Desenvolvimento de competências e ambiente acadêmico: um estudo em cursos de
Administração de Minas Gerais, Brasil
1. INTRODUÇÃO
As recentes mudanças políticas, econômicas e sociais da atual sociedade do
conhecimento tornaram-se grandes desafios para a modernidade. Com o advento das
tecnologias da informação e a alta competitivi dade do mundo globalizado, o
contexto organizacional tem se transformado, demandando a mobilização de
competências mais complexas e desafiadoras (Salganik,_Rychen,_Moser,_&
Konstant,_1999 ; Comini,_Konuma,_& Santos,_2008 ; Godoy_& Antonello,
2009).
O sucesso pessoal/organizacional passou a ser caracterizado por um conjunto de
competências-chave que os indivíduos devem possuir para acompanhar as
transformações socioeco nômicas, em modelos de produção mais dinâmicos e
flexíveis, fazendo emergir novas discussões sobre o desenvolvimento de
competências centrais (Fleury_& Fleury,_2001 ; Rychen_& Salganik,_2005 ;
Baartman_& _Ruijs,_2011).
Entre as principais correntes de discussões, acadêmicas e empresariais, sobre
competências, destacam-se as perspectivas: individual (competências
demandadas), organizacional (core competences) e, mais recentemente, a
perspectiva educacional (competências-chave), em debates sobre o
desenvolvimento das competências necessárias para um desenvolvimento eco nômico
e social sustentável (Weinert,_1999; Holmes_& Hooper,_2000 ; Fleury_&
Fleury,_2001 ; Sant'Anna,_2002; Bleiklie,_2005; Rychen_& Salganik,_2005;
Valimaa_& _Hoffman,_2008 ; Mulder,_Gulikers,_Biemans,_& Wesselink,_2009 ;
Young,_2010).
Sob uma perspectiva crítica, tais debates indicam um novo movimento que
mobiliza intelectuais orgânicos, tanto das instituições de ensino como das
próprias organizações, na incorporação de conteúdos de ordem política e
ideológica, historicamente relacionados com os interesses econômicos do
capitalismo. Esse avanço esclarece, inclusive, a própria ação do capital
econômico e a sua relação com outras formas de capital: o cultural e o social
(Faria_& Leal,_2005 ; Han,_2008; Souza,_J.,_2013). Em outras palavras, o
mundo do trabalho busca uma nova forma de "comoditização" do capital humano
para atender às novas exigências do "capitalismo do conhecimento", passan do a
se preocupar com novas formas de ensino, em que a noção de "competências"
desempenha um papel-chave (Han,_2008).
Percebe-se, assim, que a educação superior tem sido cha mada a dar uma resposta
aos desafios enunciados, assumindo, como função principal, o desenvolvimento de
competências capazes de preparar os indivíduos para os desafios da vida,
reinventando os processos de ensino-aprendizagem para além da formação técnica.
Essas mudanças têm desafiado as insti tuições de ensino superior (IES) para
novas práticas de ensino nos processos de formação profissional e cidadã
(Organisation_for_Economic_Cooperation_and_Development_[OECD],_2001; Bleiklie,
2005; Rychen_& Salganik,_2005 ; Barth,_Godemann,_Rieckmann,_&
Stoltenberg,_2007 ; Valimaa_& Hoffman,_2008).
Têm surgido novas discussões sobre o papel da academia em permitir aos alunos
não apenas adquirir e gerar conheci mentos, mas também refletir e mobilizar uma
complexidade de comportamentos e decisões ligados a uma vida sustentável, tanto
no âmbito profissional como no pessoal ou no social, colocando os objetivos
educacionais em metas globais para o desenvolvimento de uma aprendizagem
contínua ao longo da vida (OECD,_2001; Rychen_& Salganik,_2005 ; Barth_et
al.,_2007; Baartman_& Ruijs,_2011).
No tocante à formação do administrador, esses debates tornam-se ainda mais
importantes, devido à fragmentação do ensino ante as recentes transformações
socioeconômicas (Paiva,_Esther,_& Melo,_2004), surgindo a necessidade de
mapear as competências gerais e específicas à formação do administrador,
necessárias para a formação sistêmica dos administradores diante dos atuais
desafios da sociedade do conhecimento.
Nesse contexto, o problema de pesquisa neste artigo visa responder à seguinte
questão central: em que medida as práticas educacionais dos cursos de
bacharelado em Administração encontram-se alinhadas às competências demandadas
pela sociedade? Para atender ao problema proposto, o objetivo do estudo é
identificar, na percepção de alunos, em que medida as práticas dos cursos de
Administração encontram-se alinhadas às competências gerais e específicas
demandadas pela atual sociedade do conhecimento, tendo como propósito
evidenciar as competências menos desenvolvidas para refletir sobre as possíveis
lacunas na formação de administrador.
2. REVISÃO DA LITERATURA
A literatura sobre o estudo de competências tem se con centrado em duas
importantes correntes de pensamento: a abordagem norte-americana (McClelland,
1973; Boyatzis,_1982; Spencer_& Spencer,_1993) e a abordagem francesa
(Perrenoud,_2001; Zarifian,_2001; Le_Boterf,_2003), em estudos que tratam de
perspectivas micro (competências individuais) ou macro (competências
organizacionais). Mais recentemente, tem emergido, no âmbito acadêmico, a
abordagem educacional, em debates sobre o papel das IES na formação de
competências ligadas às dimensões econômicas, políticas e sociais (Holmes_&
Hooper,_2000 ; OECD,_2001; Istance,_2003; Bleiklie,_2005; Rychen_& Salganik,
2005 ; Valimaa_& Hoffman,_2008 ; Mulder_et_al.,2009; Young,_2010).
A abordagem norte-americana conceitua competências como sendo um conjunto
mensurável de conhecimentos, habilidades e atitudes associado a fatores
relacionados ao desempenho de tarefas ou cargos. Já na abordagem francesa,
competências passam a ser vistas como a mobilização de habilidades múltiplas em
ambientes organizacionais cada vez mais mutáveis e complexos, buscando
questionar o conceito da qualificação técnica defendido pela abordagem norte-
americana (Fleury_& Fleury,_2001 ; Lima_& Rocha,_2012).
Diante dessa diversidade de conceitos, Blas_(2007) apre senta a existência de
pelo menos quatro modelos analíticos na literatura: funcionais (habilidades
derivadas de funções); comportamentais (competências derivadas de
comportamentos de sucesso); construtivistas (competências derivadas de um
processo de discussão e debate), e holísticas (integração de todas as
habilidades necessárias).
Percebe-se que os modelos funcionais e comportamentais seguem a corrente norte-
americana, em que o foco dos estudos está centrado nas qualificações
necessárias aos cargos, visando a um desempenho superior (McClelland,_1973;
Boyatzis,_1982). O modelo construtivista segue a corrente francesa, assumindo
um conjunto de aprendizagens sociais e comunicacionais do indivíduo por meio de
práticas (Perrenoud,_2001; Zarifian,_2001; Le_Boterf,_2003). Por fim, o modelo
holístico assume bases epistemológicas sistêmicas, pois competências passam a
ser definidas como um conjunto de habilidades-chave ne cessário ao bom
funcionamento da sociedade, transcendendo as perspectivas tradicionais, ao
focar a formação do indivíduo para uma vida econômica e social sustentável
(Fleury_& Fleury,_2001 ; OECD,_2001; Rychen_& Salganik,_2005).
2.1. Competências na perspectiva educacional
A educação tem assumido um papel decisivo nas agendas internacionais,
transcendendo funções meramente cognitivas para novas perspectivas econômicas,
sociais e políticas no de senvolvimento das nações. Nas últimas décadas, o
conhecimen to vem ganhando notoriedade no ambiente organizacional sob a ótica
da aprendizagem, tornando-se um importante recurso de produção, em que empresas
buscam, por meio das compe tências centrais, capital intelectual e sistemas de
informações, obter vantagens competitivas satisfatórias (Holmes_& Hooper,
2000 ; Valimaa_& Hoffman,_2008 ; Young,_2010; Chizzotti_& Casali,_2012).
Ante essas questões, percebe-se que a preocupação com a formação profissional
ganhou novo impulso com a adoção do conceito de competência enquanto
orientadora de decisões curriculares. Estudos sobre o desenvolvimento
conceitual do termo e sua relação com o campo da educação têm adquirido notável
importância em todo o mundo, em debates sobre o papel da educação superior
diante das novas exigências da sociedade (Godoy_& Antonello,_2009 ; Lozano,
Boni,_Peris,_& Hueso,_2012).
Segundo Weinert_(1999), ao longo das últimas décadas, uma grande atenção
científica internacional foi dada à construção de competências-chave, definidas
como competências gerais que podem ser usadas para lidar com diferentes
demandas. Essas competências seriam as preocupações centrais nos processos de
ensino-aprendizagem, com vista a preparar cidadãos capa zes de resolver
diferentes problemas, em diferentes contextos situacionais. O foco deixou de
ser apenas uma categoria econômica, passando a incluir outras categorias
decisivas, capazes de assegurar o acesso a novas formas de qualificação na
competição social (Souza,_J.,_2013).
Ainda que não imune a críticas, por representar uma nova abordagem capitalista
orientada pelo aspecto funcional, e reves tida de novos conteúdos ideológicos e
valorativos (Faria_& Leal,_2005 ; Han,_2008; Souza,_J.,_2013), diversos
autores destacam que as competências-chave não devem ser tecnocráticas ou de
terminadas por decisões arbitrárias sobre quais habilidades são desejáveis,
fazendo-se necessária uma consideração cuidadosa de pré-requisitos essenciais
para uma vida de sucesso e um bom funcionamento da sociedade. Certas áreas de
competências são necessárias não apenas para o mercado de trabalho, mas tam bém
nas relações privadas, no engajamento político e assim por diante, sendo essas
competências transversais definidas como chave (Weinert,_1999; Holmes_&
Hooper,_2000 ; Gilomen,_2003; Rychen_& Salganik,_2005 ; Lozano_et_al.,_2012).
A busca por competências-chave tem sido motivada por duas questões centrais: a
hipótese de que as competências adquiridas nos ambientes acadêmicos e
profissionais são de senvolvidas e mobilizadas de formas específicas no mercado
de trabalho e na sociedade, e que a maioria das atividades, ao longo da vida,
ocorre em uma variedade de contextos sociais e profissionais. Isso tem levado à
busca pela definição das competências necessárias às diferentes demandas
sociais e organizacionais. As questões centrais que têm instigado muitos
estudiosos é saber quais são e como podem ser desenvolvidas essas competências
nos programas de ensino (Weinert,_1999).
Nesse contexto, diversos estudos sobre o termo competên cias e sua relação com
o ambiente acadêmico têm surgido nos últimos anos, buscando investigar o papel
das instituições de ensino no desenvolvimento de competências-chave. Entre as
principais iniciativas internacionais, destacam-se o Processo de Bolonha, um
espaço de discussão com vista a reformar as estruturas dos sistemas de ensino
superior europeu, o Proje to Definição e Seleção de Competências-Chave
(DeSeCo), patrocinado pela OECD, e o Projeto Tuning, realizado por consórcios
de universidades europeias e latino-americanas (Lozano_et_al.,_2012; Beneitone,
Esquetini,_González,_Maletá,_Siufi,_Wagenaar,_2007).
No tocante à formação do administrador, o Projeto Tuning tem se mostrado uma
importante referência de investigação, enfatizando quais conteúdos de formação
profissional devem ser abordados para o desenvolvimento de competências es
pecíficas em cursos de Administração. Essas competências compreendem desde
relações individuais a relações dinâmicas e complexas, relativas às práticas do
contexto interno e externo das organizações (Beneitone_et_al.,_2007).
Apesar de o Projeto Tuning também avaliar um conjunto de competências gerais
necessárias à construção da cidadania e à inserção dos profissionais no mercado
de trabalho, como proposto pelo projeto DeSeCo, sua contribuição está na defini
ção de competências específicas à formação do administrador, constituindo-se em
uma importante referência no processo de ensino-aprendizagem.
Essas novas abordagens de currículo por competências têm suscitado discussões e
proposições para um novo paradigma normativo às políticas internacionais de
educação, envolvendo instâncias governamentais, gestores dos sistemas de
educação, pesquisadores, educadores e políticos com a finalidade de encontrar
uma direção compartilhada e dar os referenciais necessários a um mundo
convulsionado pela economia, pela política e pela tecnologia, representando o
ambiente acadêmi co um importante laboratório para alunos construírem novas
competências e se desenvolverem profissionalmente (Holmes_& Hooper,_2000 ;
Bleiklie,_2005 ; Mulder_et_al.,_2009; Young,_2010; Baartman_& Ruijs,_2011 ;
Chizzotti_& _Casali,_2012).
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O estudo baseia-se em abordagem quantitativa e pesquisa de campo, sendo
utilizada, para a coleta de dados, a técnica survey, por permitir a coleta de
informações sistemáticas e padronizadas sobre a avaliação de opiniões,
conhecimentos, ati tudes e comportamentos de um grande contingente de pessoas
(Taylor-Powell_& Hermann,_2000). Trata-se de uma pesquisa descritiva, uma
vez que se buscou identificar a frequência e as características mais
representativas das percepções dos respon dentes, tanto em relação ao perfil da
amostra como em relação aos diferentes graus de competências desenvolvidos
durante o período de formação acadêmica (Vergara,_2005).
Com o propósito de testar as escalas e verificar os possíveis problemas de
compreensão, duração e sequência das questões, foram aplicados 96 questionários
aos alunos do terceiro ano dos cursos de bacharelado em Administração de três
IES mineiras (uma pública e duas privadas), como etapa de pré-teste, realizada
entre os meses de julho e agosto de 2013. Nessa fase, foi solicita do que os
respondentes comentassem as possíveis dificuldades de entendimento, sequência
das questões e sugestões de melhoria, obtendo, ao final, o retorno de 91
questionários respondidos.
Definido o público-alvo, o contato prévio com as insti tuições de ensino, as
variáveis de estudo e a versão final do instrumento de coleta de dados, a
pesquisa foi realizada com uma amostra não probabilística e, por conveniência,
formada por alunos do quarto ou quinto ano dos cursos de bacharelado em
Administração em instituições públicas e privadas do sul de Minas Gerais. Foram
aplicados 420 questionários, entre os meses de setembro e outubro de 2013, aos
alunos dos cursos de Administração de seis instituições de ensino superior do
sul de Minas Gerais, sendo duas públicas e quatro privadas. Desse total,
obteve-se o retorno de 391 questionários preenchidos.
O levantamento de dados foi composto por questionários estruturados, divididos
em duas seções principais: a seção I, com posta por questões demográficas
(categóricas), com o propósito de caracterizar o perfil dos respondentes, e a
seção II, composta por questões preditoras, para avaliar, na percepção dos
alunos, em que medida as competências gerais e específicas à formação do
administrador têm sido desenvolvidas pela academia.
As questões demográficas foram compostas pelas variáveis: tipo de instituição
de ensino, sexo, faixa etária, estado civil, local em que os alunos cursaram o
ensino médio (público/ privado), principais motivações pelo curso de
Administração, pretensões futuras, experiência profissional na área administra
tiva, setor de atuação, porte de empresa e realização de estágio.
As questões preditoras foram compostas por dois conjun tos de variáveis: o
conjunto das competências gerais, cons truído a partir de categorias comuns
entre as competências individuais requeridas, definidas por Sant'Anna_(2002), e
as competências-chave, propostas pelo projeto DeSeCo (Rychen_& Salganik,
2005), além do conjunto das competências espe cíficas, construído a partir das
competências básicas da forma ção do administrador, propostas pelas diretrizes
curriculares nacionais dos cursos de Administração (Conselho_Nacional_de
Educação,_2005), e as competências do administrador, propostas pelo projeto
Tuning - América Latina (Beneitone_et_al.,_2007).
Ademais, cabe ressaltar que a coleta de dados se deu por meio de escalas tipo
Likert, variando de 0 (não desenvolvido) a 10 (fortemente desenvolvido), sendo
o tipo de escala mais apropriada identificada na etapa de pré-teste. Para o
tratamento dos dados, foi utilizado o pacote estatístico SPSS® (Statistical
Package for the Social Sciences).
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
A amostra foi composta por duas IES públicas e quatro IES privadas. O total de
respondentes de IES públicas corresponde a 113 alunos (28,9%), enquanto o total
de respondentes de IES privadas corresponde a 278 alunos (71,9%). Em relação ao
perfil dos respondentes, percebe-se que a maioria é do sexo feminino (58,5%),
solteiros (83,3%), com faixa etária entre 21 a 25 anos (66,3%) e cursaram o
ensino médio em escolas públicas (65,1%).
No que diz respeito às principais motivações pelo curso de bacharelado em
Administração, destacam-se o interesse pessoal pela profissão (41,6%) e a busca
pela ascensão pro-fissional (28,5%). Identifica-se, ainda, um alto percentual
de respondentes que optaram por indecisão na carreira ou falta de opção
(24,6%).
Questionados sobre as pretensões futuras, a maioria dos respondentes afirmou a
intenção de continuar estudando na área (71,8%), seja em cursos de
especialização para aperfei çoar as competências profissionais ou cursos de
mestrado para seguir a carreira acadêmica. Os demais respondentes (28,2%)
afirmaram a intenção de apenas trabalhar na área para ganhar experiência. O
alto percentual de respondentes que afirmaram apenas trabalhar pode ser
explicado pela alta taxa de respon dentes que nunca trabalharam na área
(12,3%), trabalharam menos de um ano (14,6%) ou já trabalharam na área, porém
não atuam no momento (12,8%). Juntos, esses respondentes representam 39,7 % dos
alunos pesquisados.
Dentre os respondentes que já tiveram algum tipo de expe riência profissional,
percebe-se certo equilíbrio nos setores de atuação, com destaque para o setor
da indústria com 37,6% e o setor de serviços com 30,2% das respostas.
Complementam a pesquisa o setor de comércio e o setor público com 22,8% e 9,4%
das respostas, respectivamente. Já em relação ao porte das empresas, predominou
a atuação em grandes empresas (45,4%), seguidas por micro e pequenas empresas
(43,1%), organizações públicas (9,7%) e serviço autônomo (1,8%).
Por fim, questionados sobre a realização de estágios na área administrativa,
66,8% dos respondentes afirmaram já ter reali zado estágio na área, 16,2%
afirmaram estar realizando estágio no momento da pesquisa e 17% dos
respondentes afirmaram não ter realizado estágio na área. O alto percentual de
alunos que estão realizando ou já realizaram estágio na área (83%) se justifica
pelo fato de a pesquisa ser realizada com alunos do quarto ou quinto ano, sendo
o estágio um requisito obrigatório para a conclusão do curso em todas as IES
pesquisadas.
4.1. Análise descritiva dos dados
Seguindo procedimento metodológico adotado por Sant'Anna_(2002) e tendo como
base as recomendações de Hair,_Anderson,_Tatham,_Black_e_Babin_(2009), em
relação à adoção de técnicas estatísticas multivariadas, inicialmente foi
realizada uma análise exploratória nos dados coletados. Nessa fase foram
identificados e excluídos quatro casos com dados ausentes (missing) e 11 casos
com dados extremos (outliers), fora do intervalo padrão de [-3,50 a 3,50].
Desconsiderados os casos, a amostra final resultou no total de 376 observações.
Agrupando as médias atribuídas pelos respondentes sobre o desenvolvimento das
competências gerais durante a formação acadêmica, é possível identificar que as
competências mais desenvolvidas têm sido o comprometimento e responsabilida de
(8,50), a capacidade de cooperação e trabalho em equipe (8,29) e a capacidade
de relacionamento interpessoal (7,93), conforme apresentado na Tabela_1. Os
resultados corroboram os estudos de Sant'Anna_(2002) e Benevides,_Santos_e
Dultra_(2009), os quais identificaram que as competências gerais mais
demandadas pelas organizações têm sido a capacidade de comprometimento e
responsabilidade, o relacionamento interpessoal e o trabalho em equipe,
indicando que os cursos pesquisados têm desenvolvido melhor as competências
reco nhecidas como as mais demandadas.
Tabela 1 Escores Médios das Competências Gerais Desenvolvidas no Ambiente
Acadêmico
Competências Gerais Escores Desvio
Médios Padrão
Comprometimento e responsabilidade 8,50 1,84
Capacidade de cooperação e trabalho em equipe 8,26 1,81
Capacidade de relacionamento interpessoal 7,93 1,97
Formação cidadã crítica (reconhecer direitos e deveres na 7,65 2,16
sociedade)
Capacidade de comunicação 7,63 2,00
Iniciativa de ação e decisão 7,45 2,11
Capacidade de gerar resultados efetivos 7,25 1,90
Planejar e conduzir planos de vida e projetos pessoais 7,23 2,21
Interpretar textos, gráficos, símbolos e números 7,19 2,06
Visão de mundo ampla e global 7,05 2,06
Capacidade de lidar com situações novas e inusitadas 7,00 2,12
Capacidade de resolver conflitos 6,89 2,00
Aprender e aplicar novos conceitos e tecnologias 6,84 2,02
Domínio de novos conhecimentos técnicos ligados à profissão 6,82 2,04
Criatividade 6,77 2,15
Capacidade empreendedora 6,68 2,40
Capacidade de inovação 6,63 2,17
Autocontrole emocional 6,56 2,42
Capacidade de lidar com incertezas e dúvidas 6,50 2,11
Investigação científica 5,66 2,66
Índice de Competências Gerais Desenvolvidas (ICGD) 7,13
No grupo das competências menos desenvolvidas, a ca pacidade de investigação
científica foi a competência com o menor escore médio identificado (5,66). O
baixo nível de desenvolvimento dessa competência torna-se algo preocupante,
pois Odelius_e_Sena_(2009) afirmam que o contato com as ativi dades de
investigação científica oportuniza o desenvolvimento de competências
complementares, tais como: relacionamento interpessoal; competências técnicas
de leitura e interpretação de textos; habilidades de comunicação e redação de
textos científicos; comportamentos e atitudes, como disciplina, ética,
proatividade e raciocínio lógico; processamento de dados, e aspectos gerenciais
como visão estratégica e sistêmica.
O teste de igualdade das médias (ANOVA) indicou que o desenvolvimento de oito
competências gerais se mostra dife rente entres os grupos investigados:
interpretar textos, gráficos, símbolos e números; capacidade de comunicação;
capacidade de cooperação e trabalho em equipe; capacidade de resolver
conflitos; capacidade empreendedora; criatividade; formação cidadã crítica;
capacidade de relacionamento interpessoal. Essas competências foram
significativas ao nível de 5% pelo teste F, conforme apresentado na Tabela_2.
Tabela 2 Testes de Igualdade das Médias entre IES Públicas e Privadas
(Competências Gerais)
Variáveis F Sig.
Interpretar textos, gráficos, símbolos e númer50,34 0,000
Capacidade de comunicação 22,01 0,000
Capacidade de cooperação e trabalho em equipe 14,81 0,000
Capacidade de resolver conflitos 9,56 0,002
Capacidade empreendedora 4,71 0,031
Criatividade 4,38 0,037
Formação cidadã crítica 4,12 0,043
Capacidade de relacionamento interpessoal 4,06 0,045
Entre as competências gerais, percebe-se que as competên cias relacionadas à
interpretação de textos, gráficos, símbolos e números, à capacidade de
comunicação, de cooperação, de trabalho em equipe, de resolver conflitos, à
capacidade empre endedora, e à capacidade de relacionamento interpessoal foram
mais percebidas entre os alunos de IES públicas pesquisados. Por outro lado, as
competências relacionadas à criatividade e à formação cidadã crítica foram mais
percebidas entre os alunos de IES privadas, indicando diferentes perfis de
formação.
Em relação às competências específicas à formação do administrador, é possível
identificar que as competências mais desenvolvidas nas IES pesquisadas têm sido
as competências relacionadas a administração e valorização do talento humano
(7,65), os conhecimentos éticos e culturais no ambiente orga nizacional (7,55)
e a capacidade de liderança (7,45), conforme apresentado na Tabela_3. Tais
resultados corroboram os estudos de Godoy_e_Antonello_(2009), os quais
identificaram, também pela percepção de alunos, que as competências
relacionadas à valorização e à liderança de pessoas e ao comportamento ético
nas organizações são as competências mais adquiridas nos cursos de
Administração.
Tabela 3 Escores Médios das Competências Específicas Desenvolvidas no Ambiente
Acadêmico
Competências Específicas Escores Desvio
Médios Padrão
Administrar e valorizar o talento humano na organização 7,65 2,20
Conhecimentos éticos e culturais no ambiente organizacional 7,55 2,08
Capacidade de liderança 7,45 2,15
Capacidade de identificar as inter-relações funcionais da organizaçã 7,02 1,89
Capacidade de identificar e administrar riscos 6,98 1,82
Usar a informação de custos para o planejamento e tomadas de decisões 6,97 2,21
Capacidade de desenvolver plano estratégico, tático e operacional 6,88 1,97
Capacidade de negociação 6,87 2,14
Utilizar tecnologias da informação nos processos de gestão 6,85 2,11
Tomar decisões de investimento, financiamento e recursos financeiros 6,82 2,32
Capacidade de aliar teoria e prática no ambiente organizacional 6,80 2,14
Capacidade de elaborar e administrar projetos organizacionais 6,76 1,97
Capacidade de formular estratégias de marketing 6,76 2,17
Desenvolver, implementar e gerenciar sistemas administrativos 6,72 2,05
Capacidade de planejamento e controle de produção 6,58 2,24
Interpretação de informações contábeis para a tomada de decisões 6,51 2,37
gerenciais
Capacidade para realizar consultoria em gestão e administração 6,22 2,68
Capacidade de gerir sistemas de informação 6,12 2,19
Capacidade de administrar um sistema logístico integral 6,04 2,19
Conhecimento do marco jurídico aplicado à gestão empresarial 5,43 2,05
Índice de Competências Específicas Desenvolvidas (ICED) 6,75
Entre as competências menos desenvolvidas, identificou-se que o conhecimento do
marco jurídico aplicado à gestão em presarial (5,43), a capacidade de gerenciar
um sistema logístico integral (6,04) e a capacidade de gerir sistemas de
informação (6,12) foram as competências menos reconhecidas pelos alunos
pesquisados. Tais resultados se alinham ao estudo de Brasil_(2009), que
identificou a necessidade de planejamento das IES no desenvolvimento de
competências relacionadas à legislação, às finanças, à logística e ao mercado
global.
O teste ANOVA indicou que o desenvolvimento de nove competências específicas se
mostra diferente entres os grupos investigados: interpretação de informações
contábeis para a tomada de decisões; uso de informações de custos para o
planejamento e tomada de decisões; realização de consultoria em gestão;
elaboração e administração de projetos; decisões de investimentos e
financiamentos; formulação de estratégias de marketing ; identificação de
inter-relações funcionais; gestão de sistemas de informação, e utilização de
tecnologias da informação nos processos de gestão. Os resultados foram
significativos a 5% pelo teste F, conforme Tabela_4.
Tabela 4 Testes de Igualdade das Médias entre IES Públicas e Privadas
(Competências Específicas)
Variáveis F Sig.
Interpretação de informações contábeis para a tomada de deci57,784 0,000
Usar a informação de custos para o planejamento e tomada de 28,457 0,000
decisões
Capacidade para realizar consultoria em gestão e administração25,797 0,000
Capacidade de elaborar e administrar projetos organizacionais 22,077 0,000
Tomar decisões de investimento, financiamento e recursos 19,019 0,000
financeiros
Capacidade de formular estratégias de marketing 18,863 0,000
Identificar as inter-relações funcionais da organização 10,227 0,002
Capacidade de gerir sistemas de informação 4,389 0,037
Utilizar tecnologias da informação nos processos de gestão 4,287 0,039
Comparando os níveis de percepções das competências específicas, percebe-se que
as competências a seguir foram mais reconhecidas pelos alunos das IES públicas
pesquisadas: capacidade de interpretação de informações contábeis para a tomada
de decisões; capacidade de usar a informação de custos para o planejamento e
tomada de decisões; capacidade para realizar consultoria em gestão e
administração; capacidade de elaborar e administrar projetos organizacionais;
capacidade de tomar decisões de investimentos, financiamentos e recursos
financeiros; capacidade de formular estratégias de marketing ; e capacidade de
identificar as inter-relações funcionais da organização.
Por outro lado, as competências relacionadas à capacidade de gerir sistemas de
informação e a utilização das tecnologias da informação nos processos de gestão
foram melhor reconhe cidas por alunos das IES privadas, indicando diferentes
perfis de formação e desenvolvimento de competências nas IES pesquisadas. Nas
demais variáveis, os testes F não rejeitaram a hipótese nula de que as médias
entre os grupos são semelhantes, indicando que essas competências sofreram
pouca variação na percepção dos alunos, não representando, estatisticamente,
diferenças significativas de percepções entre os grupos de respondentes de IES
públicas e privadas.
4.2. Análise fatorial das competências gerais
Com o propósito de testar a dimensionalidade das escalas e analisar subgrupos
de competências mais e/ou menos desen volvidas nos cursos de Administração,
procedeu-se à análise fatorial com o objetivo de reduzir os conjuntos das
competên cias gerais e específicas em fatores latentes, capazes de manter a
unidimensionalidade das medidas. Essa técnica geralmente é usada para
simplificar informações, por meio do agrupamento de variáveis correlacionadas
entre si, possibilitando a criação de indicadores não observados (Maroco,_2007;
Fávero,_Belfiore,_Silva,_& Chan,_2009 ; Hair_et_al.,_2009).
Inicialmente, procedeu-se ao teste de normalidade Kolmo gorov Smirnov,
rejeitando a hipótese nula de que as variáveis analisadas seguem uma
distribuição normal. A violação à premissa da normalidade não inviabiliza a
análise multivaria da, muito embora possa enfraquecê-la, constituindo essa uma
limitação da pesquisa (Sant'Anna,_2002).
Para facilitar o agrupamento dos fatores, utilizou-se o método dos componentes
principais por meio da matriz rota cionada pelo método Varimax. O objetivo da
matriz rotacio nada é aumentar a discriminação entre os fatores, no sentido de
que cada variável sofra maior influência de determinado fator e menos de outro,
facilitando, assim, o agrupamento dos subgrupos de competências (Fávero_et_al.,
2009; Hair_et_al.,_2009).
A matriz rotacionada agrupou as variáveis em quatro componentes principais que,
acumulados, explicam 52,16% da variância total. Os componentes principais
extraídos pela análise fatorial, as cargas fatoriais de cada variável e os
testes das consistências internas pelo coeficiente Alpha de Cronbach podem ser
observados na Tabela_5.
Tabela 5 Resultado da Análise Fatorial (Competências Gerais)
Variáveis Componentes
1 2 3 4
Formação cidadã crítica 0,701
Planejar e conduzir planos de vida e projetos pessoais 0,688
Autocontrole emocional 0,634
Capacidade de resolver conflitos 0,626
Capacidade de lidar com situações novas e inusitadas 0,523
Iniciativa de ação e decisão 0,440
Capacidade de inovação 0,747
Capacidade empreendedora 0,668
Criatividade 0,576
Domínio de novos conhecimentos técnicos ligados à 0,557
profissão
Capacidade de lidar com incertezas e dúvidas 0,524
Capacidade de comunicação 0,678
Capacidade de cooperação e trabalho em equipe 0,660
Capacidade de relacionamento interpessoal 0,551
Comprometimento e responsabilidade 0,523
Capacidade de aprender e aplicar novos conceitos e 0,509
tecnologias
Capacidade de gerar resultados efetivos 0,449
Investigação científica 0,761
Visão de mundo ampla e global 0,550
Capacidade de interpretar textos, gráficos, símbolos e 0,479
números
Alpha de Cronbach de cada Fator 0,81 0,73 0,76 0,50
Porcentagem da variância do Fator 15,38 15,22 13,58 7,98
Porcentagem total da variância explicada 52,16
Em relação aos testes de adequação da amostra, os resulta dos apontaram um
coeficiente Kaiser-Meier-Olkin (KMO) de 0,908, o que Hair_et_al._(2009)
consideram um valor excelente para análise fatorial. O teste de esfericidade de
Bartlett rejeitou a hipótese nula de que não existem correlações entre as
variáveis, sendo significativo a 1%, indicando que a amostra é adequada para o
uso da análise fatorial.
A matriz de correlação indicou que a maioria das correla ções calculadas, não
inclusos os valores da diagonal, apresen taram valores iguais ou superiores a
0,30, apontando a presença de indicadores relevantes. Percebe-se, ainda, que
95,26% das correlações são significativas ao nível de 1% pelo coeficiente de
correlação de Pearson, sendo as demais correlações (4,74%) significativas ao
nível de 5%, indicando que os dados seguem a premissa de linearidade. Em
relação à matriz de anti-imagem, os resultados indicaram que todas as variáveis
apresentaram medidas de adequação da amostra elevadas (superiores a 0,80). Além
disso, as correlações parciais revelaram-se, na maior parte dos casos,
pequenas.
Quanto aos níveis de comunalidade (grau em que os itens da escala encontram-se
associados à combinação linear dos fatores extraídos), percebe-se que as
variáveis visão de mundo ampla e global, comprometimento e responsabilidade,
capacidade em preendedora, capacidade de aprender e aplicar novos conceitos e
tecnologias, e autocontrole emocional apresentaram valores abaixo de 0,500, o
que, segundo Hair_et_al._(2009), incorre no risco de não apresentar explicação
suficiente na variabilidade dos dados. No entanto, optou-se por manter essas
variáveis no modelo pelo fato de elas apresentarem valores bem próximos a
0,500, mesmo que tal decisão implique uma limitação do estudo.
Importante destacar que, nos componentes 1, 2 e 3, os testes das consistências
internas apresentaram coeficiente Alpha de Cronbach superior a 0,70, valor
considerado adequado. No entanto, o componente 4 apresentou um Alfa de Cronbach
de apenas 0,50, valor abaixo do limite mínimo aceitável que, segundo Hair_et
al._(2009), pode chegar a 0,60 em pesquisas exploratórias. Tal fato representa
uma limitação da pesquisa. O agrupamento das variáveis permite interpretar os
fatores obtidos com a nomeação e as características apresentadas na Figura_1.
Figura 1 Descrição dos Fatores (Competências Gerais)
Componentes Principais Descrição do Fator
Conjunto de competências necessárias à formação de pessoas com um nível de
Componente 1 maturidade capaz de administrar as pressões sociais, lidar com situações novas e
Competências de reflexão e decisão inusitadas, elaborar projetos de vida pessoais e ter iniciativas de decisões
(Rychen_& Salganik,_2005).
Conjunto de competências relacionadas à capacidade dos indivíduos para inovar, ser
Componente 2 criativo, dominar conhecimentos técnicos relacionados à profissão e tomar decisões
Competências empreendedoras ante as incertezas e dúvidas (Mitchelmore_& Rowley,_2010 ; Zuazo,_2010; Nassif,
Amaral,_& Prando,_2012).
Componente 3 Conjunto de competências necessárias à interação social. Representam os requisitos
Competências sociais essenciais para novos aprendizados e ganhos coletivos (Rychen_& Salganik,
2005; Godoy_& Antonello,_2009).
Conjunto de competências relacionadas à capacidade de manifestar ideias de modo
Componente 4 claro e objetivo, raciocinando de forma lógica, analítica e crítica, além de
Competências de investigação científica identificar questões científicas a fim de investigar e compreender o mundo por
meio de visões amplas e globais (Rychen_& Salganik,_2005 ; Godoy_&
Antonello,_2009).
Com o propósito de mensurar os agrupamentos da análise fatorial quanto ao
desenvolvimento das competências gerais, calculou-se o Índice de Competências
Gerais Desenvolvidas (ICGD) para cada componente, conforme apresentado na
Tabela_6.
Tabela 6 Competências Gerais: Média dos Agrupamentos da Análise Fatorial
ICGD* Reflexão e DecisãEmpreendedoras Sociais Investigação Científica
7,13 6,68 7,74 6,63
Nota: O símbolo * indica o Índice de Competências Gerais Desenvolvidas,
representando a média dos escores atribuídos pelas variáveis de cada componente
principal.
Os resultados revelam que as competências sociais têm sido o conjunto de
competências mais desenvolvido nos cursos pesquisados, atingindo um ICGD de
7,74. Tal resultado indica que os cursos de Administração, histórica e
geograficamente pesquisados, têm valorizado as competências relacionadas à
comunicação, à capacidade de cooperação e trabalho em equipe, à capacidade de
relacionamento interpessoal, além do comprometimento e responsabilidade. Esse
resultado corrobora os estudos de Godoy_e_Antonello_(2009), os quais
identificaram que os cursos de Administração têm privilegiado o desenvol
vimento de competências sociais. Os autores ressalvam que a percepção maior
desse conjunto de competências deve-se, fundamentalmente, às experiências
extraclasses que, de certa forma, promovem aprendizados informais mais
reconhecidos.
Entre os fatores menos desenvolvidos, identificou-se que os conjuntos de
competências de investigação científica (6,63) e empreendedoras (6,68)
representam os menores ICGD, sendo parcialmente desenvolvidos no ambiente
acadêmico. A baixa percepção de desenvolvimento das competências empreende
doras corrobora os estudos de Souza,_D._L.,_Corrêa,_Sousa,_e_Zambalde_(2013),
os quais identificaram que o conjunto de competências empreendedoras tem sido
pouco desenvolvido em cursos de Administração.
Formar pessoas empreendedoras sempre foi um desafio para a sociedade,
especialmente no ambiente acadêmico, que carece de modelos de ensino mais
dinâmicos e menos funcionalistas. Diante de uma sociedade cada vez mais mutável
e complexa, a mobilização de competências empreendedoras, que permita aos
indivíduos inovar e lidar com as incertezas, torna-se essencial para
estabelecer um quadro de competências adequado (Fleury_& Fleury,_2001 ;
Rychen_& _Salganik,_2005).
No entanto, como as instituições de ensino podem desen volver melhor as
competências empreendedoras num sistema capitalista burocratizado e avesso a
riscos? Nassif_et_al._(2012) orientam sobre a necessidade de implementação de
uma pe dagogia empreendedora, capaz de transformar a formação de "empregados"
em "empreendedores", não apenas para os negócios, mas principalmente para o
desenvolvimento pleno na vida. Para isso, torna-se essencial uma gestão
educacional dinâ mica, estratégica, integradora e com características
inovadoras.
No entanto, Mitchelmore_e_Rowley_(2010)destacam diver sos desafios a serem
superados diante da necessidade de diferen ciar, mensurar e identificar quais
competências empreendedoras devem ser estimuladas em diferentes contextos e
comporta mentos pessoais, compreendendo o impacto do desenvolvi mento dessas
competências não apenas no aspecto econômico (desempenho dos negócios), mas
também no aspecto pessoal e comunitário. Outra questão importante é saber se é
possível priorizar algumas competências em detrimento de outras.
Em relação ao desenvolvimento do grupo de competên cias relacionadas à
investigação científica, a literatura tem se mostrado escassa. Teixeira,_Vitcel
e_Lampert_(2008) apontam a importância do desenvolvimento desse conjunto de
competên cias no ensino superior, já que auxiliaria no futuro profissional,
especialmente na área de Administração, elevando o grau de aprendizado, ao
desenvolver novas competências e oportuni zando um diferencial para integrar-se
ao mundo do trabalho.
Já Rychen_e_Salganik_(2005) e Godoy_e_Antonello_(2009) asseveram que a
capacidade de identificar e aplicar o conheci mento científico permite melhor
investigação e compreensão do mundo por meio de visões amplas e globais,
formando indivíduos capazes de manifestar ideias de modo claro e obje tivo,
raciocinando de forma lógica, analítica e crítica. Assim, os programas de
iniciação científica podem ser entendidos como um recurso poderoso na formação
de administradores, constituindo um canal adequado para a formação de
estudantes com perfil crítico, sistemático e questionador.
4.3. Análise fatorial das competências específicas
A matriz rotacionada agrupou as variáveis em quatro componentes principais que,
acumulados, explicam 58,97% da variância total. Os componentes principais
extraídos pela análise fatorial, as cargas fatoriais e os testes das
consistências internas dos componentes pelo coeficiente Alpha de Cronbach podem
ser observados na Tabela_7.
Tabela 7 Resultado da Análise Fatorial (Competências Específicas)
Variáveis Componentes
1 2 3 4
Desenvolver plano estratégico, tático e operacional 0,686
Capacidade de identificar e administrar riscos 0,684
Desenvolver, implementar e gerenciar sistemas 0,672
administrativos
Capacidade de administrar um sistema logístico integral 0,623
Capacidade de aliar teoria e prática no ambiente 0,586
organizacional
Capacidade de negociação 0,584
Capacidade para realizar consultoria em gestão e 0,560
administração
Capacidade de planejamento e controle de produção 0,458
Identificar as inter-relações funcionais da organização0,414
Interpretação de informações contábeis para tomada de 0,837
decisões
Usar a informações de custos p/ planejamento e tomadas de 0,831
decisões
Tomar decisões de investimento, financ. e recursos 0,769
financeiros
Capacidade de formular estratégias de marketing 0,483
Capacidade de elaborar e administrar projetos 0,465
organizacionais
Administrar e valorizar o talento humano na organização 0,791
Conhecimentos éticos e culturais no ambiente 0,769
organizacional
Capacidade de liderança 0,579
Utilizar as tecnologias da informação nos processos de 0,796
gestão
Capacidade de gerir sistemas de informação 0,781
Conhecimento do marco jurídico aplicado à gestão 0,494
empresarial
Alpha de Cronbach de cada Fator 0,86 0,83 0,71 0,75
Porcentagem da variância do Fator 19,08 16,90 11,52 11,47
Porcentagem total da variância explicada 58,97
Em relação aos testes de adequação da amostra, os resul tados apontaram um
coeficiente Kaiser-Meier-Olkin (KMO) de 0,921, o que Hair_et_al._(2009)
consideram excelente para a análise fatorial. O teste de esfericidade de
Bartlett rejeitou a hipótese nula de que não existem correlações entre as
variáveis, sendo significativo a 1%, indicando que os dados se mostram
adequados para o uso da análise fatorial.
A matriz de correlação evidencia que a maioria das correla ções calculadas
(78,95%), não inclusos os valores da diagonal, apresentaram valores iguais ou
superiores a 0,30, apontando a presença de indicadores relevantes. Evidencia-
se, ainda, que 100% das correlações são significativas ao nível de 1% pela
correlação de Pearson, permitindo aferir que o conjunto das competências
específicas atende à premissa da linearidade. A matriz de anti-imagem indica
que todas as variáveis apresen taram medidas de adequação da amostra elevadas
(superiores a 0,80) e correlações parciais, na maior parte dos casos, pequenas.
Em relação aos níveis de comunalidade, algumas variáveis apresentaram valores
inferiores a 0,500, o que, segundo Hair_et_al._(2009), incorre no risco de não
apresentar explicação suficiente na variabilidade dos dados. No entanto, optou-
se por manter essas variáveis na análise, mesmo que tal decisão implique uma
limitação da pesquisa. Importante destacar que, em todos os componentes
extraídos pela análise fatorial, os testes das consistências internas
apresentaram um coeficiente Alpha de Cronbach superior a 0,70, atendendo aos
requisitos de confiabilidade (Hair_et_al.,_2009). O agrupamento das vari áveis
permite interpretar os fatores obtidos com a nomeação e as características
apresentadas na Figura_2.
Figura 2 Descrição dos Fatores (Competências Específicas)
Componentes Principais Descrição do Fator
Componente 1 Conjunto de competências relacionadas às habilidades cognitivas necessárias ao
Competências de gestão trabalho e ao desempenho da profissão. Representa as competências gerenciais do
administrador (Godoy,_Antonello,_Bido,_& Silva,_2009).
Conjunto de competências relacionadas ao conhecimento específico dos processos
Componente 2 organizacionais e à aplicação desses conhecimentos por meio do raciocínio lógico,
Competências técnicas crítico e analítico de valores e formulações matemáticas, presentes nas relações
formais e causais dos fenômenos produtivos, administrativos e de controle
(Conselho_Nacional_de_Educação,_2005).
Componente 3 Conjunto de competências relacionadas à valorização do relacionamento
Competências humanas interpessoal, à diversidade humana, ao multiculturalismo, ao compromisso ético e
à capacidade de desenvolver equipes (Godoy_& Antonello,_2009 ; Zuazo,_2010).
Componente 4 Conjunto das competências relacionadas ao conhecimento do marco jurídico aplicado
Competências legal-tecnológicas à gestão e ao uso das diferentes tecnologias no gerenciamento das informações.
Com o propósito de mensurar os agrupamentos quanto ao desenvolvimento das
competências específicas nos cursos de Administração, calculou-se o Índice de
Competências Específicas Desenvolvidas (ICED), conforme apresentado na Tabela
8.
Tabela 8 Competências Específicas: Média dos Agrupamentos da Análise Fatorial
ICGD* GestãoTécnicasHumanas Legal-Tecnológicas
6,68 6,76 7,55 6,13
Nota: O símbolo * indica o Índice de Competências Gerais Desenvolvidas,
representando a média dos escores atribuídos pelas variáveis de cada componente
principal.
Pelos resultados, percebe-se que as competências huma nas têm sido o conjunto
de competências mais desenvolvido nos cursos de Administração, histórica e
geograficamente pesquisados, atingindo um ICED de 7,55, indicando que, nos
cursos pesquisados, tem sido valorizado o desenvolvimento de competências
relacionadas à valorização dos recursos humanos, à capacidade de liderar
pessoas, além dos aspectos éticos e culturais da organização. Tais resultados
corroboram os resultados evidenciados no conjunto das competências gerais e nos
estudos de Godoy_e_Antonello_(2009), indicando que os cursos de Administração
têm privilegiado o desenvolvimento de competências relacionadas à interação
humana e social.
Já o conjunto das competências menos desenvolvidas refere-se às competências
legal-tecnológicas, o qual apresenta um ICED de apenas 6,13, sendo parcialmente
desenvolvido nos cursos de Administração pesquisados. Parte desse resultado
pode ser explicado pelas baixas médias atribuídas às seguintes competências:
capacidade de gerir sistemas de informação e conhecimento do marco jurídico
aplicado à gestão empresarial.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A principal contribuição deste estudo foi investigar, a partir da percepção dos
alunos, em que medida as competências gerais (Sant'Anna,_2002; Rychen_&
Salganik,_2005) e específicas à formação do administrador (Conselho_Nacional_de
Educação,_2005; Beneitone_et_al.,_2007) foram desenvolvidas durante o período
de formação acadêmica.
Agrupadas as competências gerais em fatores latentes, identificou-se que as
competências sociais têm sido o grupo de competências mais desenvolvido no
ambiente acadêmico, indicando que, nos cursos de Administração pesquisados, têm
sido valorizadas as competências relacionadas à capacidade de cooperação e
trabalho em equipe, capacidade de relacionamento interpessoal, além do
comprometimento e responsabilidade, conforme apontado em estudos de Sant'Anna_
(2002), Benevides_et_al._(2009) e Godoy_e_Antonello_(2009).
Por outro lado, a análise fatorial confirmou que as competên cias
empreendedoras e a capacidade de investigação científica têm sido pouco
desenvolvidas durante o período de formação acadêmica nas IES investigadas.
Destaca-se, assim, a necessida de de estimular uma cultura empreendedora capaz
de promover práticas de ensino interdisciplinares, visando conciliar teoria e
prática em atividades de aprendizagem que fazem sentido ao contexto e ao
ambiente real em que os alunos estão inseridos. Por outro lado, torna-se
essencial desenvolver atividades de pesquisa científica, promover encontros
acadêmicos e científicos e estimular os alunos a participar de núcleos de
pesquisa e de inovação tecnológica, para promover o aprendizado e a reflexão no
estabelecimento de um quadro de competências adequado (Rychen_& Salganik,
2005 ; Nassif_et_al.,_2012).
Em relação às competências específicas à formação do ad ministrador, a análise
fatorial identificou que as competências humanas têm sido o conjunto de
competências mais desenvol vido nas IES pesquisadas, corroborando os estudos de
Godoy_e_Antonello_(2009), ao afirmarem que os cursos deAdministração têm
privilegiado o desenvolvimento de competências relacio nadas à interação
social. Já as competências legal-tecnológicas representaram as competências
menos reconhecidas pelos alunos, surgindo a necessidade de os gestores
educacionais desenvolverem melhor as competências de legislação aplicada a
gestão, logística e mercado global (Brasil,_2009).
Comparando os escores médios dos respondentes de IES públicas e privadas, foram
identificados, pela análise de vari ância (ANOVA), diferentes perfis de
formação. Em relação às competências gerais, os alunos de IES públicas têm
percebido um desenvolvimento melhor das competências relacionadas a:
interpretação de textos, gráficos, símbolos e números; capacidade de
comunicação; capacidade de cooperação e trabalho em equipe; capacidade de
resolver conflitos; capacidade empreendedora, e capacidade de relacionamento
interpessoal. Já os respondentes de IES privadas têm reconhecido melhor as
competências relacionadas à criatividade e à formação cidadã crítica.
Em relação às competências específicas, os alunos de IES públicas pesquisados
têm reconhecido melhor as competências relacionadas à interpretação de
informações contábeis para a tomada de decisões, ao uso da informação de custos
para o planejamento e tomadas de decisões, à capacidade de realizar consultoria
em gestão e administração, à capacidade de elaborar e administrar projetos
organizacionais, à capacidade de tomar decisões de investimentos,
financiamentos e recursos financeiros, à capacidade de formular estratégias de
marketing, e à capacidade de identificar as inter-relações funcionais da
organização. Por outro lado, os alunos de IES privadas reconhecem melhor o de
senvolvimento da capacidade de gerir sistemas de informação e a utilização das
tecnologias da informação nos processos de gestão.
Diante dos escores médios identificados, os resultados permitem concluir que as
práticas evidenciadas nos cursos de Administração, histórica e geograficamente
pesquisados, não têm acompanhado as demandas pelas competências gerais e
específicas destacadas na literatura, surgindo a necessidade de os gestores
educacionais refletirem sobre a formação dos administradores, de modo que os
indivíduos possam ser inte grados na sociedade em sua totalidade, respeitando
os valores de uma democracia participativa (Rychen_& Salganik,_2005 ;
Martínez_& _Carmona,_2009).
Dessa maneira, neste estudo pode-se contribuir para a avaliação e o
questionamento sobre os tradicionais modelos de currículos, considerando a
formação de competências como algo que transcende a qualificação técnica ou
social, surgindo a necessidade de desenvolver outras competências, além do en
sino formal, capazes de refletir novos conhecimentos informais e implicitamente
úteis fora do ambiente acadêmico para uma formação sistêmica (Han,_2008).
Espera-se, assim, despertar, em pesquisadores e gestores educacionais, maior
reflexão sobre a importância de uma formação sistêmica, que prepare o admi
nistrador para os novos desafios da sociedade do conhecimento.
Ademais, cabe ressaltar que, apesar do rigor estatístico utilizado na análise
dos dados, os resultados da pesquisa devem ser analisados com cautela, devido
ao fato de a população-alvo ser composta por uma amostra não probabilística,
fato esse que inviabiliza generalizações a outros cursos de Administração
diferentes do universo pesquisado. Além disso, o estudo apre senta algumas
limitações de cunho estatístico, uma vez que algumas premissas, como
normalidade, níveis de comunalidade e baixa consistência interna em um dos
componentes extraídos pela análise fatorial, não apresentaram resultados
satisfatórios. Tendo em vista a dificuldade de se obter, nas ciências sociais,
dados que se comportem seguindo uma distribuição normal, o não atendimento
dessas premissas não inviabiliza a pesquisa, muito embora possa enfraquecer a
generalização dos resultados (Sant'Anna,_2002).
Por fim, como sugestões para estudos futuros, os resultados instigam novas
pesquisas capazes de investigar as possíveis relações que interferem no
desenvolvimento de competências no ambiente acadêmico, permitindo avaliar se o
nível de experiência profissional, a motivação pela área, dentre outras
características, podem interferir ou não no desenvolvimento das competências
gerais ou específicas para a formação do administrador. Além disso, estudos
capazes de investigar práticas acadêmicas favoráveis ao desenvolvimento das com
petências menos desenvolvidas, identificadas neste estudo, seriam de grande
contribuição e relevância à formação dos administradores.•