Linguagem fílmica: uma metáfora de comunicação para a análise dos discursos nas
organizações
1. INTRODUÇÃO
É oportuno que se discuta a linguagem fílmica no contexto das organizações, uma
vez que diversos fenômenos podem ser também observados e vivenciados no cenário
organizacional, no qual os atores são todos os profissionais que interagem
entre si diariamente, comunicam-se, produzem e reproduzem discursos que podem,
ou não, ser favoráveis em seus processos diários de comunicação.
Ressalta-se o que Silva_(2010,_p._273) salienta: "Quando conseguimos alcançar a
essência de um fenômeno, conseguimos captar a estrutura de uma experiência
vivida que nos é revelada de uma forma que possibilite compreender os
significados dessa experiência". Portanto, o resultado, proveniente da coleta
de material das experiências das pessoas não é a experiência em si, e sim uma
metáfora da experiência real. Nas pesquisas que associam a estética aos estudos
organizacionais, geralmente, tal conceito é descrito como metáfora
epistemológica (Wood_Jr.&_Csillag,_2009), uma forma diferente de apreensão
da realidade, distanciada daquelas baseadas em métodos analíticos.
Com a ressalva de que nenhuma metáfora pode captar toda a natureza da vida
organizacional, entende-se que ela "serve para gerar uma imagem para o estudo
de um objeto" (Morgan,_2007, p. 19). Entretanto, apesar de importante nesse
contexto, a utilização das metáforas deve ser tratada de modo cuidadoso, como
alertam Leite_e_Leite_(2010), pois, ao utilizá-la para a compreensão de um
fenômeno, o pesquisador deve empreender uma discussão sobre os pressupostos
básicos da abordagem adotada ou que possa vir a adotar.
Sobre atemática da linguagem fílmica, destaca-se que, em 1948, Maurice Merleau-
Ponty considerou o cinema uma arte fenomenológica, no sentido de que o filme
não é uma simples soma de imagens fixas e, sim, a percepção do todo que é
acompanhada de uma unidade temporal, visual e sonora. Do mesmo modo, a
significação do cinema passa a ser possível diante da percepção do indivíduo
que, em vez de pensar o filme, percebe-o. Nesse contexto, a percepção, o olhar
e a memória são os agentes de modificação entre o real e o irreal e tornam-se
mais que receptores de sensações, pois realizam um trabalho intelectual,
possibilitando uma reflexão entre a realidade e o irreal (Viegas, 2008).
Com o intuito de aprofundar pesquisas no campo da administração, a partir da
temática da linguagem fílmica, a questão investigada foi: De que modo o
exercício da linguagem fílmica, como metáfora de comunicação, pode ser
utilizado para a análise dos discursos nas organizações? O principal objetivo
foi analisar o exercício da linguagem fílmica, como metáfora de comunicação, e
sua utilização para a análise dos discursos nas organizações.
Os objetivos específicos foram: estudar os discursos apresentados pelo Rei
George VI no filme comercial/artístico, no filme documentário, na obra
literária biográfica; comparar o conteúdo dos discursos apresentados no filme
comercial/artístico, no filme documentário e na obra literária biográfica;
verificar, com essa comparação, a utilidade também de comparar os discursos
organizacionais produzidos entre gestores e colaboradores; discutir o fenômeno
da comunicação e a contribuição de seu papel para gestores e organizações;
discutir as possibilidades de contribuição do uso da linguagem fílmica nas
organizações, como uma metáfora de comunicação para análise dos discursos
produzidos.
Reforça-se que foram considerados para o primeiro objetivo não somente os
discursos formais proferidos pelo rei e direcionados à nação, mas também os
discursos informais, presentes nas relações entre o rei, sua família e o
terapeuta da fala. Acrescenta-se que o uso de filmes comerciais/artísticos
completos pode ser considerado um exercício de simulação, uma vez que, tendo
sido microanalisadas e registradas as cenas em protocolo, tornam-se possíveis:
descrição, discussão e compreensão do fenômeno da comunicação nas organizações,
o que justifica os objetivos específicos terceiro e quinto mencionados acima.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A relação entre cinema, filosofia, psicologia e outras áreas do conhecimento
constituiu-se objeto de reflexão para muitos teóricos, desde o surgimento do
cinematógrafo em 28 de dezembro de 1895, em Paris, com os irmãos Louis e
Auguste Lumière. Georges Méliès, um ilusionista francês, deu uma nova dimensão
ao cinema, "uma máquina capaz de criar sonhos, de transformar em realidade
visível, partilhável pelos demais espectadores, as mais mirabolantes fantasias
da mente humana" (Araújo,_1995, p. 11).
No contexto científico, um dos primeiros teóricos a estudar a relação entre
cinema e psicologia foi Hugo Munsterberg (2003), em 1916, sucedido por dois
outros importantes teóricos: Rudolf Arnheim (2002) e Maurice Merleau-Ponty
(2003). O primeiro, nos anos 1930, falou sobre como a percepção no cinema
estimulava o espectador a um processo de recriação mental; o segundo teórico,
em 1948, argumentou sobre a importância da percepção na significação do cinema.
Já em 1962, Edgard Morin (1980) partiu da teoria de que o realismo suscitado
pelo cinema era resultante de um processo de reprodução mecânica da realidade -
isso em um primeiro momento - e também produto da subjetividade do olhar do
espectador, da participação desse espectador no processo de significação do que
é visto. Assim, a objetividade e a subjetividade são atuantes processos de
significação fílmica (Nova_&_Copque,_2009).
Christian Metz (1972) destacou que o filme gera no espectador um processo
perceptivo e afetivo de participação, conquista e credibilidade. Na mesma
linha, Betton_(1987) afirmava que o que aparece é um aspecto de realidade
estética que resulta da visão subjetiva e pessoal do realizador; tudo é
relativo e transitório. Portanto, a história do sujeito e o contexto em que o
filme é recebido interferem e podem transformar seu processo de significação.
Nova_e_Copque_(2009) afirmam que a sensação do faz de conta da ficção traz
vantagens para o desenvolvimento da mente dos sujeitos. Quando se faz de conta,
pode-se experimentar o resultado de tal acontecimento e selecioná-lo como
apropriado ou não para todos os contextos em que o indivíduo estiver inserido,
sendo eles sociais, profissionais etc.
2.1. Arte, cinema e linguagem fílmica
A percepção estético-visual foi proposta como necessária para a apreensão e a
compreensão de fenômenos organizacionais, conforme destacam Wood_Jr._e_Csillag_
(2009). Esses autores definem a estética como um ramo da filosofia que estuda a
arte e seus valores, tendo filósofos como Hegel, Schopenhauer e Platão nessa
discussão.
No contexto atual, a arte passa a ser um instrumento que permite a modificação
da consciência, bem como novos modos sensíveis de trabalhar. Propicia, ainda, a
incorporação da percepção visual (filmes) e da perspectiva estética à
apreciação e à interpretação dos fenômenos organizacionais (Wood_Jr._&
Csillag,_2009). Tratando a dimensão estética na administração, Davel,_Vergara_e
Ghadiri_(2007,_p._15) afirmam que uma pessoa realmente aprende quando é
emocionalmente tocada: "Como a arte e a estética são vias privilegiadas de
acesso às emoções, são, portanto, vias fundamentais para o aprendizado" e para
a ação. Por outro lado, os mesmos autores enfatizam que a arte - e aqui, se
pode estender tal afirmação à linguagem fílmica - ajuda no estímulo e na
legitimação do senso estético que as pessoas apresentam, bem como estimula a
concepção, única e sensível dessas pessoas, quanto ao mundo das organizações e
da gestão.
Blasco_(2006) também atesta a importância da dimensão afetiva, apesar de
afirmar que é difícil sua mensuração e quantificação por ser subjetiva, ainda
que real. Assim, "parar para pensar, com a distância que a imagem nos brinda,
como se do outro se tratasse é o começo de um diálogo de entendimento" (Blasco,
2006, p. 38).Esse posicionamento permite a interação entre imagem e afetividade
e o desafio é fazer isso de forma racional. Assim sendo, o filme não é um
instrumento neutro de comunicação (Ipiranga,_2007), pelo contrário, é um agir
em imagens, pois o indivíduo faz simbolicamente o que não pode fazer
concretamente e experimenta a chance de uma antecipação. Nesse conjunto, o
cinema, uma forma de linguagem em movimento, é considerado muito mais que um
recurso didático. Complementa-se aqui a contribuição trazida por Teixeira_e
Lopes_(2008,_p._10) que afirmam ser o cinema "uma forma de criação artística,
de circulação de afetos e de fruição estética".
O cinema foi contemplado com contribuições advindas de diversas áreas, dentre
elas, a mitologia. Os cineastas são considerados contadores de histórias que
utilizam os princípios da mitologia - estruturas míticas - para criar suas
histórias. A definição de Joseph_Campbell_(1988) sobre o mito é a de que ele é
uma poderosa fonte de inspiração, um mistério além da compreensão humana. Ao
término de uma história/filme, o indivíduo/espectador apresenta a sensação de
que aprendeu algo sobre a vida ou sobre si mesmo e que adquiriu uma nova
compreensão das coisas (Vogler,_1997). Dentre as diversas contribuições
oriundas da filosofia sobre o cinema, Machado_(2009) apresenta as reflexões do
filósofo Deleuze, segundo as quais os cineastas são considerados pensadores
visuais e não conceituais. Deleuze também destaca que os meios cinematográficos
de reprodução eram, em sua essência, artificiais, mas os resultados obtidos a
partir deles, não. Os meios conquistam uma autonomia que faz com que eles
tenham validade, por si mesmos, o que exige investimento do olhar para que
nasça a ação de olhar para as linguagens.
Marques_(2008,_p._26) afirma que o espectador é colocado frente a pessoas que
lhe são familiares, que vivem conflitos semelhantes aos seus e, por ser um
entretenimento, a ficção permite descompromisso, gera descanso e permite
recomposição dos desgastes gerados pelas dificuldades da vida real e cotidiana
e essas dificuldades da vida cotidiana são vivenciadas diariamente por todos os
trabalhadores no contexto das organizações.
2.2. Comunicação, o sentido do discurso e as metáforas
Após uma breve explanação a respeito da arte, cinema e linguagem fílmica,
torna-se possível a compreensão sobre a afirmação de Davel,_Vergara_e_Ghadiri_
(2007) de que, por meio da arte, o ato de comunicar com o outro atrai um tipo
de troca que está baseada em um ponto de partida, diálogo e concordância, pois
traz outras linguagens e faz apelo a outros componentes cognitivos e
emocionais.
Há de destacar-se a afirmação de Leite_e_Martinez_(2010), baseados em Rogers_
(1983), de que há uma diferença entre falar de comunicação e comunicar-se. A
comunicação ocorre na interação entre as pessoas e implica participação e
escuta. Ressalta-se que, no processo comunicacional, devido à falta de
confiança mútua surgem os ruídos, conforme afirma Nascimento_(1977). O autor
chama a atenção para a necessidade de haver uma comunicação genuína entre as
pessoas e reforça que a certeza de relações deve ser precedida dessa forma de
comunicação, uma vez que é condição necessária, ainda que insuficiente, para o
alcance e preservação da certeza de relações. Nessa mesma perspectiva, Rogers_
(1999) discorre sobre a eficácia da comunicação e a importância da congruência
nesse processo. Quanto maior se fizer presente, na comunicação, a consciência
do que está sendo comunicado e vivenciado, tendem a manter-se, também
presentes, a certeza de relações e a eficácia da comunicação.
Contudo, é importante salientar que o papel da comunicação e da informação no
ambiente organizacional tem assumido uma dimensão estratégica, modificando
limites antigos. Tal dimensão não está mais limitada à simples produção de
instrumentos de comunicação, mas amplia-se para assumir outro papel que se
refira a tudo que diga respeito ao funcionamento da organização e suas relações
institucionais. Portanto, no que se refere ao que é dito e ao que é percebido,
as condições nas quais as palavras são expressas ou ouvidas condicionam sua
sensação. Assim, surge a importância da seleção de canais adequados a fim de
que o processamento e a transmissão da informação sejam alinhados às intenções.
Na perspectiva mecanicista, enfatiza-se a seleção de canais, o processamento e
a transmissão da informação.
Para além do mecanicismo, há os significados do discurso. Marchiori,_Ribeiro,
Soares_e_Simões_(2010) afirmam que, na comunicação, o discurso exerce um papel
fundamental, pois está associado à linguagem humana, à representação do mundo.
O processo de interpretação do discurso é acompanhado por uma formação de
sentido, pois compreender é interpretar. Pensar na comunicação implica
compreender o termo discurso como algo em movimento, em percurso, ou seja, a
palavra em circulação (Marchiori_et_al.,_2010).
Vidal_(2006) apresenta o pensamento bakhtiniano com relação aos discursos da
vida e da arte. Há uma diferença entre a comunicação na vida cotidiana e a
comunicação estética. Na comunicação da vida cotidiana, as conexões com o
ambiente são fortes e intensas e criam dependência para o significado. Já na
comunicação estética, a dependência do contexto imediato é menor, embora nunca
deixe de existir, a exemplo, o nexo relacional entre autor/obra/leitor. Dentre
diversas discussões, Andrew_(1989,_p._243) argumenta:
um trabalho de arte não é um objeto como outro qualquer. Apesar das
metáforas que empregamos com tanta frequência, não é como uma flor,
nem como um computador, cujos trabalhos internos podem ser expostos e
estudados. Um trabalho de arte é etéreo, pois existe apenas para a
experiência e apenas se experimentado.
Diante do exposto, pode-se depreender que os filmes têm sido considerados
unidades de discurso que não obedecem às mesmas regras de produção e leitura
escritas, permitindo o nascimento da especificidade da linguagem do cinema, que
demanda recursos próprios para a compreensão dos diálogos, conforme afirma
Abdala_Jr._(2006).Destarte, insere-se nesse circuito uma discussão sobre o uso
das metáforas nos processos de comunicação, especificamente na compreensão dos
discursos produzidos nesse contexto. Trata-se de um modo diverso de ver uma
coisa, uma expressão linguística particular ou ornamentos de linguagem que
operam permitindo insights sobre a compreensão da vida organizacional. O
discurso organizacional depende inerentemente das metáforas, conforme afirma
Sardinha_(2007), embora nenhuma metáfora seja suficiente para expressar toda a
riqueza das relações organizacionais.
O estudo mais citado sobre metáforas nas organizações foi o realizado por
Morgan_(2011). Ao tentar compreender como se configura o espaço da comunicação
nas organizações, até mesmo em virtude dos acontecimentos contemporâneos,
Morgan tornou-se uma importante fonte de esclarecimento sobre o assunto, ao
destacar que as metáforas podem ser um artifício para ajudar na compreensão dos
fenômenos e apoiou-se na premissa de que
as metáforas são frequentemente vistas como artifício para embelezar
o discurso, mas seu significado é muito maior do que isto. Usar uma
metáfora implica um modo de pensar e uma forma de ver que permeia a
maneira pela qual entendemos o nosso mundo real (Morgan,_2011, p.
16).
3. METODOLOGIA
A estrutura metodológica desta pesquisa está apoiada na abordagem qualitativa,
na qual estão inseridos os estudos observacionais direto e indireto. Para a
realização de um estudo observacional na modalidade indireta, foi selecionado o
filme comercial/artístico O discurso do rei (Hooper,_2011). Além desse filme,
foram utilizados, também, o filme documentário e a obra literária biográfica.
Essa utilização não tem a intenção de comprovar a importância do uso do filme
comercial/artístico, mas de enriquecer a coleta de dados.
Os critérios de escolha do filme selecionado estão relacionados a alguns
fatores: uso do filme como corpus para entender o universo das organizações;
possibilidade de trabalhar o processo de comunicação; o fato de o filme basear-
se em dados reais, portanto, possíveis, apesar de não ser condição necessária
para análise de um filme comercial/artístico; possibilidade de trabalhar um
discurso, pela análise do discurso; e oportunidade de realizar simulações no
campo da administração.
Assim, a primeira estratégia de coleta de dados realizada nesta pesquisa foi a
análise fílmica, respaldada pelo estudo observacional indireto e não
participante. O uso dessa estratégia de observação não participante é defendido
por Flick_(2004), que toma a análise fílmica como uma estratégia em que o
observador tende a não influenciar o fenômeno observado, pois ele constrói os
significados para si mesmo, a partir de suas pressuposições e acaba por
direcionar as ações dos atores da forma como ele as percebe. Essa estratégia
também é mencionada por Cooper_e_Schindler_(2003), e corroborada por Leite,
Nishimura_e_Leite_(2010), como menos tendenciosa e mais apurada, uma vez que os
registros podem ser reavaliados tantas vezes quanto necessárias, devido à
vantagem do acesso repetido às cenas, o que permite a inclusão de vários
aspectos diferentes de um mesmo fato. Reitera-se que, nesta pesquisa, foram
utilizadas três fontes de coleta para a composição dessa primeira estratégia:
um filme comercial/artístico, um filme documentário e uma obra literária
biográfica.
Com os argumentos anteriormente citados, o uso de filmes no campo da
administração torna-se possível e válido, visando à minimização das inferências
pessoais de quem utiliza a linguagem fílmica como ferramenta, o que justifica,
na prática, sua aplicação (Flick,_2004; Leite_&_Leite,_2007, 2010). O filme
aqui analisado, O discurso do rei (Hooper,_2011), tem duração total de 112
minutos. Assistiu-se a ele completamente e sem interrupção, em dois momentos
distintos: antes e depois da microanálise, computando um tempo de 224 minutos.
Para a realização da microanálise de cada cena, o tempo investido foi de 448
minutos, totalizando 672 minutos de estudo observacional indireto, com as 50
cenas registradas em protocolo.
Como fundamento para essa microanálise, enseja-se que Vanoye_e_Goliot-Lété_
(1994) reforçam que os filmes são recursos para a condução da microanálise, e
Denzin_(1989) os descreve como textos visuais que, ao serem transcritos, podem
ser analisados como tal. Vale destacar a contribuição de Loizos_(2002) no que
tange à imagem visual, ou informação visual, oferecer um registro importante
das ações temporais e dos acontecimentos reais. Com relação a esse registro,
Gil_(2009) aponta que o protocolo dá suporte ao constante processo de tomada de
decisão ao longo da pesquisa e constitui um importante auxiliar da memória do
pesquisador. Neste estudo observacional, o suporte do protocolo foi fundamental
para a composição da Figura_1, com os registros das cenas, dos tempos e dos
fragmentos dos discursos. Flick_(2004) ressalta também que as observações em
campo tornam-se dados em si mesmos, constituindo parte da interpretação e podem
ser documentados em diário de pesquisa ou em protocolo de contexto, o que
reforça a recomendação aqui mencionada sobre o uso do protocolo de observação
em análise fílmica.
Figura 1 Fonte de Evidência Principal: Filme Comercial/Artístico "O Discurso do
Rei"
Fragmentos dos Discursos / Cenas Bases para a Analise dos Discursos
1) Tempo: 00:17:52 a 00:29:16 - Cena 9 - O primeiro encontro
O duque chegou ao consultorio de Logue, observador, sem dizer nada. Apos um Resistencia de Albert ao tratamento. Assertividade.
dialogo tenso, o duque despediu-se de Logue agradecendo pelo tempo despendido.
2) Tempo: 00:29:27 a 00:32:52-Cena 10 - Mensagem de Natal
Em 1934, o rei George V fez a transmissao de Natal pelo radio. Ao terminar, disse: Cobrança e exigência por parte do pai. Silêncios discursivos observados em Albert.
“E facil quando se sabe fazer. Tente fazer". Albert entao tentou, mas, a medida
que hesitava, o pai fazia interferencias, ate perder a paciencia e gritar.
3) Tempo: 00:32:53 a 00:34:25 - Cena 11 - Em reflexao no sofa
Albert relaxava deitado no sofa de sua casa. Levantou-se e procurou o disco com a Tomada de consciencia de Albert quanto a possibilidade de cura.
gravação feita no consultorio de Logue. Constatou que Não havia gaguejado.
4) Tempo: 00:45:39 a 00:56:04 - Cena 21 - Uma conversa entre amigos
Apos ouvir a noticia da morte do rei George V, Logue deparou-se com Albert em sua rmação do vinculo profissional e de amizade entre ambos. Evidencias da coragem de
porta. Albert disse para Logue as ultimas palavras de seu pai: “Bertie tem mais bert.
coragem do que todos os outros irmaos juntos”. Albert disse estar aliviado por Não
ser ele o rei. Ambos conversaram e Albert falou de sua infancia e de seus medos.
5) Tempo: 01:16:45 a 01:21:23 - Cena 37 - Reencontro de Albert e Logue
Albert diz: “Entao, aqui estou eu. A nação esta pronta para dois minutos de
silencio no radio? Se eu faltar com meus deveres, David pode voltar. Vi os
reclames. Deus abençoe o rei. Não se referem a mim. Todo monarca na historia bert demonstra humildade quando procura Logue e fala de seus medos. Descoberta de
sucedeu alguem que morreu ou estava para morrer. Meu predecessor esta vivo, e como bert de que pode ser ele mesmo.
esta vivo. E uma grande confusao. Não deu a eles nem um discurso de Natal”. Logue:
“Não precisa temer as coisas que temia aos cinco anos [...] voce e dono de si
mesmo”.
6) Tempo: 01:23:33 a 01:30:00 - Cena 39 - O ensaio para a coroação
Questionado sobre a falta de diploma, Logue respondeu: “E verdade, não sou médico
[...] Quando a Grande Guerra começou, nossos soldados retornaram, muitos deles em
choque, sem poder falar. Alguem disse: 'Voce é bom com a coisa da fala, pode
ajudar?'[...] Meu trabalho era faze-los ter fé em suas proprias vozes e deixa-los
saber que um amigo estava ouvindo. Essa carapuça devia servir em você, Bertie. Não
tenho um certificado [...]. Tudo o que sei e por experiencia [...]. A placa diz: teza de relações entre Albert e Logue. Superação e tomada de consciencia por
L. Logue, problemas da fala. Não diz médico”. Albert virou-se e viu Logue sentado te de Albert. Iniciativa de Albert e posicionamento em relação a suas decisoes.
no trono e ficou nervoso. Logue o provocou, perguntando por que precisava ouvi-lo
e Albert gritou dizendo: “Porque eu tenho voz” e Logue, demonstrando ter
conseguido o que queria, disse: “Sim, você tem voz. E tao perseverante, Bertie. E
o homem mais corajoso que conheço. Você vai ser um rei muito bom”. O arcebispo
chegou e dispensou Logue e Albert o interrompeu: “Como é? [...] Nesse assunto
pessoal, tomarei minha decisao sozinho. Agradeço a preocupação, arcebispo, mas a
cabeça e minha”. Logue agradeceu e o convidou a continuar o ensaio.
7) Tempo: 01:38:31 a 01:42:58 - Cena 46 - Albert na sala do discurso
Na sala de transmissão, Albert disse: “Logue, seja la o que aconteça, Não sei comoeza de relações, amizade e cumplicidade na relação de ambos. Silencios
lhe agradecer pelo que fez”. Logue respondeu: “Com um titulo de nobreza?” Os doisursivos.
se entreolharam e Logue disse: “Esqueça tudo e fale comigo, fale com um amigo”.
Foi dado o sinal para que o discurso fosse proferido.
8) Tempo: 01:42:59 a 01:48:10 - Cena 47 - O discurso do rei
Após hesitar por alguns instantes, o rei começou o discurso: “Neste momento,
talvez o mais fatidico da nossa historia, eu envio a cada casa dos meus povos,
tanto em casa, quanto alem-mar, esta mensagem falada com a mesma profundidade de
sentimento a cada um de vocês como se eu pudesse cruzar suas soleiras e falar a
vocês pessoalmente. Pela segunda vez, na vida da maior parte de nos, estamos em
guerra. Diversas vezes tentamos encontrar uma solução pacifica para as diferenças
entre nós e aqueles que agora são os nossos inimigos. Mas foi tudo em vão. Fomos
forçados a um conflito, pois somos chamados a enfrentar o desafio de um principio
que, prevalecendo seria fatal a qualquer ordem civilizada no mundo. Tal principio, rteza de relações, confiança e amizade. Superação e reconhecimento. Senso de
despido de qualquer disfarce, e sem duvida a mera doutrina primitiva que diz que a mor.
força e o direito. Pelo bem daquilo que nos mesmos amamos, e impensavel recusarmo-
nos a enfrentar o desafio. E por esse proposito elevado que eu agora chamo o meu
povo em casa e meus povos alem-mar, que tomarão a nossa causa como sua. Eu peço a
eles que permaneçam calmos, firmes e unidos neste momento de provação. A tarefa
sera dura. Pode haver dias sombrios pela frente, em que a guerra Não podera mais
ser confinada ao campo de batalha. Mas podemos apenas fazer o que e certo, quando
esses dias se apresentarem. E reverentemente entregar nossa causa a Deus. Se todos
nos mantivermos unidos, decididamente leais a ela, dai entao, com a ajuda de Deus,
nos triunfaremos”. Logue disse: “Foi excelente, Bertie”, gaguejou no 'w'. O rei
lhe respondeu: “Eu tinha de gaguejar um pouco para eles saberem que era eu”.
9) Tempo: 01:48:11 a 01:49:51 - Cena 48 - Congratulações e reconhecimento
Ao sair da sala de transmissao, Albert foi aplaudido por todos. Ele andou com
orgulho ate seu gabinete e disse a Logue: “Espero ainda ter que fazer muito mais,Segurança e orgulho de Albert. Reconhecimento a Logue pelo trabalho e pela amizade.
obrigado, Logue. Bom trabalho, meu amigo”. Elisabeth entrou e disse que sabia que
ele se sairia bem e o beijou. Olhou para Logue e agradeceu, chamando-o de Lionel.
10) Tempo: 01:49:52 a 01:51:30 - Cena 49 - Trabalho cumprido
Com sua esposa e as filhas, Albert foi a sacada e acenou ao publico. Sua Ambos cumprem suas missoes e Albert sente-se preparado para o futuro.
fisionomia era de alivio e de satisfação pelo trabalho cumprido. Logue o observou
com orgulho. A multidao do lado de fora acenou para o Rei.
Com relação à transcrição do texto visual no protocolo, qualquer tema e postura
teórica vão exigir a seleção de diferentes aspectos, porém, o importante é que
o pesquisador deixe explícitos os critérios utilizados para a seleção das
cenas. Assim, é importante relembrar que, no protocolo final, foram registradas
50 cenas no total. No entanto, na Figura_1, são apresentadas as 10 cenas
escolhidas pelo fato de registrarem os fragmentos dos discursos do rei George
VI e que, por sua vez, permitiram o entendimento dos construtos aqui abordados,
na condução da busca do principal objetivo desta pesquisa. O esclarecimento a
respeito dessas escolhas é igualmente importante, em atenção às afirmações de
Rose_(2002,_p._350) de que "deve ficar teórica e empiricamente explícita a
razão de certas escolhas terem sido feitas e não outras". A autora destaca
também que toda transcrição tem por finalidade gerar um conjunto de dados
passíveis de uma codificação e análise, pois isso simplifica a complexidade da
imagem transmitida na tela.
Para essa primeira fonte de coleta- o filme comercial/artístico -, inserida na
primeira estratégia de coleta, utilizou-se a análise de discurso. Essa
estratégia de análise visa à apreensão e à exploração do sentido de determinada
mensagem no contexto em que ela é transmitida (Vergara,_2007). A análise de
discurso surgiu nos anos 1960, de modo sistematizado, com Michel Pêcheux. No
entanto, Melo_(2005) afirma que, antes de Pêcheux, Zellig Harris, já em 1952,
falou de discurso em sua obra Discourse analysis, tendo a análise textual como
foco de seus estudos, diferentemente de Pêcheux que trouxe a constituição de
discurso como objeto de investigação, não trabalhando com "a língua enquanto um
sistema abstrato, mas com a língua no mundo" (Orlandi,_2012, p. 16).
Reforça-se que o estudo da análise de discurso é caracterizado por duas
tradições, a anglo-saxônica e a francesa. Foi utilizada, nesta pesquisa, a
análise de discurso de corrente francesa que, dentre diversas opções, permite
considerar o sentido e não somente o conteúdo do discurso (Bardin,_2011).
Inicialmente, essa corrente era denominada de análise do discurso, por estar
voltada exclusivamente aos discursos políticos. No entanto, ao ampliar seu
campo de interesse pela análise do cotidiano e de outras formas de linguagem,
sua nomenclatura passou para análise de discurso, tendo como objeto, qualquer
discurso e não mais somente os discursos políticos (Silva,_2011).
Com relação à segunda estratégia de coleta de dados, foi utilizada a pesquisa
documental, para a qual, de acordo com Gil_(2009,_p._47), são utilizados
materiais que ainda não foram analisados ou que ainda podem ser reelaborados,
conforme os objetivos da pesquisa e "porque proporcionam melhor visão do
problema". Neste estudo, a pesquisa documental contemplou o filme documentário
e a obra literária biográfica sobre a vida do rei George VI. Passa-se a falar
especificamente do filme documentário, com o título de The_king_speaks-_The
true_story_behind_the_film(2011),que se distingue do filme comercial/artístico
porque contém cenas reais dos discursos do rei George VI.
Com duração total de 50 minutos, assistiu-se a esse documentário também
completamente e sem interrupção, em dois momentos distintos: antes e depois da
microanálise, perfazendo um tempo de 100 minutos. O tempo investido para a
realização da microanálise das cenas do documentário foi de 200 minutos,
totalizando 300minutos de estudo observacional indireto. Selecionaram-se sete
cenas relacionadas aos construtos abordados nesta pesquisa. Do mesmo modo, as
cenas foram registradas em protocolo de observação e, também, se partiu da
premissa da possibilidade do acesso repetido e sem limites às cenas, na
tentativa de minimizar as inferências pessoais (Flick,_2004; Leite_&_Leite,
2007, 2010).
Para essa segunda fonte de coleta- o filme documentário -, utilizou-se a
estratégia da análise documental. Essa modalidade de análise é valiosa por
corroborar e aumentar a evidência de outras fontes utilizadas, conforme atestam
Yin_(2010) e Bardin_(2011), e tende a proporcionar, também, outros detalhes
específicos e sugerir novas questões sobre as comunicações originadas de outras
fontes, conforme apresentado na Figura_2.
Figura 2 Fonte de Coleta Auxiliar: Filme Documentario "The King Speaks - The
True Story Behind the Film"
Fragmentos das Cenas e dos Documentos Bases para a Analise do Documento
1) Tempo: 00:08:15 - George VI - O contexto de um rei relutante
Apresenta-se Albert como um homem com aparencia cansada e com dificuldades em Cenas reais de um discurso timido e de dificil entendimento. Imagens de uma
proferir seu discurso. Tal cansaço era porque ja havia passado por oito pessoa cansada.
terapeutas da fala e ja não acreditava mais em sua cura.
2) Tempo: 00:17:00 - Posse e renuncia do rei Edward III, irmao de Albert
Principe David e um playboy que, apos a morte do pai, assumiu o reinado. Sao apresentadas fotos de David e Wallis Simpson e o contexto de sua situação
Comunicativo e extrovertido, conquistava a simpatia das pessoas. Envolveu-se politica.
com uma mulher já divorciada. Devido a reprovação do parlamento, renunciou.
3) Tempo 00:22:00 - O discurso da posse
Foi apresentada uma foto com o audio do discurso da posse do rei George VI. O Apos o discurso em audio, ha comentarios a respeito da melhoria na forma de
discurso ja apresentava melhor fluidez e segurança por parte do rei. Comenta- pronunciamento do rei.
se no documentario que a midia e os suditos perceberam tal melhoria.
4) Tempo: 00:29:43 - O discurso de Natal
O documentario trouxe o discurso de Natal proferido pelo rei George VI. Foi Relatos e narrativas de que o tratamento com Lionel Logue trouxe melhoria em
apontada outra melhoria em sua pronuncia e em sua forma de expressar-se, sua forma de expressar-se.
diante do microfone, aos suditos.
5) Tempo: 00:40:14 - A iminencia da Segunda Guerra para a nação
Apresenta-se um rei atormentado diante dos desafios enfrentados, uma vez que a Os moradores da cidade preparam-se para a guerra. Imagens do rei e sua
decisão de entrar na guerra ou permitir os avanços de Hitler estava sob sua preocupação com a nação.
cabeça. Preocupação com o discurso e a repercussao de sua decisao.
6) Tempo: 00:44:03 - A mensagem do Natal de 1944
O documentario fez referencia a mensagem de Natal do ano de 1944 e da Em uma breve mensagem, verifica-se a força e o peso do discurso de George VI
perseverança que o rei apresentava em um breve cessar-fogo. Pedia paciencia e para a nação.
desejava, a todos, força e entendimento.
7) Tempo: 00:45:30 - Discurso apos a guerra, em formato de cinejornal
Discurso que o rei George VI proferiu em 04/maio/1945 com gravação feita em Discurso proferido sem sinais de gagueira e com muita segurança. Sinais de
audio e video. Falava de agradecimento e gratidao aqueles que lutaram pela cansaço fisico.
nação e pedia o mesmo aos demais suditos.
A obra literária biográfica escolhida - O discurso do rei: como um homem salvou
a monarquia britânica (Logue_&_Conradi,_2011) - constitui a terceira fonte
de coleta de dados, na qual consta a transcrição de diversos trechos de
discursos proferidos pelo rei, registrados também em protocolo de pesquisa. Em
relação a essa terceira fonte, utilizou-se a estratégia de análise de conteúdo,
considerada útil por Bardin_(2011) para o tratamento das comunicações e a
descrição de conteúdos de mensagens. Esta pesquisa apoiou-se em procedimentos
interpretativos dos conteúdos desses discursos, categorizados pelas
pesquisadoras: categoria 1 - comunicação pura e aberta; categoria 2 -
comunicação empática e sensibilizada; categoria 3 - comunicação realista;
categoria 4 - comunicação genuína.
Essa estratégia de análise merece especial atenção, como declara Bardin_(2011,
p._49). A autora afirma que a análise de conteúdo tem por objeto a fala, "o
aspecto individual e atual (em ato) da linguagem". Trabalhar com essa
estratégia envolve lidar com a prática da língua realizada por emissores, pois
considera as significações (conteúdo) e, eventualmente, a forma e a
distribuição desse conteúdo. Destaca-se que a análise de conteúdo está
centrada, nesta pesquisa, nos procedimentos qualitativos, pois o foco recai
sobre peculiaridades e relações entre os elementos, dando ênfase para o que é
significativo e relevante, mas não necessariamente frequente. Para tanto, a
metodologia reflexiva auxiliou nessa análise, por caracterizar-se pela
interpretação e pela reflexão cuidadosa do pesquisador, uma vez que "o
conhecimento não pode ser separado daquele que conhece" (Vergara,_2005, p.
185).
4. APRESENTAÇÃO DOS DADOS, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Nesta seção, apresentam-se os dados coletados por meio de três fontes: o filme
comercial/artístico, o filme documentário e a obra literária biográfica. Cada
uma dessas fontes contou com uma estratégia de análise diferente, conforme
elucidado na metodologia. A discussão dos resultados foi respaldada pela
fundamentação teórica desta pesquisa.
4.1. O filme comercial/artístico
O discurso do rei (Hooper,_2011) contou a história real de Albert, o então
duque de York. Segundo filho do rei George V, Albert era gago desde os quatro
anos de idade. No entanto, o problema da gagueira tornou-se muito sério devido
ao fato de Albert (chamado de Bertie pelos íntimos) pertencer à realeza
britânica e, por isso, ter a necessidade de fazer discursos com frequência. Com
a morte do rei George V, seu irmão subiu ao trono como rei Edward VIII, mas
abdicou desse trono em poucos meses, o que transformou Albert no rei George VI.
Na Figura_1, apresentam-se os principais fragmentos das cenas/discursos
extraídos do filme comercial/artístico e as bases para a análise desses
discursos.
Os dados apresentados na Figura_1 foram classificados a partir dos registros
das cenas em protocolo de observação. Reitera-se que as cenas/fragmentos dos
discursos não estão, necessariamente, transcritos na íntegra, mas obedecem à
ordem cronológica do filme. Ressalta-se que as discussões apresentadas no item
4.1 referem-se aos dados contidos nessa figura. Cabe aqui relembrar que as
discussões também estão pautadas na contribuição de Godoi_(2010) quando tratou
sobre os implícitos e os silêncios discursivos na análise de discurso.
Levado por sua esposa, Albert foi ao consultório de Logue, um terapeuta da
fala. Com um encontro inicial baseado na falta de confiança acerca da
eficiência do tratamento que seria proposto, manteve-se arredio e agressivo
diante dos questionamentos propositais feitos por Logue (registro 1, cena 9).
Chama-se a atenção para o que alertam Leite,_Freitas,_Silva,_Oliveira_e_Silva_
(2012) sobre a defensividade entre as pessoas enquanto se comunicam, haja vista
que, quando superadas as dificuldades, a comunicação mútua tende a voltar-se
para a solução de problemas, em vez de ser direcionada para o ataque. Para
atingir esse nível de relacionamento, é necessário que se tenha coragem para
assumir uma posição menos defensiva e mais aberta.
Logue utilizou recursos importantes em sua forma de conduzir a sessão
terapêutica com Albert, propondo-lhe um relacionamento menos formal e mais
descontraído, o que favoreceria a relação deles para o tratamento. Ambos eram
assertivos em suas colocações, porém, cada um caminhava de modo diferente nessa
direção. Reforça-se o que foi defendido por Rogers_(1983) e corroborado por
Leite_et_al._(2012,_p._7) sobre a importância da congruência para a eficácia da
comunicação: "A partir da consciência de que o que esteja sendo vivenciado, uma
vez presente na consciência, também se faça presente na comunicação". Elucida-
se o esclarecimento feito por Rogers_(1999) sobre o conceito de congruência,
como a correspondência mais adequada entre a experiência, a consciência e a
comunicação.
Discute-se a respeito da relação entre Albert e seu pai, retratada no registro
2, cena 10. As preocupações do rei George V com sua nação fez dele um pai
severo e apressado em ver a melhoria no desenvolvimento do filho em quem
confiava. Baseados em uma leitura contemporânea sobre caos e complexidade nas
organizações, Leite_et_al._(2012,_p._3)afirmam que há uma tendência para a
"reflexão acerca do propósito, dos princípios, das pessoas, do conceito, da
estrutura e da prática organizacional, com base em uma espiral ascendente de
complexidade, diversidade, criatividade e harmonia", a fim de que haja
transformação por intermédio da comunicação entre as pessoas.
Entendendo o paradigma da complexidade como algo que pode provocar a
criatividade e servir como fonte de inovação, destaca-se o registro 3, cena 11,
em que Albert, frustrado com o resultado de sua conversa com o pai e reflexivo
com relação a sua situação, resolve ouvir o disco que fora gravado na consulta
inicial com Logue e impressiona-se com o que escuta: uma voz firme e sem os
traços comuns da gagueira a que ele estava acostumado. Procura então Logue,
inicialmente com algumas resistências, mas demonstra maior confiança na
efetividade do tratamento proposto. Essa tomada de consciência descrita por
Rogers_(1999), aliada ao que foi argumentado por Nascimento_(1977) deque a
higidez do relacionamento interpessoal depende da eficácia dessa comunicação
entre as partes envolvidas, reforça e sustenta que a confiança mútua é
essencial para a certeza de relações.
Albert decidiu iniciar seu tratamento com o terapeuta da fala, Logue. A
confiança entre ambos e a certeza de relações são confirmadas no registro 4,
cena 21, quando Albert procurou Logue, após a morte de seu pai, não como seu
terapeuta, mas como um amigo. Essa certeza de relações ficou clara na
observação do diálogo estabelecido entre os dois, em que Albert confidenciou a
Logue detalhes de sua infância, importantes para seu tratamento. O mesmo pode
ser observado no registro 5, cena 37, quando ficou evidente a humildade de
ambos, a certeza da higidez do relacionamento e a tomada de consciência de
Albert com relação a suas limitações.
Conforme registro 6, cena 39, em que ambos se dirigiram à abadia, local marcado
para a coroação, Albert foi alertado pelo arcebispo de que Logue não era médico
formado. Instalou-se um clima de tensão entre os dois, que culminou em uma
provocação de Logue sentando-se no trono reservado aos monarcas. Albert ficou
nervoso e, após algumas tentativas em falar gaguejando, conseguiu gritar para
Logue que precisava ser ouvido, porque tinha voz. Nessa cena, foi possível
observar que ocorreu nova tomada de consciência do monarca, evidenciando a
superação de uma dificuldade de Albert em comunicar-se, expor sua opinião e
fazer-se ouvir. Essa afirmação pode ser também observada na sequência da mesma
cena, quando o arcebispo tentou dispensar os serviços de Logue e foi
interrompido por Albert. Seu posicionamento foi mais uma evidência do
amadurecimento pessoal, da aquisição de segurança, da assertividade em sua
comunicação e da confiança no trabalho de Logue. Após essa atitude, Albert e
Logue continuaram o ensaio, o qual foi conduzido com bom humor e mestria, sem
as formalidades com que os eventos eram tratados nos bastidores da monarquia
(observar também o registro 7, cena 46).
Em continuidade, evidencia-se o discurso referente à guerra para o qual Logue
chegou poucos instantes antes do horário do pronunciamento, mas ainda em tempo
de ensaiar com o paciente e amigo. Nessa cena, foi possível analisar os
elementos que ficam excluídos do campo de dizibilidade em um discurso, chamados
de silêncios discursivos, que constituem importante fundamento da análise de
discurso, uma vez que estão associados à produção do sentido discursivo (Godoi,
2010; Orlandi,_2012). Esse silêncio, conforme Orlandi_(2012), está relacionado
a um recuo necessário e deve ter um tratamento adequado para que o sentido faça
sentido. Ao serem observados elementos dessa comunicação não verbal, tornou-se
possível a compreensão e a confirmação das características pessoais de Albert
como o dirigente de sua nação e seu comprometimento com o povo. Observaram-se
nos registros 7 e 8 referentes às cenas 46 e 47, os elementos dessa
comunicação, quando Albert revelou seu olhar emocionado, hesitante e cônscio da
responsabilidade daquele momento.
A superação de Albert diante da dificuldade de comunicação ficou evidente
quando ele saiu da sala de transmissão radiofônica e foi aplaudido por toda a
equipe, por seu discurso objetivo e emocionado, que envolveu a nação. Sua
comunicação não verbal revelou características de segurança, desenvoltura,
satisfação pessoal e elevação de sua autoestima, conforme registro 9, cena 48.
Diante desses acontecimentos, vale relembrar Silva_(2010), segundo o qual,
quando se alcança a essência de um fenômeno, torna-se possível captar a
estrutura de uma experiência vivida, que é revelada de forma que possibilite
compreender os significados dessa experiência. Com base nessa afirmação, na
penúltima cena do filme, descrita no registro 10, cena 49, em que Albert
apareceu a seus súditos após o pronunciamento da guerra, ficou evidente que o
propósito do monarca foi atingido e foi possível compreender os significados e
a importância da experiência do discurso do rei.
É relevante retomar a afirmação feita por Vidal_(2006) de que a cultura está em
constante mobilidade e, a respeito do uso da linguagem fílmica, as obras
artísticas dialogam com o passado e apontam para o futuro. Igualmente relevante
é relembrar que essa autora apontou o pensamento de Mikhail Bakhtin com relação
à diferença entre a comunicação expressa nos discursos da vida, considerada
forte e dependente do ambiente, e a comunicação expressa nos discursos da arte,
na qual a dependência do contexto imediato é menor, embora nunca deixe de
existir. Portanto, na realidade e na ficção, as linguagens entram em confronto
e constituem um todo discursivo.
O mais antigo registro da história humana é a experiência visual, considerada
fundamental no aprendizado (Dondis,_1997). No cinema, o elemento visual
predominante é o movimento, que traz como resultado uma experiência que muito
se aproxima do que se passa no mundo concreto. Desse modo, a utilização da
linguagem fílmica, nesta pesquisa, tornou possível formular uma noção
esquemática da capacidade dessa arte. Em concordância com Dondis_(1997),
reforça-se que o cinema não é uma atividade racional e nenhuma descrição
esquemática será adequada para ele, mas a utilização da arte no contexto das
organizações possibilita novos modos mais sensíveis de trabalhar, o que tende a
proporcionar maior apreciação e interpretação dos fenômenos organizacionais
(Wood_Jr._&_Csillag,_2009). Com tais argumentos, reitera-se a importância
de serem utilizados, nesta pesquisa, os filmes comercial/artístico e o
documentário, inseridos como forma de compreender a metáfora de comunicação e,
em consequência, sua utilização para a análise dos discursos nas organizações.
4.2. O filme documentário
Com trechos de cenas reais e relatos de diversos profissionais, o filme
documentário apresentou detalhes da relação entre o rei George VI e Lionel
Logue, bem como entre o rei George VI e seu pai, o rei George V, o primeiro rei
a falar no rádio para seus súditos.
Na Figura_2, apresentam-se os principais fragmentos das cenas/documentos
extraídos desse filme documentário.
Considerando-se que todo documento carrega consigo uma riqueza de informações,
seu uso tende a contribuir para o entendimento do objeto de estudo e gera a
possibilidade de ampliação de eventos que necessitam de contextualização
histórica e sociocultural. Com esse entendimento, utilizou-se a estratégia da
análise documental para essa segunda fonte de evidência. Chama-se a atenção
para o fato de que o filme documentário utilizado corroborou tanto as
informações obtidas na principal fonte de coleta de dados desta pesquisa,
quanto as informações obtidas na terceira fonte, a obra literária biográfica
sobre o rei George VI.
Na Figura_2, registro da cena 1, apresenta-se um discurso proferido pelo rei,
no qual foi possível verificar os silêncios discursivos. Como dirigente de uma
nação, a dificuldade na fala gerava problemas para o rei, influenciando a
relação de confiança entre a monarquia e os súditos. A nação esperava que seu
dirigente estivesse apto e preparado para tomar decisões e agir diante dos
obstáculos. No entanto, toda vez que esse dirigente apresentava fragilidade na
fala, a confiança dos súditos tornava-se igualmente frágil.
Com o que foi apresentado nessa fonte de coleta, pôde-se constatar que a
reprodução dos fatos da realidade foi cuidadosamente abordada no filme
comercial/artístico, embora não fosse uma condição obrigatória. O filme
documentário trouxe fotos e imagens reais do rei e das pessoas envolvidas com a
monarquia britânica naquele período e apresentou, de forma dinâmica, os
acontecimentos históricos, intercalando-os com relatos dos biógrafos da família
real e com três ex-pacientes de Logue.
Lionel Logue foi descrito como um homem com habilidades de comunicação e como o
profissional que salvou a monarquia britânica. Percorrendo a evolução dos
acontecimentos históricos, esse documentário confirmou as informações obtidas
nas demais fontes de coleta de dados utilizadas nesta pesquisa, dando detalhes
sobre a posse e a morte do rei George V, a abdicação de Edward III e a
cerimônia de coroação do rei George VI (registro 2).
O documentário foi finalizado com a apresentação do discurso feito após a
guerra, em formato de cinejornal, que foi ao ar em maio de 1945 com gravação
feita em vídeo e áudio, conforme o registro 7. O rei George VI pronunciava uma
mensagem de agradecimento àqueles que lutaram pela nação e pedia o mesmo aos
demais súditos com relação aos que lutaram na guerra. Nesse discurso, foi
possível observar a fluência do rei em pronunciar seu discurso e a ausência dos
elementos que dificultavam sua dicção. O discurso proferido revelou um homem
seguro de sua fala, com habilidade de comunicação que permitia uma relação de
confiança com seus súditos.
A obra literária biográfica, a terceira fonte de coleta de dados, foi baseada
nas cartas trocadas entre Albert e Logue e seus diários. Serve também de
referência histórica, uma vez que foi organizada de forma a trazer trechos
importantes da vida de cada personagem, desde o nascimento de Albert até sua
morte, em fevereiro de 1952, aos 56 anos de idade. Em paralelo, resgatou ainda
a história de Logue até sua morte, em abril de 1953, aos 73 anos de idade. O
que torna relevante essa terceira fonte é o fato de ela ser a única a conter
esses registros.
4.3. A obra literária biográfica
Para a análise dessa obra literária biográfica, utilizou-se a estratégia de
análise de conteúdo que, diferentemente de outras estratégias que consideram a
língua como objeto, considera o aspecto individual e atual da fala, conforme
mencionado por Bardin_(2011). Trata-se de lidar com a prática da língua,
realizada por emissores, considerando o conteúdo, a forma e a distribuição
desse conteúdo.
Nas Figuras_3, 4, 5 e 6, apresentam-se os principais fragmentos dos discursos
proferidos pelo rei George VI, extraídos do livro, separados em quatro
categorias estabelecidas conforme a evolução, percebida pelas pesquisadoras, da
comunicação desse rei: Categoria 1 - comunicação pura e aberta; Categoria 2 -
comunicação empática e sensibilizada; Categoria 3 - comunicação realista;
Categoria 4 - comunicação genuína. Reitera-se que a análise de conteúdo
realizada esteve apoiada em procedimentos interpretativos dos conteúdos aqui
categorizados, tomando por base as recomendações de Vergara_(2006) e Bardin_
(2011).
Figura 3 Fonte de Coleta Auxiliar: Obra Literaria Biografica “O Discurso do Rei
- Como Um Homem Salvou a Monarquia Britanica”- Categoria 1
Categoria 1 - Comunicação Pura e Aberta
Fragmentos dos Discursos Bases para a Analise do Conteudo
1) 12/05/1937 - Discurso do dia da coroação
“E com muita felicidade que lhes falo esta noite. [...] So direi o seguinte: O rei apresenta honradez, humildade, gratidao,
que, nos anos vindouros, se eu puder mostrar minha gratidão servindo-os, essa ebondade e benção ao proferir o discurso de sua
a maneira, acima de todas as outras, que escolherei. [...] Agradeço-lhes do coroação.
fundo do meu coração, e que Deus abençoe a todos!” (p. 26).
2) 25/12/1937 - Discurso de Natal
“Muitos de voces se lembrarao dos pronunciamentos de Natal de anos anteriores, presenta-se um discurso de respeito a memoria
quando meu pai falava a seus povos.[...] Não posso aspirar ocupar o seu lugar e o pai, honradez e humildade diante de seus
nem acredito que voces desejariam que eu mantivesse, imutavel, uma tradição taouditos.
pessoal para ele” (pp. 164-165).
Figura 4 Fonte de Coleta Auxiliar: Obra Literaria Biografica “O Discurso do Rei
- Como Um Homem Salvou a Monarquia Britanica” - Categoria 2
Categoria 2 - Comunicação Empatica e Sensibilizada
Fragmentos dos Discursos Bases para a Analise do Conteudo
3) 03/09/1939 - Discurso Início da Guerra
“[...] Somos chamados, com nossos aliados, a enfrentar o desafio de um principio
que, se prevalecesse, seria fatal para qualquer ordem civilizada no mundo. [...]
Esta e a questao ultima que nos confronta. Pelo bem de todos a quem queremos bem,
e pela ordem e paz do mundo, e impensavel que devessemos nos recusar a enfrentar O rei passa uma mensagem consistente de comprometimento, com atitude de
o desafio. [...] Pego-lhes que se mantenham calmos, firmes e unidos nestes tempos respeito, empatia, honradez e coragem e da sua benção ao povo, desejando-lhe
de provação. A tarefa sera dificil. Talvez tenhamos dias obscuros pela frente, eserenidade diante do periodo que se inicia.
a guerra ja Não pode ser confinada ao campo de batalha. [...] Se nos mantivermos
todos resolutamente fieis a ela, prontos para qualquer serviço ou sacrificio por
ela exigido, entao, com a ajuda de Deus, venceremos. Que a todos nos Ele abençoe
e proteja” (pp. 192-193).
4) 25/12/1939 - Discurso de Natal
“[...] Um novo ano se aproxima. Não sabemos o que trara. Se trouxer paz, seremos
todos muito gratos. Se trouxer a continuação da luta, permaneceremos sem medo.
[...] Poema: “Deus Sabe”, Minnie Louise Haskins, publicado em 1908: “Eu disse ao
homem que se postava ao portal do ano: 'De-me uma luz para que eu possa caminhar
com seguranga pelo desconhecido'. E ele respondeu: 'Adentra a escuridao e poe tua te dos ultimos acontecimentos, o rei passa em seu discurso ao povo uma
mao na Mao de Deus. Sera para ti melhor que luz e mais seguro que um caminho agem de perseverança, realismo e sensibilidade.
conhecido'. Possa essa Toda-Poderosa Mao a todos nos guiar e manter'’(pp. 197-
198). “[...] O mal, que sem cessar e com toda a honestidade de propositos nos
empenhamos em evitar, caiu sobre nos.” [...] Não se trata de mera conquista
territorial o que buscam nossos inimigos. Trata-se da derrubada, completa e
definitiva, deste Imperio e de tudo o que ele representa e, depois, da conquista
do mundo [...].” (pp. 203 e 204).
Figura 5 Fonte de Coleta Auxiliar: Obra Literaria Biografica “O Discurso do Rei
- Como Um Homem Salvou a Monarquia Britanica” - Categoria 3
Categoria 3 - Comunicação Realista
Fragmentos dos Discursos Bases para a Analise do Conteudo
5) 24/05/1940 - Discurso do Dia do Imperio
“[...] O mal, que sem cessar e com toda a honestidade de propositos nos empenhamosensagem que reforça o senso de realismo e sinceridade apresentado por George
em evitar, caiu sobre nos. [...] Não se trata de mera conquista territorial o que I.
buscam nossos inimigos. Trata-se da derrubada, completa e definitiva, deste
Imperio e de tudo o que ele representa [...]” (pp. 203 e 204).
6) 25/12/1942 - Discurso de Natal
“Em nossa festa de Natal hoje, faltam muitas das coisas felizes e familiares que
nela sempre estiveram presentes desde a nossa infancia [...]. E uma mensagem de
gratidão e esperança - de gratidão ao Todo-Poderoso por Sua grande misericordia, mensagem de Natal, o rei apresenta em seu discurso caracteristicas de
de esperança pelo retorno da paz e da boa vontade a esta terra.” [...] Encerrou o radez, sensibilidade, respeito, benção, fe, perseverança.
discurso com uma historia contada por Abraham Lincoln, a respeito de um garoto que
carregava morro acima uma criança bem menor. “Ao ser perguntado se o pesado fardo
Não era demasiado para ele, o menino respondeu: 'Não e um fardo, e meu irmao'” (p.
213).
7) 06/06/1944 - Discurso do Dia “D”
“O espirito do povo, resoluto e dedicado, inflamou-se sem duvida como uma chama
brilhante, vinda de um daqueles fogos invisiveis que ninguem pode extinguir. [...] Apresentam-se evidencias de realismo, coragem, reconhecimento, fe e
Uma vez mais, o que se exige de todos nos e algo alem da coragem, alem da perseverança.
resistencia” [...] Encerrou citando o versiculo 11 do Salmo 29: “O Senhor dara
forga a seu povo; o Senhor abengoara seu povo com paz” (pp. 223-224).
8) 25/12/1944 - Discurso de Natal
“Se olharmos para aqueles primeiros dias da guerra, podemos certamente dizer que aais uma vez, observam-se no discurso, palavras de perseverança, com
escuridao fica menor e menor a cada dia [...]. A ansiedade esta dando lugar a ensibilidade, determinação e maturidade.
confiança, e esperemos que antes do proximo Natal a historia de liberação e
triunfo esteja completa” (p. 229).
Figura 6 Fonte de Coleta Auxiliar: Obra Literaria Biografica “O Discurso Do Rei
- Como Um Homem Salvou a Monarquia Britanica” - Categoria 4
Categoria 4 - Comunicação Genuina
Fragmentos dos Discursos Bases para a Analise do Conteudo
9) 08/05/1945 - Dia da Paz V
“Agradecemos hoje ao Deus Todo-Poderoso por uma grande benção [...] eu lhes peço
que me acompanhem neste ato de gratidão [...]. Na hora do perigo, humildemente ei, em sua mensagem, agradece a Deus e convida seus suditos a fazerem o mesmo,
entregamos nossa causa nas mãos de Deus, e Ele tem sido nossa Força e nosso onstrando fe, humildade, benção, determinação.
Escudo. Vamos agradecer Suas graças e, neste momento de vitoria, nos entregar e a
nossa nova liderança a essa mesma e forte Mão” (pp. 233-237).
10) 25/12/1951 - Discurso de Natal
“Eu mesmo tenho razões para uma profunda gratidão, pois Não apenas - pela graça
de Deus e por meio da leal competencia de meus médicos - superei a doença como am evidentes caracteristicas de gratidão, humildade, superação, fe, benção e
tambem aprendi uma vez mais que e nos tempos ruins que mais valorizamos o apoio e peito, apresentadas na fala do rei.
a solidariedade de nossos amigos. Confio em que voces percebam o quanto suas
orações e bons votos ajudaram e ajudam minha recuperação” (pp. 249-250).
Na Figura_3, apresentam-se os fragmentos dos discursos na Categoria 1 -
comunicação pura e aberta. Esses fragmentos referem-se ao período inicial do
reinado de George VI.
Na Categoria 1, deixa-se claro que, por meio do conteúdo dos discursos
iniciais, pode ser observada a presença de características que envolvem
honradez, humildade, respeito, coragem, comprometimento e fé, a exemplo do
discurso da coroação, em maio de 1937, quando o rei falou de sua gratidão em
servir ao povo (registro 1). Em seu primeiro discurso de Natal, proferido no
ano de 1937 (registro 2), George VI demonstrou a importância do momento de
transição do reinado, bem como deixou claros seu compromisso com a nação e o
respeito que ele dava ao período anterior, quando essa nação esteve aos
cuidados do rei George V, seu pai. Nascimento_(1977) chamou a atenção para a
necessidade de que haja uma comunicação pura entre as pessoas e a confiança nas
relações deve ser precedida dessa forma de comunicação, como uma condição
necessária para que a certeza de relações seja alcançada e mantida. Observa-se
que o respeito à imagem de seu pai foi mantido, inclusive como forma de
aproximação com o povo e com aqueles que confiavam na sucessão do reinado
(registro 2).
Na Figura_4, apresentam-se os fragmentos dos discursos na Categoria 2 -
comunicação empática e sensibilizada. Esses fragmentos referem-se ao período de
aproximação entre o rei George VI e os seus súditos.
Na Categoria 2, mostra-se que, diante dos diversos desafios enfrentados pelo
rei George VI, o envolvimento da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi
considerado um acontecimento extremamente difícil e o que mais exigiu
sensibilidade em sua postura, por intermédio de atitudes de soberania e
empatia, já que o rei teve de liderar sua nação em meio às adversidades
trazidas pela guerra. Nesse momento importante e delicado, o rei George VI fez
um pronunciamento a seus súditos, no qual se notam características que envolvem
consistência, comprometimento, honradez e senso de realismo (registro 3).
Analisando-se o discurso de Natal em 1939 (registro 4), observa-se que Albert
manteve em sua fala características como respeito, humildade, perseverança e
sensibilidade, sem perder o senso de realismo. Mesmo expressando suas
preocupações com o futuro, Albert não perdeu a sensibilidade e declamou um
poema com uma mensagem de esperança e como forma de incentivo a seus súditos.
Na Figura_5, apresentam-se os fragmentos dos discursos na Categoria 3 -
comunicação realista. Esses fragmentos referem-se ao período de maior desafio
do reinado de George VI.
Na Categoria 3, verificou-se também uma relação entre o discurso proferido pelo
rei no Dia do Império (registro 5) e as afirmações de Genelot (citado por
Cardoso,_2006). Considerando-se que o receptor é um agente ativo diante de
mensagens recebidas e as entende de acordo com seus valores e com seu mundo
social, o que influencia suas leituras, experiências e vivências, fica claro
que o significado da comunicação é dado por esse receptor em um universo
simbólico e social, uma vez que todo o processo cognitivo entra em circulação
para a produção desse significado. Albert demonstrou considerar seus súditos
como receptores ativos e que, mesmo estando em uma posição de destaque, tinha
incertezas, dúvidas e, acima de tudo, esperanças. Características como essas
indicam uma aproximação com seu povo. Não havia como ter certeza de que todos
tivessem compreendido a mensagem, mas - diante do canal selecionado, via rádio,
em tempo real, e da seriedade com a qual o discurso foi proferido - a
transmissão da comunicação foi realizada de modo que se buscasse condicionar a
sensação ao que estava sendo dito.
Prosseguindo com a análise e a discussão dessa categoria, considerando-se a
ordem cronológica dos fragmentos dos discursos do rei, pode-se constatar, no
discurso do Natal de 1942 (registro 6), o quanto o uso de seus conhecimentos,
advindos de uma sólida formação, contribuiu para sua aproximação com os súditos
e com o sentimento de companheirismo presente entre eles. Ao elucidarem-se tais
fragmentos, houve o propósito de compreender como se configura a comunicação
nas organizações, utilizando-se de uma metáfora como artifício para a
compreensão desses fenômenos organizacionais. Morgan (1996) apoiou-se na
premissa de que trabalhar com metáforas traz um significado muito maior do que
apenas o embelezamento do discurso, mas implica um modo de ver e de pensar
sobre o mundo real, conforme já mencionado anteriormente nesta pesquisa. Aqui,
registra-se o fragmento do discurso do Dia D (registro 7), em que o rei,
utilizando inicialmente linguagem metafórica, manteve presentes características
como fé, respeito, reconhecimento de coragem, gratidão e perseverança.
Outro fragmento diz respeito a um trecho de outro discurso proferido no Natal
de 1944 (registro 8), no qual as palavras de perseverança e otimismo, com
sensibilidade, determinação e maturidade, destacam-se em consonância com a
afirmação de Freitas_(2009) de que o saber-fazer comunicativo pressupõe muito
mais do que o domínio do código verbal, pois está ligado à dimensão
sociocultural da linguagem, que vincula objetivos comunicativos a
comportamentos linguageiros específicos.
Na Figura_6, apresentam-se os fragmentos dos discursos na Categoria 4 -
comunicação genuína. Esses fragmentos referem-se ao período de maturidade no
reinado de George VI.
Na Categoria 4, observa-se que, após um longo período, o rei pôde então
comunicar a seu povo o fim da guerra e o fez em um pronunciamento: o Dia da Paz
(registro 9). Salienta-se um ponto comum entre Rogers_(1983)e Nascimento_
(1977), corroborado por Leite_et_al._(2012,_p._17) no que tange ao construto
comunicação: "Há um engano comum ao se pensar que a comunicação genuína só pode
existir se houver certeza de relações. A certeza de relações é que não será
alcançada sem a comunicação genuína". Mediante essa assertiva, confirma-se a
relação estabelecida entre o rei George VI e a sua nação, relação mantida pela
comunicação genuína e pela certeza de relações, características consideradas
importantes entre um dirigente e o povo de sua nação.
Em uma comparação metafórica, as características apontadas como presentes na
relação entre o rei e sua nação também são indicadas para que estejam presentes
na relação entre um gestor e sua equipe, no contexto das organizações. Morgan_
(2007) defende que as organizações são comparadas a organismos permeados de
interesses, por serem consideradas complexas, ambíguas e paradoxais.
Considerando-se a comunicação, nesse contexto, corrobora-se Freitas_(2009), que
discute a importância da comunicação organizacional e a articulação entre
linguagem e trabalho, assim como o fato de que as organizações necessitam ser
administradas tendo clareza de que o processo de comunicação deve ser
considerado essencial e humano para se atingirem os resultados esperados.
Conforme pode ser observado no discurso do Natal de 1951 (registro 10),com o
qual o rei George VI despediu-se de seus súditos com sua tradicional mensagem
de Natal, a comunicação foi essencialmente humana. O registro não apontou temor
de exposição por trás da comunicação genuína do rei com seus súditos, o que se
encontra alinhado ao pensamento de Rogers_(1983), de que é possível estabelecer
comunicações genuínas entre as pessoas, independentemente das posições em que
elas se encontrem. Para tanto, é preciso coragem e confiança em si mesmas e nas
outras pessoas.
Ao consolidarem-se as análises e a discussão dos resultados, observou-se que
cada uma das fontes de coleta e suas respectivas estratégias de análises
contribuíram singularmente, nesta pesquisa, para o estudo da linguagem fílmica
no campo da administração. No filme comercial/artístico, foi possível a
depuração das cenas microanalisadas, de forma a observar cada parte que
evidenciasse o processo de comunicação e o sentido dos discursos presentes. Foi
nesse contexto que, a partir da análise dos discursos produzidos no filme
comercial/artístico, abordou-se a relação entre o rei George VI e seu país,
como uma metáfora do cenário organizacional contemporâneo, no qual dirigentes e
colaboradores enfrentam desafios diários relacionados à comunicação.
O filme documentário contribuiu como reforço dos dados obtidos na análise
fílmica, uma vez que, nessa fonte de coleta, constavam registros de fotos e
cenas reais do rei, das pessoas envolvidas com ele naquele período e cenas de
alguns de seus discursos, que agregaram valor para a compreensão do contexto de
estudo desta pesquisa. Essa fonte de coleta contribuiu também para o
entendimento de que, mesmo permeado de recursos estéticos, o filme comercial/
artístico e sua utilização foram considerados relevantes e confiáveis e podem
servir de referência para análises das metáforas nas organizações, porque pôde-
se verificar tal apropriação ao se discutirem os resultados.
A obra literária biográfica contribuiu, por sua vez, com informações mais
precisas e detalhadas de todos os acontecimentos abordados no filme comercial/
artístico e no filme documentário, principalmente por conter elementos dos
discursos extraídos dos registros feitos pelo próprio rei George VI e pelo
terapeuta da fala, Lionel Logue, em seus respectivos diários, além de relatos
de seus sentimentos quanto aos desafios enfrentados àquela época.
Enfatiza-se que o surgimento do cinema possibilitou ao homem que saísse da fala
convencional e conhecesse as abundantes vantagens e possibilidades da expressão
visual, como meio de comunicação (Dondis,_1997). Em complemento a essa
afirmação, reitera-se que o discurso organizacional depende inerentemente das
metáforas, conforme afirmou Sardinha_(2007), embora nenhuma delas seja
suficiente para expressar toda a riqueza das relações organizacionais. Nesse
sentido, utilizando-se a linguagem fílmica como uma metáfora, foi abordada a
temática da comunicação de maneira diferente, o que pode influenciar novas
visões e novas formas que, por sua vez, talvez venham a ajudara compreender os
discursos produzidos nas organizações.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Relembra-se que esta pesquisa teve por objetivo analisar o exercício da
linguagem fílmica como metáfora de comunicação e sua possível utilização para a
análise dos discursos nas organizações. Ao serem estudados os discursos
apresentados pelo rei George VI nas três fontes de coleta, foi possível
comparar o conteúdo desses discursos e, diante das evidências encontradas e
discutidas, verificou-se que o uso da linguagem fílmica, neste estudo, pode
contribuir para o entendimento do fenômeno da comunicação nas organizações e
para a discussão dos elementos que interferem nos resultados obtidos por
intermédio da prática de exercícios com essa linguagem.
Reforça-se que a microanálise e a depuração das cenas de filmes comerciais/
artísticos completos podem permitir ao pesquisador a conferência de seus
registros e de suas percepções, devido ao acesso repetido às cenas, desde que
não se permita a escolha do filme pelo filme, mas pela oportunidade de
investigar um fenômeno organizacional a partir de diferentes lentes. Do mesmo
modo que a conveniência da utilização da linguagem fílmica pode ser ratificada
quando ocorre um alinhamento entre o(s) filme(s) escolhido(s), o(s) construto
(s) que se pretende investigar e a fundamentação que pode permeá-los.
Os resultados com o filme analisado mostraram que há possibilidade de
comparação entre os discursos organizacionais, produzidos entre gestores e
colaboradores, a partir da linguagem fílmica, uma vez que seu exercício cria
oportunidade de simulação a partir de cenas que podem ser comparadas com fatos
reais, diante dos acontecimentos ocorridos nas organizações.
Nesta pesquisa foi possível verificar o sentido da utilização da linguagem
fílmica quando se desenvolvem as dimensões do sentimento e da experiência
perceptiva, uma vez que o realismo promovido/sugerido pelo cinema é o resultado
da objetividade e da subjetividade do indivíduo no processo de significação
fílmica. É resultado da objetividade, porque se trata de um processo de
reprodução mecânica e, ao mesmo tempo, é também resultante da subjetividade,
porque envolve o olhar de quem assiste.
Diante do contexto apresentado, acrescenta-se que uma das limitações acerca do
uso da linguagem fílmica está relacionada à dimensão sentimento, pois, uma vez
que essa dimensão está envolvida no processo de significação fílmica do
indivíduo, exige extremo cuidado por parte do pesquisador, ao analisar e
interpretar os resultados provenientes da experiência fílmica, para evitar,
assim, pressuposições, generalizações ou induções. Contudo, salienta-se que
algumas limitações, a exemplo daquelas próprias dos estudos observacionais
indiretos e do uso das metáforas, podem ser destacadas como ponto de partida
para um tratamento cauteloso dos resultados aqui obtidos e para o aprimoramento
de investigações futuras no campo da administração.
O uso da linguagem fílmica pode favorecer a comunicação organizacional a partir
das metáforas que venham a ser abordadas. Consideram-se, porém, os avanços
empíricos realizados e as perspectivas que se abrem ao término da pesquisa,
como fatores considerados relevantes para os rumos dos estudos observacionais
com linguagem fílmica, de modo contributivo para minimizar reducionismos e
inconsistências em pesquisas com essa abordagem. Portanto, os desafios são
inúmeros para aqueles que pretendem discutir a temática da linguagem fílmica e
o fenômeno da comunicação organizacional.
Para manutenção de uma agenda de pesquisa, reforça-se a possibilidade de
aprofundamento com novas pesquisas científicas no campo da administração, bem
como a necessidade de se instigarem reflexões a respeito da utilização dessa
linguagem, necessariamente sustentada em rigor, sistematização, consciência e
clareza do que se deseja investigar, de modo que seus resultados possam
auxiliar na aplicação de novas estratégias para a gestão da comunicação nas
organizações.
Com a análise das versões dos discursos aqui utilizadas, sugere-se investigar,
também, as possibilidades de contribuições do uso da linguagem fílmica para o
processo de ensino-aprendizagem, uma vez que análises similares no campo da
administração contribuíram para a discussão e a compreensão dos processos de
comunicação nas organizações.
No que se refere à dimensão de sentimento que envolve os estudos relacionados à
linguagem fílmica como uma limitação, propõe-se a investigação desse fenômeno
com a participação de indivíduos - atores organizacionais - no sentido de
explorar afundo a objetividade e a subjetividade do indivíduo no processo de
significação fílmica.
Com relação ao fenômeno da comunicação, sugere-se que haja estudos que abordem
essa temática com profundidade, investigando não somente seus modelos
esquemáticos, mas também a maneira como a comunicação é percebida e vivida
pelos atores organizacionais, explorando seus significados.♦