Do Brasil colônia de ontem ao Brasil nação de amanhã: "revolução da
independência" e história do Brasil em Caio Prado Jr.
Em prefácio à primeira edição de Evolução Política do Brasil1, seu livro de
estréia como historiador, em 1933, Caio Prado Jr. procura justificar os motivos
de sua opção por escrever um "simples ensaio" em lugar de uma "história
completa" (EPB:7). Uma das razões, segundo o autor, estaria no fato de que a
elaboração de uma "história completa" exigiria a reunião de informações ainda
não disponíveis, já que os historiadores tenderiam a se dedicar exclusivamente
à "superfície dos acontecimentos" (EPB:7), ignorando "o que se passa no íntimo
da nossa história de que estes acontecimentos não são senão um reflexo
exterior" (EPB:8). Uma abordagem que voltasse sua atenção para esse "íntimo da
nossa história" era o que pretendia aquele "simples ensaio" e, para tanto,
informa-nos, recorria a "um método relativamente novo", à "interpretação
materialista" (EPB:7). Enfim, o que o leitor tinha em mãos era um "ensaio de
interpretação materialista da história brasileira"2.
No entanto, para além de uma rápida observação sobre a necessidade de ir além
de uma história das classes dirigentes (EPB:8), Caio Prado Jr. não oferece uma
indicação mais precisa sobre o que seria a "relativa novidade" do método
empregado em Evolução Política do Brasil. Na verdade, seja nesse livro, seja em
suas obras posteriores sobre a história brasileira - Formação do Brasil
Contemporâneo: Colônia (1942) e História Econômica do Brasil (1945), não
encontramos muitos elementos para responder a essa indagação. Discretos quanto
aos problemas de fundo teórico ou metodológico, esses textos privilegiam a
análise documental e as referências de cunho historiográfico, e apresentam um
uso relativamente restrito do aparato conceitual do marxismo3.
Isso não significa, naturalmente, que a "interpretação materialista" prometida
em 1933 tenha ficado no mero anúncio. Uma leitura atenta de suas obras
históricas poderia revelar-nos alguns dos elementos que organizam essa
interpretação. Para efeito de exposição, recupero algumas formulações contidas
em A Revolução Brasileira que permitam expor, de maneira até certo ponto
esquemática, traços gerais dessa "interpretação materialista", tal como se
apresenta nos principais textos históricos de Caio Prado Jr. Adianto, desde já,
que, ao discutir a natureza da interpretação materialista da história em Caio
Prado Jr., não estou preocupado em avaliar a correção de sua abordagem ou a
especificidade de sua apropriação do marxismo para pensar a realidade do
Brasil4. O objetivo deste artigo é ao mesmo tempo mais modesto e diferente:
tenho em vista prioritariamente a imagem da história brasileira que se elabora
em seus textos. Pretendo sublinhar alguns dos elementos que estruturam sua
análise sobre a formação histórica do país, articulando-os a seu diálogo com o
pensamento marxista. Desse modo, insisto, A Revolução Brasileira oferece
algumas fórmulas sintéticas e convenientes que, em seu relativo esquematismo,
podem servir como ponto de partida para a discussão do meu problema5.
São três os pontos que gostaria de destacar. Comecemos por uma observação de
Caio Prado Jr. sobre o que seria a novidade do "método dialético":
o que precisamente o marxismo, com seu método dialético, introduziu
de novo na análise e interpretação históricas [...] é a explicação
dos fatos e das situações históricas pela emergência progressiva
deles dentro de um processo em permanente devenir, e se projetando
assim para o futuro numa perpétua renovação. Isto é, sem repetir o
passado, ou melhor, sem se modelar segundo formas e circunstâncias
pré-fixadas (RB:34, ênfase no original).
É preciso não esquecer o contexto da polêmica em que essa observação está
inserida: a abordagem de Caio Prado Jr. sobre a novidade da interpretação
marxista da história tem como alvo o determinismo que, a seu ver, orientava a
interpretação do Partido Comunista Brasileiro - PCB sobre a história
brasileira. Para o autor, esta última deveria ser abordada a partir de sua
especificidade, evitando reduzir as trajetórias das diferentes sociedades a um
esquema predefinido e universalizável. Seria, portanto, necessário considerar a
história de cada sociedade a partir das circunstâncias particulares que
presidiram sua formação e que permitiriam analisar o presente como parte de um
processo que remonta ao passado e se projeta no futuro. No entanto, interessa-
me menos destacar as importantes divergências entre Caio Prado Jr. e seus
adversários do que o solo comum a ambos. A polêmica que sustenta em A Revolução
Brasileira parte de uma premissa que, no final das contas, é partilhada pelos
dois lados: a concepção de que o acontecer histórico possui a natureza de um
processo. Sua crítica se dirige à forma como esse processo é concebido, mas não
à própria idéia de processo. Ou seja, põe em questão o ponto de vista
apriorístico, abstrato - uma "teorização às avessas que vai dos conceitos aos
fatos, e não inversamente desses fatos aos conceitos" (RB:29) -, mas continua a
pressupor que os eventos individuais só podem ser compreendidos como parte de
um acontecer global, no qual eles ganham sua razão de ser. Nas palavras do
próprio autor, "considerados dialeticamente, os fatos sociais somente têm
significação como componentes de processo; e assim, como resultantes de um
passado onde se elaboram suas premissas, e como elementos dinâmicos que se
projetam para o futuro" (RB:81, ênfase no original).
Se os trechos citados são expressivos da filiação de Caio Prado Jr. à noção de
história como processo, são ainda muito pouco esclarecedores de seu
entendimento do "método dialético". A noção de processo histórico não é
exclusiva da tradição marxista, muito menos encontrou nela sua primeira
formulação, mas, como assinala Hannah Arendt (1979), é própria do conceito
moderno de história6. Cabe, por isso, uma pergunta: como Caio Prado Jr.
caracteriza a natureza do processo histórico? Nesse ponto, um novo trecho de A
Revolução Brasileira pode nos ajudar:
[as] contradições através de que se desenrola o processo histórico-
social [...] se caracterizam pela eclosão, no interior de qualquer
situação, e em função dela mesmo e como seu contrário, de uma
situação distinta que tende a eliminá-la. É na superação dessas
contradições, isto é, pela eliminação dos contrários e conflitantes
que nelas ocorrem, e sua síntese, que reside o dinamismo dos
processos histórico-sociais, e que se situam as forças internas que
impelem o curso dos acontecimentos que fazem a trama da história"
(RB:134).
Se nos trechos inicialmente citados o conceito de história era identificado à
noção de processo, agora é a natureza mesma desse processo que está em jogo.
Não é difícil reconhecer aqui as linhas gerais da concepção de Hegel,
reapropriada por Marx, da progressão dialética da história. O "dinamismo dos
processos histórico-sociais" é impulsionado por contradições surgidas no seio
de uma determinada conjuntura. Da solução de tais contradições, de "sua
síntese", nutrir-se-ia o movimento histórico. Dessa forma, a compreensão dos
fatos sociais implicaria não apenas sua inserção no interior de um processo mas
também o reconhecimento da estrutura contraditória do acontecer, a afirmação do
"caráter negativo da realidade" (Marcuse, 1978:285). É pela negação da negação
que a história avança.
Contudo, se me limitasse a esses dois pontos, estaria ignorando um dos
ingredientes centrais da novidade que Caio Prado Jr., em 1933, reivindicava
para sua interpretação da história brasileira: seu caráter materialista. É
preciso, portanto, acrescentar mais um elemento: a afirmação de que o
fundamento material do desenrolar do processo histórico se encontra na esfera
da vida econômica. Ali estariam bases do movimento contraditório da história.
Dessa forma, a economia se torna, em Caio Prado Jr., assim como em Marx, o
ponto de partida para a análise da história. É preciso partir da organização
econômica para, em seguida, compreender o conjunto da organização social que
tem nela seu fundamento. Como observa o historiador, "a estrutura de classe de
uma sociedade e a natureza e a hierarquia de suas classes e categorias sociais
refletem sempre a organização econômica que lhes serve de base" (RB:103). Uma
leitura atenta de seus trabalhos históricos confirmaria essa perspectiva para
outros aspectos da organização social.
Ao destacar esses três aspectos gerais da "interpretação materialista da
história" proposta por Caio Prado Jr. - história como processo que se desenrola
de forma contraditória e cujo fundamento se encontra na esfera da vida
econômica -, minha pretensão não é, como disse antes, a exaustão. Os três
pontos mencionados me interessam prioritariamente de um ponto de vista
heurístico: podem servir de balizas para a discussão sobre a imagem da história
brasileira que Caio Prado Jr. apresenta em seus textos. Nesse sentido, acredito
que sua análise sobre a "revolução da Independência" (EPB:9) oferece uma porta
de entrada privilegiada para a abordagem dessa questão.
Com efeito, o episódio da Independência constitui, para o autor, "o primeiro
grande acontecimento de conjunto" (FBC:357) de uma série de transformações
desencadeadas pela "decomposição do sistema colonial" (FBC:357). Essa
decomposição se manifesta sob a forma de um "mal-estar econômico e social"
(FBC:356), no qual um olhar atento poderia reconhecer retrospectivamente a
"realidade que vai por baixo" (FBC:358), os "germes de autodestruição" (FBC:
357) e as "forças renovadoras" (FBC:357), que "indicam uma situação de conjunto
nova" (FBC:357). Para Caio Prado Jr., a "origem de tais 'forças', que se
manifestam exteriormente sobretudo por aquele mal-estar generalizado", deve ser
buscada no "mais íntimo da sociedade colonial", em sua "infra-estrutura
econômica" (FBC:358-359). Em resumo, com a Independência, vem "à tona dos
acontecimentos" (FBC:365) um processo mais amplo cuja compreensão exige ter em
vista "as contradições profundas do sistema colonial, donde brotam os conflitos
que agitam a sociedade, e donde brotará também a síntese que porá termo a tais
conflitos, fazendo surgir um novo sistema em substituição ao anterior" (FBC:
366).
Na Independência, portanto, o que se torna patente é a dinâmica da negação,
graças à qual seria possível apreender "o fio condutor [...] na complexidade
dos fatos" (FBC:358). Ainda assim, cabe perguntar: em que consiste esse
processo de negação da ordem colonial de que a Independência seria apenas uma
manifestação de superfície?
Estruturada como uma empresa mercantil destinada a fornecer produtos
comercializáveis no mercado exterior, a colonização, segundo Caio Prado Jr., é
antes de tudo um "negócio" (FBC:32). Trata-se de "um capítulo da história do
comércio europeu" (FBC:22), um desdobramento da expansão marítima e mercantil
européia do fim do século XV. Ocupação e povoamento dos trópicos foram o
resultado da tentativa de tornar as terras descobertas interessantes do ponto
de vista comercial. Voltada para fora, a exploração econômica das possessões
ibéricas no Novo Mundo vai se estruturar com o objetivo de produzir gêneros
tropicais ou minerais de grande aceitação no comércio exterior. Tal é o
"sentido da colonização" (FBC, cap. 1), e é ele que vai explicar as bases sobre
as quais se organiza a economia da colônia. Esta gira em torno da "grande
unidade produtora, seja agrícola, mineradora ou extrativa" (FBC:124), a qual
alia uma estrutura específica de propriedade a um sistema de organização e
exploração de mão-de-obra. A terra será explorada no regime de grande
propriedade, em que uma ampla faixa de terra estará a serviço do aproveitamento
extensivo de suas potencialidades econômicas. Na agricultura, o resultado será
o latifúndio agroexportador baseado na monocultura. Quanto ao sistema de
exploração de mão-de-obra, o trabalho na colônia será essencialmente escravo,
congregando um grande número de indivíduos sob o controle de um empresário. Daí
resultará o caráter fortemente concentrador desse sistema econômico. Podem-se
observar variações aqui e acolá, mas em sua essência o quadro sempre será o
mesmo:
de um lado, na sua estrutura, um organismo meramente produtor, e
constituído só para isto: um pequeno número de empresários e
dirigentes que senhoreiam tudo, e a grande massa da população que lhe
serve de mão-de-obra. Doutro lado, no funcionamento, um fornecedor do
comércio internacional dos gêneros que este reclama e de que ela
dispõe. Finalmente, na sua evolução, e como conseqüência daquelas
feições, a exploração extensiva e simplesmente especuladora, instável
no tempo e no espaço, dos recursos naturais do país (FBC:129, ênfases
no original).
Como resultado, temos uma organização econômica que "não constitui a infra-
estrutura própria de uma população que nela se apóia, e destinada a mantê-la"
(FBC:128). Em lugar disso, essa população se torna apenas "o elemento
propulsor" (FBC:128) de um "mecanismo" (FBC:128) cujas finalidades lhe são
estranhas. Fundada na grande unidade produtora, baseada na exploração de mão-
de-obra escrava e voltada para a produção de gêneros comercializáveis no
mercado exterior, a economia colonial, segundo Caio Prado Jr., não foi capaz de
dar origem a uma estrutura social complexa e integrada. Pelo contrário, "a
sociedade colonial se definirá antes pela desagregação, pelas forças
dispersivas" (FBC:345). Dessa forma, na análise de Caio Prado Jr., a estrutura
da ordem social da colônia apresentar-se-á cindida em dois núcleos,
correspondentes, em sua essência, aos dois setores que compõem a economia. De
um lado, o núcleo organizado da sociedade; de outro, o núcleo inorgânico. Este
é o resultado do setor de subsistência da economia, voltado para o mercado
interno; aquele deriva do setor principal da economia, o de exportação, no qual
predomina o trabalho escravo7. A feição da sociedade colonial será
profundamente marcada por essa dualidade. Nos pólos extremos, estão os grupos
sociais que se originam do setor organizado da economia: senhores e escravos.
Seu vínculo é com a atividade produtiva voltada para o mercado externo: "Entre
estas duas categorias nitidamente definidas e entrosadas na obra da colonização
comprime-se o número, que vai avultando com o tempo, dos desclassificados, dos
inúteis, dos inadaptados" (FBC:281). Esse grupo, estabelecido à margem do
aparelho produtivo direcionado para a exportação, constitui, aos olhos de Caio
Prado Jr., "o fator da futura nacionalidade" (Dias, 1989:385). Sua
característica fundamental, no entanto, é - como o trecho citado anteriormente
deixa entrever - a desestruturação. Caio Prado Jr. multiplica as expressões que
buscam sublinhar o caráter problemático desse setor da sociedade: inutilidade,
embrutecimento, degradação, desocupação, instabilidade, marginalidade,
desamparo, desenraizamento, incoerência. Seus componentes se tornam, no final
das contas, "resíduos sociais inaproveitáveis" (FBC:285), que, simultaneamente,
resultam do funcionamento do "mecanismo" da economia colonial e não se
enquadram em suas engrenagens. Nas palavras do historiador,
em suma, a escravidão e as relações que dela derivam, se bem que
constituam a base do único setor organizado da sociedade colonial
[...], não frutificam numa superestrutura ampla e complexa. Serviram
apenas para momentaneamente conservar o nexo social na colônia. No
outro setor dela, o que se mantém à margem da escravidão, a situação
se apresenta em certo sentido pior. A inorganização é aí a regra
[...].
É isto, em resumo, que o observador encontrará de essencial na
sociedade da colônia: de um lado uma organização estéril no que diz
respeito às relações sociais de nível superior; doutro, um estado, ou
antes um processo de desagregação mais ou menos adiantado, conforme o
caso, resultante ou reflexo do primeiro, e que se alastra
progressivamente. (FBC:344).
Como o próprio Caio Prado Jr. faz questão de observar, o quadro que nos
apresenta do sistema colonial não se restringe a uma descrição dos mecanismos
políticos e administrativos que constituem o regime de subordinação da colônia
em face da metrópole. Para o autor, a idéia de sistema colonial teria um
conteúdo mais amplo, consistindo "no conjunto de caracteres e elementos
econômicos, sociais e políticos que constituem a obra aqui realizada: pela
colonização" (FBC:358). Dessa forma, integrada no conjunto do sistema colonial,
a sociedade colonial não pode ser completamente distinguida dele: à base
econômica fundada na grande unidade produtora voltada para exportação
corresponde uma ordem social precária e desconexa, em uma "ausência quase
completa de superestrutura" (FBC:342). Como vimos, é justamente na crise do
sistema colonial que Caio Prado Jr. localiza as "raízes profundas" (FBC:356) do
processo de independência. No final do século XVIII, a progressiva desagregação
desse sistema e as contradições daí resultantes são o resultado do esgotamento
das estruturas que haviam sido geradas pelo processo de colonização. As
contradições surgem do fato de que essas estruturas, que se haviam constituído
para a exploração econômica do Novo Mundo, agora se revelavam insuficientes
para dar conta de novas necessidades que o próprio desenrolar da atividade
colonizadora produzira:
[...] o sistema de colonização adotado no Brasil, o nosso "sistema
colonial", depois de ter produzido durante três séculos frutos
apreciáveis que contrabalançavam o negativo da sua feição, tocara o
extremo da sua evolução, pelo menos em alguns e principais de seus
aspetos, e a curva que desenhara na História começava a infletir
decididamente para baixo, para sua consumação. Esgotara as suas
possibilidades, e seria necessariamente substituído por outro (FBC:
360).
Podemos dar um passo adiante. A decomposição do sistema colonial - de que
falava há pouco - é, diz-nos Caio Prado Jr., o resultado do esgotamento de suas
possibilidades históricas. As razões dessa exaustão já sabemos: devem ser
buscadas na base econômica da sociedade. Em Evolução Política do Brasil, o
historiador interpretava esse processo de desgaste como fruto de uma
inadequação entre infra e superestrutura, como o resultado da contradição
crescente entre o desenvolvimento econômico alcançado pela colônia e a
preservação de sua subordinação à metrópole. A partir da segunda metade do
século XVII, interesses coloniais e metropolitanos, que inicialmente
concordavam entre si, começam a se diferenciar de forma cada vez mais
explícita: "Revela-se então a contradição fundamental que minava o regime:
interesses nacionais e portugueses díspares" (EPB:33). Segundo Caio Prado Jr.,
os principais grupos portadores desses interesses contrapostos são, por um
lado, os proprietários rurais brasileiros, por outro, os comerciantes
portugueses. Não creio ser preciso me prolongar sobre esse ponto detalhando a
natureza desses conflitos e de seus desdobramentos. Basta-me assinalar que,
nesse caso, a estrutura conceitual de sua análise corresponde, em linhas
gerais, ao esquema que Marx apresenta no prefácio ao livro Para a Crítica da
Economia Política, no qual aborda o problema da mudança social e da revolução.
Trata-se, para Caio Prado Jr., de um processo desencadeado pelo desenvolvimento
das forças produtivas e por seu choque com as estruturas políticas da ordem
colonial. Em 1933, sua interpretação da "revolução da Independência" insiste na
idéia de que
a emancipação política do Brasil resultou do desenvolvimento
econômico do país, incompatível com o regime de colônia que o peava,
e que por conseguinte, sob sua pressão, tinha de ceder. Em outras
palavras, é a superestrutura política do Brasil-Colônia que, já não
correspondendo ao estado das forças produtivas e à infra-estrutura
econômica do país, se rompe para dar lugar a outras formas mais
adequadas às novas condições econômicas e capazes de conter a sua
evolução (EPB:52)8.
Ainda que em Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Jr. faça referência à
análise desenvolvida em Evolução Política do Brasil sobre as oposições entre
comerciantes e proprietários, o pano de fundo de sua abordagem sobre esses
conflitos sofre uma sensível alteração9. No último capítulo daquele livro, a
crise do sistema colonial não se apresenta como resultado do desenvolvimento da
base econômica da sociedade. Sua posição é bem mais complexa, e Caio Prado Jr.
de certa maneira inverte o argumento. Em lugar de atribuir ao desenvolvimento
das forças produtivas da colônia a causa das contradições que minam o sistema
colonial, ele vai buscar a explicação nas insuficiências da economia colonial.
Também aqui o segredo da desagregação do sistema colonial deve ser procurado na
infra-estrutura. Só que, dessa vez, não mais em seu desenvolvimento, mas em
suas limitações. A crise do sistema colonial tornaria evidentes os "vícios
profundos e orgânicos" (FBC:356) de uma "economia constituída na base da
exploração, e exploração precipitada e extensiva dos recursos naturais" (FBC:
359). Segundo Caio Prado Jr.,
tal base com o desenvolvimento da população, com o concurso de outros
fatores vários, se torna através do tempo, restrita e incapaz de
sustentar a estrutura que sobre ela se formara. Suficiente no início,
e ainda por muito tempo para prover aos fins precípuos da colonização
- a ocupação do território, o aproveitamento dele com relativo
equilíbrio econômico e social; para promover, enfim, o progresso das
forças produtivas -, aquela base acabou por se tornar insuficiente
para manter a estrutura social que sobre ela se constituíra e
desenvolvera (FBC:359).
Apesar da referência ao tema das forças produtivas nesse trecho, Caio Prado
Jr., na seqüência de sua análise, não insiste, como era o caso em Evolução
Política do Brasil, na idéia de obstáculos à continuidade do desenvolvimento
econômico impostos pela manutenção do regime de colônia. Basta considerar a
oposição, que se mantém central no texto de 1942, entre comerciantes e
proprietários rurais: aparece agora como fruto "das condições de uma economia
débil, mal estruturada e conduzida, e visceralmente ligada a um mercado
exterior precário e incerto" (FBC:366). Curiosamente, o esgotamento da economia
colonial parece se resumir na radicalização daqueles "vícios profundos e
orgânicos" do sistema de exploração econômica dominante, sem que o leitor
consiga identificar as forças de negação que anunciariam uma futura síntese e a
"situação de conjunto nova" de que nos fala o autor. No final do século XVIII,
o quadro seria de quase "desagregação completa, se não paralisação da vida do
país" (FBC:359). Os recursos necessários à manutenção da sociedade estariam se
tornando cada vez mais limitados em virtude do "estado a que se reduzira o
acervo material do território" (FBC:359). A natureza predatória da exploração
dos recursos naturais teria "já quase esterilizado as fontes mais acessíveis de
riqueza" (FBC:359). Ao mesmo tempo, dado fundamental, ao longo dos séculos
teria ocorrido um aumento significativo da massa de desajustados e
desclassificados, da massa livre da população que vivia à margem da ordem
social e sem lugar no aparelho produtivo exportador. Segundo Caio Prado Jr.,
"enquanto houve apenas senhores e escravos, e é o que se dá no início da
colonização, tudo ia bem" (FBC:360). No entanto, o crescimento numérico dessa
"massa deslocada, indefinida, mal enquadrada na ordem social, e na realidade
produto e vítima dela" (FBC:285) seria inevitável, agravando-se ainda mais no
final do século XVIII, a ponto de se tornar "catastrófico" (FBC:286)10. Com
isso, diz-nos o historiador, "o desequilíbrio era fatal" (FBC:360).
Como disse há pouco, inverte-se o argumento, já que é a base econômica do
sistema colonial que constitui obstáculo à manutenção da ordem social montada
sobre ela. Nesse caso, "o processo revolucionário que agitava a colônia" (FBC:
368), embora se nutra de contradições que têm seu fundamento na infra-estrutura
econômica, não resulta de seu progresso, mas de suas limitações. Resulta do
"desequilíbrio fatal" decorrente de sua incapacidade de suportar uma estrutura
social que ela mesma criara, mas cujo crescimento não tinha mais condições de
manter. A crise do sistema colonial põe em evidência as insuficiências e os
impasses de uma economia que, como vimos anteriormente, "não constitui a infra-
estrutura própria de uma população que nela se apóia" (FBC:128). Uma economia
que, orientada pelas oscilações do mercado externo, cada vez mais impotente
para atender satisfatoriamente às necessidades internas que ela mesma
originara, conduz a sociedade a um estado de "estagnação" (FBC:349).
Nesse ponto, chegamos a um problema central para a compreensão da "revolução da
Independência" e, ao que me parece, da obra histórica de Caio Prado Jr.
Surpreendentemente, o movimento que conduz à Independência não traz consigo uma
transformação da infra-estrutura econômica do sistema colonial. Apesar disso, o
historiador insiste na idéia de que o processo emancipatório assinala
uma nova fase bem caracterizada em nossa evolução econômica. Embora
se conserve a estrutura anterior e fundamental que presidiu à
formação e evolução colonial anterior (isto é, um organismo econômico
primário, destinado a produzir alguns gêneros tropicais para o
comércio internacional), entramos então nitidamente num período
diferente do anterior (HEB:149-150).
Cabem algumas perguntas: em que consiste essa nova fase? Ela representa apenas
uma ruptura com as estruturas jurídico-políticas do pacto colonial? Se for esse
o caso, em que medida ainda se pode falar de uma "revolução da Independência"?
Talvez seja interessante voltar a discutir o capítulo "O Sentido da
Colonização", que abre o livro Formação do Brasil Contemporâneo, para responder
a essas questões. Esse texto lança as bases da interpretação da história
brasileira feita por Caio Prado Jr., e não apenas o esquema de sua análise da
sociedade colonial. Nesse sentido, é de importância central para se entender
como Caio Prado Jr. aplica sua compreensão do "método dialético" à história
nacional. Acredito que a partir dele seja possível pensar como se articulam os
três eixos em função dos quais procurei esquematizar sua proposta de uma
"interpretação materialista" da história.
O primeiro ponto a ser considerado é a própria noção de sentido que Caio Prado
Jr. emprega. A idéia de sentido no texto pode, por um lado, ser vista como
direção. Nesse caso, o sentido da colonização refere-se à orientação da empresa
colonial, que, movida por interesses puramente mercantis, estabelece nos
trópicos um "negócio" cujo objetivo é atender o comércio internacional. Como
observa Caio Prado Jr., "é com tal objetivo exterior, voltado para fora do país
e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que
se organizarão a sociedade e a economia brasileiras" (FBC:32, ênfases do
autor).
Por outro lado, a noção de sentido comporta outra interpretação, permitindo a
análise da história colonial como um processo dotado de significado. Ou seja, o
sentido apresenta-se como uma totalidade significativa em que se insere o
conjunto dos fatos que comporiam a história colonial. Isso porque
todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo "sentido".
Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto
dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo
período de tempo. Quem observa aquele conjunto, desbastando-o do
cipoal de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem
muitas vezes confuso e incompreensível, não deixará de perceber que
ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que
se sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa determinada
orientação [...]. É isto que se deve, antes de mais nada, procurar
quando se aborda a análise da história de um povo [...], porque todos
os momentos e aspectos não são senão partes, por si só incompletas,
de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador (FBC:
19).
Assim, a história da colônia apresenta-se como um processo cujo sentido
(significado) está estreitamente vinculado ao sentido (direção) da empresa
colonial. A colônia, portanto, é o resultado de um empreendimento mercantil
voltado para o atendimento do mercado exterior. A noção de sentido em Caio
Prado Jr. não constitui uma teleologia; não implica a idéia de um processo que
caminha para um fim que está estabelecido desde o começo e que torna
compreensível todo o seu desenrolar. O todo significativo que o sentido permite
estabelecer não deriva de um fim presente já na origem, mas sim da concatenação
de fatos e eventos históricos em um processo orientado do qual retiram seu
significado. Eis por que tal sentido pode ser negado.
Como observa Caio Prado Jr., "não sofremos nenhuma descontinuidade no correr da
história da colônia" (FBC:20). O sentido desta última permanece inalterado até
o fim do século XVIII e início do século XIX, quando o sistema colonial começa
a dar sinais de esgotamento. Abre-se, então, a possibilidade de negação do
sentido; e é justamente a partir dessa idéia de negação do sentido da
colonização - ou seja, a partir da negação da direção e do conseqüente
significado assumidos pelo processo histórico da colonização - que Caio Prado
Jr. vai conceber a história brasileira como um processo que se desenrola
contraditoriamente. Tal processo se desenvolve a partir de uma contradição
fundamental que não teria sido resolvida até os dias atuais. Segundo o
historiador, "este início, cujo caráter manter-se-á dominante através dos
séculos da formação brasileira, gravar-se-á profunda e totalmente nas feições e
na vida do país. Particularmente na sua estrutura econômica. E prolongar-se-á
até nossos dias, em que apenas começamos a livrar-nos deste longo passado
colonial" (HEB:22).
Sendo assim, as contradições que marcariam a história brasileira dispor-se-iam
em círculos concêntricos em relação a uma contradição fundamental e de natureza
originária: aquela que deriva do choque entre o sentido da colonização e sua
negação. A negação da negação ainda estaria por ser concluída.
Tocamos, com isso, o terceiro ponto. A contradição básica subjacente ao
processo através do qual a história brasileira vai se desenvolver a partir do
século XIX tem seu fundamento na infra-estrutura econômica. O principal
resultado da colonização - aquele que, como observado anteriormente, "gravar-
se-á profunda e totalmente nas feições e na vida do país" - foi a constituição
de uma economia colonial que se mantém, apesar das variações, como uma
constante ao longo do tempo. Trata-se de "uma economia de exportação,
constituída para o fim de fornecer gêneros alimentícios e matérias-primas
tropicais aos países e populações das regiões temperadas da Europa e mais tarde
também da América" (HEB:297). Nela se encontra a base material do sentido da
história colonial, ao mesmo tempo que tem sua origem no sentido da colonização.
Por oposição a essa economia colonial e como conseqüência de seu próprio
desenvolvimento, a história brasileira registraria a formação gradual e
acidentada de sua antípoda, a economia nacional. Esta significaria "a
organização da produção em função das necessidades próprias da população que
dela participa" (HEB:297). A primeira é direcionada para o mercado externo; a
segunda, voltada para o mercado interno, representa o fundamento de uma
nacionalidade orgânica e autônoma. O choque entre esses dois modelos de
organização econômica constitui a contradição profunda, para usar um adjetivo
caro a Caio Prado Jr., da qual deriva força interna ao processo histórico
brasileiro. Segundo o autor, é "do jogo das contradições entre o passado
colonial, que resiste, e as forças de renovação, que impulsionam o país por
novos rumos, que resulta o processamento de nossa evolução econômica" (HEB:
326).
As duas categorias - economia colonial e economia nacional -, espero que esteja
claro, não possuem um caráter apenas descritivo. Cada uma se define em
contraposição à outra, e ambas oscilam entre os pontos de vista analítico e
normativo11. Elas implicam não só um esforço de compreensão factual do curso da
história brasileira mas também um posicionamento político em relação a esse
acontecer. Na verdade, essa oscilação está diretamente associada ao fato de as
duas noções darem voz a um problema central da reflexão de Caio Prado Jr. sobre
o Brasil: o desencontro da sociedade brasileira consigo mesma, decorrente de
seu passado colonial. Esse desencontro relegaria a maior parte da população do
país a uma condição de mero instrumento ou, o que seria pior, de simples
resíduo amorfo de uma ordem que lhe é estranha. A permanência do passado
colonial com seu "sentido" implicaria uma espécie de alienação da sociedade em
relação a seus destinos, a impotência política da grande massa da população e a
manutenção de um estado de desarticulação interna da existência coletiva.
São essas mesmas questões que orientarão o corte temporal que Caio Prado Jr.
estabelece na história brasileira dividindo-a em dois grandes períodos. Em
Evolução Política do Brasil, esse corte parece ocorrer na segunda metade do
século XVII. Já em Formação do Brasil Contemporâneo, o marco temporal está no
fim do século XVIII e início do século XIX. No entanto, não são as diferenças
que importam, mas sim o critério que preside a periodização em ambos os casos.
Essa divisão da história brasileira define dois períodos qualitativamente
diferentes. No primeiro, a história colonial propriamente dita, temos um corpo
social precariamente constituído, carente de vida própria, "uma feitoria da
Europa, um simples fornecedor de produtos tropicais para seu comércio" (FBC:
127). Caio Prado Jr. aborda esse primeiro período de uma forma puramente
descritiva das condições de vida existentes. Sua narrativa, de certo modo,
congela o movimento dessa sociedade, não sendo assinalado qualquer evento que
seja fruto do dinamismo interno da existência coletiva. Como observa Dias
(1989:389), em Formação do Brasil Contemporâneo, essa narrativa é organizada
segundo dois grandes eixos, no interior dos quais os diferentes capítulos do
livro podem ser enquadrados. Em primeiro lugar, o "eixo da dependência
colonial" (ibidem): somos apresentados às estruturas do sistema colonial e ao
movimento de sua contínua reiteração que imobiliza o dinamismo da vida social.
No segundo eixo, o da "formação da nacionalidade brasileira" (ibidem:390),
observamos o desenvolvimento de possibilidades de organização da vida econômica
e social que se desenvolvem à margem da ordem colonial dominante e como uma
alternativa a ela. Embora esses dois eixos sejam pensados "em uma relação de
permanente oposição estrutural" (ibidem:389), não parece resultar das formas de
vida que descrevem nenhuma contradição verdadeiramente significativa. Isso
porque tudo aquilo que se refere a um "caráter mais estável, permanente,
orgânico, de uma sociedade própria e definida, só se revelará aos poucos,
dominado e abafado que é pelo que o precede, e que continuará mantendo a
primazia e ditando os traços essenciais da nossa evolução colonial" (FBC:31).
História quase sem contradições, que parece transcorrer no espaço, mas não no
tempo, à qual corresponde, como disse, uma apresentação fundamentalmente
descritiva e, por assim dizer, em paralelo das bases da ordem colonial e das
formas de vida alternativas sufocadas por ela. Ou, caso se prefira, história
que parece ser presa de um tempo cíclico, em que a repetição do passado
seqüestra as possibilidades de renovação do presente. Tal é o tempo da economia
colonial, marcado por uma "evolução cíclica" (FBC:127), retornando
obsessivamente, apesar das variações, ao mesmo roteiro de desenvolvimento. Essa
evolução traz consigo "a repetição no tempo e no espaço de pequenas e curtas
empresas de maior ou menor sucesso" (FBC:128); empresas que evoluem "por
arrancos, em que se assiste ao progresso e ao aniquilamento de cada uma e de
todas as áreas povoadas e exploradas do país" (FBC:128). O resultado final é
sempre o mesmo: "farrapos de uma pequena parcela de humanidade em decomposição"
(FBC: 128). Isso porque se trata de uma ordem econômica que "não conta com
forças próprias e existência autônoma" (FBC:128), desenvolvendo-se ao sabor das
oscilações e dos humores da conjuntura que lhe é exterior. Para se libertar de
seu próprio passado, para romper com a inércia de uma temporalidade da
repetição, a sociedade brasileira teria de definir um centro próprio, que não
estivesse a reboque de uma dinâmica externa.
O segundo período constitui o que se poderia chamar de história do Brasil
contemporâneo. Nessa fase, o quadro se altera: "Aquilo que a colonização
realizara, aquele 'organismo social completo e distinto' constituído no período
anterior, começa a se transformar" (FBC, introdução:10). Com a crise do sistema
colonial e o processo de independência, começa a se desdobrar uma realidade
social dinâmica, marcada por um movimento próprio, e o processo histórico
apresenta-se pontuado por eventos significativos. As tendências contraditórias
do desenvolvimento histórico brasileiro, que permaneciam abafadas pelo
"ambiente asfixiante" (FBC:285) gerado pelo predomínio inconteste do sentido da
colonização, afloram "à tona dos acontecimentos". História repleta de
contradições que resultam do choque entre um passado que teima em se manter
vivo e um futuro por se concluir. Como palco desse conflito, um presente em
transformação, ainda impregnado de "passado, aquele passado colonial que [...]
aí ainda está" (FBC, introdução:10-11), mas cheio de promessas de futuro.
Assim, o Brasil contemporâneo apresenta-se como "um organismo em franca e ativa
transformação e que não se sedimentou ainda em linhas definidas; que não 'tomou
forma'" (FBC, introdução:11).
Nesse quadro, torna-se possível compreender o significado da "revolução da
Independência". Ela se situa no interior do processo que marca a transição da
história colonial para a história do Brasil contemporâneo e representa o "ponto
de partida apenas, início de um longo processo histórico que se prolonga até os
nossos dias e que ainda não está terminado" (FBC, introdução:10). Fruto da
própria desagregação do sistema colonial, o processo de emancipação coloca-se
como marco de uma nova fase de nossa evolução econômica e social. A ruptura com
a subordinação colonial e a formação de um Estado nacional independente trazem
consigo a possibilidade de que a sociedade brasileira possa, daí em diante,
estruturar-se segundo uma orientação própria; a possibilidade, enfim, do
desenvolvimento de uma economia nacional. Este é o sentido da Independência
como uma revolução: ainda que a partir dela não se observe uma transformação da
base econômica herdada da colônia, ela está na origem da contradição
fundamental que vai alimentar o dinamismo da história subseqüente. Nos termos
do próprio Caio Prado Jr.:
É aliás na base das contradições geradas por aquela estrutura [a
economia colonial] na nova situação e ordem para ela criados que
evoluirão os acontecimentos. Existe um desacordo fundamental entre o
sistema econômico legado pela colônia e as novas necessidades de uma
nação livre e politicamente emancipada. Todos os desajustamentos que
passamos em revista não são mais, em última instância, que reflexos e
resultantes daquela contradição básica. Ela nos levará a uma evolução
também contraditória (HEB:150).
Não é, portanto, uma transformação da economia que está na base da revolução,
mas a revolução que está na origem de uma transformação da economia. Como
resultado da Independência se abre a possibilidade de uma modificação da base
econômica, que, em vez de se concretizar de imediato, se desdobra em um
processo contraditório, ainda por concluir. A Independência não seria apenas a
superação de um estatuto jurídico-político associado ao regime de colônia. Mais
do que isso: significaria uma primeira ruptura com o sistema colonial, criando,
desse modo, condições para a construção de uma nacionalidade orgânica e
autônoma por meio da reestruturação e reorientação da economia. Somente uma
economia nacional permitiria erguer "a massa da população brasileira do simples
estatuto de instrumento de trabalho e produção a serviço da imprensa mercantil
aqui instalada pela colonização, para o plano de uma coletividade nacionalmente
integrada e organizada" (RB:137).
Se entendemos a "revolução da Independência" fundamentalmente como um processo
de transformação na infra-estrutura da sociedade colonial, em que a economia
colonial começaria a ceder lugar a uma economia nacional, esse processo, no
entender de Caio Prado Jr., permanece incompleto. Mais do que isso: confunde-
se, em certa medida, com a própria história do Brasil contemporâneo. Esta se
torna, portanto, uma revolução que transcorre a longo prazo, o que permitirá,
mais tarde, a Caio Prado Jr. falar de quatro etapas principais: "a
Independência política, a supressão do tráfico africano, e os dois corolários
que daí derivam diretamente, a saber, a imigração de trabalhadores europeus a
partir sobretudo do terceiro quartel do século passado, e a abolição do
trabalho escravo" (RB:83).
Tornam-se mais claras, assim, as preocupações políticas que informam o trabalho
intelectual de Caio Prado Jr. como historiador. Para ele, estudar a história
brasileira significa compreender "o passado que nos fez" (FBC, introdução:9) e
cuja influência ainda nos assombra. Entender o Brasil contemporâneo é entender
a sobrevivência de um passado que resiste à transformação. "Aquele passado que
parece longínquo, mas que ainda nos cerca de todos os lados" (FBC, introdução:
13) constitui um obstáculo à formação de uma nacionalidade integrada e
organizada. A história do Brasil contemporâneo ainda não foi completamente
contada, pois, sob muitos aspectos, "o 'sete-de-setembro' não tocou" (FBC:127).
À política cabe a tarefa de promover a conclusão da Independência, exorcizando
a história contemporânea de seu passado colonial. Para isso, é preciso
compreender "melhor o processo que vai do Brasil colônia de ontem ao Brasil
nação de amanhã, e que se trata hoje de levar a cabo. Tarefa essa que constitui
precisamente a essência da revolução brasileira de nossos dias" (RB:83).
NOTAS
1. Legenda dos textos de Caio Prado Jr. citados: Evolução Política do Brasil -
EPB; Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia - FBC; História Econômica do
Brasil - HEB e A Revolução Brasileira - RB.
2. Subtítulo da primeira edição do livro.
3. Como observa Carlos Nelson Coutinho, "o estoque de categorias marxistas de
que se vale Caio Prado Jr. não é muito rico" (1989:116).
4. Creio que, de forma geral, essas questões encontram respostas satisfatórias
no estudo de Ricupero (2000) sobre o processo de nacionalização do marxismo na
obra de Caio Prado Jr.
5. Reconheço que o recurso a um livro escrito em 1966 - bem posterior,
portanto, às três obras sobre a história brasileira escritas por Caio Prado
Jr., que datam de 1933 (Evolução Política do Brasil), 1942 (Formação do Brasil
Contemporâneo: Colônia) e 1945 (História Econômica do Brasil) -, em um contexto
intelectual muito preciso - o da polêmica que mantém com os comunistas a
respeito da interpretação da realidade social e da história brasileiras e das
diretrizes para a ação político-revolucionária tiradas a partir daí -, pode se
prestar a algumas objeções. Em particular, à objeção de que tal estratégia
poderia levar a uma espécie de ilusão retrospectiva, resultante da projeção
sobre aqueles textos de conclusões a que seu autor só teria chegado
tardiamente. Parece-me, entretanto, que, no caso de A Revolução Brasileira,
esse risco se encontra atenuado. Sempre que Caio Prado Jr. recorre a análises
históricas nesse livro, não faz outra coisa senão reafirmar idéias já presentes
em seus textos de história anteriores. Tal fato demonstra uma clara
continuidade nas posições do autor com respeito à interpretação da história
brasileira ao longo dos anos. Algo que pode ser, ademais, constatado pela
reiteração de sua tese a respeito da natureza do desenvolvimento histórico
brasileiro no post-scriptum de 1976 de História Econômica do Brasil. O mesmo
vale para a estrutura e as premissas intelectuais básicas dessa interpretação.
Daí que me parece legítimo sustentar não apenas uma continuidade mas também uma
reafirmação, em A Revolução Brasileira, dos pontos de vista que orientaram as
análises de Caio Prado Jr. em seus textos de história.
6. Ver também Koselleck (1985).
7. Sobre esse assunto, ver o excelente artigo de Dias (1989).
8. O texto de Marx é bem conhecido: "na produção social da própria vida, os
homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes da sua
vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de
desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade destas
relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real
sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da
vida material condiciona o processo geral de vida social, política e
espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao
contrário, é o seu ser que determina sua consciência. Em certa etapa do seu
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em
contradição com as relações de produção existentes ou, o que é nada mais do que
a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais
aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças
produtivas estas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevém então uma
época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme
superestrutura se transtorna com maior ou menor rapidez" (Marx, 1974:135-136).
9. Na última nota do capítulo "Organização Social", Prado Jr. observa que já
teria discutido, de forma resumida, a mesma questão em Evolução Política do
Brasil. Ver FBC:297.
10. Como observa Prado Jr. ao falar do aumento da massa inorgânica da população
final do século XVIII, "em nenhuma época e lugar isto se torna mais
catastrófico e atinge mais profundamente a colônia, que no momento preciso em
que abordamos a nossa história, e nos distritos da mineração" (FBC:286).
11. Essa oscilação entre analítico e normativo foi assinalada por Ricupero
(2000:133). Para ele, no entanto, o aspecto analítico da abordagem de Caio
Prado Jr. estaria associado à noção de colônia; o normativo, ao tema da nação.
Como os dois conceitos estão reciprocamente definidos, parece-me melhor afirmar
que ambos contêm em si tanto um aspecto normativo quanto uma dimensão
analítica.