Todo tipo de relacionamento consumidor-marca é eficiente?
1. INTRODUÇÃO
O relacionamento com marcas tem evidenciado considerável relevância prática e
acadêmica na área de comportamento de consumo nos últimos 20 anos (Macinnis,
Park, & Priester, 2009). Do ponto de vista teórico, muitos construtos já
foram agregados com especial potencial de explicação e compreensão do fenômeno
de relacionamento com marcas (Fournier, 1998; 2009; Francisco-Maffezzolli et
al., 2008; Reimann & Aron, 2009). Do ponto de vista prático, essa área de
estudo representa grande potencial de vantagem competitiva entre as empresas.
Esse conceito está associado aos processos de identificação (Reimann &
Aron, 2009), compartilhamento de significados (Schumann, Davidson, &
Satinover, 2009), interação entre grupos (Reed II, Cohen, & Bhattacharjee,
2009), entre outros, e demonstra resultado em avaliações como as de satisfação
e lealdade (Fournier, 1998; Tam, Wood, & Ji, 2009); apego, identidade e
desejo (Ahuvia, Batra, & Bagozzi, 2009; Paulssen & Bagozzi, 2009);
confiança e comprometimento (Francisco-Maffezzolli et al., 2008), entre outros.
Portanto, além de a capacidade da marca agregar valor a produtos e serviços
tendo em vista sua identidade, símbolo e significado, resultantes do
compartilhamento de tais valores repassados pelas estratégias de comunicação de
marketing, os relacionamentos têm se mostrado como potenciais pilares
estratégicos de diferenciação entre empresas/marcas. Tal situação reforça a
premissa de que marcas são capazes de gerar valor pelas convicções do indivíduo
em perceber uma forma (simbólica) de suprir suas necessidades (Solomon, 2002).
Somadas a esse contexto, as metáforas associadas aos relacionamentos pessoais
permitem a inferência de algumas premissas como: relacionamentos são
intencionais, dependem da relação e envolvimento entre as partes abarcadas,
ocorrem em diferentes intensidades, alguns mais superficiais e outros
duradouros e profundos, e possuem tempo de duração indeterminado, ou seja,
dependem da ação entre as partes (Macinnis et al., 2009). De acordo com as
redes pessoais (família, amigos, trabalho etc.) e certas características
pessoais (hobbies, personalidade, hábitos, etc.), os relacionamentos são
construídos e mantidos de acordo com os contextos social, econômico e cultural
dos indivíduos. Dessa forma, espera-se que os relacionamentos entre marcas e
consumidores possam ser benéficos para ambas as partes, já que correspondem às
premissas apresentadas.
Segundo Fournier (1998; 2009), há uma grande diversidade de relacionamentos que
podem ser identificados, já que são manifestados de forma distinta entre
consumidores. Dois exemplos ilustram essa situação: uma mesma marca pode
registrar diferentes intensidades de relação de acordo com a avaliação e
percepção de diferentes consumidores; e um consumidor pode demonstrar
diferentes tipos de relacionamento com diferentes marcas. A autora sugere que
os construtos elencados no modelo Brand Relationship Quality (BRQ) possam
auxiliar na qualificação dos tipos de relacionamentos articulados, mas vale
ressaltar que esses relacionamentos dependem do perfil dos consumidores quanto
à predisposição em relação à marca, bem como quanto à identidade da marca
analisada, tendo em vista o contexto de consumo em que ela está inserida. A
autora sugeriu um modelo conceitual em 1998 e outro de mensuração em 2009 sobre
o BRQ, mas não houve pretensão de realizar análises multivariadas no intuito de
entender formas de agrupamento de acordo com a relação consumidor-marca. A
sustentação teórica e empírica nos referidos estudos comprova que existem
diferenças entre consumidores que refletem na forma como o BRQ é avaliado.
Contudo, não foi registrado estudo anterior que avaliasse os possíveis grupos
de consumidores com base no relacionamento com marcas. Neste estudo, pretendeu-
se suprir esse gap de literatura.
Dessa forma, buscou-se verificar a existência de diferentes perfis de
relacionamento consumidor-marca e sua respectiva eficiência na relação
comercial, a fim de investigar se os tipos encontrados são, de fato,
eficientes. Para isso, no intuito de checar os perfis de relacionamento, três
construtos que representam os tipos de ligações socioemocional, comportamental
e cognitiva propostos no modelo BRQ de Fournier (1998; 2009) foram analisados:
autoconexão, intimidade e interdependência com marcas. Para verificar a
eficiência no relacionamento, foram avaliados índices de qualidade do
relacionamento satisfação, confiança e comprometimento (Prado, 2004) e de
lealdade (Oliver, 1999). A etapa empírica utilizou dois contextos de pesquisa
calça jeans e tênis esportivo , tendo em vista que são produtos utilizados de
forma rotineira e podem expressar parte da identificação do indivíduo com as
escolhas de marca realizadas.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
O referencial teórico foi estruturado em duas partes. Na primeira, fez-se uma
breve abordagem sobre a literatura de relacionamento com marcas e atribuiu-se
maior atenção para os três construtos que representam os tipos de ligações
socioemocional, comportamental e cognitiva, utilizados como base de compreensão
dos tipos de relacionamento: autoconexão, intimidade e interdependência com
marcas. Na segunda parte, tratou-se brevemente da qualidade do relacionamento e
da lealdade, quanto a elementos que podem demonstrar a eficiência percebida nas
diferentes estruturas de relacionamento.
2.1. Relacionamento com marcas
O relacionamento com marcas, sob a ótica das teorias de relacionamento pessoal,
foi explicado primeiramente por Fournier (1998). A autora propôs um modelo
chamado de Brand Relationship Quality(BRQ), no qual destacou três tipos de
ligações: ligações afetivas e socioemotivas (amor/paixão e autoconexão);
ligações comportamentais (interdependência e comprometimento); ligações
cognitivas (intimidade e parceria). Após uma década dessa proposta conceitual,
a autora segue com refinamentos no desenvolvimento desses estudos e enfatiza a
proeminência de estudos que demonstram as particularidades das relações entre
consumidor e as marcas consumidas (Fournier, 2009). Outros estudos também
sugerem insights para melhor compreender as possíveis relações entre as
variáveis do relacionamento com marcas (Francisco-Maffezzolli et al., 2008).
Contudo, percebe-se um gap na literatura que define tipos de relacionamentos,
uma vez que tais construtos analisados no estudo não se manifestam de maneira
uniforme para todas as pessoas (e com todas as marcas consumidas). Somado a
isso, sugere-se que a classificação dos tipos de relacionamento esteja
associada à eficiência na relação comercial, apesar de que estudos anteriores
não tenham conseguido comprovar tal associação (Fournier, 1998; Francisco-
Maffezzolli et al., 2008). Portanto, a busca por esses achados qualifica a
originalidade do presente estudo.
Dessa forma, espera-se que a relação dos três construtos (intimidade,
autoconexão e interdependência com a marca) possa oferecer condição de explorar
as variações dos tipos de relacionamento que podem ser articulados entre o
consumidor e a marca. A escolha desses construtos para análise contemplou a
capacidade de explicação de cada conceito sobre diferentes respostas do
consumidor, além de representarem construtos ainda pouco explorados na
literatura, quando comparados aos demais elementos do BRQ.
2.2. Interdependência com a marca
Com base na teoria de relacionamentos pessoais, é possível considerar o
pressuposto da avaliação do consumidor com as marcas que consome dado o
significado simbólico que elas estabelecem para o indivíduo, bem como a
relevância das estruturas estabelecidas na vida do consumidor em razão de
determinadas marcas consumidas. Sendo assim, compreender de forma aprofundada o
que o relacionamento significa para a pessoa, bem como o contexto em que ela se
engaja oferece com maior amplitude parâmetros para avaliar-se a qualidade do
relacionamento com uma marca, já que é estendida à avaliação de aspectos
operacionais ou centrados na solução do problema em si (Fournier, 1998).
Nesse contexto, esse construto é explicado por meio da teoria da
interdependência (Thibaut & Kelley, 1959), a qual busca compreender o
relacionamento entre os membros do grupo. Rusbult e Arriaga (1997) definem a
interdependência como a forma e o grau com os quais indivíduos interagem ou
influenciam a experiência de outros, com referência ao fato de que as
preferências, motivações e comportamentos de um indivíduo são relevantes para
seus parceiros de interação.
Portanto, a interdependência é considerada um elemento fundamental para a
experiência social das pessoas e está associada às disposições individuais e
motivações para o relacionamento e as normas sociais que emergem como
consequência das interações constantes entre as partes, à realidade
interpessoal e a eventos internos ao indivíduo que permitem a compreensão do
significado das situações de interdependência, as quais aparecem nas respostas
afetivas demonstradas. No contexto do relacionamento com marcas, Fournier
(1998) e Aaker, Fournier e Brasel (2004) retratam a avaliação de
interdependência como a participação da marca na vida cotidiana do consumidor.
Portanto, esse construto é definido pela capacidade em retratar essa
participação, tanto psicológica (por exemplo, com dependências e obsessões)
quanto comportamentalmente (por exemplo, hábitos, rotinas e rituais) (Fournier,
1998; 2009; Prado et al., 2009).
2.3. Intimidade com a marca
Proveniente da literatura de relacionamentos íntimos, a intimidade refere-se a
uma sensação de compreensão recíproca entre companheiros de relacionamento.
Como relata Fournier (1998), marcas fortes geram estruturas de conhecimento
bastante desenvolvidas, com diversas camadas de significados, refletindo graus
de intimidade mais profundos e laços de relacionamento mais duráveis. Portanto,
inclui o conhecimento e a familiaridade dos consumidores com a marca, e a
percepção de familiaridade da marca para com o consumidor.
Em essência, Fournier (1998) retrata que todos os relacionamentos do consumidor
com marcas fortes podem ser enraizados em suas crenças sobre a superioridade
daquilo que recebe. Elas tomam formas de mitos desenvolvidos pelo próprio
consumidor (apoiados pela mídia), que associa a marca a algo com qualidade
superior e insubstituível. Soma-se nesse contexto a capacidade de
personalização e customização que a marca oferece em prol de ouvir a
necessidade do consumidor e ajustar seus produtos e serviços para melhor servi-
lo. Dessa forma, a intimidade com a marca refere-se a uma sensação de
compreensão recíproca entre companheiros de relacionamento e inclui o
conhecimento e a familiaridade dos consumidores com a marca (Fournier, 1998;
Ribeiro et al., 2010).
2.4. Autoconexão com a marca
Fournier (1998) relata que a autoconexão se refere ao grau com que o
relacionamento com a marca dá suporte a metas, tarefas e temas da vida do
consumidor, ou ajuda a expressar seus conceitos reais, desejados, ou coletivos,
indicando uma ativação de um sistema de conexão pessoal. Esse componente remete
à discussão na literatura de relacionamentos íntimos e traz consigo diversas
metáforas que são hoje utilizadas para explicar o relacionamento (Hazan &
Shaver, 1994). Vieira (2010) comenta sobre temas similares, como o engajamento
com a marca no autoconceito do consumidor. O autor propõe o teste de um modelo
de medida e ressalta a importância da relação consumidor-marca como elemento de
reforço de identidade para o consumidor.
A autoconexão incorpora ainda a perspectiva dos estilos de conexão (attachment
styles), que, além de tratar da natureza do relacionamento, rememora aspectos
que estão associados à história que o consumidor pode ter em seus diversos
relacionamentos com marcas. Dessa forma, esse construto é definido pelo suporte
que a marca pode oferecer ao indivíduo na expressão de sua imagem pessoal
(Fournier, 1998; 2009; Francisco-Maffezzolli et al., 2010).
2.5. Qualidade do relacionamento com marcas e lealdade
A qualidade do relacionamento com marcas e a lealdade são consideradas
expressões de eficiência do relacionamento porque apontam para a chance de
manutenção do fornecedor. Prado (2004) sugere duas formas distintas de
avaliação do relacionamento: uma objetiva, financeira e tangível; e outra
subjetiva, oriunda da percepção e avaliação do fornecedor. O autor fez uso
dessa definição para avaliar serviços bancários, em que o valor investido, a
quantidade e o tipo de transações caracterizavam eficiência objetiva. Já
avaliações subjetivas, como a qualidade do relacionamento, orientam o trabalho
e a avaliação do produto/serviço pelos gestores. Neste estudo, optou-se pela
segunda forma de análise, a de origem subjetiva.
Dessa forma, de acordo com a metáfora dos relacionamentos pessoais presentes na
díade consumidor-marca, a intensidade percebida do relacionamento contempla a
posição dentre os extremos superficialidade e profundidade da relação
possível entre duas partes. Em caráter qualitativo, Fournier (1998) provocou
algumas possibilidades ao intitular relações entre consumidor e marcas como
"amigos verdadeiros", "amigos ocasionais", "casamento arranjado", dentre
outros. Portanto, espera-se com este estudo prover uma orientação quantitativa
sobre a intensidade de relacionamentos oriunda dos três construtos descritos,
que sugerem níveis de identificação e apego a marcas.
Nesse contexto, cabe indagar: Como a intensidade do relacionamento pode afetar
os resultados de relacionamento do ponto de vista de satisfação, confiança,
comprometimento e lealdade? A literatura de relacionamento com marcas sugere
que, quanto mais positivas forem as avaliações das possíveis relações do
indivíduo em prol de uma marca, maior será a probabilidade de esta pessoa estar
mais satisfeita com a solução (produto/serviço/marca) recebida. Assim, entende-
se por satisfação a relação entre expectativa e desempenho provida pelo
paradigma da desconformidade (Oliver, 1999; Prado, 2004). Portanto, este seria
um primeiro resultado de avaliação sobre um forte relacionamento com a marca,
conforme sugerem Macinnis et al. (2009).
Além disso, a satisfação, quando mensurada de forma conjunta com confiança e
comprometimento, refere-se a um construto de segunda ordem chamado qualidade do
relacionamento (Prado, 2004). A confiança, nesse contexto comercial, é
compreendida como a crença na integridade e na responsabilidade entre as partes
envolvidas em uma relação (Grönroos, 1990; Morgan & Hunt, 1994; Garbarino
& Johnson, 1999). O comprometimento, por sua vez, é definido pelo esforço
das partes envolvidas em um relacionamento em mantê-lo, como sinal de uma
relação benéfica e duradoura para ambas as partes (Dwyer, Schurr, & Oh,
1987; Morgan & Hunt, 1994).
Assim, o maior índice de satisfação implica proporcional tendência de lealdade
na resposta atitudinal e comportamental do consumidor (Bolton, 1998). A
evolução de seu significado demonstra que ela não é considerada tão somente
como a recompra, mas também como uma mistura de intenções e comportamento que
culmina no desejo de manter-se fiel a determinada marca. Essa situação, em
geral, evoca benefícios ao consumidor e à marca consumida (Prado, 2004). A
lealdade é compreendida nesse contexto como a crença de que determinado
fornecedor é a melhor opção para o consumidor, denotando o desejo por continuar
a relação de compra e consumo com esse fornecedor (Oliver, 1999; Prado, 2004).
2.6. Integração das variáveis
No estudo, parte-se do teste conjunto de três variáveis que explicam ligações
comportamentais (interdependência), afetivas e socioemotivas (autoconexão), e
cognitivas (intimidade), como elementos que refletem a percepção do respondente
na relação consumidor-marca (Fournier, 1998; Francisco-Maffezzolli et al.,
2008). Esses elementos sugerem níveis de avaliação de acordo com a intensidade
de uso da marca, a importância da marca, a rotina, os hábitos de uso, entre
outros. Diante disso, espera-se que possam ser revelados tipos de consumidores
de acordo com a proximidade com a marca. Francisco-Maffezzolli et al. (2008)
apontam de forma qualitativa que diferentes níveis de avaliação desses
construtos devem gerar impactos comerciais distintos. Dessa forma, espera-se
que relacionamentos com maior intensidade percebida possam prover maior índice
nas avaliações da qualidade do relacionamento e da lealdade e que, portanto,
sejam mais eficientes na relação comercial. Tal situação pode prover maior
vantagem para a empresa preferida, já que a predisposição pela recompra,
indicação e continuidade tendem a ser potencializadas. Por outro lado, outra
reflexão a ser levantada é a relevância do relacionamento quando percebido de
forma superficial, ou seja, com baixa intensidade. Estudos anteriores
(Fournier, 1998; 2009) pressupõem que os relacionamentos com baixa intensidade
(os quais sugerem menores índices de intimidade, autoconexão e interdependência
com a marca) estejam sujeitos a maior instabilidade ante as ações da
concorrência, por também demonstrarem menores índices de eficiência sobre a
qualidade do relacionamento e a lealdade. Tal situação estimula o
questionamento principal neste estudo: Qual o impacto de diferentes perfis de
relacionamento consumidor-marca sobre a eficiência na relação comercial?
3. METODOLOGIA
A etapa empírica neste estudo foi realizada por meio de abordagem quantitativa
descritiva. Adotou-se como estratégia de pesquisa um survey realizado via
coleta pessoal entre jovens estudantes de 18 a 30 anos, consumidores de calça
jeans e tênis esportivo. O contexto empírico foi escolhido em função da rotina,
do hábito e da proximidade da marca com o consumidor, situação similar
encontrada em Vieira (2010). Como filtro do estudo, os respondentes deveriam
ter pelo menos três produtos da marca escolhida por eles na hora da pesquisa,
já que a avaliação das marcas citadas dependia da lógica de relacionamento
implícita nas escolhas de consumo. Cabe ressaltar que as escalas testadas na
avaliação da intensidade do relacionamento foram resultantes de estudos
anteriores no mesmo campo teórico-empírico (Prado et al., 2009; Francisco-
Maffezzolli et al., 2010; Ribeiro et al., 2010). A mensuração dos construtos
abordados neste estudo contemplou a classificação exposta no Quadro_1.
Foram utilizados 441 casos neste estudo, tendo em vista a preparação da base de
dados sobre outliers, missing value e questionários completos. Inicialmente foi
conduzida análise descritiva dos dados, seguida de análise fatorial
exploratória (AFE) e teste de Alpha de Cronbach. Posteriormente, para
identificação dos diferentes perfis de relacionamento com a marca, grupos foram
gerados por meio da técnica de cluster não hierárquico (K-Means) e comparados
por meio de diferença de médias ANOVA. Também foi utilizada análise
discriminante para determinar a função discriminante entre os grupos. O impacto
das diferentes intensidades sobre as avaliações realizadas pelos consumidores
quanto à qualidade do relacionamento e à lealdade foi testado por meio da
comparação de médias (ANOVA).
4. ANÁLISE E RESULTADOS
Neste item, apresenta-se uma breve caracterização dos respondentes, seguida da
AFE e de teste de confiabilidade de escalas por meio do Alpha de Cronbach. Em
seguida, os grupos em estudo são gerados via análise de cluster. Para confirmar
a relevância dos grupos gerados, é conduzida a análise discriminante. Por fim,
a análise de variância ANOVA comparou os diferentes grupos de acordo com as
médias dos construtos de eficiência.
4.1. Caracterização da amostra e definição dos grupos de análise
Dentre os 441 casos analisados, 39% foram relativos à categoria de calça jeans
e 61% à de tênis esportivo. Mais de 30 marcas de calças e tênis foram citadas
no estudo, fato que sugere a análise dos resultados sem viés oriundo de uma
única marca pesquisada. A idade média dos respondentes foi de 25 anos e a
divisão de gêneros foi semelhante, 54% homens e 46% mulheres.
A preparação da base contemplou os passos seguidos por Pallant (2007) sobre a
verificação de outliers, missing values¸ normalidade e linearidade das
informações. Tendo em vista esse preparo dos dados, 441 casos foram
considerados válidos para o estudo. A Tabela_1 demonstra os resultados obtidos
via AFE (KMO, carregamentos/loadings e Alpha de Cronbach), método de
componentes principais e rotação varimax, e dados descritivos (média e desvio
padrão) por cada item analisado no presente estudo, no intuito de checar a
confiabilidade das escalas utilizadas.
Os resultados sugerem boa adequação quanto à análise da AFE. Os valores do KMO
foram significativos e variaram de 0,819 e 0,902 entre os três construtos
analisados. Os carregamentos registraram valores acima de 0,5, e o Alpha de
Cronbach demonstrou rigor nas escalas empregadas, conforme referência de Hair
Jr., Anderson, Tatham e Black (2005). Quanto às médias, percebe-se que, no
construto intimidade, a dimensão amigos verdadeiros recebeu maiores escores em
relação a amigos atenciosos. Vale destacar o desvio padrão (de 2,11 a 2,82),
que sugere considerável variação dentre as respostas obtidas. As demais
variáveis intimidade e autoconexão registram avaliação semelhante. Tal
situação realça os insightssobre a possível intensidade de relacionamento entre
os respondentes.
Na sequência, foi conduzida a análise sobre a classificação dos respondentes
quanto à intensidade do relacionamento com a marca. Para isso, foram
consideradas duas perspectivas iniciais quanto à intensidade de relacionamento:
aquela relacionada à frequência e ao volume das trocas comerciais (Prado, 2004;
Fredriksson, 2007) e a relacionada à avaliação subjetiva do relacionamento
(Fournier, 1995). No estudo, fez-se uso da segunda perspectiva para analisar a
intensidade do relacionamento com a marca.
A análise de cluster foi conduzida de acordo com o método não hierárquico (K-
Means) (Pallant, 2001). Tal condução permite ao pesquisador explorar a
quantidade de grupos conforme a teoria de suporte e os dados coletados. Dessa
forma, a composição de 2, 3 e 4 grupos foi testada. Os resultados apresentados
a seguir referem-se à composição de três grupos, já que se mostrou a composição
que melhor exprime a intensidade do relacionamento com marcas, tendo em vista a
classificação de baixa, média e alta intensidades. Os grupos foram gerados a
partir dos indicadores de interdependência, devido a seu caráter
unidimensional, e das médias das dimensões de autoconexão (estima e
reconhecimento) e intimidade (amigos verdadeiros e amigos atenciosos), conforme
descrito na Tabela_2.
O grupo 1 é formado por 110 consumidores (25% da base de entrevistados) que
indicaram uma avaliação baixa sobre os itens testados, o que implica pouca
relação da marca com estima, reconhecimento, bem como com relações de
intimidade e interdependência. Tal grupo foi denominado de relacionamento por
inércia (RI) ou de ocorrência espúria. Dick e Basu (1994) sugeriram um eixo de
avaliação da lealdade cuja interpretação pode ser complementar ao grupo RI. Os
autores demonstram que a lealdade por inércia é resultado de pouca atitude e
ação. Da mesma forma, observa-se que a declaração dos respondentes demonstra
baixa atitude ante a marca. Como informação descritiva de caracterização desse
grupo, ressalta-se a presença de 37% de homens e 63% de mulheres. Desses, 37%
dos respondentes avaliaram marcas de tênis esportivo e 63% de calça jeans. Em
relação à idade, a predominância foi do público jovem (39% até 20 anos, 55% de
21 a 30 anos). O estado civil registrado de forma majoritária foi de 83%
solteiros. Essas informações foram manifestadas na mesma proporção nos demais
grupos.
De acordo com os escores registrados (de 2,8 a 3,2 nas dimensões de
intimidade), o grupo RI não vê a marca como íntima de suas escolhas de compra
ou de presença relevante em momentos de uso, afinal, a marca não parece ser uma
amiga verdadeira nematenciosa. Além disso, a escolha de marca deste perfil de
consumidor tende a ser orientada de acordo com aspectos tangíveis, como a
funcionalidade ou outras características técnicas. Aspectos simbólicos de
reforço de imagem e relevância no reconhecimento do grupo também não foram
percebidos de forma positiva conforme as médias de autoconexão com marcas
expressas na Tabela_2 (variação de 2,6 a 3,9). Além disso, poucas vantagens que
possam sugerir dependência sobre o uso da marca são percebidas, conforme
demonstram as médias de interdependência (variação de 1,9 a 6). Apenas o item
sobre preferência da marca registrou valor mais positivo (6). Conforme
observado na literatura prévia, esse grupo pode contemplar as relações como
"casamento arranjado" (Fournier, 1998), ou ainda "relações interesseiras",
segundo casos retratados em Francisco-Maffezzolli et al. (2008).
No grupo 2, formado por 202 respondentes (46% da base de respondentes),
demonstram-se avaliações moderadas/intermediárias sobre os aspectos avaliados.
De acordo com a escala utilizada, os valores médios apontam uma sutil
concordância sobre a maioria dos aspectos analisados. Tal intensidade de
relacionamento sugere um grupo de relacionamento moderado (RM). Como informação
descritiva de caracterização desse grupo, ressalta-se a presença de 43% de
homens e 57% de mulheres. Sobre a proporção do produto, 38% dos respondentes
avaliaram marcas de tênis esportivo e 62% de calça jeans. Em relação à idade, a
predominância foi do público jovem (47% até 20 anos, 47% de 21 a 30 anos). O
estado civil registrado de forma majoritária foi de 91% de solteiros.
Para o perfil RM, os escores de intimidade e interdependência com a marca têm
variação com mais pontos que evocam concordância, conforme a escala de medida
utilizada. Alguns itens como preferência, percepção sobre características
únicas da marca, predisposição em pagar mais pela marca são elementos que
reforçam o senso de interdependência com a marca. Porém, percebe-se que a
declaração sobre "sentir-se dependente" obteve menor escore (3), fato que
indica discordância em declarar diretamente essa informação. Quando observados
de forma conjunta, os valores registrados tendem a demonstrar uma predisposição
a atitudes positivas perante a marca utilizada. Se comparado ao grupo RI, este
grupo tende a demonstrar maior percepção da qualidade do relacionamento, bem
como da lealdade, tendo em vista as avaliações de interdependência relacionadas
às intenções de continuidade de compra da marca. Os estudos qualitativos de
Fournier (1998) evidenciam relações sugestivas a esse perfil como o casamento
por conveniência, bem como as investigações empíricas no contexto de serviços
de Sweeney e Chew (2000), as quais sugerem algumas relações consumidor-marca
semelhantes à lógica de conveniência, mas com capacidade de evoluírem para
estruturas mais duradouras.
No grupo 3 há indivíduos com maior propensão a avaliarem o relacionamento com a
marca de forma única e expressiva na relação de consumo. As avaliações com
médias predominantes entre valores próximos a 7 e 8 sugerem ser esse um grupo
de maior intensidade com marcas, chamado de relacionamento verdadeiro (RV).
Como informação descritiva de caracterização desse grupo, ressalta-se a
presença de 50% de homens e 50% de mulheres. Sobre a proporção do produto, 43%
dos respondentes avaliaram marcas de tênis esportivo e 57% de calça jeans. Em
relação à idade, a predominância foi do público jovem (51% até 20 anos, 45% de
21 a 30 anos). O estado civil registrado de forma majoritária foi de 84% de
solteiros. Esse grupo foi formado por 129 avaliadores, o que representa 29% da
base da pesquisa.
Para o grupo RV, parece haver maior concordância sobre os aspectos que sugerem
interdependência com a marca, fato que implica as atitudes mais positivas ante
a marca. Entretanto, apesar das médias significativamente maiores em relação
aos demais grupos nas variáveis intimidade e autoconexão com a marca, a
percepção de proximidade com a marca pode ainda ser fortalecida com as
estratégias de comunicação e marketing. Cabe ressaltar que esse grupo teria
maior perfil para ser advogado da marca e depor positivamente sobre ela, já que
sua relação é mais positiva e promissora. A esse perfil, os estudos de Fournier
(1998) e Sweeney e Chew (2000) sugeriram estruturas duradouras intituladas
"melhores amigos". Também Francisco-Maffezzolli et al. (2008) comprovaram a
existência de relações intensas no uso de certas marcas de calça jeans e tênis
esportivo. Os autores investigaram as histórias e narrativas comentadas por
seis pessoas, dentre as quais duas enfatizaram uma relação especial com a Nike
e a Levis 501. Esse especial confere às marcas citadas uma percepção única e
exclusiva por parte dos consumidores. Os respondentes não conseguiam imaginar-
se sem elas. As marcas faziam parte de suas vidas e identidades. Elas eram
capazes de oferecer uma sensação singular de bem-estar e estima.
De forma complementar à análise dos grupos, foi conduzida uma análise
discriminante no intuito de reconhecer o poder de explicação dos itens
geradores dos grupos, bem como de identificar a função discriminante dos
grupos. A análise discriminante é uma técnica de análise de dados quando a
variável de critério ou dependente é categórica e as variáveis previsoras ou
independentes são métricas (intervalar). Os objetivos nesta análise são:
estabelecer funções discriminantes ou combinações lineares das variáveis
independentes ou previsoras que melhor discriminem entre as categorias da
variável de critério ou dependente (grupos); verificar se existem diferenças
significativas entre os grupos em termos das variáveis previsoras; determinar
as variáveis previsoras que mais contribuem para as diferenças entre grupos;
enquadrar, ou classificar, os casos em um dos grupos com base nos valores das
variáveis previsoras; avaliar a precisão da classificação (Malhotra, 2012). As
variáveis previsoras neste estudo foram as dimensões e os indicadores listados
na Tabela_2, e as variáveis dependentes foram os clusters indicados na mesma
tabela. No intuito de checar a contribuição na entrada de cada variável
analisada, foi utilizado o método stepwise.
Conforme sugerido por George e Mallery (2007), foi seguida a regra de seleção
da etapa que congrega o menor índice de Wilk's lambda. De acordo com os dados
obtidos, a função discriminante foi definida por função 1: Eigenvalue = 4,069,
variância (98,2%), canonical correlation = 0,896, Wilk's lambda 0,184,χ2 =
727,103, df = 18, p<0,001. Os valores de variância explicada e correlação
obtidos indicam a eficiência da função discriminante gerada. A significância do
teste Wilk's Lambda (p<0,001) indica a discriminação significativa entre os
grupos (Malhotra, 2012). Cabe ressaltar que a discriminação dos grupos ocorreu
de forma determinante pela avaliação da intimidade, autoconexão e
interdependência com a marca, já que as características descritivas comparadas
(gênero, idade, estado civil, produto analisado) foram distribuídas de forma
equânime nos grupos.
4.3. Relação dos grupos com a eficiência do relacionamento
Para validar a não colinearidade dos indicadores e das dimensões do estudo,
antes de verificar-se a relação dos grupos com a eficiência do relacionamento,
foi analisada a matriz de correlação dos indicadores utilizados no modelo.
Salienta-se que apenas intimidade e autoconexão mantiveram as dimensões de
análise, conforme apresentado na Tabela_3.
Os dados demonstram que há níveis de correlação adequados entre as variáveis do
modelo. Para essa afirmação, utiliza-se o critério de Hair Jr. et al. (2005)
sobre valores significativos e inferiores a 0,95. As relações mais fortes são
observadas entre os indicadores de um mesmo construto, fato que sugere validade
convergente de cada construto.
Por fim, com o intuito de verificar a relação desses grupos com a avaliação da
qualidade do relacionamento (Prado, 2004) e da lealdade (Oliver, 1999; Prado,
2004), foi verificada a diferença de médias (ANOVA) entre esses construtos e os
grupos encontrados. Para isso, fez-se inicialmente uma análise descritiva, o
AFE e o teste de Alpha de Cronbach a fim de verificar a validade e a
confiabilidade das escalas utilizadas. Os resultados encontrados foram
satisfatórios, ocasionando a retirada de alguns indicadores para melhor
adequação, conforme é ilustrado na Tabela_4.
A partir dessa análise, foram comparados os grupos em relação a estas
avaliações: satisfação, confiança, comprometimento e lealdade. A Tabela_5
ilustra os resultados e explicita a condição de no grupo de relacionamento por
inércia haver valores significativamente menores quando comparado aos demais
grupos. Já os grupos de relacionamento verdadeiro, além de demonstrarem maior
satisfação, também registram maior propensão à lealdade. Os valores em negrito
ressaltam a diferença significativa entre os grupos. Percebe-se que, na maioria
dos casos (exceto 2), há diferença entre os três grupos, fato que reforça o
agrupamento realizado. Esses resultados complementam os achados qualitativos
ressaltados nos estudos de Fournier (1998), Sweeney e Chew (2000) e Francisco-
Maffezzolli et al. (2008), já que comprovam a eficiência do relacionamento
quanto aos aspectos avaliativos da qualidade do relacionamento e da lealdade.
Salienta-se que nas relações mais superficiais não há preocupação com altos
índices de satisfação, confiança, comprometimento ou lealdade. Portanto, a
compra e o uso da marca por inércia ou incentivados por algum tipo de benefício
garantem resultados focados no curto prazo (Sweeney & Chew, 2000). No
entanto, conforme explanado anteriormente, o início de qualquer relação tende a
passar por essa etapa. Depende do interesse do consumidor, bem como dos
estímulos da empresa, a evolução do relacionamento. Percebem-se na Tabela_5 os
baixos índices de comprometimento, fato que evidencia a relação espúria desse
tipo de relação com a marca. Portanto, os estímulos a serem gerados pela marca
devem enfatizar por meio do mix de marketing as características únicas da
marca.
O grupo RM tende a avaliar os índices de qualidade do relacionamento e lealdade
com a marca de forma mediana (valores médios entre 5 e 7). Os valores mais
baixos são registrados no item comprometimento, fato que reforça o discurso de
conveniência desse tipo de relação (Fournier, 1998; Sweeney & Chew, 2000).
O senso de reciprocidade e a crença de melhores parceiros ainda estão
vulneráveis às ações da concorrência. Portanto, as ações de marketing devem
estimular ações que permitam maior envolvimento do consumidor com a marca, já
que esse grupo pode oferecer condição de médio prazo nas avaliações acerca da
marca e das intenções de continuidade de sua compra e uso.
No grupo RV, há demonstração de maior senso de entrega na relação: maior
satisfação, confiança e lealdade. O senso de comprometimento da amostra
analisada ainda pode ser maior, já que se busca uma relação de longo prazo com
os amigos verdadeiros. A maior vantagem desse grupo é a percepção de uniqueness
que a marca consumida proporciona, conforme sugerido por Keller (1993).
Francisco-Maffezzolli et al. (2008) sugerem que, quanto maior for a percepção
dos diferenciais da marca, bem como a exclusividade na relação consumidor-
marca, maior será a vantagem competitiva da marca/empresa no mercado.
Conforme as percepções registradas, os grupos demonstram diferenças
significativas sobre as avaliações de qualidade do relacionamento e lealdade
segundo a aplicação dos testes de Tukey HSD e Scheffe, com exceção de um
indicador de satisfação e um de confiança, os quais foram avaliados de forma
similar entre os grupos RI e RM. O Gráfico_1 ilustra a avaliação dos valores
médios da qualidade do relacionamento e da lealdade que cada grupo obteve.

Conforme avaliação realizada, o perfil RI ilustrado na parte interna do Gráfico
1 demonstra ter a menor avaliação em relação a todos os itens pesquisados.
Portanto, a menor intensidade de relacionamento parece estar relacionada à
percepção reduzida principalmente nos itens comprometimento, confiança e
lealdade. A satisfação, embora também tenha sido avaliada com menor escore em
relação aos outros perfis, demonstrou maior média nesse grupo. O fato sugere
que, independentemente da intensidade do relacionamento, a satisfação pode ser
um pré-requisito para a continuidade da compra em ocasiões futuras. Portanto, a
pessoa deve ao menos ter uma avaliação de desempenho e expectativa equilibrada
para que outros elementos possam ser avaliados. Além disso, percebe-se o baixo
índice de comprometimento desse grupo, o que reforça a questão da
vulnerabilidade quando enfrenta outras oportunidades e ofertas no mercado.
Já o perfil RM, como o nome sugere, manifesta avaliações intermediárias, mas
que tendem a ser mais positivas se forem estimuladas corretamente pelas ações
de marketing. Novamente, a satisfação foi o item mais bem avaliado desse grupo,
mas percebe-se no gráfico a tendência em aumentar o nível de confiança e de
comprometimento. A lealdade também reflete a avaliação moderada dos demais
itens.
Por fim, o grupo RV demonstrou maior atitude positiva ante a marca, já que
confia mais, sente-se mais comprometido e mostra bons índices de desempenho em
satisfação e lealdade. De acordo com os dados obtidos em relação à avaliação da
eficácia do relacionamento, os elementos que mais diferem nas avaliações entre
os grupos são respectivamente: comprometimento, lealdade e confiança.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos resultados sugere três principais contribuições sobre o tema de
pesquisa. Primeiro, a avaliação das ligações socioemocional, comportamental e
cognitiva proposta no modelo de relacionamento com marcas pode ser percebida
com diferentes intensidades, conforme os grupos apresentados ao longo da
análise, original a este estudo: relacionamento por inércia (RI),
relacionamento moderado (RM) e relacionamento verdadeiro (RV).
Contudo, a construção do relacionamento com marcas é um processo contínuo
presente nas relações entre consumidor e marca (Francisco Maffezzolli et al.,
2008). Portanto, é possível considerar que os primeiros contatos com a marca
estejam associados a uma relação espúria de continuidade de uso. Dessa forma, a
frequência e a intensidade de uso, de acordo com o contexto situacional em que
o indivíduo se encontra, bem como com os estímulos de marketing, podem
fortalecer os vínculos com a marca. Essa situação implica considerar que os
perfis sugeridos partem de um princípio de evolução e fortalecimento de vínculo
ao longo do tempo. Por outro lado, também se considera que, tendo em vista o
perfil do indivíduo, alguns relacionamentos tendem a não evoluir, o que implica
ser possível ter consumidores na base de clientes com baixo envolvimento com o
produto e com a marca, independentemente dos esforços de marketing para
instigar relações mais intensas.
Como segundo ponto de contribuição, ressalta-se a necessidade do tratamento das
ações de marketing distintas a cada grupo identificado. O grupo RI está mais
vulnerável às ações promocionais da concorrência. O RM está em fase
intermediária e pode registrar evolução ou regressão na forma de análise da
marca, dependendo da oferta do mercado. Já o grupo RV tende a valorar mais as
ações que estão associadas à lealdade à marca.
Ressalta-se que, para identificar esses tipos de consumidores, a empresa deve
estabelecer um acompanhamento prévio com pesquisa primária e database
marketing. Dessa forma, é possível mapear a frequência de compra da marca, bem
como monitorar as intenções de continuidade da relação comercial. Aliás, para
os RV, a relação consumidor-marca pode ser enquadrada acima de uma relação
meramente comercial. Sendo assim, quanto maiores forem a intensidade e a
profundidade da relação, maior é a percepção de amizade, bem-estar, conforto,
entre outros aspectos, pelas partes envolvidas nessa díade.
Como terceiro elemento saliente nos resultados, cabe a reflexão sobre a
eficácia dos relacionamentos. Aplicar ações de marketing que enfatizem a lógica
de relacionamento pode não funcionar como desejado para grupos que demonstram
baixa adesão e identificação com a marca. De acordo com a provocação incitada
no título do trabalho e com a análise realizada, o estudo demonstra a
existência de diferentes perfis de relacionamento consumidor-marca e sua
respectiva eficiência na relação comercial, fato que implica relações com maior
e menor efetividade. Cultivar RMs e, em especial, RVs na base de clientes
parece mais estratégico para marcas que necessitam continuamente agregar e
construir valor junto ao consumidor. Para isso, a pesquisa e a proximidade com
o consumidor são relevantes. Ações que permitam monitorar o contato com o
consumidor, como as redes sociais ou ações especiais de relacionamento, são
fontes importantes de informação para o gestor.
5.1. Limitações do estudo e insights de pesquisas futuras
Como no estudo não se objetivou contrastar marcas específicas, fato que confere
uma limitação ao estudo, testar os grupos com uma base real de clientes, ou
mesmo buscar analisar e contrastar consumidores de uma mesma marca pode aclarar
as ações de marketing a serem tomadas de forma mais pontual. Além disso,
agregar outras variáveis que demonstrem resultados (por exemplo, compras
efetuadas, frequência de uso, entre outros) pode ser mais objetivo para
demonstrar a relação do relacionamento no resultado dos negócios.
Futuras pesquisas podem explorar a relação entre grupos de consumidores de
acordo com o relacionamento consumidor-marca e as avaliações de eficiência
objetiva e subjetiva. Além disso, a categoria de produtos pode ser uma variável
que interfere nos resultados obtidos. Sendo assim, investigar a relação de
grupos de afinidade com diferentes categorias de produto pode auxiliar a gestão
de ações de relacionamento para produtos e serviços de alto e baixo valor
agregado. Por fim, compreender a relação entre marcas e a classe social do
consumidor pode ser útil em um mercado de crescimento constante de renda em
todas as classes.