Renda, Relações Sociais e Felicidade no Brasil
INTRODUÇÃO
Há uma interpretação corrente e bastante popular de que o Brasil é o país do
futebol e do carnaval, expressões da alegria, descontração e felicidade que
caracterizam seu povo. Apesar das diversas dificuldades econômicas e sociais
que marcam a história do país, a população teria algo que a diferenciaria de
outras: a simpatia e a alegria. Características que facilitariam a
sociabilidade e que estariam sempre presentes, a despeito das violências e
injustiças. O povo brasileiro ser essencialmente feliz é uma ideologia comum.
Outra ideia comum é a que estabelece uma relação positiva entre o aumento da
renda dos indivíduos e o aumento da felicidade ou, de forma mais geral, entre
condições materiais e sentimentos. Crescimento econômico seria equivalente a
aumento da satisfação com a vida. Assim, a melhora recente das condições de
vida no país teria contribuído para aumentar ainda mais o grau de alegria dos
brasileiros1.
Estudos anteriores sobre felicidade no Brasil mostram uma correlação fraca, mas
positiva, entre renda e bem-estar percebido (Cavalcanti,_Guimarães_e_Nogueira,
2009; Corbi_e_Menezes-Filho,_2006; Islam,_Wills-Herrera_e_Hamilton,_2009; Luz
et_al,_2011; Mendes-da-Silva_et_al.,_2013). Estes estudos, no entanto, não
fazem análises incluindo os assim chamados "bens relacionais", que dependem
essencialmente de relações interpessoais como amizade, família, comunidade etc.
De acordo com a literatura, estas relações sociais estão fortemente
correlacionadas à felicidade (Ramírez,_2012). O objetivo deste artigo é
analisar não apenas o efeito da renda, mas sobretudo os de alguns tipos de
percepção e relação social associados à felicidade.
Enquanto os estudos anteriores sobre felicidade no Brasil enfatizaram a relação
entre renda e bem-estar subjetivo, mostrando que aumento da renda realmente
corresponde a aumento do bem-estar subjetivo, argumento que fatores
relacionados à sociabilidade dos indivíduos também são essenciais para
entendermos o grau de felicidade da população brasileira. Assim, minhas
análises mostram que, além das condições materiais (renda, educação e área de
residência), fatores ligados às relações pessoais (casamento, amizade ou
capital social e religiosidade) e a percepções sobre renda e saúde são
fundamentais para explicar a variação no grau de felicidade da população
brasileira. Os fatores ligados à sociabilidade e à percepção dos indivíduos se
somam aos efeitos da renda para explicar a variação no grau de felicidade da
população. São todos fatores que foram classicamente estudados pela sociologia,
que sempre enfatizou a importância da integração dos indivíduos nas comunidades
como fundamental para explicar a coesão e o sentimento de pertencimento dos
indivíduos. Assim, a satisfação com a vida dependeria não apenas das condições
materiais, mas também do grau e sentimento de pertencimento que os indivíduos
têm em relação a suas comunidades.
Para desenvolver essa discussão, no entanto, é fundamental saber o que é a
felicidade. Essa é provavelmente uma das perguntas mais antigas que existem.
Uma grande parte dos escritos filosóficos se dedicou a definir o que seria uma
vida boa e feliz2. Vários psicólogos também vêm se dedicando ao tema. É comum a
afirmação de que a felicidade seria o fim último da vida, mas muitos argumentam
que não há um fim último e que a felicidade seria encontrada nos meios que
usamos para alcançar diversos objetivos. Uma vida satisfatória no amor, no
trabalho, na amizade e em tantos outros aspectos seria de fato o que traz a
felicidade. Apesar destes enormes esforços intelectuais não há consenso sobre o
que seja a felicidade. Uma alternativa analítica é pedir para cada indivíduo
dizer se é ou não feliz. Assim seria possível compilar essa informação para
definir o grau de felicidade, ou bem-estar percebido, de populações inteiras.
De fato, é exatamente por ser tão difícil definir a felicidade que um grupo de
sociólogos, economistas e psicólogos acredita que a melhor maneiradeestudar o
tema é perguntar às pessoas que compõem apopulação o quanto são felizes
(Easterlin,_2002; Frey_e_Stutzer,_2002; Inglehart,_1990, 1997; Kahneman,_Diener
e_Schwarz,_1999; Oswald,_1997; Veenhoven,_1993).É justamente essa abordagem que
adoto neste artigo, ou seja, em vez de fazer um balanço de como diferentes
intelectuais definiram o que torna as pessoas e, em particular, os brasileiros
felizes ou infelizes, parto da avaliação que a própria população faz. Assim,
analiso a percepção dos brasileiros sobre seu grau de felicidade ou, melhor
dizendo, de "satisfação com a vida que levam".
Partindo desse ponto de vista pragmático, procuro definir se o grau de
"satisfação com a vida" declarado por 8.951 indivíduos entrevistados em uma
pesquisa amostral representativa da população brasileira se relaciona com suas
condições materiais de vida, por um lado, e com seus graus de sociabilidade (ou
intensidade de relações sociais e afetivas) e suas percepções sobre saúde e
renda, por outro. Uma das perguntas que mais aguça a curiosidade das pessoas é
saber se o dinheiro compra a felicidade. Será que as pessoas com renda mais
alta tendem a estar mais satisfeitas com a vida que levam? Como demonstro ao
longo do artigo, a renda é importante, mas minhas análises mostram que há
outros fatores relacionados às relações de amizade e afetivas (casamento), às
percepções sobre a própria saúde e sobre a renda e a religiosidade que também
são altamente relevantes para entendermos o grau de felicidade dos brasileiros.
Condições materiais e relações sociais são, em graus diferentes, fundamentais
para explicar a variação na felicidade.
Assim sendo, o principal objetivo deste artigo é estimar um modelo multivariado
incluindo não apenas aspectos econômicos (renda) como também aspectos
contextuais (capital social, estado civil, religiosidade e percepções) e
demográficos (idade e gênero) correlacionados à felicidade. Um problema central
na estimação deste modelo é o da endogeneidade, ou seja, não é totalmente
evidente qual a ordem das correlações. Por exemplo, será que é o casamento que
aumenta a felicidade, ou é a felicidade que leva ao casamento? Este tipo de
problema não pode ser resolvido metodologicamente, mas apenas recorrendo-se à
teoria e à literatura já existentes sobre o tema. Portanto, argumento em favor
do uso de cada variável independente ou explicativa recorrendo à literatura
empírica e teórica sobre felicidade. Não há outra maneira de proceder. Antes de
desenvolver o modelo multivariado proposto, que é a principal novidade deste
artigo, apresento dados comparando o Brasil com diversas outras nações.
Também apresento no artigo a rica literatura sobre a mensuração do "bem-estar
subjetivo", "satisfação com a vida", ou "felicidade" (ao longo do artigo usarei
principalmente o último termo). Embora a mensuração de algo tão subjetivo possa
ser criticada por alguns cientistas sociais que ainda se apavoram ao ver
números e estatísticas, diversos pesquisadores argumentam que este tipo de
informação é relativamente confiável (Kahneman_e_Krueger,_2006). Por que não
medir algo tão importante como a felicidade? Temos tantas informações sobre
aspectos objetivos da nação (renda, educação etc.), mas poucas sobre o
sentimento e as percepções da população (felicidade, concepções de justiça
etc.), ou seja, sobre os aspectos subjetivos da estratificação social. Tendo em
vista que a felicidade pode ser considerada um dos fins últimos de uma vida boa
e, portanto, um objetivo que o país deveria considerar como fundamental para
sua população, parece ser de suma importância desenvolver estatísticas sociais
nesta área. Este artigo pretende contribuir nessa direção.
Na próxima seção exponho brevemente algumas questões centrais da área de
pesquisas sobre felicidade desenvolvidas atualmente por diversos cientistas
sociais. Em seguida apresento dados que comparam o Brasil com outros países e
os dados e métodos que uso para estimar um modelo multivariado para explicar a
variação na média de felicidade da população brasileira. Nas seções
subsequentes analiso os dados brasileiros com o objetivo de definir níveis de
desigualdade da felicidade, ou seja, estudar os principais fatores
correlacionados à felicidade da população. No final apresento, como de costume,
as principais conclusões que podem ser retiradas das análises e reflexões
desenvolvidas ao longo do trabalho.
CONDIÇÕES MATERIAIS, RELAÇÕES SOCIAIS E FELICIDADE
A principal motivação na literatura acadêmica sobre felicidade vem da ideia de
que haveria uma correlação positiva entre condições materiais e satisfação com
a vida. Essa preocupação pode ser resumida na pergunta: "Dinheiro compra
felicidade?" (Does money buy hapiness?).Em 1973, o economista Richard Easterlin
publicou um artigo com este título no qual apresentou um questionamento que
passou a ser conhecido como o "Paradoxo de Easterlin". Ele dizia o seguinte:
"Em todas as sociedades, mais dinheiro para o indivíduo tipicamente significa
mais felicidade para o indivíduo. No entanto, aumentar a renda de todos não
aumenta a felicidade de todos" (Easterlin,_1973:4; tradução livre).
De acordo com Easterlin_(1973; Easterlin_et_al.,_2010), a solução para esse
paradoxo está na natureza relativa dos julgamentos de bem-estar pessoal. Os
indivíduos fazem julgamentos sobre seu bem-estar baseados em normas sociais e
comparações com outros indivíduos, mas não somente baseados em sua condição
material objetiva. Os julgamentos seriam relativos à condição das outras
pessoas. Portanto, investigando a relação entre as distribuições de renda e de
felicidade em um momento específico do tempo (sincronicamente) constata-se que
os mais ricos são mais felizes. Mas comparando dois momentos no tempo,
verifica-se que o aumento da renda de todos não leva a um aumento da felicidade
de todos. As pessoas definem sua felicidade não apenas em relação a suas
condições materiais, mas sobretudo em relação à situação das outras pessoas a
sua volta. O sociólogo W. G. Runciman_(1966), por sua vez, ampliou essa noção e
desenvolveu o conceito de "privação relativa", segundo o qual o sentimento de
privação das pessoas depende mais do lugar que ocupam em uma comunidade do que
das condições materiais específicas de que gozam.
A hipótese de Easterlin foi criticada por alguns autores (Hagerty_e_Veenhoven,
2003; Stevenson_e_Wolfers,_2008) que, usando dados sobre diversos países,
sugerem que o crescimento econômico e o aumento da renda levam efetivamente ao
aumento da felicidade da população, ou seja, haveria uma correlação positiva
entre renda e felicidade. Em outras palavras, a mesma correlação positiva entre
renda e felicidade que é encontrada ao nível individual em amostras
transversais também estaria presente para sociedades que apresentam crescimento
econômico ao longo dos anos. O próprio Easterlin_(1973; Easterlin_et_al.,_2010)
apresentou análises defendendo sua hipótese inicial de 1973. Embora o debate
ainda não esteja encerrado, há um enorme conjunto de pesquisas sobre o tema -
que é apresentado em suas diversas facetas em um livro sobre bem-estar (well-
being)organizado por um grupo de psicólogos (Kahneman,_Diener_e_Schwarz,_1999).
De fato, a literatura mostra que diversos aspectos da vida, tais como relações
sociais (amizade e casamento, por exemplo) e percepção sobre a própria condição
de saúde, estão fortemente correlacionados à felicidade. Neste sentido, a renda
não seria o principal fator explicando a felicidade. Depois que os indivíduos
deixam níveis de renda que implicam grande privação material, há diversos
outros fatores que contribuiriam muito mais do que a renda para o aumento da
felicidade (Frey_e_Stutzer,_2002). Tendo em vista que o Brasil está finalmente
avançando no sentido de terminar com a miséria (entre 1981 e 2009 o percentual
de pobres no Brasil caiu de 33,3% para 16,3%)3 passaaser aindamais importante
conhecer os fatores que contribuem para que sua população se sinta ou não
satisfeita com a vida que leva. A literatura sobre felicidade no Brasil,
desenvolvida sobretudo por economistas (Cavalcanti,_Guimarães_e_Nogueira,_2009;
Corbi_e_Menezes-Filho,_2006; Islam,_Wills-Herrera_e_Hamilton,_2009; Luz_et_al.,
2011; Mendes-da-Silva_et_al.,_2013), enfatizou principalmente o efeito das
condições materiais na felicidade. Minha proposta neste artigo, como argumentei
na introdução, é verificar em que medida fatores como relações sociais,
afetivas e percepções (sobre saúde e renda) contribuem para explicar a variação
na felicidade da população brasileira4.
Para avançar neste sentido é fundamental desenvolver formas acuradas de
mensurar a felicidade. Neste trabalho, assim como em vários outros que usam
pesquisas amostrais da população (ver diversos trabalhos citados ao longo deste
artigo), adoto uma mensuração global e subjetiva da felicidade que é obtida a
partir de duas perguntas (ver mais adiante a seção intitulada O Brasil no
Contexto Internacional) sobre o sentimento das pessoas em relação à sua vida de
um modo geral. Embora aparentemente limitada, essa medida global vem se
mostrando bastante útil para determinar esse sentimento. Uma outra forma de
mensurar a felicidade é chamada de mensuração objetiva e é comum em estudos de
laboratório em que a satisfação das pessoas é medida a partir de instrumentos
observando estados de prazer e desprazer. Este segundo tipo de mensuração é
chamado de objetivo simplesmente porque não depende das respostas das pessoas
sobre o que estão sentindo. Entre estes dois opostos há estudos seguindo um
método denominado experience sampling measures(Kahneman_e_Krueger,_2006). Este
tipo de pesquisa acompanha os indivíduos em vários momentos do dia, realizando
perguntas sobre como estão se sentindo. Ao fim, é possível ver em que momentos
os indivíduos tendem a estar mais satisfeitos, o que permite ajustar as medidas
para várias mudanças de humor e bem-estar que ocorrem na vida cotidiana.
Estas três formas de mensurar o bem-estar ou a felicidade, como insiste a
literatura, seriam válidas, mas, para avaliar o grau de felicidade da
população, a primeira abordagem é a mais adotada simplesmente pelo fato de ser
a única passível de ser executada em estudos globais sobre populações muito
grandes. Alguns trabalhos mostram que há correlação bastante significativa
entre as três formas de mensuração (idem).
Estudar e mensurar a felicidade é importante por diversos motivos. O principal
objetivo, que inspira este artigo, é o de simplesmente saber o quão satisfeitas
as pessoas estão com a vida que levam. Será que ricos são mais felizes do que
pobres? Jovens mais felizes do que velhos? A mensuração global da felicidade
permite fazer estas comparações e verificar os principais fatores relacionados
à distribuição diferencial do grau de felicidade das populações. Conhecer esses
fatores é importante porque permite entender como a situação pode ser
melhorada. De acordo com a literatura, há cinco aspectos que afetam a
felicidade: (1) personalidade (por exemplo, autoestima, otimismo, extroversão
etc.); (2) características sociodemográficas (idade e sexo); (3) fatores
econômicos (renda, desemprego, educação, inflação etc.); (4) fatores
contextuais e situacionais (condições de trabalho, relações interpessoais de
amizade e com parentes, casamento, percepções sobre condições materiais e de
saúde); e (5) fatores institucionais (tais como participação política).
Neste artigo estimo um modelo estatístico multivariado que leva em conta os
aspectos demográficos (2), econômicos (3) e contextuais (4). Os outros dois não
são incluídos porque não tenho informações para eles na pesquisa utiliza.
Assim, as análises desenvolvidas permitem descrever os principais fatores
correlacionados à felicidade da população brasileira. A principal novidade de
minhas análises é a inclusão dos fatores contextuais para explicar a variação
na felicidade entre os brasileiros, uma vez que algumas análises sobre o efeito
da renda na felicidade já foram desenvolvidas (Neri,_2012; Cavalcanti,
Guimarães_e_Nogueira,_2009; Corbi_e_Menezes-Filho,_2006; Islam,_Wills-Herrera_e
Hamilton,_2009; Luz_et_al.,_2011; Mendes-da-Silva_et_al.,_2013).
De fato, a ideia de que os cinco fatores aqui apresentados são importantes para
descrever o grau de felicidade das populações é resultado de pesquisas
interdisciplinares envolvendo tradições de estudo na sociologia, na psicologia
e na economia. Foram sociólogos com pendor para análises quantitativas usando
amostragens de populações inteiras que começaram, há muitos anos, a desenvolver
métodos para avaliar aspectos subjetivos da população tais como ideologias,
sentimentos e atitudes. Em outras palavras, a preocupação sociológica com o
pertencimento dos indivíduos a comunidades a partir de seus valores e
percepções criou uma tradição de coleta de informações sobre aspectos
subjetivos das sociedades (Inglehart_et_al.,_2004). Paralelamente, psicólogos
sociais de diversas correntes começaram a desenvolver pesquisas experimentais,
com grupos menores e mais restritos, com o objetivo de mensurar o bem-estar, a
felicidade e outros aspectos da vida sentimental das pessoas. Estes estudos
levaram a ideias importantes sobre as influências contextuais nas decisões dos
indivíduos, vieses de cognição e limitações na habilidade dos indivíduos em
prever o futuro (ver, por exemplo, "Prospect Theory", de Kahneman_e_Tversky,
1979). Valendo-se da tradição sociológica de mensurar aspectos subjetivos e de
percepção dos indivíduos na população e da crítica da psicologia experimental a
uma visão do indivíduo como puramente "racional", alguns economistas começaram
a se interessar pelo estudo da felicidade.
De fato, nas ciências econômicas, o estudo da felicidade passou a ganhar
importância na medida em que a mensuração deste aspecto subjetivo faz com que
esta disciplina se volte para um de seus temas fundamentais: a "utilidade". De
acordo com a ciência econômica, os indivíduos decidem no sentido de maximizar
sua utilidade, ou seja, de alcançar a maior satisfação possível. Tendo em vista
que medir a satisfação sempre foi algo muito difícil, a teoria econômica
geralmente parte da ideia de que as "escolhas reveladas" - entre duas
mercadorias ou serviços, por exemplo - seriam a única forma de analisar a
"utilidade" ou satisfação dos indivíduos, que seria o motivo principal das
escolhas que observamos. Em contraposição, há um grupo de economistas que
acredita que a "utilidade" deveria ter um conteúdo e que esse conteúdo pode se
expressar em termos de felicidade. Em outras palavras, a felicidade seria o
objetivo final das escolhas individuais e deveria, portanto, ser estudada em
sua plenitude (Frey_e_Stutzer,_2002). Neste sentido, há um pequeno grupo de
sociólogos, psicólogos e economistas que tem se dedicado intensamente ao estudo
da felicidade não apenas com o objetivo de descrever o grau de satisfação das
populações, mas também de avançar as teorias sobre decisões racionais e
motivações nas ciências sociais (Elster,_1998).
O propósito do presente artigo não é discutir essas teorias mais gerais sobre
incerteza nas decisões dos indivíduos, mas é importante mencionar que tal
problemática está relacionada ao estudo empírico da felicidade. Meu objetivo é
analisar empiricamente os principais fatores relacionados ao grau de felicidade
da população brasileira. Em outras palavras, busca-se aqui verificar quais
fatores aumentam e quais diminuem as probabilidades dos indivíduos se
declararem felizes. Meu principal argumento é que fatores relacionais, e não
apenas individuais, são fundamentais.Além de fatores materiais, como renda e
educação, normalmente enfatizados nos estudos de economistas, diversos fatores
relacionais, como redes de amizade e percepções sobre sua posição na
comunidade, são determinantes fundamentais da felicidade. Alternativamente, é
possível dizer que estes fatores materiais e relacionais (ou contextuais) são
fundamentais para descrever os determinantes da desigualdade de felicidade no
Brasil contemporâneo, ou seja, a distribuição desigual não apenas da renda, mas
também dos fatores contextuais ou relacionais, leva a uma distribuição desigual
da felicidade.
O BRASIL NO CONTEXTO INTERNACIONAL
Quando observamos o Brasil em perspectiva comparada constatamos imediatamente
que nossa população realmente está entre as mais felizes do mundo. Medida em
uma escala que vai de 1 a 10 pontos, a média de felicidade entre os brasileiros
em 2008 era de 7,5. Segundo os dados compilados pelo sociólogo holandês
Veenhoven_(1993; 2013), conhecido como o arquivista da felicidade, o Brasil é o
18o país mais feliz entre os 135 para os quais há informações semelhantes. O
povo brasileiro está no topo da distribuição mundial de felicidade, ou seja,
entre os 15% mais felizes. Outros países da América Latina também estão no topo
(por exemplo, Venezuela, Costa Rica, Panamá e México), assim como diversos
países muito mais desenvolvidos economicamente do que o Brasil (Nova Zelândia,
Suíça, Dinamarca e Canadá). De fato, a relação entre desenvolvimento econômico,
mensurado pelo Produto Interno Bruto per capita,e o grau de felicidade, medido
pela escala de 10 pontos, não é linear. O grau de felicidade aumenta com o PIB
per capitaaté certo ponto, mas, depois de um determinado nível de riqueza, PIB
per capitaem torno de 8.000 dólares, o grau de felicidade das populações tende
a não aumentar mais (Easterlin,_2002; Lane,_2000).
Estes dados levaram diversos autores (Easterlin,_2002; Lane,_2000) a afirmar
que o "bem-estar subjetivo" aumenta na medida em que as populações deixam de
ser pobres, mas não continua aumentando com o crescimento da riqueza nos países
que já possuem a maior parte de sua população gozando de condições materiais ou
econômicas relativamente elevadas. Em linguagem mais popular poderíamos dizer
que o dinheiro compra a felicidade até um determinado ponto de riqueza, a
partir do qual passa a não ser mais tão importante. Além disso, há pesquisas
nessa área discutindo os efeitos relativos e de satisfação com a renda como
fatores importantes determinando a felicidade (Clark_e_Oswald,_1996; Veenhoven,
1991). Afelicidade dependeria mais da avaliação que as pessoas fazem sobre sua
posição na distribuição de renda do que da renda que realmente recebem.
Outra questão relevante, quando pensamos em termos globais de uma nação, é
verificar o grau de desigualdade de felicidade. A média pode ser alta, como
observamos para o Brasil, mas a dispersão em torno da média (medida pela
variância) também pode ser elevada, o que indicaria alta desigualdade de
felicidade. Emtermos de desigualdade, o Brasil se encontra mais ou menos no
meio da distribuição dos 135 países mencionados, ou seja, é o 47o país onde há
mais desigualdade de felicidade. A relação entre média (nível geral) e desvio
padrão (desigualdade) de felicidade em 135 países pode ser observada no Gráfico
1. Os dados indicam que há uma relação linear positiva entre média e desvio
padrão de felicidade. Quanto maior a média, menor a desigualdade. No gráfico, o
Brasil aparece na parte superior vertical, média alta de felicidade, e no meio
do eixo horizontal, desigualdade intermediária.
Gráfico 1 Média por Desvio Padrão de Felicidade (Bem-Estar Subjetivo) em 135
Países do Mundo
De fato, o Gráfico_1 permite observar a posição do Brasil em relação a outros
países. Por exemplo, o grau geral de felicidade é muito mais baixo em Togo do
que no Brasil, mas o grau de desigualdade não é tão maior assim. O país mais
feliz de todos é a Costa Rica (média 8,5), mas o com maior média e menor
desigualdade de felicidade é a Holanda. Em um outro extremo, Angola é muito
desigual (desvio padrão de 3,3) e tem uma média de felicidade intermediária
(4,6). Embora o grau de felicidade seja semelhante entre o Brasil e a Holanda
(7,5 e 7,6), a desigualdade é muito maior entre os brasileiros do que entre os
holandeses.
Estas informações são bastante conhecidas e já foram apresentadas em diversos
outros trabalhos fazendo comparações internacionais sobre o grau de "bem-estar
subjetivo" no mundo (Diener,_2009; Diener,_Diener_e_Diener,_1995; Diener_e_Suh,
2000; Graham,_2011; Graham_e_Pettinato,_2002; Helliwell, Layard e Sachs, 2012;
Inglehart,_1990; Kahneman,_Diener_e_Schwarz,_1999; Deaton,_2013). Meu propósito
neste artigo é mensurar mais detalhadamente os determinantes da desigualdade de
felicidade no Brasil, utilizando os dados mais recentes disponíveis.
DADOS, VARIÁVEIS E MÉTODOS
Neste artigo uso dados da "Pesquisa Dimensões Sociais das Desigualdades" (PDSD
daqui em diante). APDSD é uma amostra representativa da população brasileira
urbana e rural, com exceção da área rural da região Norte, que inclui apenas
3,3% da população do país. Coletada entre outubro e novembro de 2008, a PDSD é
composta por uma amostra de 8.048 domicílios nos quais foram entrevistados
chefes e cônjuges (caso houvesse) e coletadas informações básicas sobre todos
os moradores. Aamostra é inteiramente probabilística e estratificada em
múltiplos estágios, o que permite inferências acuradas dos parâmetros
populacionais. A seleção dos casos seguiu um procedimento probabilístico em
três etapas. Na primeira, foram selecionados os municípios; na segunda, os
setores censitários dentro dos municípios; e na terceira, os domicílios dentro
dos setores. Um grande conjunto de questões, incluindo duas perguntas-padrão
sobre felicidade, foi apresentado para chefe e cônjuge em cada domicílio. Para
os chefes há um conjunto ainda maior de perguntas sobre percepção em relação à
renda e ao "capital social", entre outras.
Tendo em vista que algumas perguntas sobre percepção e opinião só foram feitas
para o chefe do domicílio (categoria majoritariamente atribuída pelos
entrevistados aos homens), selecionei duas amostras separadas por sexo. Uma
para homens e outra para mulheres, ambas para indivíduos com 25 anos ou mais de
idade. Aamostra dos homens inclui 4.158 indivíduos e é usada para estimar a
variação na média de felicidade de acordo com diversas características,
incluindo percepção sobre renda e "capital social". A segunda amostra inclui
4.793 mulheres, mas não pode ser utilizada para analisar os efeitos de
satisfação com a renda e de capital social na felicidade porque estas variáveis
não estão disponíveis para a maioria das mulheres que responderam ao
questionário na condição de cônjuges e não de chefes. De acordo com Inglehart_
(1990) as mulheres tendem a ser ligeiramente mais felizes do que os homens; o
Brasil segue esse padrão, de acordo com os dados analisados neste artigo. A
análise separada para homens e mulheres também é relevante porque algumas
variáveis independentes, que apresento a seguir, têm efeitos distintos para
cada sexo.
Variáveis
A felicidade, que é a variável dependente neste artigo, é mensurada a partir
das seguintes perguntas:
(1) Agora vamos falar um pouco da sua vida hoje. Pensando numa escala de 1 a
10, onde 1 representa "levo hoje a pior vida possível"e 10 representa "levo
hoje a melhor vida possível",que nota você daria para a sua vida hoje em dia?
Esta pergunta é normalmente feita em pesquisas sobre felicidade. As médias e
desvios-padrão de felicidade comparadas entre 135 países na seção anterior
deste artigo foram todas obtidas por perguntas semelhantes a essa. Na PDSD de
2008 também foi feita uma outra pergunta canônica:
(2) Agora, levando em conta os diversos aspectos da sua vida, você diria que
está: 1( ) Extremamente feliz; 2( ) Muito feliz; 3( ) Um pouco feliz; 4( ) Nem
feliz nem infeliz; 5( ) Um pouco infeliz; 6( ) Muito infeliz; ou 7( )
Extremamente infeliz.
Muitos investigadores e leitores podem duvidar da validade destas perguntas
para mensurar a felicidade. A primeira dúvida, legítima, que se levanta diz
respeito ao fato de o conceito de felicidade ser muito amplo e não poder ser
mensurado usando questões tão simples como estas. De fato, falar em felicidade
talvez seja um pouco exagerado, por isso alguns autores preferem o termo "bem-
estar subjetivo", mas mesmo assim seria válido imaginar que tal ideia não pode
ser mensurada tão facilmente. Mudanças de humor, até mesmo relacionadas ao
tamanho dos questionários, poderiam influenciar as respostas a perguntas tão
subjetivas. Felizmente, vários pesquisadores, principalmente na área de
psicologia, fizeram testes e experimentos comparando essas perguntas com uma
série muito mais ampla de perguntas sobre o "bem-estar subjetivo". O psicólogo,
e também vencedor do Nobel em economia, Daniel Kahneman (Kahneman,_Diener_e
Schwarz,_1999; Kahneman_e_Krueger,_2006), por exemplo, mostra que perguntas
simples estão fortemente correlacionadas à mensuração objetiva da felicidade
observada em pesquisas medindo diretamente aspectos físicos da satisfação ou
detalhes sobre a satisfação em diversos momentos do dia (usando pesquisas de
uso do tempo e outros métodos semelhantes). Kahneman e outros autores
(Kahneman,_Diener_e_Schwarz,_1999) argumentam que a avaliação do "bem-estar
subjetivo" a partir de perguntas simples e globais sobre a satisfação com a
vida retratam de forma relativamente acurada a felicidade5. Este tipo de
análise desenvolvida na área de psicologia contribui para validar as perguntas
sobre felicidade que vinham sendo coletadas há muito tempo em pesquisas de
opinião conduzidas por sociólogos e cientistas políticos.
De acordo com essa perspectiva, é aceitável inferir o grau geral de felicidade
da população a partir de perguntas gerais (como as 1 e 2). Ains-peção dos
Gráficos_2 e 3 a seguir permite, portanto, concluir que a maioria dos
brasileiros se sente satisfeito com a vida, ou razoavelmente feliz. De fato,
para a primeira pergunta sabemos que 83,8% dos brasileiros atribuíram nota 5 ou
mais para a satisfação com as suas vidas; 20% afirmaram levar "a melhor vida
possível". Para a segunda pergunta, 85% afirmaram estar: "um pouco feliz",
26,9%; "muito feliz", 49,7%; ou "extremamente feliz", 8,5%. Realmente, o povo
brasileiro parece ser predominantemente feliz, como sugere a autoimagem de país
alegre.
[/img/revistas/dados/v58n1//0011-5258-dados-58-1-0037-gf02.jpg]
Gráfico 2 Respostas à Pergunta 1, Homens e Mulheres (Brasil)
[/img/revistas/dados/v58n1//0011-5258-dados-58-1-0037-gf03.jpg]
Gráfico 3 Respostas à Pergunta 2, Homens e Mulheres (Brasil)
No entanto, como mencionei na seção anterior, a felicidade não está igualmente
distribuída entre todos os brasileiros, ou seja, alguns são mais felizes do que
outros. Há desigualdades na distribuição de felicidade. O principal objetivo
deste artigo é investigar quais fatores estão correlacionados à felicidade e,
por assim dizer, determinam o grau de desigualdade de felicidade. Em outras
palavras, podemos dizer que as distribuições dos Gráficos_2 e 3 não levam em
conta diferenças importantes entre os indivíduos. Será que as pessoas com renda
mais alta se sentem mais satisfeitas com a vida do que as com renda mais baixa?
Será que as pessoas que avaliam positivamente sua saúde se sentem mais felizes
do que as que a avaliam negativamente? Será que as pessoas que contam mais com
os amigos são mais satisfeitas com a vida do que as que contam menos? Os
casados tendem a ser mais felizes do que os solteiros? Como estas e outras
características se combinam e se relacionam ao grau de felicidade passível de
mensuração?
Para responder a estas perguntas estimei diversos modelos de regressão linear,
regressão logística ordenada e regressão probit ordenada. Todos os modelos
levam a conclusões muito semelhantes, de forma que, na próxima seção, apresento
os resultados do modelo de regressão logística ordenada por serem de mais fácil
interpretação. Vale lembrar que estimei modelosora usando a pergunta 1, ora a 2
como variáveis dependentes. Como esperado, os resultados também são muito
semelhantes, já que as respostas a ambas as perguntas estão altamente
correlacionadas6. Portanto, apresentarei na próxima seção os resultados do
modelo logit ordenado usado para estimar os efeitos de diversas variáveis
independentes na felicidade, que é medida pela pergunta 1 (escala de 10
pontos). Antes de mostrar o resultado, apresento quais foram as variáveis
independentes utilizadas.
Usei algumas variáveis medindo características demográficas e objetivas dos
indivíduos e outras medindo relações sociais e percepções em relação a aspectos
da vida. Para escolher as variáveis recorri à literatura sobre felicidade que
já definiu algumas que são importantes em diversos países e épocas. A primeira
característica que usei para explicar a variação na felicidade foi a renda. De
acordo com alguns autores (Blanchflower_e_Oswald,_2000; Duncan,_1975; Furnham_e
Argyle,_1998), a satisfação com a vida aumenta significativamente com a renda
até um certo ponto, a partir do qual passa a ser menos importante, ou seja, o
efeito da renda é inicialmente linear, mas depois tende a diminuir. Por este
motivo, incluí a renda usando uma formulação quadrática. Como mostro a seguir,
essa variável permanece importante, mas o termo quadrático não se aplica ao
modelo estimado para as mulheres. Como a renda tem significados diferentes nas
regiões urbanas e rurais, controlei também pelo local de residência.
Outra característica importante é a educação. As pesquisas indicam que pessoas
com mais escolaridade, principalmente com nível superior, tendem a estar mais
satisfeitas com a vida. É difícil interpretar a correlação entre felicidade e
educação. Por um lado, a educação pode estar relacionada às condições
socioeconômicas, como a renda, por exemplo. Por outro, alguns autores afirmam
que pessoas com mais educação tendem a ter níveis mais altos de aspiração,
característica que estaria correlacionada à felicidade quando os objetivos
aspirados são alcançados (Kahneman,_Diener_e_Schwarz,_1999). Portanto, a
principal sugestão da literatura é a de que a relação entre educação e
felicidade é indireta. De fato, nas análises feitas para este artigo observei
que apenas a educação universitária está correlacionada à felicidade dos
homens, mas não à das mulheres.
Além de variar com a renda e a educação, a felicidade varia com a percepção
subjetiva das pessoas sobre sua renda, ou seja, pessoas satisfeitas com a renda
que recebem também tendem a estar mais satisfeitas com a vida,
independentemente do fato de a renda real ser alta, média ou baixa. Portanto,
utilizo uma pergunta sobre a satisfação com a própria renda para mensurar este
aspecto subjetivo da renda. Enquanto a mensuração da renda indica em que
posição da distribuição de renda os indivíduos se encontram, a satisfação com a
renda está correlacionada à percepção que os indivíduos têm de sua renda em
relação às pessoas que estão à sua volta. Alguns autores afirmam que esse
segundo aspecto da renda, o que chamam de "renda relativa", seria mais
importante do que a renda propriamente dita para explicar o grau de felicidade
(Easterlin,_1995). Os indivíduos tendem a considerar sua renda ruim ou boa
fazendo comparações subjetivas entre o que recebem e o que os outros à sua
volta recebem em termos financeiros. Em outras palavras, a satisfação com a
renda depende do contexto e está relacionada ao conceito de "renda relativa".
Mesmo pessoas com rendas baixas podem estar satisfeitas com o que ganham, tendo
em vista que os outros à sua volta parecem ter rendas menores ou que a renda
que possuem em um determinado momento é melhor do que a que possuíam antes.
Outro aspecto relacional importante é a percepção sobre a própria saúde. Várias
pesquisas mostram que os indivíduos tendem a considerar a saúde como um dos
aspectos mais importantes de suas vidas. Saúde e felicidade estão altamente
correlacionadas, mas esse efeito só é observado para a saúde declarada ou
percebida. Isso se deve, em parte, ao fato de a saúde e a felicidade declaradas
estarem ambas relacionadas à personalidade e às relações sociais. Pessoas mais
otimistas e menos neuróticas, por exemplo, tendem a declarar tanto mais
satisfação com a vida quanto melhor o estado de saúde (Larsen,_1992),
principalmente porque se sentem bem integradas às comunidades em que vivem. Em
comparação, a relação entre felicidade e saúde de fato não é tão forte e
evidente. Brickman,_Coates_e_Janoff-Bulman_(1978) mostram, por exemplo, que
pessoas que sofreram graves acidentes não são mais infelizes do que aquelas que
nunca sofreram acidentes. As pessoas têm grande capacidade de se adaptar a
novas situações que, inicialmente, são de grande penúria como, por exemplo,
perda de entes queridos, deficiências físicas etc.
Um fator tão ou mais importante do que a saúde percebida ou declarada são as
relações de amizade e afetivas que as pessoas estabelecem. Estas relações estão
ainda mais diretamente ligadas à integração dos indivíduos em suas comunidades
do que às percepções sobre renda e saúde. Pessoas que estabelecem relações
duradouras de amizade, casamento ou outras tendem a declarar níveis muito mais
elevados de felicidade do que pessoas solitárias. Argumento neste artigo que a
amizade e o companheirismo são os principais fatores correlacionados à
felicidade. Casamento e família representam certamente as relações inter
pessoais mais importantes na vida dos indivíduos. De fato, um grande número de
estudos para diferentes países e períodos revela que o casamento aumenta a
felicidade (Diener_et_al.,_2000). A relação entre casamento e felicidade, no
entanto, não apresenta uma direção clara, ou seja, será que é o casamento que
leva a mais felicidade ou vice-versa? Neste sentido, um efeito de seleção não
pode ser descartado, a correlação deve ser avaliada com cuidado. No entanto,
uma pesquisa cuidadosa feita por Mastekaasa_(1995) sugere fortemente que é o
casamento que aumenta a felicidade e não o inverso.
Além do casamento, as amizades aumentam a felicidade. De novo o efeito de
seleção poderia se aplicar, uma vez que pessoas mais felizes podem ter mais
facilidade para encontrar amigos. De qualquer forma, me arrisco a estimar o
efeito do "capital social" proporcionado por amigos na felicidade dos
indivíduos. Capital social é um conceito inicialmente elaborado pelo economista
Glenn Loury_(1977) e posteriormente desenvolvido por alguns sociólogos
(Bourdieu,_1986, 1989; Coleman,_1988) para descrever a rede de relações (de
amizade e outras) às quais os indivíduos pertencem e que podem ser usadas como
um benefício em diversas situações sociais (econômicas, sociais, culturais e
pessoais). Para medir a ideia de capital social proveniente dos amigos,
elaborei um índice latente que combina informações coletadas em seis perguntas
da PDSD7. Todas visavam saber se os respondentes podiam contar com (1) amigos
ou colegas de trabalho; ou (2) com conhecidos ou vizinhos, para: (a) ajudar em
tarefas de casa, carregar coisas, tomar conta dos filhos; (b) emprestar
dinheiro; e (c) fazer companhia ou dar consolo num momento difícil. As
respostas foram codificadas dicotomicamente como sim ou não. A partir do padrão
de respostas elaborei um índice latente que combina informações obtidas por
estas perguntas - tal índice é semelhante a um índice de bens proposto em
pesquisas anteriores (Filmer_e_Pritchett,_1999; Sahn_e_Stifel,_2003).
Elaborei este índice usando análise de componentes principais, uma técnica de
redução dos dados que diminui a dimensionalidade do banco de dados capturando a
variação que é comum a todas as variáveis originais (McKenzie,_2005). Na
prática, esta técnica corresponde a encontrar uma combinação linear de pesos
que dê conta da maior parte da variação na matriz de variância e covariância. O
índice de "capital social" é baseado na combinação das variáveis antes
descritas. Quanto maior o valor do índice, maiores as chances das pessoas
poderem contar com a ajuda de amigos, colegas de trabalho ou vizinhos.
Interpreto o índice como sendo uma medida da rede de relações dos indivíduos,
quanto maior o valor do índice, mais intensa seria a rede de relações e, neste
sentido, o "capital social". De fato, como veremos, há uma relação positiva e
extremamente importante entre capital social e felicidade, como sugere a
literatura sobre felicidade (Kahneman,_Diener_e_Schwarz,_1999).
Outro aspecto intimamente ligado às relações sociais é a religiosidade. Segundo
Ellison_(1991), o envolvimento com atividades religiosas está positivamente
correlacionado à felicidade. A religião ofereceria uma "chave interpretativa"
que pode ajudar a dar sentido à vida. Uma interpretação diferente é a de que
pessoas religiosas que frequentam muito os cultos tendem a ser mais felizes e
os que frequentam pouco ou não participam tendem a ser menos felizes. Os ateus,
por sua vez, não sentiriam culpa por não frequentar cultos e seriam tão felizes
quanto os mais crentes devotos. De qualquer forma, a literatura indica que a
religião está correlacionada, mas não fortemente, à felicidade. A religiosidade
também é uma característica relacional que captura a integração dos indivíduos
nas comunidades a que pertencem. Neste sentido, a religiosidade também depende
em grande medida de relações sociais e poderia ser concebida como um bem
relacional, em contraposição aos bens materiais (como a renda).
Finalmente, é importante controlar pelo efeito da idade. No senso comum, a
ideia de felicidade está correlacionada à juventude. De acordo com essa visão,
o envelhecimento levaria à diminuição da satisfação com a vida e os jovens
teriam vidas mais animadas e alegres do que os mais velhos. As pesquisas sobre
o tema contrariam essa ideia de senso comum indicando que as pessoas mais
velhas tendem a ser mais felizes do que as mais jovens. Talvez porque tenham
alcançado vários de seus objetivos ou estejam mais conformadas por não terem
realizado sonhos da juventude. A ansiedade para realizar projetos pode levar a
uma diminuição da satisfação com a vida. Além disso, as pessoas mais velhas
tendem a ter mais tempo para se dedicar às atividades de lazer e ócio criativo
que parecem ser fundamentais para definir a felicidade (Ramírez,_2012). No
entanto, assim como ocorre com a educação, a correlação entre idade e
felicidade também não é de fácil interpretação. De fato, os estudos chegam a
conclusões distintas, alguns mostram que a felicidade aumenta com a idade,
outros mostram que diminui. Algumas pesquisas (Diener_e_Suh,_1997; Horley_e
Lavery,_1995; Oswald,_1997) indicam que a relação entre idade e felicidade tem
a forma de U, ou seja, diminui até meados da vida, e aumenta com o
envelhecimento. Estes autores chegaram a essa conclusão a partir de um estudo
controlado por diversas características, inclusive saúde, e compararam dados
para os EUA e a Inglaterra. De qualquer forma, é fundamental controlar o efeito
das outras variáveis por idade e educação que teriam impactos indiretos na
felicidade.
Enfim, para explicar a variação na felicidade, medida pela pergunta 1, utilizo,
por um lado, variáveis medindo condições materiais dos indivíduos: (1) renda e
renda ao quadrado; (2) educação (educação universitária, ou menos); (3)
residência (urbana ou rural); e, por outro lado, variáveis medindo relações e
percepções sociais (características relacionais): (4) percepção sobre a renda
(muito satisfeito, satisfeito, insatisfeito ou muito insatisfeito); (5)
percepção sobre a própria saúde (excelente, muito boa, boa, razoável ou ruim);
(6) estado civil (casado, morando junto, separado, viúvo ou solteiro); (7)
capital social (índice contínuo variando de menos para mais tal como descrito
anteriormente); e (8) religiosidade (frequenta culto mais de uma vez por mês,
me-nosdeumavezpormês,religiosoquenãofrequentacultoeateu)8.O principal objetivo
é mostrar que, além das condições materiais, as percepções e relações sociais
são fundamentais para explicar a variação de felicidade na sociedade brasileira
contemporânea.
Métodos e Modelos
Estimei diversos modelos (regressão linear, probit ordenado e logit ordenado)
para analisar o efeito das variáveis independentes aqui descritas nas variáveis
obtidas pelas perguntas 1 e 2, também apresentadas. Os resultados são muito
semelhantes. Por isso desenvolvi mais detalhadamente as análises para o modelo
logit ordenado que inclui todas as variáveis independentes (as oito descritas
no parágrafo anterior), que é o modelo completo que proponho para esta análise
- os modelos para mulheres não incluem as variáveis capital social e percepção
sobre a renda porque estas só foram obtidas para os homens. Para chegar a esse
resultado final, parti de um modelo nulo contendo apenas o intercepto e fui
incluindo as variáveis independentes uma por uma, em modelos subsequentes.
Em um primeiro bloco da análise incluí apenas as variáveis relacionadas às
condições materiais (renda, área de residência e educação) mais a idade e o
estado civil. Este modelo se ajustou bem aos dados e, de certa forma, reproduz
resultados encontrados anteriormente para o Brasil (por exemplo, Corbi_e
Menezes-Filho,_2006). É um modelo que inclui basicamente variáveis medindo as
condições materiais, embora o estado civil indique a presença de relações
sociais fortes. Os casados tendem a ser mais felizes no modelo estimado, o que
também já havia sido observado anteriormente (por exemplo, Corbi_e_Menezes-
Filho,_2006).
Em um segundo bloco de análise incluí as variáveis medindo diversas formas de
relação social, integração na comunidade e percepções, ou seja, as variáveis
para percepção sobre a própria saúde, religiosidade, satisfação com a renda e
capital social (rede de amizades). O modelo com todas essas variáveis tem um
ajuste muito melhor aos dados, ou seja, esse modelo completo - incluindo
condições materiais, relações sociais e percepções - leva a uma explicação mais
adequeda da distribuição de felicidade na população. Em termos substantivos
isso significa que percepções e relações sociais são extremamente importantes
para explicar a felicidade da população.
Apesar de o modelo final, que apresento na próxima seção, ser adequado, fiz
algumas análises para testar seus pressupostos matemáticos e estatísticos.
Tanto para homens quanto para mulheres, a especificação do modelo logit
ordenado final9 apresenta um problema: viola o pressuposto das chances
proporcionais ou das regressões paralelas. Segundo esse pressuposto, o
intercepto da regressão logit ordenada para cada categoria da variável
dependente muda, mas a inclinação da reta (o efeito de cada variável
independente) não se modifica, apenas aumenta ou diminui proporcionalmente à
mudança no intercepto (Long,_1997). Para avaliar esse pressuposto usei dois
testes apresentados por Long (idem):um teste global, chamado "Score Test", e um
verificando a quebra do pressuposto para cada variável independente, o teste de
Brant. Tanto para os homens quanto para as mulheres, o pressuposto é violado.
Para os homens, o teste global apresenta uma estatística qui quadrado de 383,4
com 168 graus de liberdade, e, para as mulheres, uma estatística qui quadrado
de 342,7 com 90 graus de liberdade - em ambos os casos isso significa que a
hipótese de que o pressuposto foi violado não pode ser rejeitada. O teste de
Brant vai além e mostra quais são as variáveis independentes que levam a
rejeitar a hipótese das regressões paralelas. Para os homens, elas são:
percepção da própria saúde, estado civil, educação, renda, capital social e
satisfação com a renda; e, para as mulheres: idade, percepção sobre a própria
saúde, renda e educação. Uma alternativa seria excluir todas essas variáveis
das análises, mas isso iria empobrecer muito as conclusões.
Outra alternativa diante desta limitação metodológica é utilizar outro tipo de
modelo. Usei, então, o modelo logit ordenado generalizado (Williams,_2006) para
o qual o pressuposto acima não se aplica. Este modelo pode ser considerado como
intermediário entre o logit ordenado e o logit multinomial. O primeiro, mais
simples, o segundo, muito mais complexo. Usando as mesmas variáveis
independentes estimei um modelo logit ordenado generalizado para os homens e
outro para as mulheres. Novamente esbarrei em dificuldades metodológicas. Assim
como qualquer modelo estatístico, o logit ordenado generalizado (sintaxe
gologit2 no Stata) também deve ser usado com cuidado. No caso do modelo usado o
problema é que há a possibilidade de obtenção de probabilidades preditas
negativas. O que é uma impossibilidade matemática10. Essa limitação pode ser
contornada a partir da estimação de modelos intermediários entre o logit
ordenado e o logit ordenado generalizado, isso é obtido ao impormos restrições
para que algumas variáveis independentes sigam o mencionado pressuposto das
chances proporcionais. Ao fazer isso observamos que, para a maioria das
variáveis independentes, 80% delas, o pressuposto não é violado. O uso do
modelo logit ordenado generalizado, com restrições, não modifica muito a
análise alcançada pelo modelo logit ordenado. Ou seja, os resultados são muito
semelhantes e a quebra do pressuposto não leva a conclusões díspares em relação
ao modelo logit ordenado. Neste sentido, apresento os resultados para o
primeiro modelo não apenas porque não diferem significativamente dos resultados
do último modelo, mas sobretudo porque a interpretação é mais direta e
simples11.
Os parâmetros estimados e as estatísticas de ajuste para este modelo final são
apresentados na Tabela_1.
Tabela 1 Modelos Logit Ordenados para Nota (1 a 10) Atribuída à Pergunta:
"Agora vamos falar um pouco da sua vida hoje, pensando numa escala de 1 a 10,
em que 1 representa 'levo hoje a pior vida possível' e 10 representa 'levo hoje
a melhor vida possível'", homens e mulheres, 25 anos ou mais (Brasil, 2008)
Homens Mulheres
Variáveis Independentes ======================= ======================
Coef. S.E. O.R. Coef. S.E. O.R.
Idade^ 0,072 ** 0,003 1,074 0,016 *** 0,003 1,016
Saúde: Excelente 1,215 *** 0,207 3,369 1,261 *** 0,149 3,528
Saúde: Muito boa 0,889 *** 0,195 2,434 1,071 *** 0,131 2,918
Saúde: Boa 0,792 *** 0,182 2,208 0,976 *** 0,129 2,653
Saúde: Razoável 0,437 ** 0,184 1,548 0,648 *** 0,100 1,911
Saúde: Ruim (referência)
Civil: Casado 0,516 *** 0,145 1,676 0,456 ** 0,100 1,577
Civil: Morando junto 0,405 * 0,159 1,499 0,429 *** 0,124 1,535
Civil: Separado -0,424 0,210 -0,135 0,119
Civil: Viúvo 0,045 0,222 0,051 0,121
Civil: Solteiro (referência)
Educação: Universidade 0,178 * 0,098 1,195 0,046 0,083
Educação: < Universidade (ref.)
Religiosidade: < 1 vez mês -0,273 ** 0,097 0,761
Religiosidade: não freq. -0,168 * 0,088 0,845 -0,306 ** 0,102 0,737
Religiosidade: religioso sem igreja -0,204 * 0,131 0,815 -0,535 *** 0,141 0,586
Religiosidade: Ateu -0,435 -0,047 0,247
Religiosidade: + 1 vez mês (ref. ho- -
mens)
Religiosidade: Frequenta (ref. mu- -
lheres)
Renda~ 0,056 *** 0,018 1,058 0,078 *** 0,022 1,081
Renda*Renda~ -0,001 ** 0,000 0,999 -0,001 ** 0,000 0,999
Muito satisfeito com a renda 1,1488 ** 0,2239 3,154 -
Satisfeito com a renda 0,3952 *** 0,0688 1,485 -
Insatisfeito com a renda (ref.)
Capital Social (amigos) 0,3887 *** 0,0689 1,475 -
Residência Urbana -0,279 * 0,1068 0,757 -
Residência Rural (ref.)
/cut1 -3,327 *** 0,335 -2,237 *** 0,242
/cut2 -2,754 *** 0,321 -1,804 *** 0,230
/cut3 -1,997 *** 0,299 -1,251 *** 0,218
/cut4 -1,275 *** 0,289 -0,670 *** 0,210
/cut5 -0,057 *** 0,283 0,462 *** 0,206
/cut6 0,635 *** 0,282 1,037 *** 0,207
/cut7 1,439 *** 0,283 1,702 *** 0,209
/cut8 2,487 *** 0,286 2,636 *** 0,213
/cut9 2,964 *** 0,288 3,212 *** 0,216
Estatísticas de ajuste:
Log-Lik Intercept Only: -8290 -9580
Log-Lik Full Model: -8114 -9428
LR(19 para homens e 14 para 352,4 304,71
mulheres):
BIC': -194,1 -186,1
Ν 4158 4793
Fonte: PDSD (2008).
Obs.: ^ multiplicado por 10; ~multiplicado por 1.000.
*** p<0,001; **p<0,005; *p<0,05.
"DETERMINANTES" DA FELICIDADE NA POPULAÇÃO BRASILEIRA
Em seguida, passo a relatar os efeitos individuais de cada variável
independente, controlando-os pelo efeito de todas as outras. No final desta
seção apresento a variação de felicidade por renda para dois tipos de
indivíduos: os com maiores e menores probabilidades de serem felizes. A Tabela
1 apresenta os coeficientes estimados pelo modelo proposto para descrever a
variação na felicidade de brasileiros e brasileiras. De fato, os padrões de
associação observados para o Brasil são muito semelhantes àqueles descritos
para pesquisas realizadas em diversos países do mundo (Frey_e_Stutzer,_2002).
Em outras palavras, do ponto de vista adotado no presente artigo, os
determinantes da felicidade no Brasil não são muito diferentes dos observados
em diversas outras nações. Talvez o que diferencie o Brasil seja o grau e a
desigualdade na distribuição de felicidade. Além disso, os resultados
encontrados para as variáveis renda, educação, estado civil e idade são
semelhantes aos encontrados anteriormente para o Brasil (Corbi_e_Menezes-Filho,
2006). Neste sentido, a principal contribuição das minhas análises é mostrar
que as variáveis para percepção sobre renda e saúde, para capital social (rede
de amizades) e para religião são fundamentais para explicar a felicidade da
população. Assim sendo, não é apenas a renda (as condições materiais) que
determina a felicidade da população, outras formas de relação social são ainda
mais relevantes do que a renda.
No Brasil, como já sabíamos, a felicidade aumenta com a idade. Levando-se em
conta todas as variáveis incluídas nos modelos da Tabela_1, observamos que,
para cada ano a mais de idade, a felicidade aumenta 0,74% para os homens e
0,16% para as mulheres. Portanto, controlar pelo efeito da idade é bastante
relevante para verificar em que medida renda, percepções e relações sociais se
associam à felicidade. É importante notar que testei o uso de uma formulação
quadrática para idade, o que indicaria que a felicidade varia de forma não
linear com a idade. Esse termo é estatisticamente significativo antes de
incluir as variáveis para percepção sobre a renda e sobre a saúde, mas torna-se
irrelevante depois que estas duas últimas variáveis são incluídas. Portanto, a
ideia de que a felicidade diminui e cresce com a idade (uma relação tendo a
forma de U), anteriormente aventada para o caso brasileiro (p. ex., Corbi_e
Menezes-Filho,_2006), não se sustenta quando levamos em conta as percepções
sobre renda e saúde.
Em contraste, os modelos estimados comprovam que a felicidade aumenta com a
renda mesmo quando se leva em conta todas as variáveis sobre percepção e
relações sociais, mas os retornos diminuem a partir de um determinado nível de
renda. Uma pergunta de grande interesse e recorrente na literatura é se o
dinheiro compra a felicidade. No Brasil, assim como em diversos outros países,
a resposta é sim. Deste modo, políticas e tendências de expansão da renda, como
as que atualmente ocorrem no país, levam ao aumento da satisfação com a vida.
De qualquer forma, a renda não é o único nem o mais importante fator de aumento
da felicidade.
Os homens com educação universitária também têm chances maiores de estarem
satisfeitos com a vida (1,2 vez mais chances) do que os que não alcançaram esse
nível educacional. Para as mulheres, esse efeito não é estatisticamente
significativo, ou seja, não é possível observar o efeito da educação na
felicidade. Tendo em vista que os retornos salariais são extremamente altos
para pessoas com educação universitária no Brasil (Ferreira_et_al.,_2006),
podemos imaginar que o efeito observado para os homens se relaciona ao fato de
que aspirações financeiras e materiais são mais facilmente alcançadas por
indivíduos que frequen-taram universidades. Assim, é possível dizer que
retornos à educação universitária também são observados em termos de
felicidade, e não apenas em termos de renda. Homens morando em regiões rurais
também tendem a ser mais felizes (1,3 vez mais) do que aqueles que vivem em
grandes centros urbanos. A vida no campo aumenta o grau de satisfação com a
vida, o que está provavelmente relacionado ao estresse proveniente da vida
urbana.
Além destas características relacionadas à vida material que foram
anteriormente estudadas no Brasil, as relações sociais influenciam
positivamente a satisfação com a vida. Pessoas que estabelecem relações
duradouras ou que contam com redes de amigos e conhecidos mais extensas tendem
a ser mais felizes. Por exemplo, homens casados aumentam em 67% e mulheres em
58% suas chances de serem mais felizes do que, respectivamente, homens e
mulheres solteiros. Homens com redes de amizade (capital social) mais amplas
também tendem a se sentir mais felizes. Estes aspectos se relacionam ao fato de
que a satisfação com a vida depende da relação que as pessoas estabelecem entre
si. Aqueles mais conectados com outros geralmente sentem-se mais satisfeitos
com a vida de um modo geral. Estas pessoas costumam ter uma atitude mais
positiva e otimista em relação a vida.
Este tipo de atitude também se relaciona à percepção sobre a própria saúde e
sobre a renda. Segundo a literatura (Frey_e_Stutzer,_2002), a percepção sobre a
saúde é o fator que se relaciona de forma mais forte à felicidade. Pessoas que
percebem sua saúde como boa tendem a ser mais felizes. Os hipocondríacos são
menos felizes de um modo geral. Para o caso brasileiro encontramos a seguinte
relação: homens que consideram ter saúde muito boa têm 2,5 vezes mais chances
de se sentirem mais satisfeitos com a vida do que homens que consideram ter
saúde ruim, para as mulheres a vantagem é de 2,9 vezes mais. Como os modelos
que estimei são modelos "logit ordenados", estes efeitos são cumulativos para
cada uma das dez categorias (notas) de felicidade obtidas pelas respostas à
pergunta 1.
Outra forma de percepção extremamente importante é a satisfação com a própria
renda. Homens que se sentem "muito satisfeitos com sua renda" têm 3 vezes mais
chances de serem mais felizes do que aqueles que se sentem "muito insatisfeitos
com sua renda". É importante notar que o efeito é observado independentemente
da renda real que o indivíduo recebe, ou seja, a satisfação com a renda é tão
ou mais importante do que a renda real para determinar o grau de felicidade dos
indivíduos. Mais do que isso, a satisfação com a renda é uma medida da "renda
relativa", ou seja, é fruto da comparação que os indivíduos faz em da sua renda
com a de outras pessoas a sua volta ou com a renda que tinham em um momento
anterior. É, portanto, uma característica relacional. O fato de a satisfação
com a renda ser relevante para explicar a felicidade indica que as relações
sociais (comparações interpessoais) são extremamente importantes. Pessoas que
consideram suas rendas satisfatórias, independentemente do valor real da renda,
tendem a não se sentir marginalizadas nas comunidades em que vivem. Estão,
desse modo, mais integradas em seus grupos sociais. Vale lembrar que não há
informação sobre satisfação com a renda para mulheres.
Outro resultado bastante interessante é o relacionado à religiosidade. As
análises que desenvolvi indicam que homens e mulheres com religiosidade mais
acentuada, que frequentam mais os cultos religiosos, tendem a ser mais felizes
do que aqueles que têm religião, mas não frequentam cultos. Em contrapartida,
os ateus também tendem a declarar maior satisfação com a vida do que os
religiosos que não frequentam cultos. Portanto, não é apenas a religiosidade
que aumenta a felicidade, mas também o oposto: a falta de religiosidade. Este
resultado é bastante interessante e aponta para o fato de que a ambiguidade nas
crenças talvez seja o fator mais importante e não a religiosidade em si. Além
disso, esta evidência também indica que o sentimento de pertencimento a uma
comunidade é importante, seja ela a comunidade religiosa ou a de não
religiosos. Sentir-se à vontade com suas crenças, espelhadas no contato com
outros indivíduos que compartilham essa crença, parece ser fundamental. Mais
uma vez há indícios de que a rede de relações sociais é importante. Até onde
vai meu conhecimento, este resultado sobre ateísmo e religiosidade não foi
obtido em pesquisas realizadas em outros países. Vale a pena investigar melhor
os sentidos dos números e associações obtidos na análise aqui apresentada.
Em suma, os modelos completos que estimei indicam claramente que a felicidade
não depende apenas das condições materiais, mas sobretudo das relações sociais
em que os indivíduos se encontram. Embora a renda seja importante (o dinheiro
"compra" alguma felicidade), ela está longe de ser o único ou o principal fator
levando os indivíduos a serem mais felizes. Relações afetivas e de amizade,
percepções positivas sobre saúde e renda e religiosidade são aspectos
fundamentais para explicar a felicidade dos brasileiros. Todos estes últimos
fatores podem ser vistos como "bens relacionais", ou seja, "bens" que não podem
ser possuídos somente pelos indivíduos e dependem essencialmente da convivência
com outras pessoas. Se os outros deixam de participar das relações, elas deixam
de fazer sentido. Ter amigos, relações íntimas (casamento ou um companheiro) e
participar de cultos são aspectos da vida que dependem das relações sociais.
Portanto, a boa vida e a felicidade dependem essencialmente da participação das
pessoas em redes de relações sociais, e não apenas das condições materiais.
Esta é justamente a conclusão a que chega Ramírez_(2012) em um estudo
extremamente interessante sobre a vida boa e a felicidade no Equador.
As descrições anteriores são acuradas e baseadas nos modelos apresentados na
Tabela_1, mas todas partem da ideia de que cada efeito ocorre independentemente
da variação nos outros. Este tipo de pensamento ainda é muito abstrato, ou
seja, é preciso imaginar um mundo irreal com algumas características variando
independentemente das outras. Na realidade, o modelo que apresentei é aditivo,
ou seja, cada característica incluída (variável independente) tem um efeito que
se adiciona ao das outras variáveis. Assim, é possível construir tipos
representando pessoas com diferentes combinações de características e verificar
quais as probabilidades destes tipos de pessoas serem mais ou menos felizes.
Ao observar o Gráfico_2 é possível ter uma ideia geral sobre a distribuição de
felicidade na população brasileira como um todo. Por exemplo, sabemos que 20%
dos pesquisados atribuíram nota 10 (levo hoje a melhor vida possível)ao
responder a pergunta 1, mas não sabemos se essa proporção aumenta entre os com
renda maior, ou entre os casados, ou entre os que consideram ter saúde muito
boa. O modelo estimado e apresentado na Tabela_1 permite verificar como as
proporções variam de acordo com as características dos indivíduos (variáveis
independentes). É apenas isso que os modelos nos permitem dizer. Como
mencionei, a maneira simples de apresentar essa ideia é a elaboração de tipos
específicos de indivíduos com características diferentes. Com base nos
coeficientes estimados apresentados na Tabela_1, elaborei dois tipos: os
indivíduos com maiores probabilidades de serem felizes e os com menores
probabilidades. Apresento estes tipos na Figura_1, onde também mostro como o
grau de satisfação com a vida varia para eles de acordo com a renda que têm.
[/img/revistas/dados/v58n1//0011-5258-dados-58-1-0037-gf04.jpg]
Figura 1 .
Conforme os dados disponíveis e os modelos estimados, os homens com maior
probabilidade de serem felizes são os mais velhos, casados, com educação
universitária, mais satisfeitos com sua renda, moradores de regiões rurais,
contando com muitos amigos, religiosos que frequentam cultos e percebendo sua
saúde como excelente. Os menos felizes são os mais novos, solteiros, sem
educação universitária, insatisfeitos com sua renda, moradores de regiões
urbanas, com poucos amigos, religiosos que não frequentam cultos e que percebem
sua saúde como ruim. Os resultados para as mulheres com maiores probabilidades
de ser mais e menos felizes são semelhantes aos dos homens, mas sem incluir as
informações para satisfação com a renda e rede de amizades (capital social) -
lembrem-se que estas duas últimas variáveis não estão disponíveis no banco de
dados utilizado para as mulheres. Quanto maior a renda de cada um destes tipos,
maior a probabilidade de responderem que estão mais satisfeitos com suas vidas
de um modo geral.
Na Figura_1 apresento as probabilidades esperadas para estes tipos, obtidas
através dos modelos da Tabela_1, e as comparo com a probabilidade observada,
que não leva em conta as características descritas anteriormente - ou seja, as
probabilidades observadas para distribuição simples da pergunta 1 (os Gráficos
3b e 4b, no centro da Figura_1, são simplesmente outra forma de apresentar os
dados do Gráfico_2). Adi-ferença entre as proporções dos Gráficos 3b e 4b no
centro (que não levam em conta as características) e as dos Gráficos 3a e 4a no
topo, e 3c e 4c na base da Figura_1 mostram a variação nas proporções que se
devem às características que aumentam (Gráficos 3a e 4a) ou diminuem (Gráficos
3c e 4c) a probabilidade de ser feliz.
Por exemplo, o Gráfico 3a da Figura_1 mostra que os homens com as
características que favorecem a felicidade (descritas pelo modelo e nos
parágrafos anteriores) têm probabilidade de 60% (0,6) de dar a nota 10 para a
pergunta, ou seja, probabilidade de achar que levam a melhor vida possível.
Esta probabilidade aumenta com a renda, como pode ser visto no gráfico, 60% das
pessoas que recebem mil reais se sentem muito satisfeitas, enquanto 70% das que
ganham sete mil reais se sentem muito satisfeitas. Além disso, é fácil observar
que a probabilidade para este tipo "mais feliz" é muito mais alta do que a
probabilidade quando não se leva em conta as características que aumentam as
chances de felicidade (Gráfico 3b). Isso é facilmente observável quando se
compara a proporção dandonota10noGráfico 3b (cerca de 20 ) com a proporção
dando nota 10 no Gráfico 3a (cerca de 60%) dos mais felizes. No outro extremo,
representado no Gráfico 3c, temos os homens com as características que diminuem
a probabilidade de felicidade. Neste último gráfico a probabilidade de dar nota
10 é de menos de 3%. Comparações semelhantes podem ser feitas para as mulheres
(Gráficos 4a, 4b e4c). Sendo assim, é fácil observar nos gráficos da Figura_1
três tipos de pessoas com probabilidades distintas de declarar felicidade.
No topo da Figura_1, Gráfico 3a para homens e 4a para mulheres, temos os tipos
com maior propensão para felicidade (mais velhos, casados, com educação
universitária, mais satisfeitos com sua renda, moradores de regiões rurais,
contando com muitos amigos, religiosos que frequentam cultos e percebendo sua
saúde como excelente). Nestes gráficos fica claro que a proporção dando notas
mais altas, mais felizes, é muito mais alta, o que significa que as
probabilidades de se considerar feliz são maiores para pessoas com tais
características. Na base da Figura_1, Gráfico 3c para homens e 4c para
mulheres, temos os tipos com menor propensão para felicidade (mais novos,
solteiros, sem educação universitária, insatisfeitos com sua renda, moradores
de regiões urbanas, com poucos amigos, religiosos que não frequentam cultos e
que percebem sua saúde como ruim). Nestes gráficos fica claro que a proporção
dando notas mais baixas, menos felizes, é muito mais alta, o que significa que
as probabilidades de se considerar infeliz são maiores para pessoas com tais
características. Entre os dois extremos estariam as probabilidades de pessoas
com combinações distintas de características que facilitam a felicidade.
Obviamente, as análises apresentadas aqui não são determinísticas, mas sim
probabilísticas. Ou seja, estamos definindo características que aumentam a
probabilidade de as pessoas afirmarem que são mais satisfeitas com as vidas que
levam. Há pessoas muito felizes, mas que apresentam todas as características
que favoreceriam a insatisfação. O que nossas análises indicam são tendências
gerais, há sempre a possibilidade de exceções e casos particulares. Em outras
palavras, essas análises podem dar a impressão de que temos uma fórmula para
alcançar a felicidade. Mas essa impressão é obviamente errônea. Ao dizer que as
características definidas estão correlacionadas a uma maior satisfação com a
vida, não estou querendo dizer que determinam completamente a felicidade. São
apenas características que estão correlacionadas a uma maior probabilidade de
os indivíduos afirmarem que são felizes. Não há relação causal nem
determinística, mas apenas uma associação expressando uma maior tendência ou
probabilidade de pessoas com as características descritas considerarem-se
satisfeitas com a vida. Muitos outros aspectos da vida e das personalidades das
pessoas, que não foram aqui expostos, se relacionam a sua satisfação com a
vida. O modelo que estimei apenas descreve como a média de felicidade varia
entre indivíduos com tais características. Essa informação é relevante porque
possibilita uma melhor descrição da distribuição de felicidade na população
brasileira.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo argumentei que a felicidade depende tanto de fatores materiais,
como renda e educação, quanto de fatores relacionais, como redes de amizade e
relacionamentos íntimos. Também mostrei que percepções positivas sobre renda,
saúde e religiosidade são fatores que aumentam a probabilidade de ser feliz.
Estudos anteriores sobre o Brasil enfatizaram apenas a relação entre condições
materiais e felicidade. Neste sentido, minhas análises avançam em relação às
pesquisas anteriores na medida em que mostram que percepções positivas e
relações sociais de amizade e companheirismo estão fortemente correlacionadas à
felicidade. Em outras palavras, as análises confirmam que mais dinheiro aumenta
a felicidade, mas que "bens relacionais", que dependem da relação com outras
pessoas, aumentam ainda mais a probabilidade de felicidade.
Na literatura sobre felicidade há um longo debate que procura definir se ela
depende mais da renda absoluta ou da relativa. A primeira é o tamanho da renda
e a segunda é a comparação que as pessoas fazem entre suas rendas e as de
outras pessoas. Minhas análises mostram que ambas são importantes covariáveis
da felicidade no Brasil. O mais interessante, no entanto, me parece ser o fato
de aspectos relacionais da vida social, como satisfação com a renda e rede de
amizades, por exemplo, serem altamente relevantes para explicar as
probabilidades de uma pessoa ser feliz. Uma longa tradição de estudos em
sociologia diz que a integração dos indivíduos em suas comunidades é
fundamental
para a coesão social e para o bem-estar das pessoas. No caso da sociologia, não
é apenas o bem-estar objetivo, mas sobretudo o sentimento de pertencimento e
satisfação que seriam importantes para que as pessoas se sentissem integradas
em suas comunidades. Nos trabalhos de Émile Durkheim, por exemplo, a integração
dos indivíduos em suas comunidades depende do pertencimento a comunidades
religiosas, profissionais ou outras. Haveria uma espécie de sentimento de
pertencimento que seria fundamental para que os indivíduos se sentissem
integrados e para que a sociedade funcionasse de forma adequada. Embora
Durkheim não fale de felicidade no sentido dado pela literatura que mobilizei
neste artigo, a ideia de que a integração dos indivíduos em suas comunidades é
fundamental para o bem-estar perpassa todo o seu trabalho.
Neste sentido, minhas análises seguem indicando que relações sociais tais como
amizade, casamento e religiosidade são fatores centrais aumentando as
probabilidades de felicidade dos indivíduos sugerem que a perspectiva
sociológica é altamente relevante para entendermos melhor a distribuição de
felicidade na sociedade brasileira. Não é apenas a renda, ou qualquer outro
fator material, que explica o aumento da probabilidade dos brasileiros serem
felizes, mas sobretudo a intensidade de suas relações sociais. Pessoas casadas
ou que têm um companheiro, com redes de amizade mais densas (capital social) e
que tenham alguma crença bem definida (seja religiosidade ou ateísmo convicto)
tendem a se sentir mais felizes, independentemente da renda que tenham. É fato,
no entanto, que a renda aumenta essa probabilidade, o que indica que a
perspectiva materialista não está totalmente errada.
Além disso, minhas análises indicaram que a satisfação com a própria saúde é um
dos principais fatores aumentando as probabilidades de felicidade. Esta
satisfação não depende diretamente de relações sociais. É importante notar que
a satisfação com a saúde não é a saúde propriamente dita, mas sim como as
pessoas se sentem. Pode ser que tenham uma saúde comprometida por alguma
doença, mas não sintam as consequências imediatas dessa enfermidade. Nestes
casos, a satisfação com a saúde é uma expressão da sensação de bem-estar
físico. Esse sentimento é extremamente importante para aumentar a probabilidade
de a pessoa se declarar feliz. Segundo alguns autores, este seria o principal
fator correlacionado à felicidade (Frey_e_Stutzer,_2002).
O modelo que estimei parece ser o mais completo usado para estudar a
distribuição de felicidade no Brasil. Os estudos anteriores utilizando dados
para o Brasil inteiro enfatizaram a correlação entre renda e felicidade,
enquanto minhas análises procuraram definir diversos outros fatores
correlacionados à felicidade. O modelo que uso, no entanto, pressupõe que as
variáveis independentes são anteriores à variável dependente (felicidade). Em
muitos casos, essa ordem das variáveis poderia ser questionada. Por exemplo,
será que é a rede de amizade que torna as pessoas mais felizes? Ou será que as
pessoas mais felizes tendem a ter redes de amizade mais extensas? O mesmo
raciocínio é válido para diversas outras variáveis incluídas nas análises. Esse
problema, conhecido como endogeneidade, não pode ser resolvido
estatisticamente, ou seja, depende da apreciação de pesquisas anteriores. Por
esse motivo, recorri à literatura para construir o modelo que sugiro. Em outras
palavras, só incluí no modelo final variáveis que já haviam sido estudadas em
trabalhos sobre felicidade desenvolvidos em outros países. O caso brasileiro
não difere muito dos outros países para os quais há estudos sobre felicidade.
Assim, tenho alguns parâmetros para afirmar que minhas análises estão
relativamente corretas. De fato, a distribuição de felicidade na sociedade
brasileira depende de características que também são importantes em diversas
outras sociedades. O Brasil não é muito diferente de outros países no que diz
respeito às probabilidades de satisfação com a vida. Ao contrário de diversos
outros cientistas sociais que sempre procuram encontrar e descrever a
excepcionalidade da sociedade brasileira, minhas análises indicam que há certas
regularidades encontradas em diversas outras sociedades que também estão
presentes no Brasil. Isso não significa que não haja particularidades na
sociedade brasileira. Também em termos da distribuição da felicidade o Brasil é
extremamente desigual. Além da desigualdade de renda, existe uma enorme
desigualdade na distribuição de bem-estar subjetivo. Sabemos que políticas
redistributivas e educacionais são fundamentais para diminuir o primeiro tipo
de desigualdade, mas para aumentar a igualdade na distribuição de felicidade é
preciso investir não apenas no aumento da renda de todos, mas sobretudo em
fatores que facilitem relações sociais mais harmoniosas e bens públicos mais
eficientes (como, por exemplo, saúde e lazer). Muitas vezes, a insatisfação da
população depende mais de "bens relacionais" do que das condições materiais.
Gráfico 1A
Média de Felicidade em 135 Países (em escala de 10 pontos - 0 a 9)
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Gráfico 2
Desvio Padrão de Felicidade em 135 Países (em escala de 10 pontos - 0 a 9)
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