Cidade, territórios e cidadania
INTRODUÇÃO
Este trabalho é uma reflexão sobre a relação entre a cidadania e a questão
urbana brasileira. Mais especificamente, de como a configuração urbana das
grandes cidades, construídas no contexto da modernização conservadora,
repercute na possibilidade de massificação de uma cultura cívica orientada para
a ampliação da participação social e política na vida citadina. Pois é
sobretudo na vida local que a cidadania pode emergir, é ali que pode ser
estabelecida uma relação concreta com a coisa pública, e as possibilidades de
que isso ocorra estão fortemente condicionadas à inscrição social e política do
mundo popular no espaço urbano.
Para desenvolver esta reflexão, o ponto de partida analítico é o da
problematização da fronteira entre a cidade formal e a informal, e toma-se como
referencial a situação das favelas do Rio de Janeiro, caso-limite de
informalidade.
De uma perspectiva sociológica, a categoria "favela" não traduz
apenas uma determinada forma de aglomerado habitacional, mais que isso, exprime
uma configuração ecológica particular, definida segundo um padrão específico de
relacionamento com a cidade. Um aglomerado habitacional transforma-se em
"favela" à medida que desenvolve um microssistema sociocultural
próprio, organizado a partir de uma identidade territorial, fonte de um
complexo de instituições locais que estabelecem interações particularizadas com
as instituições da cidade. Historicamente, a categoria "favela" foi
consagrada para nomear a forma de habitação popular construída nas encostas do
Rio de Janeiro, ainda no final do século XIX, por uma população
majoritariamente composta de ex-escravos que antes viviam nos cortiços
existentes em áreas do entorno do centro da cidade.
Gradativamente, o substantivo favela vai ganhando múltiplas conotações
negativas, que funcionam como antônimos de cidade e de tudo que a ela
modernamente se atribui: urbanidade, higiene, ética do trabalho, progresso e
civilidade1. Ato contínuo, também se incorpora ao vocabulário corrente o verbo
"favelizar", e com isso o substantivo favela se vai emancipando de
sua conotação original, presa à descrição do espaço, assumindo um significado
transcendente, que remete a uma dimensão cultural e psicológica, a um tipo de
subjetividade particular, a do "favelado", homem construído pela
socialização em um espaço marcado pela ausência dos referenciais da cidade.
Daí que conjuntos habitacionais e loteamentos irregulares2 ' dois dos
principais espaços de habitação popular das cidades brasileiras ', embora com
um padrão mais formal de ocupação do solo, também possam "favelizar-
se", isto é, assumir características socioculturais semelhantes àquelas
encontradas nos espaços típicos das favelas, do que é sintoma a existência dos
tradicionais "donos do lugar", e mesmo de gangues de traficantes de
drogas e de armas em muitos desses aglomerados habitacionais.
A polissemia da palavra favela indica um processo de favelização generalizado,
não apenas no Rio de Janeiro, mas nas grandes cidades brasileiras de modo
geral, sobretudo nas duas últimas décadas, com o crescimento exponencial dos
aglomerados habitacionais populares informais, nas áreas centrais e também nas
suas periferias3. Disseminam-se pelas cidades, inclusive em bairros de seus
subúrbios tradicionais, características que historicamente singularizam a
favela enquanto configuração ecológica, a saber: sua vocação para o
desenvolvimento de organizações socioculturais fortemente enraizadas na vida
local, às quais não faltam elementos de uma ordem jurídica singular, com a
existência de autoridades informais locais, validadas por identidades coletivas
territoriais, que também servem de base para a negociação política de acesso a
bens públicos da cidade.
Desse ângulo, a cidade aparece como uma agregação de territórios atomizados '
fenômeno que não deixa de ter como contraface as cidadelas das classes média e
alta, erguidas sob a forma de condomínios residenciais (Caldeira, 2000). Por
isso, a categoria território apresenta vantagens analíticas importantes em face
da categoria favela: é mais neutra e mais precisa na identificação do fenômeno
da fragmentação das cidades e de seus efeitos sociais e políticos sobre o
processo de construção da cidadania no mundo popular. A noção de território
remete à idéia de um microcosmo, que inclui diferentes formas de organização da
habitação popular ' inclusive a favela ' e que se diferencia da cidade, que é o
domínio dos direitos universais, fonte da igualdade e da liberdade; em uma
palavra, da cidadania.
Nossa hipótese é que a territorialização da cidade tem funcionado como um
importante limitador do pleno uso popular do potencial político inerente aos
regimes democráticos. Nesse sentido, a favelização generalizada não é apenas um
fenômeno decorrente da desigualdade social, constitui-se ele mesmo em causa
importante da reprodução e até do aprofundamento da desigualdade social nas
jovens democracias da América Latina.
Daí a importância da variável território para o tema da democracia popular;
enquanto os regimes democráticos facultam amplo acesso à liberdade individual e
à participação política, a lógica territorial ' originalmente inscrita na forma
de favela, e agora generalizada nas diferentes áreas ecológicas da habitação
popular ' tende a aprisionar seus moradores em espaços fortemente controlados,
onde faltam condições mínimas para o exercício dos mais elementares direitos
civis, a começar pelo direito à integridade física. O círculo fecha-se quando
se considera que é sobretudo a partir dos territórios e não da cidade que o
mundo popular constrói suas formas de participação política, em especial a do
voto.
Segundo nossa hipótese, portanto, a cidadania popular está atravessada pelas
contradições inscritas no espaço urbano, que produzem uma subjetividade
encapsulada no interior dos muros dos territórios, forjando um indivíduo com
poucas referências do direito citadino; um indivíduo que é fruto de uma
sociabilidade ambígua, pois o território é, de um lado, fonte de toda sorte de
violência, que prospera na exata medida em que faltam os direitos, e, de outro,
uma dimensão que o envolve e protege das forças desumanas do mercado; ao mesmo
tempo que o priva da cidade, o território oferece-lhe alguma forma de acesso à
comunidade (Burgos, 2003:88-89). Daí se explica o sempre renovado sentimento de
lealdade que boa parte de seus moradores nutre pelas instituições locais.
Repõe-se, assim, o desafio político da integração social do espaço urbano, que
remete à experiência da Chicago da virada do século XIX, quando se tomou
contato com um tipo novo de violência urbana, oriunda de conflitos decorrentes
da superposição entre culturas e territórios. Guardadas as devidas diferenças,
é o mesmo desafio à superação das fronteiras territoriais que precisa ser
enfrentado no Brasil contemporâneo, e no Rio de Janeiro em particular. Para
levar adiante nosso objetivo, vou apresentar uma breve reconstituição do
processo que levou à territorialização desta cidade, para, em seguida, refletir
sobre as oportunidades que esse mesmo processo abre para a sua superação, na
medida em que permite descortinar um horizonte em que é possível imaginar um
novo pacto citadino, fundado na liberdade e na igualdade.
DO "CONTROLE NEGOCIADO" À "CIDADE ESCASSA"
O desenvolvimento desta seção será feito a partir da utilização heurística de
dois conceitos-chave para se pensar a história da cultura política das cidades
brasileiras: o de "controle negociado" e o de "cidade
escassa". A opção por ambos justifica-se pela ênfase do nosso argumento na
questão da integração social. Com isso, deixamos de lado outros conceitos
importantes da sociologia urbana brasileira, como a noção de "espoliação
urbana", criada por Lucio Kowarick (2000), e que, seguindo a linha de
investigação aberta por Manuel Castells (2000), articula a questão urbana à
lógica de exploração do capitalismo industrial. A "espoliação urbana"
chama a atenção para a lógica urbana da exploração da força de trabalho
promovida pelo capital; é útil, portanto, para dar conta de um tecido urbano
que está integrado pelo capitalismo industrial, e não por acaso guarda estreita
relação com a experiência fordista de São Paulo.
Todavia, o pós-industrialismo recoloca a especificidade da questão da
integração urbana, invertendo a tônica preexistente, que tendia a colocar como
marginal experiências urbanas como a do Rio de Janeiro, onde o mercado de
trabalho nunca foi capaz de substituir outras fontes culturais produtoras de
solidariedade. Daí que a ênfase em conceitos que operam na chave da integração
social e não na da luta de classes ganhe, agora, um estatuto mais universal
para se pensar as cidades brasileiras.
O conceito de "controle negociado" foi formulado a partir da crítica
ao clientelismo e ao assistencialismo, desnudando as contradições inerentes a
um certo padrão de integração social que acompanhou a reestruturação das
principais cidades brasileiras no contexto da modernização das relações de
produção, que começa a ocorrer a partir dos anos 40. Embora presente em
diversos trabalhos, com outras denominações (Diniz, 1982), esse conceito foi
melhor explicitado em trabalho recente de Luiz Antonio Machado da Silva (2002).
Conforme veremos adiante, ele torna inteligível o assimétrico sistema de trocas
existente entre a cidade e os territórios; o mais importante para nós, contudo,
será o fato de que o próprio conceito traz implícita a indicação de que a
destruição da realidade que pretende descrever, embora desejável, produziria
uma crise de solidariedade.
É exatamente essa crise de solidariedade, provocada pelo desencaixe entre os
interesses e o quadro político-institucional, que o conceito de "cidade
escassa" quer tornar inteligível. Formulada por Maria Alice Rezende de
Carvalho (2000), a concepção de articulação entre o urbano e o político nele
contida é extremamente fértil, de um lado, porque inova ao assinalar a ausência
de cultura cívica como chave para se compreender a desordem urbana
experimentada no cotidiano violento das grandes cidades brasileiras, e, de
outro, porque confere novo sentido à crítica presente no paradigma anterior;
enquanto o conceito de "controle negociado" está comprometido com uma
agenda de emancipação e autonomização, o de "cidade escassa"
reinstala o tema da ordem e da solidariedade, mas agora como guia para se
pensar a construção de uma cidade de homens livres e iguais.
Como todo conceito, o de "controle negociado" contém uma dimensão
descritiva e outra normativa. A primeira dá conta do arranjo clientelista que
acompanha a urbanização decorrente do processo de modernização econômica; a
segunda aponta para seu aspecto crítico, chamando a atenção para o fato de que
esse arranjo está fundado em uma incorporação subordinada do mundo popular à
cidade.
O ponto de partida de Machado da Silva (2002) para formular o conceito de
"controle negociado" é o seu entendimento de que a incorporação da
favela à cidade se deu à custa da "constituição de uma categoria social
subalterna (do favelado)", determinando um padrão de integração urbana
"fragmentado e fortemente hierarquizado" (idem:224). É por isso que a
constituição do ator coletivo construído pelos moradores das favelas, por meio
do movimento associativo que se desenvolve desde fins dos anos 50, não conduz a
um processo de emancipação política, mas apenas a uma redefinição parcial do
padrão de relacionamento com a cidade. Como afirma Machado da Silva, "ao
mesmo tempo que as agências estatais e os demais atores políticos desistem de
impor uma solução final de cima para baixo, associações de favelados despontam
como atores coletivos" (idem:229).
Ainda segundo Machado da Silva, "os objetivos das disputas mudam, as
formas de mobilização adaptam-se às conjunturas, mas o controle institucional
assim negociado reproduz o padrão secular de integração fragmentada e o enorme
diferencial de poder que a sustenta" (idem:235). Para isso corroborariam
as próprias políticas públicas voltadas para a integração urbana. Machado da
Silva observa que o programa Favela-Bairro, por exemplo, seria um caso exemplar
de política pública que, concebida com base em critérios técnicos, supostamente
imunes às práticas clientelistas, acabaria por tornar opacos os critérios do
processo de seleção das favelas a serem beneficiadas, e o resultado seria uma
"pulverização hiperlocalista dos interesses [...] que enfraquece o
conjunto das mobilizações e despolitiza as reivindicações". Configura-se,
assim, "um imenso conflito horizontal entre as favelas para decidir quais
delas serão beneficiadas" (idem:232). Disso se deduz que a luta política
pela cidade se reduz a uma luta pelo território.
O "controle negociado" decorre, portanto, da vigência de mecanismos
de incorporação subordinada à cidade, que são manipulados por intermediários
políticos especializados em traduzir os interesses dos moradores dos
territórios em demandas de acesso aos bens públicos proporcionados pela cidade.
Sua reprodução ocorre por meio de arranjos de tipo clientelista, que
comprometem a autonomia individual e coletiva dos moradores dos territórios,
fragilizando seu status de cidadão. Desse modo, a instrumentalização da
política de território converte-se em substituto funcional da luta pela
afirmação de direitos em face do Estado4.
O conceito de "controle negociado" torna inteligível o padrão
historicamente desenvolvido de articulação entre cidade e territórios, desde
quando começam a se fazer sentir os efeitos do processo de modernização das
relações de produção. O avanço do mercado formal de trabalho com o
assalariamento e a ênfase no consumo são apenas algumas das principais
características oriundas da modernização, que transforma completamente a
sociabilidade urbana, deflagrando a configuração de ideais igualitários para a
sociedade, baseados no mérito e na ética do trabalho, e definindo uma
subjetividade individualista e burguesa, orientada pelo desejo de mobilidade
social.
De outra parte, os grandes fluxos migratórios de moradores de outras regiões na
direção dos territórios das principais cidades do país devem ser sempre
lembrados quando se quer compreender o processo de reestruturação das relações
dos territórios com a cidade. Na medida em que altera o padrão de sociabilidade
anteriormente existente, a chegada em massa de imigrantes às cidades durante
mais de quatro décadas é decisiva para a erosão do padrão de integração social
anterior, baseado em interações de tipo face a face e na reciprocidade
interpessoal; no seu lugar, afirma-se um padrão mais impessoal de integração
social, baseado em frágeis identidades coletivas territoriais.
No Rio de Janeiro, tais identidades coletivas chegaram a animar a formação de
um vigoroso associativismo de favelas, que, no entanto, foi sendo solapado pela
implantação de um modelo corporativista, ainda no início dos anos 60, que
transforma boa parte das associações locais em representantes do poder público
junto à população das favelas; como contrapartida da lealdade e cumplicidade
das lideranças locais, o poder público oferece a promessa de urbanização.
Estavam criadas as condições para a organização de um azeitado sistema
clientelista, que irá desenvolver-se sobretudo a partir do final dos anos 60,
já no contexto do regime militar (Burgos, 1998:31 e ss.).
O padrão clientelista, baseado na identidade coletiva dos territórios ' que no
Rio de Janeiro chegou a ser apelidado de "política da bica d'água" ',
torna-se bem-sucedido, proporcionando a aquisição de bens públicos e integrando
seus moradores à cidade5. Seu custo, como já foi sublinhado, foi o processo de
incorporação subalternizada de sua população à vida da cidade (Machado da
Silva, 2002).
Em seu Máquina Política e Voto Clientelista no Rio de Janeiro, Eli Diniz (1982)
descreve esse tipo de vinculação do território com a política, que assemelha o
arranjo clientelista do Rio de Janeiro a uma espécie de coronelismo urbano.
Organizado a partir de uma estrutura fortemente hierarquizada, com sede no
Poder Executivo, o circuito do poder sofria a intermediação de políticos
situados no Legislativo, que se apoiavam nos líderes comunitários, que por seu
turno atuavam como vias de acesso à população do território, a qual respondia
com o voto, fechando o circuito dessa relação de lealdade, baseada em um
sistema de troca de favores.
Em trabalho contemporâneo ao de Eli Diniz, em A Máquina e a Revolta, Alba
Zaluar (1985) observava, a partir de consistente etnografia da Cidade de Deus '
conjunto habitacional localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro ', o quanto a
identidade coletiva territorial, desconectada de uma cultura cívica capaz de
torná-la estruturante do exercício da liberdade, acabava por tornar seus
moradores presas fáceis de todo tipo de mecanismo de subordinação, como o jogo
do bicho e o narcotráfico.
Tanto o trabalho de Diniz como o de Zaluar descrevem um padrão de integração
social que pode ser compreendido a partir do conceito de "controle
negociado". Quando levado ao limite de suas potencialidades, esse padrão
dá lugar à atomização da cidade em territórios.
Presentemente, a comunicação política entre os territórios e a cidade segue se
dando por meio de canais tipicamente clientelistas; e como antes, as
"lideranças comunitárias" ' como são nomeados esses atores políticos
tão importantes para a engrenagem política das grandes cidades brasileiras '
seguem desempenhando o papel pragmático de lutar pelos interesses imediatos de
seus territórios, assumindo, em contrapartida, compromissos políticos que no
momento das eleições devem traduzir-se na lealdade dos moradores com os
políticos. Mas algo de novo está ocorrendo e precisa ser salientado: essa
dinâmica política se tornou ainda mais cínica, pois na ponta da engrenagem se
encontra um eleitor que, embora mais livre dos compromissos políticos das
lideranças locais, sobretudo quando se trata de eleição para cargos
majoritários, também tem consciência de que a engrenagem na qual a liderança do
território está envolvida pode trazer benefícios bastante tangíveis. Ao lado
disso, a própria ampliação do acesso a equipamentos urbanos ' que se vem dando
de modo mais acentuado a partir dos anos 80 (Valladares e Preteceille, 2000) '
e a assimilação da noção de direitos contribuem para tornar mais exigentes os
moradores e as lideranças locais, gerando demandas sociais crescentes, forçando
uma negociação política em bases bem mais abrangentes do que aquela que
caracterizava a "política da bica d'água". Com isso, o voto ' e o
eleitor ' vale muito mais agora do que no contexto do clientelismo tradicional.
Assim, embora não se possa falar do fim da lógica clientelista, é necessário
reconhecer a vigência de um processo discreto de transformação, que vai dando
lugar a um padrão qualitativamente diverso daquele descrito por Diniz. Com
isso, também, se esvazia a função de controle social exercida pela máquina
política, que integrava socialmente os territórios à cidade. A dinâmica atual,
diversamente, é fruto da implosão do pacto citadino preexistente; ela deu lugar
a uma lógica igualmente clientelista, mas que não se funde mais em uma ordem
urbana hierarquizada; daí que a atomização territorial que caracteriza a cena
urbana atual não possa mais ser explicada pelo conceito de "controle
negociado", pois lhe falta a própria dimensão de controle. Para o bem ou
para o mal, os fragmentos dessa cidade territorializada estão mais livres do
que jamais estiveram dos mecanismos de controle social e político, tornando
possível pensar na construção de uma nova forma de articulação horizontal, para
a qual poderá contribuir a ainda vaga, mas crescente, noção de direitos. É aqui
que o conceito de "cidade escassa" ganha relevância heurística.
A exemplo do conceito de "controle negociado", o de "cidade
escassa" também tem um duplo sentido: de um lado, procura dar conta da
experiência urbana contemporânea, marcada por uma sociabilidade fragmentada e
violenta; e, de outro, apontar para seu aspecto crítico, de corte
tocquevilliano, que sublinha a necessidade de se recolocar o tema da ordem como
fundamento para o exercício da liberdade em uma sociedade fundada no princípio
da igualdade.
De um lado, a noção de "cidade escassa" remete à baixa capacidade do
Estado (e da sociedade) de universalizar regras e valores que dêem lugar a um
espaço público compartilhado, daí resultando um efeito fragmentador, "que
estreitou excessivamente a dimensão da polis, condenando praticamente toda a
sociedade à condição de bárbaros" (Carvalho, 2000:55). Sobressaem, assim,
as dimensões da ordem e da liberdade, e identifica-se, na ausência de uma
cultura cívica voltada para a participação na vida pública, a principal
característica da sociabilidade contemporânea. Como observa a autora,
"quando são intensos os padrões de exclusão política e grande parte da
população não se reconhece como partícipe da trajetória coletiva", ou
seja, quando são frágeis os mecanismos capazes de produzir cultura cívica,
"a cidade se torna objeto da apropriação privatista, da predação e da
rapinagem, lugar onde prosperam o ressentimento e a desconfiança sociais"
(idem:56).
Esse tipo de abordagem encontra eco em outros autores, como Wanderley Guilherme
dos Santos (1992), que postula a noção de hobbesianismo social para dar conta
da experiência urbana que acompanha a transição democrática brasileira, na qual
prevaleceria um estado de natureza caracterizado "pela inexistência de um
código de conduta universalmente aceito", levando ao
"isolamento", à "desconfiança" e à "hostilidade".
Na mesma linha, Gilberto Velho (1996) observa que "a natureza do
individualismo na sociedade brasileira vem assumindo características tais que a
tornam palco de um capitalismo voraz com uma dimensão selvagem" (idem:19).
Barbárie, hobbesianismo social e selvageria, são estas as categorias empregadas
pela literatura da década de 90 para caracterizar a experiência urbana
brasileira. A escassez de cidade aponta, portanto, para a falta de ordem e de
lei, fruto da frágil universalização de regras e valores e da incapacidade do
Estado de fazer cumprir os direitos.
Esse diagnóstico remete ao clássico problema da integração social e, por
conseguinte, à reflexão sobre o papel desempenhado pelas principais agências
responsáveis pela produção de solidariedade entre diferentes grupos sociais e
entre diferentes partes da cidade.
A fim de explorar o significado inovador do conceito de "cidade
escassa", refletirei sobre o papel da mídia, da religião e do mercado como
fontes produtoras de integração social. Vale ressaltar que essa reflexão faz
parte de uma agenda de pesquisas bem mais ampla, que precisa ser realizada de
forma integrada, e que também inclui o papel das escolas, das famílias, das
associações e Organizações Não-Governamentais ' ONGs e das novas formas de
expressão cultural juvenis. Em seguida, voltarei ao conceito de "cidade
escassa", para pensar as possibilidades de formação de uma cidade fundada
em uma sociabilidade livre e igualitária, baseada nos direitos e no exercício
da cidadania.
MÍDIA E TERRITÓRIO
Mesmo não sendo monopólio dos organizados, a utilização consistente e
sistemática da mídia como via de acesso ao espaço público depende de
organização coletiva (Habermas, 1997:113), o que não ocorre no caso dos
territórios. Assim, embora seus moradores tendam a identificar na imprensa um
aliado possível da publicização de seus problemas e interesses, o grau de
controle sobre esse instrumento é muito pequeno. Como observa Patrick Champagne
a respeito do uso da mídia por "populações desfavorecidas", "os
efeitos da mediatização estão longe de ser os que esses grupos sociais poderiam
esperar", pois "a fabricação do acontecimento foge quase totalmente
ao controle dessas populações" (1997:67).
No caso dos territórios, o uso da mídia é, além disso, arriscado. Como notou
Marcos Alvito, o recurso à imprensa é "empregado com cautela" pelos
moradores dos territórios, seja pela "falta de confiança nos
repórteres", seja pelos problemas internos que "uma reclamação
pública pode causar" (2001:150). A mídia coloca em contato o território e
a cidade, e as reações dos agentes citadinos sempre geram incerteza nos
precários arranjos internos ao território.
Uma forma de midiatização constantemente utilizada por moradores de favelas do
Rio de Janeiro tem sido a produção de barricadas relâmpagos, fechando vias de
grande circulação, em geral nas franjas das favelas. Tais manifestações
ocorrem, usualmente, como reação à morte de moradores vitimados por troca de
tiros entre os policiais e as gangues de traficantes. Elas aparecem, portanto,
como um protesto contra a violência policial. Todavia, os resultados alcançados
por essas manifestações são bastante incertos, já que não parecem produzir
desdobramentos capazes de redefinir a atuação da polícia, e quase sempre são
tratadas com desconfiança pela mídia, que costuma atribuí-las ao interesse de
traficantes, concorrendo para reforçar o estigma sobre os moradores do
território.
Analisando a atuação da mídia em eventos parecidos no subúrbio parisiense,
Patrick Champagne observa que tais reações até podem produzir como repercussão
positiva o rápido "desbloqueio de créditos destinados às operações de
reabilitação e à ação social", mas conclui que essa vantagem material
momentânea "custa muito caro no plano simbólico", pois "longe de
ajudar os habitantes a mídia contribui, paradoxalmente, para a sua
estigmatização" (1997:73). No caso dos territórios, esse efeito perverso é
bastante evidente e seus moradores, sempre que precisam informar seu endereço,
sentem bem o custo de ter o nome de seu território associado a situações que se
avizinham da "arruaça".
Essas manifestações, no entanto, não deixam de dramatizar a tensão presente na
relação entre o território e a cidade. Trata-se de um padrão de participação no
espaço público e de denúncia do aspecto mais importante da vida do território,
a saber: a falta de liberdade. De fato, qualquer outra forma de mobilização
organizada que fosse comandada por lideranças organicamente definidas, e que
estabelecesse canais de comunicação institucionalizados com a cidade seria
bastante arriscada. Assim, a ocupação instantânea da via pública tem sido a
forma possível encontrada pelos moradores dos territórios para se comunicarem
com a cidade. Protegidos pelo anonimato e pela ausência de lideranças claras,
levam para as ruas falas e protestos constrangidos pelo medo de quem teme
cruzar a fronteira do território e desafiar suas autoridades; ainda que de
forma cifrada, apresentam-se como demandas que mobilizam a linguagem dos
direitos da cidade e que não deixam de advertir para as barreiras de acesso à
cidade e à cidadania.
Por outro lado, é preciso considerar que, quando essas manifestações de tipo
espontâneas ocorrem, se torna momentaneamente pertinente a idéia de guerra
civil, já arraigada no senso comum ' inclusive com a contribuição da mídia ',
como categoria apropriada para dar conta do clima de violência dos centros
urbanos brasileiros, em especial do Rio de Janeiro. De fato, são nessas
manifestações que os moradores dos territórios e da cidade dramatizam sua
polaridade, em um enfrentamento que não raro provoca mortes e toda sorte de
violência física; não por acaso, o alvo dos moradores do território é difuso,
ora ateando fogo em ônibus de passageiros ' prática consagrada como uma espécie
de monumento da revolta ', ora agredindo com fúria motoristas de automóveis,
que naquele instante representam todos os citadinos, sendo o automóvel o
símbolo mais evidente de inclusão no domínio da polis.
Quando este trabalho começava a ser escrito, no início de 2004, uma noite
marcada por intensa troca de tiros entre a polícia e uma gangue de traficantes
instalada na favela da Rocinha ' localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro '
deixou como saldo a morte de três pessoas, todas com menos de 18 anos. Após o
episódio, seguiu-se uma manifestação aparentemente espontânea, com a formação
de barricadas na via que liga os bairros da Gávea a São Conrado e apedrejamento
de veículos. Poucos dias depois, situação semelhante ocorreu na Cidade de Deus,
em Jacarepaguá ' Zona Oeste da cidade ', e alguns dias depois foi a vez da
Favela Pavão-Pavãozinho ' localizada em Copacabana ' experimentar situação
semelhante: ação policial seguida de morte de moradores, e o mesmo tipo de
manifestação "espontânea".
A freqüência com que essas situações ocorrem no Rio de Janeiro indica que tal
prática foi informalmente institucionalizada, funcionando como modo
privilegiado de mobilização dos moradores dos territórios.
É interessante notar que diante desses episódios, a imprensa falada e escrita
ainda segue o mesmo script: expõe as cenas de arruaça pública e apresenta as
duas versões para as mortes. A da polícia, alegando que os mortos tinham
ligação com o tráfico ' dando a entender que são mortes resultantes de
confrontos diretos e que, portanto, ocorrem em legítima defesa ', e a dos
moradores, alegando que os mortos eram trabalhadores ou estudantes, que nada
tinham com o tráfico, e que a polícia entrou atirando a esmo. Por seu turno, a
autoridade politicamente constituída ' o chefe do Executivo ou o responsável
pela Secretaria de Segurança ' informa que a polícia está investigando a
veracidade das denúncias. No mais das vezes, a questão acaba ficando reduzida à
identidade do morto, se ele era ou não ligado ao tráfico.
Constrói-se, assim, uma imagem cínica que vai embotando a capacidade de
discernimento da situação, tanto na cidade como nos territórios. Em ambos,
aceita-se com naturalidade a impotência da autoridade politicamente constituída
para investigar a ação policial nos territórios. A inexistência de provas, o
medo de testemunhar e a própria circunstância de guerra que cerca as operações
policiais nos territórios tornam tecnicamente difícil a punição. De outra
parte, o saldo desses episódios é sempre o de aumentar a sensação de
insegurança por parte da cidade, impelindo a autoridade política a reforçar o
controle local, inclusive admitindo como um mal necessário a morte de
"inocentes".
A repercussão nacional e internacional do episódio do jornalista Tim Lopes,
brutalmente assassinado, em 2002, por traficantes em uma favela localizada na
Zona Norte do Rio de Janeiro, evidenciou de outro modo a existência das
fronteiras da cidade, sobrecarregando ainda mais a estigmatização dos
territórios. Não deixa de ser significativo, contudo, que o efeito moral do
assassinato do jornalista ' que mobilizou a cidade e o país em pleno ano
eleitoral ' tenha sido mais o de revelar para a cidade a face mais brutal dos
territórios, aprofundando em seu imaginário a idéia de que são espaços de
barbárie, e menos o de chamar a atenção para a situação de asfixia a que estão
submetidos os moradores dos territórios.
A associação entre imagem e legenda na foto a seguir apresentada, extraída de
um jornal do Rio de Janeiro concebido para um público das classes média e alta
da cidade, sintetiza muito bem o quanto a brutalidade da ação policial nos
territórios está naturalizada, sempre justificada pela igual brutalidade do
tráfico6. Mais uma vez, a mensagem subliminar transmitida é a de que nos
territórios, até prova em contrário, todos são suspeitos, inclusive as
crianças.
Embora chocante, a foto não deixa de revelar uma cena comum nos territórios:
uma criança negra, um casebre em uma favela e a humilhação rotineira promovida
por policiais treinados para a "guerra urbana". O uniforme da escola
pública que o menino veste lembra a presença de um Estado que promove o acesso
à educação; em contrapartida, os dois policiais, com seus fuzis autorizados e
sua indumentária oficial, cumprem as ordens do mesmo Estado, que não respeita
os mais elementares direitos civis. Com a força de uma única imagem, o núcleo
da questão social brasileira é revelado em toda sua dramaticidade: a promoção
dos direitos sociais desconectada dos direitos civis.
O mais revelador, contudo, está nas entrelinhas da legenda; a cena precisava
ser corrigida por um texto que neutralizasse a brutalidade da imagem, adotando
uma linguagem supostamente "técnica", que chama de
"revista" a prática de invasão de domicílio em favelas, e que toma
por "jovem" uma atônita criança, talvez com menos de 12 anos. Com
essa redefinição da imagem pelo texto, a trágica insensatez capturada pela foto
torna-se aceitável a um público há muito acostumado a achar essas coisas
normais.
Esta é a tônica da atuação da mídia: constrói e reproduz representações do
território que favorecem a reificação da dinâmica da territorialização. Mas,
com isso, ela apenas reflete um ambiente urbano marcado pela ausência de uma
energia cívica capaz de interromper a reprodução da cultura da violência, que
sucumbe à lógica fragmentária dos territórios. Diante disso, o mercado e a
religião vêm se impondo como as únicas alternativas capazes de produzir
inclusão social; aliás, essas duas dimensões têm sido fundidas de modo evidente
no processo de massificação do pentecostalismo, que estaria produzindo um
individualismo que resolve sua incerteza quanto à sociedade pela qualificação
para a competição no mercado.
RELIGIÃO E TERRITÓRIO
O cristianismo popular, em sua versão pentecostal, vem se afirmando como um
fenômeno importante na vida dos territórios. A onda evangelizadora,
protagonizada por pastores oriundos do mundo popular, impõe-se como uma ampla
reforma intelectual e moral, cujos efeitos ainda não se realizaram plenamente.
Ela alimenta-se da frágil presença da cidade nos territórios, inscrevendo no
vazio dos direitos um ascetismo individualista; no interior do campo religioso,
sua expansão recoloca, de outro modo, o recorrente desafio da Igreja Católica
na sua busca de aproximação com o mundo popular.
Sem a pretensão de esgotar o assunto, de resto muito complexo, e apenas a
título de animar uma reflexão sobre seus efeitos na dinâmica da
territorialização, tomo como ponto de partida uma comparação entre o fenômeno
contemporâneo do pentecostalismo e a atuação da Igreja Católica nas favelas do
Rio de Janeiro nos anos 50 e 60, quando se formulou um conjunto de ações
voltadas para a aproximação entre o mundo popular carioca e a religião
católica. Aqui, dois aspectos sobressaem: o primeiro, refere-se ao tipo de
pedagogia desenvolvida pela Igreja Católica, que é bastante distinto da
praticada pelos evangélicos; o segundo, à relação que cada uma delas estabelece
com a política.
A pedagogia desenvolvida pela Igreja Católica para os pobres da cidade, na
década de 50, está relacionada com as mudanças de orientação da Igreja em face
das questões sociais nacionais, bem explicitadas no documento de criação da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ' CNBB, em 19527.
A sociedade, na concepção católica, é percebida segundo uma visão holística, e
por isso seu trabalho de cristianização está necessariamente relacionado à
transformação do meio social do indivíduo ' isso explica por que a Igreja
Católica se envolveu diretamente em intervenções urbanizadoras dos
territórios8. No caso do Rio de Janeiro, esse tipo de envolvimento acabou por
produzir uma relação orgânica entre a Igreja Católica, políticos e lideranças
associativas locais. Em alguns momentos, inclusive, a Igreja Católica chegou a
cerrar fileiras com os moradores das favelas, na resistência à ação
remocionista ' como no caso das Favelas do Borel e do Dona Marta nos anos 60, e
do Vidigal nos 70 (Gay, 1994). Pode-se afirmar, portanto, que a postura
católica em face das favelas se caracterizou pelo estabelecimento de uma
mediação entre a religião e a política, com o objetivo de criar condições para
a superação da fronteira territorial, do que seria exemplar a atuação da
Pastoral das Favelas, que a partir dos anos 70 emprestará grande ênfase à
questão jurídica da ocupação da terra dos territórios, organizando uma
assessoria jurídica para auxiliar seus moradores a lutar contra ações
remocionistas9.
Em suma, no período analisado, a Igreja Católica encarava a favela como um
espaço ecológico particular, que produzia uma sociabilidade exposta à
promiscuidade e à indolência; a reforma moral de seus moradores supunha, por
isso, a transformação do espaço da favela, o que não poderia ser feito sem a
interlocução com as entidades coletivas da favela e com o próprio Estado, o que
levou a um envolvimento da Igreja Católica com o mundo popular organizado.
Reside neste ponto, aliás, uma das razões do esgotamento de sua política para
as favelas. Pois, ainda no início dos anos 60, o Estado percebe a atuação
católica nas favelas como uma intervenção concorrente, situação que será
extremada pela formação de alianças entre membros da Igreja Católica e
moradores dos territórios contra a ação remocionista do Estado. Com o regime
militar, as ações de grupos católicos nas favelas são empurradas para a
clandestinidade, perdendo definitivamente o alcance pretendido quando da
formulação de suas estratégias de intervenção10. Por outro lado, o
aprofundamento do ethos mercantil também contribuiu para fragilizar o
pressuposto da doutrina católica, que operava, e ainda opera, com um ideal de
comunidade solidária, avesso ao mercado (Mafra, 2003).
Bem diferente tem sido a atuação das igrejas evangélicas nas favelas. Em
primeiro lugar, não faz parte de sua doutrina a tese de que a ecologia da
favela produz um comportamento profano. O pecado está no indivíduo mais do que
no meio. Por isso mesmo, sua ação pedagógica ocorre fundamentalmente no plano
da consciência individual. Nem por isso sua organização tem sido impermeável à
lógica dos territórios, pois como se verifica no caso específico do Rio de
Janeiro, onde a expansão da malha pentecostal ocorreu com maior ênfase a partir
dos anos 80, momento em que o tráfico se consolida enquanto forma de autoridade
local, as igrejas irão se afirmar como arenas públicas alternativas, em que é
possível o estabelecimento de algum nível de comunicação entre os moradores dos
territórios11. Não tardou para que se percebesse que essa rede de igrejas
constituía um dos caminhos eficazes para a captação de votos, esvaziando ainda
mais o papel da liderança comunitária naquilo que ela tem de mais tradicional '
sua função de cabo eleitoral ', contribuindo para a fragilização do padrão de
integração hierarquizada da cidade, caracterizado pelo conceito de
"controle negociado". Esse fenômeno tem sido ainda mais reforçado
pelo fato de que os evangélicos se têm apropriado dos centros de poder dos
territórios.
Desse contraponto entre a atuação católica nos territórios durante os anos 50 e
60 e a dos pentecostais na conjuntura atual, pode-se concluir que, enquanto a
católica valorizava uma ação política coletiva, orientada para a mudança da
ecologia local, a pentecostal entende a pobreza como um problema individual.
Como observa Mariz (1996:184), tanto a teologia da prosperidade quanto a ênfase
sobre as doações, presentes nas pentecostais, vinculam riqueza material à fé e
à adoção de uma vida cristã, rejeitando a teodicéia católica da redenção pela
pobreza e pelo sofrimento. Assim, enquanto a católica operava com a lógica do
território, colocando como desafio a superação de suas fronteiras com a cidade
por intermédio de intervenções civilizadoras sobre o espaço, as pentecostais,
de modo geral, tendem a apostar, às vezes explicitamente, na lógica do mercado
como lugar de reconstrução do indivíduo. Por isso mesmo, sua atuação não é
neutra em face da contradição existente entre a cidade e os territórios, na
medida em que superpõe à fragmentação territorial a lógica da competição
individual e a naturalização das leis do mercado. Como afirma Birman (2003), a
respeito da Igreja Universal do Reino de Deus ' IURD, está em curso um processo
de construção de um novo imaginário nacional, diverso do cultivado pelo
catolicismo. E nesse imaginário sobressai uma concepção de nação
"[...] violenta, atravessada por conflitos sociais e morais,
cuja pacificação se fará pela integração progressiva de todos em um
projeto de base igualitária que tem na mobilidade ascendente dos
homens de Deus'o seu valor maior. Uma nação de empreendedores, de
vencedores', de cristãos' é assim projetada para o futuro"
(idem:237).
Igualdade, mobilidade social e empreendedorismo são, portanto, os pilares da
reforma intelectual e moral que está em curso com o avanço das agências
neopentecostais12. Nessa chave, a questão da integração social e urbana é
reduzida à dimensão da desigualdade social, estando excluída, por conseguinte,
a própria dimensão da cidade.
Assim, podemos concluir que, caso permaneça entregue a si mesmo, o processo de
massificação do neopentecostalismo em nada contribuirá para a formação de uma
cultura política participativa. E a importância dessa advertência é evidente,
pois estamos falando do segmento que mais cresce no campo religioso, muito
especialmente no interior dos territórios. Nada impede, contudo, que uma
recomposição desse campo em torno de um novo ecumenismo ' que inclua o
catolicismo popular, as religiões afro-brasileiras e as chamadas evangélicas
tradicionais ' crie canais de comunicação entre as igrejas neopentecostais e a
cidadania, afinal, também é verdade que, ao contribuir para a formação de
indivíduos mais autônomos, as igrejas evangélicas criam condições
potencialmente favoráveis a processos de afirmação de novos sujeitos na esfera
pública.
MERCADO E TERRITÓRIO
O aprofundamento do homo economicus pode ser assim o resultado esperado da
reforma intelectual e moral em curso, com o que se vai consolidando a obra da
revolução burguesa brasileira, no sentido de criar um indivíduo profundamente
dominado pela lógica dos interesses e do apetite pela prosperidade material
(Werneck Vianna, 1999). Reforça-se, assim, a aposta liberal no mercado como
instituição capaz de integrar indivíduos animados pela idéia da realização
material. Do ponto de vista da relação entre a cidade e os territórios, no
entanto, o que se vai observar é uma contradição aparentemente insuperável
entre o mercado e os limites impostos pelo território. Essa baixa expectativa
de que a via econômica venha a servir como alternativa para a integração urbana
nos leva a retomar a outra dimensão contida no conceito de "cidade
escassa", que remete à solidariedade fundada no direito e na cidadania.
Alguns autores, como Licia Valladares (2001), têm salientado que, se um dia as
favelas abrigaram uma população pré-burguesa e pouco afeita à racionalidade
moderna, esse quadro naif se mostra completamente inadequado para dar conta da
presente realidade. Os moradores da favela, como os demais da cidade, pensam e
agem como seres de mercado, e por isso procuram converter em valor de troca
bens de uso, a começar pela casa, que tanto pode representar uma oportunidade
para algum tipo de especulação imobiliária, quanto se converter em uma forma de
renda por meio do aluguel ou arrendamento de parte da casa, ou ainda dar lugar
a um ponto de negócio13. Por outro lado, embora de baixa renda, os moradores
das favelas representam um mercado consumidor bastante interessante14. Por esse
motivo, as favelas de médio e grande portes ' isto é, aquelas com mais de
quinhentos domicílios ' abrigam um pujante comércio e um dinâmico mercado
imobiliário15.
Se tudo isso é verdade, é igualmente correta a afirmação de que as barreiras
jurídicas e de informação impedem o pleno desenvolvimento do potencial
mercantil das favelas, inibindo uma fonte importante de geração de trabalho e
renda locais. O ponto fica evidente quando se considera que algumas empresas da
cidade formal se têm instalado em territórios, interessadas em seu mercado
consumidor, estabelecendo uma concorrência desigual com o comércio local, que é
intensivo em mão-de-obra e tem forte componente familiar16.
Uma contribuição importante para esse debate foi dada por Hernando de Soto
(2001), em seu O Mistério do Capital, com vistas a universalizar o acesso ao
capitalismo entre os países da semiperiferia, por meio de reformas nos seus
sistemas jurídicos de propriedade17. Um rápido levantamento sobre o que se tem
feito no Brasil nessa matéria é suficiente para constatar que existem
iniciativas em curso sendo tomadas nessa direção, nos âmbitos federal, estadual
e municipal. A atuação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas
Empresas ' SEBRAE, por exemplo, procurando incentivar e capacitar
empreendedores e estimular inovações legislativas como a isenção fiscal ou a
simplificação da legalização relacionada ao estabelecimento comercial18, e
mesmo o Favela-Bairro, investindo tanto em infra-estrutura como na qualificação
de recursos humanos, são algumas das iniciativas que possivelmente estão
produzindo resultados importantes (Cavallieri, 2003). Embora necessitem de
melhor avaliação, elas apontam na direção da flexibilização da fronteira entre
a cidade formal e a informal, e a questão é saber em que medida são suficientes
para alterar qualitativamente o padrão de regulação atual que mantém na
informalidade boa parte da atividade econômica realizada nos territórios.
Como se sabe, a consolidação do mercado andou de mãos dadas com a
democratização das relações sociais, favorecendo o individualismo e a difusão
de regras impessoais para o contrato entre as partes (Weber, 1982). Mas, como o
mercado existente nos territórios está submetido a regras e acordos locais, a
própria idéia de contrato fica condicionada ao arbítrio de uma autoridade
local, seja ela de que natureza for. Experimente o leitor, por exemplo, alugar
um quarto em uma favela, e logo perceberá que o contrato entre as partes será
fundado em princípios diferentes daqueles inscritos na lei do inquilinato.
Assim, se a mercantilização potencialmente favorece a emancipação individual
dos moradores da favela, a lógica do território tende a neutralizá-la. Essas
duas forças contraditórias criam indivíduos treinados para se comportar em um
ambiente no qual o mercado é regulado por regras sancionadas por relações
interpessoais (De Soto, 2001).
Romper com essa contradição importaria assegurar que o mercado funcionasse nos
territórios sob o mesmo direito da cidade, e para isso seria necessário começar
por deslocar a própria autoridade local, que cria e sanciona regras no interior
do território. Mas esse tipo de intervenção não tem sido considerado desejável
nem por parte dos agentes econômicos, que se beneficiam da informalidade para
extrair uma mais-valia superior à obtida na cidade, nem por parte do poder
público, bastando observar o formato de relacionamento já consagrado que este
último estabelece com as associações de moradores de favelas, fazendo delas uma
extensão da repartição pública, condição fundamental para a sua conversão em
agência política estratégica para a captação do voto popular (Burgos, 1998;
2003).
Assim, embora a mercantilização dos territórios não seja necessariamente
refratária ao desafio da integração urbana, fica evidente que, entregue a si
mesma, a via mercantil se coaduna muito bem com a lógica fragmentária dos
territórios. Daí que, tomado como dimensão isolada, o mercado, incluindo o
mercado de trabalho, não será capaz de refundar as bases da confiança
necessárias à integração social e urbana. Seguindo todos os desdobramentos do
conceito de "cidade escassa", chegamos ao direito como fonte capaz de
produzir solidariedade em uma sociedade que está fundada no princípio
constitucional da igualdade e da liberdade.
DIREITO E CIDADANIA: RISCOS E OPORTUNIDADES DA CIDADE TERRITORIALIZADA
Historicamente, a cultura constitui-se na principal via de integração urbana de
cidades como o Rio de Janeiro, que só foram envolvidas parcialmente pelo
industrialismo fordista. Daí a importância das festas religiosas, da música e
do futebol como suportes culturais de comunicação entre grupos que não são
integrados pela política ou pelo mercado. Esta a chave utilizada por José
Murilo de Carvalho (1987), por exemplo, quando afirma que, no Rio de Janeiro,
"a cidade não era uma comunidade no sentido político, não havia o
sentimento de pertencer a uma entidade coletiva", concluindo daí que
"das repúblicas renegadas pela República foram surgindo os elementos que
constituiriam uma primeira identidade coletiva da cidade, materializada nas
grandes celebrações do carnaval e do futebol" (idem:38 e 41).
Contudo, a própria territorialização da cidade já constitui uma evidência de
que essa função integradora da cultura perdeu força, em grande medida em
decorrência dos já comentados efeitos produzidos pela modernização econômica,
que foram desfazendo as bases sociais do "sentido integrativo de
solidariedade vertical" característico do estilo comunitário de
comunicação entre os grupos da cidade (idem:152). Assim, a inexistência de
energia cívica capaz de integrar o tecido urbano pela cultura ou pela política
e o localismo inerente ao mercado informal sugerem que a própria cidade se
torna virtual diante da ausência de mecanismos de solidarização entre as partes
que a habitam.
Considerando que a territorialização da cidade corresponde ao cenário urbano
que sucede ao esgotamento dos mecanismos de "controle negociado", que
se baseavam em uma incorporação subordinada e hierarquizada, abre-se um período
de grandes incertezas, no qual se torna plausível apontar a existência de
riscos terríveis para o futuro das cidades brasileiras, ao mesmo tempo que se
descortinam oportunidades que não deixam de ser promissoras.
O fenômeno da aguda violência urbana já faz parte da realidade das cidades
brasileiras há pelo menos duas décadas, e mesmo não sendo exclusividade do
país, tem encontrado aqui terreno fértil com a territorialização da cidade
crescendo ano após ano; o aumento exponencial do homicídio, do latrocínio, do
assalto à mão armada, da guerra de traficantes e da delinqüência juvenil dá
conta de uma sociabilidade com baixo nível de solidariedade. E não é preciso
ser futurólogo para afirmar que a situação tende a agravar-se na próxima
década, sobretudo se ao vazio de solidariedade se oferece apenas a dimensão
punitiva como tentativa cada vez mais desesperada de se resolver pela força a
fragilidade do complexo ético-moral encerrado nos mecanismos de controle social
vigentes atualmente nas grandes cidades do país ' a transformação da economia
informal das cidades, em especial do comércio ambulante, em uma questão
exclusivamente policial, é uma evidência disso.
Por outro lado, como já observamos, se é verdade que a territorialização da
cidade é fruto da implosão do pacto citadino preexistente, também é verdade que
os fragmentos dessa cidade estão mais livres do que jamais estiveram dos
mecanismos de controle social e político, tornando possível pensar na
construção de uma nova forma de articulação horizontal, para a qual poderá
contribuir a ainda vaga, mas crescente, noção de direitos.
O desastroso efeito desarticulador provocado pela dinâmica perversa inerente ao
conflito entre a polícia e o tráfico que, sobretudo no caso do Rio de Janeiro,
transforma os territórios em espaços militarizados, pode até adiar o
desenvolvimento dessa tendência, mas não necessariamente impedirá que ela
ocorra, já que o supercontrole bélico a que a população dos territórios está
exposta, embora violento, é cada vez menos eficiente do ponto de vista moral e
intelectual.
De fato, nos territórios expostos à dinâmica polícia/tráfico, ainda prevalece a
lei do silêncio, mas novas formas de vocalização e de comunicação entre os
territórios e destes com a cidade começam a surgir, com a formação de novos
intelectuais (Gramsci, 1991), tais como os jovens universitários oriundos das
favelas, cuja atuação local deverá contribuir para elevar o nível intelectual e
moral dos moradores dos territórios, emprestando novo significado à atuação de
suas associações representativas; com as novas formas de manifestações
artísticas, construídas a partir de suportes culturais como esse hip-hop à
brasileira, que formula uma crítica social baseada na valorização das
identidades territoriais em face da cidade, e que ao fazê-lo denuncia a própria
estreiteza da cidade; e mesmo com os pastores evangélicos que, por meio da sua
pedagogia individualizante, poderão favorecer a construção de sujeitos de
direitos.
Assim é que, ao menos no horizonte, surge a possibilidade inédita de se
construir uma nova cidade, cujo sistema de solidariedade se nutra do papel do
cidadão, o que pressupõe "que a totalidade dos destinatários singulares
das normas jurídicas possa considerar-se autora racional dessas normas"
(Habermas, 1997:54). A nova integração social do tecido urbano, portanto,
pressupõe uma radical ampliação da participação social e política dos moradores
dos territórios na reconstrução da cidade.
E se o esgotamento do padrão de controle negociado abre a possibilidade para o
desenvolvimento dessa tendência entre os moradores dos territórios, a ordem
criada pela Constituição de 1988 torna-a plausível, na medida em que faculta à
sociedade amplos mecanismos de acesso à produção normativa, seja pela via da
representação política, seja por vias participativas, que incluem a
representação funcional exercida pelo Judiciário e pelo Ministério Público
(Werneck Vianna e Burgos, 2002:382 e ss.).
A superação das fronteiras impostas pelo território passa, em suma, pela
construção da cidadania, vale dizer, da comunicação entre a participação social
e política e a produção normativa. Sem pretender superestimar as evidências
empíricas, já é possível perceber alguns movimentos nessa direção.
Como já salientei, a representação dominante dos territórios como espaços no
limiar da barbárie tem sido determinante para justificar a situação de
supercontrole que, como tenho argumentado, só faz aprofundar sua condição de
território. E na construção dessa representação negativa o papel da mídia tem
sido central. Uma agenda de mudança do atual estado de coisas supõe, portanto,
uma disputa nesse domínio da representação, seja pela produção de mídias
alternativas, seja pela via da redefinição das ações coletivas midiáticas.
Iniciativas nesse sentido já podem ser observadas com a criação de canais
internos de televisão, como os que existem na Rocinha, em Rio das Pedras e em
outras grandes favelas do Rio de Janeiro; rádios comunitárias e sites
especializados em favelas. Seria prematuro afirmar que essas formas
alternativas de mídia têm atuado de forma sistemática contra as representações
dominantes na cidade; tampouco se pode assegurar que venham contribuindo para a
construção de uma agenda de inclusão dos territórios na cidade. Mas nada impede
que um dia isso ocorra19.
Nada substitui, entretanto, um processo de organização social mais amplo, que
dê lugar a manifestações populares organizadas, pelas quais seja possível
publicizar de modo mais controlado uma agenda de problemas e de reivindicações.
Nesse sentido, deve-se mencionar a experiência do Movimento Popular de Favelas
' MPF, que começou a organizar-se em julho de 2000, "reunindo dirigentes
de associações de moradores e de outras organizações comunitárias", e que
teve por eixo "a luta contra a violência e a reivindicação de uma
cidadania plena para os moradores de favelas". De acordo com Márcia Leite
(2003:76 e ss.), o Movimento Popular de Favelas teria chegado "a nuclear
representantes de cerca de 60 favelas", entretanto, em fins de 2001, sofre
um processo de desorganização que, ainda segundo Leite, teria sido determinado
por tensões oriundas tanto do tráfico quanto do sistema político.
A experiência do MPF é um testemunho das dificuldades inerentes ao processo de
mobilização dos moradores dos territórios, mas, por outro lado, revela a
existência de um "formigamento" no mundo popular20. Uma evidência
recente disto foi a manifestação pública realizada pelos moradores da Rocinha
no último domingo de fevereiro de 2004, por ocasião da missa de 7º dia da morte
dos três adolescentes assassinados pela polícia, no episódio anteriormente
citado. Contando também com a presença de alguns parlamentares e lideranças
ligadas a ONGs, ela teve início durante a missa, e seguiu em forma de passeata
por algumas ruas da favela. Talvez tenha sido a primeira manifestação desse
tipo nas últimas décadas no Rio de Janeiro. Por isso mesmo, ganhou as primeiras
páginas dos principais jornais da cidade. Menos de sessenta dias depois, nova
mobilização coletiva contra a violência policial, dessa vez reunindo em uma
praça pública moradores de várias favelas da cidade; o evento foi organizado
por uma entidade civil criada após a morte de quatro jovens na Favela do Borel
' localizada na Tijuca ' durante troca de tiros entre policiais e traficantes,
e contou com a participação de diversas entidades, incluindo grupos de
artistas, ONGs, associações de moradores e até representantes do Movimento Sem-
Terra. A passeata conduziu os manifestantes até o Palácio do Governo do Estado
do Rio de Janeiro. A seguir, pode-se observar a foto dessa manifestação21, cuja
tônica foi a luta pelo direito à vida, em clara evidência de que no território
se vive plenamente o hobbesianismo social. Em uma das placas empunhadas pelos
manifestantes, pode-se ler ' embora com dificuldade ' um protesto que revela de
forma instantânea o significado político e existencial da escassez de cidade,
na medida em que denuncia a marginalização do território e reivindica a
ampliação da cidade representada no espaço público midiático. Diz o protesto:
"Moro onde os meios de comunicação só chegam para contar os mortos."
Mas, em que pesem as evidências concretas de mobilização recente do mundo
popular aprisionado nos territórios, seria contraditório com a linha de
argumentação apresentada neste trabalho apostar que esse processo poderia ser
capaz de superar as fronteiras ora existentes sem a mobilização da cidade como
um todo, tanto da sociedade quanto do Estado. Reside aqui a chave para o
desenvolvimento de um novo tipo de solidariedade, que comece pelo
compartilhamento do debate acerca da cidade; afinal, cidade e território fazem
parte de um único espaço urbano, coabitado por milhões de indivíduos que
compartilham a mesma infra-estrutura urbana e institucional.
De uma perspectiva mais ampla, que leve em conta a cultura política brasileira,
pode-se afirmar que não faltam elementos em nossa história para dar sustentação
à construção de um novo princípio de integração social e urbana das cidades,
que tenha por base uma solidariedade fundada na participação na coisa pública.
A esse respeito, é bastante sugestiva a proposição de Luiz Werneck Vianna e
Maria Alice Rezende de Carvalho, quando sustentam que
"[...] como princípio de regulação moral, baseado na
fraternidade de fundo familiar, corporativo ou religioso, escolas
históricas da noção de comunidade sempre presente em nossa formação
social, talvez se possa dizer que, entre nós, a solidariedade é parte
inextricável do debate democrático, vindo a encontrar forma de
institucionalização na Carta de 88" (2004:222).
Uma agenda reformista passaria pela abertura de novos espaços de debate, de
novos fóruns colocando em comunicação os moradores dos territórios entre si e
deles com os habitantes da cidade; a favor dessa agenda política conspira a
própria história de cidades que, como o Rio de Janeiro, não exauriram
completamente suas fontes de solidariedade. Nelas ainda reside, se bem que em
repouso, um capital social acumulado em suas associações profissionais e de
moradores, em suas escolas e universidades, em suas igrejas e associações
religiosas, e em suas instituições de cultura, esporte e lazer, como os clubes
sociais e as escolas de samba, e que se renova em sua capacidade de mediação
com o mundo popular por intermédio dos jovens universitários e de intelectuais
ligados ao terceiro setor. Desse capital social se poderá extrair a energia
necessária para o desenvolvimento de uma nova solidariedade, capaz de sustentar
uma cidade de cidadãos.
A foto a seguir, publicada recentemente na primeira página do Jornal do Brasil,
é um registro que corrobora o argumento sustentado neste trabalho22.
NOTAS
1. Originalmente, a palavra favela foi utilizada como apelido do Morro da
Providência, que começou a ser ocupado para moradia por ex-combatentes da
Guerra de Canudos, que teriam trazido da campanha um legume chamado favella,
muito comum em Canudos. Uma excelente reconstituição da forma pela qual a
categoria favela foi sendo substantivada ao longo das primeiras décadas do
século XX, e de como ela é empregada como antônimo de cidade, está em
Valladares (2000). Uma história das diferentes conotações emprestadas à
categoria favela a partir da década de 30 está em Burgos (1998).
2. Os loteamentos irregulares são uma forma de habitação popular definida pelo
fato de o processo de legalização do empreendimento não ter sido concluído, em
geral porque o empreendedor não realizou todas as obras de infra-estrutura
exigidas pelo poder público. De todo modo, sua configuração espacial
caracteriza-se por uma clara separação entre os lotes, com a delimitação de
áreas públicas, e em geral seus moradores possuem um título precário de
propriedade. Na cidade do Rio de Janeiro, de acordo com o Anuário da Cidade '
publicado em 1998 ', cerca de 900 mil pessoas viviam em loteamentos irregulares
ou em conjuntos habitacionais. E, segundo o Censo de 2000, outros 1,1 milhão
vivem em favelas.
3. De acordo com o Censo de 2000, o Rio de Janeiro possui 811 assentamentos
favelados, e São Paulo, 1.548. Além disso, dados de 1999, do Perfil dos
Municípios Brasileiros, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística ' IBGE, apontavam a existência de favelas em outros 1.540
municípios brasileiros ' o correspondente a quase 30% do total destes. Esses
dados levaram Susana Taschner (2003:20 e ss.) a concluir que "muitas
cidades médias e grandes do interior paulista apresentam o mesmo padrão de
urbanização da capital, com o surgimento de periferias pobres e favelas".
4. A importância do território como critério de acesso a bens públicos não é
exclusividade carioca ou brasileira, sendo encontrada em outras cidades latino-
americanas, como no caso das áreas informais de Buenos Aires, por exemplo, onde
também existe uma clara relação entre território, acesso a bens públicos e
controle social e político sobre o exercício da autonomia (ver Cravino, 2003:98
e ss.).
5. A expressão "política da bica d'água" torna-se popular na medida
em que se difunde a crítica a um tipo de clientelismo, pautado em uma relação
de troca, a partir do qual o político influente na vida local conseguia algum
tipo de benefício, em geral de pequena monta ' como, por exemplo, a construção
de tanques coletivos para as lavadeiras ', em troca da lealdade dos eleitores
locais.
6. Foto de Antonio Lacerda, publicada no Jornal do Brasil, 7/11/2003.
7. De acordo com Ângela Paiva (2003:166), a mudança de orientação aconteceu a
partir de duas grandes tendências convergentes: de um lado, a maior presença do
laicato no interior da Igreja Católica, que teria gerado um crescente
questionamento acerca do papel do cristão; e, de outro, uma mudança na postura
de uma pequena parte da elite eclesiástica, que percebia a urgência de novos
posicionamentos diante da desigualdade social do país.
8. A Fundação Leão XIII foi criada, ainda em 1946, pela Arquidiocese do Rio de
Janeiro. Entre 1947 e 1954, a Leão XIII estendeu sua atuação a 34 favelas,
implantando em algumas delas serviços básicos como água, saneamento, luz e
redes viárias, e mantendo centros sociais em oito das maiores favelas da cidade
na época. Em 1955, a Igreja Católica cria a Cruzada São Sebastião, que, entre
1956 e 1960, realiza melhorias de serviços básicos em doze favelas, além de
construir o conjunto habitacional que ficaria conhecido como Cruzada,
localizado no bairro do Leblon (Burgos, 1998:28 e ss.).
9. Eduardo Guimarães de Carvalho (1991) observa que, com base na experiência da
resistência dos moradores do Vidigal, que contou com ampla assessoria da
Pastoral das Favelas, pode-se identificar algumas oposições fundamentais:
"passividade x mobilização; miséria x melhoria de condições de vida;
individualidade x comunidade; paternalismo x autocapacitação (mutirão)".
Estas oposições, conclui Carvalho, "norteiam a ação da pastoral
[...]" (idem:44).
10. Caso exemplar de como o trabalho que vinha sendo realizado por católicos em
favelas foi gradualmente se tornando clandestino é relatado por Maria Helena da
Franca Moniz de Aragão (2003), que descreve a experiência de trabalho
comunitário na Favela da Mineira, desenvolvido por uma equipe composta de
padres lazaristas e voluntários ligados ao Colégio São Vicente de Paulo.
11. Entre 1991 e 2000, os evangélicos praticamente dobraram sua participação na
população do estado, passando de 12,8% para 21,3%. De acordo com Márcia Pereira
Leite (2003:70), uma das razões que ajudam a compreender esse aumento é
exatamente o "acentuado incremento da violência e da criminalidade, bem
como da estigmatização de sua população pobre, negra e mestiça, moradora das
favelas e periferias". Para a autora, "as religiões evangélicas
oferecem a esta população uma marca identitária positiva, que a diferencia dos
bandidos e traficantes de drogas".
12. Patrícia Birman (2003:242) chama a atenção para o fato de que a IURD
"tem elaborado uma representação religiosa de seus fiéis enquanto
integrantes da nação que nasce em oposição ao ethos católico. Constrói uma
imagem de religião associada à riqueza, à opulência, ao cosmopolitismo e à
globalização. Esta imagem também oferece elementos de combate e de não
aceitação pelos segmentos populares de um lugar social que os vincula a um
lugar hierárquico inferior do ponto de vista social e simbólico bem como ao
tradicionalismo religioso que ele destila".
13. Suzana Taschner (2003:40) observa que "o acesso à casa favelada, antes
valor de uso, agora é fruto de crescente mercantilização. Unidades de moradia
são compradas e vendidas, num simulacro do mercado formal. Mesmo a terra
invadida é objeto de comercialização freqüentemente".
14. Licia Valladares (2001:4) tem chamado a atenção para o aquecimento da
economia nas grandes favelas, sustentando que "ao lado do mercado
imobiliário que aí se desenvolveu [...] floresce um enorme mercado de serviços
que se moderniza para atender a uma população cada vez mais heterogênea e
consumidora [...]". Por isso, a autora conclui "ser um equívoco
reduzir a economia da favela ao tráfico, sendo as demais atividades econômicas
o sinal de transformações complexas na sua estrutura sócio-econômica".
15. Pedro Abramo (2003:192-193) observa que "em pesquisas recentes sobre a
localização do emprego de moradores de favelas do Rio de Janeiro e de São
Paulo, verificou-se que um percentual importante desses moradores trabalhava na
própria favela". Assim, conclui Abramo, "a favela também pode ser
vista como um local de concentração de atividades de serviço e comércio
[...]".
16. Com base em dados da Pesquisa Socioeconômica em Comunidades de Baixa Renda,
patrocinada pela Secretaria Municipal de Trabalho da Prefeitura do Rio de
Janeiro, Jane Souto de Oliveira et alii (2003) constatam que existem 5.942
pessoas ocupadas em estabelecimentos das favelas, o que correspondia a 7,4% dos
postos de trabalho e a 6,8% dos rendimentos das pessoas ocupadas.
17. A proposta de De Soto (2001) tem sido bastante criticada, entre outras
razões, por se basear no direito individual de propriedade, e não no direito
social à moradia, que para se realizar demandaria um conjunto de políticas
públicas inclusivas, mais abrangentes do que a simples ampliação do acesso à
propriedade formal (sobre isso, ver Fernandes, 2003).
18. Maiores informações sobre o SEBRAE, ver <sebrae.com.br>. Sobre o papel do
SEBRAE na organização da Associação Comercial da Rocinha, ver o trabalho de
Lerner (2003).
19. Uma iniciativa interessante de mídia alternativa é o site
<vivafavela.com.br>, que além de buscar construir uma certa unidade entre os
territórios, veiculando sua agenda política e cultural, tem procurado gerar
notícias positivas sobre a população dos territórios, no campo econômico,
artístico, social e cultural.
20. Devo essa expressão a Itamar Silva, dirigente do Instituto Brasileiro de
Análises Sociais e Econômicas ' IBASE, e que possui longa militância na questão
das favelas do Rio de Janeiro. Ele utilizou essa expressão em um seminário
realizado na PUC-Rio, em agosto de 2004, quando fazia referência ao fato de o
mundo popular estar mais consciente da necessidade de se mobilizar, ao mesmo
tempo que convive com dificuldades e constrangimentos que fazem com que essa
conscientização permaneça como "um processo encubado" .
21. Foto de Lucas Van de Beuque, publicada no Jornal do Brasil, 17/4/2004.
22. O jornal é do dia 15 de junho de 2004, e a legenda da foto diz:
"Rubens Ricupero, Secretário-Geral da Conferência das Nações Unidas para o
Comércio e o Desenvolvimento, entrega a Kofi Annan, autoridade máxima da
[Organização das Nações Unidas] ONU, sob aplausos do presidente Lula, a
bandeira da Escola de Samba Mangueira. Uma homenagem aos africanos e símbolo da
criatividade dos povos do Terceiro Mundo". O crédito da foto não é
informado pelo jornal.