A família na obra de Frédéric Le Play
FRÉDÉRIC LE PLAY E A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA
O sociólogo francês Frédéric Le Play (1806-1882) atuou como investigador social
no período de consolidação da disciplina sociológica. Embora tenha produzido
uma obra numerosa, ele não aparece com destaque nas histórias da sociologia; e,
apesar de ser levado em conta por vários autores, ocupa uma posição secundária
na disciplina. Tomo como exemplos, de início, trabalhos relativamente recentes
sobre a formação da sociologia e que de algum modo remetem à obra de Le Play.
Lepenies (1996), procurando descrever o debate entre literatos e críticos
literários, de um lado, e cientistas sociais (sobretudo sociólogos), de outro,
recupera o papel de diversos autores não incluídos na corrente consagrada como
a principal formadora da disciplina. Em seu relato, Le Play aparece como um
sociólogo católico próximo ao romantismo (idem:48, 86). O tipo de estudo de Le
Play se situava próximo a um dos pólos do debate entre "uma orientação
cientificista, pronta a imitar as ciências naturais", em contraposição a
"uma atitude hermenêutica, que aproxima a disciplina da literatura"
(idem:11). Entretanto, não há uma exploração maior quanto à posição da
sociologia leplaysiana nesse debate.
Levine propõe um caminho diferente na busca de uma compreensão da trajetória da
sociologia. Seu objetivo é "realizar um estudo crítico das histórias
anteriormente contadas pelos próprios sociólogos de modo empático, a fim de
revelar o valor que essas histórias tiveram para os primeiros momentos de
adaptação" (1997:23). Para tanto, relata "a história da sociologia no
século passado apresentando a seqüência de histórias que os próprios sociólogos
contaram sobre sua tradição" (ibidem). Esse exercício do autor é
interessante, pois permite perceber que, de fato, Frédéric Le Play não ocupa
uma posição expressiva nas diversas formas de se contar a história da
sociologia. No âmbito do que ele denomina de narrativas pluralistas1, há uma
referência significativa a Le Play: trata-se da taxonomia utilizada por Pitirim
Sorokin (Contemporary Sociological Theories, 1928), que inclui a "escola
sintética e geográfica de Le Play" (Levine, 1997:33). A narrativa original
de Sorokin sofreu uma revisão em 1966 (Sociological Theories of Today); neste
novo arranjo, exclui-se a referência explícita a Le Play (idem:34)2. Nas
narrativas humanistas3, Le Play aparece novamente, agora como um autor
clássico. Na obra de Robert Nisbet (The Sociological Tradition, 1966), ele é
citado dentre um pequeno número de eminentes autores que escreveram entre 1830
e 1900, e que realizaram uma articulação criativa das idéias essenciais à
sociologia; entretanto, o papel de destaque é desempenhado por aqueles autores
consagrados e reiterados como constituintes da linha central da disciplina4.
Após essa visada sobre os diferentes modos como a história da disciplina é ou
vem sendo narrada, Levine propõe construir um novo gênero de história da
sociologia, por ele denominado de dialógica (idem:93-98). Sua hipótese é a de
que
"[...] a condição fragmentada e anômica da sociologia [atual]
poderia ser aliviada por novos esforços para recuperar a tradição
sociológica, não pelo estabelecimento de um conjunto comum de crenças
em torno das quais todos se congregariam mas, antes, pelo
reconhecimento dos vários ramos da sociologia atual como tendo
derivado dos participantes em uma conversação comum" (idem:92-
93).
Esta "conversação comum" poderia ser resgatada sobretudo pela busca
de tradições teóricas, definidas primordialmente como tradições nacionais, já
que, segundo Levine, "as figuras criadoras da sociologia moderna citam
principalmente compatriotas" (idem:95). Tratando-se da tradição francesa,
todavia, o nome de Le Play não aparece entre esses participantes do debate
sociológico.
Cuin e Gresle (1994), talvez pela origem francesa, colocam Le Play e seus
seguidores em maior evidência. Para eles, há uma evidente importância
epistemológica na obra de Le Play, já que ele conseguiu definir uma hipótese (o
estado de uma sociedade pode ser apreendido a partir do estudo de unidades
sociais menores), escolher um ponto de observação (a família) e construir um
método (a observação direta, quase etnográfica, e a análise comparativa de
dezenas de famílias de trabalhadores). Entretanto, Le Play "não tem nada
de pesquisador no sentido moderno da palavra. Nele, o conhecimento é
abertamente posto a serviço de um projeto ideológico" (idem:61).
Cuin e Gresle (idem:126-128) acompanham a trajetória da corrente leplaysiana
após a morte do seu fundador, em 1882. Os rumos tomados por seus discípulos
apontam para as dificuldades de institucionalização dos leplaysianos e sua
progressiva perda de prestígio no curso principal da sociologia. Além disso,
para esses autores, o interesse exclusivo pelos fatos, demonstrado por Le Play,
tornaria o conhecimento produzido por ele e seus discípulos "rapidamente
obsoleto" (idem:160).
Como se vê, embora tenha presença modesta nas histórias da sociologia, Frédéric
Le Play certamente não é um autor relegado ao esquecimento. Algumas de suas
obras tiveram reedições (mesmo que modestas) ao longo do tempo, além de
fornecerem material para coletâneas5. Excertos de seus textos foram incluídos
em obras coletivas com temáticas relativas aos seus objetos de estudo6. Além
disso, seus escritos são muitas vezes recuperados por autores preocupados com
estudos de história da família e do gênero7.
O historiador britânico Peter Laslett, em uma obra seminal para os estudos
contemporâneos de história da família, considera Frédéric Le Play o autor que
exerceu, e ainda exerce, a mais forte influência individual nos estudos
históricos sobre a família (1972:16). No trabalho que inaugura uma nova
abordagem da história da família, Laslett propõe uma tipologia para classificar
os grupos familiares segundo a estrutura dos domicílios (idem:23-44). Assim,
para demonstrar a aplicabilidade e a relevância de sua abordagem, parte de um
diálogo intenso com os estudos de Le Play. A preocupação de Laslett é mostrar
que o tipo de família privilegiado nos estudos de Le Play (a chamada
"família-estirpe")8 é raro na sociedade européia, mesmo em períodos
históricos recuados. Por outro lado, a perspectiva leplaysiana sobre a família
nuclear seria equivocada, já que para seu autor a predominância da família
nuclear seria um sintoma da desagregação social observável na Europa desde o
século XVIII, provocada pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa.
Laslett empenha-se em demonstrar que este seria um arranjo familiar bastante
disseminado na Europa desde períodos bastante recuados no tempo (idem:16-23,
45-62). Suas análises sobre a família-estirpe encontraram forte contraponto no
trabalho de Lutz Berkner (1972). Para este, a pequena presença de domicílios
extensos nas fontes históricas utilizadas por Laslett deve-se ao fato de estas
focarem apenas um momento, e não detectarem as transformações que as famílias
sofreram ao longo do tempo. Segundo Berkner, o acompanhamento de núcleos
familiares por várias décadas permite perceber que a grande maioria assume, em
algum momento da sua trajetória, características que permitem descrevê-los como
família-estirpe, embora em cada momento da observação este tipo de família
represente uma parcela muito pequena do conjunto da população observada. Isto
demonstraria que a família-estirpe estudada por Frédéric Le Play pode de fato
ter sido um tipo importante de arranjo familiar na Europa9.
Um uso diferenciado da obra de Frédéric Le Play aparece em Scott e Tilly
(1982). Preocupadas com o estudo das mulheres trabalhadoras na Europa do século
XIX, as autoras buscam informações nas monografias de famílias elaboradas por
Le Play e seus seguidores. Nestas, é possível recuperar o papel do trabalho
feminino nas famílias de trabalhadores europeus graças à orientação dada por Le
Play de que todas as atividades desempenhadas pelos membros das famílias
deveriam ser incluídas nos cálculos dos orçamentos familiares. Assim, pode-se
dispor de uma fonte de informações importante, que testemunha o papel de um
segmento o mais das vezes desprezado nos estudos sociais da época, qual seja, o
das mulheres.
Hervé Le Bras e Emmanuel Todd fazem um uso ainda mais intenso da herança
leplaysiana, embora com resultados no mínimo polêmicos. O propósito de ambos
seria compreender a peculiaridade francesa, que combinaria "unidade
administrativa e diversidade antropológica" (1981:8). A chave para esta
diversidade estaria nas várias estruturas familiares que a caracterizariam. A
família seria o elemento explicativo graças ao seu papel como agente essencial
da socialização das crianças e instrumento de reprodução da sociedade (idem:22-
23). Para embasar suas preocupações com as estruturas familiares, os autores
recorrem a Le Play, adaptando sua tipologia de famílias a fim de verificar os
tipos predominantes nas diversas regiões francesas e relacionar esse predomínio
com comportamento eleitoral, índices de suicídio, incidência de alcoolismo e
outros.
Essa rápida passagem por uma parte do destino e das apropriações da obra de
Frédéric Le Play permite afirmar que, embora não seja necessário requerer sua
inclusão entre os grandes clássicos da sociologia, é interessante debruçar-se
sobre ela para resgatar uma contribuição fundamental aos estudos de família no
Ocidente. Por outro lado, creio que já é possível antecipar algo que é a marca
da sua trajetória como pesquisador social e que, acredito, garantiu a
sobrevivência de seus trabalhos. Refiro-me à preocupação com a coleta
sistemática e planejada de evidências empíricas. Nesse sentido, no intuito de
discutir tais aspectos da obra de Frédéric Le Play, pretendo, nas partes que
seguem, examinar a sua trajetória pessoal e intelectual para então discutir as
razões da centralidade da família em suas pesquisas e os conceitos que ele
construiu e utilizou.
FRÉDÉRIC LE PLAY: VIDA E OBRA
A vida e a obra de Frédéric Le Play confundem-se por uma razão especial: boa
parte dos seus escritos destinados a difundir seu método de pesquisa ocupa-se
com a descrição de seus anos de formação e de seus esforços para criar e
disseminar suas pesquisas. Assim, fica-se sabendo que, filho de um funcionário
da administração alfandegária no interior francês, vai morar, em 1811, aos
cinco anos de idade, com um tio materno, após a ausência do pai10, voltando a
residir com sua mãe em 1815. Em outubro de 1825, entra para a École
Polytechnique, em Paris, e dois anos depois para a École des Mines. Será o
momento do contato com modernas idéias científicas e políticas. Segundo Savoye
(1989:16), "é no curso dos anos passados na Escola de Minas que a questão
da decadência e da prosperidade das sociedades' e da passagem de um a outro
destes estados se tornam essenciais a seus olhos". No final do seu curso,
no verão de 1829, propõe à direção da escola uma viagem de estudos à Alemanha
do Norte. Com seu colega Jean Reynaud, percorre, segundo seu próprio
depoimento, 6.800 km, a maior parte a pé. Ao lado das visitas a minas, usinas e
florestas, empenha-se no estudo das populações trabalhadoras. Voltando a Paris,
envolve-se em um acidente no laboratório de sua escola, permanecendo inativo
durante um ano e meio. Este será um período em que a impossibilidade de exercer
qualquer atividade física o afasta dos acontecimentos revolucionários de 1830.
Segundo Le Play, esses são eventos decisivos para a formulação de seu método de
trabalho: uma experiência de convívio, na infância e adolescência, com
situações bastante diversificadas; a oportunidade de ir a campo observar
sociedades diferentes; o período em que permanece entregue às suas próprias
reflexões (Le Play, 1989:399-407).
Após sair desse período de inatividade, retoma a redação de seu relatório de
viagem. Aos poucos, é absorvido pela École des Mines, onde não só passa a
redigir os Annales des Mines, como se envolve com a construção de estatísticas
de comércio internacional de minérios e a elaboração de obras de caráter
técnico no campo da engenharia de minas11. Essa produção técnica será
relativamente abundante até o ano de 1854, quando, às vésperas da edição de sua
primeira e principal obra sociológica (Les Ouvriers Européens, 1855), publica
seu último título na área12. Conforme Savoye, sua formação como engenheiro de
minas servirá
"[...] de moldura para elaboração de sua ciência social que,
durante cerca de um quarto de século, ele constituirá à margem de
seus estudos metalúrgicos. Donde os parentescos de métodos entre as
duas atividades científicas, a começar pelo primado dado ao contato
direto com a realidade estudada. [...] O sociólogo como o engenheiro
é antes de tudo um homem de campo que pratica a observação positiva
dos fatos" (1989:16-17).
Ao longo das décadas de 1830 e seguintes, Le Play se envolverá em atividades
diversas, combinando a ocupação de postos no governo francês com viagens de
pesquisa. Entre 1834 e 1842, ao lado de suas funções como membro da Comission
Permanente de Statistique de l'Industrie Minerale, realiza viagens à Bélgica,
Inglaterra, Escócia e Irlanda (1835-1836); Áustria e Rússia Meridional (1837);
Inglaterra (1842). Na Rússia, teve contato pela primeira vez com o que ele
denomina de sociedades patriarcais. Continua suas viagens sistemáticas de
estudo pela Alemanha do Norte e Rússia (1844); países nórdicos (1845); Itália
do Norte, Áustria-Hungria e Bélgica (1846). Todas estas são ocasiões em que
colige dados para a elaboração de monografias específicas de famílias. Ao mesmo
tempo, vê-se impregnado de uma visão sociológica nas suas abordagens dos
problemas industriais. Em suas aulas na École des Mines, desenvolve uma
concepção sobre a direção de empresas que deve levar em conta o que chama de
"fator humano" (idem:22).
No ano de 1848, em meio aos acontecimentos políticos, é chamado a auxiliar o
governo no sentido de fornecer elementos para a fundação de uma política social
reformadora. Nesse momento, seu interesse pelas ciências sociais transforma-se
no objetivo principal de seus trabalhos. Com ajuda governamental, empreende
novas viagens de estudos: Suíça, províncias do Danúbio e Turquia Central, em
1848; Auvergne, em 1850; Inglaterra, províncias renanas e Westphalia, em 1851;
Áustria e Rússia, em 1853.
Em 1855, surge sua obra inaugural e decisiva no campo das ciências sociais: Les
Ouvriers Européens, que é o resultado de esforços contínuos ao longo das duas
décadas e meia nas quais coletou informações e elaborou monografias de famílias
de praticamente todas as regiões européias. A obra é dividida em seis volumes.
No primeiro, "Introduction", justifica a necessidade de realizar
reformas sociais baseadas no conhecimento dos fatos e sustenta a superioridade
das pesquisas diretas. No segundo volume, "Exposé de la Méthode Appliquée
dans cet Ouvrage à l'Observation des Ouvriers", Le Play apresenta o
processo de investigação e faz uma exposição preliminar dos resultados. Os
volumes seguintes constituem a segunda parte da obra, sendo apresentadas 36
monografias de famílias; este é o verdadeiro corpo do trabalho, com o
subtítulo: "Études sur les Travaux, la Vie Domestique et la Condition
Morale des Populations Ouvriéres de l'Europe" (idem:26-28).
Savoye (idem:28-29) avalia que a obra provocou uma grande reação, em um duplo
sentido. Do ponto de vista daqueles acostumados com a pura teorização,
afloraram dificuldades decorrentes da necessidade de raciocinar sobre o volume
de fatos levantados. Outros grupos reagiram, sobretudo, à adoção de um método
baseado em uma amostragem, contestando a sua validade. De todo modo, o livro
obtém ampla repercussão e é agraciado pela Academie des Sciences com o prêmio
"Montyon" de Estatística, em janeiro de 1856. Neste mesmo ano, Le
Play funda a Société Internationale des Études Pratiques d'Économie Sociale ou
Société d'Économie Sociale (SES). Seu objetivo é "constatar pela
observação direta dos fatos, em todas as regiões, a condição física e moral das
pessoas ocupadas em trabalhos manuais, e as relações que as ligam, seja entre
elas, seja com as pessoas pertencentes às outras classes"13. Trata-se de
uma instituição com tríplice caracterização: é uma sociedade de sábios; é uma
sociedade promotora de reformas sociais; é uma sociedade que não nega a
política, mas busca neutralizar os efeitos das polêmicas políticas (idem:31-
32). A partir daquele momento, a SES torna-se a grande difusora da metodologia
leplaysiana, promovendo inclusive a publicação de novas monografias de famílias
produzidas por pesquisadores nela formados14.
Le Play passa a ser consultado com freqüência por Napoleão III. Torna-se
conselheiro de Estado em 1855 e, a partir de 1867, senador. Responde pela
organização da parte francesa da Exposição Universal de Londres de 1862,
incentivando a presença de trabalhadores. Para a Exposição Universal de 1867,
em Paris, é nomeado comissário-geral, atuando com o mesmo propósito. Nesse
intervalo, publica La Réforme Sociale en France (1864), incentivado por sua
atuação como conselheiro de Napoleão III. Esta se tornará a sua obra mais
difundida, com seis edições ainda durante a sua vida. Seu propósito é divulgar,
em uma obra de leitura mais fácil e direta, os achados e as intenções contidas
em sua proposta de reforma social. Trata-se de um estudo da sociedade francesa,
incluindo desde a vida privada até o sistema de governo. Nele, Le Play aponta
as transformações necessárias para assegurar a estabilidade e a prosperidade
sociais. Por outro lado, há um apelo à iniciativa privada, mesmo que a título
provisório ela deva colocar-se ao lado do poder do Estado. Neste aspecto, a
obra revela de forma mais evidente os princípios liberais que pautaram a
atuação de Le Play para levar à frente sua reforma social.
Em 1870, Le Play usa a sua experiência com as exposições universais para
produzir uma nova obra, L'Organisation du Travail. Nela, são analisadas as
práticas essenciais que, para ele, são o verdadeiro sintoma da saúde material e
moral das oficinas de trabalho. No ano seguinte, vem à luz L'Organisation de la
Famille. Trata-se de mais um esforço de divulgação dos seus achados no campo de
estudo da família. Do ponto de vista pessoal, esse é o período em que, com a
República, Le Play se volta para a vida privada. Há o abandono definitivo de
qualquer perspectiva reformista com base no Estado e nas instituições públicas,
o que vai levá-lo a fundar uma nova sociedade de estudos e reforma social: as
Unions de la Paix Sociale (UPS). As UPS teriam o propósito de propagar a
reforma social preconizada por Le Play. Entretanto, não fazia parte de seus
objetivos constituir um grupo de pressão. Ao contrário, sua meta era
"desenvolver uma pedagogia da reforma pela observação científica dos fatos
sociais" (idem:42). Segundo o próprio Le Play, "para exercer suas
propagandas da verdade, as Unions não demandam nenhum apoio de forças ou
privilégios que conferem os poderes públicos" (1989:568).
Dentro dessa perspectiva, surge uma obra que representa a abertura de um novo
veio de trabalho para Le Play: trata-se de La Constitution de l'Angleterre
(1875). Nessa segunda fase do seu programa científico, Le Play propõe-se a
estudar diretamente as sociedades (grandes ou pequenas) de um ponto de vista
que compreende a dinâmica ordem/desordem, paz/discórdia (Savoye, 1989:41). Na
mesma linha de Les Ouvriers Européens, apresenta seu estudo sobre a Inglaterra
com o propósito de difundir sua definição sobre o quadro monográfico de estudos
de sociedade. Entretanto, os poucos frutos colhidos por essa proposta de
estudos levam a um retorno ao método monográfico de famílias. Surge, assim, a
segunda edição de Les Ouvriers Européens (1879), associada a outra obra, La
Méthode Sociale (1879). Ambas aparecem no interior de um quadro em que se
tornava necessário reforçar a difusão de seus métodos de trabalho. Desde a sua
estréia no campo dos estudos sociais, Le Play procurou garantir a difusão
precisa de seus procedimentos, a fim de preservar a comparabilidade e a
"cientificidade" dos seus achados e dos de seus discípulos. Nesse
sentido, a SES procurou cumprir tal propósito mediante o treinamento de
pesquisadores e a divulgação dos estudos mais recentes. Posteriormente, junto
com a fundação das UPS, Le Play criou a École des Voyages e a revista La
Réforme Sociale, em resposta às preocupações que o cercavam na conjuntura pós-
1870. A nova edição de Les Ouvriers Européens e o lançamento de La Méthode
Sociale, portanto, têm como objetivo auxiliar os trabalhos de ensino e pesquisa
da École des Voyages e da SES.
La Méthode Sociale apresenta um conteúdo idêntico ao do tomo primeiro de Les
Ouvriers Européens, "La Méthode d'Observation" (Savoye, 1989:8). Seu
objetivo era divulgar o método de investigação social desenvolvido por Le Play,
sobretudo para os estudantes pesquisadores da École des Voyages. Segundo Le
Play, as viagens metódicas seriam o principal meio de obter informações
sistemáticas que orientassem o intento maior da reforma social; daí a
importância da École des Voyages. Para facilitar a propagação de seu método, o
autor propõe-se a reunir, em um único volume, os principais elementos do (seu)
"método social". Assim, justifica-se a publicação, sob nomes
diferentes, de dois livros quase idênticos (Le Play, 1989:v-viii). Creio poder
afirmar que a segunda edição de Les Ouvriers Européense o surgimento deLa
Méthode Sociale significam o ápice da obra de Le Play, por dois motivos: de um
lado, marca o retorno, que incorpora as contribuições advindas de décadas de
trabalho do autor e dos pesquisadores formados segundo seu "método
social"15, ao seu ponto de partida de 1855, qual seja, o estudo das
sociedades (européias) com base nas monografias de famílias; de outro,
sintetiza seu método de trabalho e fornece um instrumento que, a seu ver,
garantiria que o mesmo se difundiria e perpetuaria.
LE PLAY APÓS LE PLAY
O empenho de Le Play em difundir seu método através de publicações e da criação
de sociedades de pesquisa revela sua preocupação em garantir sua continuidade.
Entretanto, após sua morte em 1882, seus seguidores envolveram-se em conflitos
e cisões, frutos dos interesses diversificados daqueles que se julgavam os
verdadeiros herdeiros dos propósitos do mestre. Embates começam a surgir em
torno da orientação a ser dada ao principal periódico fundado por Le Play, La
Réforme Sociale. O rumo que seus editores, Henri de Tourville e Edmond
Demolins, vinham tentando dar às pesquisas desagradou aos dirigentes da Societé
d'Économie Sociale, que os destituíram. Em reação, ambos enveredaram por um
projeto alternativo, fundando o periódico La Science Sociale. Neste novo
projeto, a ênfase é colocada no aspecto científico da obra de Le Play e, em um
segundo momento, chega-se a abandonar os seus modelos de coleta de informações
como referência mais importante (Kalaora e Savoye, 1989:125). Busca-se, com
isso, uma renovação sensível da tradição leplaysiana (Chenu, 1994:8).
Henri de Tourville seria o principal responsável por tal renovação. Seu
interesse volta-se para a integração entre as monografias de famílias e as
monografias de sociedades, procurando realizar de forma inovadora o que seu
mestre havia tentado sem muito sucesso. Assim, "estudar a família, mesmo
na Europa Ocidental onde seu poder e sua autonomia estavam consideravelmente
reduzidos, permanece como uma via de acesso para a compreensão da
sociedade" (Savoye, 1989:57). Para cumprir tal objetivo, Tourville investe
na criação de uma nomenclatura dos fatos sociais, entendida como instrumento
que permitiria, partindo da análise da família, estudar as sociedades. Nesta
nomenclatura, os fatos sociais seriam distribuídos em 25 grandes classes, o que
favoreceria a descrição metódica da realidade através do isolamento dos fatos
sociais essenciais, sobretudo porque permitiria ascender a uma explicação pelo
estudo da ação e da reação dos fatos entre si (idem:57-58). Abre-se, pois, um
novo campo de investigação que recria a tradição leplaysiana.
O grupo que permaneceu agregado ao periódico La Réforme Sociale volta-se,
sobretudo, para a elaboração de instrumentos destinados à intervenção racional
e reguladora da sociedade (Kalaora e Savoye, 1989:175). Neste grupo, destaca-se
o papel de Émile Cheysson que, em 1897, lança a expressão "engenharia
social", que sintetiza muito bem os propósitos do grupo. Para ele, seria
necessário desenvolver nos patrões uma sensibilidade às implicações sociais do
funcionamento das empresas (idem:176). Maurice Bellon, outro integrante do
grupo, refere-se ao engenheiro social como o sociólogo prático que conhece a
fundo os princípios e métodos necessários para assegurar a paz na relação entre
patrões e operários e realizar a melhoria da sorte dos trabalhadores (ibidem).
Deste ponto de vista, realiza-se plenamente o propósito maior das ciências
sociais segundo Le Play: buscar na pesquisa sociológica fundamentos que
permitam estender a todos os setores da sociedade um intervencionismo social
racional, cientificamente fundamentado (idem:185)16.
Entre a orientação do grupo reunido em torno do periódico La Science Sociale e
a daqueles que se conservam junto ao La Réforme Sociale, permanece como fator
comum a concepção de uma ciência social que deve servir à intervenção.
Portanto, "o desacordo deve-se bem mais, no momento da ruptura, a uma
diferente apreciação sobre a combinação, a dosagem da ciência e da reforma,
ambas componentes essenciais e indissociáveis do leplaysianismo" (Savoye,
1989:53).
O empenho gerado pela união entre ciência social e reforma social leva os
grupos herdeiros de Le Play ao envolvimento com os diversos temas de sua época,
negando-se a uma especialização e indo de encontro à tendência do saber
instituído. A indissociabilidade entre ciência e ação, conhecimento e reforma,
gerou dificuldades em estabelecer ligações e trocas intelectuais com os
cientistas sociais universitários partidários da neutralidade do saber e do
descompromisso do pesquisador (Kalaora e Savoye, 1989:29).
A universidade francesa, especialmente a partir da Primeira Guerra Mundial,
assegura seu domínio sobre a produção e difusão do saber que marginaliza e
isola as escolas independentes. Os compromissos políticos dos leplaysianos,
especialmente suas ligações com o clero católico, isolam-nos ainda mais, dadas
as sanções impostas pelas ciências sociais universitárias a tais orientações
(idem:30, 38).
O movimento leplaysiano separa-se da universidade e de seus critérios de
cientificidade, rompendo com seus valores e códigos. A reunião multiforme de
indivíduos, associados em torno de uma base de investimento e engajamento
pessoal, de iniciativa privada e sem a necessidade de se conformar às regras
acadêmicas, está na raiz desse estranhamento recíproco. À formalidade
facilmente legível que o sistema hierárquico dá à universidade contrapõem-se
outros critérios que não apenas aqueles ligados às atividades científicas.
Dentre eles, além do valor associado à produção escrita, se unem fatores como
idade, experiência, status social e outros (idem:34-35).
Esse distanciamento mútuo é o principal gerador do ocultamento que sofreu,
dentro da sociologia francesa, a produção associada a Le Play. Ao longo das
décadas seguintes à sua morte, a sua produção e a de seus seguidores assistiram
a um movimento pendular de recuperação e esquecimento. Após o ostracismo nas
décadas iniciais do século XX, a tradição leplaysiana é recuperada no
entreguerras. Na França, é motivada pelo interesse renovado nas pesquisas
empíricas e monográficas e pelo desejo de participar dos intensos debates
políticos da época. Em outros países, a descoberta de Le Play ocorre sobretudo
pela valorização e desenvolvimento dos trabalhos monográficos. Durante a
Segunda Guerra Mundial, a identificação de alguns dos membros do movimento com
o regime de Vichy provocou novo esquecimento de Le Play (idem:44-47), cuja
recuperação só se torna consistente a partir da década de 60.
O interessante a destacar nessa trajetória é a persistência dos leplaysianos.
Segundo Kalaora e Savoye,
"A Escola de Le Play é um grupo de pessoas privadas reunidas
sobre a base de um projeto social e de pesquisa. Apesar das múltiplas
vicissitudes, esta Escola se manteve de 1856 aos nossos dias, graças
à renovação, geração após geração, das iniciativas pessoais e
coletivas que a move. Esta duração é por si só marcante. Ela revela
claramente a estratégia de reprodução [...] do grupo leplaysiano, e
sua capacidade de desempenhar uma ação pertinente em face da evolução
da sociedade francesa" (idem:69).
A FAMÍLIA EM LE PLAY
Já ficou claro que a família ocupa o centro das preocupações de Le Play e,
conseqüentemente, é o vértice do seu "método social". Como
organização básica da sociedade, sobre ela monta-se e em torno dela gravita
toda a vida dos indivíduos. Para compreender a origem e as conseqüências dessa
centralidade da família na obra de Le Play, proponho que acompanhemos a forma
como ele demonstra o seu método. Para tanto, nesta parte, analisarei
detalhadamente La Méthode Social que, conforme afirmei acima, marca o ápice de
seu trabalho como investigador social.
O prefácio da obra já indica o ponto de vista e os propósitos do autor. Desde
os acontecimentos de 1789, a Europa (e sobretudo a França) estava vivendo uma
situaçãode sofrimento e instabilidade. A busca de remédios para esse estado,
tentada pelos homens de Estado e pelos escritores, revelava-se inútil. Assim,
Le Play propõe que se busque a solução para tais problemas no segredo dos
governos fundados na paz. Para tanto, argumenta que o seu método de
investigação se mostra o mais adequado, pois procura aplicar à observação das
sociedades humanas um "mecanismo científico", o qual foi elaborado
graças ao uso de regras análogas àquelas que ele se acostumara a utilizar no
estudo dos minerais e das plantas. Conforme afirma, "eu criei um método
que me permitiu conhecer pessoalmente todas as nuanças da paz e da discórdia,
da prosperidade e do sofrimento que apresentam, na Europa, as sociedades
contemporâneas" (Le Play, 1989:x).
Sua conclusão é que a condição para a felicidade humana se reduz a uma verdade
fundamental, inerente à natureza humana: as sociedades são felizes quando cada
indivíduo possui o "pão cotidiano" e pratica a "lei moral".
Em função disso, é possível observar a existência de quatro tipos de
sociedades, conforme uma raça (expressão utilizada como sinônimo de sociedade)
adquiriu, conservou, perdeu e, enfim, recuperou esses dois bens essenciais da
humanidade. Assim, temos: as raças "simples e felizes" (superiores a
todas as outras); as "complexas e felizes"; as "complexas e
sofridas" (situação observada na França "após o esplendor do reino de
Luiz XIV"); e as "complexas e reformadas". Sua obra, portanto,
tem o propósito de orientar e propagar um plano de reformas judiciosas que
permita à sociedade (européia) recuperar a felicidade perdida.
Com o intuito de orientar as investigações e divulgar a necessidade de reformas
sociais, a obra apresenta-se dividida em três livros. No primeiro, intitulado
As Origens do Método, justifica-se a necessidade de tal empreitada e se
apresenta o esquema explicativo adotado pelo autor, baseado na relação entre a
sociedade e o lugar, a natureza humana e os meios de subsistência. O segundo
livro, A Descrição do Método, divide-se em duas partes: argumenta-se sobre a
centralidade que a investigação sobre a família deve ocupar em um método que
busca ser o mais adequado para a reforma da sociedade; e apresenta-se o método
de monografias de famílias trabalhadoras. Finalmente, o livro terceiro, A
História do Método e seus Resultados, expõe a trajetória pessoal do autor, um
resumo dos resultados obtidos com 57 monografias de famílias, um
"Vocabulário Social" com 300 palavras, um "Sumário
Alfabético" dos fatos expostos na obra (com mais de 600 entradas) e um
relato dos resultados relativos ao ensino do seu método nos anos que separam as
duas edições de Les Ouvriers Européens (1855 e 1879).
No capítulo inicial do livro primeiro, Le Play (1989:3) argumenta que a origem
do sofrimento de então estava nos erros acumulados desde o século XVIII. Um
deles seria a predominância exagerada do "espírito de novidade" sobre
o "espírito da tradição", embora reconheça que as inovações
contemporâneas melhoraram a vida material, mesmo tendo desorganizado a vida
moral. Estas afirmações trazem em si um aspecto interessante da visão do autor
sobre o seu tempo e a reforma social que pleiteava. Embora se possa dizer que
estivesse preocupado em ir contra muitas das transformações então em curso no
mundo, Le Play não advogava uma volta ao passado. Para ele, o progresso
material alcançado pela sociedade européia era importante, mesmo porque o
aumento da população e as conseqüentes concentrações humanas eram um caminho
sem retorno. Caberia às autoridades (oficiais ou não) buscarem empreender
reformas que reconciliassem o homem do século XIX com a felicidade perdida pela
rapidez das transformações. Os elementos dessa reconciliação, e
conseqüentemente da paz social, estavam fortemente estabelecidos na vida
privada (idem:4-5). Daí a eficácia de um método científico que, com o propósito
de buscar a reforma social, se volte para a observação da vida privada em suas
diferentes formas de organização no mundo europeu. Seu método responde a essa
necessidade, especialmente porque surgira da observação da realidade, e não de
idéias preconcebidas (idem:41, 43).
A observação direta da realidade permite a ele afirmar que as diferenças entre
as raças humanas guardam relação direta com os lugares habitados e com o clima
(idem:49). Assim, os territórios onde se desenvolveram as diversas raças
européias podem ser divididos em três tipos. As estepes, com sua abundância de
recursos, permitiram a existência de grandes famílias esparsas ou agregadas em
tribos homogêneas com ancestrais comuns, chefiadas por um único indivíduo; tais
grupos deram origem a famílias estáveis e constituídas sobre uma base
patriarcal (idem:51). Eram a "pátria da virtude", segundo os
geógrafos e poetas (idem:55). O litoral, também com recursos abundantes, deu
origem a outro tipo de família estável: a família-estirpe ("famille-
souche"). Suas diferenças com a família patriarcal deviam-se à sua
composição: um único casal compreendendo os pais, os filhos celibatários e o
herdeiro casado. Este era o resultado das particularidades da atividade
pesqueira, que fornecia seus principais meios de subsistência. Os recursos por
ela fornecidos eram abundantes, mas dependiam de invenções humanas e de
esforços diários que não permitiam a sobrevivência da família patriarcal (idem:
57). Finalmente, nas florestas e solos variáveis situados entre as estepes e o
litoral, as formas de sobrevivência impostas pelo meio e pela maior
concentração humana levaram à necessidade de reunião em pequenos grupos, além
de tornarem a emigração um de seus elementos constitutivos. Esse era o espaço
em que já não se podia contar com famílias tão estáveis (idem:59-60). Essas
eram as sociedades sobreviventes em algumas regiões européias ao tempo das
investigações de Le Play. Entretanto, as influências contemporâneas
(especialmente a expansão das ferrovias) estavam destruindo-as. O trabalho de
pesquisa sobre elas tornava-se ainda mais importante porque, testemunhas de
sociedades estáveis, elas poderiam fornecer os elementos para a reforma social
tão necessária ao restante da Europa.
Por que essas sociedades eram estáveis? Para explicar esta questão, Le Play
invoca os dois elementos já apontados no prefácio da sua obra: a busca do
"pão cotidiano" e a prática da "lei moral". Será sobre a
"lei moral" que ele discorrerá primeiro. Para Le Play, a natureza
humana é essencialmente má. Entre os animais sociáveis, o instinto assegura o
bem-estar, mas entre os homens, este só será garantido pela lei moral, que é
única. Sua forma principal apareceu no Decálogo judaico-cristão, mas também em
outras civilizações, como a chinesa, ele surge com o mesmo conteúdo (idem:133).
A lei moral é a responsável pelo controle do livre-arbítrio, e o abuso deste
engendra o sofrimento decorrente da instabilidade e da discórdia. É a lei moral
que reprime as tendências ao mal (idem:70). A criança não nasce com uma
tendência inerente ao bem, ao contrário. Os pais, no seio de suas famílias, são
os responsáveis por transmitirem os princípios da lei moral aos filhos. Dentre
estes, inclui-se, obviamente, o ensino de uma "arte útil", uma
iniciação ao trabalho. Será o sucesso (ou insucesso) de tal missão que
conduzirá a sociedade à felicidade (ou ao sofrimento) (idem:73-75). Entre as
sociedades mais complexas, também o governo se torna responsável pela
transmissão da lei moral, seja por instituições específicas (religião, escola
etc.), seja pela obediência estrita ao senso de justiça, que evita a revolta e
a desobediência de seus cidadãos (idem:75).
A lei moral é única, mas as formas de sobrevivência (o "pão
cotidiano") são diversas. Nas sociedades complexas, estas devem estar
limitadas para evitar a corrupção dos costumes provocada pelas aglomerações
exageradas. Em outras palavras, os meios de subsistência devem se conciliar com
as exigências da lei moral (idem:80-81). Daí a importância de se investigar as
diferentes ocupações humanas e a relação que estabelecem entre a lei moral e as
formas de sobrevivência. Le Play identifica e descreve nove
"profissões" ou "tipos de trabalho". As seis primeiras (os
selvagens, os pastores, os pescadores, os trabalhadores nas florestas, os
mineradores e os agricultores) são consideradas indispensáveis à sobrevivência
da sociedade (idem:84-117). Os manufatores, os comerciantes e os profissionais
liberais, por sua vez, são desnecessários ' são até mesmo nocivos, caso tenham
criado muito rapidamente sua riqueza, porque são fontes de orgulho e de
corrupção (idem:181). Do ponto de vista dos manufatores, a "indústria
doméstica" é valorizada porque ainda se realiza no âmbito das atividades
da família (idem:119). As "fábricas coletivas" e as "usinas
hidráulicas", por sua vez, embora provoquem concentrações humanas
condenáveis, ainda podem garantir a manutenção das famílias trabalhadoras e
preservar, em maior ou menor grau, relações de patronagem estáveis (idem:120-
122). As "usinas a vapor com engenhos mecânicos", entretanto, embora
tenham representado uma grande conquista para a humanidade, foram, para as
classes trabalhadoras, a origem de terríveis calamidades (idem:123). Porém, a
mais terrível das invenções geradas no século XVIII deveu-se ao "filósofo
escocês" Adam Smith, que se dedicou a persuadir diversas gerações sobre a
inutilidade das relações de patronagem. Foi esta pregação que provocou a
disseminação de comoções e discórdias nas fábricas, em lugar da estabilidade e
da paz então reinantes (idem:124).
Dadas essas duas instâncias essenciais para a compreensão da sorte das
sociedades humanas, resta determinar como se dá a constituição mesma de tais
sociedades. Para Le Play, todas elas possuem uma característica primordial,
inseparável da natureza humana: os indivíduos agrupam-se por "unidades
sociais", ou seja, famílias ' compostas ao menos de um pai, uma mãe e seus
filhos. As formas de família podem se apresentar bastante diversificadas, com
graus diferentes de simplicidade e de complexidade. Todavia, alguns elementos
constitutivos são indispensáveis para a garantia da estabilidade e da paz
social (idem:132). Nas raças prósperas, o edifício social compreende sete
elementos essenciais, agregados em três grupos. O primeiro grupo abrange dois
fundamentos inseparáveis: o Decálogo, expressão da lei moral, que completa a
natureza imperfeita do homem ao regular seu uso do livre-arbítrio; e a
autoridade paterna, responsável pelo ensinamento da lei moral aos seus filhos e
pela repressão das suas tendências inerentes ao mal. O segundo grupo contém os
dois "cimentos" das raças: de um lado, a religião; de outro, a
soberania, que complementa nas aglomerações de famílias a função da autoridade
paterna. Finalmente, o terceiro grupo apresenta os três materiais constitutivos
da propriedade da terra, da qual as sociedades retiram seus principais meios de
subsistência: a comunidade, a propriedade individual e a patronagem (idem:134-
135).
Le Play identifica duas regiões onde, apesar das transformações que começavam a
ser introduzidas, ainda existiam sociedades em que a constituição essencial
conservava a preponderância dos espíritos, perpetuando o reino da paz e da
estabilidade: o Oriente e o Norte (idem:135). As principais características
dessas sociedades simples eram: relativa dispersão pelo território; uso de
recursos produzidos espontaneamente pelo solo e pelas águas, com complementos
fornecidos pela agricultura, pastoreio, recursos florestais e mineração;
supremacia da família submissa ao Decálogo, à religião e à autoridade paterna;
alta fecundidade, criadora de famílias fortes e que permitia escolher um bom
herdeiro; emigração, que dirigia às colônias as atividades superabundantes que
poderiam prejudicar a metrópole (idem:141).
As nações do Ocidente, por seu turno, haviam perdido a noção suprema de paz
social. O sofrimento material tinha por origem, principalmente, as inovações
que, transformando os regimes manufatureiros desde a Idade Média, haviam
retirado da população a segurança dada pelas instituições tradicionais (idem:
144). O sofrimento moral, por sua vez, decorria da corrupção dos costumes e das
idéias que, através dos tempos, provocou a decadência e a ruína das nações
(idem:154). Essa decomposição de costumes e idéias teve sua expressão máxima em
Rousseau, cuja crença na tendência inerente ao ser humano de realizar o bem
levou-o à formulação da doutrina que pregava três falsos dogmas: a liberdade
sistemática, a igualdade providencial e o direito à revolta (idem:149). É
importante salientar que Le Play busca expor esses seus argumentos assumindo
que os mesmos foram produzidos a partir das investigações levadas a cabo por
ele ao longo dos anos em que realizou suas pesquisas sociais. O contínuo
recurso ao testemunho de sua trajetória pessoal seria a demonstração de que
tais conclusões não foram fruto de mera especulação teórica, mas resultado de
um esforço sistemático de investigação empírica. Nos dois livros seguintes, ele
se ocupará da descrição e da história do método de trabalho que teria permitido
construir tais conclusões.
O livro segundo, intitulado A Descrição do Método, inicia com uma explicitação
dos seus objetivos: "Eu irei demonstrar neste Livro que o método de
observação, o mais apto a reformar as sociedades, deve ter por objeto o estudo
das famílias" (idem:157). Desde que começaram a multiplicar-se, os homens
asseguraram sua subsistência cotidiana agrupando-se em famílias. As
constituições sociais passaram a derivar dos meios empregados para a conquista
da subsistência e de seu bem-estar, gerando influências nos costumes, nas
idéias e nas instituições sociais. Tais constituições sociais podem variar ao
infinito, mas colocam-se entre dois pontos extremos. De um lado, existem as
sociedades que se contentam com os meios de subsistência mais simples. Estas
permanecem esparsas sobre seus territórios, dentro das condições mais
favoráveis de respeito à lei moral; conseqüentemente, conservam a prosperidade.
No outro extremo, estão aquelas que multiplicaram ao máximo os meios de
subsistência nos seus territórios, aglomerando-se e desenvolvendo influências
opostas ao predomínio da lei moral. Tais sociedades viram-se corrompidas e
tombaram no sofrimento (idem:158). O único meio de se alcançar a reforma social
requerida pelas sociedades tomadas pelo sofrimento é a observação social, tanto
das raças mais simples quanto das mais complexas. À divisão contemporânea entre
espírito e interesse, devem-se opor todos os recursos de união oferecidos pela
tradição do passado, controlados pela experiência e sabedoria dos
contemporâneos (idem:167). O método desenvolvido por Le Play volta-se,
portanto, para o estudo da família porque é nela que será encontrado o caminho
para a recuperação do bem-estar, da paz e da prosperidade. Compreender a
família é crucial, pois isto permitirá intervir sobre as causas do sofrimento e
da corrupção. A reforma social, objetivo buscado por Le Play, deverá levar em
conta que o bem-estar das famílias é o critério que permite verificar as boas
constituições sociais. Daí a formulação do axioma: "a vida privada imprime
seu caráter à vida pública; a família é o princípio do Estado" (idem:181).
No entanto, nem todas as famílias serão investigadas. As preocupações de Le
Play voltam-se para um grupo específico: os trabalhadores, definidos como
aqueles que executam com suas próprias mãos as operações que geram os meios
essenciais à subsistência da sociedade. Donde resulta que a organização
material e moral da população trabalhadora e a natureza de suas atividades
formam um dos traços constitutivos das sociedades (idem:208). Em uma sociedade
simples, todas as famílias se envolvem com esse tipo de trabalho e consomem
diretamente a sua produção. Nesses casos, a família é a imagem exata da
sociedade. Para conhecer a constituição social, é suficiente observar os meios
e o modo de existência da família trabalhadora (ibidem). Em sociedades que
alcançaram graus mais elevados de complexidade, os trabalhadores ainda compõem
a maioria dos produtores e consumidores. Os demais, a minoria, podem ser
divididos em dois grupos. O primeiro é formado pelos mestres (proprietários
rurais, capitalistas e chefes de toda sorte), que fornecem a certas categorias
os instrumentos de trabalho, a direção técnica de suas operações manuais, uma
direção moral e uma patronagem que estende à oficina de trabalho função
paternal semelhante à dos pais com seus filhos. O segundo grupo é constituído
pelos profissionais liberais. O método social centrado na família do
trabalhador, portanto, permitiria perceber a todos. Partindo dos trabalhadores,
indicaria as conexões que os uniriam aos mestres e aos profissionais liberais
(idem:209).
À objeção de que a análise de um pequeno número de famílias não daria conta da
compreensão de uma sociedade, Le Play contrapõe o argumento da experiência
(suas observações comprovariam a validade de seu método) e a indicação de que
as boas sociedades geram situações que amenizam as diferenças e as diversidades
humanas (idem:210). Além disso, o objetivo de seu método é divisar soluções
para o sofrimento identificado nas sociedades européias (sobretudo a francesa).
Para tanto, examinar detidamente algumas famílias permitiria encontrar aqueles
elementos fundamentais para responder a essa questão. Nas famílias de
sociedades simples, essa tarefa estaria facilitada pela força das tradições que
protegeriam a paz e a estabilidade transmitida pelos ancestrais (idem:211)17.
Nas sociedades complexas, centrar o foco nas famílias seria válido porque as
sociedades são compostas não de indivíduos isolados e independentes, mas de
famílias. Na busca de caminhos para a reforma social, observar apenas algumas
famílias seria suficiente, porque as soluções para a discórdia potencialmente
gerada no interior das famílias eram muito semelhantes nas diversas situações
observadas. Segundo Le Play, a paz interior das famílias (trabalhadoras) seria
assegurada (nas sociedades complexas) pela combinação de três condições: a
indicação do (único) herdeiro capaz de perpetuar, a cada geração, a
estabilidade e a paz do lar, da oficina de trabalho e da vizinhança; a
ascendência moral e o exercício cotidiano da autoridade paterna, garantida pelo
costume e respeitada pela lei escrita; e a organização de um regime regular de
emigração que retenha no lar, na oficina, na comunidade, na província e no
estado os membros mais úteis de cada geração, destinando às colônias aqueles
excedentes (idem:212-213).
Ora, esta é a descrição da família-estirpe que adiante será dada por ele:
"[...] estável em seu Domicílio18, aliando a Tradição e a
Novidade. Os pais manteriam e casariam apenas poucos filhos que eles
intitulariam Herdeiros-associados'. Os outros filhos que quisessem
casar-se emigrariam isoladamente, providos de Dotes formados pela
totalidade dos produtos economizados pela casa-estirpe" (idem:
457).
É esta a "utopia" de Le Play, o tipo de família que, segundo sua
percepção, permitiria unir o ideal da família patriarcal (cuja existência só se
poderia dar nas estepes) com as circunstâncias de uma Europa já muito povoada e
infiltrada pelas transformações acumuladas desde a Idade Média. A família-
estirpe é o testemunho de família estável que ele ainda encontra em algumas
partes da Europa, em contraposição à família em crise ou desorganizada que já
prevalecia na maior parte da porção ocidental do continente. Para ele, a
reforma social deveria começar pelo resgate e valorização da família-estirpe;
daí, dentre outras, sua luta, enquanto conselheiro e senador, pela reforma da
lei de heranças igualitárias, instituída no rastro da Revolução de 1789.
Seu método de monografias de famílias, portanto, busca definir um conjunto de
observações que permita captar as informações necessárias para orientar a
reforma social. Embora sua obra apresente um tom bastante conclusivo quanto aos
seus achados, havia uma preocupação por parte de Le Play com a necessidade de
continuar as observações. As monografias de famílias eram vistas como um gênero
próximo aos livros de viagem, o que implicava a necessidade de que fossem
sempre refeitas e divulgadas (idem:227)19. Ele despendeu grande esforço para
formar pessoas que continuassem a realizar as monografias conforme ele as fez.
Além disso, ele acreditava que a utilidade de tais monografias só aumentaria
com o passar do tempo, pois elas assumiriam o caráter de viagens retrospectivas
com as quais os historiadores do futuro poderiam contar (idem:228)20.
Mas, afinal, como são feitas essas monografias de famílias? Se para Le Play os
povos eram constituídos de famílias, e não de indivíduos, qualquer trabalho de
observação que se concentrasse na descrição dos indivíduos de sexo e idades
diferentes em uma localidade seria vago, indefinido e sem conclusões possíveis.
No entanto, tal trabalho seria preciso, limitado e conclusivo se tivesse por
objeto a família; daí a eficácia prática das monografias de famílias (idem:
220). A execução destas deveria pautar-se pela observação direta, viabilizada
pelo convívio e pela contínua interlocução com seus membros21. Além disso,
deve-se ter sempre o cuidado de conferir as informações e de recorrer ao que
ele denomina de autoridades sociais (idem:221-222)22. Respeitando os
pressupostos contidos nas suas exposições precedentes, as monografias devem ter
dois fios condutores: a situação da família quanto ao conhecimento da lei
moral; a situação da família quanto à satisfação do pão cotidiano. Uma família
sofre ou prospera se há boa ou má conservação dessas duas condições essenciais.
Tais detalhes aparecerão de forma cristalina naquela que é a parte essencial da
monografia: o orçamento familiar (idem:227). Isto porque o orçamento familiar
permite conhecer não apenas como o pão cotidiano vem sendo suprido, mas também,
indiretamente, a forma como se dá a obediência à lei moral. Em outras palavras,
o orçamento familiar reflete a vida, a organização e as funções da família.
Cada monografia deve ser dividida em três partes. A primeira é o título. Nele,
devem constar três aspectos que permitam definir com clareza o seu conteúdo: a
profissão do trabalhador, a posição por ele ocupada na hierarquia da profissão
e o sistema de engajamento que o vincula aos chefes desta classe. Quanto à
hierarquia, Le Play indica seis condições que se sucedem: os trabalhadores
domésticos, os trabalhadores jornaleiros (ou diaristas), os trabalhadores
autônomos, os trabalhadores gerentes, os trabalhadores proprietários, os
trabalhadores chefes de ofício (idem:229-234). O engajamento destes é definido
segundo sua natureza e a duração do trabalho, podendo ser de três tipos, que se
sucedem, em um mesmo lugar, conforme as populações se vão aglomerando: o
engajamento forçado, o voluntário permanente e o momentâneo. Este último ocorre
quando a lei moral é abalada pela corrupção de idéias e de costumes e quando os
sentimentos mútuos sobre os quais repousam a solidariedade entre mestres e
trabalhadores vão se esvanecendo (idem:234-235). O título também deve conter
uma indicação do lugar onde vive a família observada, já que o componente
espacial é de suma importância para os objetivos de Le Play.
A segunda parte contém a monografia propriamente dita, com os orçamentos
familiares de receitas e despesas. A centralidade dos orçamentos se deve ao
fato de as famílias de trabalhadores terem a sua existência determinada, de um
lado, pela busca incessante da reunião dos recursos necessários à sua
subsistência, e, de outro, pela busca do equilíbrio entre a conquista desses
recursos e a satisfação de suas necessidades (idem:236).
A terceira parte deve trazer dois textos complementares: "Observações
Preliminares", contendo treze parágrafos, expõe a natureza do lugar, a
organização do trabalho na localidade, os caracteres especiais da família
descrita, os traços gerais da receita e da despesa desta, uma história da
família e suas condições morais; "Elementos Diversos da Constituição
Social" menciona os fenômenos sociais diante dos quais o trabalhador é
simplesmente passivo, com suas conseqüências, boas ou más, não podendo ser
atribuídas a ele (as leis, os atos dos governos, os exemplos das classes
dirigentes e outros) (idem:238-239).
Como os orçamentos de receitas e de despesas formam o centro das monografias de
famílias, Le Play concentra-se na discriminação dos diversos itens que devem
compô-los. Naquilo que denomina "Os Meios de Existência dos Trabalhadores
e o Orçamento de Receitas", ele discrimina quatro fontes de receitas: as
propriedades, de três tipos (idem:248-261); as subvenções, de três categorias
(idem:262-266); os salários de trabalhos (idem:267-280); a indústria doméstica
(idem:280-285). Esta parte é complementada por instruções quanto aos valores em
dinheiro e in natura (idem:286-288) e quanto ao grau e precisão na avaliação
dos orçamentos (idem:288-289). Em "Os Modos de Existência e o Orçamento de
Despesas" são distinguidas cinco seções: nutrição, distribuída em sete
artigos (idem:291-320); habitação, em quatro artigos (idem:320-340); vestuário
(idem:340-352); necessidades morais, recreações e serviços de saúde (idem:353-
371); indústrias domésticas, dívidas, impostos e seguridade (idem:371-379). Com
alguns comentários adicionais sobre a constituição social e as autoridades
sociais, Le Play encerra o segundo livro.
No terceiro livro, A História do Método e seus Resultados, Le Play se dedica a
apresentar um resumo dos resultados alcançados a partir das 57 monografias de
famílias reunidas na segunda edição de Les Ouvriers Européens. Ele adota cinco
áreas em conformidade à divisão geográfica da Europa e ao estado social das
populações; estas áreas guiam a forma como se organizam os volumes que contêm
os resultados. No volume II, aparecem as monografias do Oriente, de famílias
patriarcais e populações estáveis. O volume III inclui as monografias do Norte,
com famílias-estirpe e populações estáveis. Os três volumes seguintes são
dedicados ao Ocidente: no volume IV, aparecem as monografias de famílias-
estirpe ou patriarcais e populações estáveis; no volume V, as monografias de
famílias instáveis e populações abaladas em sua estrutura; no volume VI, as de
famílias instáveis e populações desorganizadas.
Ainda em La Méthode Sociale, Le Play apresenta dois conjuntos de resultados que
devem servir de guia para aqueles que querem apor o método de monografias de
famílias. O primeiro é o "Vocabulário Social", contendo uma
abreviação alfabética da "ciência social", feita com trezentas
palavras constitutivas da linguagem própria do seu "método social".
Segundo ele, é necessário empregar na ciência social o método de observação que
é usado com sucesso no estudo das ciências físicas. É preciso definir o senso
exato atribuído às palavras que se aplicam aos elementos fundamentais da
ciência social (idem:441-479). Outro conjunto de resultados é a "Tábua
Analítica dos Fatos Observados em Les Ouvriers Européens". Nela, são
listados mais de seiscentos "fatos" que classificam em forma
alfabética os detalhes da vida moral e "física" das famílias
estudadas (idem:480-548).
Não se pode deixar de mencionar dois componentes importantes desse terceiro
livro de La Méthode Sociale. Em primeiro lugar, há os testemunhos
autobiográficos em que Le Play expõe sua história pessoal desde a infância até
o momento em que escreve esta obra. O relato é dividido em três tempos: a
primeira educação do autor (1811-1815); a aprendizagem do método (1829-1855); a
propagação deste (1848-1879) (idem:399-438). Trata-se de mais um retorno à sua
biografia pessoal como justificadora do surgimento do seu método e como uma
espécie de contraprova da sua validade enquanto resultado de observações
empíricas (e por isto mais confiáveis). Em segundo lugar, Le Play dedica-se a
descrever os resultados obtidos com o ensinamento do seu método. Assim, ele
busca relacionar todas as atividades em que se envolveu com tal intuito: a
Société Internationale des Études Prátiques d'Économie Sociale; as Unions de la
Paix Sociale; o Comité de la Bibliothéque Sociale; seus esforços de ensinamento
"pelos escritos" e "pelas palavras" (idem:549-573). Trata-
se de demonstrar a necessidade de difundir seu "método social" e de
dar continuidade à pesquisa empírica. O exercício da "dúvida
metódica" continua a marcar a atuação de Le Play, e "o próprio
método, ainda que arduamente elaborado e experimentado centenas de vezes, não é
intangível e deve ser aperfeiçoado, até mesmo ultrapassado" (Savoye, 1989:
10).
O MÉTODO EM LE PLAY
Conforme apontado anteriormente, a grande força dos estudos leplaysianos reside
na construção de um método sistemático para a investigação social. Esta se
concentra no estudo da família, vista como a instituição fundadora da
sociedade. Nesse sentido, o método leplaysiano não pretende atender apenas a
uma sociologia da família, mas a uma sociologia que a toma como elemento
central. O primado da monografia de família se justificaria pela concepção
segundo a qual esta inclui todo o mundo social (Chenu, 1994:201). O tipo de
família dominante em uma determinada região deixaria sua marca em todas as
esferas da vida social, o que permitiria a combinação, fundamental para Le
Play, entre espaço geográfico e organização familiar. Quando Le Play resolve
criar um método para a investigação das sociedades, as chamadas monografias de
países, a família é novamente tomada como ponto de partida e como principal
fonte de explicação da organização social. É o que se vê em La Constitution de
l'Angleterre (1875), onde a pesquisa dos grupos familiares ocupa todo um
capítulo (Livre Cinquième: La Famille et son Domaine), além de outros dedicados
à vida privada (Livre Sixième: L'Association et la Hiérarchie dans la Vie
Privée; Livre Septième: Les Rapports de l'Anglais et de l'Étranger dans la Vie
Privée). O tema da organização política só ocorre depois da indagação de todos
esses elementos que seriam seus condicionantes.
Para Chenu (1994:5-7), pode-se ver na construção desse método a combinação dos
três papéis desempenhados por Le Play ao longo da sua vida: o engenheiro, o
sociólogo e o reformador social. Da engenharia, ele importa a concepção do
trabalho de pesquisa como atividade coletiva, inscrita em uma organização
hierarquizada. Como sociólogo, ele se destaca como um dos inventores da
etnologia moderna, com sua ênfase na observação direta e na pesquisa de campo.
Finalmente, o reformador social transparece no seu empenho em propor reformas a
partir dos seus achados como sociólogo.
A originalidade do método que surge da confluência desses três perfis reside no
projeto científico que o sustenta, já que os conceitos elaborados, o método de
investigação e as técnicas de levantamento de dados constituem a base de uma
ciência social. A atividade de pesquisa torna-se, com Le Play, um saber
cientificamente transmissível. Todas essas são características ausentes nos
empreendimentos dos cientistas sociais coevos (Kalaora e Savoye, 1989:95).
Esses atributos do método desenvolvido por Le Play o distinguem no universo dos
investigadores sociais de sua época. Ao dar um caráter coletivo ao seu
empreendimento científico, Le Play viabiliza a realização de estudos
sistemáticos, e não mais de casos excepcionais. Além disso, não é apenas o
indivíduo solitário, portador de uma grande originalidade, que pode fazer
pesquisa social válida. Dentro da escola leplaysiana, deve-se contar com a
colaboração do número máximo de pesquisadores, que devem ser preparados de
maneira minimamente uniforme antes de empreenderem seus trabalhos de campo.
Desse ponto de vista, Le Play é um precursor das escolas sociológicas e da
formação sistemática que marcará a sociologia universitária no século XX.
Uma das principais contestações ao método de Le Play, presente desde o momento
inicial da recepção do seu trabalho, vem da ausência de critérios seguros para
a escolha da família a ser pesquisada em uma determinada região. Entretanto,
segundo Chenu (1994:12), sua prática de selecionar de maneira intuitiva um
conjunto de situações exemplares, fazendo de cada uma delas objeto de
observação intensiva seguindo um roteiro predefinido, apresenta um caráter mais
sistemático que a investigação histórica difusa ou a enquete jornalística sem
método específico que caracteriza o cientista social da época.
Outro aspecto a enfatizar diz respeito à elaboração teórica a partir dos
achados empíricos. Em Le Play, há o trabalho empírico padronizado,
circunscrito, suscetível de ser repetido e controlado. Dele devem derivar os
conceitos abstratos que permitirão as amplas sistematizações que estão na base
de sua tipologia de famílias. Deve-se lembrar que essa tipologia surge ao longo
dos anos e após vasto acúmulo de conhecimento empírico, mas ainda assim se
apresenta imperfeita e bastante influenciada por suas concepções gerais acerca
da sociedade e dos seus projetos de reformador social. Isto fica evidente na
grande valorização dada à família-estirpe gerontocrática, que é o ponto de
ligação com sua doutrina política e social (idem:183). Todavia, pode-se
concordar com Chenu (idem:13), para quem "seus trabalhos, apesar dos
aspectos doutrinários e utópicos, caracterizam-se sempre por uma articulação
bastante estreita entre teorização e observação. Até a aparição do Suicídio
(Durkheim, 1897), tal qualidade é muito rara entre os fundadores das ciências
sociais".
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora seja uma figura menor no panteão da sociologia, Frédéric Le Play ocupa
um lugar especial nos estudos de família. Creio que este lugar foi alcançado
graças à capacidade por ele demonstrada de construir um método de pesquisa
empírica passível de reprodução. Ademais, seu empenho em aplicar tal método e
difundi-lo através de suas obras e das instituições de pesquisa por ele criadas
garantiu a produção de um número significativo de evidências às quais
cientistas sociais e, especialmente, historiadores constantemente recorrem.
Existe sempre a possibilidade de se reexplorar as evidências empíricas
coletadas por Le Play e seus discípulos para abordar questões como gênero,
infância e outras que, nas últimas décadas, têm sido alvo de atenção dos
cientistas sociais e historiadores. Suas preocupações com a família
contribuíram para transformá-la em objeto de estudo relevante para as ciências
humanas em geral. Embora suas concepções acerca da família, da mudança social e
do que poderíamos hoje chamar de "modernização" possam ser colocadas
sob suspeição, o tipo de olhar que ele privilegiou para se aproximar do seu
objeto permitiu a sobrevivência de seus estudos. Assim, conquanto não seja
necessário reivindicar a sua ascensão a membro da linha principal da tradição
sociológica, é possível afirmar que seus estudos ainda podem dizer muito a
respeito da família e, especialmente, da família européia do século XIX.
Entretanto, cabe discutir melhor as razões do papel subordinado que a tradição
leplaysiana de estudos da família acabou ocupando na trajetória da sociologia.
Uma primeira explicação pode ser buscada no processo de institucionalização da
disciplina. Acompanhando tal processo, especialmente na França, Cuin e Gresle
(1994:172-173) mostram um progressivo distanciamento que os leplaysianos vão
assumindo em relação à corrente principal da sociologia que se desenvolve nos
meios universitários, sobretudo após a II Guerra Mundial. Também Kalaora e
Savoye (1989) chamam a atenção para esse aspecto, procurando mostrar como esse
distanciamento é mútuo, já que tanto a sociologia universitária não reconhecia
a forma de organização e as estratégias de consagração e de reprodução dos
leplaysianos, quanto estes não estavam preocupados em se incorporar à nascente
hierarquia universitária.
Outra explicação pode ser buscada nas transformações sofridas pelas concepções
acerca da família no pensamento sociológico. Ao longo do século XX, há um
paulatino abandono das perspectivas que viam um declínio progressivo da família
enquanto instituição social. Ao declínio são contrapostas visões otimistas (a
família conjugal como ápice do desenvolvimento humano; as transformações da
família como processos de quebra do patriarcalismo e liberalização da mulher ou
do jovem) ou a-históricas (a família sofre mudanças nas suas funções sociais, o
que não significa necessariamente um declínio), até culminar na idéia do
declínio da família como um mito (o "mito do declínio da família")23.
Nesse ambiente, as idéias leplaysianas, fortemente imbuídas de um espírito
reformista devotado à salvação da família, dificilmente poderiam florescer. Por
outro lado, a dificuldade de seus discípulos em promover a separação entre o
método e a normatividade, certamente, contribuiu para a sua inserção
subordinada dentro da tradição sociológica.
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|Principais obras de Frédéric Le Play: |
|Les Ouvriers Européens. Paris, 1855 (6 volumes). |
|La Réforme Sociale en France, Déduite de l'Observation des Peuples Européen.|
|Tours, 1864. |
|L'Organisation du Travail. Tours, 1870. |
|L'Organisation de la Famille. Paris, 1871. |
|La Constitution de l'Angleterre, Considerée dans ses Rapports avec la Loi de |
|Dieu et les Coutumes de Paix Sociale. Tours, 1875 (2 volumes). |
|Les Ouvriers Européens. Paris, 1879 (2ª ed., 6 volumes). |
|La Méthode Sociale. Paris, 1879. |
|La_Constitution_Essentielle_de_l'Humanité._Tour,_1881.________________________|
NOTAS
1. Tomando a obra de Pitirim Sorokin como o caso exemplar desse tipo de
narrativa, diz Levine (1997:32): "ao invés de considerar a existência de
escolas divergentes uma questão residual ' mero fenômeno transicional ' Sorokin
[e as narrativas pluralistas] transformou-a no próprio âmago e substância de
sua visão do campo [sociológico]".
2. É interessante notar que, na primeira parte da obra de 1928, Sorokin (1951:
67) considera Le Play merecedor de um lugar entre os mais eminentes mestres das
ciências sociais. Sua contribuição seria: 1) a criação de um método definido de
análise dos fatos sociais; 2) a criação de um sistema sociológico também
definido, junto com a formulação de uma série de generalizações sociológicas; e
3) a exposição de proposições práticas para a melhoria das condições sociais
(sociologia aplicada) (idem:70).
3. "Considero narrativas humanistas aquelas que distinguem o
desenvolvimento da sociologia do de outras disciplinas científicas, por terem
produzido um conjunto de textos clássicos que os sociólogos atuais devem
consultar a fim de atuar adequadamente" (Levine, 1997:68).
4. Nisbet (1966) organiza sua narrativa em torno de cinco idéias-elementos que
julga constitutivas da sociologia: comunidade, autoridade, status, o sagrado e
a alienação. Le Play aparece conectado, sobretudo, à idéia de comunidade,
embora também mereça ser lembrado de modo rápido na discussão sobre status.
Para Nisbet, Le Play constrói a primeira obra genuinamente científica na
sociologia, conseguindo colocar um problema claro e chegar a conclusões
objetivas por intermédio de um método rigoroso, ainda que às vezes extremo
(idem:88-89).
5. Ainda em vida, sua obra principal, Les Ouvriers Européens, teve duas edições
(em 1855 e em 1879); e La Réforme Sociale en France, surgida em 1864, teve seis
edições. Dentre as coletâneas, posso citar Le Play (1941; 1947).
6. Como exemplos, cito: Sorokin (1956:76-94; 335-340; 350-352); e, no Brasil,
Barreto e Willems (1940).
7. Além dos exemplos a seguir, veja a importância dada a Le Play em um manual
de história da família: Casey (1992:24-28).
8. Em francês, famille-souche; em inglês, stem family.
9. Sobre a polêmica entre Laslett e Berkner em torno da família-estirpe
estudada por Le Play, ver Chenu (1994:223-229). De todo modo, a polêmica
evidencia que os trabalhos de Le Play e seus seguidores não se mostram tão
obsoletos como querem Cuin e Gresle (1994:160).
10. Sabe-se, pelo relato do filho, que o pai abandonara sua mãe (ver Savoye,
1989:13-14). O relato que faço nesta parte se baseia neste autor e nos escritos
de Le Play.
11. Le Play permanece na École des Mines até 1850.
12. É o que se depreende da bibliografia incorporada por Louis Baudin ao final
do texto introdutório a Le Play (1947).
13. Artigo 1º dos Estatutos da SES, apud Savoye (1989:29).
14. Esses trabalhos formam o conteúdo dos diversos volumes publicados a partir
de 1857 sob o nome de Les Ouvriers des Deux Mondes. É interessante ressaltar
que a SES existe até hoje.
15. Nesse sentido, cabe destacar que enquanto a primeira edição de Les Ouvriers
Européens contém 36 monografias de famílias (Savoye, 1989:28), a 3ª edição traz
57 delas (Le Play, 1989:397).
16. Tal papel, inicialmente pensado para ser desempenhado pelos patrões, vai
sendo pouco a pouco apropriado pelo Estado, como mostram Kalaora e Savoye
(1989:187-189).
17. Le Play identifica nas mulheres e nas crianças os veículos principais do
"espírito de novidade"; daí a importância da figura paterna como
geradora da estabilidade da família e, conseqüentemente, da sociedade. A este
respeito, ver Le Play (1989:182, 211).
18. A tradução mais correta para "Foyer" seria fogo, e esta é de fato
a palavra utilizada para designar domicílio até meados do século XIX em
Portugal e no Brasil.
19. É bom lembrar que La Méthode Sociale foi produzido com a finalidade de
servir para o treinamento de novos pesquisadores na sua recém-fundada École des
Voyages,evidenciando a estreita ligação entre as monografias de famílias e os
relatos de viagem. Pode-se dizer que o método das monografias de famílias era
uma forma de obter relatos de viagem controlados.
20. De fato, acredito que esta é a principal característica que faz com que a
obra de Le Play sobreviva e continue a ser utilizada por pesquisadores
contemporâneos. Um exemplo desse potencial pode ser verificado no caso das
diversas monografias realizadas sobre os Mélouga, família-estirpe que habitava
os Pirineus franceses e que foi investigada em 1856 por Le Play, em 1869 e 1874
por Émile Cheysson, em 1906 por Bayard (pseudônimo), e em 1890 por Fernand
Butel (Le Play et alii, 1994).
21. É interessante notar que Le Play despende algumas páginas explicando certos
procedimentos práticos a serem observados no trabalho de campo, incluindo
cuidados com a abordagem das famílias (ver Le Play, 1989:220-226).
22. Para Le Play (1989:446), autoridades sociais seriam: "Indivíduos que
vão se transformando, por suas próprias virtudes, nos Modelos da Vida privada;
que mostram uma grande tendência para o Bem, dentre todas as raças, em todas as
condições e sob todos os regimes sociais; que, pelos exemplos de seus Lares e
de suas Oficinas, como pela escrupulosa prática do Decálogo e dos Costumes da
Paz social, conquistam a afeição e o respeito de todos os que os cercam; que,
enfim, fazem reinar o Bem-Estar e a paz na Vizinhança".
23. Para um balanço das diferentes idéias sobre o declínio da família, ver
Popenoe (1988), especialmente o capítulo 2, "Family Decline: The Career of
an Idea".