Efeitos tempo, parturição e quantum no Brasil: indicadores de período e
evidências empíricas
Introdução
Os debates acerca de medidas de fecundidade de período e de coorte têm sido
frequentes na literatura nas últimas décadas. É fato que, entre as medidas de
fecundidade conhecidas, não existe aquela que seja completa ou que traduza
todas as nuances do comportamento reprodutivo humano. A preocupação que,
outrora, esteve focada no crescimento populacional tem se voltado para os
problemas que baixos níveis de crescimento ou decrescimento populacional
prolongados - decorrentes dos baixos níveis de fecundidade - podem causar em
uma população.
À medida que a fecundidade diminui e as mudanças passam a ocorrer em ritmo mais
lento, novas dimensões assumem papel importante nas análises sobre a
fecundidade. Os indicadores de período refletem a interação entre os
componentes tempo, parturição e quantum. As distorções causadas por essa
interação levam, frequentemente, a interpretações equivocadas sobre a realidade
e as consequências dos níveis de fecundidade para o futuro da população. O
efeito tempo está relacionado a mudanças na idade média da fecundidade,
enquanto o efeito parturição decorre das alterações na composição da
fecundidade segundo a ordem dos nascimentos ao longo do tempo e o quantum
corresponde à medida pura de fecundidade, que reflete o nível da fecundidade
livre de distorções.
A relevância da introdução do estudo desses componentes tem duas razões: a
primeira diz respeito ao fato de que eles indicam mudanças não explícitas nas
medidas tradicionais de fecundidade; e a segunda razão refere-se à importância
das mínimas mudanças, principalmente em contextos de baixa fecundidade. A
introdução dos conceitos e o cálculo das medidas no caso do Brasil são
oportunos, em função dos níveis e tendências da fecundidade observados em
períodos recentes.
O presente artigo estima e compara diferentes indicadores de fecundidade de
período, mensurados em termos de número de filhos por mulher, com enfoque nos
indicadores que corrigem distorções causadas na taxa de fecundidade total (TFT)
observada em determinado período. Pretende-se, assim, criar e avaliar novas
possibilidades de análise da fecundidade no Brasil. São apresentadas séries de
TFT, TFTPPR, PATFR, PATFRajustada (K-O), PDTFR e PADTFR, bem como as séries
históricas dos efeitos tempo e parturição e da idade média da fecundidade.1
Para o cálculo dos indicadores, foram utilizados os bancos de dados sobre
histórias de nascimentos reconstruídas a partir das edições de 1980, 1991 e
2000 do Censo Demográfico brasileiro (MIRANDA-RIBEIRO; RIOS-NETO; CARVALHO,
2009). O período de cobertura da série de cada indicador depende das limitações
impostas pelas bases de dados, o que será discutido posteriormente.
Efeito tempo: a translação demográfica de Ryder e o modelo de Bongaarts e
Feeney (B-F)
A primeira tentativa de mensuração do efeito tempo foi feita a partir do
desenvolvimento do conceito de translação demográfica, introduzido por Ryder
(1964, 1980) e desenvolvido posteriormente por Foster (1990), Calot (1992) e
Keilman (1994, 2001). Efeito tempo é o resultado das distorções em medidas de
fecundidade causadas pelas alterações na idade média da fecundidade durante
determinado período.
A translação demográfica pode ser definida como uma relação entre medidas de
fecundidade de período e de coorte. Seu conceito foi desenvolvido a partir da
constatação de que mudanças na idade média da fecundidade de uma coorte afetam
sobremaneira a fecundidade medida no período. Ryder (1964) pressupôs que a
função de fecundidade pode ser expandida em uma série de Taylor separadamente
para as idades e, a partir de aproximações, chegou a uma equação que relaciona
a taxa de fecundidade total de coorte (TFTc) e a taxa de fecundidade total de
período (TFT), na qual c é a variação linear da idade média da fecundidade
observada entre as coortes.
A equação mostra que, se uma coorte adiar o nascimento dos filhos durante um
período, a fecundidade daquele período cairá para um valor abaixo da
fecundidade da coorte. O contrário, isto é, se a coorte adiantar o nascimento
dos filhos durante um período, a fecundidade do período será maior que a
fecundidade da coorte.
No modelo desenvolvido por Bongaarts e Feeney (1998), o efeito tempo, embora
também se refira a mudanças na idade média da fecundidade, não está relacionado
à transformação de medidas de coorte em medidas de período ou vice-versa. O
efeito tempo corresponde somente a medidas de período e diz respeito às
distorções causadas na TFT decorrentes das variações na idade média da
fecundidade ocorridas durante o período em que a TFT é mensurada. O objetivo
principal do modelo de Bongaarts e Feeney (modelo B-F) é estabelecer uma medida
de TFT ajustada, livre das distorções causadas pelo efeito tempo, ou seja,
livre de distorções provocadas pelas mudanças na idade média da fecundidade.
O modelo B-F propõe o cálculo de uma nova TFT, ajustada às mudanças na idade
média da fecundidade (TFTajustada), representando o valor que seria alcançado
pela TFT, não fossem as mudanças na idade média da fecundidade. Esse suposto
valor de TFT é o que os autores definem como quantum. Embora a interpretação
dos resultados seja totalmente diferente, o modelo B-F chega a resultados muito
próximos dos obtidos pela equação de Ryder (1956), para pequenas mudanças na
idade média da fecundidade de período (KEILMAN, 2001).
No desenvolvimento do modelo, os autores partiram da constatação de que
mudanças que acontecem na fecundidade em determinado período podem ocorrer em
qualquer idade ou ordem de nascimento e como consequência de alterações do
tempo ou do quantum. Assim, o modelo trabalha os dados desagregados segundo a
ordem de nascimento, i, e utiliza uma adaptação da equação (1), desenvolvida
por Ryder, para chegar à equação que calcula a TFT ajustada.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ02.jpg]
na qual TFTi,observada é a taxa de fecundidade total observada para a ordem de
nascimento i, e ri corresponde à variação anual da idade média da fecundidade
para a ordem de nascimento i (medida em anos).
A TFTi,observada é calculada como a soma das TEFi,observada, conforme indica a
equação (3):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ03.jpg]
A TFTajustadaé calculada como a soma das TFTi,ajustada, para cada ordem i de
nascimento, conforme mostra a equação (4):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ04.jpg]
Os dados para a aplicação do modelo B-F podem ser retirados de pesquisas
domiciliares transversais, que permitam o cálculo da taxa de fecundidade total
segundo a ordem de nascimento. O cálculo da variação anual da idade média da
fecundidade, ri, pode ser feito a partir da utilização de duas edições das
pesquisas, dividindo-se a variação total pelo tempo decorrido entre as edições.
A facilidade de aplicação do modelo levou a uma série de estudos, em diversos
países e regiões. No entanto, a validade da TFTajustada, enquanto uma medida de
quantum pura, livre do efeito tempo, foi bastante questionada.
As duas principais críticas ao modelo B-F referem-se ao fato de os autores
desconsiderarem os diferenciais de coorte na mudança da idade média da
fecundidade e usarem medidas inadequadas na aplicação do modelo (VAN IMHOFF;
KEILMAN, 2000). A primeira crítica diz respeito ao valor de ri utilizado, que
pressupõe que a mudança anual na idade média da fecundidade para determinada
ordem de nascimento é igual para todos os grupos etários. Isso implica que
todas as mulheres, de diferentes idades e coortes, que tiveram um filho de
determinada ordem durante um ano adiantaram ou adiaram este filho na mesma
quantidade de tempo, ou seja, que a função de fecundidade foi constante durante
o período. Van Imhoff e Keilman (2000) e Kohler e Philipov (2001) mostram
empiricamente que essa suposição de constância é violada.
A segunda crítica diz respeito ao fato de o modelo utilizar taxas de
fecundidade específicas por idade (TEF), cujo denominador contém todas as
mulheres de determinada idade ou faixa etária, independente do número de filhos
tidos. Assim, as taxas de fecundidade empregadas por B-F não são medidas de
exposição ou risco, mas simplesmente frequências e, quando frequências de
período são somadas para todas as idades, o resultado não pode ser interpretado
como um indicador de quantum apropriado (VAN IMHOFF; KEILMAN, 2000).
Modelo de Köhler e Ortega (K-O)
O desenvolvimento do modelo Köhler e Ortega (ORTEGA; KÖHLER, 2002) foi motivado
pelas críticas ao modelo B-F e busca corrigir as falhas. Em relação às medidas,
Köhler e Ortega utilizam funções de intensidade, que são taxas de fecundidade
específicas por idade que empregam, no denominador, apenas as mulheres em risco
de ter um filho de determinada ordem de nascimento. No que diz respeito à
variação anual da idade média da fecundidade, os autores introduzem o conceito
de variância (KÖHLER; PHILIPOV, 2001) e o seu cálculo passa a ser função não
apenas da ordem de nascimento, como no modelo B-F, mas também da idade da
mulher. Além disso, para encontrar a medida pura de quantum, o modelo proposto
por Köhler e Ortega mensura o efeito da mudança na composição por parturição da
fecundidade.
Desse modo, a fecundidade de período é dissociada em três componentes: efeito
tempo, decorrente das mudanças na idade média da fecundidade efeito parturição,
decorrente das mudanças na composição por parturição da fecundidade; e quantum,
a medida pura de fecundidade, livre de distorções dos efeitos tempo e
parturição. Essa medida de quantum puro pode ser interpretada como um valor
hipotético de TFT que seria observado no mesmo período, não fossem as mudanças
na idade média da fecundidade e as mudanças na composição por parturição da
fecundidade. O modelo mensura os três componentes, o que abre caminhos para uma
análise diferenciada das mudanças ocorridas na fecundidade ao longo do tempo e
possibilita a inferência sobre perspectivas futuras, com base em informações
fundamentais e não explícitas nas medidas tradicionais.
A mensuração da fecundidade segundo a ordem de nascimento, i, e idade da
mulher, a, pode relacionar-se ao total de mulheres de idade a ou ao total de
mulheres de idade a, em risco de ter um filho ordem i. No primeiro caso, a
medida representa as taxas específicas de fecundidade tradicionais, que
utilizam, no denominador, o número total de mulheres de determinada idade,
independente da sua parturição no início do período. Essas taxas, também
denominadas incidências, não se configuram medidas de risco e a sua soma, para
as diversas ordens, fornece a taxa de fecundidade total (RALLU; TOULEMON,
1994). No segundo caso, as taxas são denominadas intensidades, representando o
risco de a mulher ter um filho de determinada ordem, e empregam, no
denominador, as mulheres de idade a que estão em risco de ter um filho de ordem
i, ou seja, mulheres com parturição i-1 no início do período. As funções de
intensidade são calculadas conforme a equação (5):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ05.jpg]
na qual Bi(a) corresponde aos nascimentos de filhos de ordem i, de mulheres de
idade a e Ei(a) representa o número de mulheres de idade a em risco de ter um
nascimento de ordem i.
As funções de incidência são calculadas conforme a equação (6):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ06.jpg]
na qual Bi(a) corresponde aos nascimentos de mulheres de idade a e parturição i
e E(a) refere-se ao número de mulheres de idade a, independente da sua
parturição no início do período.
O cálculo das incidências é necessário para a determinação da TFT que, ao final
do processo, a partir de uma relação com a medida de quantum pura, fornecerá a
dimensão do efeito tempo. As taxas de fecundidade total, TFTi e TFT, são
calculadas segundo as equações (7) e (8):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ07.jpg]
As funções ajustadas de intensidade, mi'(a), e incidência, fi'(a) - livres do
efeito tempo - são calculadas, respectivamente, a partir das equações (9) e
(10), que são semelhantes às desenvolvidas por Bongaarts e Feeney (1998) e
Ryder (1956):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ08.jpg]
A diferença entre as equações (9) e (10) e a equação (2) é que a variação da
idade média da fecundidade, ri (a), é função não apenas a ordem de nascimento,
i, mas também da idade da mulher, a. Dessa forma, o modelo K-O corrige uma das
falhas do modelo B-F, ao considerar que a variação na idade média da
fecundidade, para determinada ordem de nascimento, pode ser diferente para
mulheres de idades diferentes.
A determinação da função ri (a) foi desenvolvida por Köhler e Philipov (2001),
a partir da observação de que, durante o declínio próximo da fecundidade
ocorrido em alguns países europeus, o aumento da idade média da fecundidade
havia sido frequentemente acompanhado por mudanças na forma da função de
fecundidade, representando uma violação da fórmula do modelo B-F, que pressupõe
uma variação constante segundo a ordem de nascimento, ou seja, a não interação
coorte-período.
De acordo com Köhler e Philipov (2001), o efeito tempo pode variar com a idade,
sendo que a variância da função de fecundidade pode aumentar ou diminuir ao
longo do tempo. Considerando esses aspectos, os autores desenvolveram um
processo iterativo que calcula alguns parâmetros, por idade e ordem de
nascimento, a partir de uma série histórica de funções de intensidade. Esses
parâmetros, por sua vez, são utilizados para o cálculo do ri (a) - a variação
anual da idade média da fecundidade segundo a ordem de nascimento e a idade da
mulher, conforme a equação (11):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ09.jpg]
na qualγi eδ
i são os parâmetros gama e delta, calculados pelo processo iterativo.2 Gama
representa a mudança na idade média da fecundidade, ao passo que delta é a
mudança proporcional no desvio padrão da idade média. O parâmetro [/img/
revistas/rbepop/v30n1/a08car01.jpg]j, também um dos produtos do processo
iterativo, é a idade média da função ajustada de fecundidade.
Uma vez determinados os valores de ri (a), podem ser calculadas as funções de
intensidade e incidência ajustadas, indicadas nas equações (9) e (10).
Substituindo as incidências por aquelas ajustadas nas equações (7) e (8),
calculam-se as taxas de fecundidade total ajustadas, por ordem de nascimento e
para todas as ordens de nascimento, TFTi' e TFT'.
As medidas ajustadas são livres do efeito tempo. Uma vez calculadas, a atenção
se volta para a determinação de uma medida de período que seja livre do efeito
das mudanças na composição da fecundidade segundo a parturição. A taxa de
fecundidade observada em determinado período é uma medida que, conceitualmente,
refere-se à fecundidade de uma coorte hipotética, formada por mulheres de
diversas coortes reais. Por esse aspecto, a medida carrega, na sua essência, a
experiência passada dessas diversas coortes reais. Se a composição por
parturição de coortes reais sucessivas for diferente, ocorrerá que, na
composição de uma coorte hipotética em determinado período, o número de
mulheres ao final de um grupo etário com determinada parturição será diferente
do número de mulheres no início do grupo etário seguinte com a mesma
parturição. Isso mostra que a TFT é uma medida não controlada por parturição.
A taxa de fecundidade total de uma coorte real, por outro lado, é uma medida
livre dos efeitos da composição da fecundidade segundo a parturição. Assim, a
solução seria encontrar uma medida de período em que a coorte sintética
assumisse o comportamento de uma coorte real. Isso é possível por meio de uma
tábua de fecundidade controlada por idade e parturição, que representa o
comportamento reprodutivo de uma coorte hipotética, sujeita a taxas observadas
em um período, mas, ao mesmo tempo, simula o comportamento de uma coorte real,
ao acompanhar um grupo de mulheres desde a entrada até a saída do período
reprodutivo, passando pelas diversas parturições.
A medida básica para utilização de uma tábua de fecundidade é a probabilidade
de mulheres de parturição i-1 à idade a terem um nascimento de ordem i, entre
as idades exatas a e a+1. Para o cálculo das funções de probabilidade, Ortega e
Köhler (2002) sugerem o uso das funções de intensidade, porque a progressão de
uma parturição a outra é um evento não renovável. Assim, seria incorreto
empregar as funções de incidências no cálculo das probabilidades. A
transformação das taxas em probabilidades pode ser feita conforme a equação
(12). A utilização de funções de intensidade ajustadas resulta em
probabilidades ajustadas.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ10.jpg]
A partir das probabilidades da equação (12), são calculadas outras funções da
tábua de fecundidade. A equação (13) mostra como é calculado o número de
nascimentos de ordem i, de mulheres de idade a, bi (a):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ11.jpg]
na qual Di (a) é o número de mulheres de idade a e parturição j. Um processo
iterativo que utiliza as equações (13) e (14) calcula o número de mulheres e de
nascimentos.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ12.jpg]
Para o último grupo de parturição, I, que inclui as ordens de nascimento I e as
maiores que I, o número de nascimentos e de mulheres é calculado segundo as
fórmulas das equações (15) e (16).
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ13.jpg]
O número de mulheres na condição inicial da tábua de fecundidade (raiz), de
idade e parturição i=0, é igual a N. À exata idade e parturição i>0, o número
de mulheres é nulo. O número médio de nascimentos de mulheres da coorte
sintética é definido pela equação (17):
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ14.jpg]
A medida sintética da tábua de fecundidade é obtida pela razão entre a soma de
todos os nascimentos da coorte sintética e a raiz da tábua de fecundidade, de
acordo com a equação (18). Essa medida é também denominada taxa de fecundidade
total específica por idade e parturição, PATFR (parity and age specific total
fertility rate).
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ15.jpg]
A PATFR, quando construída a partir das intensidades ajustadas pelo efeito
tempo, é livre dos efeitos tempo e parturição e denominada PATFRajustada. Esta
medida é a que Ortega e Köhler (2002) chamam de medida pura ou quantum puro.
Uma vez calculadas as medidas livres dos efeitos tempo e parturição, é possível
mensurar os efeitos. Ortega e Köhler (2002) propõem a mensuração destes efeitos
de forma similar àquela do efeito tempo proposta por Bongaarts e Feeney (1998),
que chamam de efeito tempo a variação anual da idade média da fecundidade, ri .
Utilizando uma variação da equação (2), os autores chegam à equação (19), na
qual r é o efeito tempo.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ16.jpg]
Um valor positivo de r indica uma razão entre a TFTobservada e a TFTajustada
menor que a unidade, ou seja, uma TFTobservada menor que a TFTajustada. Isso
indica que o efeito tempo positivo atua de modo a diminuir a TFTobservada e é
resultado da postergação dos nascimentos. Um valor negativo de r - efeito tempo
negativo - indica o contrário, ou seja, um adiantamento dos nascimentos.
Analogamente, calcula-se o efeito parturição, d, utilizando-se as duas medidas
livres do efeito tempo, TFTajustada e PATFRajustada. O sinal invertido da
equação (20) faz com que o efeito parturição seja positivo quando favorece o
aumento da fecundidade observada, o oposto do efeito tempo.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ17.jpg]
Medidas de fecundidade de período baseadas em probabilidades: PDTFR, PADTFR,
PPR e TFTPPR
Ni Bhrolcháin (1992) sugere que algumas medidas baseadas em probabilidade, como
as PDTFR, PADTFR e PPR, devam ser incluídas na agenda dos indicadores de
fecundidade. As probabilidades utilizadas para o cálculo das medidas são
aproximações obtidas a partir da transformação das taxas observadas no período.
Essas medidas, no entanto, não são muito difundidas, pois os dados necessários
ao seu cálculo não estão disponíveis para um grande número de localidades e nem
para um longo período de tempo. O banco de dados sobre histórias de nascimentos
tornou possível o cálculo dessas medidas para o caso brasileiro. Entretanto, o
fato de cada censo voltar 15 anos no tempo pode limitar a análise desses
indicadores porque são censuradas as informações sobre nascimentos que
ocorreram fora desse período. Parte dos nascimentos ocorridos fora do período é
anterior àqueles que ocorreram dentro do período e, nesses casos, o intervalo
entre nascimentos é uma variável indefinida.
Taxa de fecundidade total controlada por duração e parturição - PDTFR
As equações (12) a (18) mostradas anteriormente descrevem o cálculo da PATFR, a
partir de funções de uma tábua de fecundidade, sendo que as probabilidades
utilizadas são derivadas das funções de intensidade, que representam o risco de
uma mulher de idade a ter um filho de ordem i, em determinado ano. Já para o
cálculo da PDTFR, busca-se a probabilidade de uma mulher ter um filho de ordem
i, em função da duração, d, desde o evento anterior. O evento anterior é o
nascimento do filho de ordem anterior, para os nascimentos de segunda ordem ou
ordens superiores, ou a entrada no período reprodutivo, no caso dos nascimentos
de primeira ordem. Em alguns casos, considera-se como evento anterior ter
completado 14 anos, no caso de nascimentos de primeira ordem, porque se garante
a não ocorrência de nascimentos no ano zero. Dessa forma, tem-se um indicador
de período controlado apenas por duração e parturição e não por idade, como no
caso da PATFR.
A PDTFR, indicador controlado por duração e parturição, é livre das mudanças do
tempo da fecundidade e das alterações da composição da fecundidade por
parturição, mas não leva em conta os diferenciais de coorte, visto que
considera o comportamento reprodutivo independente da idade da mulher.
A equação (21) é uma reprodução da equação (12), mas coloca a probabilidade de
a mulher ter um filho de ordem i, em função da duração desde o evento anterior.
O ano, t, é um parâmetro implícito nos cálculos.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ18.jpg]
A função mi(d) é definida pela equação (22), na qual Bi(d) corresponde aos
nascimentos dos filhos de ordem i, daquelas mulheres que tiveram o evento
anterior no momento j-d. O evento anterior é o nascimento do filho de ordem i-
1 (ou a entrada no período reprodutivo, para nascimentos de primeira ordem). O
denominador, Ei(d), representa o número de mulheres em risco de apresentar o
evento Bi(d), ou seja, são mulheres com parturição i-1 e que tiveram o filho de
ordem i no ano j-d.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ19.jpg]
Definidas as funções e as probabilidades, o procedimento para o cálculo da
PDTFR é o mesmo descrito no cálculo da PATFR (equações 12 a 21), no qual há a
progressão entre as parturições e durações.
Taxa de fecundidade total controlada por idade, parturição e duração - PADTFR
O cálculo da taxa de fecundidade total controlada por idade, parturição e
duração - PADTFR - é mais complexo que o dos demais indicadores derivados de
tábuas de fecundidade, porque as taxas e probabilidades utilizadas incluem uma
terceira dimensão. Para a aplicação das probabilidades em uma tábua de
fecundidade bidimensional, há a necessidade de se diminuir a dimensionalidade
das probabilidades. Pode-se reduzir a dimensionalidade de qualquer uma das
variáveis e a opção feita neste trabalho é a de tornar as probabilidades
funções da idade da mulher e da ordem de nascimento, conforme sugeriram Rallu e
Toulemon (1994).
O objetivo primeiro é determinar as q(a,i,d), que indicam a probabilidade de
uma mulher de idade a ter um filho de ordem i, dado que a duração desde o
evento anterior é d. A equação (23), que expressa a probabilidade em função das
taxas, é semelhante às equações (12) e (21). Novamente, o ano j é um parâmetro
implícito nos cálculos. A função mi(a,d) é definida na equação (24), na qual Bi
(a,d) corresponde aos nascimentos de ordem i, de mulheres de idade a cuja
duração desde o evento anterior é d; e Ei(a,d) refere-se ao número de mulheres
de parturição i-1, com idade a e cujo nascimento de ordem i-1 ocorreu d anos
antes do ano j. O parâmetro a é a idade declarada no censo.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ20.jpg]
Determinadas as probabilidades qi (a,d), obtêm-se as probabilidades qi (a), a
partir da equação (25), de Rallu e Toulemon (1994), na qual Ni (a,d) é o número
de mulheres de idade a, parturição i e duração d desde o evento anterior.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ21.jpg]
Em seguida, as novas probabilidades são utilizadas para o cálculo das funções
da tábua de fecundidade, como na PATFR. A diferença é que, neste caso, a medida
síntese, PADTFR, não sofre influência das variações na duração do intervalo
entre filhos. Por ser livre também dos efeitos causados nas mudanças da
composição da fecundidade por parturição, essa medida é denominada por Rallu e
Toulemon (1994) de medida de fecundidade completa, pois independe dos efeitos
do passado. Conceitualmente, essa é a mesma proposta da medida pura do modelo
K-O (PATFRajustada).
Razão de progressão de parturição (PPR) e taxa de fecundidade total derivada
das PPR (TFTPPR )
O procedimento para calcular a PPR de período foi proposto por Louis Henry, nos
anos 1950, e redescoberto por Feeney e Yu (1987) e Ni Bhrolcháin (1987). Para a
sua aplicação, são necessários dados de pesquisas em que haja a possibilidade
de identificar o momento do nascimento dos filhos das mulheres enumeradas. Uma
vez disponíveis esses dados, há duas possibilidades de calcular PPR de período,
conhecidas como "coorte verdadeira de parturição"3 e "coorte sintética de
parturição"4 (HINDE, 1998). A partir das PPR, é possível calcular a taxa de
fecundidade total de período - a TFTPPR - que, diversamente da TFT
convencional, não é função da idade da mulher.
A ideia por trás do procedimento conhecido como "coorte verdadeira de
parturição" é a de fixar um determinado ano jind (ano índice) e identificar
todas as mulheres que tiveram filhos de ordem i naquele ano. Ao acompanhar
essas mulheres por alguns anos, é possível identificar se elas tiveram e em que
ano subsequente tiveram o filho de ordem i+1. No procedimento conhecido como
"coorte sintética de parturição", a ideia é fixar o ano em que as mulheres
tiveram o filho de ordem i+1 e buscar, retrospectivamente, o ano em que tiveram
o filho de ordem i. Duas desvantagens no cálculo das PPR a partir do
procedimento da coorte verdadeira são: a maior chance de censura dos dados para
os anos mais próximos do censo, visto que o ano do nascimento do filho de ordem
i+1 não é fixo; e a ocorrência, em alguns anos antes do censo, de grande parte
dos nascimentos incluídos nos cálculos, o que torna os resultados um pouco
desatualizados. Esses problemas ocorrem em menor grau no procedimento da coorte
sintética, motivo pelo qual será aplicado neste artigo.
O primeiro passo no procedimento é o cálculo das proporções qxII; , que serão
utilizadas para o cálculo das PPR. O ano j é um parâmetro implícito no cálculo
e x indica o tempo, medido em anos. Na equação (26), o numerador Ei(j-x),i+1(j)
representa o número de mulheres que tiveram o filho de ordem i no ano j-x e o
filho de ordem i+1 no ano j. No numerador, Ei(j-x) indica o número de mulheres
que tiveram o filho de ordem i no ano j-x e Ei(j-x),i+1[j-x,t)indica o número
de mulheres que tiveram o filho de ordem i no ano j-x e tiveram o filho de
ordem i+1 antes do ano j (esse ano pode ser, inclusive, o ano j-x).
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ22.jpg]
O valor do parâmetro x pode variar desde zero (quando os filhos de ordem i e
i+1 nasceram no mesmo ano) até um limite considerado apropriado, em geral não
maior que dez (HINDE, 1998), mas que depende da disponibilidade dos dados. As
probabilidades de progressão de parturição (PPR) de período do nascimento de
ordem i para o nascimento de ordem i+1, identificadas por ai, podem ser
calculadas a partir da equação (27). Calculadas as ai para as diversas ordens
de nascimento, calcula-se a TFTPPR (equação 28).
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08equ23.jpg]
Limitações impostas pelas bases de dados ao cálculo das medidas
Os indicadores descritos podem ser afetados por três tipos de limitações
impostas pelas bases de dados, que tendem, em graus diferenciados, a subestimar
as medidas apresentadas. A primeira limitação afeta as medidas baseadas em
duração desde o evento anterior e relaciona-se ao fato de as bases de dados
cobrirem um período retrospectivo de 15 anos para cada censo. Isso significa
que, para os anos de realização dos censos, o tempo para observação do evento
anterior é de 14 anos. À medida que se afasta dos anos de realização dos
censos, esse tempo retrospectivo diminui. Para garantir que o tempo de
observação não seja inferior a dez anos,5 as séries históricas das medidas
baseadas em duração iniciam-se no quarto ano anterior ao da realização de cada
censo. As séries mais curtas amenizam o problema da duração, mas não resolvem o
problema da censura das informações de mulheres mais velhas, cuja parte do
período reprodutivo não está coberto nas histórias de nascimentos
reconstruídas. Dessa forma, não se tem a informação sobre os filhos nascidos
fora do período de cobertura. Isso não seria problema se parte desses filhos
nascidos fora do período de cobertura não representasse o evento anterior ao
nascimento dos filhos nascidos dentro do período de cobertura. A implicação da
censura é um alto índice de indeterminação de intervalos de nascimentos para
mulheres mais velhas. A solução, neste caso, foi calcular a série de
indicadores considerando a fecundidade acumulada até os 30 anos de idade,
porque grande parte do período reprodutivo dessas mulheres está coberta pelas
histórias de nascimentos.
A segunda limitação que pode afetar o cálculo dos indicadores está relacionada
à qualidade das informações nos anos mais afastados dos censos. Nos bancos de
dados sobre histórias de nascimentos reconstruídas a partir dos censos
demográficos, a tendência é que, à medida que se afasta do ano de realização do
censo, a qualidade dos dados diminua. Isso ocorre para os dados agregados e se
intensifica conforme as informações são desagregadas. A análise das
intensidades e a comparação nos anos em que as séries de dois censos
consecutivos se sobrepõem evidenciaram essa questão. Tal limitação afeta tanto
as medidas derivadas do modelo K-O quanto aquelas baseadas em duração. No
primeiro caso, a limitação afeta o cálculo dos parâmetros delta e gama, que
determinam o valor de ri (a), porque o processo iterativo que determina delta e
gama utiliza dados da série completa de intensidades para determinar os
parâmetros de um único ano. Se os dados dos anos mais afastados estão
distorcidos, os parâmetros e, consequentemente, o valor de ri (a) sofrerão
algum tipo de distorção. Em relação às medidas baseadas em duração, a qualidade
das informações nos anos mais afastados dos censos afeta as medidas no caso de
nascimentos consecutivos com duração mais longa. Neste artigo, optou-se pela
utilização da série parcial de intensidades (dez anos).
A terceira limitação está relacionada à possível omissão de crianças nas
primeiras idades e a erros de declaração da idade. Nos modelos utilizados, que
combinam a idade da criança e a ordem de nascimento, esses problemas tendem a
distorcer ainda mais os dados, principalmente nos anos mais próximos aos
censos.
Tempo e quantum da fecundidade: evidências empíricas
Os resultados apresentados buscam uma interpretação da transição da fecundidade
no Brasil a partir de aspectos não evidentes na TFT, medida comumente utilizada
na análise da fecundidade brasileira. Pelo fato de os dados considerarem o
Brasil na sua totalidade, os resultados estão carregados de toda a
heterogeneidade do comportamento reprodutivo das mulheres brasileiras. Tendo
isso em mente, pretende-se, com os resultados, uma primeira aproximação, para
que estudos futuros abordem aspectos mais específicos, como grupos de mulheres
mais homogêneos.
Efeito tempo,quantume efeito parturição: resultados da aplicação do modelo K-
O aos dados brasileiros
Os resultados da aplicação do modelo K-O aos dados brasileiros mostram que, ao
contrário do que se verifica na Europa, a queda da fecundidade no Brasil
ocorreu sob a atuação de um efeito tempo negativo, indicando que a taxa de
fecundidade total observada foi inflada pelo adiantamento no nascimento dos
filhos. O efeito parturição no Brasil foi significativo e atuou no mesmo
sentido do efeito tempo, o de aumentar a TFT medida durante todo o período. A
análise da atuação conjunta dos dois efeitos pode ser feita a partir dos
valores encontrados para o quantum puro, a PATFRajustada, que podem ser
interpretados como os valores que a TFT alcançaria se não fossem as atuações
dos efeitos tempo e parturição.
As curvas dos efeitos tempo e parturição dos três Censos Demográficos não se
sobrepõem, como se esperaria em uma situação ideal. Uma explicação pode estar
relacionada à diferença entre as funções de intensidade derivadas dos diversos
censos. Se as funções de intensidade para um mesmo ano diferem
significativamente de um censo para outro (no período em que há sobreposição da
cobertura da história de nascimentos para dois censos consecutivos), a geração
de parâmetros do modelo K-O e respectivos cálculos de medidas ajustadas para os
efeitos tempo e parturição são distorcidos por essas diferenças. Assim, quanto
maior a diferença entre as funções de um mesmo ano, derivadas de censos
diferentes, maiores as diferenças entre os parâmetros e, consequentemente,
entre as curvas. A diferença entre as funções para um mesmo ano relaciona-se à
distorção das medidas em anos mais afastados do ano de realização do censo e
diz respeito ao fato de que, para cada censo, foram utilizadas as funções
geradas pelo próprio censo.
A série histórica anual do efeito tempo no Brasil é apresentada no Gráfico_1,
que mostra a série de efeito tempo para o período 1970-2000, obtida pela
aplicação do modelo para as séries parciais (dez anos) de cada censo,
considerando-se todas as parturições (efeito tempo total). Em função das
flutuações mostradas nas curvas e das distorções comentadas anteriormente, não
é prudente se falar em termos da magnitude do efeito tempo para o Brasil com os
resultados apresentados. No entanto, observa-se uma tendência que pode ser uma
boa indicação do que ocorreu no país nas últimas décadas e do que pode
acontecer no futuro próximo.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra01.jpg]
De acordo com o Gráfico_1, o efeito tempo negativo no Brasil contribuiu para um
aumento da TFT observada durante praticamente todo o período. Efeito tempo
negativo indica que houve queda da idade média da fecundidade. Essa redução no
Brasil, nas últimas décadas, mostrada no Gráfico_1,6 não é novidade e já foi
evidenciada em grande parte dos estudos sobre fecundidade no país. A novidade
fica por conta da interpretação e da projeção do efeito tempo. Observa-se, ao
final do período, uma tendência de efeito tempo próximo de zero, o que
indicaria certa estabilização na queda da idade média da fecundidade,
considerando o total do país. A tendência de estabilização indicada pelo efeito
tempo é corroborada pela curva da idade média da fecundidade.
O Gráfico_2 mostra a série de efeito da composição por parturição, ou efeito
parturição, para a série parcial (dez anos) de intensidades. Em termos de
tendência, observa-se que o efeito parturição no Brasil foi positivo durante
praticamente todo o período de análise. Isso implica que o efeito parturição
atuou no mesmo sentido do efeito tempo, o de inflar a fecundidade observada
durante o período. Quando o efeito parturição provoca crescimento da
fecundidade observada, isso indica que a composição por parturição está sendo
modificada no sentido de aumentar a participação relativa das parturições que
têm taxas mais altas ou, olhando no sentido inverso, de diminuir a participação
relativa das parturições que têm taxas mais baixas. O efeito parturição
positivo, portanto, implica um aumento da participação relativa das ordens de
nascimento inferiores, em detrimento da queda da participação relativa das
ordens superiores. Os resultados do efeito parturição são consistentes com o
fato de que a queda da fecundidade, no Brasil, ocorreu em grande parte pela
redução da fecundidade nas ordens superiores de nascimento. Ao contrário do
efeito tempo, a curva do efeito parturição em 1991 não teve aderência à curva
de 2000.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra02.jpg]
O Gráfico_3 mostra a série histórica da idade média da fecundidade da medida
controlada por idade e parturição, para primeira e segunda ordens de
nascimento. Essa medida é, portanto, livre dos efeitos da composição da
fecundidade segundo a parturição e pode ser interpretada como o valor que a
idade média da fecundidade assumiria se não houvesse mudanças na composição da
fecundidade segundo a parturição. Na prática, ela mostra as mudanças na idade
média da fecundidade que se devem apenas à atuação do efeito tempo. É possível
observar que ao final da série, para as duas ordens de nascimento, a idade
média da fecundidade apresenta tendência de elevação, sendo mais forte para a
segunda ordem de nascimento.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra03.jpg]
Medida baseada na probabilidade de progressão de parturição: TFTPPR
O Gráfico_4 mostra as séries da TFTPPR (taxa de fecundidade total calculada a
partir das razões de progressão de parturição) e da TFT tradicional calculadas
com os dados dos três Censos Demográficos. A TFTPPR (assim como a PDTFR) é uma
medida não controlada por idade, calculada a partir das razões de progressão de
parturição. Apesar das diferenças metodológicas, o Gráfico_4 mostra resultados
consistentes, visto que a diferença entre a TFTPPR e a TFT tradicional é
pequena, principalmente na série do Censo de 1991. É provável que parte das
diferenças deva-se à limitação do banco de dados - em relação ao período de
retrocesso -, pois uma série maior implicaria um valor máximo maior para x, no
cálculo das probabilidades, qxII; . Apesar dos resultados satisfatórios, o
cálculo da TFT tradicional é mais simples e requer dados menos sofisticados. As
séries curtas de TFTPPR foram determinadas para que o valor de x não fosse
inferior a dez anos. A forma das curvas apresentadas indica a probabilidade de
que as medidas estejam, por algum motivo, distorcidas nos anos mais próximos
aos censos. Subenumeração de crianças menores pode ser uma das explicações.
Assim, para efeito de análise, a série do Censo de 1980 cobre o período 1976-
1978; a do Censo de 1991, 1987-1989; e a série 2000 abrange o período 1996-
1998. As linhas pontilhadas mostram os valores dos anos mais próximos aos dos
censos, omitidos das séries. As observações valem para as demais medidas.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra04.jpg]
Medidas baseadas em duração desde o evento anterior: PDTFR e PADTFR
As séries históricas das medidas baseadas em duração desde o evento anterior
sofrem com os dois primeiros tipos de problemas relacionados às bases de dados,
descritos anteriormente, quais sejam: a censura dos dados e a qualidade das
informações nos anos mais afastados dos censos. O Gráfico_5 apresenta as séries
da PDTFR (taxa de fecundidade total por parturição e duração) e o Gráfico_6
traz as séries da taxa de fecundidade total controlada por idade, parturição e
duração, PADTFR, comparadas com as séries de PATFRajustada (modelo K-O).
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra05.jpg]
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra06.jpg]
A série PDTFR é a mais afetada pela censura dos dados. Por ser função da
parturição e da duração, a construção da medida a partir da tábua de
fecundidade funciona como se as mulheres da coorte sintética tivessem apenas
dez anos para completar a sua parturição. Isso implica que parte delas não
chega a ter o primeiro filho e, daquelas que o têm, poucas têm o segundo e o
terceiro filhos e pouquíssimas chegam a ter filhos de ordem superior a três. A
proporção de mulheres da coorte sintética sem filhos ao final do período de dez
anos varia entre 45% e 50% em todos os anos das três séries, proporção superior
à encontrada na população real.7 Assim, a medida é subestimada e não passível
de comparação com as demais. Essa deficiência do indicador mascara o que
poderia ser chamado de "efeito idade". O Gráfico_5 indica valores inferiores à
unidade para as séries calculadas com dados dos três censos, com pico na década
de 1980.
A série de PADTFR, medida controlada por idade, parturição e duração, e a série
de PATFRajustada, controlada por idade e parturição e ajustada para o efeito
tempo (modelo K-O), são apresentadas no Gráfico_6. A comparação entre as
medidas definidas como livres dos efeitos tempo e parturição indica que pelo
menos uma delas sofre algum tipo de limitação ou é sensível às flutuações nos
dados.
Séries de medidas para fecundidade acumulada até 30 anos de idade
A limitação das bases de dados para o cálculo dos indicadores baseados na
duração desde o evento anterior compromete a análise dos resultados, uma vez
que não é possível determinar em que grau a limitação os afeta. A utilização de
séries destes indicadores, considerando a fecundidade acumulada até os 30 anos
de idade, é uma solução na tentativa de diminuir o efeito da censura dos dados,
pois a maior parte do período reprodutivo das mulheres que têm até 30 anos de
idade nos anos que compõem a série estará coberta nas histórias de nascimentos.
Além disso, no caso brasileiro, até os 30 anos de idade uma proporção
significativa das mulheres já completou sua fecundidade. Uma vez retirada a
influência da limitação dos dados, os indicadores controlados por duração
tornam-se comparáveis aos demais.
Entre os indicadores baseados na duração, o que mais interessa neste trabalho é
a PADTFR, porque, conceitualmente, é uma medida livre dos efeitos tempo e
parturição, como a PATFRajustada do modelo K-O. O Gráfico_7 mostra que, para a
série de fecundidade acumulada até 30 anos de idade, as duas medidas estão mais
próximas do que para a série completa (até 49 anos de idade), apresentada no
Gráfico_6, indicando que parte das diferenças era devida à censura dos dados.
Observa-se uma tendência de aproximação das curvas ao final dos três períodos,
o que pode indicar que ambas as medidas são mais acuradas nos anos mais
próximos ao ano de realização dos censos. Em termos de tendência, a curva da
PADTFR aponta uma queda mais suave a partir dos anos 1980.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra07.jpg]
A análise dos efeitos tempo e parturição a partir das novas medidas pode ser
feito comparando-se as séries PATFR e PADTFR e as séries TFT e PATFR,
respectivamente. Diferentemente do modelo K-O, neste caso não é objetivo
mensurar os efeitos, mas apenas analisar as tendências e comparar com os
resultados descritos para o modelo K-O. Comparando as séries TFT e PATFR,
verifica-se que o efeito parturição atuou no sentido de inflar a fecundidade
observada, pois a série da PATFR - a taxa de fecundidade livre do efeito
parturição - tem valores inferiores durante todo o período. Para a série do
Censo de 1991, a diferença praticamente inexiste. Esse resultado corrobora,
exceto para o final da série de 2000, os resultados encontrados pelo modelo K-
O, mostrados pelos Gráficos_1 e 2.
Ao se compararem as curvas da PATFR e da PADTFR - medidas livres do efeito
parturição -, é possível analisar a atuação do efeito tempo. Ao final da década
de 1970, a PADTFR possui valores que estão abaixo daqueles referentes à PATFR.
Isso indica que, não fosse o efeito tempo, a fecundidade seria um pouco menor
que a observada. Em outras palavras, o efeito tempo atuou no sentido de inflar
a fecundidade observada. Ao final da década de 1980, verifica-se, ainda, a
mesma tendência, mas a diferença entre a PATFR e a PADTFR é próxima de zero. Ao
final dos anos 1990, a tendência se inverte e a medida livre dos efeitos
parturição e tempo (PADTFR) passa a ser maior que a medida livre do efeito
parturição, mas sofre o efeito do tempo (PATFR). Em outras palavras, o efeito
tempo passa a atuar no sentido de diminuir a fecundidade observada. Os
resultados do modelo K-O (Gráfico_1) são diferentes, embora insinuem uma futura
reversão do efeito tempo - ainda negativo para a série completa de 1991 e
próximo de zero ao final da série de 2000.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra08.jpg]
O Gráfico_9 mostra as séries de TFT e TFTPPR para a fecundidade acumulada até
30 anos de idade. Curiosamente, a TFTPPR para essa série é maior do que para
aquela completa, até os 49 anos de idade. A explicação para tal diferença está
relacionada ao fato de que a medida não é controlada por idade e que, até os 30
anos, as probabilidades de as mulheres terem filhos são maiores que até os 49
anos. Os resultados do Gráfico_9 fazem pouco sentido quando se analisa uma
coorte sintética de período acumulando-se até os 30 anos de idade.
[/img/revistas/rbepop/v30n1/a08gra09.jpg]
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo calcular e comparar diversos indicadores de
fecundidade de período, focando a atenção naqueles que, de alguma forma, buscam
corrigir distorções provocadas pelas mudanças na função de fecundidade da TFT
observada em determinado período. Mais que uma aplicação às bases de dados de
histórias de nascimentos, buscou-se situar o Brasil em relação ao atual debate
sobre tempo e quantum.
O debate não é novidade nos países europeus. Desde os anos 1970, a postergação
dos nascimentos tem sido uma das características mais marcantes da fecundidade
e, como resultado, a taxa de fecundidade total tem sido sistematicamente
diminuída, levando alguns países a uma fecundidade observada extremamente baixa
(SOBOTKA, 2004). O Brasil, ao final da década de 1990, chegava a níveis de
fecundidade próximos ao de reposição, vindo de uma tendência anterior de queda
na idade média da fecundidade, o que implicava um aumento da fecundidade
observada. É certo que existe um limite biológico para a postergação e o
adiantamento dos nascimentos e, mesmo que fatores externos não influenciem, há
um momento em que esse processo tem, no mínimo, que cessar. A questão é saber
quando isso vai acontecer.
Os resultados da aplicação do modelo K-O mostram que, no Brasil, a transição da
fecundidade para baixos níveis foi acompanhada, durante praticamente todo o
período de análise, por um efeito tempo negativo e um efeito parturição
positivo, o que significa que a taxa de fecundidade total observada foi inflada
pelo adiantamento no nascimento dos filhos e pelo aumento da participação
relativa das primeiras ordens de nascimento na composição da fecundidade. Isso
equivale a dizer que, se não fossem as mudanças da idade média da fecundidade e
da composição da fecundidade segundo a parturição, a fecundidade observada
seria menor. Ao final da década de 1990, ambos os efeitos estão próximos de
zero. Do ponto de vista do efeito parturição, esse resultado indica que a queda
das taxas de fecundidade das ordens superiores ocorre na mesma proporção que a
redução das taxas das ordens inferiores (no caso, obviamente, de continuidade
de queda da fecundidade), ou seja, não há alteração na composição da
fecundidade segundo a parturição. Em termos do efeito tempo, o resultado indica
que a idade média da fecundidade permanece constante.
Em relação aos indicadores alternativos, é possível observar diferenças entre
os resultados encontrados no modelo K-O e na comparação entre a PATFR e a
PADTFR, no caso do efeito tempo, e entre a TFT e a PATFR, para o efeito
parturição. A despeito das diferenças e da acurácia de cada medida, a tendência
é semelhante.
No modelo K-O, observa-se um efeito tempo negativo durante praticamente todo o
período, mesmo considerando os resultados do Censo Demográfico de 1980. Ao
final do período, o efeito tempo está próximo de zero. Na comparação entre
PATFR e PADTFR, o efeito tempo passa de negativo, no início do período de
análise, para positivo, no final. Se os resultados do modelo K-O estiverem
corretos, o Brasil está próximo de entrar no processo de postergação da
fecundidade. Se os resultados mostrados para a PATFR e PADTFR estiverem
corretos, as mulheres brasileiras, ao final da década de 1990, já estavam
postergando o nascimento de seus filhos. Qualquer que seja a situação mais
próxima da realidade, é evidente a reversão da atuação do efeito tempo sobre a
fecundidade no Brasil, significando que a taxa de fecundidade observada
diminuirá em função do adiamento do nascimento dos filhos. Em relação ao efeito
parturição, os resultados do modelo K-O e da comparação entre as séries TFT e
PATFR mostram a mesma tendência, exceto para o final da série de 2000. Em ambos
os casos, o efeito atuou no sentido de inflar a fecundidade observada.
Se o quadro que está se desenhando for confirmado, o Brasil passará de uma
situação na qual a taxa de fecundidade total observada é inflada para outra na
qual a taxa de fecundidade total observada é diminuída, principalmente pela
ação do efeito tempo. Suponha-se uma situação em que a medida pura de
fecundidade - quantum puro (PADTFR ou PATFRajustada) - no Brasil se estabilize
em torno de 2 filhos por mulher. Um efeito tempo negativo durante um período
agiria no sentido de diminuir a fecundidade observada. No caso de uma queda
continuada do quantum para níveis abaixo de 2 filhos por mulher, a queda da
fecundidade observada seria ainda maior e, dependendo do valor alcançado, o
efeito tempo poderia levar o Brasil a níveis bastante baixos de fecundidade. O
efeito parturição, em ambos os casos, poderia acentuar a queda da fecundidade
observada, se for positivo, ou não provocar efeito algum, se for nulo.
A queda da fecundidade observada, a princípio, não significa que as mulheres
não irão recuperar essa fecundidade atrasada no futuro, mas certamente o número
de nascimentos cairá bastante durante um período posterior ao início da
postergação. No limite, o Brasil pode entrar no que Ortega e Köhler (2002)
denominam de "efeito do envelhecimento da fecundidade", que é a queda no nível
da fecundidade das mulheres que não recuperam os nascimentos adiados.
Independentemente da confirmação do quadro, é certo que esses aspectos não
podem ser negligenciados na análise da fecundidade.
Há que se considerar, ainda, que os resultados apresentados refletem o
comportamento do país como um todo. Se, para o conjunto das mulheres
brasileiras, o comportamento dos efeitos tempo e parturição indicam mudança de
tendência, isso significa que, para alguns grupos de mulheres, essa mudança já
ocorreu. Do mesmo modo, para outros grupos de mulheres essa é uma realidade
mais distante. Isso deixa claro que a exploração das bases de dados sobre
histórias de nascimentos foi apenas iniciada e que existe uma série de estudos
a serem desenvolvidos, a fim de complementar os resultados apresentados e
enriquecer ainda mais os estudos futuros sobre fecundidade. Não era objetivo
deste artigo esgotar as possibilidades de análise. Pelo contrário, buscou-se,
na utilização dos bancos de dados criados, a aplicação de medidas alternativas
de fecundidade.