O Efeito das Emendas ao Orçamento no Comportamento Parlamentar e a Dimensão
Temporal: Velhas Teses, Novos Testes
INTRODUÇÃO
Este artigo faz uma reavaliação da influência da execução de emendas
parlamentares individuais ao orçamento sobre o quão próximo os deputados votam
dos interesses do Executivo nas votações nominais em plenário. Consideramos que
tanto os trabalhos que defendem a influência das emendas na atuação dos
parlamentares, como aqueles que tentam negá-la, deixaram lacunas importantes
que mantêm a questão inconclusa. Em especial, esses estudos geralmente não
abordam o fator tempo nos testes realizados, ou, nas raras oportunidades em que
o fazem, apresentam problemas que levantam dúvidas sobre os resultados
encontrados - justificando-se assim a pertinência de uma nova avaliação. Com
base em dados para o período de 1996 a 2010, utilizamos modelos do tipo painel
(time series-cross section) estimados pelo método de momentos generalizados
(GMM, na sigla em inglês). O objetivo é, por um lado, avaliar a possível
defasagem temporal entre a execução de emendas individuais ao orçamento e as
votações em plenário. E por outro tratar os efeitos do caráter autorregressivo
desse tipo de análise, em que a autocorrelação serial é um problema pouco
enfrentado.
Nas duas últimas décadas, a Ciência Política brasileira tem sido pródiga em
encontrar comprovações empíricas (Figueiredo_e_Limongi,_1999, 1998, 2002;
Nicolau,_2000; Santos,_2003; Desposato,_2006, entre outros) que refutam os
argumentos clássicos, sempre pressupostos e raramente testados, de que o
sistema político brasileiro não funcionaria adequadamente. Esses argumentos
pressupõem que o sistema político brasileiro seria personalista na arena
legislativa, por simples decorrência de supostos incentivos personalistas
advindos da arena eleitoral (principalmente ligados ao sistema proporcional de
voto em lista não ordenada). Tal cenário resultaria em partidos fracos,
desorganizados e indisciplinados na arena parlamentar, que impõem aos
presidentes brasileiros sérias dificuldades para a formação de maiorias, para a
aprovação de sua agenda política e para sua capacidade de governar e de fazer
reformas estruturais (ver, entre outros, Ames,_2001; Lamounier,_1994;
Mainwaring,_1991).
A principal refutação dessa linha de raciocínio coube a Figueiredo_e_Limongi_
(1999,_entre_muitos_artigos). Esses autores mostraram que os partidos políticos
na democracia brasileira atual são coesos e disciplinados nas votações em
plenário, que muitas votações são decididas pelas lideranças partidárias (ou
seja, os partidos seriam fortes na agregação de preferências) e que a agendado
Executivo é bem-sucedidana quase totalidade dos projetos votados. Do ponto de
vista desses novos autores, o efeito microinstitucional que constrangeria os
parlamentares a essa forma de atuação partidária e não pessoal seria resultado,
sobretudo, dos poderes de agenda do Executivo e da força regimental do colégio
de líderes dentro das instâncias do Congresso Nacional1.
Contudo, o debate se mantém mais aberto no que diz respeito ao mecanismo pelo
qual tais fatores institucionais imporiam a atuação partidária, a despeito dos
ímpetos supostamente personalistas dos parlamentares. Uma série de autores
considera que se trata, de fato, de uma coerção dos partidos sobre os
deputados, seja porque eles preferem a negociação coletiva, seja porque abdicam
de poderes para colherem os frutos das políticas implementadas coletivamente,
ou ainda pela necessária visibilidade trazida pelo apoio ou rejeição a um
presidente fortalecido (ver Figueiredo_e_Limongi,_1999; Amorim Neto e Santos,
2003; Santos,_2003). No entanto, outros trabalhos avaliam que essas explicações
são excessivamente racionalizadas e não identificam qual seria a"moeda de
troca"com a qual seria construído o apoio parlamentar. Para alguns desses
autores, essa moeda de troca é ainda assim coletiva, partidária, via nomeações
ministeriais (Amorim_Neto,_2000, 1998, 1994; Meneguello,_1998; Vasselai,_2009).
Para outros, a "moeda de troca" circularia no varejo, sendo dada a cada
parlamentar individualmente na forma de emendas individuais que eles podem
apresentar anualmente ao orçamento federal (Alston_e_Mueller,_2001; Ames,_2001;
Pereira_e_Mueller,_2002, 2003; Pereira_e_Rennó,_2001, 2007; Raile,_Pereira_e
Power,_2011).
Embora a apresentação da proposta de orçamento no Brasil seja uma prerrogativa
exclusiva do Poder Executivo, há um pequeno espaço na rubrica de investimentos
que pode ser incrementada pelos deputados mediante a elaboração de emendas
coletivas (de bancadas regionais, estaduais e comissões), de relatoria
(relatores e sub-relatores) e individuais. Essa parte do orçamento, no entanto,
é autorizativa,não mandatória2, ou seja, o presidente tem o poder
discricionário de executar ou não os gastos de acordo com suas prioridades e de
acordo com a arrecadação efetiva. Nesse cenário, as análises que propõem um
papel de destaque para as emendas ao orçamento na construção do apoio
parlamentar aos governos enxergam dois diferentes momentos analíticos.
Primeiro, com vistas à arena eleitoral, os parlamentares almejariam levar
recursos para seus redutos eleitorais para maximizarem suas chances de
reeleição. Uma série de trabalhos deu atenção a esse primeiro passo do
argumento, tentando ou provar o uso e o sucesso dessa tática (Ames,_2001;
Pereira_e_Mueller,_2002, 2003; Pereira_e_Rennó,_2001, 2007), ou, pelo
contrário, tentando refutá-lo (Figueiredo_e_Limongi,_2005, 2002, 2008;
Mesquita,_2009).
Segundo, esses recursos supostamente utilizados com vistas à reeleição seriam
buscados na arena legislativa por meio da proposição de emendas individuais ao
orçamento federal. E a efetiva execução dessas emendas por parte do Executivo
seria a moeda de troca cobiçada pelos parlamentares, e por intermédio dela eles
aceitariam apoiar o governo. Evidências da existência desse papel das emendas
sobre a disciplina parlamentar em relação às posições do Executivo vêm sendo
defendidas por trabalhos como os de Alston_e_Mueller_(2001), Ames_(2001),
Pereira_e_Mueller_(2002, 2003), Pereira_e_Orellana_(2009), Raile,_Pereira_e
Power_(2011), Zucco_Jr._(2009), enquanto foram questionadas basicamente por
Figueiredo_e_Limongi_(2002, 2005, 2008). Pretendemos contribuir para esse
debate, voltando a testar o impacto das emendas individuais ao orçamento sobre
o comportamento legislativo, mas enfrentando algumas facetas do efeito temporal
dessa relação: a defasagem entre os dois fenômenos, o efeito autorregressivo do
apoio legislativo ao Executivo, o problema da autocorrelação serial, o problema
da instrumentalização necessária à estimação nesse tipo de situação.
A seguir, reconstruímos em detalhes os termos desses debates. Primeiro, na
próxima seção, apresentamos a discussão da literatura sobre o papel das emendas
no apoio parlamentar ao Executivo. Em seguida, esmiuçamos como os autores vêm
abordando a questão do efeito tempo, ou de algum tipo de endogeneidade, entre
emendas e apoio parlamentar. Na sequência, explicamos as variáveis utilizadas e
os modelos estatísticos propostos, e apresentamos os principais resultados. Por
fim, apresentamos uma breve conclusão.
O DEBATE SOBRE O PAPEL DAS EMENDAS AO ORÇAMENTO
Uma das principais características da discussão em torno do uso de emendas
individuais ao orçamento como moeda de troca para o apoio legislativo é a
defesa ou a refutação de grande conjunto de pressupostos e de hipóteses, todos
ao mesmo tempo. Pereira e Mueller, por exemplo, concordam com as interpretações
tradicionais sobre os incentivos personalistas provenientes da arena eleitoral,
e afirmam que "de um lado, as regras eleitorais (...), o multipartidarismo e o
federalismo agem descentralizando o sistema político" (2003:737-738). Mas esses
autores se alinham a Figueiredo_e_Limongi_(1999) quando assumem, por outro
lado, que "as regras internas do processo de decisão dentro do Congresso e os
poderes constitucionais do presidente de legislar e de distribuir recursos
políticos e financeiros proporcionam grandes incentivos para a centralização"
(2003:737-738). Diferentemente de Figueiredo e Limongi, porém, derivam daí que:
os legisladores brasileiros têm votado consistentemente seguindo a
indicação dos seus líderes partidários não só devido aos poderes
legislativos e de controlar a agenda do Congresso assegurados ao
presidente, mas também por perceberem que esse comportamento pode
proporcionar acesso a benefícios controlados pelo Executivo,
benefícios esses que têm um forte impacto nas estratégias de
sobrevivência política dos parlamentares na esfera eleitoral. Em
outras palavras, o voto partidário é a forma encontrada pelos
parlamentares de sobreviver politicamente em um ambiente no qual o
Executivo desfruta de uma situação institucional privilegiada nas
suas negociações com o Legislativo (2003:741).
Ou seja, nesse conjunto de afirmações há pelo menos três que necessitam de
comprovação: a) que cada parlamentar age individualmente na busca de recursos
para seus redutos eleitorais3, b) que fazem isso trocando apoio disciplinado
aos interesses do governo por liberação de verbas para suas emendas ao
orçamento, e c) que levar esses recursos para seus supostos redutos eleitorais,
afetaria positivamente suas chances de reeleição. Figueiredo_e_Limongi_(2005,
2002) contestam essa linha interpretativa, porém afirmando, também eles, que
pretendiam discutir os "argumentos examinando não só os aspectos empíricos
envolvidos, mas também as suas pressuposições teóricas" (2005:740).
Os autores até ampliam o leque de temas com os quais discordam e colocam em
xeque a ideia de que os parlamentares almejam as emendas para fins
distributivistas, como sendo essa ideia "uma visão [equivocada] do processo
orçamentário, que enfatiza sua propensão [dos deputados] a sacrificar as
políticas nacionais em nome das locais e particularistas" (Figueiredo_e
Limongi,_2002:304). Isso porque os outros autores teriam avaliado erroneamente
que "seria possível observar uma relação direta entre execução de emendas
orçamentárias e continuidades das carreiras políticas. [Como se] taxas de
reeleição [fossem] uma função direta da execução das emendas individuais ao
orçamento" (ibidem:305). E para conseguir essas verbas possibilitadas pelas
emendas, como funcionaria o modelo criticado por Figueiredo e Limongi? Esses
autores assim o descrevem: "O Executivo seria forçado abarganharcom cada um
dosparlamentares acadanovamedidaque introduz" (ibidem:304), sendo que essa
"ideia segundo a qual o Executivo se vê forçado a atender demandas alheias às
suas próprias prioridades não encontra apoio nos dados" (ibidem:326).
Dessa discussão, portanto, é possível extrair pelo menos cinco grandes
afirmações paralelas em torno da ideia de influência das emendas ao orçamento
na atuação dos parlamentares em plenário. Ainda que nem sempre todas sejam
compartilhadas por todos os autores que advogam essa influência, elas seriam:
1) o processo orçamentário é estruturado de modo a sacrificar sobremaneira as
políticas nacionais em nome das locais e particularistas devido ao espaço
ocupado pelas emendas dos parlamentares ao orçamento; 2) isso porque os
deputados se aproveitariam desse espaço para tentar levar verbas para seus
redutos eleitorais através de suas emendas ao orçamento federal; 3) já que, por
suposto, essa aplicação de recursos nos redutos teria relação direta com as
taxas de sucesso em tentativas de reeleição; e 4) para conseguir a liberação
das verbas para suas emendas, os parlamentares as negociariam direta e
pessoalmente em troca de seu apoio em plenário aos projetos do Executivo - uma
negociação no varejo com cada parlamentar, já que o interesse é pessoal e não
partidário; 5) a fim de construir sua base de apoio parlamentar, o Executivo
acabaria tendo que atender demandas orçamentárias contrárias às que gostaria,
desfigurando sua própria agenda orçamentária.
Muitos autores defenderam esses cinco pontos, com maior ou menor clareza, como
Ames_(2001), Mainwaring_(1991), entre outros. Pereira e Mueller parecem basear-
se nos argumentos 2, 3 e 4. Ainda, muitos desses pontos são inclusive populares
fora da academia: Mesquita tem razão quando afirma que também "o senso comum dá
como estabelecido que parlamentares se elegem e reelegem por meio de práticas
clientelistas/distributivistas. Eleitores ou votos são, para carregar nas
tintas, comprados com a alocação 'esperta' e beirando o ilícito de recursos
públicos" (2009:1). Já Figueiredo e Limongi, por sua vez, contestam todos os
cinco pontos. O mais importante neste momento, porém, é salientar que, se, no
geral, esses argumentos não são fáceis de comprovar ou refutar por completo,
mesmo assim, ainda que a falha empírica de um deles desmonte uma parte da
explicação teórica, isso não implica a negação empírica dos demais argumentos.
Vejamos a questão de se as emendas são realmente usadas para levar verbas aos
redutos eleitorais dos deputados e se isso tem impacto sobre as chances de
reeleição (pontos 2 e 3). Há contestações importantes a esses argumentos
(Figueiredo_e_Limongi,_2005, 2002; Mesquita,_2009). No entanto, mesmo que se
aceitem as duas proposições como verdadeiras, ainda assim, elas não bastariam
para comprovar que as emendas são usadas como moeda de troca para que os
parlamentares votem com o presidente, pois pode ser que todos recebam verbas
provenientes de emendas, a despeito de sua disciplina ao governo, sem que haja
um padrão relevante. O inverso também é correto: mesmo que também não se
comprove grande sucesso eleitoral na estratégia de levar recursos de emendas
para redutos eleitorais ou para o Estado de origem, pode ser que os
parlamentares apostem nessa opção, dado que não têm certeza ex ante se este
seria ou não um caminho proveitoso4.O mesmo se pode dizer dos outros
argumentos: a negação ou comprovação de uns não implica em direta negação ou
comprovação de todos os outros.
Vejamos por exemplo os argumentos 1 e 5, sobre os quais o seguinte cenário é
igualmente descrito e interpretado tanto nos trabalhos de Pereira_e_Mueller_
(2002, 2003) como nos de Figueiredo_e_Limongi_(2005, 2002): "a Constituição
atual estabelece que o Executivo tem a prerrogativa exclusiva de iniciar toda e
qualquer legislação relacionada a matérias orçamentárias, o que envolve o Plano
Plurianual - PPA, a Lei de Diretrizes Orçamentárias - LDO e a Lei Orçamentária
Anual - LOA" (Figueiredo_e_Limongi,_2002:313). É claro que o conjunto dos
parlamentares pode tentar influenciar nas decisões sobre os diversos aspectos
da lei final do orçamento no interior da Comissão Mista de Orçamento,
incluindo, por exemplo, alocações de recursos, através de relatórios setoriais
(Praça,_2013). Mas são as emendas que possibilitam, por um lado, alteração
formal direta do orçamento; e por outro lado, a busca individual de alterações
por parte de cada parlamentar. No entanto, a respeito de tal espaço reservado
para as emendas parlamentares na alteração do orçamento, concordamos com
Mesquita_(2009:12)quando ela diz: "deve-se ressaltar que a maior parte dos
gastos públicos é definida fora do ciclo orçamentário anual. De fato, definem-
se no interior desse processo e estão ao alcance da intervenção dos
parlamentares apenas os gastos com investimentos que representam em média, para
o período desta análise, 4,9% do total do orçamento"5.
Além disso, as emendas individuais são minoria se comparadas às emendas
coletivas, de partidos ou blocos estaduais, ou às emendas feitas pela relatoria
da Comissão Mista de Orçamento (CMO). Segundo os dados que a autora apresenta
(ibidem:14), em levantamento sobre aqueles mesmos anos, as emendas individuais
de parlamentares representam em média 7,82% do total de emendas. Ora, se ambos
os dados estão corretos, e se, em caso hipotético, os parlamentares tentassem
emendar toda a verba da rubrica de investimentos, teríamos que a parcela média
do orçamento geral do governo federal que foi afetada por emendas individuais
entre 1996 e 2006 seria de apenas 0,3% (7,8 vezes 4,9). Para piorar, "embora os
parlamentares tenham direito de propor emendas aos projetos de lei
[orçamentária] (...), eles somente podem fazê-lo se as emendas forem
compatíveis com o Plano Plurianual elaborado pelo Executivo e com a Lei de
Diretrizes Orçamentárias" (Pereira_e_Mueller,_2002:271; sobre a legislação ver
Brasil, 1988: art. 166, §4), ou seja, "parlamentares não podem criar novos
programas, isto é, políticas públicas, por meio de emendas de qualquer tipo.
Emendas apenas remanejam recursos por programas previamente contidos na
proposta orçamentária enviada pelo Executivo" (Mesquita,_2009:13). Por fim, de
todo modo, a aprovação das emendas não garante que o novo gasto modificado seja
executado pelo Executivo, que pode efetivamente escolher quais dessas emendas
executar - o que lhe confere enorme poder discricionário.
Assim, sobram poucas dúvidas de que, na verdade, emendas individuais ao
orçamento não conseguem alterar o caráter nacional do orçamento do país
(ponto1); de que o Executivo não tem sua agenda orçamentária desfigurada e de
que as emendas não têm muito peso nos gastos efetivados anualmente (ponto 5).
Estas são questões interessantes para a literatura como um todo e para o grande
grupo de pressupostos envolvidos no debate sobre o papel das emendas
parlamentares. Mas, especificamente no que se refere ao seu impacto sobre o
apoio parlamentar ao Executivo, não é determinante, apriori, que pequena
parcela do orçamento possa ser emendada pelos parlamentares. Nem que a maioria
das emendas seja do tipo coletivo e não individual. E se uma parte tão pequena
do orçamento já for suficiente para fazer diferença no comportamento
parlamentar? Nada impede que emendas individuais importem para os deputados,
mesmo que ocupem parcela ínfima do orçamento federal.
De todo modo, vale observar que há diversos indícios de que as emendas
parlamentares não podem passar de explicações no máximo parciais para o
comportamento parlamentar. Algo salientado, a bem da verdade, inclusive pelos
trabalhos recentes que argumentam sobre a importância das emendas (é o caso,
por exemplo, de Raile,_Pereira_e_Power,_2011). Uma intuição clara sobre isso já
havia, contudo, sido defendida por Figueiredo e Limongi, que estão corretos
quando ressalvam que muitos deputados que votam com o governo têm pouquíssima
execução de emendas (2005:744). Ou quando ressalvam que "há deputados que
emendam o orçamento e não exercem mandatos (logo, não votam) no ano de sua
execução, e há deputados que votam, mas não participaram da elaboração do
orçamento e, conseqüentemente, não têm emendas para serem liberadas" (idem:
753). E, principalmente, quando recordam que, no agregado por partido, enquanto
a execução de emendas varia a cada ano, a disciplina parlamentar pouco varia. O
que aliás, por si só já deveria levantar a suspeita de presença de
autocorrelação serial nas estimações.
Essas considerações nos ajudam a não circunscrever o papel das emendas para
além de um fator explicativo adicional, se tiver algum papel, sobre a
disciplina dos deputados federais. Mas nada disso nega ou inviabiliza esse
papel apriori, do ponto de vista lógico, como os autores acima citados parecem,
às vezes, sugerir. É por isso que neste trabalho não pretendemos encontrar
comprovações/refutações empíricas para todas as proposições feitas em torno do
assunto. Reconhecemos que, do ponto de vista teórico, não vamos explorar a
questão proposta por Figueiredo_e_Limongi_(2005:766), de que "o problema da
tese das emendas como 'moedas de troca' está em seus supostos". Nosso interesse
limita-se a reinvestigar, introduzindo adequadamente o fator tempo, o argumento
número 4 mencionado acima. Qual seja, se a execução pelo Executivo das emendas
introduzidas no orçamento federal por deputados afeta a proximidade desses
parlamentares às preferências do Executivo nas votações nominais realizadas na
Câmara.
EFEITO TEMPO
Para tentar responder a essa pergunta, separadas das outras afirmações que
estão em sua órbita, cabe analisar rapidamente a importância do uso de modelos
que considerem a dimensão temporal à luz das abordagens adotadas na literatura
sobre o assunto. Do ponto de vista teórico, é realmente provável haver uma
ordem cronológica específica na relação causal esperada entre emendas
executadas e voto dos deputados em plenário: um fato não precisa
necessariamente ser, e de fato provavelmente não é, simultâneo ao outro. Ou
seja, os fatos podem responder, e provavelmente respondem, a tempos tdiferentes
entre si.
Assim, o emprego de modelos estáticos para fazer o teste empírico dessa relação
não é capaz de revelar adequadamente se a execução das emendas influencia ou
não no comportamento parlamentar, caso não modelem seu caráter sequencial. Por
um lado, deixar de incorporar esse caráter sequencial através da inclusão de
termos com defasagem temporal, quando ele efetivamente existe, leva a um maior
risco de surgirem resultados falsos negativos (erros do tipo II) quanto ao
papel das emendas. Por outro lado, falsos positivos (erros do tipo I) também
podem ocorrer: em primeiro lugar, devido à má especificação causada pela
omissão de defasagem temporal, e em segundo lugar, pela possível presença de
auto correlação serial que é omitida quando não se considera a dimensão
temporal. Conforme mencionamos acima, a julgar pelo que a literatura conhece a
respeito das taxas de apoio ao Executivo, há motivos de sobra para esperar que
esse apoio não varie bruscamente de um momentum (ano, mês etc.) para o outro.
Ou seja, é provável que o apoio parlamentar em t seja uma função do apoio
parlamentar em t-1. Desconsiderar essa possibilidade de autocorrelação serial
também leva à inconsistência dos estimadores e, por conseguinte, dos
resultados. A investigação de uma possível relação entre emendas ao orçamento e
apoio parlamentar ao Executivo é, portanto, mais intrincada do que parece.
Na série de artigos que avaliou empiricamente essa relação, Pereira e Mueller
foram os primeiros a suspeitar desse caráter mais complexo e a desenvolvê-lo,
quando afirmaram: "supõe-se que não apenas a forma de votar afeta a execução
das emendas, mas que um parlamentar, cujas emendas fossem executadas, tenderia,
ceteris paribus, a votar com mais freqüência a favor do governo. Existem,
portanto, duas variáveis endógenas" (2002:283). Sua proposta era, por isso, a
aplicação de um sistema de duas equações que estimasse a simultaneidade de
causalidade entre ambos os fenômenos por meio da estimação similar ao que hoje
é conhecido como Simultaneous Equation Models (SiEM). Ou seja, a execução de
emendas por ano e o apoio legislativo por ano eram ambos variáveis dependentes,
uma em cada equação, tendo a outra como uma de suas variáveis explicativas. O
problema é que sua abordagem não resolvia o imbróglio, pelo contrário,
confundia a possível ligação cíclica diacrônica entre as variáveis com uma
endogeneidade sincrônica: "para garantir estimadores consistentes, dada a
simultaneidade entre Votos e Execução, usamos variáveis instrumentais, isto é,
variáveis que tenham correlação com a variável endógena do lado direito da
equação, mas não se correlacionam com o termo de erro" (idem:284, ênfase
nossa). Além disso, não apresentam e nem mesmo mencionam testes sobre a
validade dos instrumentos utilizados, bem como nada falam sobre a identificação
de seus modelos, o que é central em estimações desse tipo.
Ao mesmo tempo, se, em sua resposta a essa questão, Figueiredo_e_Limongi_(2002:
326) têm razão ao afirmarem que "dizer que se trata de um jogo quese repete no
tempo é apenas uma forma de recolocar a questão", eles, por sua vez, embora
reconheçam a existência do problema temporal, não chegam a adotar medidas para
considerá-lo quando testam o impacto das emendas sobre o apoio parlamentar6.
Aliás, a não incorporação do efeito temporal necessário para descortinar a
aparente/possível endogeneidade entre essas variáveis já havia sido a opção de
Ames_(2001) e dos modelos formais de Alstom_e_Muller_(2001), e continuou a ser
no artigo seguinte de Pereira_e_Mueller_(2003), bem como nas futuras
contestações de Figueiredo_e_Limongi_(2005, 2008).
O segundo trabalho a tratar empiricamente do problema da suspeitada
endogeneidade entre execução de emendas e apoio parlamentar, veio apenas com
Zucco_Jr._(2009). Nesse estudo, o autor indica que: "Um último problema é a
possibilidade de endogeneidade na variável PORK" (2009:1085, tradução nossa,
ênfase no original), exatamente ao recuperar a afirmação de Pereira e Mueller
de que "os desembolsos de pork podem ser tanto uma recompensa como uma sedução
para os legisladores, e por essa razão eles afetam e são afetados pelos votos
desses legisladores. Para lidar com esse problema, estimei meus modelos de
pooled-data através do método de mínimos quadrados em dois estágios" (2009:
1086, tradução e ênfases nossas). Tendo apenas uma variável dependente, que é a
disciplina parlamentar relativa à posição do governo, Zucco Jr. não estima um
modelo recíproco (ou seja, não recursivo) entre disciplina e emendas, como o de
Pereira_e_Mueller_(2002). E tampouco leva em conta o efeito temporal: assim
como fizeram Pereira_e_Mueller_(2002), Zucco Jr. utiliza variável instrumental
(tempo de mandato dos parlamentares, uma variável que, como veremos mais
adiante, será incluída em nossos modelos como controle) apenas para tentar
lidar com a suposta endogeneidade simultânea entre execução anual de emendas
(pork) e apoio parlamentar anual.
Nesses trabalhos pioneiros sobre a relação mais complexa entre tais variáveis,
o problema estava, contudo, mal diagnosticado: elas não são necessariamente
simultâneas. Elas existem ao mesmo tempo, mas é bem possível que respondam uma
à outra em tempos t diferentes. Nesse sentido, como comentamos, a
desconsideração da defasagem temporal pode levar a resultados inconsistentes
por problemas de especificação. A desconsideração do efeito tempo levou a uma
outra deficiência ainda mais importante: nenhum trabalho sobre o assunto até
então deixava claro se nos modelos haveria correlação serial de alguma ordem, o
que é perfeitamente plausível na hipótese de haver defasagem temporal entre os
fenômenos e também no caso de as variáveis serem uma função delas próprias em
um tempo t anterior.
A dimensão diacrônica, bem como o problema da autocorrelação serial, foram
ambos explicitamente operacionalizados pela primeira vez num artigo de Pereira
e_Orellana_(2009). Na verdade, esse artigo introduziu diversas novidades.
Primeiro, além da execução das emendas individuais, eles também testaram pela
primeira vez o impacto da execução das emendas estaduais sobre o apoio
parlamentar ao Executivo. Segundo, a mensuração das variáveis foi feita por mês
e não por ano, como havia ocorrido nos trabalhos anteriores. Terceiro, a
agregação das variáveis: a unidade de análise deixou de ser os parlamentares
(sua taxa de disciplina ao governo, seu voto favorável ou contrário em
votações, as emendas de sua autoria que foram executadas etc.) e passou a ser o
agregado do plenário: a porcentagem mensal de apoio conquistado em plenário e
as execuções gerais mensais de emendas. Após a realização de testes
diagnósticos de seus modelos, Pereira e Orellana reportam a presença de
autocorreção serial de ordem 1, AR(1). Por esse motivo, apresentam os
resultados em dois modelos: um estimado por uma regressão de mínimos quadrados
ordinários com variáveis binárias temporais (o que seria um modelo LSDV, na
sigla em inglês) e outro por estimação de Prais-Winsten_(1954). O problema é
que essa abordagem, embora eficiente de maneira geral para corrigir AR(1), não
é capaz de corrigir AR(>1). Em especial, sendo a unidade temporal tão curta
como meses, e conhecendo-se o caráter quase estacionário do apoio legislativo,
é plausível imaginar que a autocorrelação esteja presente em períodos mais
longos do que um mês. Dito de outro modo: é provável que, por exemplo, não seja
apenas o apoio legislativo de um mês atrás que determine o apoio legislativo
presente. O mesmo vale para a execução das emendas.
Raile,_Pereira_e_Power_(2011) incorrem em problema similar. Na realidade, sua
proposta é mais complexa: eles estimam um sistema de quatro equações em que
voltam a modelar o efeito recíproco (não recursivo) entre apoio legislativo e
execução de emendas usando SiEM, mas agora consideram esse efeito como
diacrônico. Seguem Pereira e Orellana no uso de unidade temporal mensal e seus
objetos de análise também não são os deputados individualmente, mas o agregado
da Câmara dos Deputados. Ou seja, querem verificar se em cada mês a execução
geral de emendas individuais tem relação com a taxa mensal média de disciplina
às preferências do Executivo por parte da Câmara como um todo. O resultado que
encontram sugere que existe efeito recíproco: mais emendas executadas em um
tempo t 0 reflete-se em maior apoio legislativo em um tempo t 1, o qual, por
sua vez, leva a mais emendas em t 2 e assim por diante. No entanto, cabe
ressalvar que o coeficiente encontrado pelos autores para o impacto das emendas
sobre o apoio legislativo, quando se considera seu valor (à luz da unidade de
medida das variáveis) e não apenas a direção de seu sinal, é pequeno. Por outro
lado, o forte impacto sobre o apoio legislativo em um dado mês, segundo seus
próprios resultados, advém justamente do apoio legislativo no mês anterior.
Além disso, os autores citados chegam ao improvável (e não explicado) resultado
de que o número de cadeiras da coalizão na Câmara em um dado mês não tem
impacto sobre a porcentagem de apoio conseguido no plenário em geral nesse mês.
E o mais importante é que alguns detalhes metodológicos mostram como, nesse que
é o segundo e principal trabalho a modelar a questão temporal, o problema ainda
não está completamente elucidado. Primeiro, tal como Pereira_e_Orellana_(2009),
Raile, Pereira e Power detectam a presença de AR(1) e, para corrigi-la, incluem
em todas as equações do sistema variáveis independentes, que são a defasagem em
uma unidade temporal das variáveis dependentes. O problema é que, mais uma vez,
sendo a unidade temporal tão curta quanto meses, e considerando o caráter quase
estacionário do apoio legislativo, é provável que a autocorrelação atinja
períodos mais longos. Raile, Pereira e Power afirmam que "essas defasagens
eliminam as estruturas de erro autorregressivo" (2011:327; tradução livre).
Contudo, sua nova solução - com defasagens temporais de ordem 1 - é capaz de
resolver o problema de autocorrelação de ordem 1, mas não necessariamente de
outras ordens. Tampouco está claro se o modelo cíclico entre emendas e apoio
legislativo ajuda a solucionar esse problema. Infelizmente, tal como no
trabalho de Pereira e Orellana, Raile, Pereira e Power não trazem a informação
sobre testes de AR(2) ou AR(>2). Conforme veremos adiante, em nossos modelos
realmente sempre encontramos AR(2), mesmo utilizando unidade temporal anual, ou
seja, com distância cronológica entre as variáveis bem maior do que meses. E a
correção desse problema em nossos modelos, como também veremos, é na verdade
crucial, pois altera os resultados encontrados. Considerando que os autores
usaram as defasagens temporais de suas variáveis dependentes como instrumentos
para a estimação, cabe ressaltar que a questão da autocorrelação serial se
torna especialmente importante, já que a presença de AR fragilizaria sua
possibilidade de instrumentalizar (portanto, de identificar matematicamente) o
sistema de equações empregado.
Um segundo problema que observamos no artigo de Raile,_Pereira_e_Power_(2011)
tem a ver exatamente com a especificação necessária para estimar modelos SiEM
não recursivos adotados por eles. Nesses modelos, em que Y1 (apoio legislativo)
é a variável explicativa de Y2 (execução de emendas) e Y2 é ao mesmo tempo
explicativa de Y1, é necessário utilizar como instrumentos algumas variáveis
que afetem Y2 apenas por intermédio de Y1 e outras que afetem Y2 apenas através
de Y1. A variável explicativa que aparece como exclusiva da equação em que a
variável dependente é o apoio legislativo (fora o próprio apoio legislativo em
tempo t-1) é o número de cadeiras da coalizão na Câmara Federal. Mas esse não
poderia ser um fator de óbvio impacto direto também sobre a execução média de
emendas? Parece claro que sim. Por outro lado, as variáveis explicativas que
aparecem apenas na equação em que a execução de emendas é variável dependente
(fora a própria execução de emendas em tempo t-1), são: heterogeneidade da
coalizão, coalescência ministerial no sentido de Amorim_Neto_(2000) e
popularidade presidencial. Mas, outra vez, essas variáveis não parecem ter
evidente possibilidade de impactar diretamente sobre o apoio legislativo a
despeito das emendas, prejudicando assim a instrumentalização dessa equação?7
Infelizmente, não foram apresentados os testes necessários sobre a força ou
mesmo a validade desses instrumentos. Como mencionamos, considerando a
possibilidade da presença de AR não corrigida, tampouco há garantia de que os
termos defasados estejam ajudando a instrumentalizar a estimação. Desse modo, a
identificação dos modelos é incerta. Consequentemente, o ajuste e a validade
desses modelos tornam-se também uma incógnita, e com possibilidade real de
problemas8.
Ainda que saibamos da e sejamos solidários à dificuldade de se encontrar
instrumentos adequados, é sabido que os resultados encontrados com uso de
instrumentos inadequados, ou modelos com identificação possivelmente fraca,
devem ser lidos, no mínimo, com grande cautela. Outras saídas podem ser
encontradas como instrumentos. Neste artigo, por exemplo, a fim de conseguir
uma instrumentalização válida, optamos por usar ou a execução do orçamento
federal nos estados a que pertencem os deputados (instrumento externo), ou a
defasagem da variável dependente em ordens suficientemente grandes para ao
mesmo tempo não permitir AR (instrumento interno). Como veremos nos resultados
apresentados na próxima seção, ambas as opções passam também no teste Sargan de
validade de instrumentos. Além disso, cabe adiantar que recuperaremos os
deputados como unidades de análise, por considerarmos que a unidade de análise
que agrega todo o plenário - utilizada nos últimos trabalhos sobre o tema -
prejudica a possibilidade de verificar as diferenças entre situação e oposição,
o que inviabiliza o controle do comportamento parlamentar pela pertença à base
aliada, central para checar a robustez de qualquer efeito que se venha a
encontrar para as emendas ao orçamento.
MODELO ESTATÍSTICO
A seguir, procedemos à nossa análise empírica tentando incluir a dimensão
temporal nos termos mencionados anteriormente. Ou seja, primeiro, incluímos a
defasagem temporal entre execução de emendas e apoio parlamentar; segundo,
introduzimos a defasagem da variável dependente como modo de corrigir problemas
de AR(2) e até de AR(>2). Para isso, especificamos modelos dinâmicos
autorregressivos de efeitos fixos, estimados por difference GMM com variáveis
instrumentais em geral e pelo método de Arellano-Bond_(1991) em particular9.
Terceiro, utilizamos os novos instrumentos GMM mencionados anteriormente.
Iniciamos com a descrição dos dados, das variáveis e dos modelos estatísticos
que serão utilizados, e na sequência, apresentamos os resultados das estimações
- todas elas realizadas usando as funções do pacote plmdo software estatístico
R em sua versão 3.01.
No que se refere às fontes utilizadas para os dados, as informações sobre
emendas e execuções orçamentárias entre os anos de 1996 e 201010 foram
coletadas nos relatórios de execução orçamentária da Comissão Mista de
Orçamento, na página da Câmara dos Deputados na internet11. Informações sobre
votos dos deputados em plenário foram retiradas do Banco de Votações Nominais
do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Outras informações
sobre os deputados foram catalogadas e computadas por intermédio dos dados de
perfis biográficos disponibilizados pela Câmara dos Deputados. Aorganização dos
dados tomou como unidade de análise cada deputado em cada ano12.
Para medir o quão próximo das preferências do Executivo cada deputado votou em
cada ano, adotamos como variável dependente a distância dos votos dos
parlamentares com relação à indicação de voto do líder do governo (variável
Dgov)13. Primeiramente, tomamos as votações nominais de todos os deputados,
incluindo a indicação do líder do governo, em um dado ano. Aplicamos então o
algoritmo W-Nominate, em sua versão implementada no pacote estatístico R, para
estimar os pontos ideais (somente a primeira dimensão) de cada parlamentar/ano.
Na construção dos seus escores, o W-Nominate estima, por máxima
verossimilhança, o seguinte modelo:
em que p é o número de legisladores, q o número de votos e l representa as duas
alternativas possíveis (no caso, "a favor" ou "contra" a posição
do líder do governo). A função C é uma indicadora da escolha do candidato e a
função P reflete a probabilidade de o deputado votar a favor ou contra, dado o
seu ponto ideal (função de resposta ao item). Após estimação dos valores ótimos
para cada parâmetro, chegamos então aos pontos ideais de cada um dos
legisladores e do líder do governo para cada ano. Uma vez calculados seus
escores anuais (que variam de -1 a 1), calculamos então a distância entre os
escores de cada deputado e o do líder do governo. Seja pLGt oponto ideal do
líder do governo em um ano t e pit o ponto ideal de um parlamentar i qualquer
no mesmo ano t, tomamos o valor absoluto da subtração entre esses pontos e o
dividimos por 2 para que a distância possa variar entre 0 e 1, sendo
interpretada, portanto, como uma probabilidade.
[/img/revistas/dados/v57n3//0011-5258-dados-57-03-0817-e02.jpg]
Esta abordagem utilizando pontos ideais permite que se obtenha uma medida de
distância consistente com relação ao líder do governo, computando-se de maneira
eficiente até mesmo as situações em que um deputado acabou não votando ou o
líder acabou não indicando o voto14. O algoritmo do W-Nominate tem a vantagem
de estimar corretamente a posição do parlamentar com relação ao eixo principal
- que alguns autores como Leoni_(2002) tendem a identificar como sendo
ideologia. Além disso, o algoritmo possui alto poder preditivo (cerca de 90%)
e, ainda, ordena corretamente as posições dos deputados a despeito de uma ou
outra ausência em votações15. Dito isso, a interpretação da variável Dgov é a
seguinte: se igual a 0, significa que o deputado analisado, no ano analisado,
votou exatamente igual ao governo sempre (distância de zero para com o ponto
ideal do governo); se igual a 0,5 significa que ele esteve a 50% de distância
do governo; e se iguala 1significa que ele vota contra o governo sempre
(distância máxima possível para com o ponto ideal do governo). Portanto, de 0 a
1, quanto maior o valor de Dgov, maior o distanciamento do deputado em relação
à preferência do governono ano em questão16.
Como variáveis independentes de interesse, adotamos as seguintes. Primeiro, a
execução de emendas de cada parlamentar por parte do Executivo em cada ano, que
chamamos de PLA (percentual do liquidado17pelo Executivo com relação ao
autorizado pela peça orçamentária). Uma liberação de 1 (100%) implica que o
governo executou integralmente os valores das emendas que o parlamentar propôs
e que foram autorizadas. Já PLA igual 0 (0%) significaria que o governo não
liberou quantia alguma do valor que fora autorizado para aquele parlamentar. A
segunda variável principal de interesse é Coa, que indica se o partido do
parlamentar considerado pertencia à coalizão de governo, isto é, se ocupava
algum ministério em algum momento do ano em questão18 (1 = pertencia à coalizão
ministerial naquele ano; 0 = não pertencia). Com ela será possível testar o
papel da pertença à coalizão de governo sobre a proximidade do voto dos
parlamentares em relação à preferência do Executivo.
Na Figura_1 apresentamos dois gráficos que permitem uma primeira descrição das
relações entre essas três variáveis centrais nesta investigação: Dgov, PLA e
Coa. O gráfico superior mostra a distribuição de PLA de acordo com Coa em cada
ano. Ele permite perceber que, embora sempre com grande variabilidade, desde
meados do governo Fernando Henrique Cardoso, a execução de emendas ao orçamento
feitas por deputados cujos partidos não pertenciam às coalizões passou a ser
cada vez mais elevada. Na verdade, o período mostra crescente e rápida
convergência entre os padrões de execução de emendas de deputados de dentro ou
de fora da base aliada dos presidentes. Além de sugerir menos importância para
as emendas do que usualmente se imagina, do ponto de vista metodológico esse
gráfico mostra também que não parece haver multicolinearidade entre PLA e Coa
e, na verdade, qualquer efeito de PLA tende a não capitalizar na pertença à
coalizão.
[/img/revistas/dados/v57n3//0011-5258-dados-57-03-0817-gf01.jpg]
Figura 1 Dgov (distância entre ponto ideal dos deputados e do governo), PLA
(emendas liquidadas/autorizadas) e Coa (pertencimento à coalizão) Fonte:
Estimação
Já o gráfico inferior, contudo, permite visualizar em linhas gerais a relação
entre patamares de execução de emendas e a proximidade entre os deputados e o
governo. O eixo X traz PLA segmentada em intervalos de 10% e o eixo Y traz
Dgov. Note-se que a julgar por essa primeira apresentação, no agregado, a
distância entre o ponto ideal dos parlamentares e o ponto ideal dos governos
pouco varia à medida que se avança para patamares superiores de PLA. Com
exceção, talvez, de pequena aproximação na distância entre deputado e governo
nos primeiros incrementos de PLA.
Ainda falta, é claro, testar essa relação de modo mais formal e desagregado.
Para isso, cabe mencionar de início que, além dessas variáveis independentes de
interesse, adotamos algumas variáveis independentes como controle. São elas:
GastosMin, que mede a porcentagem do orçamento ministerial controlada pelo
partido de cada deputado em cada ano, ponderando pelo tempo de ocupação dos
ministérios19; Anos Mandato, que mede os anos de mandato na Câmara dos
Deputados (contando desde 1945) que cada parlamentar já havia servido em cada
momento considerado; n Part Carreira, que mede o número de partidos diferentes
a que cada parlamentar já havia sido filiado (contando desde 1980) em cada ano;
Anos Part Atual, que mede o número de anos que cada deputado já havia tido no
partido que estava em cada momento considerado20; ufPLA que mede a execução de
emendas de bancadas estaduais no estado de cada deputado em cada ano.
Cabe relembrar também que a própria variável dependente observada em um dado
anot0,ou seja Dgovt0, aparecerá defasada temporalmente como variável
explicativa para corrigir AR, no formato Dgov t-[1:3]. Praticamente todos os
modelos testados só deixam de ter AR(>1) quando Dgov é defasada em ao menos
três anos. Por fim, como mencionado previamente, as duas variáveis
instrumentais tipo GMM21 testadas nos modelos são: Dgovt<-6 e ExecOrcUF t<0.
Aprimeira opção, um instrumento interno, é a própria variável endógena Dgov, em
defasagem temporal longa, permitindo estimação por GMM na linha do proposto por
Arellano-Bond_(1991). Em nossos modelos, defasagens menores do que seis anos
para esse instrumento voltam a introduzir AR(>1), como consequência do tipo de
problema de instrumentos fracos com defasagens próximas da AR a ser tratada,
apontado por Anderson_e_Hsiao_(1981). A segunda opção, que mede a porcentagem
de execução orçamentária federal no estado de cada deputado em cada ano, é um
instrumento externo aos modelos, levando à estimação GMM no seu formato de
variáveis instrumentais generalizado. Ambos os instrumentos foram testados com
diferentes opções de defasagem temporal para tentar evitar ao máximo o problema
de excesso de instrumentos, típico de estimações GMM com esse tipo de
instrumentalização. Em linhas gerais, nenhuma diferença foi encontrada.
Começamos apresentando o resultado de três modelos simples que radicalizam o
problema de AR, ao não corrigirem nem sequer AR(1). O primeiro inclui apenas a
defasagem de um ano da variável Coa,osegundo apenas a defasagem de um ano da
variável PLA e o terceiro, as defasagens de um ano de ambas as variáveis. A
Tabela_2 mostra os resultados.
Tabela 1 Descrição das Variáveis Empregadas (Amostra: 1.278 Deputados com 1-15
pontos temporais, de 1996 a 2010)
Var. contínuas: X σ Mín.1ºQ3ºQMáx
Dgoυ Distância entre o ponto ideal de um dado deputado e o do líder do ,27 ,23 ,00 ,08 ,40 ,95
governo, nas votações nominais
P-A % de emendas individuais ao orçamento de um dado deputado, que foram,72 ,24 ,00 ,58 ,92 1,72
liquidadas em relação às aprovadas
OrcMinist % de orçamento ministerial médio controlado pelo partido de cada ,15 ,22 ,00 ,00 ,20 ,90
deputado
AnosMandato Anos de mandato na Câmara acumulados por cada deputado 6,57 5,49 0 2 9 39
nPartCarreira Nº de partidos diferentes a que cada candidato já foi filiado 2,36 1,34 1 1 3 10
AnosPartAtual Nº de anos desde que cada deputado é filiado ao partido em um dado 9,61 7,96 0 3 16 30
ano
uf_PLA % de emendas de bancadas estaduais ao orçamento, que foram ,50 ,20 ,05 ,37 ,65 1,00
liquidadas em relação às aprovadas
Var. binaria: =0 =1
Coa Pertencimento dos deputados à coalizão 33% 66%
Fonte: Estimação própria.
Tabela 2 Modelos Lineares em Painel com Efeitos Fixos Variável Dependente é
Dgoυt0
M-1 M-2 M-3
Coat0 -,225 (,01)*** -,218 (,01)***
Coat-1 -,085 (,01)*** -,077 (,01)***
PLAt-1 -,183 (,02)*** -,084 (,01)***
-,153 (,01)*** -,057 (,01)***
p-valor do teste de Wooldridge_(2003)a:
AR(1): <0,00 *** <0,00 *** <0,00 ***
p-valor do teste de Breusch-Godfrey:
AR(2): <0,00 *** <0,00 *** <0,00 ***
AR(3): <0,00 *** <0,00 *** <0,00 ***
Medidas de ajuste dos modelos:
Adj.-within 0,41 0,07 0,42
RSS 117,46 186,01 115,09
N 4.601 4.601 4.601
Fonte: Estimação própria.
aA abordagem proposta por Wooldridge_(2003) testa a presença de correlação
serial através de procedimento que não depende das características assintóticas
de painéis longos (grande número de anos).
Obs.: A amostra tem N. deputados=1278, T=1-15. Erro padrão robusto aparece
entre parênteses.
p-valores: *** <0,001; **<0,01; *<0,05.
Vale observar que, na linha do que Figueiredo_e_Limongi_(2005) também
encontraram em seus modelos logísticos, o poder preditivo do modelo apenas com
Coa é bastante bom, enquanto apenas com PLA é próximo de zero, sendo que a
adição de PLAnada contribui ao poder preditivo do modelo em que há apenas Coa.
Mas é possível notar que, nos três modelos, Coa e PLAaparecem estatisticamente
significantes aos níveis mais rigorosos de exigência, apresentando também
coeficientes com o sinal esperado: pertencer à coalizão de governo ou ter
muitas emendas ao orçamento executadas diminui a distância entre o ponto ideal
dos deputados e o do governo. Ocorre, no entanto, que nenhum dos três modelos
passa no teste de Wooldridge_(2003) para AR(1) ou nos testes de Breusch-Godfrey
para AR(> 2), isto é, há auto correlação nos erros. Nesse sentido, as
inferências sobre os coeficientes não são confiáveis e é preciso testar sua
robustez à correção de AR.
Para resolver esse problema, passamos a incluir agora a defasagem de Dgovt-[1:
k] no lado direito da equação, em que k é o máximo de anos de defasagem
considerados para essa variável. A estimação com efeitos fixos desse tipo de
modelo, conhecido como dinâmico, requer o uso de GMM. Partimos do últimomodelo
da Tabela_1, isto é, o que possui tanto Coa como PLA, ambos defasados em um
ano:
Dgovit = γ1 Dgovit-[1:k] + β1Coait-[0:1] + β2PLAit-[0:1] + eit
Apresentamos essa especificação com k =2 e com k =3, estimando com os dois
instrumentos diferentes mencionados anteriormente para efeito de comparação. Os
resultados podem ser encontrados na Tabela_3.
Tabela 3 Modelos Difference-GMM com Efeitos Fixos, sem a Inclusão de Controles
e Defasagem Temporal de Coa e PLA em 1 Ano Variável Dependente é Dgoυt0
M-4 M-5 M-6 M-7
Instrumento GMM: Dgoυt5-6 ExecOrcUFt50
Dgoυt-1 ,130 (,13) ,207 (,11) -,396 (,02)*** -,341 (,02)***
Dgoυt-2 ,046 (,13) ,055 (,11) -,097 (,02)*** -,131 (,03)***
Dgoυt-3 -,221 (,06)*** -,066 (,03)***
Coat0 -,133 (,01)*** -,098 (,02)*** -,141 (,01)*** -,093 (,02)***
Coatt-1 ,010 (,02) ,020 (,02) -,070 (,01)*** -,051 (,01)***
PLAt0 -,002 (,03) ,009 (,03) -,019 (,02) -,013 (,02)
PLAt-1 -,007 (,03) -,015 (,03) -,024 (,02) -,020 (,02)
p-valor do teste de validade dos instrumentos:
Sargan ,004 ,135 ,130 0,218
p-valores do teste de autocorrelação serial:
AR(2) ,919 ,402 ,002 ,686
Cor(yŷ) ,264 ,206 ,532 ,489
N usado: 1.390 1.131 2.063 1.546
Fonte: Estimação própria.
Obs.: A amostra tem N. deputados=1.278, T=1-15. Erro padrão robusto aparece
entre parênteses.
p-valores: *** <0,001, **<0,01, *<0,05.
Os resultados desse conjunto de modelos mostram, antes de tudo, que apenas as
especificações com k > = 3, isto é ao menos Dgov t-[1:3], conseguem passar ao
mesmo tempo nos testes de Sargan e de AR. Quando a defasagem de Dgov é de
apenas um e dois anos e o instrumento utilizado é a própria Dgov, o problema de
AR é até corrigido, mas a validade do instrumento é rejeitada pelo teste de
Sargan. Já quando a defasagem de Dgov é de apenas um e dois anos e o
instrumento utilizado é ExecOrcUF, o problema é que AR(2) continua presente.
Desse modo, os resultados daqui em diante serão apresentados apenas para
especificações com Dgov t-[1:3] do lado direito das equações - ainda que também
tenhamos testado modelos especificados com Dgov t-[1:2], os quais não
resultaram em alteração substantiva dos resultados.
Ainda mais importante é notar que, em qualquer dos quatro modelos dessa tabela,
há dois resultados, centrais para nossa questão, que não variam: PLA não tem
significância estatística nem em t e nem em t-1. Nem mesmo se considerarmos p-
valores a corte de 0,10, o que já seria bastante generoso levando em conta o
tamanho da amostra efetiva usada nos modelos. Enquanto Coat0 tem significância
estatística em todos os modelos ao corte de 0,001, além de sinal esperado. A
principal variação de resultado entre as estimações feitas com os dois tipos de
instrumento refere-se a Coa t-1, que só é estatisticamente significante quando
o instrumento utilizado é ExecOrcUF. Isso significa que, em relação ao efeito
que pertencer à coalizão no ano anterior às votações nominais causa sobre o
posicionamento dos deputados nessas mesmas votações, não há um resultado
robusto às diferenças de instrumento GMM utilizado. Mas, certamente o
pertencimento às coalizões no mesmo ano das votações é, esse sim, resultado
robusto a todas as especificações de modelos.
Aliás, como se sabe, em modelos de tipo painel os resultados também podem ser
especialmente sensíveis a especificações das defasagens temporais. Isto
equivale a dizer que falsos negativos ou falsos positivos podem ser encontrados
quando se considera a dimensão temporal usando defasagens incorretas ou
insuficientes. Para verificar a robustez dos resultados anteriores frente a
outras especificações temporais, apresentamos a seguir uma série de modelos com
diferentes defasagens temporais para Coa epara PLA. Incluímos também o conjunto
de variáveis de controle descritas anteriormente para controlar se alteram os
resultados encontrados até aqui(22). Trata-se basicamente da seguinte
especificação:
Dgovti = γ1:3Dgovit[1:3] + β1 Coait [0:q] + β2 PLAit- [0:r] + C+eit
em que q é o número máximo de anos defasados para Coaevaria em cada modelo, r é
o número máximo de anos defasados para PLA etambém varia em cada modelo; e C é
o conjunto de variáveis de controle e seus respectivos coeficientes. Os
resultados encontram-se nas Tabelas_4 e 4a, uma para cada instrumento utilizado
neste artigo.
Tabela 4 Modelos Difference-GMM com Efeitos Fixos, com a Inclusão de Variáveis
de Controle e Defasagens Temporais Variadas. Variável Dependente é Dgoυ10 e
Instrumento GMM é Dgoυt≤-6
M-8a M-9a M-lOa M-lla M-12a M-13a
Dgoυt-1 ,216 (,12) ,219 (,12) ,215 (,12) ,147 (,12) ,150 (,12) ,171 (,13)
Dgoυt-2 ,043 (,10) ,045 (,10) .038 (,10) ,035 (,10) ,004 (,09) ,007 (,09)
Dgoυt-3 -,272 -,271 -,273 -,263 -,243 -,221
(,06)*** (,06)*** (,06)*** (,06)*** (,06)*** (,07)**
Coat0 -,072 -,074 -,075 -,074 -,080 -,077
(,02)*** (,02)*** (,02)*** (,02)*** (,02)*** (,02)***
Coat ,008 (,02) -,000 ,004 (,02)
(,02)
Coat2 -,045 -,044
(,02)* (,02)*
Coat3 ,008 (,02)
PLAt0 ,010 (,03) ,013 (,03) ,005 (,03) -,003 -,006 ,009 (,03)
(,03) (,03)
PLAt-1 -,019 -,010 -,029 -,042 -,029 -,028
(,03) (,03) (,04) (,04) (,03) (,04)
PLAt-2 ,007 (,03) -,007 -,020 -,006 -,005
(,04) (,04) (,02) (,03)
PLAt-3 -,026 -,031 -,016 -,015
(,03) (,03) (,03) (,03)
Controles:
OrcMinist -,155 -,152 -,151 -,141 -,144 -,147
(,04)*** (,04)*** (,04)*** (,04)*** (,04)*** (,06)***
AnosMandato ,067 (,06) ,065 (,06) ,064 (,06) ,070 (,06) ,074 (,06) ,069 (,06)
nPartCarreira -,043 -,041 -,049 -,045 -,051 -,052
(,03) (,03) (,04) (,03) (,03) (,03)
AnosPartAtual -,001 -,001 -,001 -,001 -,001 -,002
(,00) (,00) (,00) (,00) (,00) (,00)
μƒ_PLAt0 -,012 -,021 -,022 -,021 -,026 -,026
(,03) (,03) (,03) (,03) (,03) (,03)
μƒ_PLAt-1 -,027 ,010 (,04) ,009 (,04) ,007 (,04) ,010 (,04) ,011 (,04)
(,04)
μƒ_PLAt-2 -,034 -,044 -,047 -,048 -,049
(,04) (,04) (,04) (,04) (,04)
μƒ_PLAt-3 -,009 -,013 -,007 -,005
(,03) (,03) (,03) (,03)
Testes:
Sargan (p- ,263 ,257 ,203 ,175 ,165 ,161
valor):
AR(2) (p- ,253 ,258 ,291 ,263 ,424 ,562
valor):
Cor(yŷ) ,218 ,217 ,222 ,254 ,264 ,257
N usado: 1.124 1.123 1.116 1.116 1.116 1.116
Fonte: Estimação própria.
Obs.: A amostra tem N. deputados=1.278, T=l-15. Erro padrão robusto aparece
entre parênteses.
P-valores: *** <0,001; **<0,01; *<0,05.
Tabela 4a Modelos Difference-GMM com Efeitos Fixos, com a Inclusão de Variáveis
de Controle e Defasagens Temporais Variadas Variável Dependente é Dgoυt0 e
Instrumento GMM é ExecOrcUFt≤0
M-8b M-9b M-lOb M-llb M-12b M-13b
Dgoυt-1 -,285 -,280 (,03)*** -,283 (,03)*** -,334 -,381 -,385
(,03)*** (,02)*** (,03)*** (,03)***
Dgoυt-2 -,105 -,102 (,03)*** -,100 (,03)*** -,123 -,196 -,204
(,03)*** (,03)*** (,03)*** (,03)***
Dgoυt-3 -,043 -,043 (,03) -,040 (,03) -,051 -,083 -,092
(,03) (,03) (,03)** (,03)**
Coat0 -,039 -,055 (,02)** -,058 (,02)*** -,069 -,086 -,090
(,01)** (,02)*** (,02)*** (,02)***
Coat-1 -,060 -084 -,087
(,01)*** (,01)*** (,01)***
Coat-2 -,072 -,078
(,01)*** (,01)***
Coat-3 -,010
(,01)
PLAt0 -,018 -,022 (,02) -,028 (,02) -,025 -,016 -,016
(,02) (,02) (,01) (,02)
PLAt-1 -,031 -,041 (,02) -,052 (,02)* -,043 -,037 -,036
(,02) (,02) (,02) (,02)
PLAt-2 -,014 (,02) -,022 (,02) -,012 -,008 -,006
(,02) (,02) (,02)
PLAt-3 -,017 (,02) -,015 -,006 -,006
(,02) (,01) (,01)
Controles:
OrcMinist -,114 -,118 (,04)** -,115 (,04)** -,139 -,131 -,127
(,04)** (,03)*** (,03)*** (,03)***
AnosMandato ,024 ,026 (,05) ,025 (,05) ,017 ,024 ,024
(,05) (,05) (,05) (,05)
nPartCarreira -,002 ,000 (,02) -,006 (,02) -,012 -,003 -,004
(,02) (,02) (,02) (,02)
AnosPartAtual -,000 ,000 (,00) -,000 (,00) ,000 ,001 -,001
(,00) (,00) (,00) (,00)
μƒ_PLAt0 -,023 -,042 (,03) -,040 (,03) -,041 -,045 -,042
(,02) (,03) (,03) (,03)
μƒ_PLAt-1 -,014 -,032 (,03) -,030 (,03) -,034 -,042 -,043
(,02) (,03) (,03) (,03)
μƒ_PLAt-2 -,054 (,03)* -,057 (,03) -,053 -,062 -,059
(,03) (,03)* (,03)
μƒ_PLAt-3 -,006 (,03) -,008 -,012 -,012
(,02) (,02) (,02)
Testes:
Sargan (p- ,121 ,123 ,117 ,113 ,219 ,204
valor):
AR(2) (p- ,464 ,417 ,450 ,252 ,828 ,936
valor):
Cor(yŷ) ,486 ,487 ,491 ,502 ,519 ,520
N usado: 1.533 1.519 1.509 1.509 1.509 1.509
Fonte: Estimação própria.
Obs.: A amostra tem N. deputados=1.278, T=l-15. Erro padrão robusto aparece
entre parênteses.
P-valores: *** <0,001; **<0,01; *<0,05,
Os resultados desses modelos são, em linhas gerais, os mesmos encontrados
anteriormente. Ou seja, o pertencimento à coalizão no mesmo ano em que
oposicionamento dos parlamentares é considerado (Coat0) demonstra ser,
invariavelmente, estatisticamente significante aos níveis mais rigorosos de
corte, bem como apresenta o sinal esperado: isto é, pertencer à coalizão de
governo diminui a distância entre o ponto ideal dos deputados e o ponto ideal
do governo. Quando a instrumentalização é feita via ExecOrcUF, até mesmo as
defasagens de Coa têm significância e sinal esperado, sugerindo um efeito
adicional sobre a proximidade entre o ponto ideal dos deputados e o ponto ideal
dos presidentes, quando os deputados já participavam da coalizão nos anos
anteriores.
Ao mesmo tempo, a porcentagem de emendas executadas apresenta um resultado bem
diferente. PLAt-[0:r] não possui significância para nenhuma ordem de defasagem
r, em nenhum modelo, com uma única exceção, na Tabela_4a, em que PLA t-
1 aparece significante ao nível de 0,05 em um modelo. Este é um resultado nada
robusto em face das diversas especificações e, na verdade, dependente de um
modelo muito específico e pouco plausível: instrumentalizado com
ExecOrcUF,especificado com q= 0 e r = 3. De resto, em nenhum modelo e com
nenhum dos instrumentos GMM utilizados, PLA jamais volta a mostrar
significância estatística tal como o fazia antes da correção de AR. O mais
próximo que se encontra de relevância para as emendas, segundo nossos
resultados, é a significância estatística para as emendas estaduais, não
individuais, liquidadas pelo governo em alguns dos modelos instrumentalizados
por ExecOrcUF. Trata-se, porém, novamente, de um resultado não robusto às
diferentes especificações e instrumentalizações.
Enquanto isso, o único controle que mostra ser sempre estatisticamente
significante e com o sinal esperado é precisamente aquele que complementa Coa,
isto é, OrcMinist (orçamento ministerial controlado pelo partido do deputado em
um dado ano). Isso significa dizer que a despeito da especificação de modelos
utilizados, quanto mais orçamento ministerial controlado pelo partido de um
dado deputado no ano de uma dada votação, mais ele tende a se aproximar do
ponto ideal do governo. Estimamos também modelos com defasagens temporais de
OrcMinist(não apresentados aqui por questão de espaço) e, no geral, todas as
suas defasagens também têm significância estatística ao nível de 0,001, bem
como sinal esperado. O resultado dessa variável de controle mostra que sua
inclusão não apenas não altera o resultado geral encontrado para Coa ou para
PLA, como fornece ainda um indício adicional do papel relevante desempenhado
pelas coalisões de governo no apoio dos parlamentares à agenda dos presidentes.
Esse conjunto de resultados deixa poucas dúvidas de que, uma vez corrigida AR e
instrumentalizados os modelos GMM com instrumentos válidos, não encontramos
evidência empírica para considerar que emendas ao orçamento realmente impactem
no apoio dos deputados à agenda dos presidentes. Testamos também modelos
adicionais, interagindo Coa e PLA para tentar captar algum efeito adicional das
emendas sobre a pertença ou ausência às coalizões, além de outros modelos
interagindo PLA e o tamanho dos partidos na Câmara, para tentar verificar o
possível impacto das emendas sobre deputados de partidos satélites, isto é, que
não possuem ministérios mas nem por isso pertencem necessariamente à oposição
(para a importância de diferenciar o que são partidos da situação com ou sem
ministérios, ver Freitas,_2008; Limongi_e_Freitas,_2005). Por questão de
parcimônia e espaço, não apresentamos esses resultados aqui, mas em nenhum caso
foram diferentes do discutido anteriormente. Ou seja, o pertencimento à
coalizão, no sentido de integrar as equipes ministeriais, continua sendo uma
variável com significância estatística e sinal esperado, enquanto a execução
das emendas mantém-se estatisticamente não significante e, nesses testes
adicionais, até mesmo passa a ter por vezes o sinal contrário ao esperado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados encontrados neste trabalho não permitem sustentar a hipótese tão
popularmente difundida de que a execução, por parte do Executivo, das emendas
ao orçamento feitas pelos deputados tem impacto sistemático relevante sobre
como esses parlamentares votam na Câmara dos Deputados. Pelo contrário, uma vez
corrigida a autocorrelação serial presente na proximidade entre o ponto ideal
de deputados e o ponto ideal do governo, o papel das emendas jamais se mostra
estatisticamente significante. Diga-se de passagem que, do ponto de vista do
poder preditivo em modelos bivariados, mesmo sem essa correção o poder
preditivo da execução das emendas sobre a proximidade entre parlamentares e
Executivo é praticamente nulo, enquanto o pertencimento à coalizão
governamental tem poder preditivo bastante elevado.
Mais importante, os resultados sobre o papel da pertença à base de governo
sobre a proximidade dos pontos ideais de deputados e do governo são expressivos
também do ponto de vista de inferência estatística. A presença dos partidos dos
deputados nas equipes ministeriais dos presidentes tem efeito estatisticamente
robusto a diferentes especificações de modelos, a diferentes defasagens
temporais e ao uso de diferentes instrumentos. Além disso, encontramos uma
indicação adicional de que mesmo a quantidade do orçamento ministerial
controlado pelos partidos dos deputados também parece exercer impacto sobre a
proximidade do ponto ideal dos votos desses parlamentares com relação aos
pontos ideais dos presidentes em um determinado ano.
Como discorremos de início, isso não nos permite afirmar algo de concreto sobre
se os parlamentares utilizam ou não os recursos aprovados em suas emendas para
levá-los a redutos eleitorais, tampouco é possível dizer se com isso eles
conseguem aumentar suas probabilidades de reeleição. Ou, ainda, se as emendas
parlamentares tendem a alterar a agenda ideal dos presidentes ou o caráter
nacional versus local das políticas de alocação de gastos. Sobre essas
questões, muitas vezes misturadas com o papel das emendas sobre o comportamento
parlamentar, há uma série de bons trabalhos acadêmicos analisando-as e
debatendo-as. Nosso trabalho somente nos permite fazer afirmações sobre esse
ponto específico; isto é, que não há razões empíricas suficientes para afirmar,
como é costumeiro, que as emendas dos parlamentares ao orçamento seriam uma
verdadeira moeda de troca na obtenção de apoio parlamentar.
Não pretendemos com isso encerrar o debate sobre essa questão. Pelo contrário,
nossa intenção é renovar o interesse pelo tema. Mais pesquisas sobre o assunto,
inclusive que avancem no tratamento do fator tempo e das suas nuances
devidamente consideradas, são muito bem-vindas. De resto, pretendemos tão-
somente defender a cautela. Do ponto de vista acadêmico, precaução quanto às
questões metodológicas que precisam ser desenvolvidas a fim de evitar os falsos
positivos e os falsos negativos no que se refere ao uso das emendas para
angariar apoio parlamentar, e, portanto, cautela com as usuais conclusões
definitivas de que as emendas individuais ao orçamento desempenhariam um papel
de verdadeiras moedas de troca nas relações Executivo-Legislativo. Afinal,
trata-se de papel sobre o qual não abundam indícios empíricos científicos
incontroversos. Pelo contrário, há controvérsias - e como mostramos, falta de
evidência empírica - suficientes para, no mínimo, suscitarem mais dúvidas do
que, academicamente, viemos recentemente levantando. E mais dúvidas do que a
militância política e o fervor midiático sobre o assunto usualmente se permitem
ter.