatística
do comportamento da mensuração na população. As divisões de classe envolvem o
controle de recursos produtores de valor e os mecanismos de formação da renda.
As categorias de classe estão sendo mensuradas como posições relativas na
estrutura do emprego. A noção de emprego focaliza a atividade empreendida e sua
relação com as demais atividades dentro da organização social do trabalho. O
elo entre emprego e fluxo de renda é relativamente direto, contíguo e
temporalmente direcionado. Faz bastante sentido supor a existência neste elo de
uma influência dominante que vai do emprego para a renda. Entretanto, mesmo as
diferenças de renda observadas entre as categorias de classe social não
demonstram por si só relações inerentes, pois refletem o resultado agregado de
um feixe de múltiplas influências na renda das pessoas. "O concreto é
concreto", enfatizou Marx, "porque é a síntese de muitas determinações, isto é,
a unidade do diverso" (Marx,_1974:122). A geração de "experimentos
estatísticos" para o cálculo de efeitos ajustados ajuda a isolar e especificar
os fatores responsáveis pelos resultados encontrados.
A análise da desigualdade entre os grupos envolve naturalmente a comparação das
diferenças de renda. A comparação vai ser feita tanto em termos de diferenças
absolutas quanto de diferenças relativas. As diferenças absolutas medem as
distâncias por subtração ou adição entre os rendimentos, mostrando o quanto um
grupo ganha a menos ou a mais em valores monetários concretos. As diferenças
relativas medem uma razão ou proporção entre os rendimentos. As medidas
econômicas mais famosas de desigualdade, baseadas em certas propriedades
axiomáticas, captam apenas alterações na desigualdade relativa, mas é
recomendável analisar os dados de ambas as formas.
Desigualdade relativa e absoluta são dois conceitos diferentes de desigualdade
e não dois modos de medir a mesma coisa. A noção canônica de desigualdade
relativa é baseada em metodologia axiomática, e não em teoria econômica. O
significado das comparações depende criticamente da base axiomática
especificada para a regra de comparação da desigualdade. Quando a renda aumenta
para todos na mesma proporção, a desigualdade relativa não se altera, pois ela
depende estritamente das razões da renda individual em relação à média.
Entretanto, o padrão de desigualdade existente faz com que as mudanças
proporcionalmente "neutras" aumentem a desigualdade absoluta. Os ricos são mais
beneficiados justamente por terem sido colocados num patamar de renda maior. As
preocupações cotidianas das pessoas com justiça distributiva são motivadas mais
pela desigualdade absoluta. Um amplo estudo com grupos de estudantes de
diferentes países mostrou que 40% dos participantes concebem a desigualdade em
termos absolutos (Medeiros,_2012; Ravallion,_2004; Amiel_e_Cowell,_1999).
Foram escolhidos como grupos de comparação, na análise das distâncias de renda
entre as categorias, o bloco de posições privilegiadas e o de posições
destituídas. O bloco privilegiado é composto por capitalista, especialista
autônomo, gerente e empregado especialista. O bloco destituído abarca
trabalhador elementar, autônomo precário, empregado doméstico e agrícola
precário. Esta comparação usada de forma combinada mostra-se bem representativa
por envolver ambos os polos da estrutura social. Além disso, como a
desigualdade da renda pessoal está em queda no país, supõe-se então que as
posições privilegiadas estejam perdendo renda e as destituídas estejam ganhando
renda. Comparações teoricamente orientadas foram feitas recorrendo-se à seleção
de contrastes de classe cujos resultados mostram-se mais associados e mais
exemplificativos das dimensões de propriedade, autoridade e credenciais da
estrutura social.
MUDANÇAS DE RENDA OBSERVADAS
A consideração das alterações na estrutura de posições de classe e dos
deslocamentos da renda entre as categorias de classe permite fazer uma primeira
aproximação do problema da pesquisa. A Tabela_1 situa a evolução da estrutura
de classe no período, pois as mudanças no peso relativo das categorias, que são
desigualmente recompensadas, influencia o comportamento da distribuição da
renda. Apresenta-se igualmente o montante apropriado da renda ponderado pelo
peso demográfico da categoria. O indicador afere a proporção da renda que fica
com uma dada proporção da população que integra cada categoria, o que
representa uma informação diferenciada em comparação ao uso de medidas
sumárias, que expressam valores típicos, como média e mediana. Os valores
computados significam que a categoria se apropria de um montante equivalente a
X vezes o seu peso na população.
Tabela 1 Distribuição da População e Relação Renda Apropriada/População nas
Categorias de Classe (Brasil, 1992-2011)
Categorias de População Renda/População
Classe =============================== =============================
1992 2002 2011 1992 2002 2011
Capitalista e 0,54 0,58 0,58 6,48 6,24 5,76
fazendeiro
Especialista 0,58 1,12 1,26 3,98 3,69 2,89
autônomo
Gerente 2,25 2,79 2,47 3,10 2,85 2,56
Empregado 2,52 3,57 5,07 3,55 3,22 2,64
especialista
Pequeno 3,74 4,00 2,93 2,49 2,59 2,20
empregador
Autônomo com 6,78 7,46 7,22 1,41 1,22 1,17
ativos
Autônomo agrícol5,31 4,32 3,13 0,51 0,47 0,57
Empregado 3,95 7,33 7,72 1,71 1,33 1,18
qualificado
Supervisor 1,68 1,77 1,43 2,29 1,40 1,55
Trabalhador 37,00 33,90 39,46 0,91 0,76 0,76
típico
Trabalhador 14,24 11,81 10,01 0,37 0,38 0,48
elementar
Autônomo precári10,46 10,78 9,55 0,64 0,58 0,67
Empregado 7,97 8,74 7,78 0,30 0,35 0,40
doméstico
Agrícola precári2,98 1,84 1,39 0,22 0,20 0,25
Fonte: IBGE. PNADs 1992 e 2011-Microdados. Brasil, sem Norte rural, exceto
Tocantins.
O topo privilegiado da estrutura social aumentou de 8,1% em 2002 para 9,4% em
2011 essencialmente por conta da expansão dos especialistas. A base destituída
decresceu no mesmo período de 33,2% para 28,7% com a retração de todas as
categorias que a compõe. Entre as posições de classe destaca-se a
expansãodoempregadoespecialista,que recebe mais renda, e o avanço do
trabalhador típico, cuja renda está próxima da mediana. Todas as categorias
mais privilegiadas perderam renda relativa à população que abarcam. Categoria
de grande densidade social, o trabalhador típico perdeu terreno na apropriação
proporcional da renda em comparação a 1992 e ficou em situação estagnada no
período pós-2002. As três principais categorias da base destituída, em termos
do seu peso populacional, ampliaram a sua participação na fatia ponderada da
renda total.
A Tabela_2 revela as alterações que se deram no período no nível típico de
renda de cada grupo. Além dos valores da mediana, registra-se o quanto a renda
de cada categoria se desvia em termos percentuais da mediana total. Ao se
diminuir a renda da categoria pela mediana total e se realizar a divisão do
resultado pelo mesmo total o valor, diferente de zero equivale ao desvio
positivo ou negativo do centro da distribuição. O valor zero representa a
equivalência ou ausência de desvio do valor central. São mostradas as
alterações no tempo nas distâncias de renda em relação ao patamar móvel da
renda que está tipicamente disponível. Esta forma de comparação serve para
captar mudanças da desigualdade de renda visto que esta cresce quando os grupos
se distanciam e decresce quando os grupos se aproximam do centro da
distribuição (Amiel_e_Cowell,_1999:10). Todas as posições mais privilegiadas,
do capitalista ao empregado especialista, viram a sua renda mediana se encolher
em relação à mediana total. A retração relativa do desvio no período pós-2002
variou de -26% para o capitalista a -45% para ambos os especialistas.
Tabela 2 - Renda Mediana e Desvio Percentual em Relação à Mediana Total por
Categorias de Classe (Brasil, 1992-2011)
Categorias de Mediana em R$ de 2011 Desvio % da Mediana Total
Classe =============================== =================================
1992 2002 2011 1992 2002 2011
Capitalista e 4300 4615 5000 599,2 712,5 525,0
fazendeiro
Especialista 3440 3373 3000 459,3 493,8 275,0
autônomo
Gerente 1978 1953 2100 338,0 243,8 162,5
Empregado 2694 2485 2300 338,0 337,5 187,5
especialista
(Topo (2580) (2627) (2500) (319,5) (362,5) (212,5)
privilegiado)
Pequeno 1720 1775 2000 179,7 212,5 150,0
empregador
Autônomo com 1032 888 1000 67,8 56,3 25,0
ativos
Autônomo 430 355 450 -30,1 -37,5 -43,8
agrícola
Empregado 1376 1065 1200 123,7 87,5 50,0
qualificado
Supervisor 1892 1065 1500 207,6 87,5 87,5
Trabalhador 692 639 800 12,5 13,5 0,0
típico
Trabalhador 447 355 545 -27,3 -37,5 -31,9
elementar
Autônomo 464 426 600 -24,6 -25,0 -25,0
precário
Empregado 275 355 545 -55,3 -37,5 -31,9
doméstico
Agrícola 249 178 200 -59,5 -68,7 -75,0
precário
(Base (430) (355) (545) (-30,1) (-37,5) (-31,9)
destituída)
Mediana Total 615 568 800
Fonte: IBGE. PNADs 1992 e 2011 - Microdados. Brasil, sem Norte rural, exceto
Tocantins. Desvio: (Cat.-Total) /Total.
A renda mediana do pequeno empregador, que se aproxima do bloco privilegiado,
teve um retrocesso relativo de -29% da distância do centro. A situação mostra-
se bem menos desfavorável para ambos os empregadores na comparação com 1992. Os
estratos intermediários, que controlam capital, terra ou qualificação escassa,
não se saíram bem, pois os desvios positivos da mediana total diminuíram
(autônomo com ativos e empregado qualificado) e os negativos aumentaram
(autônomo agrícola). O grande conjunto formado pelo trabalhador típico viu a
sua renda se igualar à mediana (desvio zero), perdendo certa diferença positiva
do passado. Na base da estrutura social ocorreu uma redução dos desvios
negativos, na comparação com 2002, sendo que este processo foi claramente
dominado pelo desempenho do empregado doméstico e do trabalhador elementar
(categorias assalariadas).
As mudanças para o conjunto do bloco destituído foram exatamente iguais às
experimentadas por ambas as categorias. Entretanto, na comparação com 1992, a
mudança não é favorável ao conjunto, sendo que apenas o empregado doméstico
diminuiu a distância de renda. No quadro composto pela evolução dos desvios de
renda, a partir de 2002, os retrocessos relativos das posições mais
privilegiadas foram mais pronunciados (-29,4% para o bloco) do que os
progressos relativos das posições destituídas (+14,9% para o bloco).
MUDANÇAS NAS MEDIANAS AJUSTADAS
A Tabela_3 apresenta as mudanças da localização central da renda com o controle
de um amplo leque de variáveis com impacto relevante na renda. São mostradas
separadamente as estimativas com e sem o controle da educação. Todos os
resultados apresentados são baseados nos valores preditos das medianas que
foram ajustados por regressão quantílica. Foram calculadas as diferenças
absolutas, por subtração, entre as medianas das categorias designadas e da base
destituída ou do topo privilegiado. Este duplo termo de comparação justifica-se
por ser mais representativo na medida em que é feito com os blocos de classe
situados em ambos os polos da estrutura social. São reproduzidas igualmente as
medianas dos dois blocos de comparação. Deste modo, pode-se, numa conta
simples, retornar aos valores preditos originais de cada categoria. Na Tabela
A, do Anexo, estão todos os valores preditos com os respectivos intervalos de
confiança ao nível de 99%. A inspeção dos erros-padrões e dos intervalos não
sugere a existência de alguma preocupação razoável com a precisão e a confiança
das estimativas.
Tabela 3 Diferenças Absolutas (-) entre as Medianas Ajustadas (R$ 2011) das
Categorias Designadas e da Base Destituída ou do Topo Privilegiado (Brasil,
1992-2011) Regressão Quantílica com Controles
Categorias de Dif. Sem Controle de EducaçãoDif. com Controle de Educação
Classe ============================== ==============================
1992 2002 2011 1992 2002 2011
Capitalista 3689 4271 4310 3197 3478 4003
Especialista 2413 2564 2251 1296 1494 1510
autônomo
Gerente 1339 1388 1396 889 964 1029
Empregado 2000 1907 1681 1004 921 1036
especialista
Pequeno 1306 1207 1311 1075 1039 1151
empregador
Mediana da Base 511 463 645 654 604 775
Autônomo com -1421 -1623 -1453 -762 -901 -961
ativos
Autônomo agrícol-1812 -1958 -1898 -1047 -1176 -1336
Empregado -1091 -1414 -1278 -694 -899 -965
qualificado
Supervisor -674 -1490 -1056 -125 -784 -633
Trabalhador -1692 -1780 -1637 -984 -1034 -1120
típico
Trabalhador -1900 -1957 -1828 -1107 -1150 -1547
elementar
Autônomo precári-1810 -1880 -1730 -1071 -1104 -1184
Empregado -1847 -1853 -1726 -1083 -1056 -1160
doméstico
Agrícola precári-1874 -2013 -2011 -1100 -1228 -1445
Mediana do Topo 2373 2374 2425 1744 1721 1985
Diferença Topo- 1862 1911 1780 1090 1117 1210
Base
Nota: Medianas ajustadas em R$ 2011, IC 99% e ajustes dos modelos encontram-se
no Anexo.
A interpretação dos dados será feita com foco especial no período recente pós-
2002, quando a queda da desigualdade foi maior e mais consistente. Referências
complementares serão feitas ao conjunto do período. Na comparação entre as
categorias do topo e a renda da base destituída agregada, os modelos sem o
controle de educação mostram uma queda das vantagens absolutas dos
especialistas e um ligeiro aumento ou estabilidade das vantagens dos grupos que
controlam capitais ou exercem autoridade. Os modelos com o controle de educação
fazem com que as vantagens de todos os grupos privilegiados aumentem no curso
do tempo. Em três grupos a ampliação das diferenças absolutas fica maior na
comparação com 1992.
Na comparação com a renda do agregado privilegiado, as demais categorias
revelam nos modelos sem o controle de educação uma diminuição das diferenças
absolutas. A redução em relação ao trabalhador típico foi de 143 reais. Sem o
controle de educação, a diferença absoluta topo-basesofreu no agregado uma
diminuição de 131 reais. Os modelos com o controle de educação produzem, regra
geral, um aumento das desvantagens em relação ao bloco privilegiado. Este
processo se dá também na comparação com 1992. O controle da educação parece
subestimar a renda dos especialistas e, ao fazer isso, transforma a diminuição
constatada em aumento das diferenças absolutas. A introdução do controle
promove um tipo de "experimento estatístico" cuja implicação precisa ser
avaliada. Estimam-se as distâncias de renda na suposição de que as posições de
classe comparadas tenham exatamente a mesma distribuiçãodos indivíduos entre as
categorias educacionais (Wright,_1979:135). O procedimento compõe um cenário
não realista ao ajustar as rendas à situação hipotética de que os empregos de
especialistas são indiferentes à posse de educação superior. Embora tenham sido
caracterizadas exclusivamente pelo statusdo emprego e pelos grupos ocupacionais
estas categorias estão estreitamente associadas à aquisição educacional. A
realização da comparação com o controle de educação torna-se ainda mais
problemática tendo em vista que os especialistas aumentaram fortemente o seu
peso demográfico no topo da estrutura social. As duas categorias somadas
evoluíram no período pós-2002 de 4,7% para 6,3%, perfazendo hoje 67% do topo
privilegiado.
Na Tabela_4, passa-se à consideração das distâncias relativas ou proporcionais
entre as categorias. Estas estão expressas nas razões entre as respectivas
medianas ajustadas. Foram utilizados igualmente como referências de comparação
os agregados das categorias do topo privilegiado e da base destituída. O quadro
composto mostra uma queda ponderável das vantagens proporcionais do topo da
estrutura social. O controle da educação reduz e relativiza bastante a dimensão
desta queda. Deve ser baseada neste modelo a avaliação final da mudança para
quem controla capital e exerce autoridade. Entretanto, as situações dos
especialistas são contempladas de modo mais adequado pela escolha do modelo sem
o controle da educação.
Tabela 4 - Razão ou Distância Proporcional (%) entre as Medianas Ajustadas das
Categorias Designadas e da Base Destituída ou do Topo Privilegiado (Brasil,
1992-2011) Regressão Quantílica com Controles
Categorias de Sem Controle Educação Controle Educação
Classe ============================= =============================
1992 2002 2011 1992 2002 2011
Categoria/Base Destituída
Capitalista 822 1022 767 589 676 617
Especialista 579 654 449 298 347 294
autônomo
Gerente 362 400 316 236 260 233
Empregado 491 512 361 254 252 234
especialista
Pequeno empregador 356 361 303 265 272 249
Categoria/Topo Privilegiado
Autônomo com ativos40,1 31,6 40,1 56,3 47,6 51,6
Autônomo agrícola 23,6 17,5 21,7 40,0 31,7 32,7
Empregado 54,1 40,4 47,3 60,2 47,8 51,4
qualificado
Supervisor 71,6 37,2 56,5 92,8 54,4 68,1
Trabalhador típico 28,7 25,0 32,5 43,6 39,9 43,6
Trabalhador 19,9 17,6 24,6 36,5 33,2 37,2
elementar
Autônomo precário 23,7 20,8 28,7 38,6 35,9 40,4
Empregado doméstico22,2 21,9 28,8 37,9 38,6 41,6
Agrícola precário 18,9 15,2 17,1 36,9 28,6 27,2
Base Destituída 21,5 19,5 26,6 37,5 35,1 39,0
Nota: Medianas ajustadas em R$ 2011, IC 99% e ajuste do modelo encontram-se no
Anexo.
Na parte inferior da Tabela_4 as medianas ajustadas das categorias estão
expressas como uma porcentagem da renda do agregado privilegiado. No período
pós-2002, esta defasagem proporcional se reduz para a grande maioria das
categorias. Arenda mediana do trabalhador típico, por exemplo, eleva-se de 25%
para 32,5% da mediana do bloco privilegiado. Os autônomos agrícolas representam
a exceção no processo. Entre as categorias que vão do trabalhador típico ao
empregado doméstico a comparação com o ano de 1992 se mostra também favorável.
A introdução do controle educacional, por afetar o próprio efeito estimado,
suprime uma parte importante deste resultado favorável, embora não chegue ao
ponto de reverter o sentido ou a direção do efeito.
A Tabela_5 foi construída com a finalidade principal de focalizar os três
fatores fundamentais de vantagens de classe: capital, autoridade e credencial.
As categorias de classe são relativamente unívocas, baseadas num princípio
organizador dominante, sem realizar hibridismos ou misturas conceituais. Foram
escolhidos os contrastes de classe mais apropriados para avaliar a evolução
destes vetores que estão associados às recompensas de renda. Os modelos com o
controle de educação (resultado entre parênteses) serão usados para avaliar as
dimensões de capital e autoridade.
Tabela 5 Discrepâncias entre as Medianas Ajustadas por Regressão Quantílica
para as Comparações de Classe Selecionadas (Brasil, 1992-2011) Modelos com
Controles
Diferença (-) Razão (%)
Comparações de Classe ======================== =======================
1992 2002 2011 1992 2002 2011
Dimensão de Capital
Capitalista vs. Trabalhador 3519 4140 4167 617 797 629
(+Controle educação) (3091) (3395) (3913) (507) (594) (552)
Pequeno Empregador vs. 1139 1075 1174 267 281 249
Trabalhador
(+Controle educação) (969) (959) (1062) (228) (240) (223)
Pequeno Empr. vs. Autônomo c/ 868 918 990 191 223 202
Ativos
(+Controle educação) (747) (826) (903) (176) (201) (188)
Autônomo com vs. sem Ativos 389 257 277 169 152 140
(+Controle educação) (306) (203) (223) (146) (133) (128)
Dimensão de Autoridade
Gerente vs. Trabalhador 1169 1257 1253 272 312 259
(+Controle educação) (783) (877) (939) (203) (228) (209)
Gerente vs. Elementar 1377 1434 1444 391 444 342
(+Controle educação) (906) (997) (1066) (242) (275) (244)
Supervisor vs. Trabalhador 1018 290 581 249 145 174
(+Controle educação) (1543) (250) (486) (297) (136) (156)
Supervisor vs. Elementar 1226 467 772 359 212 229
(+Controle educação) (982) (366) (613) (254) (164) (183)
Dimensão de Credencial
Especialista vs. Trabalhador 1830 1776 1538 369 399 295
(+Controle educação) (898) (838) (946) (218) (222) (209)
Especialista vs. Elementar 2038 1953 1729 531 568 390
(+Controle educação) (1021) (954) (1073) (206) (267) (245)
Qualificado vs. Trabalhador 601 366 359 188 162 146
(+Controle educação) (290) (135) (155) (138) (120) (118)
Qualificado vs. Elementar 809 543 550 271 230 192
(+Controle educação) (413) (251) (282) (165) (144) (138)
Nota: Medianas ajustadas em R$ 2011, IC 99% e ajustes dos modelos encontram-se
no Anexo.
Explora-se nos quatro primeiros contrastes o que está se passando com o efeito
de possuir capital em diferentes níveis e formas de atividade econômica. No
período pós-2002 aumentaram as diferenças absolutas de renda de ambos os
empregadores em relação ao trabalhador típico. A razão entre as rendas se reduz
num decréscimo relativo de -7% para os dois casos, o que não chega a ser uma
retração muito ponderável. A comparação com 1992 mostra um quadro desfavorável
ou não favorável. A passagem de autônomo para a condição de empregador mantém-
se como um limiar importante. Os ganhos absolutos associados a este divisor
social experimentam uma inflexão para cima e os relativos um movimento para
baixo. A demarcação entre autônomos com e sem ativos sugere um quadro de
relativa estabilidade temporal dos efeitos de capital no curso do período mais
recente. Em todos os quatro contrastes da dimensão de capital as diferenças
absolutas aumentam e as diferenças relativas decrescem relativamente pouco.
Mantêm-se relativamente preservadas as vantagens de possuir capital em todas as
transições ou níveis que se manifestam na aquisição de ativos pelo autônomo, na
conversão em empregador e na mudança para a condição de capitalista.
As vantagens de renda de quem exerce autoridade gerencial aumentaram em termos
absolutos e decresceram em termos relativos tanto em relação ao trabalhador
típico quanto ao trabalhador elementar. As discrepâncias relativas mostraram-se
estáveis na comparação com 1992. As vantagens do supervisor, por outro lado,
aumentaram no período pós-2002 em relação a ambas as categorias e nos dois
critérios2.As rendas do trabalhador típico e do elementar se comportaram bem
pior no confrontocomosupervisor. A comparação com o supervisor oferece um modo
interessante de isolar o efeito de interesse, pois as categorias contrastadas,
demarcadas no exercício de autoridade, são relativamente menos diferentes em
outros fatores não controlados. Regra geral o supervisor é recrutado no
coletivo de trabalhadores, o cargo não tem statusde carreira e o trabalho se dá
no ambiente comum e de base da empresa (Roberts,_2011). No entendimento das
mudanças nos padrões de recompensas dos empregos, o contraste entre categorias
menos distantes, porém demarcadas no critério de interesse (exercício de
autoridade), pode mostrar-se revelador em dois aspectos. A situação tanto
reflete o impacto diferenciado do cruzamento da demarcação social (capital/
autoridade/credencial) quanto sofre menos influência de fatores não observados.
Pode-se concluir que, de maneira geral, as vantagens associadas às posições de
autoridade foram mais preservadas ou, no limite, foram menos enfraquecidas.
No confronto com as duas categorias de trabalhadores as perdas de renda dos
especialistas se manifestam tanto em termos absolutos quanto relativos. Em
relação ao trabalhador típico, um contraste relevante: a diferença absoluta cai
em 238 reais e a relativa decresce na proporção de 104 (-26% na razão) no
período pós-2002. Aqueda foi mais forte na comparação com 1992. As distâncias
de renda entre o empregado qualificado e o trabalhador típico, categorias
distintas no critério de qualificação escassa, porém menos distantes, decrescem
somente na forma relativa (-9,9% na razão). No contraste com o trabalhador
elementar a perda relativa do empregado qualificado foi maior (-16,5% na
razão). As vantagens de renda dos empregos em que o conhecimento perito
representa o ativo definidor experimentaram um refluxo mais importante.
Em meio às mudanças caracterizadas neste artigo a subordinação da distribuição
da renda ao ordenamento de classe da sociedade brasileira manteve-se claramente
definida. A introdução das categorias de classe na análise ofereceu um quadro
bem delimitado, porém complexo e nuançado, da redução da desigualdade de renda
no Brasil. As mudanças nas rendas não ajustadas sinalizaram uma redução das
distâncias da mediana geral composta mais por perdas do topo do que por ganhos
da base. No entendimento do impacto agregado destes deslocamentos de renda deve
ser considerado que, no período, o topo privilegiado cresceu (+16,4%) e a base
destituída diminuiu (-15,5%). O agrupamento privilegiado, de maior renda, teve
mais perdas, mas aumentou na população; o agrupamento destituído, de menor
renda, teve mais ganhos, porém diminuiu de peso. Os decréscimos de renda dos
privilegiados podem estar associados à sua expansão. Os aumentosderenda dos
grupos destituídos podemestar relacionados à sua retração3. Ambos os movimentos
favoreceram a queda da desigualdade ao reduzirem as distâncias de renda em
relação ao centro da distribuição.
A desconcentração das rendas ajustadas reflete-se no fato do topo privilegiado
ter perdido e a base destituída ter ganhado renda tanto em termos absolutos
quanto relativos. A queda das diferenças absolutas, no entanto, foi menos
marcante. Ocorreram igualmente reduções nas distâncias de renda entre
categorias mais próximas ou menos distantes. As categorias de classe usadas no
estudo permitiram realizar certa aproximação dos distintos mecanismos de
vantagens de renda. As dimensões de capital, autoridade e credencial da
estrutura social atuaram de modo bem diferenciado. As perdas mais pronunciadas
estiveram vinculadas às credenciais mais elevadas das posições de especia-
listas.Adimensão de capital mostrou um padrão de aumento das vantagens
absolutas combinado com certa queda restrita das diferenças relativas. A
dimensão de autoridade reproduziu a mesma combinação para o gerente, porém as
vantagens do supervisor aumentaram tanto em termos absolutos quanto relativos.
Dimensões fundamentais ao funcionamento da sociedade de classes, como são as
relações de propriedade e autoridade, mostraram efeitos mais persistentes num
contexto de queda significativa das diferenças de renda entre os indivíduos.
Entretanto, as vantagens de possuir capital (capitalista e pequeno empregador)
e exercer autoridade (gerente e supervisor) podem não ter amortecido tanto a
queda da desigualdade agregada,emfunçãodadiminuiçãodopesoglobaldestascategorias
na estrutura do emprego, de 9,14% para 7,41%, num quadro de expansão de outros
grupos. A ampliação dos empregos de especialistas no topo da estrutura social,
combinada com a redução do padrão de renda destas categorias, impactou na
diminuição das discrepâncias de renda, pois a composição e as vantagens dos
grupos privilegiados tornaram-se mais dependentes do controle e do emprego de
insumos educacionais que estiveram perdendo valor.
ANEXO
Tabela A Medianas Ajustadas por Regressão Quantílica, em R$ 2011, e Intervalos
de Confiança (IC) 99% (Brasil, 1992-2011). Modelos com Controles, sem e com
Controle de Educação
Posições de Classe 1992 2002 2011
Mediana IC 99% Mediana IC 99% Mediana IC 99%
Capitalista 4200 4156-4243 4734 4700-4768 4955 4917-4993
(+ contr. educação) 3851 3807-3895 4081 4045-4114 4778 4741-4814
Especialista autônomo 2957 2914-1999 3027 3002-3052 2896 2870-2922
(+ contr. educação) 1950 1906-1995 2098 2073-2123 2286 2260-2311
Gerente 1850 1829-1871 1851 1837-1866 2041 2024-2058
(+ contr. educação) 1543 1521-1564 1568 1553-1583 1804 1787-1801
Empregado especialista 2511 2491-2532 2370 2356-2384 2326 2313-2339
(+ contr. educação) 1658 1635-1680 1525 1510-1540 1811 1797-1824
Pequeno empregador 1820 1803-1836 1669 1656-1681 1962 1956-1978
(+ contr. educação) 1729 1712-1746 1646 1633-1658 1927 1911-1942
Autônomo com ativos 952 939-964 751 741-761 972 962-983
(+ contr. educação) 982 969-995 820 811-830 1024 1014-1034
Autônomo agrícola 561 542-580 416 400-433 527 507-548
(+ contr. educação) 697 677-716 545 530-562 649 629-669
Empregado qualificado 1282 1266-1299 960 950-970 1147 1137-1157
(+ contr. educação) 1050 1034-1067 822 812-832 1020 1010-1031
Supervisor 1699 1674-1723 884 866-903 1369 1347-1391
(+ contr. educação) 1618 1593-1644 937 919-955 1351 1330-1373
Trabalhador típico 681 675-686 594 589-598 788 783-792
(+ contr. educação) 760 755-766 687 683-692 865 861-870
Trabalhador elementar 473 463-484 417 409-426 597 587-606
(+ contr. educação) 637 627-648 571 563-579 738 729-748
Autônomo precário 563 553-573 494 486-502 695 686-704
(+ contr. educação) 673 662-683 617 610-625 801 793-810
Empregado doméstico 526 512-541 521 509-533 699 686-711
(+ contr. educação) 661 646-676 664 653-676 825 813-868
Agrícola precário 499 474-524 361 338-385 414 386-442
(+ contr. educação) 644 619-670 493 471-515 540 513-567
Base destituída 511 505-517 463 458-467 645 640-651
(+ contr. educação) 654 647-660 604 599-609 775 769-781
Topo privilegiado 2373 2360-2386 2374 2364-2383 2425 2485-2504
(+ contr. educação) 1744 1728-1762 1721 1711-1731 1985 1974-1996
Pseudo R2 s/edu. 0,1968 - 0,2129 - 0,1949 -
Pseudo R2 c/edu. 0,2315 - 0,2504 - 0,2211 -
Nota: Os testes do programa "predxcat" mostram que as diferenças entre as
medianas ajustadas sao estatisticamente significativas em todos os modelos
estimados.