As cidades e a classe criativa no Brasil: diferenças espaciais na distribuição
de indivíduos qualificados nos municípios brasileiros
Introdução
O desenvolvimento regional pode ser analisado a partir de diversas abordagens e
perspectivas (NEARY, 2001; SCOTT, 2004), entre as quais inclui-se aquela que
ressalta que os sistemas produtivos no capitalismo contemporâneo focam-se, cada
vez mais, no processamento de informações e símbolos e em aspectos gerenciais
para serviços culturais. Portanto, segundo essa perspectiva, estudos regionais
deveriam incorporar aspectos econômicos e culturais conjuntamente. Assim,
análises que tratam da performance produtiva espacial ou da produtividade e
crescimento regionais deveriam ser abordadas a partir do estudo da relação
entre esses dois aspectos, com a cooperação e síntese de estudos da geografia
econômica e da geografia cultural (SCOTT, 2004).
Seguindo essa perspectiva, um importante fator em estudos sobre desenvolvimento
e diversidade regionais seria a distribuição espacial de capital humano e de
indivíduos criativos1 (FLORIDA, 2002a). Como destacado no livro de Jacobs
(2001), as cidades são decisivas na atração, aglomeração e mobilização de
pessoas criativas. O ponto-chave para o crescimento e desenvolvimento de
cidades e de regiões seria o aumento na produtividade associado com a
aglomeração de capital humano ou de pessoas qualificadas e criativas. Desta
maneira, a habilidade de um local em produzir e atrair pessoas criativas seria
o fator central no desenvolvimento regional (FLORIDA, 2002a).
São muitos os fatores que aumentam ou diminuem a atratividade relativa de uma
região em comparação às demais, sendo que os fatores econômicos são
considerados os mais importantes (GOLGHER, 2004). Entre estes, destacam-se as
diferenças de salários nas várias regiões, as possibilidades diferenciadas de
obtenção de empregos, o custo variável de moradia e de vida, a maior presença
de empregos na indústria, etc. Apesar do predomínio dos fatores econômicos na
atratividade relativa regional, variáveis não-econômicas também são
importantes, principalmente em países do Primeiro Mundo e para as camadas de
maior renda e escolaridade em países em desenvolvimento. Estas variáveis não-
pecuniárias apresentam importância cada vez maior na formação dos fluxos de
migrantes qualificados. A busca por locais com mais amenidades urbanas, tais
como aqueles que apresentam melhores condições climáticas, menores níveis de
criminalidade, melhores oportunidades de lazer, menores níveis de poluição,
menos congestionamento de tráfego, melhores condições de moradia, etc.
(GOLGHER, 2004; FLORIDA, 2002b), seria um fator decisivo para pessoas
qualificadas, criativas e com alta escolaridade.
Além dos fatores "tradicionais" mencionados, que tornam um local mais atraente
para pessoas criativas e qualificadas, Florida (2002a) aponta outros que também
seriam relevantes. Por exemplo, Florida (2002b) discute a importância de uma
sociedade vibrante na atração de talentos. A hipótese do autor é que a presença
de um grande contingente de pessoas que trabalham em atividades relacionadas ao
entretenimento forma uma atmosfera favorável à atração de indivíduos talentosos
e criativos, que, por sua vez, promovem atividades de grande valor agregado e
indústrias de alta tecnologia.
Assim, atrair pessoas criativas e qualificadas seria a política mais eficaz de
desenvolvimento regional. Regiões com melhores níveis de qualidade de vida,
atividades culturais mais desenvolvidas, sociedade mais diversificada2 e vida
social mais vibrante apresentariam uma tendência a atrair pessoas qualificadas
e criativas. Esse poolde capital humano seria o ponto principal para o
desenvolvimento e crescimento regionais e o setor cultural seria decisivo na
formação de pólos de desenvolvimento espacial (NEW ENGLAND COUNCIL, 2000).
Como discutido anteriormente, dada a importância da distribuição de capital
humano para o desenvolvimento regional, este texto tem como principal objetivo
fazer uma análise empírica sobre a distribuição de indivíduos qualificados nos
municípios brasileiros. Para tanto, são confeccionados vários indicadores,
alguns baseados na metodologia empregada em Florida (2002a, 2002b e 2005), com
a utilização dos microdados do Censo Demográfico de 2000. Esses são na ordem em
que aparecem no texto: proporção de trabalhadores no setor criativo; índice de
qualificação superior; índice de qualificação de pós-graduação; índice de
qualificação técnica superior; índice de qualificação técnica de pós-graduação;
índice síntese; índice de alta tecnologia bruto; índice de alta tecnologia
relativo; e índice de entretenimento.
Tendo como base esses indicadores, foram feitos alguns estudos, como será
detalhado a seguir, que buscaram compreender como se distribuíam os indivíduos
qualificados nos municípios brasileiros. Para tanto, esse artigo foi dividido
em cinco partes, incluindo essa introdução. A seguinte apresenta uma análise
descritiva desses diversos indicadores. Posteriormente, analisam-se os
municípios mais populosos e aqueles com maior concentração de pessoas
qualificadas, a partir da técnica multivariada de aglomerados. O objetivo é
classificar esses municípios com relação a algumas características, traçando um
perfil de cada um deles. Depois disso, discutem-se os dados de alguns destes
indicadores a partir de regressões múltiplas MQO, com o objetivo de determinar
algumas das variáveis que explicam a heterogeneidade espacial da distribuição
de indivíduos qualificados. Além disso, procura-se testar a hipótese de
Florida, que sugere que sociedades mais vibrantes tendem a concentrar
indivíduos mais qualificados. Por fim, são apresentadas as conclusões do
trabalho.
Análise descritiva dos dados para municípios no Brasil
Como a fonte de dados utilizada - Censo Demográfico de 2000 - possui uma
amostra bastante grande, aproximadamente 20 milhões de observações para todo o
país, podem ser confeccionados vários indicadores para municípios. Entretanto,
para alguns deles, principalmente para municípios com pequena população, deve-
se ter certa cautela na análise de dados, como será discutido caso a caso.
São três os objetivos principais na confecção desses indicadores. O primeiro
deles é replicar para o Brasil parte do que foi feito por Florida para outras
regiões (FLORIDA, 2002a, 2002b, 2005; FLORIDA; TINAGLI, 2004). Com esse
intuito, são adaptados para o caso brasileiro alguns dos indicadores utilizados
por esses autores, que são denominados aqui como proporção de trabalhadores no
setor criativo e índice de qualificação superior. O segundo objetivo é estender
essa análise sobre distribuição de indivíduos qualificados com a criação de
novos indicadores, também citados anteriormente, e obtidos a partir dos
microdados do Censo Demográfico de 2000. Por fim, pretende-se testar, para o
Brasil, a hipótese feita por Florida (2002b), na qual regiões com uma atmosfera
mais vibrante em termos de entretenimento seriam muito atraentes com relação à
qualidade de vida, o que teria impacto marcante na atração de indivíduos
qualificados e criativos. Com esse intuito, o índice de entretenimento
apresentado por Florida (2002a, 2002b, 2005) é adaptado para o caso brasileiro.
Porém, antes da discussão dos resultados dos diversos indicadores, segue uma
breve descrição de cada um deles, na mesma ordem em que aparecem no restante do
texto.
Definição dos indicadores
Proporção de trabalhadores no setor criativo- Esse indicador é baseado e
semelhante ao utilizado por Florida (2005), sendo uma adaptação para os dados
brasileiros a partir da Classificação Brasileira de Ocupações, como descrito no
Censo Demográfico de 2000 (IBGE, 2000). Esse índice corresponde à proporção de
trabalhadores em ocupações classificadas como criativas: membros superiores do
poder público; dirigentes de organizações de interesse público e de empresas e
gerentes; e profissionais das ciências e das artes. São excluídas as seguintes
ocupações: técnicos de nível médio; trabalhadores de serviços administrativos;
trabalhadores dos serviços; vendedores em lojas e mercados; trabalhadores
agropecuários, florestais, de caça e de pesca; trabalhadores da produção de
bens e serviços industriais; trabalhadores de reparação e manutenção; e membros
das forças armadas, policiais e bombeiros militares. O termo setor criativo
apresenta limitações e imperfeições. Entretanto, para que uma comparabilidade
fosse possível com os estudos de Florida (2002a, 2002b, 2005), utiliza-se a
mesma definição e nomenclatura deste autor.
Índice de qualificação superior- Proporção de pessoas com nível superior ou
mais de escolaridade. Esses indivíduos correspondem aos não-estudantes com
nível superior e/ou com mestrado/doutorado e aos estudantes em algum desses
dois níveis. Esse indicador é semelhante ao utilizado por Florida (2005) e é
confeccionado para replicar parte das análises desse autor.
Índice de qualificação de pós-graduação -Proporção de não-estudantes com
mestrado/doutorado ou de estudantes cursando um desses níveis. Esse indicador é
uma proxipara a capacidade de inovação em uma localidade diretamente
relacionada a indivíduos altamente qualificados.
Índice de qualificação técnica superior- Proporção de trabalhadores com nível
superior em ocupações classificadas como: profissionais policientíficos; das
ciências exatas, físicas e da engenharia; ou das ciências biológicas, da saúde
e afins. Ressalte-se que esse indicador e o próximo não incluem as pessoas que
tinham como atividade principal o magistério superior. Esse indicador procura
captar a capacidade de inovação técnica na sociedade não diretamente inserida
nas instituições de ensino de nível superior do país.
Índice de qualificação técnica de pós-graduação- Proporção de trabalhadores com
mestrado ou doutorado em ocupações classificadas como: profissionais
policientíficos; das ciências exatas, físicas e da engenharia; ou das ciências
biológicas, da saúde e afins. Esse indicador procura ser uma proxipara a
presença de trabalhadores altamente qualificados em atividades técnicas da
indústria e serviços não ligadas diretamente ao magistério superior.
Índice síntese -Os indicadores anteriormente descritos apresentam correlações
positivas e significativas entre si, como será discutido a seguir, e são
combinados em um único indicador. Como os valores de cada um desses cinco
indicadores variam muito, para que todos tivessem o mesmo peso na confecção do
indicador síntese, eles foram normalizados. O valor de cada variável foi
dividido pelo valor máximo encontrado para a mesma variável. Assim, cada um dos
indicadores passou a variar entre zero e um. Depois de obtidos esses
indicadores normalizados, foi feita uma média simples destes.
Índice de alta tecnologia bruto -Massa salarial no município dos trabalhadores
em ocupações técnicas com mestrado ou doutorado - os mesmos do índice de
qualificação técnica de pós-graduação -, como proporção do total no Brasil.
Pressupõe-se que os indivíduos altamente qualificados ocupados em áreas
técnicas encontram-se em indústrias ou serviços que utilizam tecnologia mais
avançada. A massa salarial desses indivíduos seria uma proxida dimensão desse
tipo de atividade no município.
Índice de alta tecnologia relativo- O indicador bruto anterior depende, entre
outros aspectos, da população do município. Já esse indicador é dividido pelo
número de trabalhadores em todas as atividades no município, obtendo-se, assim,
um indicador semelhante ao anterior, mas relativo. Ou seja, enquanto o primeiro
estima principalmente pontos quantitativos, o segundo refere-se especialmente a
características qualitativas.
Índice de entretenimento -Esse indicador é baseado no apresentado em Florida
(2005), sendo uma adaptação do índice de boemia do autor para o caso
brasileiro. Esse índice é a proporção de trabalhadores que eram ocupados em
ocupações classificadas como profissionais de espetáculos e das artes:
produtores de espetáculos; coreógrafos e bailarinos; atores, diretores de
espetáculos e afins; compositores, músicos e cantores; desenhistas industriais
(designer); escultores, pintores e afins; e decoradores de interiores e
cenógrafos. O índice é normalizado, ou seja, indica quantas vezes a proporção
de determinado local é maior do que o valor médio para todas as áreas
analisadas. Como descrito anteriormente, esse indicador foi confeccionado
também com o objetivo de se testar a hipótese feita por Florida (2002b), de que
locais com uma atmosfera vibrante seriam mais atrativos para indivíduos
talentosos e criativos.
Descrição dos resultados
Como são muitos os municípios no Brasil (5.507 em 2000), este estudo detalha
somente os dados mais relevantes entre todos os municípios. Quando foi julgado
necessário, dependendo do indicador discutido, apenas as informações dos
municípios com população acima de determinado patamar populacional são
apresentados. Alguns dos resultados obtidos para o total dos municípios são
mostrados em mapas, o que possibilita avaliar a heterogeneidade espacial
brasileira para diversos indicadores de forma visual.
A Tabela_1 mostra os 25 municípios com as maiores proporções de trabalhadores
na economia criativa e sua população em 2000. Esses valores variavam de 18,5% a
29,2%, sendo que Niterói (RJ) ocupa o primeiro lugar entre todos os municípios
brasileiros, com valores próximos ao observado para os EUA (FLORIDA; TINAGLI,
2004). Entre os municípios com os maiores valores, aparecem todas as capitais
de Estado das regiões Sul e Sudeste: Porto Alegre (RS), Vitória (ES),
Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e
São Paulo (SP). Outros municípios, inclusive os dois com valores mais elevados
entre todos no Brasil, localizam-se na periferia de regiões metropolitanas:
Niterói (RJ), Santana de Parnaíba (SP) e São Caetano do Sul (SP). Entre os 25
municípios apresentados na tabela, três são centros médios/grandes não
pertencentes a regiões metropolitanas: Balneário do Camboriú (SC), Campinas
(SP) e Santos (SP), sendo os dois últimos muito próximos da Região
Metropolitana de São Paulo (RMSP). Os demais municípios, 12 no total,
apresentam população abaixo de 50 mil habitantes.
O Mapa_1 mostra todos os municípios brasileiros classificados segundo a
proporção de trabalhadores na economia criativa. Entre os 5.507 municípios no
Brasil em 2000, 61 registravam cifras acima de 15%, outros 422 apresentavam
valores entre 10% e 15% e a maioria, mais de cinco mil, situava-se na faixa de
0% a 10%. Este mapa foi confeccionado com o uso de gradientes e interpolação
dos dados municipais e mostra os valores dessa variável "suavizados". Os
valores apresentados na legenda foram escolhidos de forma a facilitar as
comparações entre as diversas regiões do país. Verifica-se que as regiões com
os maiores valores são: parte da costa das regiões Sul/Sudeste, desde
Florianópolis (SC) até Cabo Frio (RJ); parte do interior de São Paulo; o Mato
Grosso do Sul e parte do Mato Grosso; o extremo sul do Brasil; e o eixo Porto
Alegre/Costa do Rio Grande do Sul. Como destaque negativo, com os menores
valores para a proporção de trabalhadores na economia criativa, aparecem:
grande parte do Nordeste; parte do norte de Minas Gerais; e a parte central da
Região Norte. Essas são as principais áreas em termos de extensão territorial
para tendências gerais. Além disso, nota-se uma marcante heterogeneidade
espacial no Brasil para esse indicador.
Os 15 maiores valores para o índice de qualificação superior, assim como a
população de cada um dos municípios, são mostrados na Tabela_2. Quase todos os
municípios - os quatorze primeiros - também apareceram na tabela anterior. A
correlação entre a proporção de pessoas na economia criativa e o índice de
qualificação superior é elevada (0,73) e significativa em 1%. Entretanto, ao
contrário do observado na tabela anterior, nota-se que, entre os 15 valores
mais elevados para o índice de qualificação superior no Brasil, aparece somente
um município com população inferior a 70 mil habitantes: Águas de São Pedro
(SP). Todos os demais são municípios médios ou grandes. Niterói (RJ) e São
Caetano do Sul (SP) aparecem, mais uma vez, nas duas primeiras posições. Todas
as capitais do Sul e do Sudeste também estão nessa lista, em colocações
similares ou superiores às observadas anteriormente. Além disso, muitos
municípios do Estado de São Paulo encontram-se nesta lista, indicando o elevado
nível de escolaridade no Estado.
O Mapa_2 mostra a distribuição do índice de qualificação superior para todos os
municípios brasileiros. Grosso modo, o Brasil pode ser dividido em duas regiões
com valores de índices muito distintos para esse indicador e de forma mais
clara do que para a proporção de pessoas na economia criativa. Pode-se traçar
uma linha divisória aproximada, começando na fronteira do Espírito Santo com a
Bahia, passando pelo norte de Minas Gerias, norte de Goiás, Palmas (TO),
divisas entre o Mato Grosso e Pará, e o centro de Rondônia. Ou seja, é possível
fazer uma separação entre o Sul/Sudeste/Centro-Oeste - a parte com maiores
índices - e o restante do país. Verifica-se que quase todo o Estado de São
Paulo apresentava altos valores, como já destacado na análise da tabela
anterior. Ressaltam-se, ainda, os valores elevados do norte do Paraná, sul do
Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.
O terceiro indicador a ser discutido é o índice de qualificação de pós-
graduação - com os indivíduos com mestrado/doutorado e os estudantes nestes
níveis - também mostrado na Tabela_2. Observa-se que os valores são muito
inferiores aos observados para o indicador anterior. Além disso, este índice é
muito influenciado pela presença de universidades públicas/privadas e
instituições de pesquisa, que têm muitos mestres e doutores em seu corpo
docente e muitos estudantes de mestrado/doutorado em seu corpo discente,
principalmente quanto se analisam centros urbanos de tamanho médio, ou seja,
população razoavelmente pequena para as dimensões da população universitária/
científica. Esse parece ser o caso de Viçosa (MG), Lavras (MG), Rio Claro (SP),
São Carlos (SP) e Botucatu (SP), entre outros. Algumas capitais de Estado das
regiões Sul e Sudeste também aparecem na relação, porém, o município de São
Paulo não está presente. Também nesta lista encontram-se alguns municípios das
regiões metropolitanas e de tamanho médio/grande dessas mesmas duas regiões.
Esse indicador apresenta uma correlação significativa e positiva com os
anteriores, mas com magnitude menor: 0,51 com a proporção de pessoas na
economia criativa; e 0,58 com o índice de qualificação superior.
O índice de qualificação técnica superior é apresentado na Tabela_3. Também
nesta análise aparecem, entre os municípios com valores mais elevados, muitas
capitais de Estado e centros médios/grandes das regiões Sul e Sudeste.
Municípios na periferia de grandes regiões metropolitanas, como de São Paulo e
do Rio de Janeiro - respectivamente, São Caetano do Sul e Niterói - também
aparecem com certo destaque. Além desses, nota-se a presença de uma capital do
Nordeste, Recife (PE), e de um município de pequena população, Oliveira de
Fátima (AM).
Quando todos os municípios brasileiros são analisados em conjunto (dados não
mostrados), verifica-se que a maioria dos que tinham valores acima de 2%, 121
entre os 5.507, localiza-se em três Estados - São Paulo, Rio de Janeiro e Minas
Gerais - e na região Sul. Outros 613 municípios, com valores entre 1% e 2%,
também se localizam principalmente nestas áreas. A maioria dos municípios,
4.773 (86,7%), apresentava valores inferiores a 1%, indicando a concentração de
pessoas especializadas em algumas regiões e municípios.
Este indicador apresenta correlações significativas e positivas com os demais
indicadores já discutidos, principalmente com os dois primeiros - proporção de
pessoas na economia criativa (0,68); índice de qualificação superior (0,71);
índice de qualificação de pós-graduação (0,54).
Os resultados para o índice de qualificação técnica de pós-graduação também são
mostrados na Tabela_3. Essa variável apresenta correlações significativas e
positivas, mas com uma magnitude muito inferior àquela observada para as demais
correlações (respectivamente: 0,27; 0,21; 0,38; e 0,41). Entre os 15 municípios
brasileiros com os maiores valores, a maioria tinha população muito pequena. Ou
seja, como os valores para esse indicador são muito baixos, pois a proporção de
trabalhadores em ocupações classificadas como profissionais policientíficos,
das ciências exatas, físicas e da engenharia, ou das ciências biológicas, da
saúde e afins com qualificação mínima de mestre é muito pequena, esses
resultados positivos são obtidos também devido a uma amostra muito pequena em
municípios de pequena população. Para a análise não ficar enviesada por esse
tipo de problema e ser mais ilustrativa, são apresentados apenas os resultados
para municípios com mais de 50 mil habitantes. Nota-se que muitos dos
municípios que aparecem na Tabela_3 também estavam presentes nas anteriores,
como algumas das capitais, municípios localizados na periferia de regiões
metropolitanas e centros médios/grandes das regiões Sul e Sudeste.
Os indicadores anteriormente descritos apresentam correlações positivas e
significativas entre si, como discutido para cada um deles em separado. Assim,
na confecção do indicador síntese, todos eles são combinados em um único
indicador. Como já discutido, este indicador é a média simples de todos os
cincos anteriores normalizados. Por definição, os valores podem variar de 0 a
1. Os resultados para todos os municípios brasileiros são mostrados na Tabela
4. Entre as capitais, Florianópolis (SC) obteve o indicador mais elevado,
seguida por Porto Alegre (RS), Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ), Curitiba
(PR), Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP), Recife (PE) e Brasília (DF).
Entretanto, no total dos municípios brasileiros, Niterói (RJ) registrou o
índice mais elevado, como já foi observado para outros indicadores, com um
valor muito superior a todos os demais. Outros municípios localizados na
periferia de regiões metropolitanas também apresentaram cifras elevadas, como
São Caetano do Sul (SP) e Santana de Parnaíba (SP). Muitos centros urbanos
médios/grandes das regiões Sul e Sudeste também obtiveram valores elevados,
como Santos (SP), Campinas (SP), Viçosa (MG), São Carlos (SP), Ribeirão Preto
(SP), Botucatu (SP), Balneário Camboriú (SC), Santa Maria (RS), Lavras (MG) e
Araraquara (SP). Apenas três municípios, entre os apresentados na tabela, fogem
dessa regra geral: dois no Estado de São Paulo - Ilha Solteira e Águas de São
Pedro - e Jardim Olinda, no Paraná.
O Mapa_3 mostra o índice síntese "suavizado" para todos os municípios
brasileiros. Nota-se que a área onde se concentram os valores elevados
compreende a costa entre Florianópolis e Cabo Frio, grande parte do interior de
São Paulo, parte do norte do Paraná, parte do sul/sudoeste de Minas Gerais e
parte do Mato Grosso do Sul. Por outro lado, grande parte do Nordeste e Norte
apresenta indicadores com baixo valor.
O próximo indicador a ser discutido é o índice de alta tecnologia bruto.
Pressupõe-se que a massa salarial dos indivíduos qualificados ocupados na área
técnica seja uma proxida dimensão das indústrias ou serviços que utilizam uma
tecnologia mais avançada. O valor de cada localidade foi dividido pelo total no
país, para se obter uma idéia mais precisa da real dimensão relativa das
atividades de alta tecnologia no local. Os valores referem-se ao local de
residência do indivíduo e não ao local de trabalho. Uma pessoa pode morar em um
município e trabalhar em outro, o que ocorre principalmente em regiões
metropolitanas.
Como esperado, todos os municípios presentes na Tabela_5 são populosos, uma vez
que o indicador é bruto. O município com menor população é Florianópolis (SC),
com quase 350 mil habitantes em 2000, ou 0,2% do Brasil. Os 15 municípios
apresentados na tabela detinham 62,1% de toda a massa salarial de alta
tecnologia do Brasil e somente 19,6% da população nacional. São Paulo e Rio de
Janeiro, os dois municípios mais populosos do país, com 9,5% do total da
população, tinham mais de um terço da massa salarial brasileira (33,5%). Os
oito municípios com os maiores valores de índice de alta tecnologia bruto, que
são esses dois citados e mais Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, Campinas,
Curitiba e Salvador, detinham mais de 50% do total. Ou seja, os valores são
altamente concentrados em poucos municípios. Verifica-se que 11 das capitais
brasileiras aparecem na lista, incluindo quase todas do Sul e Sudeste, uma da
Região Norte, as três mais populosas do Nordeste e a mais populosa do Centro-
Oeste. Todos os demais municípios são de tamanho médio/grande dos Estados de
São Paulo ou do Rio de Janeiro.
Entre os 5.507 municípios brasileiros em 2000, 4.580 (83,2%) possuíam valores
nulos para esse indicador, ou seja, não tinham qualquer indivíduo com titulação
mínima de mestre trabalhando em atividades técnicas. Entre os 5.507 municípios
brasileiros em 2000, 4.580 (83,2%) possuíam valores nulos para esse indicador,
ou seja, não tinham qualquer indivíduo com titulação mínima de mestre
trabalhando em atividades técnicas. Outros 856 (15,5%) apresentavam um valor
até aproximadamente um milésimo do observado em São Paulo. Isto é, o tamanho da
indústria/serviços de alta tecnologia, segundo a proxi utilizada aqui, era
marcadamente menor do que para o município de São Paulo. Somente 68 municípios
detinham valores acima de um milésimo do município de São Paulo, muitos na
periferia de regiões
metropolitanas.3
Esse indicador depende, entre outros aspectos, da população do município. O
índice de alta tecnologia relativo é a razão entre esse indicador e o número de
trabalhadores em todas as atividades no município. Como são vários os
municípios muito pequenos com valores elevados para esse indicador,
possivelmente por desvios estatísticos causados por pequenas amostras, optou-se
por mostrar os resultados para municípios com mais de 50 mil habitantes (Tabela
5). Niterói (RJ) - o município com o maior valor para o índice síntese - também
detém o maior valor para o índice de alta tecnologia relativo. Muitos dos
municípios mostrados nessa tabela também apareceram na anterior, como as
capitais do Sul e Sudeste, com exceção de Belo Horizonte (MG), e centros
urbanos e da periferia das regiões metropolitanas dessas regiões. Entretanto,
verifica-se a presença de municípios de menor população, muitos também com um
alto índice de qualificação de pós-graduação, como Botucatu (SP), Lavras (MG) e
Viçosa (MG), indicando spilloversdas atividades acadêmicas.
O Mapa_4, com os dados para este último indicador, mostra que as principais
áreas com valores elevados estão na região Sudeste. Um dos principais pólos de
alta tecnologia é o eixo Guarujá (SP)-Americana (SP), incluindo o município de
São Paulo (SP). Outro, também no estado de São Paulo e muito próximo desse
primeiro, é o eixo Botucatu (SP)-São Carlos (SP), que de certa maneira se funde
com o primeiro. O Estado do Rio de Janeiro também conta com dois pólos de alta
tecnologia que se fundem: um centrado nos municípios do Rio de Janeiro/Niterói;
e outro em torno de Macaé. Outras áreas de destaque no Sudeste são: a
localizada em torno de Belo Horizonte (MG), incluindo um eixo noroeste; a
região em torno de Vitória (ES); e as áreas nos arredores de Uberaba (MG), de
Lavras (MG) e de Salinas (MG).
O índice de entretenimento, como definido por Florida (2002a, 2005), é
replicado para o caso brasileiro. Como são vários os municípios com população
muito pequena que detinham valores elevados, selecionaram-se apenas aqueles com
mais de 50 mil habitantes, como mostrado na Tabela_6. Como discutido, os
valores são normalizados. Três municípios tinham valores acima de quatro para
esse indicador, todos de tamanho pequeno/médio, sendo que apenas um município
muito populoso aparece na lista, Rio de Janeiro (RJ), na 23ª posição. Outros
dois centros urbanos médios de destaque são Niterói (RJ) e Florianópolis (SC).
O Nordeste e o Sudeste detêm quase todos os municípios citados, muitos na RMSP
(Embu, Cotia, Embu-Guaçu e Mariporã), outros no interior dos Estados de Minas
Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Pernambuco, Piauí e Sergipe, muitos na
costa.
O Mapa_5 mostra os resultados para todo o país, lembrando, mais uma vez, que
para municípios com população muito pequena podem ocorrer variabilidades devido
a pequenas amostras. Algumas áreas destacam-se com altos valores para o índice
de entretenimento. Uma área razoavelmente extensa localiza-se no Nordeste,
abrangendo toda a costa do Ceará e partes do interior desse Estado e da
Paraíba. Outra área grande compreende o sul da RMSP, costa centro/norte de São
Paulo, costa centro/sul do Rio de Janeiro e parte do interior de São Paulo e de
Minas Gerais.
Análise com aglomerados
Os resultados obtidos com análise multivariada utilizando a técnica de
aglomerados são mostrados a seguir. Essa técnica permite classificar
observações conforme a similaridade entre elas (HAIR et al., 2006).
Anteriormente, os municípios brasileiros foram descritos conforme uma série de
indicadores. O objetivo da análise de aglomerados empreendida aqui é agregar
esses municípios em grupos aproximadamente homogêneos conforme suas
características. Assim, sintetiza-se a heterogeneidade regional brasileira
entre as diversas localidades em alguns grupos distintos.
Como são muitos os municípios, para que a análise de aglomerados seja mais
ilustrativa, foram selecionados aqueles que tinham uma população superior a 100
mil habitantes em 2000 e aqueles com um valor até 1/2000 do índice de alta
tecnologia bruta de São Paulo (SP), também para este ano, em um total de 234.
Ou seja, todos os municípios populosos ou que têm uma indústria/serviços de
alta tecnologia de tamanho relativamente grande, como medido pela proxi
utilizada aqui, foram analisados.
Um estudo com todos os indicadores de qualificação - alguns deles muito
correlacionados - e somente um índice de entretenimento apresentaria um viés
para a qualificação (GOLGHER, 2006b). Com o objetivo de diminuir esse viés, foi
feita a análise com aglomerados com apenas três variáveis: proporção de
trabalhadores na economia criativa; índice síntese; e índice de entretenimento.
Os resultados dessa análise, que conta com oito aglomerados, são mostrados na
Tabela_7, que apresenta as características e a composição de cada um deles. O
aglomerado de número 1 categoriza os municípios que tinham todos os indicadores
com valores muito superiores aos demais municípios, sendo composto somente por
Florianópolis (SC) e Niterói (RJ), ambos mais uma vez em destaque. O aglomerado
2 tinha valores também elevados para todos os indicadores, mas com cifras um
pouco inferiores a esses dois municípios, e inclui capitais e centros urbanos
do Sul e do Sudeste do país e Recife (PE). O terceiro aglomerado apresenta
valores médios para todos os indicadores, sendo formado por várias capitais do
Norte, Nordeste e Centro-Oeste e municípios do interior do Sul e do Sudeste.
Com valores inferiores aparece o quarto aglomerado, que contém municípios do
interior de todas as macrorregiões, mas principalmente do Sul e do Sudeste,
além de duas capitais do Norte (Porto Velho - RO e Rio Branco - AC). O
aglomerado 5 apresenta valores muito baixos para todos os indicadores e contém
somente municípios do interior, muitos do Nordeste e da periferia das regiões
metropolitanas do Sudeste. Esses cinco aglomerados possuem indicadores com
valores relativos similares para os três indicadores em um gradiente de cifras
do mais elevado para o mais baixo: aglomerado 1 > aglomerado 2 > aglomerado 3 >
aglomerado 4 > aglomerado 5. Os demais têm características distintas. O
aglomerado 6, com apenas quatro municípios, dois no Nordeste e dois na
periferia da RMSP, destaca-se pelos altos valores do índice de entretenimento e
baixos valores para os demais indicadores. O aglomerado 7 apresenta valores
baixos para o índice de entretenimento e médio para os demais. São
categorizados com essas características muitos municípios do interior das
regiões Sul e Sudeste, além de três capitais, João Pessoa (PB), Cuiabá (MT) e
Brasília (DF). O aglomerado 8 difere do 4, principalmente, por apresentar
valores mais elevados para o entretenimento. Nota-se a presença de muitos
municípios do interior do Nordeste e Sudeste, além de duas capitais do Norte:
Manaus (AM) e Boa Vista (RR).
A análise com aglomerados permite classificar os principais municípios segundo
os valores de seus indicadores. São muitos os fatores que influenciam o valor
desses indicadores, e a seguir analisam-se econometricamente alguns desses
fatores que impactam na proporção de trabalhadores na economia criativa e no
índice síntese.
Análises econométricas
São dois os objetivos principais dos estudos econométricos empreendidos aqui. O
primeiro, como enunciado anteriormente, é analisar alguns dos fatores
correlacionados com a distribuição de indivíduos qualificados nos municípios
brasileiros. O segundo é testar a hipótese de Florida (2002b), segundo a qual
indivíduos qualificados tendem a ser atraídos por locais com atmosfera mais
vibrante. Para tanto, são apresentadas análises de regressão múltipla com
mínimos quadrados ordinários (MQO), em dois grupos de modelos.
No primeiro grupo são inicialmente analisados como variáveis dependentes dois
dos indicadores apresentados na análise descritiva: a proporção de
trabalhadores na economia criativa; e o índice de qualificação superior. Em
seguida, como será detalhado a seguir, duas outras variáveis dependentes também
são analisadas: a proporção ajustada de trabalhadores na economia criativa; e o
índice síntese ajustado.
Como discutido anteriormente na introdução desse trabalho, e também como
mostrado de forma empírica na análise descritiva dos dados, são muitos os
fatores que influenciam a distribuição dos indivíduos qualificados no Brasil.
Para analisar alguns desses efeitos são incluídas 12 variáveis independentes no
modelo. Segue uma explicação sobre cada uma delas.
De forma geral, municípios com população maior e capitais de estado tendem a
apresentar valores mais elevados para os indicadores de qualificação do que os
demais. São incluídas duas variáveis que tratam dessas características: uma
numérica, o logaritmo da população do município; e uma dummy, se o município é
capital ou não (1 para capital, 0 para interior). O logaritmo se justifica por
causa da distribuição assimétrica dos valores de população.
A distribuição de indivíduos qualificados também é afetada pela localização do
município. Para estudar esse efeito, são incluídas no modelo quatro dummiesde
localização: se o município situa-se nas Regiões Norte, Sudeste, Sul ou Centro-
Oeste (1 se localiza, 0 se não se localiza. A variável do Nordeste foi a
omitida).
A sofisticação do mercado de trabalho também afeta a proporção de pessoas
qualificadas no município. Como forma de captar essa influência, são incluídas
no modelo as variáveis grau de urbanização e participação relativa em números
de trabalhadores dos setores secundário e terciário. A variável para o setor
primário foi a omitida.
Um último ponto que provoca impacto na distribuição de indivíduos qualificados
em determinado local é a localização desse com relação a outros centros
urbanos. A distância entre o município e a capital do Estado também é incluída
no modelo.
Resta saber se, depois de controlados os efeitos dessas variáveis citadas, o
índice de entretenimento, variável também incluída no modelo, apresenta
correlação significativa com a distribuição de indivíduos qualificados.
Os resultados obtidos para os quatro modelos são mostrados na Tabela_8.
Observa-se que, como as variáveis dependentes têm dimensões muito distintas, os
coeficientes obtidos também possuem magnitudes diferentes.
A variável logaritmo da população do município teve um coeficiente positivo e
significativo em todas elas, assim como a dummyde capital e o grau de
urbanização. Isso indica que, mesmo controlando pelas demais variáveis,
municípios com maior população - que são capitais de Estado - e com maior grau
de urbanização tinham valores mais elevados para os quatro indicadores de
qualificação analisados.
Os coeficientes para as dummiesde região, todos positivos e significativos,
mostram que os municípios do Sul, Sudeste e Centro-Oeste tendem a apresentar
valores superiores para os quatro indicadores, quando comparados com o
Nordeste. Para a região Norte, três coeficientes são positivos para a proporção
de trabalhadores na economia criativa, para esse indicador ajustado e para o
índice síntese ajustado, sendo que o contrário ocorreu para o índice de
qualificação superior. Além disso, os coeficientes obtidos para a região Norte
apresentam valores muito menores, em termos de magnitude, do que os obtidos
para as demais regiões, indicando uma maior homogeneidade do Norte e do
Nordeste.
A variável da distância mostra que locais mais distantes das capitais, uma vez
incluídas as demais variáveis, tendiam a apresentar valores maiores para as
quatro variáveis.
São duas as variáveis referentes aos setores da economia: uma para o setor
secundário e outra para o terciário. Para o setor secundário, os coeficientes
são positivos para três das variáveis e não-significativo para o índice de
qualificação superior. A variável referente ao setor terciário mostra
coeficientes positivos para os quatro modelos. Assim, de forma geral, mesmo
após a inclusão das demais variáveis no modelo, uma economia com maior
participação dos setores mais modernos tende a apresentar maiores proporções de
indivíduos qualificados.
Essas variáveis indicam a correlação entre os diversos fatores geográficos e
econômicos com a distribuição de indivíduos qualificados. Com relação ao índice
de entretenimento, como previu Florida (2005), ele apresenta um coeficiente
positivo e significativo para o modelo com a proporção de trabalhadores na
economia criativa. Assim, esse resultado inicial parece corroborar o proposto
pelo autor.
Todavia, deve-se ressaltar que as ocupações de entretenimento, mesmo em
proporções pequenas, fazem parte dessa variável dependente. Existe, portanto,
um problema de endogenia dos dados. Para o segundo modelo, aquele que conta com
o índice de qualificação superior onde esse problema não existe, o coeficiente
foi não-significativo.
Como forma de sobrepujar essas limitações, são incluídos os dois últimos
modelos deste primeiro grupo de regressões. Esses modelos utilizam, como
variável dependente, a proporção ajustada de trabalhadores na economia criativa
e o índice síntese ajustado. O problema de endogenia na variável proporção de
trabalhadores na economia criativa e também no índice síntese é resolvido
retirando, entre os trabalhadores da economia criativa, aqueles que estavam em
ocupações de entretenimento. Assim, com esse novo número, é obtida a proporção
ajustada de trabalhadores na economia criativa e, com essa proporção, é
calculado o índice síntese ajustado.
Depois de feitos esses ajustes, observa-se que os coeficientes para o índice de
entretenimento são negativos e significativos para ambos os modelos. Ou seja, a
hipótese de Florida não é corroborada para observações sem problemas de
endogenia.
As variáveis de qualificação como utilizadas aqui tratam do estoque de
indivíduos no município e não de fluxos. No segundo grupo de regressões, são
utilizadas medidas de fluxo de indivíduos, que são estimadas a partir do saldo
migratório geral e somente para indivíduos qualificados. Como calculado aqui, o
saldo migratório é a diferença entre imigrantes e emigrantes para cada um dos
municípios entre 1995 e 2000, calculados a partir do quesito data-fixa para
migrantes internos com município de origem bem definidos.4 Os indivíduos
qualificados são aqueles com 15 anos ou mais de estudo. Os valores de saldo
migratório foram divididos pela população observada do município em 2000.
Foram ajustados dois modelos distintos para cada um dos tipos de saldo
migratório relativo. Um contava com as mesmas variáveis acima (resultados não
mostrados), com exceção da variável de população, que faz parte da variável
dependente. O outro incluía também a renda per capita municipal em 1991, renda
anterior à migração do indivíduo. Observa-se que os coeficientes para essa
última variável são positivos e significativos para os dois tipos de saldo. Os
resultados obtidos para os coeficientes referentes ao índice de entretenimento
foram todos não-significativos, como mostrado na Tabela_9, indicando que,
também a partir de variáveis de fluxo, a hipótese de Florida não é corroborada
para os municípios brasileiros.
Conclusão
O ponto de partida deste texto é a relação entre a concentração de pessoas
qualificadas e criativas e o desenvolvimento de cidades e regiões. Tendo como
base teórica o proposto por Florida (2002a, 2002b, 2005), que discute a
importância de uma sociedade vibrante na atração de talentos, é feita uma
análise empírica para o Brasil sobre a distribuição de indivíduos qualificados,
incluindo discussões sobre alguns dos aspectos que influenciam essa
distribuição. Para tanto, são confeccionados vários indicadores, muitos
baseados na metodologia utilizada por esse autor, além de vários outros
distintos. Esses indicadores são: proporção de trabalhadores no setor criativo;
índice de qualificação superior; índice de qualificação de pós-graduação;
índice de qualificação técnica superior; índice de qualificação técnica de pós-
graduação; índice síntese; índice de alta tecnologia bruto; índice de alta
tecnologia relativo; e índice de entretenimento.
Alguns municípios destacam-se com os valores mais elevados para diversos
indicadores, tais como: dois localizados nas RMSP e RMRJ - São Caetano do Sul
(SP) e Niterói (RJ) -; as capitais das regiões Sul e Sudeste - Belo Horizonte
(MG), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro
(RJ), São Paulo (SP) e Vitória (ES) -; e municípios de porte médio/grande
destas duas macrorregiões - Campinas (SP), Ribeirão Preto (SP), Santos (SP),
São Carlos (SP) e Viçosa (MG).
As análises econométricas indicam que municípios com populações maiores, que
são capitais de Estado, mais urbanizados, localizados nas regiões Sul, Sudeste
e Centro-Oeste e com maiores proporções dos setores secundário e terciário
tendem a apresentar valores mais elevados para qualificação e criatividade,
como definido por Florida (2002a, 2002b, 2005).
Segundo esse autor, regiões com maior índice de entretenimento tendem a ter
maiores proporções de trabalhadores na economia criativa ou índices de
qualificação. Essa hipótese não foi corroborada pelas análises empreendidas
aqui tanto para estoque de pessoas qualificadas, medido pelos indicadores
acima, como para fluxos de indivíduos, estimado a partir de saldos migratórios
relativos obtidos por técnicas diretas.