As ONGs e a política no Brasil: presença de novos atores
Poucos temas têm estado tão presentes na atual discussão sobre governabilidade
e democratização quanto o da participação da sociedade civil na qualidade de
parceira do Estado na condução de políticas públicas, ou mesmo como substituta
deste, em áreas específicas, mormente nas que devem dar conta das políticas
sociais.
Na América Latina e, especialmente, no Brasil, esta questão toma contornos
particulares, pois até 25 anos atrás era praticamente consenso entre os
estudiosos da política a idéia de que os países da região sofriam os efeitos de
suas frágeis sociedades civis. Juntava-se a isto a percepção de que nessas
áreas a cidadania era uma noção muito distante do cotidiano das populações.
Duas razões substantivas colaboravam para tais consensos, a primeira refere-se
à própria fragilidade ou quase ausência de sociedade civil na maioria dos
países latino-americanos ao longo do século XX. Partes significativas das
populações da região viviam, e em alguns países ainda vivem, em áreas rurais e
abaixo da linha de pobreza. As cidades começavam a tornar-se metrópoles, muito
mais pela imigração de populações em busca do trabalho do que por qualquer
outra característica, portanto, havia muito pouca organização a ser analisada.
Mas há uma segunda razão que impediu, até muito pouco tempo, os estudiosos de
focarem suas preocupações nas sociedades civis latino-americanas como capazes
de exercerem papéis relevantes na região: trata-se da centralidade que o Estado
ocupou na reflexão sobre a América Latina nas décadas de 1950 e 1960, como o
promotor do desenvolvimento econômico e, posteriormente, como protagonista e
garantidor do processo de redemocratização pelo qual passou a maioria dos
países do subcontinente. Não vai longe o tempo em que os movimentos sociais ou
qualquer outra manifestação da sociedade civil eram vistos como ocupantes, de
certa forma ilegítimos, dos espaços deixados pelos partidos políticos,
impedidos de funcionarem de forma plena durante o período da ditadura. Isto
aconteceu em larga medida durante os anos de regime militar. No Brasil, um bom
exemplo foram as comunidades de base promovidas pela Igreja Católica, que
tiveram importante papel na politização de setores populares. Tais
manifestações eram muitas vezes vistas como anomias no sistema político ou até
como ameaças ao processo de redemocratização.
A entrada em cena da chamada sociedade civil no Brasil, de forma mais orgânica,
aconteceu a partir das últimas décadas do século XX, como efeito de sua própria
organização e pelos novos papéis a ela atribuídos, muito em decorrência do
cenário político internacional, marcado pelo fim dos regimes comunistas do
Leste europeu, pela crise do welfare state e pelo paralelo crescimento de
políticas neoliberais ao redor do mundo.
A presença da sociedade civil no cenário político trouxe novos sujeitos para o
espaço público, o que gerou um conjunto de imprecisões quanto a sua natureza.
Arato e Cohen assim a definem: "enquadramento institucional do moderno mundo da
vida estabilizado por direitos fundamentais, os quais incluirão no seu conjunto
a esfera do público e do privado, desta vez do ponto de vista do mundo da vida"
(Arato e Cohen, 1992:440, tradução da autora). Ela não é uniforme em sua
constituição, pois é formada por grupos, instituições e pessoas com graus
diferentes de organização, de comprometimento público e de capacidade de
intervenção, para se relacionar com o Estado e com o mercado: pertence à
sociedade civil um arco de entidades que abrangem desde clubes de mães até
instituições globais como a Anistia Internacional.
O espaço da sociedade civil e suas funções, no que se poderia chamar de novo
pacto, variam enormemente de autor para autor, desde os que o vêem como o
contraponto virtuoso à corrupção e à letargia do Estado, até aqueles que lhe
atribuem poderes quase revolucionários, como em uma espécie de nova vanguarda.
Em meio aos extremos ficam aqueles que, vendo na sociedade civil
potencialidades, apontam igualmente para o perigo de sua supervalorização, que
lhe atribui capacidades que não lhe são inerentes nem passíveis de serem
adquiridas1.
O texto a seguir pretende examinar os limites, pontuar diferenças e levantar a
problemática de um grupo de organizações da sociedade civil, as chamadas
Organizações Não-Governamentais ' ONGs2, no cenário brasileiro da virada do
século, sendo seu objetivo principal examinar os espaços que estas organizações
ocupam na relação com a sociedade e com o campo político. O primeiro problema a
enfrentar é a imprecisão com que são usadas as noções de sociedade, sociedade
civil, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, ONGs. Estes
vocábulos aparecem em textos acadêmicos, mas, principalmente, em
pronunciamentos políticos em contraposição ao Estado, como se formassem um
conjunto de entidades de natureza comum, que não necessitam ser definidas para
que se entenda o tipo de posição e intervenção de cada uma delas, na própria
sociedade civil, e a qualidade da relação que estabelecem com o Estado.
Para que se possa analisar propriamente a sociedade civil, faz-se necessária
uma série de aclarações: uma medida inicial e salutar é afastar definitivamente
a tentação de chamar de sociedade civil tudo aquilo que se diferencia de Estado
e do mercado, e estar atento para não fazer distinção entre sociedade civil e
sociedade civil organizada (o que nada tem a ver com organizações da sociedade
civil). A sociedade civil é, em si, a forma de organização da própria
sociedade, na qual cada indivíduo encontra sua pertença como cidadão de
direito. O Brasil apresenta pelo menos uma grande peculiaridade em relação ao
fenômeno, na medida em que convivem, no mesmo espaço, uma afluente sociedade
civil e parcelas significativas da população, que dela está excluída.
A noção de exclusão, por sua própria natureza, é fluida, necessitando ser, não
só constantemente definida e redefinida, mas também inserida em momentos e
cenários históricos específicos. Não é uma noção que tenha um estatuto
conceitual autônomo, sendo sempre relacional e definida a partir das condições
concretas de indivíduos historicamente dados. Nesse particular, a noção
diferencia-se completamente da classe: as classes estão definidas em ordens
muito claras, os excluídos, não. Sua realidade não corresponde sequer à unidade
do indivíduo, pois nenhum indivíduo está completamente excluído de todas as
ordens de identificação. Portanto, poder-se-ia começar a delinear com mais
clareza o excluído dizendo que todo excluído é incluído em alguma ordem,
familiar, religiosa, territorial, em grupos, bandos etc. Há inclusive situações
em que indivíduos e/ou grupos são incluídos em uma ordem para poderem ser
excluídos completamente de outra. Um caso paradigmático é o da mulher, que
historicamente foi incluída na ordem privada para, com isto, ser excluída da
ordem pública.
A complexidade e a pluralidade de situações de exclusão-inclusão, determinadas
por embates políticos, tempos históricos e, mais recentemente, pelas lutas dos
movimentos sociais não impedem, entretanto, que se identifiquem nas sociedades
contemporâneas espaços bem demarcados de exclusão e de inclusão. Isto vale
dizer que, tomando indivíduos e grupos nos mais diferentes cenários, há formas
de exclusão que definem condições de desigualdade entre os cidadãos de um mesmo
país regidos por leis que garantem a igualdade. Este é o caso de vastos
contingentes de pessoas nos países latino-americanos na atualidade. Nesse
contexto, a inclusão é fundamental na medida em que garante o pleno exercício
de seus direitos de cidadãos. Os processos de inclusão podem ser estudados a
partir do que se poderia chamar de dois momentos distintos da cidadania: o
primeiro resume-se na máxima de Hannah Arendt do "direito a ter direitos"; o
segundo refere-se ao exercício de fato desses direitos. A consciência de ter
direito a direitos é uma condição necessária, mas não suficiente da cidadania,
ou seja, é apenas um primeiro momento no processo de inclusão.
Em conseqüência, duas indagações se impõem: em um país com as condições do
Brasil, qual é o espaço da sociedade civil na relação com o Estado? e qual a
sua força no sentido de engendrar ações para aumentar seu próprio tamanho,
diminuir a exclusão ou defender interesses de excluídos? No Brasil, a sociedade
civil tem tido, historicamente, pouca ou nenhuma possibilidade de incorporar os
excluídos, isto tem cabido primordialmente ao Estado, por meio de políticas
públicas ou mesmo reformas, mais ou menos, radicais. Todavia, desde a
Constituição de 1988 vem crescendo a presença da sociedade civil como ator
político, quer por sua presença nos múltiplos conselhos que a própria
Constituição determinou, quer pela sua organização, fazendo-se presente em
inúmeras manifestações de cunho político, econômico ou cultural. Dentro desse
quadro, a posição das ONGs tornou-se proeminente. Não há espaço neste artigo
para discutir a história destas organizações e as inúmeras controvérsias sobre
sua existência e atuação. O que interessa aqui particularmente é enfatizar que,
no Brasil, temas como direitos humanos, meio ambiente e fome têm tido como
porta-voz, em grande parte, um conjunto de ONGs, que toma a iniciativa diante
do Estado, propondo políticas diretamente ao Poder Executivo ou pressionando o
Congresso Nacional para aprovações de projetos de leis.
A hipótese que busco trabalhar neste artigo é a de que as ONGs têm sido
elementos muito presentes na construção e na defesa do discurso dos interesses,
tanto da sociedade civil, como da "não-sociedade civil". Em cenários como o
brasileiro, onde há a concomitância de uma sociedade civil com formidáveis
níveis de organização, com parcelas volumosas da população desprovidas de
qualquer possibilidade de cidadania, estas organizações ocupam papéis de quase
partidos políticos da sociedade. Essa hipótese deve ser entendida em um duplo
sentido, em primeiro lugar, ao se aproximar as ONGs da noção de partido da
sociedade civil, aponta-se para um conjunto de temas que não são
necessariamente recortados pelos tradicionais partidos políticos e suas
posições ideológicas, ou ainda não fazem parte dos tradicionais grandes temas
da política brasileira. Qual partido representaria os direitos das mulheres, ou
dos negros, ou das crianças? De uma forma ou de outra, todos os partidos falam
destes temas, entretanto, o fazem através de suas óticas particulares e muito
como resposta aos movimentos sociais e às pressões das próprias ONGs. O segundo
sentido concerne aos novos cenários de participação na política dos distintos
parlamentos, tais como conselhos, conferências, orçamentos participativos, nos
quais as ONGs têm tido voz ativa como representantes de parcelas da sociedade
civil ou como assessoras de movimentos sociais. Tais características não
apontam para a crise dos partidos ou sua substituição no campo político, mas
para novos espaços e temas surgidos nas últimas décadas, ocupados pelas ONGs.
Isto ocorre em um momento delicado, pois sem nunca terem chegado a um
amadurecimento estas organizações vivem uma constante crise, talvez causada por
uma instabilidade própria de sua natureza.
As ONGs têm uma natureza instável, fruto tanto dos temas ao redor dos quais se
organizam, quanto de sua instabilidade financeira, uma vez que sobrevivem por
meio de projetos financiados por organizações internacionais, cooperação
internacional entre países ou pelo próprio Estado. Atualmente, há uma
diminuição de recursos internacionais para as ONGs, fazendo-as muitas vezes
dependentes de recursos do Estado, o que provoca mudanças significativas na
relação destas com a esfera oficial. Fernandes define ONGs a partir de suas
características negativas: "não são governamentais, não são lucrativas, não
fazem parte de estruturas maiores, não são representativas, não financiam"
(Fernandes, 1994:25). Não sendo tudo isto, diferenciam-se claramente das demais
instituições da sociedade civil, que são uma ou outra coisa. As ONGs,
entretanto, têm outras características importantes, ainda no campo do "não":
todas elas se apresentam como não-partidárias, mesmo assim, quer tomemos o
Brasil como referência, quer tomemos as reuniões alternativas promovidas pelas
ONGs nas grandes Conferências da Organização das Nações Unidas ' ONU durante a
década de 1990, não há dúvida sobre o caráter comprometido da grande maioria
destas organizações com causas de justiça social, de fim da discriminação de
qualquer natureza, de conservação ecológica, de direitos humanos. Em síntese,
tanto as pequenas ONGs, muitas vezes ocupando-se de um problema muito
localizado, como as grandes ONGs internacionais dividem a característica de
serem organizações comprometidas com causas humanitárias que pretendem intervir
para provocar mudanças nas condições de desigualdade e de exclusão3.
Muitas vezes as ONGs tendem a confundir-se com os movimentos sociais, mas
contêm diferenças importantes que necessitam ser apontadas: 1) há um grande
número de ONGs que surgiram a partir dos movimentos sociais, principalmente de
movimentos identitários. O exemplo das ONGs feministas é certamente o melhor.
Estas organizações representam um certo tipo de profissionalização da
militância, e no caso do feminismo têm uma característica geracional muito
forte: as ONGs da década de 1990, no Brasil, foram e estão sendo coordenadas em
grande parte pelas militantes do movimento das décadas de 1970 e 1980. Também
se encontra, atualmente, um número expressivo de organizações que tiveram
origem no movimento negro e no movimento homossexual; 2) no que pese a
característica anteriormente citada, as ONGs não substituem os movimentos nem
são uma fase avançada destes, mas se relacionam com eles. Dividem com os
movimentos sociais a fragmentação de seus temas, demandas e campanhas, mas seus
funcionamentos são muito distintos: uma ONG só existe por intermédio de
projetos que a sustentem, ela é pró-ativa, tem metas a cumprir, programas pré-
estabelecidos e financiados. Os movimentos sociais são menos estruturados, não
prestam contas, nem têm um grupo de profissionais para sustentar. As ONGs
formalizam-se, possuem diretorias, conselhos e corpo de funcionários. Isto pode
levar, pelo menos em tese, a um processo de auto-referência muito grande, no
qual sua reprodução como organização tenha quase tanta centralidade como a
causa que defende; 3) mesmo que muitas ONGs tenham se originado de movimentos
sociais, esta não é a sua única origem, também surgiram de grupos de
profissionais envolvidos com causas específicas, de ex-militantes políticos,
tanto os que tiveram carreira interrompida pelo golpe militar, como os que se
desiludiram e deixaram os partidos políticos por outras razões. As origens
delimitam muito de perto a relação entre a ONG e a causa que defende.
As ONGs podem ser classificadas quanto a seus membros e às causas que defendem
em dois grandes grupos: as organizações que defendem a causa de seus membros,
formadas por negros contra o racismo, ou por mulheres contra o sexismo, ou por
gays contra o preconceito em relação à escolha sexual; as que defendem a causa
de outros, tais como meninos de rua, sem-teto, drogados, vítimas de abusos
contra os direitos humanos, vítimas de abuso sexual, excluídos da cidadania por
pobreza ou ignorância etc. Esta é uma característica fundamental destas
organizações, pois é a partir das relações que estabelecem com o outro que
podemos entender e analisar seu papel e suas funções nas relações sociedade
civil-mundo da exclusão e sociedade civil-Estado.
As ONGs devem ainda ser consideradas em relação aos partidos políticos e à
política institucional. Nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos
do novo século, estas organizações têm tido posição de liderança no alargamento
das questões políticas concernentes a direitos, em todos os sentidos, desde os
direitos individuais até questões relacionadas com biodiversidade e direitos
ecológicos. As ONGs foram centrais em campanhas públicas, em enfrentamentos
diretos com o Estado e até em ações de desobediência civil na defesa de velhos
e novos direitos. Decorre desta postura a incorporação, na agenda
governamental, de temas que haviam ficado até então completamente ausentes da
discussão pública e que, na maioria das vezes, não eram sequer reconhecidos
como legítimos. Houve uma espécie de divisão do trabalho, cabendo aos partidos
os temas tradicionais da política e às ONGs e às outras organizações da
sociedade civil a publicização das novas questões, daí que é por meio da
ocupação de espaços nas organizações da sociedade civil que os novos temas e
atores puderam, muitas vezes, chegar ao espaço público.
O espaço ocupado pelas ONGs nas últimas décadas na arena pública foi sem dúvida
importante e mudou em algumas áreas o patamar das discussões. Entretanto, isto
não pode encobrir os inúmeros problemas que essas organizações, mesmo as mais
poderosas e bem dotadas financeiramente, enfrentam ou trazem com suas atuações,
descontinuidade de programas e ações sociais, e limite de abrangência de
programas.
AS AÇÕES DOS NOVOS ATORES
A presença das ONGs introduz uma série de novos elementos no campo da política,
quer pela frágil institucionalização destas organizações, quer pela maneira
diferenciada com que se relacionam com o campo, se comparadas com os atores
tradicionais, tais como partidos políticos e autoridades governamentais. Não se
trata aqui de fazer uma avaliação das vantagens ou desvantagens da presença das
ONGs, tampouco de brindar esta presença como virtuosa em si. Analisar esta
presença no espaço público objetiva avançar no conhecimento desse ator em três
direções: verificar as formas como as ONGs se movem no campo; discutir as
possibilidades e os limites da pretensão de representação das ONGs da sociedade
civil diante do Estado; examinar as potencialidades das ações de empoderamento
que pretendem engendrar4.
No que concerne às formas como as ONGs se movem no espaço público, vale chamar
a atenção para o potencial de construção de redes, abrangendo os espaços
locais, regionais e globais, como também as potencialidades de incluir nessas
redes desde organizações internacionais, como as do sistema ONU e fundações
financiadoras, até grupos semimarginalizados em bairros da periferia das
grandes cidades. A noção de rede em relação às ONGs pode ser pensada de duas
formas: uma é a rede entre ONGs incluindo também os movimentos sociais, na qual
cada organização é ponto de transmissão para outras, maiores ou menores, locais
ou globais. Outra forma de pensar a rede é como um espaço tridimensional onde
as ONGs funcionam não apenas como pontos de transmissão, mas como pontos
nodais, que acumulam e distribuem informações, acumulam poder, credenciam-se
como representantes fazendo a ligação entre o Estado e a sociedade em geral5. É
da capacidade de circular por todos esses pontos da rede que as ONGs tiram sua
maior legitimidade e poder, construindo para si um status de representação
muito particular.
Para avançar na compreensão da formação das redes, é necessário um exame das
relações das ONGs entre si6. Se existe uma qualidade que não serve para
identificar uma ONG é o seu tamanho. Sob o guarda-chuva da sigla encontram-se
desde organizações de alcance mundial, cuja mais conhecida delas é o Green
Peace, e, mais ultimamente, as organizações ligadas ao Fórum Social Mundial,
como a ATTAC7, até pequenos grupos de seis pessoas organizadas em trabalhos
comunitários, em bairros populares muito pobres. O importante é perceber as
redes que se formam entre estes grupos, os fóruns e redes de ONGs, que tratam
de um tema específico. Um exemplo claro deste tipo de dinâmica foi a reunião
promovida com o então candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da
Silva pela Associação das ONGs do Brasil (ela própria uma importante ONG), por
ocasião da campanha eleitoral de 2002, para tratar do programa do candidato.
Compareceram a esse evento: Articulação das Mulheres Brasileiras, Articulação
de ONGs de Mulheres Negras, Articulação do Semi-Árido ' ASA, Fórum Nacional de
Assistência Social, Fórum Nacional de Mulheres Negras, Fórum Nacional de
Participação Popular, Fórum Nacional da Reforma Urbana, Fórum ONGs/AIDS, Marcha
Mundial das Mulheres, Plataforma de Direitos Humanos Econômicos, Sociais e
Culturais ' Brasil, Rede de ONGs da Mata Atlântica, Rede GAPA e Rede Nacional
Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos (disponível em www.abong.org.br,
acessado em 13/3/2003).
Cada unidade anteriormente citada representa um conjunto de organizações, pois
são todos fóruns ou articulações, dando uma idéia quase pictórica da
constituição de uma rede. A existência da rede não impede, todavia, que se
indague sobre a possibilidade do estabelecimento de estruturas piramidais e
hierárquicas. Se os fóruns e as articulações discutiram em suas bases as
propostas que trouxeram para a grande reunião, estar-se-ia diante de um exemplo
de alastramento de participação; o problema, entretanto, encontra-se na
situação inversa, isto é, na possibilidade de os representantes dos fóruns e
articulações estarem muito mais ligados entre si do que a suas bases8. De
qualquer forma, tais redes podem ser ou vir a ser espaços de participação mais
representativos da sociedade civil, tanto pelo número de pessoas que delas
tomam parte, como pelos eventos e embates com o campo político que propiciam.
Os exemplos mais comuns de redes de ONGs são entre organizações que se ocupam
do mesmo tema e entre organizações que estabelecem parcerias e assessorias,
envolvendo, em qualquer dos casos, redes de ONGs nacionais e redes de ONGs
brasileiras e estrangeiras. Dois exemplos são ilustrativos: o primeiro é o da
SOF, que segundo seu site estava filiada em 2003 à Rede Nacional Feminista de
Saúde e Direitos Reprodutivos, à Rede Mundial de Mulheres pelos Direitos
Reprodutivos e à Associação Brasileira de ONGs ' ABONG (disponível em
www.sof.org.br, acessado em 25/5/2003). Interessante notar aqui a existência de
três redes, a nacional pelos direitos reprodutivos; a internacional, também
pelos direitos reprodutivos; e a de ONGs ligadas a direitos humanos,
democratização e justiça social, que é como se autoqualifica a ABONG. Outro
exemplo significativo é o do CEPIA que, em 1997, em parceria com o Center for
Health & Social Policy, uma ONG norte-americana, fundou o Fórum da
Sociedade Civil nas Américas. Deste fórum constam, segundo informações do
CEPIA, 26 lideranças de ONGs de 13 países do continente (disponível em
www.cepia.org._br, acessado em 10/3/2004). Uma terceira forma de rede foi a
construída pelo CELIM, que, com sede no Rio de Janeiro, criou núcleos de
replicação de seus cursos de liderança em diversos estados do país, tão
distantes como o Ceará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (disponível em
www.celim.org.br, acessado em 13/3/2003).
A noção de redes e fóruns de ONGs permite visualizar o campo de alcance destas
organizações e pode explicar sua grande presença nos espaços públicos da
sociedade civil. As ONGs têm dois eixos de atuação importantes, um na direção
das populações excluídas, isto é, na direção da sociedade não-organizada,
outro, na direção do Estado. Neste momento é fundamental relembrar a distinção
entre essas organizações e os movimentos sociais, pois parece estar nessa
diferenciação a especificidade de seu papel e a própria importância que tomou
como interlocutora junto a governos, independentemente da coloração partidária
e ideológica destes. Em relação a esses dois eixos, as ONGs podem funcionar
como correia de transmissão ou não, isto é, podem ir até os excluídos para
aproximá-los do Estado, ou podem ir até os excluídos com fins de executar
políticas de saúde, prevenção, empoderamento e advocacy.
Nessa aproximação, as ONGs fazem muitas vezes parcerias com movimentos sociais,
para criar grupos de pressão contra o governo. Atualmente, muitos movimentos
sociais expressam-se por ONGs, outros apenas relacionam-se com elas, e estas,
por sua vez, podem existir completamente independentes dos movimentos. Na
relação direta com a sociedade, as ONGs desenvolvem primordialmente projetos de
empoderamento, que são na maioria das vezes de dois tipos: projetos que se
dirigem a populações excluídas e em risco de marginalização, com o intuito de
fortalecer a auto-imagem e promover qualificação profissional através de
cursos, atividades artísticas e seminários, os últimos com o objetivo de
discutir as condições de vida destas populações. Uma segunda forma de
intervenção é a de treinamento de lideranças dentro ou fora dos movimentos
sociais para a defesa de interesses das comunidades. A ONG CELIM, do Rio de
Janeiro, já citada como exemplo, desenvolveu um projeto (ativo em 2003) que
apresentou uma série de características próprias do primeiro tipo de
intervenção. O projeto que leva o nome de "Ser Menina" é assim descrito:
"Ser Menina é um projeto realizado na Zona Oeste do município do Rio
de Janeiro. Trabalha com meninas adolescentes de comunidades de baixa
renda, de 12 a 18 anos. Ao longo de dez anos, vem desenvolvendo ações
educativas de resgate da identidade e auto-estima, voltadas para a
arte, cultura, saúde e profissionalização. O objetivo é o de
fortalecer as competências de cada menina, dando-lhe a possibilidade
de ampliar seus horizontes e perspectivas de futuro. São atendidas 60
meninas, em horário complementar à escola, utilizando-se a rede de
serviços local para fortalecimento do trabalho com elas e suas
famílias. [...], em parceria com a Fundação Abrinq, formando
mediadoras em leitura, estimulando o trabalho voluntário em creches,
asilos e escolas e atuando com a Rede Jovem que, através do Espaço
Jovem, possibilita acesso grátis à internet, objetivando a
interlocução com outros jovens do Brasil" (disponível em
www.celim.org.br, acessado em 15/3/2003).
Esse é um projeto típico de intervenção das ONGs nas comunidades carentes e
excluídas de quase todos os benefícios e direitos, por meio de um trabalho de
empoderamento. Três aspectos são particularmente importantes: o primeiro é o
próprio objetivo central do projeto, criar auto-estima em adolescentes do sexo
feminino, preparando-as para a integração no mundo competitivo, aproveitando a
rede local; a segunda característica é a parceria com uma grande fundação, no
caso a Abrinq, que muito provavelmente financiou o projeto9; o terceiro é o
efeito cascata que muitos desses projetos propõem, isto é, o treinamento de
pessoas para serem mediadoras na comunidade através de trabalho voluntário.
Observa-se aqui uma ONG de mulheres intelectualizadas coordenando um projeto
"Ser Menina", que por sua vez deu base a um outro projeto, "Mudando a
História", e que se liga a uma rede, "Rede Jovem", chegando à internet.
O segundo tipo de intervenção é o de treinamento de lideranças, do qual é um
bom exemplo o "Programa Direitos da Mulher na Lei e na Vida", que tem sido
coordenado pelo CEPIA no Brasil e que é parte de um programa maior atingindo
vários países da América Latina. O Programa foi levado a efeito em parceria com
três outras ONGs latino-americanas e financiado pela Fundação Ford. Seu
objetivo, segundo seus coordenadores, era
"[..] propiciar um espaço de formação e treinamento em estratégias e
habilidades de advocacy, de reflexão e aprofundamento teórico, de
sistematização de informações e de troca de experiências para cerca
de 230 ativistas feministas latino-americanas e suas organizações.
[...] Esse trabalho tem por objetivo fortalecer as organizações de
mulheres para influir no debate público e nas agendas políticas a
partir da perspectiva feminista, e para conceber e desenvolver
políticas públicas que contemplem as demandas das mulheres e atendam
às resoluções das Conferências de Cairo e Beijing*, em especial na
área de saúde e direitos sexuais e reprodutivos" (disponível em
www.cepia.org.br, acessado em 22/4/2003).
Trata-se, pois, de um projeto internacional de grande envergadura que aconteceu
no estrito limite da sociedade civil, ou seja, não se dirigiu às parcelas dos
chamados excluídos. O propósito não foi empoderar mulheres pobres e excluídas
de bairros populares, mas dar instrumentos para as mulheres que já exerciam
lideranças para que estas tivessem como pressionar seus governos para a
implementação de políticas públicas relacionadas com as decisões da Conferência
de Beijing de 1995. Em decorrência dessas ações, políticas públicas
implementadas podem provocar ações concretas de inclusão, mas isto é um efeito
não-controlável e indireto. Nesse tipo de atuação, a ONG mãe (aquela que gera o
programa) pode se dirigir a outras ONGs menores, ou a representantes de
movimentos sociais. Desta forma, a relação das ONGs com o movimento social é
sempre no sentido profissional de dar instrumentos ao movimento. A
interferência da organização tem sempre um componente técnico, muitas vezes um
saber específico, atestado pela qualificação de seus membros, o que permite
criar um distanciamento do caráter mais imediatista, militante e muitas vezes
ideológico do movimento social. Isto ocorre com muitas ONGs que tratam com
questões de gênero ou de mulheres negras: as integrantes destas organizações se
reconhecem como integrantes do movimento social, mas ao mesmo tempo colocam-se
fora dele, em uma posição que poderia ser vista como de promotoras ou de
vanguarda intelectual dos mesmos.
As relações entre as ONGs e o Estado são também complexas e variadas, duas
delas são particularmente significativas: de treinamento da burocracia estatal
e de assessoria parlamentar. A primeira diz respeito a convênios entre ONGs e
órgãos do Estado para treinar a burocracia nos temas dos direitos dos cidadãos,
principalmente no que concerne aos direitos das mulheres. Existe um bom número
de experiências desse tipo no Brasil, e elas são importantes porque se trata
de, indiretamente, ligar duas pontas muito distantes uma da outra: o aparato
estatal e as frações menos organizadas e excluídas da sociedade.
A AGENDE, em parceria com um Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da
Universidade de Brasília executou um projeto de grande alcance, "A Resolução
Institucional dos Conflitos: acesso aos direitos humanos das mulheres no
Brasil". Os objetivos do projeto permitem perceber um quadro bastante
esclarecedor de seu alcance:
"Tem por objetivo contribuir para a erradicação das múltiplas formas
de discriminação nos principais âmbitos governamentais encarregados
de administrar conflitos interpessoais e tratar das pessoas
violentadas nesses conflitos. Focaliza-se nas práticas de
discriminação de classe, gênero, cor, geração, opção sexual, origem
regional, envolvendo, inclusive, discriminações baseadas na estética
que incidem sobre a aparência, trajes e linguagens. As práticas de
discriminação enfatizadas na pesquisa e que se pretende erradicar nas
atuações governamentais são as que incidem, sobretudo, contra as
mulheres e os não brancos" (disponível em www.agende.org.br, acessado
em 14/5/2003).
O projeto é particularmente ilustrativo de um tipo de trabalho de linha de
transmissão que as ONGs realizam, pois se destina às instituições públicas que
tratam com as mulheres nas áreas de segurança pública, saúde e trabalho,
portanto, a ONG está agindo diretamente no âmbito governamental, buscando
garantir, segundo seus objetivos explícitos, serviços que sejam adequados às
usuárias. Neste projeto, a ONG é um elo entre o agente estatal, que está sendo
treinado, e as mulheres usuárias desses serviços10.
Em uma linha bastante próxima, o CEPIA desenvolveu em 2001 um programa de
capacitação de funcionários da área de segurança pública cujo tema era os
direitos das mulheres: "Nesse projeto a equipe da CEPIA acompanhou, em 2001,
cinco Seminários promovidos pela Secretaria dos Direitos das Mulheres ' SEDIM,
nas cidades de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Vitória, voltados
para apresentação da pesquisa realizada por esse órgão sobre as 305 Delegacias
de Mulheres de todo o país" (disponível em www.cepia.org.br, acessado em 22/11/
2003).
Esses projetos de sensibilização dos servidores públicos são realizados a
partir de uma posição de pouco poder, tendo muitas vezes enfrentado
resistências, ao contrário do que ocorre quando as ONGs têm assento em
conselhos ou em trabalhos de empoderamento de populações excluídas, onde a
presença das organizações é percebida, muitas vezes, como um ganho. Em projetos
dirigidos à burocracia estatal, há um trabalho de conquista que envolve o
rompimento de rotina e até de interesses corporativos.
O comprometimento como uma causa que não lhe é própria, associada à autoridade
dada pelo profissionalismo e o posicionamento apartidário, parece ser o caldo
de cultura que possibilita a estas organizações um tipo muito específico de
intervenção no aparato estatal. Estas mesmas características habilitam as ONGs
para outros tipos de intervenção no cenário da política institucional, como o
acompanhamento do legislativo feito pela ONG CFEMEA, por muitos anos em
Brasília:
"Monitoramento das proposições no Legislativo Federal e
sensibilização das parlamentares e assessores/as legislativos
objetivando a incorporação de uma perspectiva de gênero na elaboração
da legislação. Abrange, também, a defesa da implementação de
políticas públicas que contemplem a cidadania das mulheres, mediante
a alocação de recursos no Orçamento da União e a fiscalização de Atos
do Poder Executivo [...]. Esse trabalho é realizado em estreita
parceria com a Bancada Feminina de parlamentares e junto às Comissões
Permanentes e Temporárias da Câmara dos Deputados e do Senado
Federal" (disponível em www.cfemea.org.br, acessado em 14/3/2003).
No caso específico desse trabalho, a ONG não está nem ocupando cargo de
representação, como seria uma posição em um conselho, nem fazendo ponte entre
setores da sociedade organizada ou não com o Legislativo, mas atuando como uma
instituição com competência técnica que, por meio de projetos específicos,
mantém um corpo de profissionais para acompanhar e pressionar deputados,
senadores e partidos na direção da aprovação e implementação de políticas
públicas de interesse das mulheres.
Antes de introduzir o último exemplo de ação de ONGs cabe, pela natureza desta
intervenção, uma breve digressão sobre a posição das ONGs diante da política
partidária e eleitoral stricto sensu. Trata-se de uma reunião nacional para
fazer uma plataforma feminista para os candidatos às eleições de 2002. Essas
organizações tomam para si, algumas vezes, tarefas tradicionalmente atribuídas
aos partidos políticos, como a luta por direitos e apresentação de projetos nos
legislativos. Também participam no campo da política de inúmeras outras formas,
algumas das quais foram comentadas neste artigo. Nenhuma dessas ações,
entretanto, atua no sentido de formar quadros para a arena política dando
instrumentos aos setores excluídos ou mesmo militantes de movimentos sociais
para chegarem até os partidos e disputarem cargos eletivos.
A Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras ocorrida em Brasília, nos dias 6
e 7 de junho de 2002, foi organizada com o objetivo de definir uma plataforma
política feminista para as eleições gerais de outubro de 2002 e promovida por
10 organizações, sendo que apenas duas não eram ONGs: a Central Única dos
Trabalhadores ' CUT e a Secretaria Nacional de Mulheres do Partido Socialista
Brasileiro11.
A Conferência reuniu 1.408 inscritos, dos quais 99% eram mulheres, em sua
grande maioria com mais de 30 anos (+ de 70%), sendo que a maior parte
encontrava-se na faixa dos 41-50 anos (29,69%), e uma grande porcentagem (41%)
declarou-se afro-descendente. Não existem informações sobre a renda pessoal ou
familiar, mas o grau de escolaridade é um dado bastante relevante e permite
algumas inferências: 5% das mulheres eram pós-graduadas; 34,87% tinham nível
superior; 33,45% tinham o nível médio. Mais de 70% das mulheres presentes na
Conferência, portanto, tinham um elevado grau de instrução em relação à
população brasileira. Perguntadas sobre sua atuação política, 32,19% pertencem
a ONGs; 34,70% a movimentos sociais; 20,21% a partidos políticos; 7,53% a
órgãos governamentais e 5,37% a universidades. Um dado significativo na
pesquisa que foi feita é que 39,35% das participantes declararam-se chefes de
família. No grupo, o que chama a atenção particularmente é o alto
comparecimento de mulheres que se auto-identificam como afro-descendentes, o
que revela a existência de uma organização bastante importante no grupo. Estes
dados são eloqüentes no que concerne à existência de uma sociedade civil ativa
no país, ao mesmo tempo em que os dados referentes à educação revelam que este
é um espaço bastante diferenciado no universo educacional brasileiro12
(disponível em www.cepia.org.br, acessado em abril de 2003).
Os projetos examinados nas páginas anteriores indicam que as ONGs estão
buscando construir novos espaços de discussão pública, de luta por direitos e
cidadania para as camadas menos organizadas do país, portanto, poder-se-ia
afirmar que as ONGs têm potencial para ser um dos instrumentos importantes no
fortalecimento da sociedade civil. Estas organizações constituem redes das mais
diversas formas no interior da sociedade civil, que podem abranger somente
ONGs, como também organismos internacionais, movimentos sociais, entidades
filantrópicas. As ONGs também se tornam, em alguns momentos, parceiras do
Estado, na discussão, proposição e até implementação de políticas públicas.
Cabe, diante deste intenso movimento, perguntar quais as conseqüências da
presença desse novo ator.
No que concerne ao Estado, a presença das ONGs provoca pelo menos dois efeitos
importantes: o primeiro concretiza-se na tendência de o Estado ver estas
organizações como sinônimo de sociedade civil, buscando desta forma solucionar
a difícil tarefa de administrar a representação da sociedade civil em órgãos
estatais; o segundo efeito refere-se ao fato de as ONGs aparecerem como
parceiras do Estado em projetos sociais ou em projetos de capacitação de
servidores públicos. Em qualquer um dos dois efeitos pode-se observar a posição
de vanguarda em que estas organizações se colocaram (e que realmente tiveram em
muitos casos) e ao mesmo tempo o problema que aparece na relação que
estabelecem com o Estado quando o último as considera sinônimo de sociedade
civil.
Outra conseqüência da presença das ONGs é seu papel de interlocutor de setores
da sociedade civil: a independência financeira somada à independência
partidária ideológica destas organizações fazem delas potenciais "partidos" da
sociedade civil, pois dividem com ela a fragmentação e a transversalidade de
seus interesses e suas demandas, como foi visto nos exemplos de organização de
plataformas para candidatos.
Ainda sobre a presença das ONGs nos espaços públicos e no campo específico da
política cabe chamar a atenção para a impossibilidade, pela própria natureza
destas organizações, de tomarem para si as responsabilidades referentes à
educação, à saúde, entre outras questões de responsabilidade do Estado. Os
exemplos comentados ao longo deste artigo apontam para a potencialidade do
limite das ações. As ONGs têm sido sem dúvida importantes atores na sociedade e
no campo político nos últimos 20 anos e, possivelmente, continuarão a ocupar
espaços, os aqui descritos e novos. Tem cabido a elas a responsabilidade de
formidáveis mobilizações por direitos, formações de rede e programas de
empoderamento. Elas também têm sido, em grande medida, responsáveis pela
presença no campo político de temas que historicamente encontraram resistência
no interior dos partidos políticos, entre os quais se destacam os temas dos
direitos das mulheres. Entretanto, estas organizações não podem ser vistas de
maneira simplista, como substitutas de partidos políticos, do Estado ou mesmo
dos movimentos sociais. Suas ações têm limites, entre eles o fato de serem
fragmentadas, atingirem o conjunto da sociedade de forma limitada e dependerem
de financiamentos pontuais.
NOTAS
1. Especialmente importantes dentro de uma perspectiva que analisa criticamente
a sociedade civil, chamando a atenção para suas potencialidades de luta pela
cidadania, mas também para suas fragilidades em substituir o Estado estão dois
livros basilares: Young (2000) e Chandhoke (2003).
2. As informações constantes deste artigo sobre as ONGs foram retiradas das
páginas de internet de cada uma delas entre os anos de 2002-05, período em que
se estendeu pesquisa sobre o tema sob minha coordenação. Como o interesse
primordial é perceber como estas organizações se concebem e se apresentam ao
público, esta fonte foi de especial importância.
3. A proliferação de ONGs no mundo contemporâneo, e mesmo considerando somente
o Brasil, é de tal monta que se torna muito difícil construir uma
caracterização geral. Parece bastante possível que se possam encontrar
organizações com características muito diferentes das que foram listadas, pode
haver inclusive organizações não-governamentais que estejam encobrindo
atividades do mercado ou até mesmo atividades ilícitas, isto, contudo, não
parece quantitativamente relevante a ponto de descaracterizar o conjunto destas
organizações.
4. O conceito de empoderamento refere-se à ação de dotar indivíduos de
instrumental que os torne capazes de lutar por seus direitos e exercer sua
cidadania.
5. Neste artigo não será tratada a presença das ONGs nos conselhos municipais,
estaduais e nacionais, nos quais esta tem sido destacada (Gohn, 2000; Rachelis,
2000; Santos, 2000). O objetivo do texto é examinar a relação das ONGs com o
Estado e não sua presença no aparato diretamente.
6. A partir deste momento, valer-me-ei de um conjunto de ONGs que tratam da
questão de gênero no Brasil como exemplo para o argumento que estou
desenvolvendo, são elas: AGENDE (Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento);
CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria); CEPIA (Cidadania, Estudo,
Pesquisa, Informação e Ação); SOF (Sempreviva Organização Feminista); CELIM
(Centro de Liderança da Mulher). Foram três os critérios de escolha das ONGs: o
primeiro e mais óbvio, todas as organizações tratam da questão dos direitos da
mulher, objeto central da pesquisa da qual este artigo é um dos resultados; o
segundo critério é de importância, e todas são ONGs com alcance nacional, no
que pese na maioria das vezes estarem em São Paulo ou Rio de Janeiro e com
projetos importantes no campo dos direitos e de políticas sociais; em terceiro
lugar, a amplitude de suas atividades, que nos permite exemplificar toda a rede
construída pelas ONGs e assim responder com acuidade as questões propostas.
7. A ATTAC (Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos
Cidadãos), com contatos em 38 países, define-se desde sua criação como um
"Movimento Internacional para o controle democrático do mercado financeiro, e
sua instituição quer responder esta demanda. Constitui-se em uma rede sem
estruturas hierárquicas nem centro geográfico, com a plataforma adjunta como
referência. É pluralista, se enriquece com a diversidade de seus componentes e
favorece a ação comum sem limitar de nenhuma maneira a liberdade de intervenção
de cada um. Propõe-se a reforçar, relacionar e coordenar no âmbito
internacional a intervenção de todos os associados que se reconhecem em sua
plataforma com todas as outras redes cujos objetivos convergem com os seus"
(disponível em www.attac.org, acessado em 20/4/2003, tradução da autora).
8. O controle sobre este tipo de atividade é de difícil aferimento, envolvendo
questões metodológicas sofisticadas e pesquisa de grande extensão.
9. A Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente é uma entidade
sem fins lucrativos, de Utilidade Pública Federal, que tem como objetivo
promover os direitos elementares de cidadania das crianças. Afirma-se que muito
provavelmente financiou o projeto devido à dificuldade à época da pesquisa que
gerou este artigo de se obter informações sobre o financiamento das ONGs.
10. Cabe, mais uma vez, a observação que este artigo não se propõe a fazer uma
avaliação do trabalho das ONGs, mas traçar um quadro amplo das redes e
interlocuções destas organizações. Neste caso particular, como nos outros casos
descritos, não foram investigados os outputs das ações das ONGs.
11. As demais organizações foram: Articulação de Mulheres Brasileiras;
Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais; Articulação de Mulheres
Negras Brasileiras; Secretaria para Assuntos da Mulher Trabalhadora da
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino ' CONTEE;
CEMINA; Rede Nacional de Parteiras Tradicionais; RedeSaúde; União Brasileira de
Mulheres.
12. A sociedade civil é o espaço, por excelência, dos incluídos, isto é,
daqueles que possuem não só a consciência dos direitos, mas que lutam para
conquistá-los. Neste sentido, os dados para o ano de 2000 referentes ao Brasil
são eloqüentes: "Todos os estudos e estimativas deduzem que a sociedade
brasileira organizada não representa mais de 15% da população do país. Ou seja,
85% da população brasileira é sociedade desorganizada [...]. Na Europa, por
exemplo, 80% ou mais da população está ligada a alguma forma de organização"
(Teixeira, 2000:20).