Diferenciais no comportamento reprodutivo das mulheres Brasileiras: uma análise
a partir dos grupos ocupacionais
INTRODUÇÃO
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2007 o
Brasil apresentava uma taxa de fecundidade total (TFT) de 1,95 filho por
mulher. Não obstante, diversas pesquisas têm identificado a existência de
subgrupos populacionais com altas taxas de fecundidade total, chegando em
alguns casos, a seis filhos por mulher. Essas pesquisas quase sempre analisam
os diferenciais de fecundidade a partir de escolaridade, renda, região
geográfica e raça (Berquó e Cavenaghi, 2005; Horta, Carvalho e Nogueira, 2005;
Alves, 2004; Fundação Seade, 2004; IBGE, 2000; Lam e Duryea, 1999), e deixam de
lado aspectos relacionados ao trabalho e à ocupação da mulher (Dias Júnior,
2007). Nesse sentido, o objetivo, neste artigo, é examinar como o comportamento
reprodutivo, representado pelo número de filhos, pela idade ao ter os filhos e
pelo intervalo intergenésico, pode estar associado à ocupação da mulher.
Este estudo parte da hipótese de que determinados tipos de ocupação estão
associados a diferentes estratégias utilizadas pelas mulheres em relação à
fecundidade. Espera-se que, entre as mulheres mais qualificadas, que
normalmente estão inseridas na parcela mais competitiva do mercado de trabalho
(cuja formação acadêmica é um pré-requisito, e o constante aperfeiçoamento
profissional, uma exigência), o custo de oportunidade de ter filhos seja maior,
e a incompatibilidade entre o trabalho e a família, mais acentuada. Nessas
situações, pode-se esperar um adiamento e uma limitação da fecundidade
(Hewllet, 2002; Brewster e Rindfuss, 2000; Kalwij, 2000; Ellisgsaeter e Rosen,
1996; Blau e Robins, 1989; Becker, 1981).
Foram introduzidos, neste artigo, dois aspectos importantes para o debate atual
da fecundidade no Brasil. O primeiro foi a estratificação do grupo ocupacional
da mulher em oito categorias. Acredita-se que, ao utilizar essa categorização,
a tradicional divisão entre ocupada/não ocupada é minimizada, proporcionando ao
estudo da fecundidade uma análise mais refinada da relação entre o
comportamento reprodutivo e a ocupação. Como bem lembra Alves (2004), é a
qualidade do emprego que faz com que a mulher tenha um maior controle sobre
suas decisões reprodutivas, e não apenas o fato de trabalhar.
Além disso, deve-se ressaltar que a categorização dos grupos ocupacionais foi
pautada pela preocupação em minimizar o papel da educação (que normalmente é o
marco referencial utilizado na classificação ocupacional) e valorizar os
aspectos próprios da ocupação, como as tarefas demandadas e a competência
exigida. Para realizar essa tarefa, foi utilizada a categorização ocupacional
da nova Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), que traz em sua essência
toda essa preocupação1.
O segundo aspecto foi a introdução do tempo2. O termo tempo da fecundidade,
para produzir algumas medidas de fecundidade. De acordo com Ryder (1969),
apesar da importância do tempo, o que tem sido observado é que as análises da
fecundidade são centradas nas questões referentes à parturição, deixando de
lado aspectos como a idade ao ter os filhos e o intervalo intergenésico. Para
esse autor, essa tendência se justificaria pelos seguintes motivos: 1) as
maiores transformações na fecundidade têm sido observadas no volume de
nascimentos; 2) quase todas as medidas de fecundidade são medidas de período, o
que inibe o uso de parâmetros de coorte, como o tempo de ocorrência do evento;
3) a influência da mudança no tempo sobre a quantidade de filhos é bastante
sutil, quase sempre imperceptível.
Buscando cobrir essa lacuna, foram utilizadas informações sobre a história de
nascimentos da amostra do Censo Demográfico 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística). A partir dessas informações, é possível obter uma
perspectiva de coorte, permitindo uma análise mais profícua do processo
reprodutivo (Schoen, 2006; Bongaarts e Feeney, 1998; Newell, 1988; Berquó,
1980; Sauvy, 1979; Ryder, 1969).
POSSIBILIDADES TEÓRICAS PARA A INTERPRETAÇÃO DA RELAÇÃO ENTRE O COMPORTAMENTO
REPRODUTIVO E O GRUPO OCUPACIONAL DA MULHER
Com evidências cada vez mais fortes da relação entre o declínio da fecundidade
e o aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, é cada vez maior
o interesse dos pesquisadores em entender esse fenômeno. Nesse sentido, tanto a
sociologia quanto a economia vêm construindo um importante arcabouço teórico-
metodológico para a compreensão da relação entre essas duas variáveis,
colaborando diretamente para os avanços dos estudos demográficos nessa área. Na
perspectiva sociológica, a análise se baseia na hipótese da incompatibilidade
entre o papel de mãe/dona de casa com o de mulher trabalhadora. Já na
perspectiva econômica, a análise está baseada nos custos de oportunidade de ter
um filho.
Tanto a abordagem sociológica quanto a econômica colaboram para o debate em
torno da inserção da mulher no mercado de trabalho e os possíveis impactos
desse fenômeno sobre o comportamento reprodutivo. Apesar de constituírem dois
marcos conceituais diferentes, essas duas possibilidades de análise não são
necessariamente antagônicas, uma vez que a incompatibilidade de papéis aumenta
com o crescente custo de oportunidade de ter filhos (Engelhardt, Kögel e
Prskawetz, 2004).
Incompatibilidade de Papéis
A necessidade de desempenhar simultaneamente vários papéis sociais pode gerar
certo grau de incompatibilidade entre eles. Um dos exemplos mais comuns na
literatura é o conflito enfrentado pelas mulheres que tentam conciliar o papel
de mãe/dona de casa com o de trabalhadora. Para muitos autores, esse conflito é
a base para entender como a inserção da mulher no mercado de trabalho se
associa à fecundidade (Blau, Ferber e Winkler, 1998; Jones, 1981).
Segundo pesquisas realizadas pelas Nações Unidas (1985), nas sociedades nas
quais existe algum nível de incompatibilidade entre as atividades domésticas e
as profissionais, as mulheres que trabalham têm, em média, menos filhos, quando
comparadas com as mulheres que não trabalham (Blau e Robins, 1989). Nos países
ocidentais, por exemplo, quanto maior a participação da mulher no mercado de
trabalho, menor a taxa de fecundidade (Pazello, 2004; Kögel, 2004; Lloyd,
1990).
Outro aspecto importante a ser destacado quando se estuda a relação entre a
fecundidade e a participação da mulher no mercado de trabalho se refere à
ocupação. Hakim (1992) e England (1991) demonstram que há uma relação da
fecundidade com as características da ocupação da mulher. Para essas autoras,
as ocupações que são mais flexíveis - tanto em relação aos horários quanto em
relação à facilidade de entrar e sair do mercado de trabalho - são preferidas
pelas mulheres. Essa preferência ocorre em virtude da necessidade de
conciliação entre os afazeres domésticos e maternos com a vida profissional.
Segundo Hewllet (2002) e Villarreal (1996), em ocupações de alto status social
(normalmente ocupações de nível superior com possibilidade de carreira), é
frequente a incompatibilidade entre o trabalho e os cuidados com os filhos.
Para as mulheres nessas ocupações, a maternidade se torna um grande empecilho
para o desenvolvimento profissional, uma vez que a saída do mercado de trabalho
para ter um filho pode acarretar uma desvantagem futura para a carreira. Por
outro lado, nas ocupações sem prestígio social, existe uma possibilidade maior
de compatibilidade entre o trabalho e os cuidados com os filhos, visto que não
há grandes expectativas em relação à carreira profissional. Essa falta de
perspectiva profissional facilita as entradas e saídas das mulheres no mercado
de trabalho, em função da maternidade, sem grandes prejuízos materiais.
De acordo com Favaro (2004) e Presser (1989), a presença de mecanismos
institucionais voltados para os cuidados com as crianças pode amenizar, ou
mesmo neutralizar, a incompatibilidade entre os papéis de mãe/dona de casa e o
de trabalhadora. Esse fenômeno tem sido observado sobretudo nos países
escandinavos e na Alemanha, onde, após grandes investimentos em childcare,
detectou-se um aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, ao
mesmo tempo que se observou um aumento nas taxas de fecundidade (Brewster e
Rindfuss, 2000; Ondrich e Spiess, 1998; Ellingsaeter e Ronsen, 1996).
Entretanto, ainda é muito cedo para aceitar a ideia de que a incompatibilidade
entre os papéis de mãe e trabalhadora esteja com os dias contados nas
sociedades ocidentais.
Custos de Oportunidade
Em praticamente todas as culturas, segundo a teoria microeconômica, as
obrigações domésticas são tarefas exclusivas das mulheres. Tendo essas
obrigações a priori, as mulheres, na maioria das vezes, são levadas a escolher
ocupações que permitam a conciliação entre a casa e o trabalho. Ao buscar
conciliar a tarefa doméstica e a profissional, elas acabam se concentrando em
ocupações de tempo parcial e/ou flexível, cujo retorno financeiro é baixo e a
construção de carreiras é muito difícil. Nesse ambiente, o custo de
oportunidade de ter um filho é baixo, o que pode incentivar a fecundidade
(Degraff e Anker, 2004; Hirata e Kergoat, 2003; Anker, 1997; England, 1991;
Becker, 1981).
Segundo o modelo da compensação, uma das abordagens da teoria microeconômica,
as mulheres mostram-se dispostas a abrir mão de uma ocupação que possa
proporcionar maiores ganhos e carreira para ingressar em ocupações que
possibilitem uma segurança maior tanto em relação ao trabalho em si quanto em
relação à sua família e a seus filhos. Ou seja, as mulheres buscam ocupações
que permitam a compatibilidade entre a casa, a maternidade e o trabalho
(Degraff e Anker, 2004).
Esse modelo pode tornar-se frágil se forem considerados os ganhos educacionais
observados entre as mulheres nos últimos anos. Com o aumento da escolaridade
delas, muitas estão ingressando no mercado de trabalho em ocupações de primeira
linha, disputando com os homens as melhores colocações. O ganho educacional,
que resulta em melhores empregos e salários, aumenta o custo de oportunidade de
ter filhos. Ou seja, é de se esperar que entre as mulheres mais escolarizadas,
potencialmente alocadas em ocupações promissoras, haja um controle maior da
fecundidade (Brewster e Rindfuss, 2000; Anker, 1997).
Além do aumento da escolaridade, as transformações nos padrões de casamento (o
aumento da idade média da mulher ao se casar e o crescimento do percentual de
coabitação) e de reprodução (a postergação da maternidade) produziram uma
diminuição dos afazeres domésticos. Com isso, as mulheres passaram a ter menos
obrigações com o lar e mais tempo para se especializar profissionalmente e
adquirir mais experiência no mercado de trabalho (McDonald, 2001; Anker, 1997;
England, 1991).
Diante desses argumentos, pode-se dizer que, entre as mulheres com um maior
capital humano, o custo de oportunidade de ter um filho é maior. É de se
esperar que esse grupo postergue a maternidade, uma vez que investe muito no
mercado de trabalho (Becker, 1981). Por outro lado, para as mulheres com menor
capital humano, pode-se dizer que o custo de oportunidade de ter um filho não é
tão expressivo a ponto de restringir consideravelmente a fecundidade.
Sylvia Hewllet (2002) corrobora essa visão. Em um estudo qualitativo realizado
nos Estados Unidos, essa autora analisou as mulheres em profissões de alto
prestígio social (basicamente executivas de grandes empresas). Segundo esse
estudo, o caminho trilhado por essas mulheres até a chegada ao topo da pirâmide
ocupacional foi árduo, exigindo posturas mais "masculinizadas" para que
sobrevivessem à forte competição no mercado de trabalho. Nesse ambiente hostil,
observou-se que as demandas reprodutivas foram inibidas, contribuindo para
a postergação da maternidade. Em alguns casos, segundo Hewllet, a postergação é
tão extrema que se torna praticamente impossível ter filhos, em virtude das
limitações biológicas do organismo feminino. Ao contrário, os homens nas mesmas
posições ocupacionais possuíam, em média, três filhos. Em outro estudo,
Stolzenberg e Waite (1977) observam que o efeito negativo da participação da
mulher no mercado de trabalho sobre a fecundidade é mais forte em relação ao
primeiro filho, sobretudo entre as mulheres em ocupações mais privilegiadas. Já
para Hoem e Hoem (1989), o impacto negativo ocorre em todas as ordens de
nascimento. Esses autores observaram que, para as mulheres que participam do
mercado de trabalho, a probabilidade de terem muitos filhos é menor quando
comparadas com as mulheres que não trabalham.
BANCO DE DADOS
Para este estudo, foram utilizados os dados do arquivo de pessoas da amostra do
Censo Demográfico 2000. Esse arquivo é representativo para o Brasil e conta com
informações de 20.274.412 pessoas (sem peso). Desse universo, foram
selecionadas as mulheres do grupo etário de 30 a 34 anos, classificadas, dentro
da família, como pessoa responsável ou cônjuge. Essas escolhas foram pautadas
por três motivos.
O primeiro deles era a necessidade de alocar as informações da idade dos filhos
nascidos vivos junto das respectivas mães para construir a história de
nascimentos. De acordo com a estrutura do Censo Demográfico 2000, no caso das
mulheres classificadas como responsáveis pela família ou como cônjuges, é
possível a alocação das informações dos filhos nascidos vivos; para as demais
categorias, a possibilidade de alocação dessas informações é quase nula.
O segundo motivo é a necessidade de trabalhar com mulheres já estabilizadas
profissionalmente e com a fecundidade praticamente encerrada. Para Pastore e
Silva (2000), o corte etário ideal nos estudos sobre trabalho e ocupação é 30
anos. De acordo com esses autores, nessa idade o indivíduo praticamente
encerrou seu processo de formação profissional (principalmente via educação
formal) e já se encontra estabilizado na ocupação. Ou seja, as possibilidades
de uma grande mudança no status ocupacional dos indivíduos, a partir dos 30
anos, são remotas. A mobilidade observada ocorre dentro da própria ocupação. O
corte aos 30 anos também contempla a questão da fecundidade, uma vez que essa é
uma idade em que o ciclo reprodutivo das mulheres já está próximo de se tornar
completo. De acordo com Miranda-Ribeiro (2004), em 2000, a idade média da
mulher brasileira ao ter o quarto filho era 29,3 anos. Como o total de mulheres
com parturição acima de dois filhos está declinando rapidamente no Brasil, é
razoável supor que o limite inferior da amostra aos 30 anos de idade garante um
grande número de mulheres com a parturição praticamente encerrada.
O terceiro motivo é a necessidade de reduzir a proporção de mulheres com
informações incompletas sobre os filhos. Nesse sentido, com o corte superior
aos 34 anos, tem-se um percentual de mulheres com informações incompletas sobre
os filhos bastante reduzido em relação a grupos etários mais velhos.
Após essas ponderações, foram retiradas de nossa amostra todas as mulheres com
filhos gêmeos, mulheres com um número de filhos nascidos vivosmenor do que o
número de filhos presentes na família,mulheres cuja idade ao ter o primeiro
filho não fosse 15 anos ou mais3 e mulheres classificadas como amarelas e
indígenas no quesito cor.
Ao final, o banco de dados passou a contar com 635.788 mulheres de 30 a 34
anos, classificadas como responsáveis pela família ou como cônjuges (sem peso).
Com a expansão da amostra, esse banco de dados chegou a 5.431.732 casos. Desse
total, 82,2% das mulheres não possuem filhos ou possuem todas as informações
das idades dos filhos nascidos vivos (mulheres com dados completos); e 17,8%
apresentam alguma perda de informação das idades dos filhos nascidos vivos
(mulheres com dados incompletos).
A presença de mulheres com dados incompletos no banco de dados suscitou
importantes questões sobre a manutenção ou não desses casos nas análises. A
saída mais simples para essa situação seria restringir as análises ao grupo de
indivíduos com todas as informações, utilizando o list-wise deletion (Chen e
Astebro, 2003). Nesse sentido, assume-se que os casos descartados por falta de
informações têm as mesmas características dos casos completos. No entanto, isso
só ocorre se os dados descartados representarem uma subamostra aleatória da
amostra original. Outro método utilizado para solucionar a ausência de
informações é a substituição dos missing pela média dos dados válidos da
variável em questão. O grande problema desse método é que todos os missing
recebem o mesmo valor médio, o que faz com que a variância se reduza
artificialmente. Outro instrumental para solucionar a presença de missing em um
banco de dados é a imputação via regressão. Com esse instrumental, os dados
ausentes são produzidos a partir dos valores encontrados em outras variáveis.
Um aspecto a ser ressaltado é que os valores produzidos a partir de um modelo
de regressão não têm o objetivo de se tornar o valor real, mas sim de garantir
a variabilidade da população, preservando as correlações com as
outras variáveis (Schafer, 1999).
Após a comparação de mulheres com dados completos com as mulheres com dados
incompletos, foram identificadas importantes diferenças socioeconômicas entre
elas
4, 5
. Essas diferenças inviabilizam tanto a utilização do list-wise deletion quanto
a substituição dos missing pela média das informações encontradas. A opção por
um desses dois procedimentos produziria uma amostra fortemente viesada, sendo
que a utilização do procedimento list-wise deletion geraria uma amostra com
apenas 83% das mulheres de 30 a 34 anos, o que impossibilitaria a generalização
dos resultados. Diante desses fatos, a melhor solução foi imputar as
informações dos filhos ausentes a partir de um modelo de regressão e assim
garantir que a amostra fosse realmente representativa do universo.
As mulheres foram separadas em subgrupos, segundo a parturição (0 a 5 filhos).
Para cada subgrupo, excetuando as mulheres sem filhos, foi construída uma
equação de regressão. Para as mulheres com um filho, foi construída uma equação
para estimar a idade ao ter o primeiro filho; para as mulheres com dois filhos,
foram construídas duas equações para estimar a idade ao ter o primeiro e o
segundo filho; e assim sucessivamente, até o quinto filho. Esse procedimento
foi avaliado como o mais adequado por considerar a parturição da mulher nos
cálculos das idades ao terem os filhos e por minimizar as possíveis reduções da
variância total ao reagruparmos todas as informações.
No modelo de regressão, a variável dependente é a idade ao ter o filho, e as
variáveis independentes são escolaridade, cor/raça e situação do domicílio. A
variável escolaridade foi categorizada em analfabeta, 1 a 3 anos de estudo, 4 a
7 anos de estudo, 8 a 10 anos de estudo e 11 anos e mais de estudo; a variável
cor/raça, em branca e negra; e a variável situação do domicílio, entre urbana e
rural. A escolha dessas variáveis foi baseada na literatura demográfica, que
aponta escolaridade, cor/raça e situação do domicílio como fatores
preponderantes no regime reprodutivo da mulher brasileira (Fundação Seade,
2004; IBGE, 2000; Lam e Duryea, 1999; Wood e Carvalho, 1994).
Após a estimação de todas as idades das mulheres ao terem os filhos, foram
comparados os valores observados no Censo Demográfico 2000 com os valores
produzidos pelas equações de regressão para atestar a validade do procedimento
utilizado (Tabela_1).
Comparando as informações das colunas A e B, percebe-se que os valores
estimados para as mulheres com informações completas pelo modelo de regressão
(B) estão bem próximos dos valores observados diretamente do Censo Demográfico
(A). Já a coluna C mostra os valores estimados para as mulheres com informações
incompletas. Fica claro que as médias delas são inferiores às das mulheres com
informações completas. Essa diferença era esperada, visto que as condições
socio-econômicas dessas mulheres com informações incompletas são piores, o que
pode levar a uma parturição maior e, por consequência, a uma entrada na
maternidade mais cedo, fazendo com que as idades médias sejam menores.
Validado o método de imputação e mantidas as mulheres com informações
imputadas, o banco de dados passou a contar com mais de 5 milhões de casos,
sendo que cerca de 83% das informações sobre a idade ao ter os filhos foram
retiradas diretamente do Censo Demográfico e o restante foi gerado a partir dos
modelos de regressão.
MODELO ANALÍTICO
O modelo analítico apresenta o comportamento reprodutivo da amostra, a partir
do grupo ocupacional da mulher, que foi desenvolvido com base na nova
Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).
A nova CBO descreve e ordena as ocupações dentro de uma estrutura
hierarquizada, segundo características ocupacionais que dizem respeito à
natureza da força de trabalho (funções, tarefas e obrigações que tipificam a
ocupação) e ao conteúdo do trabalho (conjunto de conhecimentos, habilidades,
atributos pessoais e outros requisitos exigidos para o exercício da ocupação).
É importante destacar que a nova CBO considerou uma compreensão mais atualizada
de "competência", cujo nível é pontuado mais fortemente pela complexidade das
atividades exercidas do que pelo nível de escolaridade6. Ao centrar a
classificação das ocupações na competência, em detrimento da educação, a nova
CBO consegue produzir uma categorização mais pura de ocupação. No entanto, essa
nova metodologia não faz com que a educação esteja totalmente afastada do
processo construtivo das categorias ocupacionais, o que, aliás, seria
impossível. A educação é um fator fundamental na definição de uma ocupação,
mas, considerando a maneira como essa questão foi trabalhada pela nova CBO, a
importância dela é diminuída em favor da natureza e do conteúdo do trabalho
realizado em cada ocupação. A correlação entre ocupação e educação fica,
portanto, menor, diminuindo a possibilidade de confundimento entre o
comportamento reprodutivo e essas duas variáveis.
Essa nova classificação é composta de 10 grandes grupos ocupacionais; 47
subgrupos principais; 192 subgrupos; 596 grupos de base ou famílias
ocupacionais, em que se agrupam 2.422 ocupações; e 7.258 títulos sinônimos.
Diante das inúmeras possibilidades apresentadas pela nova CBO, a variável
ocupação foi construída a partir dos grandes grupos que formam o nível mais
agregado da classificação. Essa escolha refletiu a busca por um modelo
parcimonioso, que representasse a essência das diferenças ocupacionais entre as
mulheres.
O primeiro passo foi criar o grupo de empregadas domésticas. Esse grupo foi
criado dado o peso dessa ocupação para o grupo de mulheres trabalhadoras. O
segundo passo foi agrupar em uma mesma categoria as profissionais de nível
técnico e administrativo (categoria técnico-administrativa) e as profissionais
de produção e manutenção (categoria produção/manutenção). Os demais grupos
ocupacionais foram mantidos de acordo com a nova CBO. Além disso, foi incluída
a categoria não ocupada. Dessa forma, a variável grupo ocupacional ficou assim
categorizada7:
- direção e gerência;
- nível superior;
- técnico-administrativo;
- serviços;
- rural;
- produção/manutenção;
- trabalhadoras domésticas;
- não ocupadas.
As medidas do comportamento reprodutivo utilizadas neste trabalho foram a
parturição, a TFT (taxa de fecundidade total), a idade média ao ter os filhos e
o espaçamento médio entre os nascimentos.
A medida de parturição foi retirada diretamente do Censo Demográfico 2000. A
TFT foi calculada a partir da Parity Progression Ratio (PPR). A PPR é
basicamente a probabilidade de se ter um filho de ordem x+1 desde que se tenha
um filho de ordem x (Newell, 1988). Normalmente, a PPR é utilizada em coortes
que já encerraram a vida reprodutiva, isto é, coortes com 50 anos e mais de
idade. Neste artigo, essa metodologia foi utilizada para o grupo de mulheres de
30 a 34 anos, pois é provável que grande parte dessas mulheres tenha encerrado
sua vida reprodutiva, o que permite a aplicabilidade dessa técnica aos dados
(embora as PPRs e, portanto, as TFTs possam estar sendo subestimadas pela
parturição ainda incompleta de parte dessas mulheres).
Para calcular a TFT a partir da PPR, foram utilizadas as seguintes informações:
Wx = número de mulheres com parturição x (até parturição = n);
Bx = número de nascimentos de parturição x.
A partir dessas informações, aplicou-se a fórmula (1) para estimar os valores
das TFTs para cada grupo ocupacional:
A idade média ao ter os filhos, em cada uma das parturições, segundo o grupo
ocupacional, foi calculada a partir da fórmula (2):
Em que:
I é a idade da mãe ao ter o filho;
x é a ordem de parturição;
Im2000 é a idade da mãe em 2000;
Ifx 2000 é a idade do filho em 2000 (segundo a ordem de parturição).
Essa fórmula foi aplicada para cada uma das ordens de nascimento. A partir
desses resultados, foi calculada a idade média das mulheres ao terem os filhos
(de ordem 1 a 5) para cada um dos grupos ocupacionais.
O espaçamento entre os nascimentos, ou o intervalo intergenésico, pode ser
definido como o tempo entre os sucessivos nascimentos (de nascidos vivos). Os
abortos e os nascidos mortos não são considerados nesse cálculo. Cada intervalo
começa com um período de amenorreia pós-parto (esse período pode ser ampliado
se a lactação for prolongada) até o retorno do ciclo menstrual, que, por sua
vez, pode ser seguido por um período de uso de contracepção. Em seguida, pode
haver um período de espera entre o fim da adoção da contracepção e a concepção.
Finalmente, ocorre a gravidez, que normalmente dura nove meses. O intervalo,
então, termina com o nascimento da criança (Preston, Heuveline e Guillot, 2001;
Newell, 1988). É importante destacar que o intervalo mínimo possível entre os
nascimentos é de dez meses (excetuando casos de partos prematuros), mas ele é,
normalmente, maior do que isso, chegando, em alguns casos, a vinte anos.
É evidente que esses cálculos podem ser muito mais complicados, sobretudo se o
objetivo do estudo for a efetividade de métodos contraceptivos (id., ibid.;
id., ibid.). Como este estudo não se ocupa dessas questões, a medida de
intervalo de nascimento é mais simples. O intervalo médio entre os nascimentos
foi baseado no cálculo realizado para a construção da história de nascimentos
nas vidas dessas mulheres. O primeiro intervalo, que teoricamente não é
considerado um intervalo intergenésico, foi calculado pela fórmula (3):
Em que:
T1 é o intervalo até o primeiro nascimento;
I1 é a idade da mulher ao ter o primeiro filho;
15 é a idade de início do período reprodutivo.
Os demais intervalos foram calculados pela fórmula (4):
Em que:
T é o intervalo intergenésico;
Ix+1 é a idade da mãe ao ter o filho x+1;
Ixé a idade da mãe ao ter o filho x.
A partir dessas informações, foi calculado o intervalo intergenésico médio em
cada um dos grupos ocupacionais.
UMA NOTA METODOLÓGICA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE COMPORTAMENTO REPRODUTIVO E
OCUPAÇÃO
As escolhas feitas durante a vida de uma mulher, em conjunto com as condições
materiais e socioculturais colocadas à sua disposição, respondem, em grande
parte, pelo resultado reprodutivo e ocupacional obtido por ela. Nesse contexto,
o estabelecimento de uma direção na relação causal entre esses dois fenômenos
não é trivial, principalmente porque é muito difícil a obtenção das datas de
ocorrência dos eventos relativos à parturição e à carreira profissional de um
mesmo indivíduo. Sem essas informações, não é possível dizer se foi o
"resultado ocupacional" que causou o "resultado da fecundidade" ou vice-versa.
Dessa forma, os resultados de um modelo de determinação baseado em uma pesquisa
cross-section podem estar inteiramente viesados, visto que as características
identificadas no momento da coleta dos dados podem ter sido determinadas por
planejamentos passados e podem estar sendo moldadas por expectativas futuras.
Neste estudo específico, a história reprodutiva das mulheres pode não ter uma
relação com sua ocupação atual, observada no momento da pesquisa. Contudo,
deve-se salientar que a ocupação presente também é resultado de uma trajetória
que foi construída em cima de possibilidades e desejos individuais. Existe a
possibilidade real de diálogo entre esses dois fenômenos sociais, com ambos
influenciando-se mutuamente.
Segundo Cramer (1980), é impossível observar uma relação temporal entre a
fecundidade acumulada (parturição total) e as variações da participação
feminina no mercado de trabalho. Assumindo que essas variáveis são endógenas, o
modelo estático pode não ser satisfatório, já que ignora a forma como tais
variáveis foram planejadas. Além disso, Cramer nos mostra que tanto o
planejamento sobre a fecundidade quanto a trajetória futura da mulher no
mercado de trabalho podem afetar os resultados de duas maneiras diferentes. Em
primeiro lugar, podem afetar diretamente a relação causal observada a partir
dos dados correntes. Por exemplo, o impacto do nascimento de um filho na
participação da mulher no mercado de trabalho pode ser diferente se essa
criança for planejada ou se nascer "acidentalmente". Em segundo, mesmo que o
planejamento das variáveis não afete a relação causal corrente (ou presente)
por meio da sequência das decisões tomadas, ele deve provavelmente afetar o
número (ou frequências) dessas sequências. Um exemplo desse efeito dado por
Cramer é que o planejamento da história reprodutiva pode não alterar o impacto
de um nascimento na carreira profissional da mulher, mas deve ajudar a
determinar o número total de filhos tidos ou que ainda nascerão.
O estabelecimento da causalidade exige um ordenamento temporal e certa
contiguidade entre as variáveis. Esse estabelecimento pode ser dificultado pelo
fato de que os indivíduos podem pensar prospectivamente, ou seja, podem
planejar seus objetivos e traçar suas estratégias muito tempo antes da
ocorrência do evento. De maneira geral, pode haver um descompasso temporal
entre as estratégias utilizadas e a efetivação do evento.
Para Cramer, um dos principais motivos da dificuldade de se estabelecer uma
relação causal entre a fecundidade e a participação da mulher no mercado de
trabalho é a qualidade e a especificação das variáveis utilizadas nesses tipos
de estudo. De acordo com esse autor, as informações sobre a fecundidade e o
trabalho, incluindo as preferências temporais, precisam ser mais bem coletadas
e analisadas. A ideia seria imprimir ao modelo uma dinâmica só conseguida com
dados longitudinais e com isso ajudar a resolver as questões de causalidade8.
Apesar disso, Cramer também afirma que, como nos estudos sobre a fecundidade e
a participação da mulher no mercado de trabalho não existe um consenso em
relação à direção causal, pode-se dizer que ambas as direções podem ser
consideradas plausíveis.
Para Villarreal (1996), a dificuldade de se estabelecer uma direção causal
entre a fecundidade e a participação da mulher no mercado de trabalho ocorre em
virtude da simultaneidade das escolhas em relação à fecundidade desejada e à
participação, ou não, no mercado de trabalho. A simultaneidade ofusca a relação
observada, impedindo o estabelecimento da causalidade.
Uma maneira eficaz de tentar resolver a questão da simultaneidade seria a
utilização do experimento natural, que insere no modelo alguma variável
aleatória (Pazello, 2004; Verona, 2004). Outra forma seria a utilização de
variáveis instrumentais9 (Pazello, 2004) ou o uso de equações simultâneas
(Villarreal, 1996).
Segundo Villarreal, uma alternativa para resolver a questão da direção causal
nesses tipos de estudo seria a utilização de um modelo dinâmico, baseado em
dados longitudinais (seguindo o mesmo respondente por meio de sua vida
reprodutiva e produtiva), em contraposição a um modelo estático. Os grandes
obstáculos que, em muitos casos, inviabilizam o uso dessa alternativa são o
custo e o tempo demandados para a geração de informações relevantes.
Monica Fong (1976) apresenta algumas considerações metodológicas com o objetivo
de ajudar a esclarecer a relação causal entre a fecundidade e a participação
feminina no mercado de trabalho. Essa autora afirma que é importante incluir na
análise medidas correntes de fecundidade ao se utilizar medidas recentes sobre
o mercado de trabalho feminino. Segundo ela, uma alternativa para lidar com
medidas correntes de fecundidade seria a utilização de dados de filhos com até
5 anos de idade ou a idade do último filho tido. Usando tais informações, seria
possível captar uma medida mais recente dos "conflitos" entre a demanda por
trabalho e filhos. Fong exemplifica dizendo que uma mãe com dois filhos
nascidos há doze e nove anos experimenta diferentes obstáculos no mercado de
trabalho quando comparada com uma mãe com dois filhos nascidos há três e dois
anos, apesar de a parturição dessas mães ser a mesma.
Tendo a percepção desses problemas metodológicos, fica evidente a importância
da escolha das variáveis e dos procedimentos utilizados. A maioria das medidas
de fecundidade e de participação na força de trabalho não permite associar
esses dois itens; normalmente utilizam dados correntes (variável trabalho/
ocupação) para serem correlacionados com aspectos ligados à história de vida
(fecundidade/parturição). Tais procedimentos podem resultar em relações
espúrias entre o comportamento reprodutivo e o trabalho, dificultando a
compreensão do comportamento demográfico da população.
Como não existe uma pesquisa longitudinal no Brasil sobre o comportamento
reprodutivo e a participação das mulheres no mercado de trabalho, foi
necessário adequar as informações de tal maneira que os possíveis problemas
apontados anteriormente ficassem minimizados. Foram utilizados dados correntes
sobre o trabalho (ocupação atual), correlacionando-os com as informações
correntes e cumulativas da fecundidade (TFT em 2000, história de nascimento e
parturição). Foi assumido que a ocupação atual da mulher (sobretudo entre as
mulheres de 30 a 34 anos, que já estão praticamente estabilizadas
profissionalmente) é reflexo de sua trajetória ocupacional. Ou seja, mesmo que
a ocupação de hoje não seja a mesma de quando a mulher começou a trabalhar e a
ter filhos, pode representar a história ocupacional da mulher.
Apesar dessas justificativas, neste artigo, buscou-se identificar alguma
associação temporal entre o comportamento reprodutivo e a ocupação da mulher
para tornar as análises mais robustas. A Tabela_2 mostra a idade média de cada
filho e o tempo médio no grupo ocupacional atual. Como o Censo Demográfico 2000
não possui dados sobre o tempo que o indivíduo está inserido na ocupação atual,
foi utilizada a PNAD de 2002 como proxy, e então essa média foi comparada com
a média da idade dos filhos da primeira até a quinta ordem de nascimento.
Como pode ser visto na Tabela_2, grande parte da parturição das mulheres
alocadas nos grupos ocupacionais direção e gerência, nível superior, técnico-
administrativo e rurais supostamente ocorreu concomitantemente ao exercício da
ocupação atual. Nos demais grupos ocupacionais, há um maior descompasso
temporal entre as idades médias dos filhos e o tempo médio na ocupação atual.
Esse fato ocorre porque, nessas ocupações, a rotatividade é muito grande, não
permitindo que as mulheres fiquem muito tempo no mesmo emprego; mesmo assim, é
provável que essas mulheres estivessem executando atividades similares às
observadas em 2000.
Em geral, os trabalhos sobre a mobilidade ocupacional no Brasil não utilizam a
variável ocupação no nível de desagregação aplicado neste estudo. Na maioria
das vezes, a mobilidade testada relaciona a passagem do status de carteira
assinada para não assinada, formal para informal, empregada para desempregada e
vice-versa (Oliveira, 2000). Essas análises não fornecem informações confiáveis
que mostrem que a mobilidade ocupacional entre as mulheres ocorre dentro de um
mesmo grupo ocupacional. Outros estudos trabalham na perspectiva de mobilidade
de classe intergeracional (Scalon e Ribeiro, 2001; Pastore e Silva, 2000), uma
perspectiva ainda mais distante do objeto deste artigo.
Apesar dessa ausência de informações sobre a mobilidade ocupacional das
mulheres (em nível de grupos ocupacionais), Elzira Oliveira (2000) afirma que é
esperada pouca mobilidade ascendente entre as mulheres. Segundo essa autora, a
trajetória ocupacional da mulher não sofre grandes transformações ao longo do
tempo. Nesse sentido, se a mulher entra no mercado de trabalho em ocupações de
baixo prestígio social, é esperado que ela permaneça nessas ocupações (se em
2000 a mulher estava em uma ocupação de baixo prestígio, é provável que
estivesse em uma ocupação com as mesmas características em 1990, por exemplo).
Ao mesmo tempo, se ela entra em uma posição de maior prestígio social, também é
provável que continue. De acordo com Pastore e Silva (2000), observa-se uma
grande imobilidade nessas ocupações.
Tais suposições permitem traçar um possível paralelo entre a história de
nascimentos e a história ocupacional das mulheres - representada pela ocupação
corrente, em virtude da esperada estabilidade das mulheres em seu grupo
ocupacional.
RESULTADOS
Segundo a Tabela_3, entre as mulheres em ocupações de nível superior, quase 30%
delas não possuem filhos. Por outro lado, entre as trabalhadoras rurais, apenas
4,2% estão nessa situação. Ao mesmo tempo, nesse mesmo grupo de mulheres, mais
de 35% possuem quatro filhos e mais, contra 2,2% das mulheres em ocupações de
nível superior.
De maneira geral, entre as mulheres com ocupações menos qualificadas (serviços,
produção/manutenção, rurais e empregadas domésticas) e as não ocupadas, há uma
parturição maior. Já nos grupos ocupacionais mais qualificados, existe uma
grande concentração de mulheres com parturição de até dois filhos.
O Gráfico_1 mostra as TFTs de todos os grupos ocupacionais. Os valores
encontrados reafirmam as diferenças observadas na distribuição percentual da
parturição (Tabela_3). Entre os grupos ocupacionais mais qualificados, as TFTs
encontradas são extremamente baixas, sobretudo entre as mulheres ocupadas nos
setores de nível superior. Por outro lado, entre as mulheres nas ocupações
menos qualificadas do mercado de trabalho brasileiro (trabalho rural e
doméstico) e entre as mulheres não ocupadas, são encontradas as maiores TFTs,
com destaque para as trabalhadoras rurais, que têm, em média, 3,24 filhos. Já
as mulheres dos setores de serviços, produção e manutenção apresentaram uma TFT
em torno do nível de reposição (2,1 filhos por mulher)10.
De maneira geral, são identificados três padrões de TFT, segundo o grupo
ocupacional da mulher: TFT muito abaixo do nível de reposição para mulheres em
ocupações mais qualificadas; TFT ao nível de reposição para mulheres em
ocupações intermediárias (serviços e produção/manutenção); e TFT acima do nível
de reposição para as mulheres alocadas em ocupações manuais, de baixo prestígio
social e entre as mulheres não ocupadas.
De acordo com a Tabela_4, existem diferenças importantes nas médias de idade ao
ter os filhos segundo o grupo ocupacional da mulher. Essas diferenças são mais
significativas em relação aos filhos de ordem 1 e 2. A partir do quarto filho,
as diferenças se reduzem bastante; e a partir do quinto já não se observam
grandes variações nas médias de idade. Entre as mulheres de nível superior, por
exemplo, a idade média ao ter o primeiro filho é 25,2 anos, ao passo que para
as mulheres não ocupadas a idade média ao ter o primeiro filho é 18,8 anos. Se
as mulheres de nível superior levam quase onze anos, em média, para ter o
primeiro filho, dado o ponto inicial de 15 anos, as mulheres não ocupadas
levam, em média, apenas 3,8 anos.
A Tabela_5 separa as mulheres segundo o grupo ocupacional e a parturição total.
Entre as mulheres com parturição 1, a ocupação parece ser um componente
importante na escolha do momento de ter o filho. Para as mulheres com ocupação
de nível superior, a média de idade ao ter o filho é 27,4 anos, ao passo que,
entre as mulheres empregadas domésticas, a idade média ao ter o filho é 24,5
anos. Uma diferença de 2,9 anos. Como foi demonstrado anteriormente, na Tabela
4, sem a separação por parturição, essa diferença é de 4,2 anos. Entre as
mulheres com parturição 2, ainda se observam diferenças importantes na idade
média ao ter os filhos, mas, à medida que se aumenta a parturição, a possível
influência da ocupação vai diminuindo, até desaparecer. Para as mulheres de
parturição 4 e 5, por exemplo, o fato de estarem em um determinado tipo de
ocupação parece não influenciar na média de idade ao ter os filhos, uma vez que
os resultados encontrados mostram um mesmo padrão reprodutivo entre essas
mulheres, independentemente da ocupação. Apesar disso, apenas uma parcela
ínfima das mulheres mais qualificadas profissionalmente terão muitos filhos.
Outro aspecto importante na Tabela_5 é o fato de as mulheres não ocupadas, com
até dois filhos, terem uma média de idade maior que as mulheres dos grupos
ocupacionais menos qualificados (serviços, produção/manutenção, rural e
empregadas domésticas) no momento da ocorrência dos nascimentos.
Os intervalos entre os nascimentos, como era esperado, acompanham o padrão
observado na Tabela_5. De acordo com a Tabela_6, apenas para as mulheres com um
e dois filhos se observam diferenças nos intervalos intergenésicos ao se
comparar os grupos ocupacionais. Para as mulheres com parturição 4 e 5,
principalmente, os intervalos entre os nascimentos são praticamente os mesmos,
independentemente da ocupação.
PROVÁVEIS EXPLICAÇÕES PARA OS DIFERENCIAIS NO COMPORTAMENTO REPRODUTIVO ENTRE
OS GRUPOS OCUPACIONAIS
De acordo com os resultados deste estudo, existe uma diferença no regime
reprodutivo dos grupos ocupacionais, mas não se pode afirmar categoricamente
que determinada característica de um grupo ocupacional seja responsável pelo
comportamento reprodutivo das mulheres desse grupo. O que se pode fazer são
suposições sobre a relação entre ocupação e fecundidade. Além disso, é
importante deixar claro que os resultados, por seu caráter descritivo, podem
mascarar possíveis relações entre o comportamento reprodutivo e outras
variáveis.
Nos grupos ocupacionais mais qualificados (direção e gerência, nível superior e
nível técnico-administrativo), o grau de formalização das relações de trabalho
é maior (Dias Júnior, 2007). Essa característica é apontada pela literatura
corrente como possível fator explicativo para a baixa fecundidade, uma vez que
o grau de formalização das atividades laborativas, cuja exigência maior é o
cumprimento de horários, pode aumentar a incompatibilidade entre a participação
no mercado de trabalho e a maternidade (Degraff e Anker, 2004). Ao mesmo tempo,
a alta qualificação, reflexo da alta escolaridade, aumenta os custos de
oportunidade de ter filhos dessas mulheres. Esse aumento dos custos de
oportunidade pode fazer com que as mulheres passem a controlar mais
efetivamente a maternidade, com o adiamento do primeiro filho e/ou a redução da
parturição, mantendo-se atraentes para o mercado de trabalho (McDonald, 2001;
Hoem e Hoem, 1989; Becker, 1981). Nas ocupações de maior status social,
encontram-se as mulheres que, em média, retardam por mais tempo a maternidade e
controlam a progressão da parturição (Hewllet, 2002). É plausível supor que a
preparação para ingressar nesses tipos de ocupação (via escolaridade) gera a
postergação e que as características dessas ocupações e os desafios do mercado
de trabalho geram o controle da parturição.
Entre os grupos ocupacionais menos qualificados (serviços, rurais, produção/
manutenção e empregadas domésticas), existe um contingente maior de mulheres
com poucos anos de estudo e com uma relação mais informal de trabalho (Dias
Júnior, 2007). Essas duas características podem ser a pista para entender o
regime reprodutivo desses grupos ocupacionais (idade mais baixa ao ter o
primeiro filho e maior parturição/fecundidade quando comparados com os grupos
ocupacionais mais qualificados). A pouca escolaridade remete, quase
invariavelmente, aos piores trabalhos. Esses trabalhos normalmente remuneram
mal e tendem a não ter um contrato formal. Não há, por parte das trabalhadoras,
grandes incentivos nem motivos para investir em suas carreiras profissionais. O
fato de estarem, na maioria das vezes, sob um contrato informal, facilita a
entrada e a saída do mercado de trabalho. Esse fenômeno reduz
significativamente a incompatibilidade entre as obrigações maternas e o
trabalho. Quando necessário, a mulher se afasta do trabalho e retorna quando
lhe convém, sem grandes perdas salariais (dado que o salário tende a ser mais
baixo, em relação ao trabalho formal, e guarda pouca relação com a experiência)
e sem perdas do saber necessário para reingressar na profissão. Nesse ambiente
desfavorável, ter ou não filhos pode não ser uma grande questão, visto que o
custo de oportunidade é baixo (England, 1991).
Conclui-se que o tipo de trabalho que a mulher realiza pode estar associado a
seu comportamento reprodutivo (Nações Unidas, 1985), influenciando na idade ao
ter os filhos (Hoem e Hoem, 1989), nos riscos de progressão da parturição
(Kalwij, 2000) e na parturição final (Hewllet, 2002). Certamente, a discussão
da relação entre o comportamento reprodutivo e o trabalho da mulher pode lançar
luz sobre mais um dos aspectos que explicam o declínio acentuado das TFTs no
Brasil. É possível que as exigências do mercado de trabalho (Hewllet, 2002), a
ausência de uma assistência social eficiente à mãe trabalhadora (Favaro, 2004;
Presser, 1989) e a dificuldade de dividir equitativamente os trabalhos
domésticos com o parceiro (Bruschini, 2006) possam responder por boa parte da
fecundidade abaixo do nível de reposição da população no Brasil. Nesse sentido,
este estudo pode colaborar com essa discussão, uma vez que demonstra a
importância da ocupação da mulher na composição do regime reprodutivo.
NOTAS
1. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a nova CBO procurou, ao
mesmo tempo, maximizar as características e as competências dos grupos
ocupacionais e minimizar a influência da educação na caracterização desses
grupos.
2. O termo tempo da fecundidade, utilizado em nosso trabalho, não representa o
impacto do espaçamento decorrente da mudança na idade das progressões por
parturição, como define Rios-Neto (2005). Refere-se simplesmente ao momento da
ocorrência do nascimento.
3. A exclusão das mulheres que tiveram o primeiro filho com menos de 15 anos
evita a presença de informações que possam distorcer nossos dados. Tomamos o
exemplo de uma mulher com 30 anos que se casou com um homem de 50; este tem seu
filho de 18 anos morando com a família. Nesse caso, para nossa pesquisa, essa
mulher teria tido esse filho aos 12 anos (quando, na verdade, ele é seu
enteado). Caso ela tenha um filho próprio de 2 anos, o intervalo intergenésico
do primeiro para o segundo filho dessa mulher seria de 16 anos. Se
acumulássemos muitos casos dessa natureza, nossos resultados estariam
equivocados. Evidentemente, nosso procedimento não impede que haja outros casos
de enteados que consideramos serem filhos, pois a diferença de idade em relação
à mulher é maior ou igual a 15 anos.
4. De maneira geral, as mulheres com informações completas são brancas, mais
jovens, possuem um nível mais alto de escolaridade, de renda e de ocupação, têm
menos filhos e residem nas regiões Sul-Sudeste. Já as mulheres com informações
incompletas são predominantemente negras, mais velhas, possuem um nível mais
baixo de educação, de renda e de ocupação, têm mais filhos e residem nas
regiões Norte-Nordeste.
5. É provável que as diferenças socioeconômicas ajudem a explicar a ausência
dos filhos no caso das mulheres de família incompleta. Como essas mulheres
apresentam uma situação econômica mais desfavorável, podemos esperar que, nesse
grupo, as taxas de mortalidade dos filhos sejam maiores e que a mobilidade dos
filhos na busca de oportunidades de emprego seja mais intensa.
6. A descrição completa dessa categorização pode ser encontrada em http://
www.mtecbo.gov.br.
7. Segundo Dias Júnior (2007), nos grupos mais qualificados (direção e
gerência, nível superior e técnico-administrativo), a estrutura etária é mais
envelhecida, com uma baixa proporção de negras. Em média, as trabalhadoras
nesses grupos possuem alto grau de escolaridade e de formalização das relações
de trabalho. Entre os grupos ocupacionais menos qualificados, observa-se uma
estrutura etária mais jovem, escolaridade e renda menores, uma jornada de
trabalho, em média, maior do que a jornada de trabalho das ocupações mais
qualificadas e baixo grau de formalização das relações de trabalho. Além disso,
esses grupos possuem um grande percentual de mulheres negras.
8. Destacamos que os dados longitudinais não resolvem totalmente a questão da
causalidade, pois os eventos podem não seguir a ordem inicial das escolhas
definidas pela mulher. Pode ocorrer um nascimento inesperado e/ou um nascimento
múltiplo, fazendo com que a mulher redefina suas estratégias profissionais (por
exemplo, o adiamento de um curso de especialização, a saída do mercado de
trabalho, a redução da jornada de trabalho, entre outras escolhas). Da mesma
maneira, uma promoção inesperada no serviço, bem como a possibilidade de se
aperfeiçoar profissionalmente, pode fazer com que a mulher adie a maternidade.
Ou seja, esses eventos podem influenciar a ordem das escolhas previstas pelas
mulheres.
9. De acordo com Pazello (2004), a utilização de variáveis instrumentais para o
estudo da fecundidade e do mercado de trabalho é complicada, uma vez que não
temos variáveis que se correlacionam apenas com a fecundidade, e não com a
participação da mulher no mercado de trabalho.
10. O nível de reposição é o nível de fecundidade no qual uma coorte de
mulheres tem o número de filhos suficiente para recompor a si mesma na
população. Normalmente esse valor é de 2,1 filhos por mulher.