Cooperação científica internacional: estilos de atuação da Fundação Rockefeller
e da Fundação Ford
"Dificilmente se pode encontrar uma instituição tão
assemelhada à face mitológica de Jano como a ajuda
externa" (Hirschman, 1971, tradução das autoras)
INTRODUÇÃO
Aconformação de campos científicos tem sido, em grande medida, uma tarefa
realizada por algumas agências de fomento, denominadas internacionais. As
agências internacionais foram adquirindo prestígio, cada vez mais reconhecidas
como atores importantes em seus países de origem e também fora deles,
influenciando a formação de distintas áreas do conhecimento.
A atuação dessas agências, em grande medida, tem se dado a partir da idéia de
cooperação internacional, o que na teoria significa troca de saberes entre os
financiadores e os receptores da doação, e na prática um interesse no estado da
arte da ciência em diferentes países. A cooperação internacional é um fenômeno
em expansão, isto é, cresce com as atividades científicas. Pesquisadores de
países em desenvolvimento têm se beneficiado dessa cooperação na medida em que
a colaboração envolve um número significativo de programas ' desde pesquisas na
área de ciência, de tecnologia, conferências e reuniões científicas, compras de
equipamentos, formação profissional e a concessão de bolsas de estudos para
instituições estrangeiras.
Desde contribuições clássicas como as de Jaguaribe (1967) e Hirschman (1971)
até estudos mais recentes (Velho, 1997), têm-se afirmado que a cooperação
internacional pode favorecer a transferência de recursos materiais e humanos
dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento. Esta forma de
incentivo é importante para a instalação de um setor científico em países menos
favorecidos. Além disso, a cooperação a partir de blocos regionais, ou seja, a
implementação de programas de cooperação científica e tecnológica entre países
de uma determinada região, vem sendo uma prática incentivada pelas agências
internacionais com o objetivo, segundo a autora, de tentar solucionar
deficiências individuais, a partir do desenvolvimento conjunto das economias e
com benefícios eqüitativamente distribuídos entre as nações envolvidas na
cooperação (idem).
A cooperação científica apontada como ferramenta necessária para o avanço da
ciência no mundo contemporâneo, especialmente pós-Segunda Guerra Mundial, foi
mudando seu estilo de atuação, especialmente nas últimas três décadas. A
cooperação internacional tem se pautado por estilos de ação diferenciados
conforme os interesses das agências de fomento e a correlação de forças
internas nos países onde atuam. É desta forma que hoje se evidencia uma
cooperação mais voltada para programas de desenvolvimento sustentável dos
recursos naturais, saúde reprodutiva, direitos humanos, habitação, além de
campanhas de prevenção contra o Vírus da Imunodeficiência Adquirida ' HIV/AIDS,
tentando incentivar a participação e o desenvolvimento de comunidades locais.
Esta é uma orientação inaugurada por agências internacionais como a Fundação
Ford, como se verá mais adiante.
As agências fundadas no começo do século XX, como a Fundação Rockefeller,
pautaram-se por um estilo de atuação voltada, em grande medida, para a doação,
sem fins lucrativos, em atividades científicas, em universidades e institutos
de pesquisa, diante do crescimento da importância e das necessidades da ciência
e da tecnologia. As diferentes ênfases antes e pós-guerra são a marca da
atuação da Fundação Rockefeller. As áreas de saúde pública, medicina e educação
são praticamente exclusivas até o período da guerra. No pós-guerra há uma
mudança de orientação. A partir daí, o apoio às ciências físico-químicas e
naturais aumenta progressivamente, assim como a área da agricultura
(Schwartzman, 2001)1. Entre os anos de 1950 e 1980, a Rockefeller pauta sua
atuação por uma orientação política conservadora, promovendo centros e
programas de controle e planejamento populacional, como o Population Council.
De modo geral, a Fundação guardava ou mantinha uma visão conservadora dos
processos de mudança social.
A partir do final da Segunda Guerra Mundial, é a Ford ' também uma das mais
importantes fundações americanas na área de medicina e ciência ', entre outras
agências de fomento, quem inaugura um novo estilo de doação e de intervenção,
por assim dizer, mais participativo e democrático de financiamento à pesquisa.
A Ford vai assumindo uma posição de liderança na liberação de recursos em
diferentes campos de atuação e em vários países dos continentes americano,
africano e asiático. O apoio à área de administração pública passa a ser um dos
grandes interesses da Ford. O apoio irrestrito da Fundação à diversidade social
e à participação democrática manifesta-se por meio de financiamento de
programas voltados para abordagens que privilegiam, por exemplo: questões de
gênero; saúde da mulher; modelos de desenvolvimento sustentável; programas de
saúde; reforma educacional; habitação; violência, questões étnicas e raciais;
desigualdade social; meio-ambiente e recursos naturais (biodiversidade);
movimentos sociais. De modo geral, incentivo a programas liderados por
comunidades locais e promoção de políticas públicas. São privilegiados
programas que refletem os interesses dos movimentos sociais em países diversos.
Este estilo de doação, mais participativo, que vê a ciência como uma construção
social, isto é, realizada por diferentes atores ' não apenas universidades e
centros de pesquisa, mas agências não-governamentais e grupos participativos
locais ' e, principalmente, mais preocupado com as realidades sociais, passou a
ser o modelo de atuação das agências internacionais no pós-guerra. A partir
deste momento, é possível notar, portanto, uma mudança de orientação da ótica
das agências de fomento em direção à questão social (Costa, 2004).
Ao discutir, no final dos anos 1960, sobre as "condições de validez" da
assistência técnica internacional, Hélio Jaguaribe (1967) chama a atenção para
duas exigências específicas no campo da cooperação internacional. A primeira,
segundo o autor, refere-se à prioridade que se deve conceder à educação e ao
treinamento, em todos os níveis. A segunda, tão importante quanto a primeira, é
a liberdade de escolha dada ao país receptor. A ajuda deve ser solicitada e
selecionada pelo país que está recebendo a doação2. Para Jaguaribe (idem:83-
84), é desta forma que os programas de assistência científica internacional são
capazes de promover transformações sociais.
É nesse quadro de mudanças e transformações que se destaca a Fundação Ford. A
história da Ford confunde-se com as das agências filantrópicas internacionais
as quais se institucionalizam dentro do modelo de desenvolvimento para os
países não industrializados (ver Arnove, 1980; Miceli, 1993). Desde o início de
suas atividades em países da Ásia, África e América Latina, a Ford vem
realizando parcerias com inúmeras instituições na implementação de iniciativas
de desenvolvimento, desde a Revolução Verde e a atenção às questões de gênero e
população, até o fortalecimento de novos modelos para o desenvolvimento social.
Nos anos 1980, a Fundação Rockefeller também se dedicou a investimentos nessas
áreas. No Brasil, a Rockefeller voltou a investir em programas de saúde, como,
por exemplo, os de prevenção contra a AIDS/SIDA. Mas, além desses programas,
financia escritórios para a capacitação de lideranças (investimentos para
Organizações Não-Governamentais ' ONGs e profissionais de aparelhos de Estado)
para atuarem na preservação do meio ambiente, promovendo o desenvolvimento
sustentável e formando recursos humanos capazes de formular acordos
internacionais para cumprirem estes objetivos (Rockefeller Foundation,
Relatório Anual, 1989).
Tendo como ponto de partida as mudanças vividas por essas agências e a natureza
do relacionamento destas nos países por onde passaram, o objetivo deste artigo
é mostrar contrastes e eventuais paralelos entre os estilos de ação da Fundação
Rockefeller e da Fundação Ford. Estas duas agências foram responsáveis pela
criação de áreas de conhecimento, em diferentes países do mundo (Brasil, China,
Índia, entre outros), com base em padrões de atuação e de intervenção por vezes
distintos, mas ainda assim marcantes.
Finalmente, o objetivo deste artigo é entender a maneira como essas fundações
readequaram suas agendas em função da presença de novos atores e, ainda, como
introduziram novos problemas sem, necessariamente, mudarem seus padrões de
intervenção de modo radical.
A ATUAÇÃO DIVERSIFICADA DA FUNDAÇÃO ROCKEFELLER
No início do século XX, a família Rockefeller (John D. Rockefeller e
Rockefeller Jr.) decidiu criar uma organização que incorporasse as instituições
pertencentes à família ' Rockefeller Institute for Medical Research, General
Education Board e Sanitary Commission for the Erradication of Hookworm ' dando
origem à Fundação Rockefeller3, em 1913 (Collier e Horowitz, 1976:60-65). O
modelo de "filantropia em larga escala" da Fundação Rockefeller compreendia a
atuação nas áreas das ciências naturais, saúde pública e educação superior, que
eram consideradas fundamentais para o desenvolvimento das sociedades modernas
ou em vias de modernização. Nessa época, a fortuna dos Rockefeller havia sido
estimada em US$ 1 bilhão, metade representada pelo valor negociável de algumas
de suas ações de minas de ferro, em Minnesota, e de carvão, no Colorado, além
de ações de várias ferrovias (Howe, 1982:27).
Em um primeiro momento, a Fundação Rockefeller visou dar continuidade à tarefa
de erradicação da ancilostomíase, empreendida desde 1909 pela Sanitary
Commission for the Erradication of Hookworm no Sul dos Estados Unidos. A
experiência adquirida nesta região foi importante para organizar,
posteriormente, as atividades que seriam implementadas pela Rockefeller em
países da Ásia, Europa e América Latina, a partir de 1916.
Entre os países, além do Brasil, que contaram com a cooperação da Rockefeller
estavam: na América do Sul ' Equador, Argentina, Colômbia, Chile, Paraguai,
Peru, Uruguai, Venezuela; na América Central ' Costa Rica, Cuba, Guatemala,
Haiti, Nicarágua, Panamá, El Salvador, Jamaica, Trinidad e Tobago, Granada. Na
Ásia, a Rockefeller atuou no Ceilão, Índia, Malásia, Coréia e Tailândia. Na
China e no Japão, a Fundação chegou a permanecer por quase 60 anos. No Oriente
Médio, esteve no Iraque, na Turquia, em Israel e no Líbano. Alguns países do
continente africano também receberam o apoio da Rockefeller. As atividades
chegaram a se estender até a Europa, no período entre as duas grandes guerras:
a Inglaterra, logo após o fim da Primeira Guerra, e em seguida outros países do
Continente, como a França, Espanha, Portugal e Albânia. O Canadá recebeu
auxílio a partir de 19204.
É possível identificar dois momentos importantes da atuação da Fundação
Rockefeller, em escala global. O primeiro iniciado em 1913 dava ênfase à
medicina e ações em saúde pública. Durante as décadas de 1920 e 1930, a
Rockefeller direcionou suas atividades para pesquisa e controle de doenças
infecciosas como a ancilostomíase, a febre amarela e a malária. Um segundo
momento que se consolidou no final dos anos 1940, mais precisamente com o fim
da Segunda Guerra Mundial, ligou-se ao desenvolvimento do ensino médico, das
ciências físicas e biológicas e da agricultura (Cueto, 1994; Marinho, 2001).
Uma das prioridades da Fundação foi então a concessão de bolsas de estudos nas
universidades dos Estados Unidos. A possibilidade de treinamento no exterior
foi um dos aspectos da política científica da Fundação Rockefeller. O acesso de
pesquisadores de vários países a universidades norte-americanas foi aproveitado
tanto pelos profissionais da área biomédica quanto, mais tarde, por cientistas
que atuavam no campo da genética, da física, da biologia, da zoologia e da
agronomia.
No plano mundial, a Fundação Rockefeller teve uma atuação pioneira na concessão
de bolsas de estudos para a ciência médica e a saúde pública. Entre 1917 e
1962, a Fundação Rockefeller concedeu cerca de 1.800 bolsas de estudo para
pesquisadores latino-americanos. O Brasil (443 bolsas) e o México (359 bolsas)
foram os países que mais receberam bolsas nas áreas da medicina e das ciências
naturais. Em terceiro lugar, a Colômbia (264 bolsas), seguida do Chile (214
bolsas) e da Argentina (127 bolsas). O programa de bolsas também contemplou
pesquisadores de outros países na América Latina (Paraguai, Peru, Venezuela),
Europa (sobretudo França, Bélgica, Espanha, Itália, Portugal e Romênia), Ásia e
África5. É importante ressaltar que, nesse mesmo período, a Fundação John Simon
Guggenheim ' também uma das mais importantes fundações americanas na área de
medicina e ciência ' concedeu cerca de 610 bolsas de estudos para profissionais
latino-americanos, ou seja, menos da metade das bolsas oferecidas pela Fundação
Rockefeller (Cueto, 1994:x-xi).
A ampla dimensão das atividades da Fundação Rockefeller desdobrou-se em ações
diferenciadas em vários continentes, conforme seus interesses e a correlação de
forças internas nos países onde a instituição norte-americana atuou. No Brasil,
por exemplo, para lograr êxito, a Rockefeller teve de ajustar seus objetivos e
modelos de atuação às condições históricas, culturais e sanitárias do país. Em
particular, teve de adaptar-se às estratégias de modernização política e social
que já estavam em curso quando as missões médico-sanitárias da Rockefeller aqui
chegaram (Castro Santos, 1989; Castro Santos e Faria, 2003).
Entre os anos de 1920 e 1960, a Fundação Rockefeller ajudou a construir e
implantar uma extensa rede de instituições científicas que propiciaram a
difusão e a consolidação de um modelo de ciência. Neste sentido, é correto
afirmar que a atuação da Rockefeller pode ser vista como decisiva na
institucionalização da ciência em escala mundial. A Rockefeller incentivou a
criação de faculdades médicas, de novas disciplinas nas áreas de patologia,
anatomia, histologia e microbiologia, e de institutos de higiene, escolas de
saúde pública e enfermagem para formação de profissionais na área da saúde. Foi
assim na Inglaterra (London School of Higiene), na China (Peking Union Medical
College), em Cuba (Escola de Medicina da Universidade de Havana) e no Brasil
(Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo6, Instituto de Higiene de São
Paulo7, Escola Anna Nery8). A Fundação apoiou também pesquisas no campo da
fisiologia no Peru e na Argentina, nos anos 1930 e 1940 (Cueto, 1994: 4-6). A
Rockefeller imprimiu àquelas instituições sua orientação pedagógica, marcada
por critérios universalistas, dedicação integral dos professores, ênfase na
pesquisa e no laboratório, definição de padrões técnicos de trabalho para a
enfermagem hospitalar e de saúde pública e difusão de um enfoque operacional
para a organização das campanhas sanitárias (Castro Santos e Faria, 2003).
Deve-se acrescentar, ainda, a sólida parceria com a medicina e as ciências
naturais da Universidade de São Paulo ' USP, inclusive em relação à Faculdade
de Medicina em Ribeirão Preto9, nas décadas de 1940 e 1950. Nesta fase, as
instituições que mais se beneficiaram desta política de incentivo ao ensino
foram, no México, o Instituto Tecnológico de Monterrey; no Brasil, a USP,
Campus de Ribeirão Preto; e na Colômbia, a Universidade do Valle.
Na América Latina o aprofundamento das relações com a Fundação Rockefeller foi
o resultado de desdobramentos durante e após a Segunda Guerra10. A partir desse
momento, houve uma reestruturação das atividades financiadas pela Fundação
Rockefeller nos países latino-americanos, e, em especial, no Brasil. Segundo
Marinho, "ao lema anterior de promover o bem da humanidade, acrescentou-se a
nova meta de promover o progresso do conhecimento científico" (2001:29). A
atuação da Rockefeller caracterizou-se por um estímulo às ciências físico-
químicas e naturais (sobretudo a genética, a física e a biologia), sobrepondo-
se à primeira fase nitidamente voltada para a saúde pública11. Esta nova
orientação possibilitou uma maior diversificação das atividades da Rockefeller.
Entre os anos de 1940 e 1970, a Fundação investiu fortemente na área da
genética, particularmente na pesquisa agrícola. O suporte à agricultura
significou uma expansão de suas atividades em vários países.
Nesse contexto, um dos mais importantes capítulos da história da filantropia em
larga escala da Fundação Rockefeller foi a chamada "Revolução Verde" no México.
Entre os anos de 1943 e 1965, a Fundação investiu cerca de US$ 13 milhões em
equipamentos, pesquisas, bolsas de estudos e treinamento profissional. O uso
pelos agricultores de novas tecnologias agrícolas provocou um profundo impacto
na produtividade, criando condições para o aumento da produção de alimentos no
país. Este trabalho pioneiro foi responsável pela aplicação de ciência e
tecnologia na produção de arroz e milho (Fitzgerald, 1994).
O Brasil também participou desse processo de modernização da agricultura,
incentivado pela Fundação, que liberou recursos significativos para a criação
ou desenvolvimento de áreas científicas no país. Tal fato se deu
especificamente com a genética. A USP foi o local escolhido como um lugar que
deveria receber total apoio. A Rockefeller apoiou programas de pesquisas,
concedeu bolsas de estudos para o exterior e financiou a compra de equipamentos
de última geração.
OS ANOS 1940 E A REDEFINIÇÃO DOS CAMPOS DE ATUAÇÃO: O APOIO À GENÉTICA NO
BRASIL
Como se disse anteriormente, no pós-guerra o foco de atuação da Rockefeller
declina da saúde pública e direciona-se para o fomento na área das ciências
naturais. Na América Latina, o Brasil foi um alvo especial desta política. Tal
deslocamento favoreceu diretamente a institucionalização de grupos e linhas de
pesquisa na USP, duas das quais a física e a genética são exemplo. Vejamos o
caso da genética.
Embora estudos na área da genética tenham tido início em meados dos anos 1920,
nas cadeiras de zootecnia e agricultura da Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz, em Piracicaba, com Carlos Teixeira Mendes12, Otávio Domingues e
Salvador de Toledo Piza Jr.13, foi a partir dos primeiros anos de 1930 que as
pesquisas nesta área ganharam impulso no país.
Nesse período três grupos se destacaram: um primeiro liderado por Carlos
Arnaldo Krug14, no Instituto Agronômico de Campinas, um segundo organizado por
Friedrich Gustav Brieger15 na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
em Piracicaba, e o grupo da USP chefiado por André Dreyfus16, chefe do
Laboratório de Biologia Geral da Faculdade de Filosofia e primeiro professor de
biologia da recém-criada USP. Dreyfus desempenhou, segundo Glick (1994), um
papel importante na institucionalização da genética no Brasil.
Em 1932, Carlos Arnaldo Krug iniciou um programa de genética aplicada à
agricultura no Instituto Agronômico, com o objetivo de melhorar produtos como o
café, o trigo, o fumo e o milho. No ano seguinte, foi criada a cadeira de
genética, "que tinha o objetivo claramente aplicado de formar especialistas com
conhecimentos básicos de melhoramento e técnica experimental" (Schwartzman,
2001:180-186). Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em
Piracicaba, as pesquisas na área da genética tiveram continuidade com Friedrich
Gustav Brieger, chefe do Departamento de Genética. Em 1934, a Escola foi
incorporada à recém-criada USP. Brieger queria implantar no departamento o
regime de tempo integral para a pesquisa e docência "para realmente transformar
uma escola de ensino numa instituição universitária". A implantação do regime
de tempo integral "foi o início do novo desenvolvimento da Luiz de Queiroz que
se tornou [...] a melhor Escola de Agronomia da América Latina" (Brieger, 1985:
6-18 apudMarinho, 2001).
Estes três cientistas ' Krug, Brieger e Dreyfus ' faziam parte de um grupo
seleto na área da genética no Brasil. Esses foram responsáveis por importantes
pesquisas, além da formação de novos pesquisadores. Dreyfus, assim como
Brieger, também era favorável à introdução do regime de tempo integral para
pesquisa e docência. Em 1938, Dreyfus conseguiu introduzir em seu departamento
o tempo integral e começou a negociar a contratação de profissionais
estrangeiros com boa formação na área. Note-se a referência à dedicação em
tempo integral dos profissionais, regime de trabalho que a Fundação Rockefeller
julgava imprescindível.
O contato de Dreyfus com Harry Miller Jr. ' diretor-associado da Divisão de
Ciências Naturais da Fundação Rockefeller e principal articulador das ações da
instituição norte-americana no Brasil nas décadas de 1940 e 1950 ' criou
condições favoráveis para a vinda de pesquisadores estrangeiros para atuarem no
Departamento de Biologia Geral da USP. Segundo Thomas Glick (1994), a
implantação definitiva da genética no Brasil ocorreu quando Theodosius
Dobzhansky17 veio para o país a convite de André Dreyfus, com o apoio da
Fundação Rockefeller, para trabalhar no Departamento de Biologia. Dobzhansky já
havia manifestado a Harry Miller Jr. seu interesse pelo estudo da genética em
países da América Latina.
As doações da Fundação Rockefeller para o Departamento de Biologia estenderam-
se até a década de 1960. A instituição norte-americana financiou equipamentos e
concedeu várias bolsas de estudos para pesquisadores brasileiros. Nas palavras
de Glick, "[...] no total, este projeto representou um modelo de sucesso na
história da ciência latino-americana e ilustra a intervenção criativa de uma
fundação americana no desenvolvimento científico de um país" (Glick, 1994:149).
Na década de 1960, existiam, ainda segundo esse autor, cerca de 12 centros de
pesquisa em genética no país, em que se destacavam São Paulo, Rio de Janeiro,
Porto Alegre, Campinas (idem:159).
O estudo da implantação da genética no Brasil permite mostrar o papel da
instituição norte-americana na institucionalização da pesquisa genética no
país. A experiência nesta área indica a participação da Rockefeller no
desenvolvimento científico brasileiro, que data desde os inícios dos anos 1920
do século passado, como procuramos mostrar ao longo do artigo18.
A ATUAÇÃO INTERNACIONAL DA FUNDAÇÃO ROCKEFELLER
No início dos anos 1950, a Fundação Rockefeller começou a preocupar-se com o
crescimento populacional, voltando sua atenção para a promoção de controle
demográfico. Em 1952, John D. Rockefeller (neto) criou o Population Council,
para um melhor entendimento dos problemas relativos ao crescimento populacional
dos países subdesenvolvidos. Para os líderes da instituição norte-americana, as
taxas constantes de crescimento constituíam um dos principais obstáculos ao
desenvolvimento socioeconômico daqueles países. Embora o Population Council
tenha sido criado no início dos anos 1950, o Conselho ganhou força nas décadas
de 1960 e 197019. Nesta época, a Rockefeller passou a investir em pesquisas que
tinham como objetivo um melhor entendimento dos fatores relacionados ao
crescimento demográfico, além de programas de planejamento familiar, e de
formação de especialistas na área da reprodução.
O Population Council foi concebido por John D. Rockefeller como uma organização
internacional, sem fins lucrativos. Por cerca de duas décadas, o Conselho
voltou-se para a difusão de noções e programas de caráter neomalthusianos, em
que o crescimento populacional parecia constituir um fator decisivo de atraso
social e econômico. Fatores estruturais ' como a reforma agrária ' eram
considerados importantes frentes de atuação, mas politicamente inviáveis. Com o
surgimento de movimentos sociais ligados a questões de gênero, a própria noção
de "planejamento familiar" ganhou outro sentido, perdendo seu caráter
autoritário e impositivo. O conceito de "saúde reprodutiva" conquistou um
espaço definitivo nos programas da Fundação. Atualmente, a instituição conduz
pesquisas em três áreas principais: biomédica, saúde pública e ciência social,
relacionadas a pesquisas na área de saúde reprodutiva. Localizada na cidade de
Nova York, com um escritório em Washington, DC, a agência promove e financia
programas globais na área de saúde reprodutiva e prevenção e tratamento de
doenças sexualmente transmissíveis, particularmente doenças congênitas, sífilis
e infecções cervicais, tais como blenorragia.
Na área das artes e humanidades, o
Laura Spelman Rockefeller Memorial
20, criado em 1918, financiou eventos de música, dança, pintura e fotografia.
Atualmente, o Programa de Artes e Humanidades da Rockefeller funciona como um
veículo de difusão cultural, que tem como objetivo principal incentivar
artistas da Europa, da África, da Ásia e da América Latina, em diferentes
dimensões da atividade cultural. O objetivo do Programa é promover talentos
regionais e difundir seus trabalhos. A família Rockefeller financiou a criação
do Museu de Arte Moderna de Nova York, "MoMA", um dos maiores e mais
importantes acervos de arte contemporânea. No Brasil, o Museu de Arte de São
Paulo ' MASP foi impulsionado por David Rockefeller, que patrocinou a compra de
quadros para o acervo do famoso museu paulista (ver Rockefeller, 2003).
Nos últimos 10 anos, cinco grandes programas têm guiado as ações da Fundação
Rockefeller em vários países do Mundo. São eles: "Health Equity" (apoio à
produção de vacinas para prevenção e tratamento de doenças típicas de países do
Terceiro Mundo, buscando a eqüidade em saúde); "Food Security" (programa de
Segurança Alimentar, de apoio ao desenvolvimento de novas variedades agrícolas,
com o objetivo de aumentar a produtividade e o acesso ao mercado
internacional); "Working Communities", (apoio a comunidades populares, por meio
de financiamento em educação e habitação); "Creativity & Culture"
(financiamento na área das artes e humanidades) e "Global Inclusion" (tentativa
de amenizar os impactos da globalização em comunidades vulneráveis de países do
Terceiro Mundo, apoiando programas de inclusão social) (Rockefeller Foundation,
Relatório Anual, 2005).
OS ANOS 1950 E A ENTRADA EM CENA DA FUNDAÇÃO FORD
A entrada da Fundação Ford no cenário internacional se dá desde os anos 1950.
Neste período, a Ford assume um papel de destaque na condução das atividades
científicas e na formação de recursos humanos em escala mundial. Segundo
Villar, em 1959 o patrimônio total da Fundação Ford era de cerca de US$ 3,5
bilhões21, seguida da Fundação Rockefeller com um patrimônio de US$ 648 milhões
(Villar, 1964:372- 374).
A Fundação Ford foi criada em 1936 nos Estados Unidos por Edsel Ford e sua
mulher Eleanor Clay Ford, como uma organização filantrópica, sem fins
lucrativos. Inicialmente suas atividades se direcionaram para ações dentro do
próprio país. A Ford funcionou como organização filantrópica local no Estado de
Michigan até expandir-se, em 1952, para se tornar uma fundação de alcance
nacional e internacional. Os recursos foram doados por Henry22 e Edsel Ford por
meio de ações da Companhia Automobilística Ford '
Ford Motor Company
23. O ano de 1947 foi importante para a instituição. Henry Ford deixa uma
herança que fortalece o perfil financeiro da Fundação Ford. Em 1948, Henry e
Edsel Ford haviam falecido, e Henry Ford II assume a direção da Ford Motor
Company e da Fundação Ford (Nielsen, 1996).
Nessa época, Henry Ford II manifesta vontade de trabalhar somente com a Ford
Motor Company, e Eleanor Clay Ford sugere, então, a criação de um Comitê para
determinar a estrutura, os objetivos e as prioridades da Fundação. Os membros
são escolhidos, e, em 1952, Paul Hoffman é eleito o primeiro presidente da
Ford. Um ano depois é substituído por Robert Maynard Hutchins (Universidade de
Chicago), defensor de liberdades civis, que atraía "como um pára-raio" os
ataques da direita anticomunista sobre a Fundação. Como resultado, a Ford
sofreu investigações pelo Congresso e campanhas da mídia contra a sua direção,
mas foi a partir desse momento que a expandiu suas doações para países da Ásia,
África e América Latina (idem).
De acordo com o relatório anual da Ford de 1963, a decisão de trabalhar fora
dos Estados Unidos ' com a abertura dos primeiros escritórios na Ásia (Índia,
Paquistão, Indonésia) e América Latina ' estava fundamentada em três
convicções:
"[...] a de que dar solução aos problemas internos dos Estados Unidos
seria uma vitória vazia se o resto do mundo continuasse sujeito à
miséria e às agitações'; a de que a Fundação Ford dispunha de
recursos suficientes para oferecer uma contribuição significativa na
solução desses problemas em outros países; e a de que, por ser uma
organização independente, não-governamental, ela tinha autonomia para
aplicar seus recursos em determinados países e na solução de
determinados problemas [...]" (Ford Foundation, 1963:2 apudBrooke,
2002:13)24.
O estímulo à redução da pobreza e da injustiça social, à promoção da cooperação
internacional e ao fortalecimento dos valores democráticos foi a marca da
atuação da Fundação Ford, em escala mundial. Desde sua criação até os dias
atuais, a Ford já investiu cerca de US$ 10 bilhões em programas sociais e
educação, saúde reprodutiva e AIDS, justiça social e direitos humanos, meio
ambiente e treinamento em áreas, tais como a agricultura, além da concessão de
bolsas de estudos para as universidades dos Estados Unidos e de outros
países25.
Entre os anos de 1952 e 1983, a Fundação investiu cerca de US$ 260 milhões em
programas de estudos de população nos Estados Unidos e em outros países, assim
como em programas de prevenção contra a HIV/AIDS e naqueles de formação de
especialistas na área da reprodução26. Lembremos aqui, como apontamos
anteriormente, que nos anos 1980, a Fundação Rockefeller também passa a
financiar programas na área de prevenção contra a HIV/AIDS e na de formação de
especialistas na área de saúde reprodutiva.
Atualmente, as áreas de atuação da Fundação Ford são as seguintes:
Desenvolvimento Sustentável; Saúde Reprodutiva; Direitos Humanos; Educação e
Governo; e Sociedade Civil27. O Programa de Desenvolvimento Sustentável, por
exemplo, procura promover políticas, práticas e capacidades institucionais que
contribuam para o uso sustentável dos recursos naturais, visando à melhoria das
condições de vida de populações carentes. O Programa também busca promover o
envolvimento da população no debate das políticas públicas e estimular
encontros entre comunidades, profissionais e responsáveis pelas políticas
públicas para intercambiar experiências e estimular a melhoria das intervenções
a favor do desenvolvimento sustentável.
O Programa de Saúde Reprodutiva ' uma área em que a Fundação Rockefeller também
participa ativamente ' incentiva estudos de políticas públicas e iniciativas
que forneçam às mulheres os recursos para entender, articular e enfrentar de
forma efetiva suas necessidades em saúde reprodutiva. As ações desse Programa
envolvem a pesquisa aplicada em ciências sociais sobre questões tais como
aborto clandestino, mulheres e HIV/AIDS, além do treinamento em serviços
multidisciplinares de saúde e ciências sociais com ênfase na maior compreensão
das relações de gênero e sexualidade. Um dos objetivos maiores do Programa é
promover debates sobre ética, direitos humanos e saúde reprodutiva os quais
ajudem a formular princípios norteadores para as relações de gênero, tolerância
moral e respeito por populações socialmente vulneráveis (Ford Foundation,
Relatório Anual, 2004).
Na área de Direitos Humanos, as ONGs foram e continuam sendo as maiores
beneficiárias da Ford. Na "sua luta em prol da redemocratização", a Fundação
decidiu apoiar programas sociais tais como: reforma agrária, direitos da
mulher, direitos dos índios e luta contra o preconceito racial (Brooke, 2002:
25). Um dos principais objetivos desse Programa é estender a todos os membros
de uma comunidade o acesso à justiça e à cidadania democrática, com enfoque
especial aos grupos mais vulneráveis ' aos direitos da mulher, do negro e dos
grupos indígenas (Adorno e Cardia, 2002).
Os programas de Educação e Governo e Sociedade Civil (GCS) foram áreas em que a
Fundação Ford se destacou. Há 40 anos, a Ford apóia universidades, ONGs,
instituições e centros de pesquisa na área da educação, contribuindo para o
desenvolvimento do ensino superior em seus programas internacionais. Esse
Programa foi criado no início dos anos 1980, como um esforço para tentar
solucionar questões na área de administração pública, mas desde a década de
1950 a Ford vem apoiando estudos sobre problemas urbanos (violência, drogas,
pobreza, habitação), políticas públicas e movimentos sociais.
Na parte dedicada à administração pública, mostraremos que o pioneirismo nessa
área foi da Fundação Rockefeller, que, a partir dos anos 1930, implantou um
amplo programa nos Estados Unidos e na Europa. A Rockefeller tinha penetrado em
um espaço, que continuaria a ser explorado até o final dos anos 1950. Quando
cessaram as contribuições da Fundação à área da administração pública, a Ford
foi gradativamente assumindo o financiamento ao Programa.
Vejamos, a seguir, o apoio da Fundação Ford às Ciências Sociais no Brasil.
O APOIO DA FUNDAÇÃO FORD À EDUCAÇÃO ' O BRASIL E AS CIÊNCIAS SOCIAIS
Na década de 1960, a Ford iniciava suas atividades em países da América Latina,
apoiando pesquisas na Argentina, na Colômbia, no Chile, no Brasil e no México.
No Brasil, a Ford abre um escritório em 1962 no Rio de Janeiro e, logo em
seguida, concede suas primeiras doações a universidades públicas e instituições
do governo brasileiro. O campo do ensino superior foi, desde o começo, uma área
fundamental das atividades da Ford no país. Os primeiros esforços foram
direcionados para áreas tais como engenharia, agronomia, administração e
economia. Aos poucos, as ciências sociais tornaram-se um campo privilegiado de
ação da Fundação. A Ford incentivou os primeiros programas direcionados à pós-
graduação em várias universidades brasileiras, como o de Antropologia do Museu
Nacional e os cursos de Sociologia e Ciência Política do Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro ' Iuperj. Desse momento em diante,
a instituição investiu cerca de US$ 350 milhões em atividades que vão desde
ensino das ciências a reforma da política (Brooke, 2002:13-53).
O escritório do Rio de Janeiro está entre os mais antigos dos 15 que a Fundação
Ford mantém em diversas regiões do mundo28, para permitir parcerias de trabalho
mais próximas com os indivíduos e as instituições que recebem seu apoio.
Anualmente, a Ford distribui cerca de US$ 13 milhões em doações para centros de
pesquisa e diversas instituições brasileiras que trabalham em áreas
prioritárias. "Como nas demais regiões, o Escritório do Brasil tem sido fonte
de apoio financeiro a pessoas e organizações inovadoras comprometidas com o
progresso humano, a consolidação da democracia e a redução da pobreza e da
injustiça" (Ford Foundation, Relatório Anual, 2004). Através de doações para
pesquisa e treinamento em áreas tais como agricultura, estudos demográficos e
ciências sociais, o escritório do Rio de Janeiro colaborou ativamente na
criação de várias instituições de pesquisa e associações acadêmicas de
prestígio internacional.
A Ford ficou conhecida no Brasil principalmente por sua atuação no ensino
superior, na área das ciências sociais. Segundo Miceli (1993:41), uma das mais
importantes realizações da Fundação Ford no continente latino-americano e, em
especial no Brasil, teria sido justamente a criação de uma comunidade acadêmica
no campo das ciências sociais.
A Ford aplicou recursos em projetos que contribuíram diretamente para a
melhoria de instituições de ensino, através do incentivo à pesquisa científica
e ao treinamento profissional. Os maiores investimentos no período entre as
décadas de 1960 e 1980, da ordem de 800 mil dólares, foram doados a Capes para
repasse de bolsas a estudantes em diversas áreas, entre elas, a de Ciências
Sociais29. Em contínuo contato com cientistas sociais brasileiros, a Ford
conseguiu visualizar as mudanças que vinham afetando as ciências sociais e, em
conjunto com os cientistas brasileiros, soube definir algumas das suas
principais linhas de atuação (Campos, 2002). Segundo Campos, antes da presença
da Fundação Ford no Brasil, dificilmente se poderia dizer que existisse um
ambiente intelectual em âmbito nacional. Foi no quadro das transformações das
décadas de 1960 e 1970 que a Ford definiu sua atuação. O apoio da Ford à
criação e financiamento de instituições de pesquisa como o Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento ' Cebrap, Centro de Estudos de Cultura Contemporânea '
Cedec e Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo '
Idesp, além do apoio a Associações de Pós-Graduação e Pesquisa como a
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais ' Anpocs e
a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa ' ABEP, significou um reforço
fundamental à pesquisa social no Brasil. O objetivo era estreitar a colaboração
entre esses centros de pesquisa e as universidades, além de criar equipes
interdisciplinares e desenvolver pesquisas voltadas para questões de ordem
social. O apoio da Ford a essas instituições e, especialmente, o dado a Anpocs,
possibilitou a criação de um espaço nacional de debates no país (Brandão Lopes,
1993).
O caso do Cebrap foi particularmente emblemático. Em 1969, a fundação do
Cebrap, com recursos da Ford, foi um desafio institucional à intervenção dos
militares nas Ciências Sociais da USP (a qual que teve o aval dos grupos de
direita nos meios intelectuais e universitários paulistas). O Cebrap logo
emergiu como um espaço dos mais expressivos do pensamento social latino-
americano30, somando forças às novas correntes da intelectualidade no Rio de
Janeiro, agrupadas no Iuperj e no Museu Nacional. Ressalte-se que, nos casos
assinalados, os recursos da Ford representaram um alicerce financeiro, sobre os
quais se sedimentaram os programas de pesquisa (em São Paulo) e de pesquisa e
pós-graduação (no Rio de Janeiro).
O PROGRAMA GOVERNO E SOCIEDADE CIVIL E O APOIO À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
As Fundações Rockefeller e Ford atuaram em diversas áreas comuns, como
procuramos mostrar ao longo do texto. Uma das mais expressivas e que merece
atenção especial foi a área de administração pública. A Rockefeller foi
pioneira, implantando um amplo programa nos Estados Unidos e na Europa no
início dos anos 1930. Em 1948, quando cessaram as contribuições da Rockefeller,
a Fundação Ford assumiu o financiamento do programa.
No início dos anos 1930, a Fundação Rockefeller, através do
Spelman Fund of New York31
decidiu investir pesadamente em projetos ligados à área de administração
pública. Segundo Pierre-Yves Saunier (2000:1), "esta foi a maior tentativa de
fundações americanas em organizar um campo que eles estavam começando a
explorar, para a Europa e para os Estados Unidos, ao findar da década de 20". A
filantropia em larga escala e a atuação diversificada da instituição norte-
americana voltavam-se para este novo campo.
Rowland Egger ' professor de Ciência Política da Universidade da Virgínia e
membro de um pequeno grupo internacional preocupado com pesquisa em
administração pública ' ficou encarregado de "educar, persuadir e induzir"
líderes de várias associações européias a trabalharem em conjunto com os
americanos nesta empreitada. Várias associações participaram, entre elas a
International Union of Local Authorities' IULA, criado em 1913, e o
International Institute of Administrative Sciences' IIAS, criado em 1910, ambas
com sede em Bruxelas. Essas associações foram concebidas e organizadas por
indivíduos que tinham um forte comprometimento com questões na área de
cooperação internacional (científica, econômica e social). Além disso, buscavam
soluções para alcançar a paz mundial e para questões sociais em diferentes
campos. Durante os primeiros anos de atividades, foram organizados encontros e
realizadas importantes conferências que culminaram em uma intensa rede de
intercâmbios entre americanos e europeus.
Três áreas principais foram escolhidas pelo Spelman Fund para receberem
financiamento: habitação, planejamento urbano e governo municipal. Segundo
Saunier, a opção pelos investimentos locais deveu-se: em primeiro lugar, ao
fato de que o governo municipal era um ator importante no tocante às técnicas,
aos programas e aos gastos governamentais. E em segundo, porque as
oportunidades eram vistas como maiores possíveis, pelo fato do governo
municipal estar mais sintonizado com a vida dos cidadãos e mais envolvido em
"fazer a administração funcionar" (Saunier, 2000:7).
A Universidade de Chicago foi escolhida como sede para encontros e reuniões. O
"Grupo de Chicago"32 ' como ficou conhecido ' ganhou uma sede própria ' The
Public Administration Building (Chapin Hall) ' no campus da Universidade,
graças aos esforços conjuntos do
Laura Spelman Rockefeller Memorial33
e Spelman Fund of New York. O grupo de Chicago foi o centro da ação do Spelman
Fund. Entre os anos de 1929 e 1948, recebeu cerca de US$ 14 milhões para
projetos e pesquisas na área de administração pública.
Os objetivos e interesses do Spelman Fund eram amplos em relação à área de
administração pública. Saunier (idem) cita um memorando, escrito em 1929, no
qual se esclareceu os objetivos do Spelman Fund. De acordo com o memorando,
"[...] o interesse do Spelman Fund não se restringe ao melhoramento
de algumas práticas ou funções sociais, tais como saúde, educação e
prevenção à criminalidade, mas visa antes uma contribuição em todos
os aspectos do bem-estar público, através do crescimento da
eficiência, da competência técnica e racional e da busca de
propósitos racionais na operação da máquina governamental" (idem:6).
No início dos anos 1950, a Fundação Ford começa a operar nessa área. A Public
Administration Clearing House ' PACH ' que se projetou como uma das mais
atuantes associações em administração pública ' recebeu cerca de US$ 1 milhão
da Fundação. Em 1948, cessaram as contribuições do Spelman Fund ao grupo de
Chicago e a outras associações. No entanto, seus líderes foram habilidosos em
criar novas conexões e financiamentos, como se deu com a Fundação Ford um ator
importante no cenário mundial e que financiaria ' desde os anos de 1950 até os
dias atuais ' projetos e pesquisas na área de administração pública (ibidem).
Nos anos 1980, a Fundação Ford cria o Programa Governance and Civil Society.
Este representa hoje uma parcela importante de seu orçamento para todo o mundo.
O investimento em GCS contribuiu para a formação de pessoal, e a pesquisa em
administração pública e, indiretamente, para a modernização de setores públicos
em vários países no mundo, inclusive no Brasil34. Problemas como pobreza,
desigualdade de renda, analfabetismo, desemprego, disparidade regional e
concentração de terra recebem da Ford tratamento especial.
Nos anos 1990, as doações para a administração pública aumentaram
consideravelmente. Vários centros de excelência em universidades e,
especialmente, ONGs ' que se dedicam a temas e grupos sociais particulares como
mulheres, habitação, saúde, violência, emprego e movimentos sociais ' receberam
doações da Fundação. Ainda hoje, este é um campo privilegiado de sua atuação,
tecendo redes de solidariedade com famílias em várias partes do mundo (Índia,
África do Sul, Tailândia, Filipinas, Nepal, Zimbábue, Camboja, Quênia, Namíbia,
Zâmbia, Madagascar, Colômbia), financiando a construção de novas moradias e,
também, a regularização de terras (Ford Foundation, Relatório Anual, 2005).
Nessa mesma época, a Fundação Rockefeller também retoma suas atividades na
administração pública e passa a liberar recursos para programas sociais em
setores da educação, justiça social, habitação e direitos humanos (Rockefeller
Foundation, Relatório Anual, 2002; 2003; 2004; 2005).
COOPERAÇÃO INTERNACIONAL: AINDA UMA CRÍTICA E UMA PROPOSTA35
Ao longo do texto, procuramos mostrar a atuação de duas importantes fundações
norte-americanas na organização e criação de campos científicos tanto nos
Estados Unidos como em outros países. Procuramos apresentar a natureza de
intervenção, os objetivos e a própria organização interna dessas duas agências
internacionais. Em todas as frentes de apoio ' as dotações, as condições dos
acordos de cooperação, as concessões de bolsas de estudos ', a atuação de ambas
as fundações foi fundamental na criação de condições autônomas e universalistas
para a produção científica e na institucionalização da pesquisa de excelência.
O instrumento que possibilitou essas ações foi a cooperação internacional,
entendida, de maneira ampla, como a transferência de recursos materiais,
técnicos e humanos dos países desenvolvidos para aqueles em desenvolvimento.
Este mecanismo tem sido importante para a instalação de um setor científico em
países do continente americano, asiático e africano.
Quais teriam sido os interesses e objetivos que incentivaram as atividades
sanitárias e científicas da Fundação Rockefeller, em escala mundial, a partir
do início do século XX? Quais os propósitos de fundações norte-americanas, como
a Fundação Ford, ao carrearem recursos milionários para pesquisa e formação
profissional em vários países do mundo?
Sérgio Miceli tece considerações sobre os interesses externos norte-americanos
e "a diplomacia responsável por gerenciá-los" (1993:37). Suas reflexões sobre a
Fundação Ford cabem, a nosso ver, para entendermos a atuação da Fundação
Rockefeller em escala mundial. Do mesmo modo que aquele autor, acreditamos que
a brutal cobiça norte-americana em relação às economias dependentes como a
brasileira não constitui um fator explicativo ao qual se possa atribuir, seja o
método de atuação, seja o caráter dos investimentos efetuados pelas Fundações,
entre os anos 1910 e o segundo pós-guerra, em vários países no mundo e, em
especial, no Brasil. As injunções da política externa norte-americana não
conseguem por si só dar conta do envolvimento daquelas Fundações com cientistas
e intelectuais latino-americanos, africanos e asiáticos.
Para Luiz Antonio de Castro Santos, uma "teoria da ação", que contemple as
grandes fundações ligadas à filantropia científica, deve postular uma relativa
independência ou "disjunção" entre os campos da ciência aplicada e da economia
(Castro Santos, 2004). Desse modo, só a análise empírica poderá estabelecer a
medida na qual os dois campos se afastam ou se confundem, em situações
históricas precisas.
As singularidades dos países atendidos (tradições médicas, diversidade
cultural, diversidade política, movimentos populares etc.) afetaram enormemente
o modo como as relações e interesses das fundações norte-americanas se
expressaram na institucionalização da ciência naqueles países. Os integrantes
das primeiras missões científicas, tanto da Fundação Rockefeller quanto, mais
tarde, da Fundação Ford, foram sensíveis às marcantes diferenças entre os
países latino-americanos, africanos e asiáticos e à capacidade de expansão
institucional dos sistemas de produção intelectual, científica e acadêmica dos
países atendidos.
Os documentos consultados, principalmente aqueles referentes ao período pós-
guerra, mostram que a manutenção de governos democráticos e a resistência à
expansão comunista figuravam entre as preocupações do governo dos Estados
Unidos e dos dirigentes das fundações norte-americanas. Entretanto, a
concretização dessas metas genéricas podia passar ao largo de dilemas ou
desafios concretos como, por exemplo, a capacidade de expansão institucional
autônoma dos sistemas de produção intelectual, científica e acadêmica dos
países atendidos (Miceli, 1993:39).
Ainda que interesses comerciais e atividades humanitárias necessariamente não
se excluíssem, ao invés de seguir uma pauta impositiva, as instituições
científicas norte-americanas procuravam adaptar suas pesquisas e atividades a
temas que eram particulares a cada país estrangeiro36. Nos países da América
Latina em que a Fundação Rockefeller esteve presente, "o pensamento
nacionalista influenciou não só na seleção de temáticas, mas também fez com que
os cientistas reclamassem para seus países suas próprias instituições,
laboratórios e bibliotecas" (Cueto, 1992:11). É certo que estas experiências
não se constituíram somente de êxitos. As parcerias institucionais frutíferas
não excluem embates ou lutas simbólicas. Se houve efeitos duradouros e
positivos da ação das fundações norte-americanas, estes se concentraram,
sobretudo, na capacitação científica e tecnológica dos países em
desenvolvimento.
Havia, por certo, uma "forma sutil de controle" que se instalava na relação
entre o governo dos Estados Unidos e os dirigentes das fundações norte-
americanas com a comunidade científica dos países assistidos, na medida em que
os trustees determinavam as áreas que seriam apoiadas e, por conseguinte, a
agenda mais geral de temas e objeto (Marinho, 2001). No entanto, de modo geral,
tanto a Fundação Rockefeller quanto, mais tarde, a Fundação Ford, defendiam a
autonomia do pesquisador na definição de temas e objetos de pesquisa. Essa
autonomia se estendia aos bolsistas, os quais tinham liberdade para escolher a
instituição onde gostariam de realizar seus estudos. A Rockefeller estabelecia
critérios universalistas de mérito ' alicerçados na competência acadêmica ' na
seleção dos candidatos a bolsas de estudos, fugindo à influência de
favoritismos (Castro Santos e Faria, 2003).
Na esfera de preparação de recursos humanos no âmbito acadêmico, tanto a
Fundação Rockefeller quanto a Fundação Ford tiveram atuação destacada. As
primeiras bolsas de estudos foram concedidas pela Rockefeller no início dos
anos 1920 na área biomédica. A Fundação Ford concedeu suas primeiras bolsas a
partir de inícios de 1960 na área de ciências humanas e sociais e da educação,
com a finalidade de oferecer oportunidade e condições de trabalho de
investigação a seus bolsistas, quando do regresso aos seus países de origem.
Foram períodos férteis e fecundos na qual as instituições investiram
intensamente em pesquisa e na formação de profissionais.
Como procuramos indicar ao longo do texto, uma das áreas em que as
contribuições da Fundação Rockefeller foram mais significativas foi a
biomédica. O apoio da Rockefeller às ciências biomédicas prolongou-se por
várias décadas. Vários países receberam recursos financeiros e humanos para
montagem de serviços de saúde, formação profissional e campanhas sanitárias. A
atuação da Fundação Rockefeller foi importante não só para o desenvolvimento
dos serviços médico-sanitários e científicos em vários países, mas também no
tocante à educação médica. Entre os anos de 1916 e 1940, além de promover
campanhas sanitárias de combate às endemias, atuou também na promoção do ensino
médico. Já a Fundação Ford teve participação destacada no apoio às ciências
sociais não só no Brasil, mas em outros países latino-americanos, africanos e
asiáticos. Ambas as instituições destacaram-se no apoio às áreas de ciências
naturais, de educação superior e administração pública.
É importante ressaltar que as mudanças de orientação (por exemplo, no tocante a
programas direcionados para projetos de justiça e inclusão social) parecem
relacionar-se, por vezes, à presença ou não de familiares dos clãs à frente das
fundações. No pós-guerra, os dados indicam uma forte inflexão conservadora no
comportamento da Fundação Rockefeller com a entrada de um membro da família na
política (Nelson Rockefeller)37. Nesse período, os critérios universalistas de
avaliação, seleção e doação passam a ser fortemente afetados por valores
político-ideológicos ' é o que Castro Santos define como a politização perversa
da filantropia científica (cf. Castro Santos apudMarinho, 2001). O
conservadorismo passa a ser a marca da atuação da instituição. Entre os anos de
1950 e 1980, a Rockefeller pouco investiu em programas sociais, salvo se
denominarmos "social" a preocupação com o crescimento da população no Terceiro
Mundo, o que seria discutível. No caso da Fundação Ford, é válido assinalar que
a abertura para programas ligados a temas da cidadania e minorias sociais
ocorre justamente quando Henry Ford II deixa a direção da Fundação, em 1952,
passando a instituição a ser dirigida por um grupo preocupado com as questões
das liberdades civis (Nielsen, 1996).
É possível dizer que a cooperação internacional favoreceu a capacitação
científica e tecnológica nos países em desenvolvimento. Ao discutir sobre os
argumentos contrários e favoráveis ao investimento externo norte-americano,
Hélio Jaguaribe (1967:77) diz que os Estados Unidos tinham duas alternativas:
"ou se encaminhar no sentido da preservação e do fortalecimento das estruturas
nacionais dos países subdesenvolvidos, embora não em sua forma e limites
atuais, ou se dirigir no sentido da completa supressão destes últimos". No caso
brasileiro, diríamos que a Rockefeller teve um papel de "preservação e
fortalecimento" até pelo menos os anos da Segunda Guerra. Após o Golpe de 1964,
é a Ford quem assume um papel de contrapeso às inclinações antidemocráticas e
de exclusão social do regime militar. Essas questões da preservação das
estruturas nacionais são de grande importância, pois, ainda segundo Jaguaribe,
a assistência técnica só tem valor real e duradouro quando constitui parte de
um esforço nacional no sentido daquela preservação. No que tange às
instituições doadoras, a cooperação internacional só adquire reconhecimento
quando se baseia no respeito pelas estruturas nacionais dos países receptores.
Dentro dessas possibilidades, haverá sempre um amplo leque de alternativas e
modelos de cooperação.
Tanto Jaguaribe (1967) como Hirschman (1971), em seus estudos clássicos,
apontaram os limites e possibilidades da cooperação como ferramenta para o
desenvolvimento da capacitação científica, resultando em benefícios para ambos
os partícipes dos projetos. A cooperação científica entre os países doadores e
os receptores e os padrões e modelos de financiamento demandam instituições
fortes nos países receptores, capazes não só de formular as agendas e demandas,
mas de perceber os resultados das pesquisas como o produto da interação entre
distintos atores (governo, agências internacionais, organizações não-
governamentais, pesquisadores) (Velho, 1997). Pode-se sugerir que as agências
de cooperação internacional ' tanto as mais "antigas", como a Ford e a
Rockefeller, como as ONGs dos tempos atuais (muitas delas auxiliadas por
aquelas fundações, deve-se lembrar aqui) ' têm mudado seus estilos de atuação,
democratizando as regras e contratos que envolvem as relações de cooperação
entre países industrialmente avançados e os periféricos. Segundo outros
autores, essas agências estão cada vez mais buscando parcerias não apenas com
cientistas, universidades e centros de pesquisa, mas com organizações
comunitárias e movimentos sociais nos vários países assistidos (Bezanson e
Oldham, 2000).
NOTAS
1. É conhecida a contribuição de Simon Schwartzman (1979; 2001) ao estudo da
formação da comunidade científica no Brasil. Um Espaço para a Ciência (nova
versão de Formação da Comunidade Científica no Brasil) mantém o capítulo sobre
a atuação da Fundação Rockefeller e o apoio financeiro à ciência profissional
no Brasil. Entretanto, a edição recente, de 2001, no capítulo sobre a
Rockefeller, deixou de rever algumas interpretações e, particularmente, manteve
dados estatísticos que necessitam de correção. Quanto aos dados históricos e
estatísticos, a Fundação Rockefeller foi oficialmente fundada em 1913 e não em
1909, como indica o texto. Uma segunda imprecisão diz respeito ao apoio da
Fundação à área médica. De acordo com um quadro de dotações da Rockefeller para
pesquisa e ensino superior no país (ver p. 247 da nova versão), a área médica
brasileira só teria recebido apoio a partir da década de 1950, juntamente com
as Ciências Naturais e a Agricultura. Dados colhidos no Rockefeller Archive
Center, nos Estados Unidos, indicam, no entanto, o apoio à área médica no
Brasil, desde inícios da década de 1920. Já nos primeiros anos da presença da
Fundação no Brasil, e particularmente a partir dos anos de 1920, foram
concebidas bolsas de estudos para cientistas brasileiros, não só no campo da
saúde pública, mas também no da medicina. Ver The Rockefeller Directory of
Fellowship Awards. "Roster of Fellows and Scholars, 1917-1950", Relatório
Anual, 1950. Além do apoio a bolsistas, a Faculdade de Medicina e Cirurgia de
São Paulo recebeu, entre os anos de 1916 e 1931, apoio institucional e
financeiro (ver Marinho, 2003). Finalmente, parece-nos difícil sustentar que o
padrão norte-americano de ensino e pesquisa tenha sido, como sugere Schwartzman
(2001:247), "simplesmente copiado o mais proximamente possível, para servir de
modelo a ser seguido". A nosso ver, não se deu uma relação de "cópia" ou
importação passiva, mesmo porque as tradições francesa e alemã já eram parte de
nossa herança científica "na periferia", quando aqui chegaram os pesquisadores
norte-americanos. Para uma análise dessas questões (naturalmente sujeitas a
interpretações distintas), ver Castro Santos e Faria (2003).
2. Em relação ao Brasil, por exemplo, os acordos de cooperação realizados entre
a Fundação Rockefeller e os governos dos estados brasileiros, entre as duas
grandes guerras, tiveram que passar pela aprovação e consentimento do Governo
Federal. No caso brasileiro, também, existia autonomia do pesquisador na
definição de objetos de pesquisa, ainda que houvesse certa delimitação de campo
temático.
3. Em trabalhos anteriores, discutimos a atuação da Fundação Rockefeller no
Brasil: as parcerias que estabeleceu com cientistas e sanitaristas brasileiros,
o apoio às campanhas de combate à ancilostomíase, à malária e à febre amarela,
a cooperação na área de saúde pública etc. Para um estudo aprofundado sobre a
atuação da Fundação Rockefeller no Brasil e em outros países, ver: Collier e
Horowitz, 1976; Howe, 1982; Marinho, 2001; Cueto, 1994; Castro Santos e Faria,
2003.
4. Ver Rockefeller Foundation, Relatório Anual, 1920.
5. Ver The Rockefeller Directory of Fellowship Awards. "Roster of Fellows and
Scholars",1917-1950, 1950. Ver também Rockefeller Archive Center, "Súmula do
Presidente, extraída do relatório anual da Fundação Rockefeller 1954/1955",
1956.
6. Para um estudo sobre a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, ver
"25 anos de atividades ' A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
festeja hoje o 25º aniversário de sua instalação". Inventário Capanema, GC 38.
04. 02, Doc. 140, CPDOC. Ver também Candeias (1984) e Marinho (2001).
7. Sobre a trajetória histórica do Instituto de Higiene de São Paulo, ver
Candeias (1984); Faria (1999); Campos (2002). Outras instituições que receberam
recursos humanos e financeiros da Fundação Rockefeller entre os anos de 1916 e
1950, ver Anexo_I.
8. Sobre a Escola Anna Nery, consulte-se Barreira (1975) e Barreira e Santos
(1999).
9. Para um estudo da cooperação da Fundação Rockefeller com a Universidade de
São Paulo, ver Marinho (2001).
10. O fechamento do escritório da Rockefeller na Alemanha e as dificuldades
enfrentadas pela China ' mergulhada em uma guerra civil ' contribuíram para o
aumento do leque de interesses da instituição norte-americana na região. Neste
período, a Rockefeller reorganiza a International Health Division ' IHD,
criando ou reorganizando escritórios nas principais capitais latino-americanas.
Entre os mais importantes estavam o Escritório de Buenos Aires e o Escritório
do Rio de Janeiro (ver Costa, 2004).
11. A mudança para a área de ciências naturais não deve ser vista,
comprovadamente, como uma questão política, ainda que se possa sugerir as
dificuldades de um campo como a saúde pública, muito mais afeito à
"politização" do que, por exemplo, uma pesquisa sobre milho híbrido. Tudo
indica que a área de saúde pública não estava dando bons rendimentos, ao
contrário da área de genética, por exemplo. É certo que não houve na saúde
pública o sucesso esperado.
12. Professor de Agricultura, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
em Piracicaba.
13. Professores de Zootecnia, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
em Piracicaba.
14. Carlos Krug especializou-se em genética na Universidade de Cornell, nos
Estados Unidos.
15. Formado em botânica na Universidade de Breslau. Em 1924, recebeu uma bolsa
de estudos da Fundação Rockefeller na Universidade de Harvard. Depoimentos
CPDOC/FGV: História Oral, 1985, 156 p. História da Ciência, Finep/CPDOC.
16. Em 1937, assumiu o cargo de professor catedrático de Biologia Geral da
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Foi um especialista renomado
na área da Genética (ver Lacaz, 1963).
17. Biólogo russo que emigrou para os Estados Unidos na década de 1920.
18. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, a Rockefeller continuou apoiando
programas na área da agricultura, mas direcionou sua atenção, também, para
projetos de preservação do meio ambiente, por meio de promoção de
desenvolvimento sustentável e formação de recursos humanos.
19. Entre os anos de 1954 e 1983, o Population Council financiou o Programa
"População", que tinha como uma de suas metas criar e aprimorar métodos
contraceptivos. Ver Rockefeller Foundation, Relatório Anual, 2003.
20. Empresas pertencentes à família Rockefeller, além do Laura Spelman
Rockefeller Memorial: Spelman Fund of New York(1928);Davison Fund
(1930);Rockefeller Center(1939);Rockefeller Brothers Fund(1940).
21. Em valores constantes de 1959.
22. Industrial norte-americano, nascido em Detroit em 1863. Em 1896, fabricou
seu primeiro automóvel e três anos depois fundou, em sociedade com dois amigos,
a Detroit Automobile Co., que teve duração de um ano. Em 1903, fundou a Ford
Motor Company, com recursos próprios. Dez anos depois, as linhas de montagem da
Ford produziam um carro a cada 15 segundos. Henry Ford sempre demonstrou
interesse pela agricultura. No Brasil, obteve a concessão de uma vasta região
da Amazônia, que ficou conhecida como "Fordlândia", onde tentou desenvolver
plantações racionais de seringueiras. Henry Ford faleceu em 1947, deixando
grande parte de sua fortuna para a Ford Foundation (ver Nielsen, 1996).
23. A Fundação Ford não mais possui ações da Companhia Ford. Seus investimentos
são administrados para ser uma fonte permanente de recursos para custear seus
programas (ver Ford Foundation, Relatório Anual, 2003; 2004).
24. Ver também Berresford(2005).
25. Ver o site www.fordfound.org/global/office/index, último acesso em 20 de
setembro de 2004.
26. Segundo Mello e Souza, o apoio da Ford à área da reprodução no Brasil "foi
decisivo para o desenvolvimento do campo da demografia, de programas de
planejamento familiar, do conhecimento biomédico sobre reprodução e,
conseqüentemente, para a promoção do debate público sobre políticas
populacionais". Ainda segundo Mello e Souza, entre 1992 e 2002, a Ford
desembolsou cerca de US$ 2,5 milhões para financiar o Programa de Pesquisa e
Formação em Saúde Reprodutiva e Sexualidade do Núcleo de Estudos Populacionais
' Nepo, vinculado à Unicamp. No início de 2000, o Programa havia formado 160
profissionais e pesquisadores (Mello e Souza, 2002:131-164).
27. Estas áreas fazem parte de três grandes Programas da Fundação Ford:"Asset
Building & Community Development" (Economic Development, Community &
Resource Development);"Peace & Social Justice" (Human Rights; Governance
& Civil Society); "Knowledge, Creativity & Freedom" (Education,
Sexuality, Religion; Media, Arts & Culture)(ver Ford Foundation, Relatório
Anual, 2004; 2005).
28. São eles: Nova York, cidade do México, Rio de Janeiro, Santiago, Moscou,
Cairo, Lagos, Nova Delhi, Nairobi, Johannesburgo, Jacarta, Hanói, Beijing. Em
2004, a Ford abriu mais dois escritórios (Warsaw e Jerusalém).
29. Ver, no Anexo_II, os maiores donatários d-
a Fundação Ford no Brasil de acordo com o total de doações recebidas (em
dólares de 2001).
30. Depoimento de Luiz Antonio de Castro Santos, Pesquisador-Sênior do Cebrap,
entre 1985 e 1990, e membro de sua diretoria, em 1988/1989. Entrevista
concedida em novembro de 2005, Rio de Janeiro.
31. Empresa criada em 1928 e financiada pela Fundação Rockefeller, ver nota 20.
32. Em 1889, a família Rockefeller ajudou a criar a Universidade de Chicago.
Até 1910, foram doados cerca de US$ 35 milhões para a instituição.
33. Este novo ramo da administração pública foi incorporado, também, peloLaura
Spelman Rockefeller Memorial, criado em 1918. No início das atividades, o Laura
Spelmancontribuiu com cerca de US$ 10 milhões para projetos nesta área. Ver
página 169 deste texto.
34. Para um estudo mais aprofundado sobre o apoio da Fundação Ford à área de
administração pública no Brasil, ver Station e Welna (2002).
35. Conforme sugestão do trabalho clássico de Hirschman (1971).
36. Em trabalho recente (Castro Santos e Faria, 2003), procuramos aprofundar
essa análise.
37. Nelson Rockefeller foi assessor especial para a América Latina desde o
final da década de 1940 até a década de 1970.