Emigração internacional de brasileiros para os Estados Unidos: as redes sociais
e o papel de intermediação nos deslocamentos exercido pelas agências de turismo
Introdução
A abordagem processual e sistêmica dos fenômenos migratórios se tornou bastante
difundida entre os pesquisadores a partir da década de 70. Conceitualmente, os
sistemas migratórios se compõem, em linhas gerais, de unidades territoriais
específicas interligadas (origem, trajeto e destino), de fluxos de pessoas e
objetos e de um sentido organizacional geral que deve garantir coerência e
integridade a todos os componentes do sistema (KRITZ et al., 1992; MASSEY et
al., 1998).
Mais recentemente, a partir da década de 80, a abordagem processual contribuiu
para a consolidação da idéia de que o sistema migratório internacional fosse
entendido como uma "rede de países ligados por interações migratórias, cuja
dinâmica é amplamente condicionada pela operação de uma variedade de redes que
conectam atores migrantes em diferentes níveis de agregação" (KRITZ; ZLOTNIK,
1992, p. 15).
Dessa forma, novas contribuições teóricas e metodológicas foram feitas no
sentido de operacionalizar e aprofundar a perspectiva sistêmica das migrações -
especialmente o caso das teorias sobre redes e capital social, teorias dos
sistemas mundiais e a teoria da causalidade cumulativa (PORTES, 1995; BOYD,
1989; FAWCETT, 1989; SASSEN, 1995; MASSEY et al., 1998).
Este estudo propõe uma alternativa para a abordagem sistêmica das migrações que
permita, ao mesmo tempo, uma compreensão relacional e dinâmica dos
deslocamentos, bem como a operacionalização das análises, através de um "modelo
estrutural das migrações".
O modelo estrutural aqui proposto utiliza recursos analíticos da Teoria dos
Grafos (ORE, 1963; HARARY, 1969; DIESTEL, 2000) e da Análise de Redes Sociais
(WASSERMAN; FAUST, 1994; HARARY; WHITE, 2001; SCOTT, 2000; WATTS, 1999;
BARABASI, 2003),1 permitindo, assim, a representação objetiva dos sistemas de
migração orientada por uma lógica formal rigorosa, sem, contudo, impedir a
compreensão intuitiva e precisa das relações implicadas.
Em linhas gerais, o modelo estrutural baseado na Análise de Redes (incluindo a
Análise de Redes Sociais) focaliza as "relações" (conexões, linhas, laços)
entre "pontos" (vértices, moléculas, terminais de computadores, pessoas,
unidades espaciais, etc.) num espaço qualquer - não necessariamente euclidiano,
como pode ser pensado o "espaço social". O ponto de partida de qualquer análise
de redes (e não apenas social), segundo Barabasi (2003), consiste na
identificação de pontos e relações e, fundamentalmente, na análise de seus
padrões de distribuição em um determinado sistema. Em outras palavras, do ponto
de vista da Análise de Redes, a distribuição de apenas dois parâmetros (pontos
e relações) que compõem um dado sistema deve determinar estruturalmente a
dinâmica e evolução das configurações iniciais, bem como a complexidade e
emergência de inovações (inclusive de novas relações). E mais:
independentemente do conteúdo das relações e dos atributos individuais dos
pontos, deve existir em cada sistema especificado - por sua distribuição-padrão
- uma configuração estrutural invariante (a chamada topologia) passivel de
formalização.
Assim, a partir de um modelo de redes, o analista é capaz de determinar uma
topologia concreta em um dado sistema (social, por exemplo) e identificar as
"regularidades" que o orientam. A Análise de Redes é eminentemente sistêmica,
não apenas pelo reconhecimento dos padrões estruturais das relações, mas também
pela focalização da dinâmica e complexidade esboçadas nas diferentes
distribuições de relações e pontos de um sistema específico. E, além da
dinâmica relacional considerada pela Análise de Redes, assume-se por princípio
que todo e qualquer sistema de relações observa regularidades estruturais,
independentemente de quem ou o que as observa, pensa ou sofre (BARABASI, 2003;
WATTS, 2004).
Agora, imagine o leitor a cadeia ecológica alimentar, um sistema de transporte
aéreo, a rede virtual da Internet, a rede de células nervosas, a rede de
agentes financeiros e de indivíduos no mercado, ou uma rede de relações de
apoio social para idosos em uma pequena comunidade. Estudos contemporâneos
baseados na Análise de Redes têm mostrado que todos esses sistemas se auto-
organizam como uma "rede de relações" que pode ser identificada formalmente
(NEWMAN, 2003). O mais interessante, como mostra Barabasi (2003), é que muitos
desses sistemas, independente de seu conteúdo, podem ser entendidos através de
modelos semelhantes. Até o momento, foram elaborados três modelos de redes
elementares (e suas variações) para todo e qualquer tipo de sistema de
relações: modelos de "redes aleatórias" (random networks); modelos de "redes de
mundo pequeno" (small world networks); e modelos de "redes de escala livre"
(scale free networks), além da família dos chamados modelos híbridos (hibrid
networks). Embora a maior parte das pesquisas feitas em Ciências Sociais trate,
em geral, as redes sociais como modelos de "mundo pequeno" (WATTS, 2004), ainda
não há consenso sobre o tema, mesmo porque a recente "descoberta" dos modelos
de escala livre traz novas perspectivas bastante atraentes para a análise de
redes sociais.
Finalmente, como estudo de caso, aplicou-se o modelo estrutural das redes ao
sistema de migração internacional brasileiro (especificamente à emigração para
os Estados Unidos), na tentativa de compreender, formalmente, o papel
desempenhado pelos "mecanismos intermediários" (agentes e agências de turismo)
nos processos migratórios desse sistema.
Procedimentos metodológicos
A vantagem em estudar as migrações numa perspectiva sistêmica diz respeito às
possibilidades de formalização e compreensão do processo e dinâmica da
causalidade nos fenômenos migratórios. Em outras palavras, a noção de sistema
recuperada por Kritz e Zlotnik (1992) visa a representação adequada dos
processos empíricos por meio de modelos objetivos mais abrangentes, que
identifiquem as relações de causalidade sem perder a dimensão objetiva de
mensuração dos efeitos concretos.
Portanto, o modelo dos sistemas de migração é uma representação possível do
fenômeno empírico observado. Mas, além deste truísmo, deve-se agregar o fato de
que a análise sistêmica rigorosa está baseada nos chamados modelos matemáticos
de grafos operacionalizados pela Análise de Redes propriamente dita (Network
Analysis).
Segundo Barabasi (2003), qualquer análise sistêmica, pautada na avaliação das
relações (vínculos) entre pontos (atores) quaisquer e independentes de seu
contexto, configura em essência um modelo (ou uma representação) estrutural de
redes, cujos fundamentos, por definição, estão estabelecidos na Teoria dos
Grafos e suas leis.2
A formalização de um sistema empírico de migração em modelo estrutural
particular deve observar critérios objetivos e pode seguir três estratégias
metodológicas distintas de modelagem: Modelo de Redes Totais (Full Network
Model, em Soares, 2002a); Modelo de Redes Egocentradas (Egocentered Network
Model, em McCarty, 2001); e Modelo de Grafos (Graph Model, em Fazito, 2005).
Tecnicamente, o modelo de Redes Totais é uma estratégia possível quando se tem
acesso às relações entre todos os vértices/nós constituintes de um sistema
empírico. Em se tratando do estudo das migrações, deve-se tomar cuidado ainda
com a dimensão de abordagem do sistema: se mais ou menos abstrata. Soares
(2002a), por exemplo, analisou a dinâmica migratória das microrregiões de
Governador Valadares e Ipatinga em comparação ao resto do Brasil, considerando
as relações (de reciprocidade) entre todas as microrregiões do país. Dessa
forma, as microrregiões operaram como nós da rede e as trocas migratórias (ou
seja, os fluxos de migrantes) foram tratados como vínculos ou laços apropriados
ao sistema migratório. Nesse caso, o sistema de migração expressa uma rede de
fluxos completa e fechada.3
Num outro exemplo, Fígoli e Fazito (2006) apresentam a análise da rede total de
um grupo de 220 indígenas do Alto Rio Negro durante o processo de migração para
Manaus, ocorrido no final dos anos 70. Nessa situação, as informações coletadas
pelo etnógrafo permitiram a configuração da rede social total de uma comunidade
indígena específica (Tukano) que vivenciou o processo de deslocamento espacial
- os indígenas são os nós da rede, enquanto suas relações de amizade,
parentesco, trabalho e outras constituem os laços que compõem essa rede.
O modelo de Redes Egocentradas é uma estratégia possível quando não se dispõe
de informações sobre todos os nós e laços de um sistema. Nesse caso, adota-se
uma perspectiva micro, centrada na visão particular de um nó ou ator da rede
(Ego). Em trabalho recente, Fazito e Soares (2008), utilizando a proposta
metodológica desenvolvida por Chris McCarty (2002), analisam 50 redes pessoais
de valadarenses retornados dos EUA. Ali, cada indivíduo relata sua experiência
migratória e enumera os vínculos estabelecidos com outros indivíduos durante o
processo da migração internacional. Assim, os autores conseguiram identificar a
topologia (distribuição de nós e laços) das redes de migrantes internacionais
que entraram regular e irregularmente nos EUA, partindo de uma perspectiva
pessoal, centrada na percepção cognitiva do informante sobre o mundo social no
qual se inserem seus contatos pessoais.
Finalmente, o modelo de Grafos é uma estratégia apropriada somente para a
análise exploratória do sistema empírico de migração que, no entanto,
possibilita a identificação objetiva das redes migratórias que compõem um
sistema em sua totalidade.
Em linhas gerais, pode-se dizer que um sistema de migração se define pela
associação e sobreposição de diferentes "redes migratórias": especificamente,
"redes de fluxos" e "redes sociais". Enquanto a rede de fluxos representa a
estrutura topológica bruta e abstrata de um sistema, a rede social compreende a
topologia sensível e correspondente ao contexto histórico-social do qual faz
parte. Enfim, em se tratando de um sistema de migração, embora as redes de
fluxos e social se configurem a partir de pessoas (nós) e suas relações, deve-
se pensar em dimensões analíticas diversas, mas complementares. A rede de
fluxos refere-se ao agregado estatístico da população de indivíduos que se
deslocam entre duas regiões distintas (é o simples somatório dos deslocados que
representam os vínculos entre duas regiões tomadas como nós da rede). Já a rede
social diz respeito não ao agregado, mas sim à estrutura social composta pelas
relações sociais cotidianas entre as diversas pessoas, migrantes e
nãomigrantes, de uma dada comunidade.
O modelo de Grafos (FAZITO, 2005) exemplifica uma estratégia analítica
exploratória para a representação compacta do sistema de migração, pois, por
meio de uma formalização rigorosa, estabelece a abstração dimensional das redes
migratórias e integra, em uma só perspectiva, as redes de fluxos e sociais de
todo o processo. Diferentemente dos modelos anteriores, aqui o nível de
abstração é maior e tem como objetivo fundamental identificar uma topologia
geral, capaz de apontar posições e relações estruturais preponderantes na
configuração do sistema empírico de migração.
Nesse tipo de modelagem, os vértices/nós da rede não devem ser confundidos com
atores sociais concretos (regiões ou pessoas), pois indicam, de fato,
"posições" ocupadas ou latentes dentro dos sistemas empíricos. Os vínculos
(arcos/laços) entre as posições correspondem às relações estruturais possíveis
ou prováveis segundo a natureza do sistema. Este trabalho se concentra sobre os
fundamentos e desdobramentos dessa modelagem para os estudos de migração,
analisados aqui por um estudo de caso (FAZITO, 2005).
Inicialmente, foram selecionados textos da literatura acadêmica sobre a
emigração de brasileiros para os EUA que tratassem dos seguintes temas:
intermediários, agentes e trajetórias dos migrantes; redes sociais e redes
migratórias; reunificação familiar; remessas; retornados; e capital social nas
comunidades de imigrantes internacionais.
Note-se que os temas selecionados privilegiam a dinâmica dos sistemas de
migração e procuram salientar as interações e relações entre os diversos
componentes de um sistema de migração - origem, destino, comunidades de
migrantes e não-migrantes, agentes intermediários na travessia, objetos e
representações do espaço de intermediação (FAZITO, 2005). Assim, o primeiro
passo consistiu na determinação das possíveis posições constitutivas desse
sistema empírico de migração.
Por exemplo, todos os membros familiares, em geral, ocupam uma mesma posição
estrutural4 nas redes pessoais de um emigrante, pois, afinal, são todos seus
parentes. Contudo, pode ocorrer de membros de uma mesma família serem migrantes
retornados e, desse modo, ocuparem outra posição estrutural concorrente na
intermediação - porque, além de serem parentes que podem auxiliar em uma
travessia, são também migrantes retornados, que possuem conhecimento
especializado e têm contatos exclusivos que potencializam a travessia do
emigrante. Assim, esses indivíduos retornados devem ser representados por
vértices (significando posições) diferentes dos membros familiares.
Em uma situação ideal, se fosse possível desagregar as diferentes posições
estruturais ocupadas no mesmo sistema por cada indivíduo, poder-se-ia
identificar com precisão o perfil de cada intermediário (de fato, de todo e
qualquer ator na rede) e verificar sua força relativa, o capital social do ator
e sua posição no sistema. Vale lembrar que a formalização alcançada neste
trabalho impede a compreensão das singularidades de cada ator isoladamente e,
por conseqüência, impossibilita o entendimento, de forma adequada, das relações
entre cada posição, perfil do ator intermediário e padrão concreto dos fluxos
migratórios - esta modelagem propõe apenas uma análise exploratória do sistema
e sua topologia geral.
Na leitura, análise e interpretação de cada texto utilizado, as conexões, laços
ou relações entre cada posição estrutural ocupada foram caracterizados de
acordo com a descrição particular e, posteriormente, formalizados como arcos
entre os vértices. Adotou-se como critério básico para a definição dos arcos o
sentido direcionado do "repasse" de migrantes. Isto é, fez-se a pergunta: "Quem
passa o migrante para quem?/Através de quem o migrante realiza sua travessia?"
Desse modo, utilizou-se como critério para a direção dos arcos apenas a
capacidade de "fazer circular os migrantes". Os problemas desse procedimento
são maiores naqueles estudos de caso em que o foco de análise principal nãoeram
os intermediários e não se encontra uma descrição detalhada das trajetórias dos
migrantes, gerando dados incompletos sobre as posições latentes e ocupadas
pelos atores e suas relações no processo migratório.
Assim, a partir da abstração de estudos de caso constituídos, as redes de
migração foram elaboradas - facultando a determinação das medidas e índices
utilizados neste estudo -, fundamentadas nas análises elementares dos Grafos e,
principalmente, nas análises de redes sociais. Os índices de densidade, coesão
e intermediação fundamentam-se em algoritmos matemáticos específicos, que
buscam avaliar formalmente a natureza, o teor, a qualidade e o volume das
relações entre posições e atores de uma rede (sistema). Portanto, os mesmos
procedimentos técnicos para estabelecimento das medidas nas análises de redes
sociais foram utilizados aqui.5
Deve-se ainda ressaltar que a perspectiva sistêmica aqui adotada, devido à
limitação técnica e ao constrangimento dos dados coletados, é fundamentalmente
uma análise sincrônica. A imposição desse tipo de perspectiva obrigou a
"chapar" redes que se desenvolveram ao longo do tempo, criando problemas de
interpretação a serem devidamente avaliados mais adiante.
É evidente a ausência de estudos sistemáticos e comparativos sobre os
mecanismos intermediários dos sistemas de migração internacional (cf. GOSS;
LINDQUIST, 1995; CASTLES; MILLER, 2003; KRISSMAN, 2005). Talvez a flagrante
exceção seja o trabalho pioneiro de Faist (2000), ao mostrar que as redes
operam como "meso-estruturas", intermediando o deslocamento de migrantes entre
origem e destino. Assim, "ao fornecer uma 'mesoestrutura', a proposta
conceitual persegue uma análise relacional sistemática do processo migratório e
pós-migratório no nível meso. Essa análise concebe os migrantes potenciais
inseridos e constituídos em suas interações, relacionalmente" (FAIST, 2000, p.
59).6
No caso da literatura brasileira sobre as migrações, a situação se mostra ainda
mais crítica e, com exceção de alguns poucos trabalhos sobre a imigração
italiana em fins do século XIX e início do XX (HUTTER, 1972, 1986; BRIGANTTI,
1996), não foram encontrados estudos que focalizassem, particularmente, os
agentes de intermediação dos deslocamentos.
Desse modo, foram necessários critérios específicos de seleção do material
pesquisado e, posteriormente, uma estratégia alternativa de análise comparativa
para replicação do modelo estrutural utilizado na análise de outros 16 estudos
de caso (FAZITO, 2005, cap. 4).
A reconstituição de parte do sistema de migração internacional do Brasil, isto
é, a emigração de brasileiros para os EUA nos últimos 25 anos (e sua
formalização através dos grafos), se deu a partir das informações descritivas
sobre as relações entre migrantes (emigrantes e imigrantes), membros da
comunidade de origem e destino, instituições e trajetos de deslocamento.
Devido à escassez de publicações específicas sobre os intermediários e as
trajetórias migratórias propriamente ditas, concluiu-se que seria melhor, após
rigorosa comparação do material coletado, reunir todos os estudos e informações
adicionais em um único caso generalizado. Portanto, aqui os estudos de caso
conformam, na realidade, um grande mosaico em que as informações sobre os
atores e suas relações se complementam a partir de fontes variadas.
O sistema de migração internacional de brasileiros para os EUA
A particularidade histórica recente dos deslocamentos no Brasil, segundo Brito
(1995, p. 29), deve-se à reestruturação produtiva do sistema capitalista global
que, atualmente, promove o movimento inverso das populações, em relação à
Segunda Revolução Industrial na segunda metade do século XIX.
Contemporaneamente, a tendência observada dos fluxos populacionais
internacionais vai dos países periféricos (como o Brasil) para as nações
centrais do sistema capitalista. E, desse modo, o Brasil tem-se tornado, nos
últimos 20 ou 30 anos, um país de emigrantes internacionais, que buscam, na
mobilidade espacial para os países capitalistas centrais, encontrar também a
sonhada mobilidade social (BRITO, 1995; PATARRA; BAENINGER, 1995; SALES, 1992 e
1995).
Como salientou Sales (1992), o trabalhador brasileiro, nestes últimos 30 anos,
tem, cada vez mais, participado desse processo de deslocamento que se
caracteriza fortemente pela alienação física e social. Deve-se observar o
resultado desse processo na constituição de projetos de deslocamento para
terras estrangeiras, que se inserem em vias alternativas e marginais, tidos
como única maneira de solucionar a miséria material e os conflitos sociais e
simbólicos estabelecidos na vida comunitária do trabalhador.
Assim, atualmente, diversas estratégias de deslocamento foram desenvolvidas em
função do novo contexto das relações internacionais e abriram caminho para a
institucionalização de fluxos cada vez maiores de migrantes clandestinos. Em 16
estudos de caso internacionais analisados por Fazito (2005), as migrações
internacionais que utilizam estratégias clandestinas, associadas às máfias do
tráfico humano, têm se tornado práticas comuns entre os agentes da migração
(SPAAN, 1994; SINGHANETRARENARD, 1992; SPENCER, 1992; CASTRO, 1998; EELENS;
SPECKMANN, 1990).
No caso das emigrações internacionais brasileiras contemporâneas não é
diferente. Como se verá a seguir, a emigração para os EUA segue amplamente esse
padrão internacionalizado da clandestinidade, também responsável pelo reforço
das posições estruturais de atravessadores (brokers) e das redes sociais da
migração (familiares, amizade e de agenciadores) (FAZITO; SOARES, 2008).
A rede migratória para os EUA e seus intermediários
Os fluxos mais significativos da emigração internacional contemporânea no
Brasil são, de fato, aqueles destinados à América do Norte, especialmente aos
Estados Unidos. Embora não haja como identificar com precisão o destino das
trajetórias dos emigrantes brasileiros, por meio das estimativas de imigração
nos países de destino (como o caso de estimativas censitárias e amostrais nos
EUA), é possível estabelecer algumas indicações sobre o volume e a intensidade
dos deslocamentos.
Segundo estimativas do censo norteamericano de 1990, foram encontrados cerca de
95.000 brasileiros residentes nos EUA (MARTES, 2000:47), resultados esses
conservadores, uma vez que não avaliaram a onda de imigrantes ilegais
brasileiros iniciada em fins da década de 80. No censo norte-americano
publicado em 2000, novos números indicam a dificuldade em precisar a quantidade
de brasileiros imigrantes, mencionando-se no mínimo 160.000 e no máximo em
230.000 brasileiros legalizados nos EUA (MITCHELL, 2003:34).
Margolis (1994:42-3), baseando-se em dados do Bureau de Imigração dos EUA,
pesquisas amostrais diversas, fontes da mídia impressa, associações
comunitárias e religiosas e nos consulados brasileiros em território americano,
expressa estimativas mais amplas, inclusive de imigrantes brasileiros ilegais
(overstayers), citando entre 350 mil e 400 mil em meados da década de 90.
Ao comparar os dados do censo norteamericano de 2000 com aqueles coletados pelo
Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Margolis (2003, p. 53) sugere que
as estimativas oficiais norte-americanas são mesmo bastante conservadoras:
enquanto o censo apontava cerca de 200.000 imigrantes brasileiros em solo
americano, o Itamaraty contabilizava algo em torno de 800.000.
Seja como for, quando ponderados esses números com as estimativas mais recentes
e confiáveis da emigração internacional brasileira nos últimos 20 anos
(CARVALHO, 1996; CARVALHO et al., 2000; CARVALHO et al., 2001), verifica-se a
preponderância dos deslocamentos de brasileiros para os EUA.
Segundo Carvalho et al. (2001, p. 249), "os emigrantes, que gravitavam ao redor
de 1.038.000, no período 1986/1991, teriam atingido a marca de pouco mais de,
no máximo, 1.114.000 pessoas no qüinqüênio seguinte". Embora a contagem do
IBGE, em 1996, não tenha cobertura confiável, constatou-se que o Brasil deve
ter perdido cerca de 1.800.000 pessoas em toda a década de 90, indicando a
constância dos deslocamentos para o exterior do país e, até certo ponto, um
aumento dos fluxos emigratórios.
Como mostram os diversos estudos da literatura especializada sobre as
emigrações de brasileiros para os EUA nos últimos 20 anos, também existem
singularidades na distribuição, organização e composição desses fluxos.
Notadamente, a concentração de mineiros, paulistas, cariocas, goianos e, mais
recentemente, catarinenses no contingente emigrante - além de a distribuição de
sexos ter se tornado cada vez mais equilibrada - tem chamado a atenção dos
pesquisadores da migração (SALES, 1995 e 1999; MARTES, 2000 e 2003; SOARES,
2002b; GOZA, 1992, 1994 e 2003; MARGOLIS, 1994 e 2003; MITCHELL, 2003; ASSIS,
2003; RIBEIRO, 1999).
Parece que a concentração de indivíduos conterrâneos, ou seja, procedentes do
mesmo estado e, com freqüência, da mesma microrregião brasileira - como atestam
os casos marcantes de valadarenses (SOARES, 2002b), goianos (RIBEIRO, 1999) e
criciumenses (ASSIS, 2003) -, tanto nas partidas e chegadas, quanto nos
trajetos e, principalmente, na fixação junto às comunidades imigrantes nos EUA,
mostra intrinsecamente a preponderância ativa das redes sociais da migração
(TILLY, 1990; MASSEY et al., 1987; SOARES, 2002a e 2003; FAZITO, 2002).
Desse modo, deve-se atentar para a participação dos mecanismos intermediários
(agentes, atravessadores, recrutadores) nos projetos migratórios desses
brasileiros que desejam viver nos EUA, pois cumprem papel decisivo na
realização do trajeto físico e social do migrante. Dir-se-ia que não se migra
simplesmente porque se deseja migrar. Para o deslocamento, qualquer indivíduo
deve estar em condições estruturais, ou seja, ocupar uma posição estrutural no
sistema que lhe possibilite migrar.
Especialmente a partir do início da década de 90, quando as políticas de
imigração norte-americanas tornaram-se mais rigorosas e o Bureau de Imigração
dos EUA endureceu os critérios de entrada para brasileiros, as estratégias até
então utilizadas pela maior parte dos emigrantes (basicamente através da
obtenção de vistos de turista nos consulados americanos) tiveram que mudar de
maneira radical. A imigração ilegal aumentou sensivelmente e, por conseqüência,
as rotas da clandestinidade começaram a fazer parte das alternativas da maioria
dos brasileiros que desejavam entrar nos EUA (MARGOLIS, 1994; SALES, 1999;
FAZITO; SOARES, 2008).
Há grande recorrência nos relatos dos emigrantes brasileiros quanto às
estratégias adotadas para entrada em território americano. Quando os vistos de
turista são negados, muitas vezes depois de 3 ou 4 tentativas em diferentes
consulados, os brasileiros procuram acionar suas redes pessoais em busca de
alternativas mais sofisticadas: viagem clandestina em navios cargueiros;
travessia com diversas escalas por vários países europeus ou latino-americanos;
travessia em grupos pela fronteira do México, auxiliados por coiotes;
falsificação de passaporte e outros documentos para facilitação do desembarque
nos portos de entrada nos EUA (SALES, 1999, p.75 e ss.; SOARES, 2002; FAZITO;
SOARES, 2008).
Desse modo, o sistema de emigração internacional para os Estados Unidos gerou
uma verdadeira "indústria do deslocamento", que, alicerçada e alimentada pelas
redes pessoais dos migrantes (inclusive retornados e imigrantes, semelhante ao
caso das empresas dekasseguis no Japão), ampliouse paulatinamente e consolidou
esquemas mais complexos e obscuros.
Na atualidade, muitos migrantes viajam por meio de agências de turismo
especializadas na emigração clandestina, ou, ainda, utilizam agentes (brokers)
conectados às redes de tráfico humano, falsificação de documentos e remessas
ilegais de dinheiro. Muitas agências e agentes parecem, também, se conectar
transnacionalmente a outras redes mafiosas de tráfico, como os business-coyotes
mexicanos (CASTRO, 1998; SOARES, 2002b; SALES, 1999; GOZA, 2003).
Segundo Margolis (1994, p. 92),
os brasileiros pagam em torno de 5 mil dólares por uma passagem aérea
para a Cidade do México, pelo transporte até a fronteira, pela
cobertura de um coiote para cruzá-la, pela viagem para uma cidade da
fronteira americana, e por uma passagem aérea só de ida da cidade da
fronteira até o destino final. Este era o custo real de uma viagem
oferecida por uma agência de Governador Valadares àqueles que não
conseguiam obter vistos de turista para os Estados Unidos.
Porém, como ressaltou Goza (2003), os emigrantes que utilizam essas rotas mais
sofisticadas e caras são, via de regra, em sua maioria, indivíduos provenientes
da classe média-baixa brasileira, em especial o caso dos valadarenses. É neste
sentido que as redes sociais dos emigrantes tornam-se de grande importância,
pois são responsáveis pelo apoio social e financeiro no momento da contratação
dos serviços clandestinos das agências de turismo e seus brokers.
Sobre o caso específico dos valadarenses, Goza (2003, p. 275) afirma que
as agências também estavam quase sempre dispostas a trabalhar com
aqueles que não tinham condições de pagar imediatamente por uma
passagem internacional - com base no fato de que os parentes destes
candidatos tinham recursos financeiros suficientes e estavam
dispostos a reembolsar estas agências se o pagamento não fosse
recebido no tempo certo. Freqüentemente, isso implicava pagar taxas
de juros durante o período de empréstimo. Porém, algumas famílias
faziam sacrifícios ainda maiores para permitirem que um de seus
membros pudesse emigrar, e, ocasionalmente, vendiam veículos, terras,
animais da fazenda, televisões e/ou geladeiras para financiar estas
viagens. Para alguns emigrantes, a viagem teria sido completamente
impossível se não tivessem sido capazes de receber esse apoio
financeiro de suas famílias.
Nas cidades americanas com maior concentração de brasileiros, a presença de
mineiros (especialmente valadarenses) e suas redes sociais é fato marcante.7
Focalizando a história recente da emigração na cidade de Governador Valadares,
pode-se observar como as redes sociais no processo migratório funcionam como
mecanismos poderosos de sustentação e consolidação dos fluxos, atestando as
considerações de Massey et al. (1987).
Ao relacionar os fluxos de emigração internacional da microrregião valadarense
com as evidências mais concretas das redes sociais dos emigrantes e agentes
intermediários de Governador Valadares, Soares (2002b) mostra como a
mobilização dos deslocamentos está fortemente condicionada às estruturas
reticulares.
Interessante notar que, ao final da década de 80, as agências de turismo (e
seus agentes) em Governador Valadares começaram a se tornar cada vez mais
presentes no cotidiano da cidade e a tomar parte nas redes pessoais dos
emigrantes. Além de intermediar emigrantes que não são capazes de conseguir o
visto de turista (ou outro tipo de visto adequado à entrada nos EUA), as
agências de turismo também passaram a ocupar o espaço de financeiras,
falsificadoras de documentos e agenciadoras de remessa de moeda estrangeira
(SOARES, 2002b; GOZA, 2003; MARGOLIS, 1994).
As agências e os agentes em Governador Valadares, diante da lucratividade da
"indústria do deslocamento", cresceram seguindo passos semelhantes aos ativados
pelos mecanismos intermediários (brokers) de outros sistemas migratórios
internacionais (EELENS; BECKMANN, 1990; SINGHANETRA-RENARD, 1992; SPAAN, 1994).
As agências ocuparam posições estruturais exclusivas no sistema da emigração
internacional brasileira; pode-se dizer, uma ocupação necessária e inexorável.
Tanto assim que, de maneira geral, esses mecanismos de intermediação
sofisticados e bastante especializados emergiram, num momento relativamente
posterior aos grandes fluxos de emigração, em regiões centrais do contexto
migratório brasileiro.
Em outras palavras, a topologia específica desse sistema de migração leva os
atores concretos (por exemplo, agências de turismo e agentes) a ocuparem
determinadas posições latentes disponíveis. A partir do momento em que algum
ator específico torna-se capaz de articular sua qualidade social concreta à
força relativa da posição estrutural, esse intermediário passa a capitalizar
maior poder em relação aos demais. Portanto, a ocupação das posições
estruturais não depende apenas do "desejo" de determinados atores, pois é o
efeito de uma convergência estrutural, em que outros atores são incapazes ou,
pelo menos, não objetivam a ocupação de uma posição específica.
Percebe-se que, após a consolidação dos fluxos emigratórios em Governador
Valadares, no final dos anos 80, coincidentemente com a mudança da política
imigratória em relação aos brasileiros e o conseqüente aumento da
clandestinidade, a rede das agências de turismo, falsificação de documentos,
remessas de dinheiro, agentes, atravessadores e coiotes expandiu-se e
consolidou-se definitivamente, já em meados dos anos 90 (SOARES, 2002b).
Deve-se considerar, ainda, o reforço comunitário desses laços de
clandestinidade a partir das redes pessoais dos migrantes, pois, como lembra
Goza (2003, p. 274), em Governador Valadares, vários agentes e agências de
turismo iniciaram seus negócios por meio de migrantes retornados, que
perceberam no tráfico ilegal de pessoas, através da fronteira americana, um
ótimo empreendimento comercial - aliás, como mostram diversos estudos de caso,
há uma forte tendência empírica de migrantes retornados transformarem-se em
poderosos agenciadores da emigração clandestina (cf. EELENS; BECKMANN, 1990;
SINGHANETRA-RENARD, 1992; SPAAN, 1994; MARTIN, 1998; CASTRO, 1998; GOZA, 2003).
Como afirma Soares (2002b, p. 114),
a lucratividade8 gerada por essa prática de intermediar tanto o fluxo
de emigrantes internacionais quanto o de moeda estrangeira manifesta-
se pelo progressivo aumento do número de agências de turismo em
Valadares. A distribuição dessas agências de acordo com o surgimento
no tempo (...) revela a coincidência entre o período em que se
estabelece o maior número delas e o período em que a emigração foi
mais intensa: 60% das agências surgiram entre 1985 e 1989, incluindo
os extremos, e 43,6% dos emigrantes saíram de Valadares nesse mesmo
recorte temporal. Em 1991, Valadares, que abrigava cerca de 210 mil
habitantes, contava com o total de 45 agências de turismo".
Já em março de 2003, em uma pesquisa com o banco de dados da Secretaria
Municipal da Fazenda de Governador Valadares, contabilizou-se a existência de
aproximadamente 70 agências de turismo em operação.9 Portanto, deve-se
considerar a pertinência da atuação das agências de turismo (e seus esquemas
reticulares) para a compreensão da estrutura do sistema de emigração brasileiro
contemporâneo - pois, como tem sido noticiado pela imprensa brasileira nos
últimos dois anos, segundo investigação da Polícia Federal, indícios sugerem
que a rede ilegal das agências de Valadares se estende a outras cidades
brasileiras, como Vitória, Rio de Janeiro e Poços de Caldas.
Além da intermediação das agências, outras estratégias de deslocamento,
complementares ou não, têm sido demandadas pelos emigrantes brasileiros. Martes
(1999 e 2000) estudou a presença das igrejas nas comunidades de imigrantes
brasileiros na região de Boston, nos Estados Unidos. Segundo a autora, as
igrejas, com destaque para as chamadas igrejas evangélicas, poderiam operar
como recrutadoras e incentivadoras da emigração de brasileiros para os EUA,
pois sua organização institucional, seguindo princípios expansionistas,
exigiria a participação ativa e dinâmica de pastores e pregadores da fé
(MARTES, 2000, p. 113).
Independente da existência ou consolidação desse canal de emigração, o fato
importante é que, como mostra Martes (1999, p. 108), as igrejas brasileiras nos
Estados Unidos fornecem apoio social aos imigrantes e oferecem uma espécie de
"localização" simbólica e concreta no destino, ao integrarem os imigrantes no
"mundo do trabalho".
Por fim, embora não seja possível precisar os fluxos de emigrantes brasileiros
pertencentes às classes média e alta, que se fixam nos Estados Unidos por meio
de contratos de trabalho ou estudo (especificamente o que poderia ser
identificado como uma forma de braindrain brasileiro), pode-se dizer que uma
parcela, talvez minoritária (embora cada vez maior na última década),10 de
emigrantes utiliza rotas mais tradicionais e legalizadas de deslocamento.
Contudo, mesmo nessas estratégias, encontram-se as redes pessoais em ação.
Portanto, ao sintetizar as posições estruturais estabelecidas nesse complexo
sistema de migração internacional, encontraremos as redes pessoais (baseadas
nos laços familiares e de amizade) ocupando espaços fundamentais da
intermediação - assim como podem também ser observadas em outros sistemas
migratórios, especialmente entre os dekasseguis (cf. FAZITO, 2005, cap. 5).
Análise do modelo estrutural da emigração de brasileiros para os EUA
A partir da revisão da literatura especializada sobre as migrações de
brasileiros para os EUA, realizou-se a configuração de um sistema de migração
internacional. Deve-se deixar claro que o sistema migratório reconstituído é um
modelo de referência baseado nos dados empíricos coligidos pela literatura
consultada. As posições estruturais foram determinadas tendo como base os
trajetos percorridos pelos migrantes brasileiros para chegarem aos EUA. Em
síntese, elas podem ser enumeradas como: 1. emigrantes; 2. familiares e amigos
(no Brasil); 3. familiares e amigos (nos EUA); 4. agentes independentes
(recrutadores/brokers); 5. agências de turismo; 6. falsificadores (brokers para
documentos); 7. retornados; 8. igrejas (na comunidade de imigrantes); 9.
pastores; 10. coiotes (mexicanos). Aqui, assume-se, por hipótese, que essas dez
posições estruturais seriam suficientes para descrever os aspectos topológicos
desse sistema de migração.
Seguindo linhas gerais na interpretação das informações contidas nos estudos
analisados até aqui, pode-se dizer que o emigrante seria capaz de seguir três
estratégias alternativas de deslocamento (que podem ser visualizadas no
sociograma da Figura_1):

1. se o emigrante conseguisse o visto de turista imediatamente, então
seria capaz de viajar, entrar e fixar-se em território americano,
necessitando apenas contatar a agência de turismo na saída do Brasil
e os familiares ou amigos no destino;
2. se o emigrante não fosse capaz de adquirir o visto de turista,
poderia lançar mão de sua rede pessoal no Brasil (familiares e
amigos) e, posteriormente (ou, de imediato, mesmo sem contatos
pessoais), optar pelo suporte de um agente independente (recrutador
especializado ou retornado que deve, necessariamente, fazer parte do
círculo social do emigrante), que, por sua vez, caso necessário,
acionaria o agente da falsificação, a agência de turismo e,
finalmente, colocaria o emigrante em contato com sua rede pessoal no
destino - nessa alternativa deve-se considerar ainda a possibilidade
de entrada via fronteira mexicana, onde o coiote de fronteira seria
acionado pelos agentes brasileiros;
3. o emigrante poderia utilizar a rota instituída pelas igrejas da
comunidade imigrante, acionando um pastor evangélico, seja de
imediato, seja através dos laços de sua rede pessoal. O pastor
poderia acionar sua rede pessoal e profissional, utilizaria a
intermediação das agências de turismo (ou mesmo de agentes
especializados, caso não obtivesse visto oficial) para a travessia e,
finalmente, no destino, colocaria o emigrante em contato com a igreja
da comunidade - ainda, nesse caso, o imigrante, junto de sua rede
pessoal no destino, poderia entrar em contato com a igreja.
Essas três estratégias, de fato, baseiam-se em casos reais diversos de pessoas
que decidem pela migração para os EUA. Por exemplo, a primeira, em geral, é
utilizada por pessoas que possuem maior capital humano e conseguem facilmente
um visto de entrada para os EUA. Entram como turistas, estudantes ou
trabalhadores temporários e, através de suas redes pessoais, são capazes,
posteriormente, de se estabelecerem definitivamente, seja regular ou
irregularmente. A segunda estratégia é basicamente utilizada por migrantes que
têm o visto negado e tentam a trajetória clandestina (de fato, a formalização
desta estratégia foi feita a partir dos relatos de migrantes brasileiros
irregulares na região de Governador Valadares). E a terceira está ligada
particularmente à estrutura das organizações religiosas estabelecidas no Brasil
e EUA, segundo uma lógica transnacional (MARTES, 1999).
A seguir, são analisadas as propriedades formais do sociograma, que corresponde
apenas à visualização de uma rede ou sistema (neste caso, um sistema típico-
ideal das migrações internacionais de brasileiros para os EUA), que pode se
fundamentar numa lógica matemática dos algoritmos utilizados para sua
representação. Aqui, a análise do sociograma foi baseada em algumas medidas da
Análise de Redes Sociais (densidade, coesão, centralidade e intermediação),
que, estudadas em conjunto, identificam a disposição estrutural dos laços e
pontos em uma rede, ou seja, o padrão estrutural de distribuição dos parâmetros
fundamentais.
A medida de densidade informa a proporção de "laços efetivos" entre "laços
possíveis". Quanto mais próxima de 1, mais densa será a rede. A densidade é uma
medida fundamental, pois indica a variação da distribuição de pontos e laços
num sistema de relações. Quanto mais densa (próxima de 1), mais uniforme será o
padrão de contatos entre os pontos (atores) de um sistema. Uma densidade baixa
(inferior a 0,2, cf. Wasserman e Faust, 1994, cap.4) indica uma rede dispersa e
com baixa coesão interna, com proeminência de posições isoladas e baixo poder
de "arregimentação". Um sistema migratório com baixa densidade exibiria uma
tendência elevada para o deslocamento irregular controlado por agenciadores
mais isolados.
A medida de coesão baseia-se na ponderação das distâncias internas da rede,
isto é, o número de passos efetivos (laços necessários para conectar duas
posições ou atores) entre cada par de atores da rede. Sistemas com distâncias
elevadas sugerem fraca coesão interna e maior isolamento das posições/atores. A
medida de coesão próxima de 1 indica um sistema extremamente integrado, em que
todos estão ligados diretamente a todos os outros. Contudo, as redes empíricas
dificilmente mostram uma coesão acima de 0,5 e, em geral, os sistemas
apresentam uma coesão média, em torno de 0,3 (WASSERMAN; FAUST, 1994, cap. 4).
Para o sistema de migração aqui estudado, encontrou-se uma densidade média de
0,24 e coesão relativamente alta de 0,32, ou seja, uma densidade baixa para
média e uma coesão média. Em linhas gerais, esses dois algoritmos indicam um
sistema pouco homogêneo e bastante esparso, em que os indivíduos e suas
posições permanecem isolados da maior parte dos outros. De certo modo, segundo
uma perspectiva relacional, esse fato evidencia a dependência nas relações
entre determinadas posições, bem como o fortalecimento daquelas posições/
indivíduos que se localizam mais isolados, mas capazes de conectar grupos de
posições diversas - por exemplo, o caso dos agentes que conhecem coiotes
mexicanos na fronteira com os EUA.
Mesmo que a densidade e coesão da rede, em princípio, favoreçam estruturalmente
alguma posição para intermediação dos migrantes (especialmente as posições
ocupadas pelas famílias e amigos, e retornados), verifica-se um padrão de
intermediação disperso, pouco concentrado formalmente.
Por conseqüência, o sistema parece mesmo ser mais difuso e esparso, com baixa
tendência à aglomeração em torno das posições e maior heterogeneidade quanto à
distribuição da força dos intermediários, isto é, diversos intermediários se
alternam na exploração dos fluxos de emigrantes.11
A relação entre as posições estruturais garante aos atores, na prática, a
possibilidade de se conectarem facilmente e de forma estável. Nesse sentido, o
sistema pode se tornar mais dinâmico, flexível e ativo, pois os atores
(emigrantes, intermediários e receptores) podem utilizar diversas estratégias
(de conexão) ao mesmo tempo. Contudo, devese ter em mente que esta é uma
possibilidade formal, dada a topologia do sistema. Pode-se dizer, portanto, que
a ocupação de uma determinada posição estrutural "facilita" ou "limita" a ação
concreta de determinado ator na rede social da migração.
Na análise estrutural das posições intermediárias desse sistema, verifica-se
uma proeminência relativa da posição ocupada pelas agências de turismo. Embora
o sistema de intermediação seja mais difuso e esparso, gerando instabilidade e
competição mais acirrada entre os diversos atores em suas posições, os
resultados encontrados pelos algoritmos de rede indicam sistematicamente as
agências de turismo como ocupantes da posição mais privilegiada (formalmente)
para a intermediação.
Para isso foram utilizadas aqui as medidas de centralidade e intermediação, que
indicam o "grau de atividade" de uma rede, ou seja, a capacidade de atores/
posições se conectarem direta ou indiretamente a outros. Quanto mais próximo de
100%, mais centralizado será um sistema, mostrando variação estrutural extrema.
O algoritmo dessa medida baseia-se em um modelo geométrico da "rede-estrela",
que indica justamente a variação extrema, ou seja, uma posição central (A) e
outras quatro posições (B, C, D, E,) periféricas ligadas diretamente e apenas à
A. Nesse caso, A tem um índice de 100% e toda a rede converge para essa
posição, enquanto as demais posições estão no outro extremo, com uma
centralidade de 25% (se conectam diretamente apenas a uma entre quatro posições
possíveis). A medida de intermediação deriva do mesmo algoritmo e considera não
a relação direta entre as posições, mas sim a capacidade de uma posição A
"colocar em contato" posições não ligadas diretamente.
A análise do grau de centralidade mostra que as agências, seguidas pelos
retornados e agentes recrutadores, concentram os fluxos das relações com os
emigrantes. Quando comparados os valores de intermediação de fluxos (grau de
centralidade de intermediação),12 mais uma vez as agências sobressaem com um
grau de intermediação acima das demais posições (7%).
Embora esse sistema de migração não apresente posições estruturais formalmente
privilegiadas (aqui chamados vértices-obstáculo ideais),13 pode-se dizer que, a
partir da convergência entre a força estrutural presente em uma posição de
intermediação e a ação concreta exercida por determinado ator, as agências de
turismo são os atores empíricos mais efetivos na intermediação dos emigrantes,
pois, além de serem formalmente os mais proeminentes (como mostrado na análise
anterior - maiores índices de centralidade e intermediação), empiricamente
concentram volume de contato e têm grande visibilidade entre os migrantes
potenciais (como pode ser constatado em trabalhos de campo em Governador
Valadares e Poços de Caldas).
Assim, as agências de turismo deveriam ser entendidas apenas como atores
concretos mais bem sucedidos na combinação de posições estruturais de
intermediação ocupadas e ação prática efetiva no "repasse" de pessoas.
Ao se analisar o sociograma por meio da simulação dos vértices-obstáculo e
blocos estruturais (quadro inferior da Figura_1), verifica-se que, nesse
sistema, a composição das posições estruturais ocupadas pelas agências de
turismo, pelo pastor, pelos retornados e pela rede familiar e de amizade de
brasileiros em uma unidade corresponderia a um bloco de intermediação do
sistema, isolando origem e destino. É preciso notar que a posição dos agentes,
coiotes e falsificadores depende das agências de turismo, enquanto as redes
familiares e de amizade no Brasil e nos EUA também dependem das posições
intermediárias ocupadas por pastores, retornados e agências - fato que reforça
a posição de intermediação ocupada pelas agências de turismo.
Nesse sentido, seria possível acreditar que o poder de intermediação, mesmo que
formalmente limitado, concentra-se primeiro nas mãos das agências de turismo,
seguidas pelos pastores (na realidade, um "poder local" nesse sistema, visto
que está restrito aos imigrantes adeptos de uma "Igreja" particular) e pelos
retornados brasileiros (brokers capazes de competir mais acirradamente com as
agências de turismo - fenômeno que se confirma e se reforça através dos relatos
sobre retornados, que montam suas próprias agências em Governador Valadares -
ver Goza, 2003).
Considerações finais
Como procurou-se mostrar até aqui, a posição de intermediação no sistema de
emigração para os EUA, assim como todos os sistemas de migração em geral, deve
ser uma prerrogativa formal relativa que, em larga medida, independe dos
processos empíricos de migração (FAZITO, 2005). Em outras palavras, a
combinação ou sobreposição do sistema empírico com suas relações de ordem
formal pode ocorrer ou não. Porém, se tal sobreposição ocorre, então ela indica
atores posicionados mais vantajosamente do que outros e, nesse sentido,
empiricamente mais poderosos e monopolistas dos fluxos do que outros.
Portanto, a análise estrutural poderá mostrar que, mesmo se não existissem
agências de turismo capazes de ocupar com sucesso a posição de intermediação
nesse sistema de migração, cedo ou tarde outros atores conquistariam esse
espaço - dados os constrangimentos formais da estrutura reticular (SOARES,
2002a; FAZITO, 2005).
No caso das agências, sua preponderância efetiva parece emergir de uma
coincidência estrutural e empírica no curso histórico dos deslocamentos
brasileiros: elevação da demanda emigratória a partir de meados da década de
80; intensificação da política de imigração norte-americana favorecendo a
clandestinidade das trajetórias; e consolidação das redes sociais dos
emigrantes (especialmente os primeiros retornados, que se tornaram empresários
das agências de turismo).
Porém, é ainda necessário promover a coleta de dados empíricos que dêem maior
suporte às possibilidades teoricamente aventadas neste trabalho. Isto é,
parece-nos necessário comprovar a análise exploratória aqui esboçada através de
uma nova abordagem que dê conta dos microfundamentos das redes sociais da
migração - este trabalho concentrou-se basicamente na dimensão macroestrutural
das relações entre posições estruturais de um sistema empírico de migração, e
ganharia mais com a agregação da dimensão microestrutural.
Finalmente, reforça-se que esta tentativa de análise estrutural pode ser uma
alternativa promissora, mas que ainda merece maiores investimentos. Contudo, a
descrição do sistema de emigração de brasileiros para os EUA, por meio da
análise exploratória, sugere que as agências de turismo possam exercer, de fato
(mais que formalmente), uma posição de intermediação dominante - especialmente
reforçada pela disposição estrutural geral mais fraca das outras posições
relativas do sistema. Em outras palavras, a força das agências, somada ao
reflexo da debilidade dos outros intermediários e atores do sistema, pode
tornar mais efetivo o constrangimento formal associado a uma posição ocupada
concretamente; e isso parece ser uma importante observação, necessária à melhor
compreensão dos fluxos de emigrantes para os EUA.