Platô Sistêmico na Teoria Social: Uma Revolução Científica às Avessas
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por objetivo confrontar aspectos de fundamentação
epistemológica de duas importantes vertentes teóricas que se desenvolveram,
quase que concomitantemente, em termos temporais: o estrutural-funcionalismo,
nos Estados Unidos, e o estruturalismo, na França. O motivo desse confronto é
ressaltar o fato de que ambas as teorias desenvolvem-se sobre uma mesma base
epistemológica sistêmica: uma, oriunda da cibernética; outra, da linguística de
Ferdinand de Saussure. A partir da reconstrução de determinados aspectos da
história teórica sociológica, logo após a "crise" da sociologia clássica, nas
décadas que se seguiram às mortes de Durkheim e de Weber, buscou-se demonstrar
as congruências de fundamentação e a plataforma epistemológica que essas
correntes utilizam para realizar as (mesmas) pretensões de cientificidade e de
metarrelato.
Para tanto, o artigo está estruturado em três partes centrais: a primeira
reconstrói, de forma panorâmica, os principais elementos do desenvolvimento da
teoria sociológica, tanto nos Estados Unidos como na Europa, durante o período
que vai de 1920 a 1945 do século recém-passado. Este esforço é para situar o
leitor acerca dos principais conceitos que serão abordados durante o
desenvolvimento do trabalho, tais como: função (funcional), estrutura
(estrutural) e sistema. Posteriormente, na segunda parte, busca-se demonstrar:
a) as bases sistêmicas sobre as quais se desenvolve o estruturalismo francês;
e, b) por que essa vertente teórica distancia-se do conceito de sistema,
fartamente empregado por Saussure na teoria moderna da linguagem, de onde Lévi-
Strauss transporta os fundamentos epistemológicos para fundar o estruturalismo
nas ciências sociais, adotando, no lugar do termo "sistema", o termo
"estrutura". O mesmo, ainda dentro desta segunda parte, é feito com o conceito
de sistema utilizado pelo estrutural-funcionalismo de Talcott Parsons, isto é,
embora a teoria de Parsons seja mais conhecida como sistêmica, esse autor
empregou durante os anos 1940 os termos "estrutural" e "funcional" para
descrever a dinâmica que desejava dar à sua teoria, mas que também poderia ser
melhor descrita pelo termo sistema.
Por fim, o artigo adentra em seus argumentos centrais, destacando que a noção
de sistema ao longo do século XX, mas principalmente a partir do
desenvolvimento destas duas vertentes teóricas em lados distintos do Atlântico,
não apenas dá a ambas uma importante congruência de fundamentação: a
perspectiva sistêmica, como o próprio termo sistema, pouco a pouco assume um
status de teoria sistêmica, robustecendo-se dentro das ciências sociais até os
dias de hoje, provocando uma "revolução científica", nos termos propostos por
Thomas Kuhn, mas às avessas: através de diferentes processos de síntese, o
sistema, a partir da crise do estruturalismo e da teoria parsoniana, robustece-
se como possibilidade de fundamentação teórica, por vezes implícita, por vezes
explicitamente, sobretudo na produção da teoria sociológica europeia.
UMA MESMA BUSCA POR FUNDAMENTAÇÃO E CIENTIFICIDADE: A SOCIOLOGIA EM LADOS
OPOSTOS DO ATLÂNTICO
Se forem consideradas as principais correntes da teoria sociológica
desenvolvida durante o século XX após a "crise da sociologia clássica" do
entreguerras, com a morte de Max Weber, em 1920, e a ausência de seguidores da
sociologia compreensiva1, bem como o declínio do durkheimianismo, iniciado
ainda na década de 1930 e aprofundado logo após a II Guerra Mundial, constatar-
se-á um esforço da sociologia internacional para se reconstituir (Cuin_e
Gresle,_1994). Com exceção da sociologia norte-americana, que nas primeiras
décadas do século XX já se mostrava pujante, sobretudo com a Escola de Chicago,
na maior parte do mundo, nas décadas de 1920 a 1950, aproximadamente, a
sociologia girava em torno do marxismo de diversas nuances e do funcionalismo,
cujo controvertido debate voltou à cena após Durkheim e se estendeu até a
década de 1970, quando as controvérsias e avanços pareciam ter se esgotado. Na
Inglaterra, depois de Spencer e até a década de 1960, o papel da sociologia nas
ciências humanas era exercido pela antropologia, que durante esse tempo lhe
roubou a cena intelectual (Giddens,_2001). Na França, além do marxismo francês,
o existencialismo humanista de Jean-Paul Sartre - filósofo que se tornou uma
estrela não apenas do intelectualismo filosófico francês, mas também pelo seu
"engajamento" social - de certo modo satisfaziam, em parte, algumas lacunas da
explicação dos fenômenos sociais. Contrariamente aos filósofos clássicos,
Sartre afirmava que a existência precedia a essência. Para esse filósofo, o
homem é o que ele se faz, evocando, por um lado, a liberdade e, por outro, a
contingência (Huisman,_2001). De alguma forma, tais posições filosóficas
cumpriam o papel de uma sociologia da ação, cujo caráter humanista abria
espaço, ao mesmo tempo, para a liberdade, para indeterminação e para o que se
constitui em um dos maiores valores: o humano.
Nos Estados Unidos, a Escola de Chicago, cujo desenvolvimento iniciou-se a
partir de 1910, mesmo período do "suave" declínio da sociologia de caráter
positivista/evolucionista de influência europeia (Comte e Spencer), focou suas
atividades a partir de uma série de pesquisas, cujas vertentes - psicologia
social, quantitativismo de caráter censitário, sociologia urbana etc. -
apoiavam-se fortemente em trabalhos empíricos - uma empiria relativamente
carente de teoria genuinamente sociológica, no sentido (evidente) das
abordagens macrossociológicas, clássicas, também de origem europeia. O
Interacionismo simbólico, umas das abordagens que se tornaram mais conhecidas
internacionalmente, conseguiu, entretanto, formar um corpusteórico mais
robusto, porém, ainda aplicado à microssociologia, com importantes traços das
abordagens pragmatista e psicológica2 (Levine,_1997).
Entrementes, a sociologia norte-americana desenvolveu outra importante escola,
mesmo antes da década de 1930, cujo nascimento não estava vinculado - ou se
desvinculara buscando uma trajetória autônoma - à microssociologia e ao
pragmatismo da Escola de Chicago. Tratava-se de uma abordagem
sistêmica3iniciada, dentre outros pesquisadores menos conhecidos, por Robert M.
MacIver, escocês que lecionou no Canadá e imigrou para os Estados Unidos em
1927, estando vinculado à Universidade de Columbia até sua aposentadoria; pelo
polonês Florian Znaniecki, que migrou para os Estados Unidos durante a Primeira
Guerra Mundial; e por Pitirim A. Sorokin, de nacionalidade russa, que após 1919
exilou-se nos Estados Unidos, tornando-se professor da Universidade de
Minnesota - e mais tarde fundou o departamento de sociologia da Universidade de
Harvard. Este último, mais conhecido em línguas latinas, também foi um marcante
expoente dessa Escola Sistêmica Norte-Americana. Estes pesquisadores tiveram
alguma influência nos trabalhos de Parsons, mesmo antes de 1937, quando ele
publicou sua obra A Estrutura da Ação Social (1968a), que foi o primeiro passo
para que se tornasse internacionalmente conhecido. Aliás, essa corrente
sistêmica americana passou a ser conhecida, posteriormente, mais pelos
trabalhos de Parsons e também pelo nome de estrutural-funcionalismo, embora os
demais autores tenham desenvolvido trabalhos de repercussão internacional4
(Sorokin,_1971; Timasheff,_1971).
Este breve panorama do estatuto da sociologia em algumas partes do mundo não
tem a pretensão de fazer uma história da disciplina do entre e pós-guerras -
existe farta e importante bibliografia a respeito5. O intento aqui é destacar
de forma simplificada um momento anterior ao surgimento de duas importantes
vertentes de pensamento teórico, uma nos Estados Unidos, e outra do outro lado
do Atlântico, na França: o pensamento sistêmico e o pensamento estruturalista.
Estas correntes, se é que se pode referir dessa forma, parecem ter surgido de
modo completamente diferenciado e sem qualquer ponto de toque epistemológico,
teórico, ou metodológico. Entretanto, não foi bem assim6.
Essas duas abordagens teóricas frequentemente são estudadas e discutidas como
se não apresentassem qualquer semelhança de fundamentação, epistemológica,
teórica ou mesmo metodológica. Todavia, como será possível constatar, tais
abordagens, a sistêmica e a estruturalista, guardam mais semelhanças que
diferenças, e a exploração dessas semelhanças pode ser útil não apenas como um
resgate histórico, mas também de elementos para o próprio avanço da teoria
contemporânea. É necessário advertir, porém, que não é intenção deste artigo
explicar em detalhes ambas as teorias e seus meandros conceituais, objeto de
riquíssimos debates ao longo dos últimos 50 anos principalmente. Para a
consecução do objetivo a que se propõe este artigo, buscar-se-á demonstrar as
congruências a partir de eixos epistemológicos, ou seja, do substrato comum -
ou pelo menos comensurável - que dá sustentação a ambas reflexões teóricas: ao
pensamento sistêmico norte-americano surgido durante a década de 1940 e,
igualmente, ao estruturalismo, cuja a gênese também se encontra na mesma década
quando da passagem de Lévi-Strauss por Nova York. Em outro lugar, afirmou-se
que:
Em 1941 Lévi-Strauss viaja para Nova York para lecionar na "New
School for Social Research", conhecendo e se tornando amigo do
linguista Roman Jakobson, participando, inclusive de seus cursos
sobre linguística. É a partir de então que Lévi-Strauss percebe a
potencialidade da linguística para se pensar os distintos fenômenos
culturais (Rodrigues,_2010:141).
Embora a noção de sistema - da mesma forma que a noção de estrutura - tenha
sido utilizada desde os primórdios da teoria sociológica e não somente nela,
mas principalmente na filosofia (sistema kantiano, sistema hegeliano etc.), o
uso que se fazia não encerrava uma maior reflexão sobre estes termos. Eles eram
utilizados, sistema e estrutura, muitas vezes como sinônimos, para designar um
todo formado por partes articuladas ou não; quando se queria dar mais
mobilidade a esse todo, falava-se em sistema, quando se pretendia ressaltar
aspectos mais estáticos falava-se em estruturas (Rodrigues,_2006).
Se a noção de sistema, na sociologia contemporânea, invade a academia de forma
interdisciplinar, sobretudo a partir das Conferências de Macy7, que acolheu uma
importante gama de pesquisadores ciberneticistas, o estruturalismo francês tem
o seu nascimento a partir da linguística moderna espalhando-se
interdisciplinarmente. Assim, como um resumo esquemático do que foi dito até
então, vejamos o Esquema_1 a seguir.
Esquema 1 Aspectos Esquemáticos da Sociologia Internacional no Período entre
1920 e 19508
Após a apresentação do Esquema_1, além das notas que lhes foram agregadas,
cabem ainda algumas considerações, dada a "simplicidade" com que parte
importante da teoria sociológica foi nele apresentada. Intencionou-se
centralmente, com o esquema, a partir da "crise" dos clássicos nas primeiras
décadas do século XX, salientar os caminhos que as sociologias norte-americana
e francesa "coincidentemente" seguiram durante os anos 1940. Ambas as teorias
tinham duas (e as mesmas) ambições: por um lado, construírem um estatuto de
cientificidade e, por outro, não se constituírem em sociologias puramente da
ação, mas que essa fosse envolvida ou subordinada (dada a sua dimensão de
subjetividade) por uma dimensão estrutural, sistêmica.
No caso da sociologia americana, a proposta estrutural-funcionalista ou
sistêmica de Talcott Parsons deixa evidente tal ambição na seguinte passagem:
"O ponto de partida fundamental é o conceito de sistema social de ação. (...) A
interação dos atores individuais está posta em condições tais que é possível
considerar este processo de interação um sistema (no sentido científico) e
submetê-lo às mesmas ordens de análise teóricas que têm sido aplicadas com
êxito a outros tipos de sistemas em outras ciências" (1966:23; ênfases minhas).
Já no caso da sociologia francesa, a "descoberta" de Lévi-Strauss das
estruturas "ausentes" da linguística moderna, que via a língua como um sistema
e os atos de fala como sobredeterminados pelas regras não aparentes da língua,
fê-lo acreditar que as diferentes sociedades eram sobredeterminadas por
estruturas (inconscientes) que atuavam sobre as ações de seus membros. A
passagem a seguir é elucidativa:
Ela [o nascimento da fonologia] não renovou apenas as perspectivas
linguísticas uma transformação de tal amplitude não se limita a uma
disciplina específica. A fonologia desempenha, em relação às ciências
sociais, o papel renovador que a física nuclear, por exemplo,
desempenhou para com o conjunto das ciências exatas. (...)
finalmente, ela visa à descoberta de leis gerais, descobertas ou por
indução, ou deduzidas logicamente, o que lhes dá um caráter absoluto
(Lévi-Strauss,_2003:60).
Ao abordar este período da teoria sociológica, intencionalmente não se buscou
discutir os meandros do rico e importante debate havido principalmente sobre a
Escola Funcionalista que envolveu esforços teóricos tanto europeus como
americanos; tampouco se debateu a também importante discussão sobre os
problemas epistemológicos e metodológicos das ciências sociais, em geral, e da
sociologia em específico, que, inclusive, deram origem à sociologia do
conhecimento e a uma gama de textos sobre métodos12. O foco que se buscou foi
justamente o de mostrar que os esforços teóricos de cientificidade de uma
macrossociologia conduziram a duas vertentes, a estrutural-funcionalista e a
estruturalista, aparentemente incomunicáveis (e incomensuráveis) com relação ao
mesmo substrato epistêmico, ou seja: uma perspectiva epistemológica sistêmica
do social, ponto este que será discutido detalhadamente a seguir e que se
constitui, acredita-se, na principal contribuição deste artigo. Antes, porém, a
perspectiva apresentada por Losano no que se refere a essa mútua "cooperação
silenciosa" do estruturalismo e do pensamento sistêmico é especialmente
relevante quando destaca que:
(...) também na Europa havia uma expectativa por essa mudança de
paradigma, mas sua realização fora retardada pelas ditaduras e pela
guerra. O advento das teorias sistêmicas nos Estados Unidos do pós-
guerra ajuda a compreender melhor o sucesso do estruturalismo
europeu, uma vez que ambos são manifestações históricas, específicas
da mesma exigência científica geral (Losano,_2011:230-231).
ESTRUTURALISMO E ESTRUTURAL FUNCIONALISMO: UMA MESMA PLATAFORMA COGNITIVA
SISTÊMICA
A Fundamentação Sistêmica do Estruturalismo Francês
Quando o estruturalismo transpõe a fundamentação epistemológica oriunda da
linguística moderna para o estudo das sociedades, o termo estruturalismo já
existia na linguística há aproximadamente duas décadas. "Foi o linguista
dinamarquês Louis Hjelmslev quem reivindicou o emprego do termo estruturalismo,
derivando-o da já conhecida palavra estrutura, como fundamento epistemológico e
método de abordagem científica. (...) Hjelmslev fundou, em 1939, a revista Acta
Lingüística, em que constava um primeiro artigo referindo-se à linguística
estrutural" (Rodrigues,_2006:35-67). Na antropologia, o termo foi utilizado
justamente para se diferenciar das clássicas utilizações dos termos estrutura e
estrutural; o sufixo "ismo" também atenderia às pretensões lévi-straussianas:
status de escola13, corrente, ou mesmo movimento, além do caráter
cientificista.
Conceitos são constantemente ressemantizados, seja para conotar detalhes
diferenciais do pensamento, seja para aderir ao mainstream de uma determinada
época. Nesse caso, a noção de estrutura, que sobreviveu ao declínio da teoria
clássica, estava sendo utilizada como uma "âncora" conceitual para a descrição
de múltiplos fenômenos teóricos, em quase todas as abordagens sociológicas14.
Nesse sentido, a adoção do termo estruturalismo, pela antropologia, para a
investigação de fenômenos sociais, não apenas vinha ao encontro do conceito que
estava em voga no momento como também lhe conferia uma nova roupagem. Como
Lévi-Strauss estava levando uma importante novidade para a Franca ao final da
década de 1940, convicto de que os mesmos fundamentos da linguística moderna
apresentavam capacidade explicativa revolucionária para o entendimento
científico do fenômeno social, nada mais lógico do que "reembalar" o conceito
estrutural da mesma forma que havia sido feito na linguística moderna. Daí a
emergência do estruturalismo francês, que se diferenciava de todas as
abordagens estruturais, cuja fundamentação epistemológica originava-se de uma
perspectiva organísmica, biologista, da qual, sobretudo os franceses, queriam
se afastar. Como já foi mencionado em outro lugar:
(...) foi de fato Claude Lévi-Strauss quem teve o mérito de transpor,
da linguística moderna para as ciências sociais, a fundamentação
epistemológica que caracterizou o estruturalismo como tal (...)
Quando falamos em transposição dos fundamentos epistemológicos da
linguística (...) referimo-nos à "descoberta" de estruturas
inteligíveis subjacentes a diferentes objetos (objetos, esses,
geralmente vinculados à atividade humana), para além de sua aparente
organização, que consigam explicá-los de forma mais profunda, de modo
mais cabal. Esse primeiro esforço de definição do estruturalismo
demonstra, desde logo, o quanto essa noção está vinculada à
linguística moderna. Essa é sem dúvida a importante inovação que
Lévi-Strauss deu à antropologia francesa, retirando-a da sua filiação
às ciências da natureza (Rodrigues,_2010:139-140).
Sem a intenção de discutir-se aqui o estruturalismo francês, cuja bibliografia
é abundante e profunda15, objetiva-se, pontualmente, aclarar que o nome
"estruturalismo", dado a este movimento teórico desenvolvido genuinamente na
França, não corresponde necessariamente àquilo que a noção de estrutura, nem
tradicionalmente, nem contemporaneamente, denota. Isto porque a noção de
estrutura, estrutural ou mesmo estruturalismo, para refletir a dimensão de
fundamentação da proposta teórica saussuriana, é meramente conotativa com
relação ao seu pensamento. Em outros termos, toda a estrutura teórica e de
fundamentação - por isto epistemológica - da linguística moderna proposta de
forma tão bem acabada por Ferdinand de Saussure é melhor denotada, explicada
pelo conceito de sistema. Aliás, Saussure nunca utilizou o termo estrutura para
se referir às questões centrais da linguística moderna, nos cursos de
Linguística Geral que ministrou durante o período de 1906 a 1911, na
Universidade de Genebra16. O termo que sempre foi empregado por Saussure e seus
discípulos foi de fato sistema: "A palavra 'estrutura' não chega a ser
mencionada explicitamente no Curso, mas a noção de 'sistema', largamente
empregada, contém implícito o mesmo significado quando Saussure define 'língua'
como 'um sistema cujos termos são todos solidários e em que 'o valor de um não
resulta senão da presença simultânea dos outros'" (Benveniste, 1978:VII). O
termo sistema, utilizado por Lévi-Strauss em muitas das vezes como sinônimo de
estrutura, evidentemente foi necessário para comunicar a ideia de mobilidade
relacional, interdependência das partes, interação e integração, movimentos
estes muito bem caracterizados na linguística saussuriana, sobretudo no seu
nível de sincronicidade.
Destarte, é importante que se frise o fato curioso e pouco mencionado na
literatura estruturalista: se por um lado a linguística moderna de Saussure foi
fundamental para o desenvolvimento do estruturalismo francês, por outro, os
termos estrutura e estruturalismo, já em uso por Lévi-Strauss e pelas adesões
teóricas que se seguiram durante as décadas de 1950 e 1960, dado o caráter
interdisciplinar que assumiu esse movimento, passaram a ser incorporados pelos
linguistas modernos no lugar do termo sistema, originalmente utilizado por
Ferdinand de Saussure e seus discípulos. A passagem a seguir, escrita por Émile
Benveniste17, é particularmente elucidativa:
O termo [estrutura] tornou-se tão difundido que os pesquisadores o
empregam em diferentes acepções (...) Em alguns casos, "estrutura" é
entendida como um "sistema que explica o arranjo do todo em partes,
as quais são solidárias"; em outros casos, fala-se de "estrutura"
como "disposição, num todo organizado, dos elementos das substâncias
concretas". Mas apesar da diversidade de conceituações, é inegável
que desde a década de 1940, o estruturalismo foi o movimento que mais
se impôs à atenção dos especialistas tornando-se o motor ativo da
Linguística (1978:VII; ênfases minhas).
Os estruturalistas, por diversas vezes, necessitaram recorrer à noção de
sistema para que pudessem ser melhor compreendidos. Aantropologia
estruturalista também se utiliza da noção de sistema de forma implícita o tempo
todo, e em diversos casos, de forma explícita. Na obra de Lévi-Strauss,
Antropologia Estrutural (2003), tida como um dos grandes marcos do
estruturalismo, as passagens em que o autor usa o termo sistema são inúmeras
como a que segue, por exemplo:
No estudo dos problemas de parentesco (e certamente também no estudo
de outros problemas), os sociólogos se veem numa situação formalmente
análoga à dos linguistas fonólogos: como os fonemas, os termos de
parentesco são elementos de significação; como eles, só adquirem essa
significação se integrados em sistemas; os "sistemas de parentesco",
assim como os "sistemasfonológicos", são elaborados pelo espírito no
estágio do pensamento inconsciente... (Lévi-Strauss,_2003:61; ênfases
minhas).
Para Saussure, assim como para Lévi-Strauss, a noção de sistema é fundamental
para descrever de forma apropriada a dimensão dinâmica tanto dos fenômenos
linguísticos como dos sociais. Em Saussure_(1945:11): "O valor que consiste na
solidariedade e na interdependência de uma significação com outra significação
emana do sistema e implica na presença concreta do sistema em cada um de seus
elementos". Os exemplos da utilização da noção de sistema para tornar mais
clara a dimensão de fundamento epistemológico, tanto na linguística como no
estruturalismo, são inúmeros, abundantes; neste sentido, acredita-se ser
desnecessária uma demonstração mais farta18.
A Fundamentação Sistêmica do Estrutural Funcionalismo
Já na publicação de seu livro The Structure of Social Action19, em 1937,
Talcott Parsons pretendia formular uma macroteoria, contrariamente ao
mainstream da sociologia norte-americana, principalmente com relação à Escola
de Chicago, voltando-se assim para os clássicos Europeus. Parsons, que chegou a
se autodenominar um "teórico incurável"20, é bem caracterizado por Guy_Rocher_
(1976:11) quando este afirma que toda a obra de Parsons "tem um único e mesmo
objetivo: elaborar um quadro conceitual e teórico destinado a conferir à
sociologia o status de ciência autêntica, relacionando-a logicamente com outras
ciências humanas". Verifica-se, assim, como já mencionado, os dois grandes
intentos de Parsons: a construção de uma teoria que atenda às necessidades de
explicações gerais para o fenômeno social e que tenha um estatuto de
cientificidade ao estilo das demais ciências.
Em La Estructura de la Acción Social (1968b)21, logo na Introdução, é possível
observar o desejo de Parsons, por vezes explícito, por outras implícito de dar
dinâmica, em termos de abordagem sistêmica, à ação social ou mesmo à estrutura
social. No prefácio que elabora para a primeira edição, de 1937, Parsons parece
evitar falar em dimensão sistêmica ou estrutural; entretanto, na segunda edição
dessa mesma obra, 12 anos mais tarde, publicada em março de 1949, Parsons_
(1968b:22) diz que: "La Estructura de la Acción Social buscou ser uma
contribuição à ciência social sistemática e não à história da ciência (ou seja,
história do pensamento social)". Mais adiante, acrescenta: "Em muitos pontos,
pelo menos, o deslocamento do nível teórico, a partir da análise da estrutura
da ação social como tal, até a análise estrutural-funcional de sistemas sociais
parece tornar possível uma importante série de esforços nessa direção. Os
sistemas sociais são, assim, 'em último termo', sistema de ação social"
(Parsons,_1968:25)22.
É importante observar-se que nesse período de 12 anos, Parsons já está
incorporando mais claramente a noção de "estrutura" que, como foi visto, era
cara à sociologia europeia - seu ponto de partida teórico -, mas associando às
noções de "estrutura" e "estrutural" as também importantes noções à época de
"funcional" e "funcionalismo". Entretanto, Parsons permanece com a noção de
sistema e pouco a pouco a utiliza de forma cada vez mais consistente. Ele
parece estar convicto de que, na sociologia, o uso da noção de sistema é o que
de fato dá caráter de cientificidade à disciplina. A este respeito, Rocher_
(1976:17) argumenta que: "Se há algo que Parsons esteja convencido é de que as
ciências humanas não podem ser científicas senão na medida em que recorram à
análise sistêmica, como o fizeram as ciências físicas e, mais recentemente, a
biologia". Na introdução de sua mais importante obra e também a mais lida na
Europa de um sociólogo norte-americano, El Sistema Social, publicada em 1951, o
próprio Parsons afirma que o título da mesma "obedece fundamentalmente à
insistência do professor L. J. Henderson na importância extremada do conceito
de sistema na teoria científica e em sua clara compreensão de que o intento de
delimitar o sistema social como um sistema constitui a contribuição mais
importante da grande obra de Pareto" (1966:17; ênfases minhas)23.
Parsons_(1966; 1968), quando da publicação de The Social System,jáestava
convicto da necessidade da análise sistêmica para a apreensão dos fenômenos de
natureza social. É neste sentido que articula os elementos estruturais do
sistema de ação, isto é, o sistema de ação que diz respeito à organização das
relações de interações entre ator e situação ("os objetos sociais"); as
variáveis que estruturam todo o sistema de ação e os pré-requisitos funcionais
desse sistema. O Esquema_2 a seguir é composto de duas partes: a primeira,
feita para este artigo; e a segunda, retirada de Rocher_(1976:53), ilustra a
ideia de dinâmica que Parsons pretendeu dar ao seu modelo teórico.
[/img/revistas/dados/v57n4//0011-5258-dados-57-04-1109-gf02.jpg]
Esquema 2 Sistema de Ação em Parsons (primeira parte)Fonte: Rocher (1976:58).
Parsons_(1966; 1968) necessitou da noção de sistema para dar a dinâmica
necessária à sua teoria da sociologia. Os conceitos de estrutura e de função
não seriam suficientes para denotar a dinâmica necessária por ele identificada
nos fenômenos sociais contemporâneos. Nesse aspecto, é interessante notar que
este autor foi um dos pioneiros, na teoria social, a buscar a articulação entre
ação e estrutura que, na Europa, só ocorreu após a crise do estruturalismo
propriamente dito. É relativamente comum na literatura teórica de sociologia
defrontar-se com o fato de que os esforços para a integração da ação
(subjetivista) e da estrutura (objetivista) no mesmo escopo explicativo têm
sido feitos pelo pós-estruturalismo - movimento este assim denominado por
pensadores norte-americanos, após a crise do estruturalismo, para etiquetarem
de um modo geral todos os esforços teóricos que surgiram, sobretudo na Europa,
a partir dos anos 1970. Entretanto, raramente é mencionado que tal esforço da
sociologia contemporâneajá se encontrava na teoria parsoniana, no início da
década de 1950, com sua obra The Social System.
A articulação teórica entre ação e estrutura, desenvolvida por Parsons foi
fortemente influenciada pela cibernética durante os anos 1940 e, como comentado
anteriormente, essa nova disciplina estava obtendo importantes avanços teóricos
e empíricos em diferentes áreas do conhecimento científico, cujo conceito de
sistema assume uma dimensão central. Sem sistema, por exemplo, dificilmente
haveria cibernética, ciência da comunicação ou ciência da cognição. Parsons
utiliza esses fundamentos para integrar as dimensões funcionais do sistema de
ação; dos subsistemas de sistema de ação, numa relação de hierarquia
cibernética, conforme o ilustra o Esquema_3.
[/img/revistas/dados/v57n4//0011-5258-dados-57-04-1109-gf03.jpg]
Esquema 3 Hierarquia Cibernética do Sistema Geral de Ação
No esquema anterior, é possível observar que subsistema orgânico é o mais rico
em energia (movimento) e, ao mesmo tempo, o mais pobre em informação (não
possui a "totalidade" da informação de uma sociedade). Assim, vai acontecendo
com o subsistema de personalidade e com subsistema social, até que se chegue ao
subsistema cultural. Esse, seguindo o esquema cibernético, é mais rico em
informação (possui a totalidade da informação de uma sociedade) e mais
desprovido de energia, movimento (é mais estático, não muda facilmente). Entre
estes quatro subsistemas estabelece-se, portanto, uma hierarquia de controles
que se exercem sobre o subsistema social, que, por sua vez, se exerce sobre o
subsistema de personalidade, que se exerce sobre o subsistema orgânico, numa
dinâmica circular e retroalimentativa (Parsons,_1966,1968; Rocher,_1976).
O que se deseja salientar é que o pensamento teórico parsoniano de fato está
organizado sobre uma plataforma cuja fundamentação é sistêmica. As dimensões
estruturais são dimensões da própria sistematização (formação) do sistema; a
dimensão funcional é uma dimensão que fica atrelada ao sistema social no que se
refere ao "tipo", isto é, à especificidade de cada sistema: político,
econômico, social etc. Em outras palavras, a noção estrutural na teoria de
Parsons diz respeito à formação e à "dimensão" do próprio sistema, ao passo que
a noção de função quase nada inova no sentido da utilização do termo pela
tradição sociológica. A inovação teórica proposta por Parsons de fato está na
utilização da noção de sistema no sentido de sua mobilidade cibernética, como
ciência do controle e da informação. Em outro lugar salientou-se que:
Ao analisarmos, a partir de uma perspectiva sociológica do
conhecimento científico a incorporação do conceito de sistema nos
estudos propostos por Parsons, (...) verificamos que ela se coloca à
meia distância entre, de um lado, a forte noção de função e de
estrutura predominante na teoria sociológica clássica e, de outro
lado, que Parsons está absorvendo as inovações que estão sendo
desenvolvidas no âmbito da reflexão sistêmica pela Cibernética e pela
Biologia, quase que genuinamente americanas. Isso explica o constante
uso da noção de estrutura e de sistema, às vezes como sinônimos, às
vezes como conceitos que possibilitam alternar a idéia de estática e
dinâmica do fenômeno social. (...) Essa ambiguidade conceitual (...)
no momento em que Parsons está elaborando o seu "Social System" é
justamente um momento de profundas transformações no escopo geral do
conhecimento científico, quer seja na Biologia, na Psicologia, e
mesmo na Sociologia. (...) As novas noções sistêmicas que estavam
sendo importadas para o interior da teoria sociológica não tinham
mais que poucos anos. A data de nascimento da própria Cibernética,
com a publicação de artigos que efetivamente trazem a noção de
controle informacional, através de uma circularidade operativa de um
sistema (...) foi em 1943 (Rodrigues,_2003:295-296).
No estruturalismo, o termo adotado continuou sendo "estrutura", como se buscou
demonstrar anteriormente. Não porque os termos estrutura e estruturalismo
explicassem melhor o fundamento epistemológico proposto por Saussure e que foi
transposto na sua íntegra para o estudo dos fenômenos sociais por Lévi-Strauss,
mas sim porque o termo estrutura estava mais em voga no estudo da sociologia,
como já comentado. Mesmo porque o termo sistema, sem dúvida, melhor reflete a
dimensão relacional dos elementos presentes no sistema linguístico e que
determinam o entendimento no momento da fala. O mesmo pode ser pensado para os
sistemas sociais, em que os elementos subjacentes às diferentes práticas
sociais, em correlação dinâmica uns com os outros, "sobredeterminam" as
diferentes manifestações de grupos sociais.
Quando se apresentou neste artigo o Esquema_1, o intento era o de justamente
demonstrar que as duas vertentes teóricas sociológicas - o pensamento sistêmico
norte-americano e, concomitantemente, o desenvolvimento do estruturalismo
francês - repousavam sobre um mesmo fundamento (ou plataforma) epistemológico
sistêmico. Em outros termos, a teoria social contemporânea necessitava de uma
base de fundamentação que lhe desse mobilidade, refletindo as próprias mudanças
da realidade social. Ora, dentre outras características que a noção de sistema
apresentou durante todo o século XX, foi a ideia de dinâmica. Dos escassos
trabalhos teóricos que se reportam às características dessas duas abordagens
sociológicas é a obra de um dos maiores estudiosos da atualidade dos conceitos
de sistema e de estrutura, Mario G. Losano que afirma:
O mérito que não poderá jamais ser negado ao estruturalismo consiste
em ele ter aberto a Europa à teoria dos sistemas: O núcleo da
mensagem, oculto mas vital, do estruturalismo é uma orientação
conceitual que encontra explícita expressão na análise sistêmica. Ou
seja, o estruturalismo é a teoria que rompe com a antiga concepção
europeia do sistema externo ou descritivo e que propõe uma noção
moderna dele (2011:229-30; ênfases minhas).
Comunga-se desse mesmo ponto de vista de Losano. Estas duas vertentes se
interfecundaram de modo importante, significativo para a teoria contemporânea,
aquela que se desenvolveu a partir do final da década de 1970 e início da de
1980 até os dias de hoje, mas o fizeram de modo "discreto", silencioso, como
dois "rivais elegantes". As teorias norte-americanas, mas, principalmente, as
europeias que se seguiram após a crise do estruturalismo, têm se fundado, em
sua maioria, em uma perspectiva sistêmica - considerando os avanços
epistemológicos deste conceito, umas mais, outras menos. Fato é que a chamada
matriz pós-estruturalista (nos termos que estamos empregando aqui, isto é, que
busca a articulação entre estrutura e ação) tem se constituído em boa medida em
uma plataforma sistêmica, tal como, por exemplo: Giddens_(1989); Laclau_e
Mouffe_(2011); Laclau_(2005); Luhmann_(2007, 1998).
UMA "REVOLUÇÃO CIENTÍFICA" ÀS AVESSAS OU CONSOLIDAÇÃO DO PARADIGMA SISTÊMICO?
A forma de desenvolvimento não linear da ciência, proposta por Thomas_Khun_
(1996), não se mostrou eficiente apenas para desconstruir o mito do linear
progresso da ciência que sempre avançava, baseada em um método universal e
quase infalível, oriundo da chamada received view24, perspectiva esta que
perdurou durante praticamente toda a primeira metade do século XX. A partir da
sua obra A Estrutura das Revoluções Científicas, desde o seu aparecimento em
1962, muito tem sido dito sobre paradigmas nas ciências de uma forma geral.
Quando se fala em "mudança de paradigma", no sentido proposto por Kuhn - mesmo
considerando suas obras posteriores (1979, 2006, 2011) - ou em sentidos
similares, como "estilo de raciocínio", proposto por Ian_Hacking_(2012),
certamente se está falando na busca de caminhos outros, ou "outro", no sentido
de alter. Entretanto, a dificuldade está no fato de que caminhos alternativos,
em se tratando da produção do conhecimento científico, sempre se referem às
questões de fundamento e, consequentemente, epistemológicas e de método.
Apesar de Thomas Kuhn ter demonstrado algumas das mudanças de paradigma na
produção do conhecimento científico nas hard sciences25, têm sido os cientistas
sociais - sobretudo aqueles que trabalham com science studies ou teoria social
- que, com certa frequência, utilizam esta noção. Entretanto, o fazem, quase
sempre, de forma indicativa ou prescritiva - quando se referem à necessidade de
reformulação paradigmática, dada a crescente complexidade da realidade social
-, e nunca de forma demonstrativa, isto é, apontando uma efetiva ruptura com os
parâmetros de produção da "ciência normal". Certamente existe uma clara
dificuldade de ruptura ou de demonstração de rupturas que tem havido no
decorrer da produção de conhecimento científico nas ciências sociais. É
compreensível que as descontinuidades de fundamentação teórico-epistemológicas
e, consequentemente, de método, não sejam percebidas no mesmo momento em que
estão sendo operadas. É necessário o distanciamento temporal e, por
conseguinte, a crítica e o debate científico para que tais mudanças sejam
efetivamente percebidas e avaliadas como tal, independentemente de quão
profundas sejam.
É a historicização reflexiva de uma determinada área do conhecimento, ou mesmo
de uma disciplina, que faz com que se perceba não apenas as revoluções
científicas - estas parecem que, com o avanço da pesquisa nos dias de hoje, têm
se tornado cada vez mais raras -, mas inclusive as pequenas descontinuidades,
mudanças de rumo, ou mesmo de agenda de "programas de pesquisa", nos termos de
Imre_Lakatos_(1993). Entretanto, a reflexão histórica do desenvolvimento
epistemológico, teórico e empírico de um determinado conhecimento disciplinar
também pode apontar não somente rupturas, revoluções, crises da ciência normal,
como também processos de fundamentação teórico-epistemológicos da investigação
científica que são contrários às ideias de dissolução, descontinuidade,
supressão, ou mesmo de crise de um determinado paradigma científico, em
detrimento de outro que emerge. É possível a identificação de processos de
sínteses paradigmáticas, de aglutinação, de continuidade, culminando no
fortalecimento de um determinado paradigma.
Isto foi o que aconteceu com o conceito de sistema, que de conceito passou a
ser usado de forma mais ampla, como noção sistêmica; abordagem sistêmica;
pensamento sistêmico, assumindo, inclusive, o status de teoria sistêmica,
independentemente da adjetivação que lhe seja colocada - sociológica, política,
econômica, biológica etc. Os avanços epistemológicos obtidos pelo "conceito" de
sistema, desde (e mesmo anteriormente) a célebre obra de Ludwig_Von_Bertalanffy
(2008), a Teoria Geral dos Sistemas, publicada pela primeira vez (tardiamente)
em 1968 - muitas de suas reflexões teóricas já haviam sido publicadas em
periódicos especializados -, passaram a constituir um espaço de debate, por nós
denominado plataforma cognitiva que, como categoria epistemológica, permite
comportar e dar sentido à complexa dinâmica de avanços, de transformações e
mesmo de ressemantizações teórico-conceituais, como no caso das reflexões
sistêmicas.
Não faz parte da pauta deste artigo discutir de modo mais pormenorizado os
avanços que a teoria sistêmica obteve em diferentes áreas do conhecimento,
também com reflexos importantes nas ciências sociais.
O que se deseja destacar é o fato de que, no caso dos avançosepistemológicos
sistêmicos, contrariamente à noção de revolução científica, a "sistêmica" -
mesmo considerando seus "giros" epistemológicos e de fundamentação
(revoluções?) -, tem revelado continuidades, convergências que, de forma
"silenciosa", têm permitido a tecelagem do processo de sínteses (inclusive
disciplinares), robustecendo um paradigma: o paradigma sistêmico. Talvez seja
possível falar em uma espécie de "revolução científica" ainda nos termos de
Kuhn, porém às avessas: por mais que se busque suplantar um determinado
conceito (ou paradigma), tudo o que se faz - como uma espécie de efeito
colateral - é reforçá-lo, reafirmá-lo, fazendo com que, dentro de diferentes
campos disciplinares específicos, ele (o conceito, o paradigma) se torne uma
espécie de plataforma cognitiva26 de onde se erige boa parte, não apenas da
reflexão teórica, mas da sua efetiva proposição como modelos (teorias) para a
explicação das diferentes dimensões da ciência.
NOTAS
1Sobre o tema ver Cuin_e_Gresle_(1994); Levine_(1997).
2Para que se tenha uma percepção mais precisa da Escola de Chicago em termos de
sua pesquisa empírica, é importante destacar este trecho escrito por Levine_
(1997:234): "O desafio apresentado pela síntese pragmatista para uma ciência da
sociologia foi triplo. A sociologia precisava desenvolver uma concepção de
fenômenos sociais que caracterizasse os processos mentais subjetivos de
agentes, mas entendesse tais processos subjetivos como efeitos e causas de
processos sociais. (...) Essas tarefas foram abordadas com extraordinária
criatividade por Charles Horton Cooley, William I. Thomas e Robert Ezra Park".
3Sob a etiqueta "sistêmica" os teóricos americanos, à época, colocavam uma
grande variedade de esforços teóricos para explicar o fenômeno social, com
diferentes dimensões empíricas e variadas bases epistemológica.
4Florian Znaniechi, em parceria com William I. Thomas, publicou o conhecido
trabalho intitulado The Polish Peasant in Europe and America; Pitirim Sorokin
publicou dois importantes volumes sobre a sociologia norte-americana:
Contemporary Sociological Theories, em 1928 (a edição por nós utilizada está em
língua espanhola e é de 1951), e Sociological Theories of Today, em 1969 (a
edição por nós utilizada está em português e é de 1971). Para um aprofundamento
sobre a sociologia estadunidense, ver também Gurvitch_e_Moore_(1970, v.1).
5Para um maior conhecimento do debate, ver: Gurvitch_e_Moore_(1970:vol. 1 e
vol. 2); Levine_(1997); Cuin_e_Gresle_(1994).
6Conforme mencionamos anteriormente, a abordagem sistêmica já era objeto de
discussão na sociologia americana. Entretanto, essa abordagem ganha
consistência a partir de Parsons, sobretudo em seus ensaios da década de 1940.
Para um aprofundamento dessa discussão, ver: Gouldner_(1979); Parsons_et_al._
(1961); Sorokin_(1951; 1971). Há de se ter cuidado para não confundir a
sociologia estrutural que de certa forma fazia parte da reflexão sociológica
clássica, tendo sido o termo utilizado por Marx, Durkheim, Radcliffe-Brown
etc., com o termo estruturalismo, desenvolvido pelo dinamarquês Louis
Hjelmslev, em 1939 (Dosse,_1993; Rodrigues,_2006).
7Trata-se das conferências que aconteceram na Fundação Josiah Macy Jr., entre
os anos de 1946 e 1953, em Nova York, com os mais renomados cientistas de
diferentes áreas do conhecimento. "O sociólogo Paul Lazarsfeld participou, como
convidado, do primeiro encontro das famosas reuniões promovidas pela Fundação
Macy, realizado em Nova York, em março de 1946. Em setembro do mesmo ano,
também a convite de Norbert Wiener e von Neumann, Parsons e Merton participaram
da conferência que se chamou ‘Teleological Mechanisms in Society' e em outubro
do mesmo ano participaram da conferência dirigida por McCulloch e denominada
‘Teleological Mechanisms and Circular Causal Systems’" (Rodrigues,_2003:294).
8As datas são esforços didáticos de maior aproximação possível. Com relação ao
estruturalismo, por exemplo, salienta-se que uma das obras paradigmáticas desse
movimento, a Antropologia Estrutural, foi publicada em 1958. Entretanto, esta
foi fruto da reunião de artigos escritos entre 1940 e 1950, segundo o próprio
autor (Lévi-Strauss,_2003; Rodrigues,_2010).
9Para um maior aprofundamento desta discussão, ver Parsons_(1968a); Rocher_
(1976); Rodrigues_e_Mendonça_(2006); Rodrigues_e_Neves_(2012); Rodrigues_
(2013).
10Conforme Dosse_(1993:33), foi Jakobson quem aconselhou Lévi-Strauss a
"começar a redigir, em 1943, a sua tese que se converterá em obra essencial:
Les Structures Élémentaires de la Parente.
11A este respeito, Losano_(2011:230-231) é muito enfático: "O estruturalismo
também reagiu ao empirismo da primeira metade do século XX, mas ao mesmo tempo
não foi um movimento puramente filosófico (como, por exemplo, o
existencialismo) e pode, portanto, apresentar-se também como uma alternativa ao
marxismo mais ortodoxo".
12Sobre este tema, ver: Blau_(1977); Gurvitch_e_Moore_(1970); Merton_(1970);
Rex_(1973).
13Para Saint-Sernin_(1998:89), por exemplo, "A estrutura é uma característica
das coisas, enquanto o estruturalismo é uma concepção que pretende explicar a
origem, a forma e a diversidade das estruturas encontrada na natureza e na
sociedade".
14Entre os bons exemplos da perspectiva estrutural que continua, principalmente
nos Estados Unidos, está o clássico livro de Robert K. Merton, Social Theory
and Social Structure, publicado pela primeira vez em 1949 (para este artigo
estamos utilizando a edição brasileira de 1970) e também a coletânea, com a
participação de diversos teóricos norte-americanos, organizada por Peter M.
Blau, intitulada Approaches to the Study of Social Structure, publicada em 1975
(para este artigo estamos utilizando a edição brasileira, cujo título é
Introdução ao Estudo da Estrutura Social, publicada em 1977). Pouco a pouco a
discussão "estrutural" vai perdendo força e dando lugar, nos Estados Unidos,
para a discussão sistêmica e, na Europa, particularmente na França, para o
"estruturalismo francês".
15Recomenda-se, principalmente, as seguintes obras: Dosse_(1993: vols. 1 e 2);
Bastide_(1971); Coelho_(1968); Lepargneur_(1972); Pouillon_(1968).
16Sabe-se que a obra Cours de Linguistique Générale resultou da compilação de
notas de suas aulas realizada por dois de seus alunos e discípulos: Charles
Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de Albert Reidlinger (Carvalho,
1980).
17Esta passagem é uma citação de Benveniste, a qual faz parte da Introdução de
Os Pensadores: Textos Selecionados de Ferdinand_de_Saussure,_Roman_Jakobson,
Louis_TrØlle_Hjelmslev_e_Noam_Chomsky_(1978:VII).
18Não se poderia deixar de chamar a atenção para uma discussão neste mesmo
sentido que foi feita em outro lugar por este autor: "As noções de estrutura e
de sistema têm sido utilizadas, muitas vezes, principalmente até o início dos
anos 70, recém passados, de forma sinônima. Não raramente, a noção de sistema é
utilizada nos textos es-truturalistas para reforçar, complementar e até mesmo
explicar o próprio conceito de estrutura. Piaget, por exemplo, em O
Estruturalismo, no item das definições, argumenta: "Em uma primeira
aproximação, uma estrutura é um sistema de transformações que comporta leis
enquanto sistemas... " (1979:8). Bastide, em sua introdução que visa mostrar as
diferentes acepções do termo estrutura, diz: "A noção de estrutura poderia,
então, ser assim definida: sistema integrado, de modo que a mudança produzida
num elemento provoca uma mudança nos outros elementos [... ] Mas esse sistema
(o que distingue da organização) está 'latente' nos objetos" (Bastide_apud
Rodrigues,_2006:35; ênfases do original).
19Neste artigo, estamos utilizando a edição em língua espanhola (Parsons,
1966).
20Termo mencionado pelo próprio Parsons na dedicatória que fez a sua esposa,
por ocasião da publicação de The Social System, em 1951. Em inglês: "(...) an
incurable theorist" (Parsons,_1968a).
21A passagem a seguir, apresentada por Guy Rocher, bem resume o intento
parsonia-no: "Foi assim que Talcott Parsons redigiu seu primeiro grande
trabalho The Structure of Social Action, que apareceu em 1937 e que devia
rapidamente consagrar suarepu-tação como teórico. Neste alentado estudo Parsons
reagrupou as análises de Marshall, Weber e Durkheim, perseguindo
concorrentemente três objetivos bastante diferentes. Tentava primeiro fazer o
confronto das explicações dadas por cada um deles sobre o capitalismo moderno
(...) comparar a maneira pela qual Pareto, Weber e Durkheim resolvem o problema
das relações entre econômico e social com a solução adotada por Marshall (...)
salientar a 'convergência' implícita no pensamento destes para aquilo que
Parsons chamava de 'teoria voluntarista da ação'" (1976:17).
22Todas as traduções foram feitas livremente para utilização neste artigo.
23Para um conhecimento mais detalhado da relação entre L. J. Henderson, a obra
de Pareto e de Parsons, no que se refere ao pensamento sistêmico, ver Rodrigues
(2013).
24O termo received view, em português geralmente traduzido como "concepção
herdada", surgiu logo após o contexto da publicação de A Estrutura das
Revoluções Científicas. Putnam, um dos principais críticos do positivismo,
denominou essa corrente de pensamento analítico, que havia se ampliado e se
enriquecido sob a interação com diversas linhas de pensamento. O termo passou a
ser utilizado para caracterizar uma perspectiva sobre a ciência em que ela se
apresentava como se fosse imune ao contexto social; compreendida como
autossuficiente e autoexplicativa; praticamente blindada com relação ao meio
(social, cultural, político e econômico) no qual realizava a sua atividade de
"gerar" conhecimento.
25Em A Estrutura das Revoluções Científicas, Khun faz alusão às "descobertas"
do oxigênio, dos raios X e da Garrafa de Leyden, afirmando que todas estas
descobertas "causaram mudanças de paradigma ou contribuíram para tanto" (1996:
93).
26A proposta do uso do termo "plataforma cognitiva" tem a intenção inicial de
desviar da atual discussão sobre fundacionismo e o pós-fundacionismo que se
coloca numa "disputa" metafísica, no sentido anunciado (ou denunciado) com
muita propriedade por Derrida, em que argumenta que "a história da metafísica,
tal como a história do ocidente, seria a história dessas metáforas e
metonímias. A forma matriarcal seria a determinação do ser como presença em
todos os sentidos da palavra. Poder-se-ia mostrar que todos os nomes do
fundamento, do princípio ou do centro designaram sempre a invariante de uma
presença (eidos, archè, telos, energeia, ousia) (essência, existência,
substância, sujeito) aletheia (transcendentalidade, consciência, Deus, homem
etc.)" (1967:103; ênfases do original). Além disso, objetivou-se também o
deslocamento de uma abordagem filosófica para uma abordagem da teoria da
cognição; ou ainda, em termos noológicos, como bem descreve Mannheim:
"atingimos um nível teórico ou noológico sempre que consideramos não apenas o
conteúdo, mas igualmente a forma, a estrutura conceitual de um modo de
pensamento..." (1982:83). Neste sentido, incluímos noções tais como:
mecanicista, organicista, funcionalista, estru-turalista, sistêmico etc.