Projeção da mortalidade e internações hospitalares na rede pública de saúde
atribuíveis à poluição atmosférica no Estado de São Paulo entre 2012 e 2030
Introdução
Nas duas últimas décadas tem havido um intenso debate mundial sobre as questões
socioambientais e as externalidades negativas provenientes das atividades
antrópicas que provocam a diminuição da qualidade de vida, principalmente, nas
cidades. Entre os desequilíbrios urbano-ambientais da contemporaneidade que
atingem a saúde humana, está a poluição atmosférica. A literatura mundial tem
corroborado o fato de a variação tóxica dos poluentes no ambiente afetar a
saúde de diferentes maneiras e níveis de gravidade. Por exemplo, a poluição do
ar está relacionada à redução da expectativa de vida e ao aumento do risco de
arritmias e infarto agudo do miocárdio, bronquite crônica e asma, doenças
pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC), obesidade, câncer do pulmão e depressão
(DOCKERY_et_al.,_1993; SALDIVA_et_al.,1995; POPE_et_al.,_1995, 2002; BRAGA_et
al.,_2001; CONCEIÇÃO_et_al.,_2001; ANDERSON_et_al.,_2004; FARHAT_et_al.,_2005;
PETERS,_2005; CANÇADO_et_al.,_2006; LADEN_et_al.,_2006; WHO,_2006; POPE;
DOCKERY,_2006; NASCIMENTO_et_al.,_2006; ULIRSCH_et_al.,_2007; CAREY_et_al.,
2013; DOMINICI_et_al.,_2002).
Os grupos populacionais mais suscetíveis aos efeitos tóxicos da poluição do ar
são crianças abaixo de cinco anos de idade, idosos e indivíduos portadores de
doenças crônicas. As crianças, por exemplo, já estão submetidas aos efeitos
adversos da poluição atmosférica antes mesmo de nascer. Estudos mostram que o
aumento nos níveis de poluição atmosférica está associado ao crescimento no
risco de mortalidade infantil (RITZ;_WILHELM;_ZHAO,_2006) e déficits no
desenvolvimento pulmonar (SOFER_et_al.,_2013) e ao aumento no acesso aos
serviços de saúde em decorrência de doenças respiratórias como asma (McCORMACK
et_al.,_2011). No Brasil, alguns estudos demonstram o retardo do crescimento
intrauterino, menor peso ao nascer e maior mortalidade intrauterina e neonatal
(PEREIRA_et_al.,_1998; LIN_et_al.,_2004; MEDEIROS_et_al.,_2005).
A severidade dos efeitos da poluição sobre a saúde dos idosos decorre da
fragilidade do sistema imunológico com o avanço da idade. Em geral, estudos
mostram que a poluição atmosférica, principalmente aquela relacionada ao
material particulado, está associada ao aumento da mortalidade em idosos e à
maior frequência de internações hospitalares por problemas cardiovasculares e
respiratórios por asma e DPOC (DOMINICI_et_al.,_2002; WELLENIUS;_SCHWARTZ;
MITTLEMAN,_2006; BELL_et_al.,_2006; BENTAYEB_et_al.,_2012). Um dos maiores
estudos realizados no Brasil a respeito do efeito da poluição sobre a saúde dos
idosos foi desenvolvido por Saldiva_et_al._(1995). Este estudo procurou mostrar
o efeito do aumento do material particulado sobre a mortalidade de pessoas com
mais de 65 anos de idade, na Região Metropolitana de São Paulo. O estudo
constatou que a elevação em 10mg/m3 de material particulado estava associada a
um crescimento na mortalidade geral de idosos em mais de 13%, mostrando que a
poluição do ar tem efeito significativo sobre a mortalidade de pessoas idosas.
Nesse contexto, o objetivo do presente trabalho é contribuir para o debate
acerca dos efeitos da poluição atmosférica - especificamente o material
particulado MP2,5 - sobre mortes, internações e custos da rede pública de saúde
no Estado de São Paulo em uma perspectiva temporal. Os resultados apresentados
têm como finalidade informar o gestor público o quanto se perde em vidas, saúde
e recursos públicos ao adiar medidas que contribuam para a melhoria da
qualidade do ar.
Material particulado e saúde
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lista uma série de componentes tóxicos
para a saúde relacionados à poluição do ar. Estes componentes podem tanto ser
emitidos para a atmosfera, como dióxido de enxofre, monóxido de carbono e óxido
de nitrogênio, quanto formados a partir de reações químicas, a exemplo do
ozônio e material particulado (WHO,_2006).
Um dos poluentes com maior efeito sobre a saúde é o material particulado, que
corresponde a uma mistura de componentes sólidos e líquidos que podem variar na
composição, tamanho e de acordo com a fonte de emissão e condições
meteorológicas presentes no ambiente. As partículas inaláveis, que possuem
maior impacto sobre a saúde humana, podem ser definidas de maneira simplificada
como MP10 (partículas inaláveis), aquelas cujo diâmetro aerodinâmico é menor
que 10 µm, e MP2,5 (partículas inaláveis finas), que possuem diâmetro
aerodinâmico inferior a 2,5 µm. O tamanho da partícula possui relação
inversamente proporcional ao potencial de deposição no trato respiratório e os
efeitos à saúde associados. Ou seja, partículas maiores podem ficar retidas na
parte superior do sistema respiratório, enquanto as menores, o MP2,5, atingem
as vias respiratórias inferiores, podem alcançar os alvéolos e possuem a
característica de transportar gases absorvidos em sua superfície até onde
ocorre a troca gasosa nos pulmões (BRUNEKREEF;_HOLGATE,_2002; LADEN_et_al.,
2006).
Assim, a poluição por MP2,5 tornou-se um importante fator de risco para estudos
epidemiológicos em saúde, uma vez que possuem as associações causais mais
robustas entre a exposição de longo prazo ao poluente e a redução da
expectativa de vida (DOCKERY_et_al.,_1993; LIPFERT,_1984; POPE et al., 1995). O
Global Burden of Disease, programa global de pesquisa investigativa da OMS que
avalia a mortalidade e incapacidade por doenças graves, lesões e fatores de
risco, estabeleceu em 2010 a poluição atmosférica por material particulado fino
como o sexto maior fator de risco para a mortalidade prematura global. Para
efeito de comparação, a carga da doença atribuída ao MP2,5 é maior do que
outras ameaças à saúde global bem reconhecidas, tais como malária e HIV-AIDS
combinadas (APTE_et_al.,_2015; IHME,_2012).
A Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (IARC), vinculada à
Organização Mundial de Saúde (OMS), anunciou, em 2013, a classificação da
poluição do ar exterior (outdoor) e do poluente material particulado como
substâncias carcinogênicas do Grupo I. Isso significa que o risco de
desenvolver câncer de pulmão ou bexiga é significativamente maior em pessoas
expostas à poluição atmosférica (IARC,_2013). Revisões sistemáticas sobre o
efeito do material particulado e câncer de pulmão foram realizadas a partir do
relatório do IARC para corroborar os efeitos nocivos da poluição sobre essa
doença (HAMRA_et_al.,_2014). Além disso, em 2015, a OMS divulgou a perda
precoce de cerca de oito milhões de vidas no mundo pela poluição do ar. Desses,
cerca de 3,7 milhões deveram-se à poluição do ar externa, o que representa 46%
de todas as fontes de poluentes relacionadas ao ar. Reconhecendo-a como uma
ameaça cada vez maior à saúde pública global, em relatório oficial da 68ª
Assembleia Mundial da Saúde, em maio de 2015, a OMS concluiu que a redução da
poluição atmosférica pode se tornar um indicador sanitário das políticas dos
objetivos do desenvolvimento sustentável pós-2015 (WHO, 2015). Neste documento,
a OMS solicita aos países-membro que tomem medidas emergenciais de controle
efetivo da poluição, uma vez que a poluição do ar passa a ser líder ambiental
para riscos em saúde.
Diretrizes globais sobre poluição do ar e legislação nacional
Os padrões de poluição do ar definidos pela OMS, em 2005, são orientadores para
a criação de padrões regionais do nível de poluentes. Para a concentração de
MP2,5, é estabelecido como critério aceitável - o menor efeito sobre a saúde -
o máximo de 10 µg/m3 anual e 25 µg/m3 de média diária (WHO, 2006), mas os
países podem adotar distintos padrões, que variam de acordo com as
especificidades locais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Environmental
Protection Agency (EPA), responsável pela proteção ambiental, define um nível
máximo de 15 µg/m3 e 35 µg/m3 como as médias anuais e diárias de MP2,5 (EPA,
2013). A European Environmental Agency (EEA) fixa como padrão máximo a média
anual de 25 µg/m3 de MP2,5, e não estabelece padrões diários de emissão de
poluentes.
Vahlsing_e_Smith_(2012) realizaram uma revisão global sobre os padrões de
qualidade de ar para MP10, por meio de questionários aplicados em 96 países,
que representam 84% da população no mundo, mostrando que 72% deles possuíam
padrão de medida diária para MP10. A média do valor diário do padrão encontrada
entre os países foi 98 µg/m3, bem acima do preconizado pela OMS (50 µg/m3) e,
no Brasil, abaixo do padrão estabelecido em 1990, pela Resolução Conama 03/90,
de 150 µg/m3. Além disso, o Brasil é tido como o penúltimo país a ter alterado
o padrão, na década de 1990, comparado aos outros países que vêm estabelecendo
a atualização de seus padrões desde então (VAHLSING;_SMITH,_2012). A Resolução,
estabelecida há 25 anos, apenas fixa o limite para MP10. Em 2013, o Conselho
Estadual do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Consema) definiu novos
critérios para MP10 e estabeleceu o padrão para MP2,5, até então inexistente no
Brasil. O Decreto n. 59.113/2013 estabelece os limites anual e diário para
concentração de MP2,5 em 20 µg/m3 e 60 µg/m3, respectivamente.
Em 2014, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) implementou um grupo de
trabalho para a revisão da Resolução Conama 03/90 (BRASIL,_1990). A proposta
desse grupo de trabalho era determinar a alteração dos padrões de qualidade do
ar em etapas, até atingir os níveis propostos pela OMS. Porém, não foi
determinado prazo para que essas etapas entrassem em vigor e não houve um
consenso após um ano de discussões, o que inviabilizou a implementação da
resolução.
Com o intuito de embasar a defesa do estabelecimento de prazo na discussão
sobre o risco de saúde a que a população seria submetida aos níveis atuais do
poluente MP nos próximos anos, decidiu-se pela realização do presente estudo.
Além disso, o Estado de São Paulo concentra grande parte da população
brasileira, sendo um dos estados mais populosos e urbanizados, com cerca de 1/
5 da população do país e uma taxa de urbanização de quase 96%, segundo o Censo
Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Dos 645 municípios do Estado, apenas 42 monitoram a qualidade do ar, com 86
estações de monitoramento, o que representa aproximadamente 34% das estações
existentes no país (VORMITTAG et al., 2014). Logo, é um estado com maior
disponibilidade de informações para o desenvolvimento de estudos sobre o efeito
da poluição sobre a saúde.
O objetivo geral desse trabalho é estimar, para o período 2012-2030, o efeito
do MP2,5 sobre mortes e internações da rede pública de saúde no Estado de São
Paulo para causas selecionadas. Utilizou-se o padrão estabelecido pela OMS em
substituição ao padrão nacional, como subsídio para a mudança da política
vigente no país. Além disso, os resultados apresentados têm como finalidade
informar ao gestor público o quanto se perde em vidas, saúde e recursos
públicos ao adiar medidas que contribuam para a melhoria da qualidade do ar.
Metodologia
Nessa seção, apresenta-se o método de estimação do número de mortes,
internações e custos das internações da rede pública de saúde atribuíveis ao
material particulado MP2,5 no Estado de São Paulo, entre 2012 e 2030, para
causas selecionadas, bem como o baseline utilizado na projeção. O cálculo da
carga de doenças atribuíveis à poluição segue metodologia proposta pela
Organização Mundial de Saúde, segundo comunicação direta com o grupo do
Environmental Burden of Disease da mesma instituição e diretrizes sobre
qualidade do ar em 2005 (OSTRO,_2004; WHO,_2006).
Baseline e cenários de poluição
O ano de 2011 foi escolhido como baseline para as projeções tanto de
mortalidade quanto de internações hospitalares. A seguir, apresentam-se as
causas de mortalidade e morbidade consideradas no estudo.
* Mortalidade (CID 10 especificada entre parênteses)
o - Mortalidade geral: capítulo I a XVI da CID 10 para todos os
grupos etários.
o - Câncer: neoplasias malignas do aparelho respiratório e órgãos
intratorácicos (C30 - C39) para a população acima de 40 anos.
o - Doenças cardiovasculares: doenças cerebrovasculares (I60-I69) e
doença isquêmica do coração (I20-I25) para a população de 40 anos
ou mais.
o - Doença respiratória em crianças: pneumonia e influenza (J09-J18)
e outras infecções agudas das vias aéreas inferiores (J20-J22) para
crianças com menos de cinco anos.
o - Doença respiratória em idosos: pneumonia e influenza (J09-J18) e
doenças crônicas das vias aéreas inferiores (J40-J47) para a
população acima de 60 anos.
* Morbidade hospitalar (CID 10 para morbidade especificada entre
parênteses)
o - Câncer: neoplasia maligna de traqueia, brônquios e pulmões (C33-
C34) para a população acima de 40 anos.
o - Doenças cardiovasculares: acidente vascular cerebral não
especificado hemorrágico ou isquêmico (I64), hemorragia
intracraniana (I60-I62), infarto agudo do miocárdio (I21-I22),
infarto cerebral (I63) e outras doenças isquêmicas do coração (I20,
I23-I25), para a população de 40 anos ou mais.
o - Doença respiratória em crianças: pneumonia (J12-J18) para
crianças com menos de cinco anos.
o - Doença respiratória em idosos: bronquite, enfisema e outras
doenças pulmonares obstrutivas crônicas (J40-J44), asma (J45-J46) e
pneumonia (J12-J18) na população acima de 60 anos.
Os dados de mortalidade foram obtidos do Sistema de Informações de Mortalidade
(SIM), disponibilizados pelo Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância à
Saúde (MS/SVS), e os de morbidade hospitalar são oriundos do Sistema de
Informações Hospitalares (SIH/SUS), ambos para 2011.
Para a poluição, o baseline corresponde à média anual do MP2,5 no Estado de São
Paulo, calculada a partir dos dados da Companhia Ambiental do Estado de São
Paulo - Cetesb, cujo valor em 2011 era de 22,48 µg/m3. Os valores de MP2,5
foram obtidos a partir dos dados de monitoramento de qualidade do ar de MP10,
considerando a fração de 0,6% (CETESB,_2014). Os cenários de poluição
(concentração do material particulado MP2,5 ) considerados no estudo são:
* estacionário: neste cenário, supomos que os níveis de poluição por MP de
2011 se manterão constantes no futuro;
* aumento de 5% de MP2,5 até 2030: o equivalente a +0,003% ao ano, entre
2012 e 2030;
* redução de 5% de MP2,5 até 2030: o equivalente a -0,003% ao ano, entre
2012 e 2030.
Métodos de projeção
A projeção da mortalidade e internações atribuíveis à poluição envolve os
seguintes passos:
* projeção do número de mortes entre 2012 e 2030;
o -estimativa do número de mortes atribuíveis à poluição atmosférica
entre 2012 e 2030, a partir dos cenários de poluição considerados;
* projeção do número de internações hospitalares públicas entre 2012 e
2030;
o -estimativa do número de internações atribuíveis à poluição
atmosférica entre 2012 e 2030, a partir dos cenários de poluição
considerados;
* projeção do gasto total com internações públicas, a partir da estimativa
do número de internações atribuíveis à poluição obtida na projeção
anterior.
A metodologia adotada para cada um dos componentes das projeções é apresentada
a seguir.
Projeção de mortalidade
Para a projeção da mortalidade, consideramos que o número de óbitos por causa
selecionada, entre 2012 e 2030, é dado pela multiplicação da proporção
projetada de óbitos em cada ano pelo número total de mortes no mesmo período:
Onde:
Oz,t= número de óbitos pela causa z no ano t, correspondente a cada ano da
projeção;
nPOxz,t= proporção de óbitos pela causa z no ano t para o grupo etário x a x+n
(grupos etários quinquenais);
nOxt= total de óbitos no ano t para o grupo etário x a x+n (grupos etários
quinquenais).
O total de óbitos em cada grupo etário (Oz,t) foi obtido das projeções de
mortalidade do IBGE (Revisão 2013) para todo o Estado de São Paulo. Para a
projeção da proporção de óbitos em cada causa e grupo etário entre 2012 e 2030
(nPOxz,t), adotamos a suposição de que a proporção de óbitos por causa e grupo
etário seguiria a tendência observada entre 2000 e 2011 para este indicador. A
projeção da proporção de óbitos seguiu a metodologia adotada em Rodrigues_et
al._(2013):
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e02.jpg]
Onde:
nwx = variação anual na proporção de óbitos por causa e grupo etário x a x+n,
dada por:
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e03.jpg]
Com a projeção do número de óbitos, o passo seguinte foi estimar o número de
mortes atribuíveis à poluição, de acordo com a metodologia proposta por WHO
(2006). Nesta metodologia, estima-se a fração atribuível à poluição, a partir
da função do risco relativo e, então, é estimado o número atribuível de mortes.
A função de risco relativo utilizada corresponde à função:
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e04.jpg]
O padrão empregado no cálculo do risco relativo corresponde a 10 µg/m3,
critério utilizado pela OMS para médias anuais de MP2,5. A fração atribuível é
dada por:
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e05.jpg]
O número atribuível de mortes pela causa z no tempo t, decorrente da poluição,
então, é dado por:
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e06.jpg]
Projeção do número de internações hospitalares públicas
A projeção de internações segue o padrão usual de projeção, em que as taxas de
internação por causas e grupos etários em cada período são multiplicadas pela
população em cada período e grupo etário:
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e07.jpg]
Onde:
Iz,t= número de internações pela causa z no ano t, correspondente a cada ano da
projeção;
nTIxz,2011 = taxa de internação pela causa z em 2011 para o grupo etário x a
x+n (grupos etários quinquenais);
nPxt = número de pessoas no ano t para o grupo etário x a x+n (grupos etários
quinquenais).
O número projetado de internações segue a metodologia de taxas fixas (STRUNK_et
al.,_2006), em que se leva em conta apenas o efeito das mudanças demográficas
sobre as taxas. Não foi possível projetar as taxas considerando a tendência
histórica, uma vez que as taxas de internação por grupo de causas não
apresentaram regularidade ao longo dos anos, não sendo possível verificar
tendência. Logo, para todos os anos da projeção, consideraram-se a taxa de
internação de 2011 e a população projetada pelo IBGE_(2013) por grupo etário.
O risco relativo e a fração atribuível foram calculados a partir das equações
(4) e (5). O beta utilizado para o cálculo do risco relativo pode ser visto no
Quadro_1. O número de internações atribuíveis em cada causa foi dado por:
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e08.jpg]
QUADRO 1 Parâmetro beta utilizado no cálculo do risco relativo de mortalidade e
morbidade, para cada variação em 10mg/m3 de material particulado MP2,5
Desfecho em saúde Causa Beta Fonte
Todas as causas 0,06 WHO (2005)
Cardiovascular 0,155 Pope_et_al._(2002)
Câncer de pulmão 0,232 Pope_et_al._(2002)
Mortalidade Doenças respiratórias em 0,155 Pope_et_al._(2002)
idosos
Doenças respiratórias em 0,091 Pope_et_al._(2002)
crianças
Cardiovascular 0,18 Pope_(2004)
Câncer de pulmão 0,40 Nielsen_(2013)
Internações hospitalareDoenças respiratórias em 0,31 Cançado_(2006)
idosos
Pneumonia em crianças 0,214 Cançado_(2006)
Projeção do gasto total com internações hospitalares públicas
Para a projeção de gastos, o valor médio das internações é multiplicado pelo
número projetado de internações atribuíveis à poluição em cada ano, resultantes
das estimativas obtidas em (2):
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-e09.jpg]
O gasto médio com internações para cada uma das causas foi mantido fixo no
mesmo nível de 2011. Os gastos projetados são a preços de 2011.
O parâmetro beta utilizado para cada uma das causas de morte e internação é
apresentado no Quadro_1.
Resultados
A Tabela_1 traz o somatório das mortes, número de internações e gasto total com
internações entre 2011 e 2030 atribuíveis à poluição para cada um dos cenários
considerados, além de informações para 2015 e 2025 para análise de tendência
dos números absolutos. Os resultados mostram que, entre 2011 e 2030, no Estado
de São Paulo, o total de mortes atribuíveis à poluição chegaria a mais de 246
mil óbitos no cenário estacionário de poluição e ocorreriam quase 918 mil
internações apenas por causas cardiovasculares, respiratórias e neoplasias
selecionadas em grupos etários mais suscetíveis. Considerando os distintos
cenários para a mortalidade geral, espera-se que, em 20 anos, o total de óbitos
varie entre 236 mil, para uma redução de 5% no nível da poluição até 2030, e
256 mil, em caso de aumento da poluição em 5%.
TABELA 1 Projeção do total de mortes, internações hospitalares da rede pública
de saúde e gastos com internações, por cenários considerados, segundo causas
atribuíveis ao material particulado MP2,5 Estado de São Paulo – 2011-2030
Causas Cenário estacionário Aumento de 5% de MP2,5 até Redução de 5% de MP2,5 até
2030 2030
2015 2030 2011-2030 2011-2030 2011-2030
Óbitos
Todas as causas 10.193 18.407 246.375 256.515 236.198
Neoplasias 1.126 2.182 28.248 29.347 27.139
Doenças cardiovasculares 5.469 9.185 128.520 133.560 123.442
Doenças respiratórias em crianças 38 23 596 615 986
Doenças respiratórias em idosos 3.026 8.100 88.647 92.400 84.866
Internações hospitalares
Neoplasias 1.220 1.929 29.592 30.595 28.571
Doenças cardiovasculares 14.570 23.366 354.970 368.182 341.648
Doenças respiratórias em idosos 16.387 31.335 430.365 446.064 414.452
Doenças respiratórias em crianças 7.294 6.239 138.050 142.434 133.626
Gasto com internações hospitalares (R$ de
2011)
Neoplasias 1.257.663 1.959.926 1.098.685.456 1.139.432.980 1.057.598.040
Doenças cardiovasculares 45.417.492 71.298.581 30.346.838 31.373.391 29.302.807
Doenças respiratórias em idosos 16.121.177 30.626.632 422.558.075 437.957.716 406.948.221
Doenças respiratórias em crianças 7.082.367 6.058.082 134.046.950 138.303.854 129.750.576
Fonte: Ministério da Saúde/Secretaria de Vigilância em Saúde. Sistema de
Informações de Mortalidade (2012); Sistema de Informações Hospitalares (2012).
IBGE. Projeções populacionais e de mortalidade (2013).
A mortalidade geral atribuível ao material particulado (que abrange todos os
grupos etários) no Estado de São Paulo apresentou crescimento de 96% no período
de análise, com 9.384 mortes em 2011 e uma projeção de 18.407 mortes para 2030
(Tabela_1). O número de mortes em 2011 representa cerca de 3,9% do total de
óbitos no Estado de São Paulo, valor inferior ao encontrado pelo estudo de
Carga de Doenças (WHO,_2014), que aponta um percentual de mortes atribuíveis à
poluição de 7% em 2012, considerando a média mundial, porém dentro dos limites
esperados, entre 3% e 8% de mortes atribuíveis à poluição (WHO,_2006, 2014).
Em relação às internações hospitalares públicas, foram consideradas distintas
causas de morbidade, de modo que representassem aquelas com estudos comprovados
do efeito do material particulado sobre a saúde e respectivas estimativas de
concentração-resposta. Essas causas correspondem a neoplasias, doenças
respiratórias e doenças cardiovasculares, e em populações mais suscetíveis ao
efeito da poluição, como crianças e idosos. Como esperado, as doenças
cardiovasculares, consideradas a principal causa no país tanto em mortalidade
quanto em morbidade, também figuram como as de maior efeito decorrente da
poluição. Considerando apenas o cenário estacionário da poluição, as
internações devido a essa causa variariam de 36.146 a 62.689, entre 2011 e
2030, e o gasto (a valores de R$ 2011) passou de R$ 40 milhões para R$ 71
milhões, nesse mesmo período. O valor total de internações ao ano ultrapassa R$
1 milhão, o que significa, em 20 anos, um dispêndio estimado de mais de R$ 1,5
bilhão a preços de 2011.
Em relação à tendência de mortalidade e morbidade atribuíveis à poluição no
período analisado, a Tabela_1 mostra o número de eventos em saúde associados ao
material particulado para 2015 e 2030. Observa-se que há uma tendência de
crescimento de mortes e internações para todas as causas analisadas, exceto
para doenças do aparelho respiratório em crianças, cuja redução é explicada
pela queda da fecundidade no Estado de São Paulo. Entre 2000 e 2010, houve um
decréscimo populacional para o grupo de 0 a 4 anos no Estado da ordem de
516.792 crianças.
Os Gráficos_1, 2 e 3 apresentam projeção da participação relativa e do total de
mortes, morbidade e valor da internação, respectivamente, segundo as causas
atribuíveis à poluição pelo material particulado MP2,5, para períodos
quinquenais entre 2015 e 2030, no cenário estacionário. Em relação à
mortalidade (Gráfico_1), observa-se que, no período de projeção, os óbitos por
doenças cardiovasculares representam o maior percentual de mortes entre todas
as causas. Embora o montante de mortes não tenha decrescido em números
absolutos, com um aumento esperado de 5.469 em 2015 para 9.185 em 2030, sua
importância no conjunto das quatro causas decresce ao longo dos anos, chegando
a representar menos da metade do total de mortes em 2030. Apenas as doenças do
aparelho respiratório em adultos tiveram maior participação relativa, passando
de 31% em 2015 para quase 42% em 2030. No contexto do rápido crescimento
populacional para os grupos etários de idosos, o número esperado de mortes por
causas respiratórias nesse grupo quase triplica, passando de cerca de 3 mil
mortes em 2015 para mais de 8 mil em 2030.
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-gf01.jpg]Fonte:
Ministério da Saúde/Secretaria de Vigilância em Saúde. Sistema de Informações
de Mortalidade (2012). IBGE. Projeções populacionais e de mortalidade (2013).
GRÁFICO 1 Projeção da participação relativa e do total de mortes, no cenário
estacionário, segundo causas atribuíveis ao material particulado MP2,5 Estado
de São Paulo – 2015-2030
As neoplasias atribuíveis à poluição apresentam participação reduzida no total
das mortes no período, segundo as projeções realizadas. Essa causa de morte
responde por cerca de 11% do total de óbitos ao longo de todo o período de
projeção. A mortalidade por doenças respiratórias em crianças registra o menor
percentual entre as causas (menos de 1% do total), além de redução no período.
Diferente das outras causas, porém, verifica-se decréscimo em números absolutos
nas mortes para esse grupo etário.
Já as internações atribuíveis à poluição por doenças do aparelho respiratório
em crianças possuem representatividade maior no conjunto das internações (mais
de 18% em 2015), embora sua participação decresça ao longo do tempo (Gráfico
2). Como as projeções consideraram um cenário de taxa de internação constante
ao longo do tempo, essa redução reflete tanto o decréscimo populacional para
esse grupo quanto o aumento da representatividade das doenças do aparelho
respiratório em idosos. Para essa causa entre os idosos, o montante de
internações atribuíveis à poluição passou de quase 42% para cerca de 50% entre
2015 e 2030. A participação relativa das neoplasias permaneceu praticamente
inalterada, enquanto as doenças do aparelho circulatório aumentaram pouco, de
36,9% em 2015 para 37,2% em 2030, embora em números absolutos tenha
praticamente dobrado (de 12.623 para 23.366, entre 2011 e 2030). O total de
internações para essas quatro causas praticamente dobra no período, de mais de
39 mil internações em 2015 para quase 63 mil em 2030, no cenário estacionário.
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-gf02.jpg]Fonte:
Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares (2012). IBGE.
Projeções populacionais (2013).
GRÁFICO 2 Projeção da participação relativa e do total das internações da rede
hospitalar pública, no cenário estacionário, segundo causas atribuíveis ao
material particulado MP2,5 Estado de São Paulo – 2015-2030
As doenças cardiovasculares, apesar de não representarem a maior participação
relativa de internações entre as quatro causas consideradas, são responsáveis
pelo maior percentual de gasto com internações, devido ao alto custo per capita
de intervenções para o tratamento dessa causa (Gráfico_3). O percentual para
essas doenças permaneceu praticamente constante entre 2015 e 2030, enquanto
aquele referente às doenças respiratórias em idosos registrou aumento (cerca de
23% em 2015 e quase 28% em 2030) e o relativo a doenças respiratórias em
crianças diminuiu de 10% para 5,5%, no período. O total de gastos com
internações hospitalares públicas atribuíveis à poluição pelo material
particulado, apenas para essas quatro causas de internação, saltaria de R$ 70
milhões para R$ 100 milhões no cenário estacionário.
[/img/revistas/rbepop/v32n3//0102-3098-rbepop-32-03-0489-gf03.jpg]Fonte:
Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares (2012). IBGE.
Projeções populacionais (2013). (1) Em R$ de 2011.
GRÁFICO 3 Projeção da participação relativa (projetadas) e do total de gastos
com internações da rede hospitalar pública (1), no cenário estacionário,
segundo causas atribuíveis ao material particulado MP2,5 Estado de São Paulo –
2015-2030
Discussão
A inação em relação à política ambiental no mundo terá consequências graves
sobre a saúde da população no futuro. Apenas no Estado de São Paulo, esperam-se
quase 250 mil mortes até 2030, caso os níveis de material particulado MP2,5 se
mantenham nos mesmos níveis de 2011. O maior impacto ocorrerá para as doenças
do aparelho circulatório e doenças respiratórias em idosos, visto que esse é o
grupo que mais cresce na população e, juntamente com as crianças, o mais
afetado pela poluição atmosférica. Neste cenário, o número de internações
hospitalares somaria 1 milhão, com um gasto esperado de mais de R$1,5 bilhão,
ou o equivalente a quase US$ 638 milhões.
Apesar disso, revisão sistemática realizada por Benmarhnia_et_al._(2014)
mostrou que intervenções destinadas à melhoria da qualidade do ar não são
equitativas. A população com maior poder aquisitivo apresenta maiores
benefícios de intervenções voltadas à redução da poluição do ar, mostrando que
tanto o nível dos poluentes quanto os benefícios advindos de intervenções no
campo da legislação não são equânimes. Em São Paulo, a ausência de políticas de
redução de poluentes em um futuro próximo provocará um aumento da poluição a
partir de 2014. Desde 2009 observa-se uma linearidade nos níveis de emissão de
MP no Estado, embora todas as cidades se situem com concentrações desse
poluente superiores ao padrão preconizado pela OMS. As iniciativas do Proconve
(Programa de Controle de Poluição Veicular), muito eficazes e fundamentais para
a redução de poluentes no final da década de 1980 e início dos anos 1990,
parecem não conseguir reduzir os níveis de poluentes no contexto atual.
Esse tipo de estudo é de suma importância em contextos urbanos com alta
densidade demográfica e elevados níveis de poluição. Estudo realizado por Apte
et_al._(2015) mostra que a concentração espacial de mortalidade prematura
decorrente da poluição (MP10 µg/m3) é maior na Ásia, em função da interação
entre alta densidade populacional, alta prevalência de doença e altos níveis de
poluição. Embora o Global Health Observatory, da OMS, não tenha dados sobre o
material particulado fino MP2,5 para anos recentes, informações sobre o MP10
mostram que Índia e China, por exemplo, figuram entre os países mais poluídos
do mundo, com níveis de material particulado MP2,5 da ordem de 134 e 90 de MP10
µg/m3, respectivamente, quase 7 e 4,5 vezes o padrão médio anual recomendado
pela OMS de 20 mg/m3.
Estudos similares de projeções foram realizados tanto para o contexto
brasileiro quanto o mundial. Em uma análise prospectiva, Bell_et_al._(2005)
mostraram que a diminuição de 10% de poluentes entre 2000 e 2020 na cidade de
São Paulo acarretaria a redução de 138 mil visitas de crianças e jovens a
consultórios, três mil visitas a prontos-socorros por doenças respiratórias e
817 mil ataques de asma. Estudo semelhante realizado por André_et_al._(2012)
apontou que haveria um excesso de quase 14 mil mortes até 2040 e mais de 18 mil
internações na rede pública de saúde em seis regiões metropolitanas brasileiras
(São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte),
caso houvesse um atraso na implementação de políticas mais limpas de diesel. No
presente estudo, um decréscimo da poluição da ordem de 5% em um período de 15
anos levaria a uma redução de 10.777 mortes, 1.021 internações hospitalares
pelas quatro causas selecionadas no estudo e uma economia de mais de R$ 40
milhões em internações públicas em jovens.
O efeito da poluição sobre a saúde no futuro também foi estudado para outros
países. Flachs_et_al._(2013), por exemplo, procuraram avaliar o efeito da
dinâmica populacional sobre a mortalidade geral na população da Dinamarca
decorrente da poluição pelo material particulado fino (MP2,5), entre 2005 e
2030. Três cenários populacionais foram considerados: no primeiro, apenas o
tamanho da população se altera (mantendo taxa de mortalidade e estrutura etária
constantes); no segundo, tamanho e estrutura etária se alteram de acordo com as
projeções populacionais (mantidas as taxas de mortalidade no nível de 2005); e,
por fim, o último cenário modifica todos os componentes, incluindo uma redução
esperada na taxa de mortalidade. O nível da poluição foi o mesmo de 2005 para
todos os cenários avaliados. Assim como no Brasil, há um aumento esperado no
número de mortes decorrentes da poluição, devido ao fato de que os grupos
etários mais suscetíveis à mortalidade por poluição, como os idosos, apresentam
também maiores taxas de crescimento populacionais. O estudo ressalta a
importância de se considerar a dinâmica populacional na avaliação dos impactos
futuros da poluição do ar sobre a saúde.
Estudo de Lelieveld_et_al._(2015) também destaca fatores demográficos, como
crescimento da população residente em ambientes urbanos, para o aumento das
mortes decorrentes da poluição. Os autores projetam a mortalidade por material
particulado em várias regiões do mundo até 2050. Os resultados mostram que a
taxa de mortalidade por poluição aumentaria de 5 mortes por 10.000 habitantes,
em 2010 (2 milhões de mortes), para 7 mortes para cada 10.000 habitantes, em
2050 (cerca de 4,3 milhões de mortes em todo o mundo), sendo maior em ambientes
urbanos.
No Brasil, apenas 1,7% dos municípios possuíam estações de monitoramento em
2014 (VORMITTAG_et_al.,_2014). Desses, cerca de 78% estão localizados na Região
Sudeste, sendo São Paulo o Estado com maior número de estações. Isso justifica
a escolha dessa unidade geográfica para análise. Além disso, o Estado possui
uma das melhores coberturas de informação de mortalidade no país. Em 2012, o
sub-registro de óbitos foi de 0,5% a partir de estimativas feitas por
Szwarcwald_et_al._(2011). O percentual de causas mal definidas de internações
hospitalares também se reduziu (de 2,1% em 2007 para 1,62% em 2014), o que
contribui para a confiabilidade das estimativas.
Uma das principais limitações do estudo refere-se à possível subestimação do
número de mortes projetado, pois, ao se comparar as projeções de mortalidade
realizadas pelo IBGE_(2013) com os valores registrados em 2012, verifica-se uma
diferença de 10% a mais comparando o número efetivamente registrado e o
projetado, mas que não alteraria significativamente os resultados. Em 2012,
registrou-se um total de 270.432 óbitos, no Estado de São Paulo, segundo os
dados do Sistema de Informações de Mortalidade, enquanto os projetados pelo
IBGE foram 244.005. Pode-se, portanto, pensar nas estimativas apresentadas na
Tabela_1 como um montante mínimo de óbitos decorrentes da poluição no Estado.
Vale ressaltar, ainda, que não foram consideradas mudanças nas taxas de
mortalidade e de internação, o que poderia afetar os resultados. Porém, o
trabalho focalizou-se, principalmente, nos cenários de poluição e seus efeitos,
considerando o tamanho e a estrutura etária populacional no futuro, que possuem
grande influência sobre o montante total de desfechos desfavoráveis em saúde.
Por fim, foi utilizada a média dos níveis de poluição para todo o Estado de São
Paulo, e não os valores referentes a cada estação de monitoramento para os
municípios que monitoram a poluição. Entretanto, como informado na seção de
metodologia, o desvio-padrão da poluição apresenta valores baixos para as 40
estações monitoradas em 2011 (baseline do estudo) e tem representatividade de
municípios com alto índice de atividade industrial, grande contingente
populacional e municípios de menor porte (cerca de 80 mil habitantes). Apesar
dessa limitação, o estudo tem o objetivo de identificar a mortalidade e
morbidade a que a população estaria submetida caso todos os habitantes fossem
expostos aos níveis de poluição médios do Estado. O nível médio de poluição
também é utilizado em estudos da OMS para estimativas da carga de doenças
atribuíveis à poluição mesmo em países com poucas estações de monitoramento
(WHO,_2006).
Considerações finais
Esse trabalho teve como objetivo apresentar estimativas do efeito da poluição
sobre a saúde no Estado de São Paulo, de acordo com a metodologia da estimativa
de mortes e doenças atribuíveis à poluição da OMS (WHO,_2006). Além disso, o
estudo pretende contribuir para a discussão dos efeitos nocivos de agentes
poluentes causados, principalmente, por veículos automotores, para chamar a
atenção da opinião da sociedade, gestores públicos e empresários em busca de
alternativas de mobilidade urbana, inovações na gestão de transportes e
materiais, bem como legislação mais severa e aumento do número de estações de
monitoramento da poluição. Tais medidas serviriam como guia para a
implementação de ações locais que resultem em melhoria da qualidade do ar no
país. Mais especificamente, estudos como esse mostram que um tema transversal
tão importante como a poluição atmosférica deveria embasar discussões
intersetoriais entre saúde e meio ambiente nas políticas públicas e planos de
gestão para redução de emissão de poluentes, principalmente nos grandes centros
urbanos, como é o caso da Região Metropolitana de São Paulo.
De forma mais específica, políticas de redução e regulação de emissões de
poluentes em veículos motores, bem como incentivos a energias mais limpas de
transporte, mitigariam o impacto sobre a saúde. A experiência de técnicos
ambientais e estudos de impacto sobre a saúde, como o presente trabalho, servem
como instrumentos de informação baseada em evidências à sociedade civil e
auxílio aos planejadores para definição de novos critérios de controle da
poluição.
É a partir dos padrões de qualidade do ar que se faz o diagnóstico dos níveis
de poluentes que trazem malefícios para a saúde e que possibilitam determinar
planos de gestão para a diminuição ou o combate à emissão de poluentes. A
indefinição de novos padrões em âmbito nacional e a falta de um controle mais
rigoroso dos níveis de poluição apenas protelam medidas efetivas para o combate
da poluição atmosférica por fontes automotoras e fixas no país, contribuindo
para a continuidade de mortes e internações em decorrência dessas causas.