Diga-me onde andas, que te direi quem és: identidades culturais na comunidade
brasileira da marca Johnnie Walker
1. INTRODUÇÃO
Diante de um sistema econômico que estabelece uma cultura de consumo sobre a
sociedade, a forma como as pessoas se relacionam e se apresentam entre si
parece ter encontrado, nos significados atribuídos a produtos, serviços e
experiências, um ponto central para essa mediação, deslocando o uso dos bens
para além da sua funcionalidade original (Featherstone,_1997; Slater,_2001;
Jameson,_2007). Por outro lado, o avanço nos meios de comunicação tem
proporcionado novas possibilidades a essas interações, como as que ocorrem em
ambientes digitais, aproximando pessoas (Lévy,_1999).
Tomando isso como noção inicial, uma diferença competitiva emergente para
produtos e serviços desponta, dentre outras possibilidades, na capacidade deles
de comunicar para o outro o que um indivíduo quer dizer sobre si, ao se
apresentar com tais artefatos ou marcas, definindo, pois, suas escolhas de
consumo (Belk,_Bahn, & Mayer,_1982; Hirschman, & Holbrook,_1982; Brown,
1993; Cova,_1997; Elliott,_1997; Firat, & Shultz_II,_1997).
Entretanto, a compreensão sobre quem é essa pessoa não se estabelece apenas no
que ela porta, mas também a partir do modo como a outra olha para ela,
entendendo-a no tocante à interpretação dos signos que carrega. Tal relação
refere-se à noção de identidade, uma posição assumida dentro de um sistema
cultural e demarcada por um conjunto de significados compreendidos em uma
representação cultural. Esse conjunto consiste no resultado dialético entre a
pessoa e a sociedade na qual se insere, constituindo-se, pois, em produto
social. Conforme os processos sociais moldam, conservam ou remodelam a
identidade da pessoa, a própria identidade também exerce a mesma influência
sobre a estrutura e os processos sociais (Hall,_2006; Woodward,_2009).
Diante desse contexto, algumas pesquisas de marketing visam à compreensão sobre
como os consumidores assumem posições de consumo, definidas pelo mercado, e a
relação dessas com os projetos de identidade dos consumidores (Belk,_1988;
Holiday, & Cairnie,_2007; Hearn,_2008; Therkelsen, & Gram,_2008). Sobre
isso, as marcas assumem papel fundamental, ao exercerem sua capacidade de
expressar, criar e modificar os sujeitos, transformando-se em complexos signos
de identidade social e estabelecendo-se, desse modo, como signos máximos do
consumo (Perez,_2004; Leão, & Mello,_2008; Semprini,_2010), circulantes da
vida cotidiana, reconhecidas e significadas por consumidores envolvidos em
situações sociais nas comunidades a que pertencem (Perez,_2004; Klein,_2008;
Semprini,_2010).
Por outro lado, e diferentemente dos encontros face a face em que o
desenvolvimento da subjetividade de um se dá diante do outro (Berger,_&
Luckmann,_2006; Goffman,_2006), nas comunidades virtuais as identidades
estabelecem-se de modo adaptado. As subjetividades são construídas e nominadas
por artifícios como textos escritos, fotos e revelação de gostos e preferências
em detrimento dos aspectos paralinguísticos e extralinguísticos da linguagem.
Nas comunidades virtuais, essas pistas podem se apresentar, inicialmente, a
partir da opção por uma determinada marca de produto ou serviço. A adoção e o
consumo dessas marcas passam a significar estilos de vida ou personalidades
(entre outros aspectos), levando as pessoas a reunirem-se, por exemplo, em
comunidades virtuais de marcas, onde, assim como em outras formas de
interações, as pessoas, além de outras ações, negociam e constroem valores
culturalmente positivos (Muñiz_Jr., & O’Guinn,_2001; Bagozzi,_&
Dholakia,_2002). Uma vez dentro dessas comunidades, outras pistas podem
demarcar as diferenças entre os participantes e desvelar identidades distintas
(Woodward,_2009), cujas subjetividades podem contribuir tanto para o
conhecimento acadêmico como para o gerencial quanto ao aspecto relacional entre
marcas e consumidores.
Tal fato pode ser exemplificado por meio da comunidade Johnnie Walker
Brasil,espaço oficial da marca no Facebook. A comunidade da marca de whisky
reúne mais de dois milhões de pessoas e mais de setenta mil comentários. Diante
do conteúdo gerado pela marca (e.g., sugestões de consumo, frases inspiradoras
e diálogos promocionais), inúmeros comentários demonstram a participação de fãs
da marca, interagindo com ela e entre si, revelando uma intensa dinâmica
interacional.
Dessa forma, toma-se a comunidade como objeto à guisa da questão: Como os
consumidores da Johnnie Walker constituem suas identidades, mediante o modo
como interagem em uma comunidade virtual de marca? Assim, na pesquisa aqui
relatada teve-se por objetivo, a partir da comunidade virtual brasileira da
marca Johnnie Walker, analisar como os signos marcários são utilizados nas
interações dos consumidores, de maneira a estabelecer as identidades dos seus
participantes.
O ambiente mediado por computador tem se revelado profícuo às atividades
mercadológicas, tanto na interação entre marca e consumidores quanto no
empreendimento de novas oportunidades para as organizações (Kaplan,_&
Haenlein,_2010; Gummerus,_Liljander,_Weman, & Pihlström,_2012), sobretudo
hoje, por meio do Facebook, um dos sites de relações sociais mais expressivos
em número de usuários e popularidade no segmento. Com isso, diversos trabalhos
são destinados a compreender os fenômenos inerentes às comunidades virtuais de
marcas, entre elas, ou como essas interações contribuem para o fortalecimento
do valor das marcas (Devasagayam,_Buff,_Aurand, & Judson,_2010; Gummerus_et
al._,_2012; Laroche,_Habibi,_Richard, & Sankaranarayanan,_2012; Tsai,
Huang, & Chiu,_2012; Brodie;_Ilic;_Juric, & Hollebeek,_2013; Ewing,
Wagstaff, & Powell,_2013). Entre os estudos, os de Sääksjärvia_e_Samiee_
(2011), Srivastava_(2011) e Silveira,_Lagesa_e_Simões_(2013) abordam a relação
entre identidade e imagem da marca. Eles apresentam a dificuldade de uma
aproximação entre a identidade da marca, almejada por seus gestores, e a imagem
constituída por seus consumidores, bem como a evidência de diferentes
significações para uma mesma marca, defendendo a importância de pesquisas que
vislumbrem novos insights a partir da interação entre as duas posições, como é
feito neste trabalho.
A pesquisa localiza-se sob a perspectiva da Consumer Culture Theory(CCT)
(Pinto, & Lara,_2011; Gaião,_Souza, & Leão,_2012). A CCT caracteriza-se
por sua abordagem interpretativista, orientada para a investigação acerca de
como os consumidores geram e modificam continuamente os significados simbólicos
de seu consumo, presentes em marcas, propagandas e no próprio uso dos bens
materiais como um todo, construindo expressões de suas particularidades
pessoais e sociais (Arnould, & Thompson,_2007; Firat, & Tadajewski,
2010).
2. CULTURA DE CONSUMO E IDENTIDADE DE CONSUMIDORES
Nas últimas décadas, mudanças sociais, comportamentais, econômicas e políticas
evidentes têm problematizado e evocado a discussão acerca de uma “pós-
modernidade” (Jameson,_2007). Entre as características que demarcam esse novo
período estão, dentre outras, o individualismo, o narcisismo, a solidão, a
crise das identidades, a concepção de comunidades imaginadas, o deslocamento
dos sujeitos. Em consequência desse processo, estabelece-se uma consolidação da
cultura do consumo, em que esse consumo reverte seu papel em relação à
produção, posicionando-se como novo eixo central às relações sociais. Os papéis
socialmente relevantes passam a ser aqueles associados à posse dos bens e à
acessibilidade, ao consumo e não mais às funções sociais advindas, sobretudo,
dos ofícios, como outrora. Tem-se, agora, a regência das relações sociais
pautadas por uma ética do consumo e não mais da produção. Tal cenário acarreta
um crescimento significativo do interesse pelo estudo do consumo como processo
cultural, singular e dominante (Lee,_1993; Featherstone,_1997; Slater,_2001).
O estudo sociológico do consumo afasta-se de uma abordagem convencional do
consumismo (Miller,_2007), reconhecendo a relevância e a significação dessa
prática diante de uma sociedade contemporânea, definida comumente como
“sociedade de consumo”, caracterizada por um consumismo desenfreado que tem
levado à perda de valores, de identidades, e à desagregação social (Slater,
2001; Bauman,_2008).
Sob essa perspectiva, tanto a cultura quanto o consumo apresentam-se de modo
singular no mundo moderno, evidenciando significativa relação de mutualidade e
intensidade entre si, o que baliza o consumo como um fenômeno cultural
(McCracken,_2003; Douglas, & Isherwood,_2004). Isso implica o entendimento
de que as trocas, antes de serem apenas eco nômicas, se configuram como
simbólicas, na medida em que são permeadas por um processo de significação que
ocorre no âmbito da cultura (Bourdieu,_2009).
Dentro do campo de conhecimento do marketing, essa perspectiva tem sido
inserida no espaço dos estudos de pesquisa do consumidor, fomentando uma
corrente denominada de Consumer Culture Theory (CCT) (Pinto, & Lara,_2011;
Gaião_et_al.,_2012). A CCT reflete sobre a maneira como os consumidores geram e
modificam continuamente os significados simbólicos de seu consumo, presentes em
marcas, propagandas e no próprio uso dos bens materiais como um todo,
construindo expressões de suas particularidades pessoais e sociais. Nesse
sentido, são exploradas questões como: a relação entre contextos culturais e
sociais; os modos de interação entre consumidores e empresas; e a construção, a
alteração e a distribuição dos significados do consumo (Arnould,_&
Thompson,_2007).
No esforço de aproximar os estudos que compartilham dessa visão, Arnould_e
Thompson_(2005; 2007) reuniram e delimitaram, em quatro grandes temáticas, as
pautas que fomentam uma agenda de pesquisa na área.
Este trabalho se localiza, sob esse aspecto, entre os “projetos de identidade
dos consumidores” e as “culturas de mercado”. Enquanto as culturas de mercado
procuram compreender como as dinâmicas socioculturais das comunidades de
marcas, fãs, micro e subculturas e tribos são usadas como mediadoras nas
relações sociais, os projetos de identidade dos consumidores abordam as formas
pelas quais os indivíduos, utilizando os bens de consumo disponíveis no
mercado, forjam um sentido diversificado e, muitas vezes, um senso fragmentado
do “eu”. Dessa forma, o mercado estabelece-se como fonte de recursos míticos e
simbólicos a serem utilizados pelos indivíduos, incluindo os que se encontram à
margem do direito ou da possibilidade de participar do mercado como
consumidores, para elaborar suas narrativas identitárias.
Por identidade, aqui mencionada, comunga-se da perspectiva dos estudos
culturais, na qual a identidade significa uma posição individual ou coletiva,
caracterizada por um conjunto de significados que insere os indivíduos em um
papel de pertencimento dentro de um sistema cultural (Hall,_1997; 2006;
Woodward,_2009). Esses significados são constituídos a partir de perspectivas
individuais e suas interpretações dos códigos, bem como de sua exposição por
meio de signos representativos. Nesse sentido, o consumo revela-se como
importante dimensão de produção de significados do mundo social. Trata-se de
uma das formas de os indivíduos definirem-se e identificarem-se. Com o processo
contínuo que caracteriza a transformação das identidades contemporâneas,
marcadas por sua contingência e provisoriedade, o consumo aparece como uma das
formas possíveis de expressão dessas identidades. Nesse aspecto, o objeto de
consumo passa a referir-se aos indivíduos e coletividades: grupos, comunidades
e movimentos culturais (Slater,_2001; Bauman,_2005).
Conforme Castells_(2002), a construção de significados, com base em atributos
culturais, possibilita ao ator social, seja ele individual, seja coletivo,
assumir diferentes identidades. Tal possibilidade incita o aparecimento de
tensões e contradições, não apenas em relação às diferentes identidades, mas
também pelos variados papéis assumidos pelo indivíduo em sua vida social.
Assim, entende-se que as pessoas atuam socialmente no interior de variadas
instituições (Woodward,_2009), exercendo diferentes graus de escolha e
autonomia, dentro de seu contexto material, espaço, lugar e um conjunto de
recursos simbólicos (Bourdieu,_2009). Isso significa que, embora uma pessoa
seja a mesma ao longo do dia a dia, em diferentes interações ela assume
diferentes posições, posicionando-se e sendo posicionada de acordo com os
campos sociais nos quais atua, assumindo, pois, diferentes identidades. Dessa
forma, a identidade é instituída a partir de um processo relacional, marcado
por uma alteridade, mediante uma demarcação de diferença, ou seja, para uma
identidade existir, faz-se necessária outra que demarque tal distinção (Hall,
2006; Woodward,_2009).
3. COMUNIDADES VIRTUAIS DE MARCA
Se, por um lado, os signos marcários estabelecem a constituição de identidades,
por outro, o compartilhamento desses valores e significados tem demonstrado a
capacidade de estruturar novos grupos de relações sociais, como ocorre com as
marcas (Muñiz_Jr., & O’Guinn,_2001).
Nas comunidades de marca, a sua significação é negociada socialmente, e não
entregue de pronto e inalterável, seguindo os propósitos das organizações. Além
disso, as comunidades de marca são perenes; seus membros apresentam maior grau
de compromisso e responsabilidade moral com a comunidade, não são simplesmente
vítimas desavisadas da função de consumo permeada pelas comunidades, mas estão
em busca, por meio desse consumo, de autenticidade e identidade (Muñiz_Jr.,
&_O’Guinn,_2001).
Com o desenvolvimento da tecnologia a ponto de estender a realidade social ao
ambiente virtual, essas comunidades de marcas passam a enveredar-se no ambiente
virtual, se estabelecendo por meio da comunicação contínua entre seus membros,
reunidos sob o propósito de alcançar objetivos pessoais comuns e compartilhados
entre si (Bagozzi, & Dholakia,_2002). Embora sejam amplas as definições
apresentadas para as comunidades virtuais, uma definição ampla e sintética
apresenta-as como composições de indivíduos e ou empresas que compartilham
interesses comuns, cuja interação recorre à mediação de algum tipo de
tecnologia e guia-se por protocolos e normas (Porter,_2004).
Para Kozinets_(1998), as comunidades virtuais de marcas decorrem de dois
motivos independentes: a relação do indivíduo com a atividade de consumo e a
relação mantida com os membros da comunidade virtual. Isso significa que,
quanto maior a intensidade desses dois aspectos, maior deve ser o engajamento
do indivíduo na comunidade virtual.
Talvez seja por essa razão que inúmeras pesquisas têm se dedicado a entender os
fenômenos que envolvem as comunidades virtuais de marca. Entre elas,
evidenciam-se os estudos sobre como os membros de comunidades de marcas
empoderam-se da marca tanto quanto os seus gestores (Muñiz_Jr., & O’Guinn,
2001; Muñiz_Jr., & Schau,_2005), contribuindo na valoração dela (Gummerus
et_al.,_2012; Tsai_et_al.,_2012; Ewing_et_al.,_2013) ou no seu desabono
(Albuquerque,_Bellini,_Pereira, & Mota,_2010; Abdalla, & Bravo,_2011);
outros estudos visam identificar e entender os fatores que motivam a formação
de comunidades virtuais de marca (Cova, & Pace,_2006; Sicilia,_&
Palazón,_2008), explorando o caráter e o alcance do engajamento dos seus
participantes (Laroche_et_al.,_2012; Brodie_et_al.,_2013).
Não obstante, encontram-se trabalhos que se propõem a avaliar a viabilidade de
promover comunidades de marca como tática para o relacionamento (Devasagayam_et
al.,_2010) ou estudos que analisam a relação entre a identidade projetada pelos
gestores das marcas e as constituições de significados projetados pelos
consumidores (Sääksjärvia, & Samiee,_2011; Srivastava,_2011; Silveira_et
al.,_2013).
Esses últimos estudos apontam, ainda, para a falta de sucesso na equidade entre
os significados constituídos pelas duas partes, apontando para a possibilidade
de identificação de diferentes identidades possíveis e defendendo, assim, a
relevância de perspectivas sociológicas, como a versada neste trabalho, para
estudos sobre a identidade dentro da área de marketing.
4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este estudo foi desenvolvido conforme a tradição qualitativa, almejando-se
explorar e compreender o fenômeno (Denzin, & Lincoln,_2006; Creswell,
2010), de forma indutiva, ou seja, recorrendo à teoria apenas como norte
inicial ao trabalho e suporte à posterior análise dos dados (Creswell,_2010).
Esse processo seguiu alinhado ao paradigma interpretativista de pesquisa, no
qual a realidade não é entendida como absoluta, mas relativa, sendo mediada por
circunstâncias sociais, culturais e históricas (Denzin, & Lincoln,_2006;
Paiva_Jr.,_Leão, & Mello,_2008), construída socialmente (Berger,_&
Luckmann,_2006) e semioticamente apresentada (Kincheloe, & McLaren,_1994).
Adotou-se, para tanto, a netnografia da comunicação como estratégia
metodológica. O método compreende uma adaptação do método etnográfico para o
ambiente virtual (Kozinets,_1998; 2002; 2007; Amaral,_Natal, & Viana,_2008;
Noveli,_2010), apoiado, sobretudo, na etnografia da comunicação (Hymes,_1974;
Gumperz, & Hymes,_1986; Saville-Troike,_2003), como sugerido por Freitas_e
Leão_(2012).
Assim como ocorre com a etnografia, o método netnográfico destina-se a
compreender sistemas de significações de um determinado grupo social a partir
da interpretação de suas práticas sociais e culturais, sobretudo mediante a
observação e a imersão do pesquisador no grupo social estudado (Rocha,_&
Barros,_2004; Ikeda,_Pereira, & Gil,_2006; Hammersley, & Atkinson,
2007).
A construção do corpus foi iniciada com a localização da comunidade virtual
Johnnie Walker Brasil. Durante algum tempo, os envolvidos no projeto observaram
o comportamento da comunidade, para verificar as características que corroboram
o local virtual de encontro como uma comunidade: consciência de tipo; rituais e
tradições; e responsabilidade moral (Muñiz_Jr., & O’Guinn,_2001). Além
disso, a observação permitiu uma familiarização com as características da
comunidade, cumprindo a entrée cultural (Kozinets,_2007).
Diante de um amplo volume de atividades interacionais registradas na
comunidade, optou-se por recortar as interações ocorridas num período de seis
meses, regressivamente ao início da atividade de pesquisa. Eis uma vantagem: os
dados no ambiente computacional estão disponíveis de modo transcrito, poupando
tempo para os pesquisadores (Kozinets,_2007). Assim, as interações foram
copiadas e transferidas para arquivos utilizados pelos programas Adobe Reader e
Microsoft Word (o primeiro, por preservar as imagens que porventura a marca
veicula; o segundo, porque permite uma organização textual mais rápida e
dinâmica). As interações foram organizadas seguindo a mesma estrutura
evidenciada na plataforma: primeiro a marca inicia um tópico com um comentário
qualquer, que pode ser seguido por comentários dos usuários. Assim, os tópicos
iniciados pela marca receberam uma numeração (e.g., 1), e os comentários que
se seguiam nesse tópico receberam essa mesma numeração seguida de outra sub-
hierárquica (e.g., 1.1).
Para a fase analítica dos dados, recorreu-se a uma análise de discurso
funcional própria da etnografia da comunicação. Trata-se de uma abordagem
pragmática da linguagem, em que os comportamentos verbais são entendidos como
ações sociais. Assim, o procedimento visa revelar como interagentes se
posicionam e constroem significados à medida que se comunicam (Gumperz,_1982;
Saville-Troike,_2003). Nesse sentido, a técnica confere um esforço que vai além
da análise daquilo que é enunciado por uma pessoa, procurando revelar, no
interior dessa fala, aquilo que o sujeito pensa e sente (Gumperz,_1982;
Saville-Troike,_2003; Leão, & Mello,_2007). Com isso, buscou-se entender e
inferir os sentidos atribuídos aos signos marcários, que não conferem apenas o
nome da marca, mas sim qualquer elemento próprio ou incorporado por ela, para
gerar significado para si (Leão, & Mello,_2009; Semprini,_2010),
estabelecendo relações de aproximação e diferença, que permitem evidenciar as
identidades culturais (Hall,_2006; Woodward,_2009).
Com esse intuito, tomou-se por base o protocolo para ambientes mediados por
computadores, proposto por Freitas_e_Leão_(2012)com base no trabalho de Leão_e
Mello_(2007), e que estabelece uma bricolagem teórica entre as noções de atos
de fala, sociolinguística interacional e etnometodologia. O protocolo auxiliou
no estabelecimento dos significados mediante os aspectos paralinguísticos,
extralinguísticos e interacionais, que extrapolam o sentido da fala,
evidenciando os significados a ela atribuídos (Leão, & Mello,_2007; 2011;
Freitas, & Leão,_2012).
Dessa forma, procurou-se evidenciar os sentidos estabelecidos nas falas, a
partir das funções exercidas por elas em relação à marca (Leão, & Mello,
2011), o que permitiu, no segundo passo analítico, identificar o que Leão_e
Mello_(2009) denominam de atividades marcárias. Essas funções e atividades
identificadas permitiram traçar uma relação de aproximações e diferenças,
conferindo a possibilidade de delinear as diferentes identidades de
consumidores. Num esforço analítico, procurou-se gerar unidades mais amplas de
significados, buscando relações de equivalência que permitissem inferir grupos
identitários de consumidores da marca.
Para atender a critérios de qualidade da pesquisa qualitativa, o procedimento
foi realizado por dois dos pesquisadores ao mesmo tempo, e cruzado, para
verificação e validação, com o terceiro pesquisador, de maior experiência,
conforme se estabelecia o processo de inter-coding reliability (Miles,
Huberman, & Saldaña,_2014). Além dessa triangulação das análises, adotou-se
também a reflexividade, tendo as categorias passado por redefinições à medida
que os achados foram sendo consolidados, assim como por uma descrição rica e
detalhada das etapas do processo de pesquisa que, na pesquisa qualitativa, se
refere a um critério de transferabilidade do percurso decorrido, uma vez que
não é possível uma pesquisa dessa natureza ser replicada (Creswell,_2010; Paiva
Jr.,_Leão, & Mello,_2011).
5. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
Esta seção foi dividida em três partes: na primeira, apre sentam-se as
identidades culturais identificadas a partir da análise dos dados; na seguinte,
as relações evidenciadas entre essas identidades; e, por fim, organizam-se
grupos identitários mais amplos.
5.1. Identidades culturais
Às identidades evidenciadas, e apresentadas na Figura_1, designaram-se nomes
que estabelecessem uma adequação à sua constituição empírica. Inicialmente,
ofereceu-se uma definição ampla de cada identidade, seguida por uma descrição
de aspectos mais específicos dela, evidenciando o modo como se manifestaram.
Figura 1 Identidades Culturais Eliciadas
Identidade Descrição
Cultural
Os aglutinadores constituem sua identidade por valorizar a companhia de pessoas ao
Aglutinadores seu redor e usam do seu jeito cordial para reuni-las. Encontraram-se, na pesquisa,
referências a companhias, amigos, familiares ou outros membros como fatores
importantes para uma boa experiência com o produto da marca.
Os altivos são aqueles que se autovalorizam por meio dos signos da marca, para
promover a si mesmos perante os outros, criando situações em que se tornam centro
Altivos das interações. As passagens a seguir referem-se a duas interações publicadas por
interagente a uma informação da marca sobre um de seus produtos de mais alto valor
comercial e sua possibilidade de personalização no ato da compra.
Os bairristas são exaltadores de sua cultura local. Nas interações, demonstraram
Bairristas relacionar o signo da marca a símbolos dessa cultura. Na comunidade da Johnnie
Walker, a marca faz menção a aspectos que dizem respeito ao país, certos estados
ou cidades, o que é corroborado pelos consumidores como um valor local.
Por defenderem uma atuação de acordo com regras institucionalizadas, os corretos
Corretos revelaram-se como sendo sujeitos politicamente corretos, condutores sensatos de
suas vidas. Essa identidade revela-se em situações em que os consumidores se
demonstraram inclinados a atitudes equilibradas relacionadas à marca.
Os desafortunados são aqueles que demonstram desânimo em suas interações.
Desafortunados Apareceram, na comunidade, frustrados ou desestimulados diante das interações
feitas pela marca.
Os escapistas buscam fugir da realidade ou rotina. Nesse contexto, revelam-se ao
Escapistas utilizar a marca como meio para essa fuga. Encontraram-se, nesse sentido,
consumidores declarando o desejo de relaxar depois de uma jornada de trabalho
estressante, acompanhados dos signos da marca.
Embora demonstrem como são conhecedores das regras e práticas socialmente
Espertos adequadas, os espertos agem de forma contrária, visando ao benefício próprio.
Nesse caso, demonstraram tais atitudes na interação com a marca e seus signos.
Os experts revelam-se àqueles que demonstram conhecimento sobre assuntos que os
agradam. Nesse caso, a identidade revelou-se ao exibirem seus conhecimentos sobre
Experts a marca e seus signos. Nos achados, isso se evidência por meio de declarações de
contemplação, relatos da história da marca, pela defesa de uma etiqueta de consumo
ou críticas àqueles que tratam a marca de forma ordinária.
Os farristas compreendem os sujeitos que buscam o prazer por meio de atividades
Farristas recreativas e prazerosas. Revelam-se pela associação desses momentos ao consumo da
marca em clima de festa, certas localidades e modos de consumo.
Por outro lado, os indóceis apresentam-se como aqueles que assumem a posição de
antissociais em uma comunidade, revelando-se por traços de mau humor. Encontraram-
Indóceis se ênfases disso em declarações de preferência por outra marca, por outros
produtos, por aversão ao consumo de bebida alcoólica ou por depreciarem signos da
marca ou outros participantes inseridos na comunidade.
Os machões colocam em destaque sua virilidade. Nesse caso, promoveram-se por meio
Machões da associação dos signos da marca a elementos percebidos como sendo do universo
masculino.
Os parasitos evidenciam-se em sua procura por oportunidades para se socializar por
Parasitos meio da marca. Possuem a capacidade de se animar com o que a marca e seus signos
propõem. Na comunidade, apareceram expressando essa identidade ao demonstrar seus
interesses na interação com a marca, fazendo pedidos ou tirando dúvidas.
Os piadistas utilizam-se da marca e seus signos, bem como de interações dos
membros, para fazer graça. Entre os interagentes da comunidade, encontraram-se
Piadistas variadas formas de manifestações dessa identidade, desde relacionadas à própria
bebida até a colocações capciosas em relação ao que foi dito pela marca na
comunidade.
São dotados de opiniões políticas, econômicas e sociais e as revelam ao insuflarem
Provocadores polêmicas. Neste trabalho, demonstraram sua identidade ao se apropriarem dos
signos marcários para promover suas posições.
São desatentos ou despreocupados com sua maneira de agir perante os outros. Nos
achados da pesquisa, essa identidade refere-se a como os sujeitos reconhecem a
Relapsos marca e seus signos, mas não interagem com ela de modo apropriado, conforme se
espera deles. Mais precisamente, são encontrados em situações em que os
consumidores demonstraram indiferença pelo modo como se deve consumir a bebida.
São sentimentais, aproveitam as oportunidades para exaltar a importância de estar
Românticos em companhia de outro em momentos íntimos e felizes. Isso se revelou na comunidade
em situações em que interagentes associaram a marca à companhia do outro em
contextos prazerosos.
Para demonstrar a lógica adotada para identificar as identidades, recorreu-se a
dois exemplos retirados do corpus. O primeiro trecho refere-se à identidade
Corretos. A passagem alude à publicação de uma frase motivacional,
característica da comunicação mercadológica da marca, seguida de uma menção de
desabono à associação entre a prática de beber e dirigir, publicada por ela na
comunidade, motivando o interagente a responder:
7.41: Se vc bebe e dirige é porque você deve estar tomando Johnnie
Walker com Activia para estar cagando e andando para a lei. Lei seca
é coisa séria, não dirija após beber pois é crime e deve haver
punição para quem dirige alcoolizado.
Ao mencionar as marcas, o interagente demonstra certo “conhecimento de mundo”.
O aspecto interacional emerge como um dos principais elementos que evidenciam
como a fala exerce a função de chamar a atenção para algo relativo à marca,
demonstrar algo relativo à marca (deixando implícito o efeito causado pelo
consumo do produto que carrega a marca Johnnie Walker), bem como se projetar
por meio da marca, posicionando-se em concordância com a mensagem inicial da
marca, mas em oposição a tantos outros comentários. Essas funções, por sua vez,
corroboram o entendimento de que a marca aqui é utilizada como signo para
demonstrar uma inadequação ao uso da marca e, com isso, caracterizando-se por
meio dela. Essas atividades marcárias demarcam uma posição distinta desse
interagente em relação aos demais, posicionando-o como uma pessoa sensata.
Nesta segunda passagem, a identidade Espertos pode ser evidenciada. O trecho
foi proferido em resposta à divulgação de uma promoção da marca que prometia a
um dos participantes a oportunidade de visitar o espaço reservado à escuderia
McLaren, nos bastidores de uma prova da Fórmula Um, que aconteceria na cidade
de São Paulo:
59.2: Q adianta comentar pra ver o carro da McLaren se tem mais de
446.040 pra concorrer a isso. Eu prefiro ficar em casa acompanhar
tudo isso com a melhor companhia em casa BLACK LABEL.
Entre as diferentes respostas publicadas, essa demonstra reconhecimento à
relevância da oferta pronunciada pela marca, expressando um número
aparentemente atrativo como expectativa de retorno à promoção, demarcando o
caráter de conhecimento de mundo como aspecto interacional na construção de
significados pela sua fala, o que evidencia o uso da linguagem sob a função de
caracterização de algo relativo à marca; ainda assim, o interagente conclui com
proposição de postura contrária, mas de equivalente relevância, ao caracterizar
novamente sua fala com algo relativo à marca. Nesse caso, a qualificação da
função ocorre por meio da alternância da voz ao citar um produto da marca. A
função da fala, por sua vez, ratifica as atividades de Aspecto em relação à
marca, como também a situação relacionada à marca. No primeiro caso, a
atividade recorre aos signos marcários para expor aspectos da marca (nesse
caso, ambos subjetivos e positivos, tanto abonando a ação promocional como a
sua não adesão). No segundo, os signos marcários demonstram uma situação
tradicional e relevante ao interagente, o que ressalta, em relação aos demais,
sua posição de esperto, ao optar por ações que lhe favorecem.
5.2. Relações entre as identidades eliciadas
Como um segundo nível de esforço, estabeleceram-se relações entre as
identidades, com base em evidências empíricas extraídas das análises. Para
ilustrar esse tipo de inferência, recorreu-se a uma passagem do corpus que
apresenta um comentário de um participante da comunidade a uma publicação de
mensagem da marca, solicitando a opinião sobre as pessoas a quem os
interagentes compartilhariam um dos produtos Premium da marca.
16.97: Eu compartilharia com varios amigos!!! [nome de dez
pessoas]... a quadrilha toda... mas acho q ia precisar de uma caixa
de J.W.Blue neh!! Um Brinde... É TUDO NOSSO!!
Em sua resposta, o interagente demonstra possuir um “conhecimento de mundo”
quanto às características do produto mencionado pela marca, evidenciado, nesse
caso, pela enumeração de outros com os quais possivelmente compartilharia seu
consumo. Da mesma forma, aspectos como a entoação ao final das frases,
demarcados pelo repetidos sinais de exclamação, e a alternância de código,
evidenciada pelo uso do termo “quadrilha” para se referir ao grupo de amigos,
na qual ele se inclui, demonstram certa intimidade com a marca. Esses aspectos
mencionados corroboram a evidência de que a fala assume a função de demonstrar
algo relativo à marca, bem como de projetá-lo, ao se valorizar para os amigos,
colocando o grupo à altura da marca. Além disso, a mesma entoação repetida na
fala, bem como a altura de voz evidenciada no trecho final (É TUDO NOSSO!!),
permitem identificar a função de enfatizar o valor dado pelo interagente à
marca e ao seu produto.
A evidência dessas funções apoia a identificação, realizada aqui, das
atividades envolvimento com a marca, forma de uso e objeto da marca. A primeira
atividade apoia-se na marca como signo que demonstra relevância para o
indivíduo, enquanto a segunda recorre à marca como um signo que demonstra o seu
uso para reunir um grupo específico. A terceira atividade, por fim, apoia-se na
marca como um signo que qualifica a relevância da reunião desse grupo.
Essas atividades permitem evidenciar tanto a identidade Farrista, ou seja, os
sujeitos que buscam o prazer por meio de atividades recreativas e prazerosas,
como também a identidade Aglutinadores, caracterizados por valorizar a reunião
de pessoas ao seu redor de modo cordial. Considerando essa lógica, na Figura_2
apresentam-se todas as identidades e suas relações.
Figura 2 Grupos Identitários Eliciados
5.3. Grupos identitários eliciados
Como último esforço analítico, e com o intuito de chegar-se a uma reflexão mais
contundente, estabeleceram-se inter-relações entre as identidades, gerando
grupos identitários mais específicos, para os quais se criaram nomes
particulares que dessem conta de suas identidades constituintes.
Como critério para tal procedimento, consideraram-se inter-relações de até
quatro identidades entre si (e.g., Experts ligam-se a Escapistas, que se ligam
a Parasitos, que se ligam a Bairristas, que se ligam a Experts), pois
quantidades superiores a essa demonstraram ser pouco discriminantes.
Os agrupamentos originais podem ser identificados na Figura_2 por meio de
cores. As identidades marcadas em branco fazem parte, exclusivamente, de um
grupo; as identidades marcadas em cinza fazem parte de dois grupos; por fim,
uma identidade é parte de todos os grupos, estando marcada de preto. A partir
desses agrupamentos, chegou-se aos grupos identitários mencionados, que somaram
três, destacados por linhas pontilhadas de diferentes estilos.
Assim, as identidades Desafortunados e Provocadores (em branco) formam um
primeiro agrupamento, indicando pessoas que reclamam da vida e se posicionam
por meio de polêmicas. O agrupamento dos Machões, Piadistas, Relapsos e
Românticos (em cinza) é formado por brincalhões e descuidados, exibidores de
sua virilidade, mas sentimentais, juntamente com os Escapistas (em preto), que
evitam rotinas e desavenças. Esses agrupamentos estão inter-relacionados,
resultando no grupo denominado de Boêmios: sujeitos machões, porém românticos,
que levam a vida “numa boa”, mas reclamando e polemizando como forma de
demarcar sua posição. De certo modo, equivalem a uma versão moderna dos
românticos do início do século XIX.
Os Bairristas, os Indóceis e os Parasitos (em branco) formam um agrupamento
formado por mal-humorados e arraigados em sua cultura, que buscam oportunidades
de socialização. O agrupamento dos Corretos e Experts (em cinza), por sua vez,
é formado por pessoas sensatas e que gostam de se manter informadas. Também
estão inter-relacionados entre si e com os Escapistas (em preto), resultando no
grupo denominado de Uncools. O termo indica tanto a ideia de indivíduos
importunos como fora de moda, mas, por outro lado, inteligentes e “certinhos”.
Por fim, os Aglutinadores, os Altivos, os Espertos e os Farristas (em branco)
formam um agrupamento daqueles que aproveitam a vida, atraindo pessoas à sua
volta, no intuito de serem o centro das atenções e terem benefícios pessoais.
Inter-relacionam-se, nesse agrupamento, os Corretos e os Experts (em cinza), os
Machões, os Piadistas, os Relapsos e os Românticos (também em cinza) e os
Escapistas (em preto), formando o último grupo, denominado de Carismáticos. São
sujeitos bem inseridos, inteligentes, relaxados e brincalhões, que agradam a
todos e cuja presença anima o ambiente.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No estudo aqui relatado, buscou-se o entendimento sobre como os consumidores da
marca Johnnie Walker constroem suas identidades culturais, por meio das
interações verbais mediadas em uma comunidade virtual de marca. Em meio aos
significados atribuídos no uso das marcas para a interação entre os
participantes da comunidade da marca, evidenciaram-se 16 identidades
particulares que, por um processo de significação mais ampla, permitiram
conferir três grupos identitários, exaltando os valores que identificam
sujeitos: carismáticos, agradáveis e fáceis para o convívio; boêmios,
defensores dos valores e crenças, mas sensíveis a questões mais sentimentais; e
aqueles que se apresentam como chatos, adotando uma postura defensiva em
interação com o outro.
Evidentemente, ao se limitar o escopo de pesquisa a uma comunidade de marca,
ainda que de caráter global, mas voltada a um segmento de consumo,
restringiram-se as possibilidades de achados. Nesse sentido, outras pesquisas
dentro do mesmo segmento, mas de caráter local, ou mesmo comunidades de
diferentes segmentos, podem evidenciar algumas relações pertinentes em relação
à hibridização da cultura e à formação das identidades por meio das marcas.
Quando se debruçou sobre o processo de construção de identidades culturais por
meio de signos marcários em comunidades virtuais de marcas, seguiu-se uma
agenda contemporânea dos estudos em marketing, alinhando-se à Consumer Culture
Theory (CCT), uma das mais recentes escolas de conhecimento da área, assim como
se promoveu a reflexão acerca do papel das marcas no mundo contemporâneo, tema
recorrente e profícuo no campo do marketing.
Os achados sugerem que as identidades se forjam na interação, enveredando por
capitais sociais, culturais e simbólicos que provoquem o reconhecimento do
indivíduo dentro de uma comunidade, posicionando-o como uma pessoa única e não
mais uma pessoa entre tantas outras, uma característica do contexto social pós-
moderno.
Do ponto de vista da gestão de marcas, os achados contribuem como uma
metodologia de segmentação de mercado. Ao se entender o paradigma de pesquisa
em que os achados se alinham, pode-se tornar generalizada a noção de que, em
torno de uma marca, diferentes segmentos podem relacionar-se com a marca e uns
com os outros a partir dela. Assim, a tecnologia aqui empregada pode servir
como mecanismo de identificação das identidades culturais forjadas em
comunidades de marcas, o qual pode ser utilizado por qualquer organização na
busca da identificação das identidades particulares dos participantes em sua
(s) comunidade (s), inclusive com um princípio heurístico de agrupamento, base
para a estratégia de segmentação de mercado dessas marcas, contribuindo, assim,
para a definição de táticas mais específicas de relacionamento.
Os autores agradecem ao apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), que financiou a pesquisa que deu origem a este
artigo.
COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO
(De acordo com as normas da American Psychological Association[APA])
Leão, A. L. M. de S., Ianatomi, T., & Cavalcanti, R. C. T. (2015, julho/
agosto/setembro). Diga-me onde andas, que te direi quem és: Identidades
culturais na comunidade brasileira da marca Johnnie Walker. Revista de
Administração – RAUSP, 50(3), 369-380. doi: 10.5700/rausp1206