Análise dos determinantes da lealdade às lojas temáticas de torcedores do
Atlético e do Cruzeiro
1. INTRODUÇÃO
As diversas mudanças econômicas no mundo têm trazido um grau de competição que
conduz as organizações a desenvolverem-se e aprimorarem sua gestão a cada dia.
Percebe-se também que as organizações esportivas estão gradativamente se
inserindo nesse contexto. Em relação à lacuna entre o potencial para melhorar a
exploração econômica dos clubes de futebol e os resultados da indústria
futebolística atual, Somoggi (2009b) afirma que somente obterão aporte de
recursos as organizações que seguirem as estratégias de gestão profissional e
de marketingfocadas na satisfação do torcedor, no orçamento controlado e na
diversificação das fontes de receitas.
Quando se trata de Economia no Brasil, apesar de os principais focos de atenção
ainda serem direcionados ao agronegócio, à indústria e ao turismo, o segmento
de esporte profissional começa a ser percebido como uma grande fonte de geração
de renda e de negócios. Os números mostram que o esporte, considerando-se o
aspecto econômico, vem crescendo em um ritmo muito superior ao de outros
segmentos produtivos. Segundo Somoggi (2009a), o volume gerado pelos clubes de
futebol do Brasil alcançou, em 2008, R$ 1,7 bilhão, cerca de 3,4% do Produto
Interno Bruto (PIB) esportivo brasileiro. A economia brasileira cresceu 3,54%,
em média, entre 2003 e 2009, conforme dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE, n.d.). Somoggi (2009a) analisa que em
aproximadamente cinco anos o mercado de clubes de futebol no Brasil pode
significar cerca de 5,5% do PIB esportivo nacional. Rocco Júnior (2007) declara
que o esporte profissional mundial teria gerado, em 2001, uma receita de US$ 54
bilhões, sendo o futebol o esporte de maior alcance no planeta. Uma análise
documental realizada em 2010 pela Federação Nacional das Agências de Propaganda
(FENAPRO) concluiu que, na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, as cifras
chegaram a US$ 4 bilhões só com a venda de direitos de transmissão,
considerando-se a venda no ciclo de quatro anos em que foram negociados os
direitos de televisão para mais de 400 emissoras do planeta e as propriedades
de patrocínio para um pequeno grupo de marcas ousadas, atingindo uma audiência
global acumulada estimada em 30 bilhões de telespectadores ao longo de todas as
64 partidas.
O esporte impulsiona a Economia de formas direta e indireta, mediante a compra
de ingressos para os eventos esportivos, a aquisição de camisas e bandeiras de
clubes e o consumo de itens diversos, como uma garrafa de água. Além disso,
movimenta vários tipos de profissionais, como atletas, treinadores, vendedores
ambulantes, jornalistas, médicos e policiais. No entanto, apesar de o segmento
esportivo brasileiro passar por essa fase de expansão e desenvolvimento, em um
contexto de grandes desafios, a modernização e a profissionalização das
organizações do futebol profissional no Brasil exigem mudanças imediatas, visto
que a maioria dos clubes brasileiros se encontra endividada, o que demonstra a
ineficácia administrativa e a desvalorização de seus produtos, serviços e
marcas (Leoncini, 2001).
O reconhecimento do marketing como um processo em que o mercado sinaliza suas
necessidades e as organizações buscam adaptar esse entendimento a seus próprios
objetivos e limitações justifica a grande importância de melhorar a
administração dos bens e serviços aí envolvidos e de explorar os conhecimentos
sobre a lealdade e a otimização de recursos organizacionais. Analisando a
história social do esporte moderno, Bourdieu (1983) defende que é necessário
avaliá-lo como uma oferta destinada ao encontro de certa demanda social.
Configura-se aqui um sistema constituído por organizações e agentes direta ou
indiretamente ligados à prática e ao consumo associados a esse esporte, como
agrupamentos esportivos, clubes, ligas, confederações, fabricantes de uniformes
e equipamentos esportivos, entre outros, bem como produtores e vendedores de
serviços que possibilitam a prática do esporte, como técnicos, médicos,
especialistas, fisioterapeutas, psicólogos, preparadores físicos e outros
profissionais de suporte técnico, como treinadores e jornalistas esportivos.
Para que essa demanda social seja atendida e para que o consumo responda às
expectativas das organizações ofertantes e ao desejo dos clientes, Taylor
(1998) afirma que o fator básico para produzir um relacionamento forte e
durável entre os clubes de futebol e seus torcedores foi a identidade primária
conferida pelo futebol às pessoas.
Leoncini (2001) argumenta que o consumidor busca no produto central ofertado
pelo clube (jogos de futebol) uma forma de entretenimento e de identificação
social (identidade cultural, de origem e de grupo). Por sua vez, o clube busca
a transformação desse convívio com o torcedor em um relacionamento explorável
comercialmente. Melo Neto (2003) explica que se, de um lado, o profissionalismo
dos clubes de futebol avança em termos de relações de trabalho com os
funcionários (jogadores, técnicos e auxiliares) e nas ações de compra e venda
de jogadores, esse mesmo avanço não ocorre em suas gestões administrativas.
Estuda-se a interação entre clubes e torcidas, responsável, em grande parte,
pela venda dos principais ativos das organizações de futebol (jogos de futebol,
produtos e a marca do clube) ao integrante principal da cadeia de produção de
um esporte, o torcedor. No caso dos clubes de futebol, Leoncini (2001) destaca
que a força e a distribuição do patrimônio de fãs conferem valor ao clube.
Diniz e César (2006) comentam que a dinâmica da indústria do futebol é,
fundamentalmente, a mesma desde sua propagação pelo mundo, exceto quanto à
explosão das receitas dos clubes europeus (principalmente ingleses) na década
de 1990. Apenas os países que buscam aperfeiçoar suas características internas,
visando permitir a geração de receitas para suportar os custos determinados no
mercado global, podem assegurar o desenvolvimento sustentável de uma indústria
local de futebol. Restarão, consequentemente, poucos centros de viabilidade do
futebol enquanto negócio, tendo como principais candidatos Inglaterra, Espanha,
Itália, França, Alemanha, Brasil e Argentina.
Atualmente, novos centros de fomento ao futebol têm surgido em alguns países,
como Emirados Árabes, Coreia do Sul, Japão e Rússia, alternativamente aos
grandes centros europeus, mas ainda com menor relevância econômica, em
comparação com os centros de elite do futebol profissional mundial.
Organizando-se melhor o futebol nacional, ainda segundo Diniz e César (2006), é
possível que os clubes tenham ativos de valor comparável aos dos principais
clubes ingleses, que negociam no mercado de ações - potencial de grande
atração de investidores para promover parcerias. Os agentes que podem
contribuir para a transformação da indústria de futebol no Brasil são
liderados, de acordo com Diniz e César (2006), por investidores e emissoras de
TV, que pagam mais a cada ano pela transmissão dos campeonatos, embora ainda
sejam valores baixos em relação aos do mercado europeu. Também contribuem para
o desenvolvimento empresas que desejam associar suas marcas a algum produto de
qualidade, fornecedores de materiais esportivos e o próprio governo,
incentivado por motivos políticos e fiscais. Como em todo mercado, os
detentores das marcas de produtos esportivos desejam que seus clientes comprem
cada vez mais e sejam consumidores leais. No entanto, essa lealdade pressupõe
algumas variáveis, que nem sempre estão implícitas ou visíveis no processo de
compra dos clientes. Algumas dessas lacunas requerem uma pesquisa mais
exaustiva. Dessa forma, propõe-se, nesta pesquisa, responder à seguinte
pergunta: Que variáveis são determinantes em relação à lealdade na compra dos
produtos de marcas próprias dos dois principais clubes de futebol profissional
de Belo Horizonte, Minas Gerais?
Uma vez delineado, o problema de pesquisa constitui-se no fio condutor da
investigação científica. As bases teóricas desse estudo fundamentam-se na
Sociologia, na Psicologia Social e no Marketing, visando alcançar os objetivos
da pesquisa de explicar a lealdade dos torcedores atleticanos e cruzeirenses
aos produtos dessas equipes profissionais de futebol, o que proporciona
rentabilidade aos clubes. Como esse campo é ainda pouco explorado na literatura
acadêmica nacional, busca-se contribuir para o desenvolvimento teórico do
marketingaplicado às organizações esportivas, bem como subsidiar a
administração dos dirigentes dos clubes de futebol, na medida em que se analisa
a realidade de venda dos produtos oficiais de dois dos maiores clubes do
futebol brasileiro. Observou-se que os clientes estão propensos a investir no
bom relacionamento com o estabelecimento comercial que fornece os produtos.
Caso não haja correspondência por parte do fornecedor, não há transtorno algum
em substitui-lo por outro. Observou-se, também, que há aumento em torno de 30%
na venda dos produtos oficiais quando as equipes têm um bom desempenho nos
campeonatos de que participam.
No próximo tópico deste artigo, tem-se a fundamentação teórica em que se
abordam aspectos conceituais sobre a lealdade e o marketing de relacionamento,
a fim de fornecer subsídios para a construção do modelo conceitual que permitiu
o prosseguimento na pesquisa de campo. No tópico 3, contemplam-se os aspectos
metodológicos que nortearam a realização da pesquisa. No tópico seguinte são
apresentados o modelo utilizado e a análise dos resultados. Finalmente, no
tópico 5, são apresentadas as implicações acadêmicas, gerenciais e as
limitações para estudos futuros.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Mowen e Minor (2003) explicam que a lealdade a uma marca está intimamente
ligada à satisfação do consumidor e ao seu comportamento de reclamação.
Representa o grau em que o consumidor mantém uma atitude positiva em relação à
marca, estabelecendo um compromisso de continuar comprando-a no futuro. Essa
lealdade é influenciada diretamente pela satisfação ou insatisfação acumulada
ao longo do tempo, bem como pelas percepções da qualidade do produto. Las Casas
(2000) traduz a lealdade de clientes, em sentido lato, como a disposição para
estabelecer um relacionamento comercial com um fornecedor, que se concretiza em
ações sequenciais. Lovelock e Wright (2006) definem lealdade como uma reação
emocional de curto prazo, indicando aí uma volatilidade. Como existem vários
níveis de satisfação, aqueles clientes que estão nas faixas próximas à
insatisfação são facilmente perdidos. Quanto maior a superficialidade de
relacionamento empresa-cliente, menores são as chances de esse relacionamento
permanecer por um prazo maior. A questão é que não basta ter ações no sentido
de fidelizar clientes; é preciso implementá-las de forma consistente, e não
apenas como modismo.
Na abordagem de Stone e Woodcock (1998), a lealdade não é uma questão de
destinar dinheiro a programas de marketing, produzir revistas, criar clubes ou
lançar cartões de crédito esperando que ela seja instituída. A lealdade será
desenvolvida ao longo do tempo se as variáveis do relacionamento forem
planejadas e implementadas correntemente, fortalecendo as relações de longo
prazo como forma de tornar as organizações menos suscetíveis à perda de
clientes. A lealdade no marketing revela um sentimento de afinidade do
consumidor com determinados produtos ou marcas de uma empresa, excedendo o
simples ato de compra, mesmo sendo um fundamental indicador da satisfação dos
clientes (Day, 2001).
Em mercados competitivos, em que a facilidade de substituir fornecedores,
produtos e serviços é cada vez maior, são grandes os esforços das empresas na
tentativa de manter relacionamentos de longo prazo. Em alguns casos, tais
esforços são insuficientes. Compreender os diversos aspectos que envolvem a
lealdade passa a ser um ponto fundamental no sentido de promover a manutenção
de clientes. Daí a necessidade da criação de produtos e serviços que satisfaçam
as necessidades e os anseios de valor buscados pelos clientes. Em relação à
criação de valor para o cliente, Engel, Blackwell e Miniard (2000) sustentam
que os valores explicam por que os consumidores variam em sua tomada de
decisão, representando suas crenças sobre a vida e o comportamento aceitável. A
natureza duradoura dos valores, que podem ser pessoais ou sociais, e seu papel
central na estrutura da personalidade, fazem com que sejam aplicados para as
situações de compra, incluindo a escolha do produto ou da marca e a segmentação
de mercado. Os valores pessoais refletem as escolhas que um indivíduo faz de
uma variedade de valores sociais ou sistemas de valores aos quais é exposto.
Churchill Júnior e Peter (2000) definem valor como uma nova orientação do
marketing. O enfoque estaria na produção de valor para o cliente. Eles definem
marketing voltado para o valor como uma filosofia empresarial que se concentra
em desenvolver e disponibilizar um valor superior para os clientes como modo de
alcançar os objetivos da organização. Os autores enumeram seis princípios do
marketing voltado para o valor: do cliente; do concorrente; proativo;
interfuncional; da melhoria contínua; e do stakeholder. Esses princípios fariam
a ligação entre a satisfação dos clientes e os objetivos organizacionais. O
valor gera expectativas que, se cumpridas, levam à satisfação, que, por
consequência, derivada de interesses múltiplos, chega a uma suposta lealdade.
Essas expectativas, na visão de Lovelock e Wright (2006), são padrões
interiores que os clientes aplicam para julgar a qualidade de um serviço. Para
eles, as expectativas dos clientes abrangem diversos elementos diferentes
- como serviço desejado, serviço adequado e serviço previsto - e
uma área de tolerância, que se estende entre os níveis de serviço pretendido e
apropriado, levando à satisfação. Lovelock e Wrigtht (2006) enunciam o aspecto
temporal relacionado à satisfação, definindo-a como uma reação emocional de
curto prazo ao desempenho específico de um serviço. Segundo Zeithaml (1988), o
valor percebido pelo cliente é um dos fatores mais importantes para o sucesso
das empresas fabricantes ou prestadoras de serviço. Nessa mesma linha,
Parasuraman e Grewal (2000) comentam que o valor percebido pelo cliente é um
antecedente à lealdade, importante no relacionamento em longo prazo e no
desempenho do mercado. Afirmam que, porém, a percepção de valor para o cliente
é situacional, depende do contexto de troca em que está inserido, justificando
os diversos significados do termo valor. Assim, Zeithaml (1988) define como
valor percebido a avaliação geral que o cliente faz do produto ou serviço,
baseado na avaliação do que é dado e recebido na negociação, avaliando seus
atributos tanto intrínsecos, ou seja, as características do produto, quanto
extrínsecos, do sacrifício e da qualidade percebida. Singh e Sirdeshmukh (2000)
comentam que o comportamento de lealdade de um consumidor a uma organização
cresce à medida que essa empresa oferece alguma coisa em troca durante o
relacionamento. Dessa forma, definem valor como a percepção que o consumidor
tem dos benefícios, excluindo os custos desse relacionamento.
Como a satisfação, a retenção e a lealdade de clientes configuram um assunto de
significância nacional e internacional, as medições desses quesitos foram
evoluindo ao longo do tempo. Segundo Johnson, Gustafsson, Andreassen, Lervik e
Cha (2001), o primeiro modelo de satisfação de clientes surgiu em 1989, sendo o
barômetro de satisfação do cliente sueco (SCBS). Ele foi evoluindo para o
modelo norte-americano e o norueguês. Um novo modelo surgiu em 1996: o de
índice de satisfação do cliente europeu. Esta pesquisa apoia-se no modelo de
marketing de relacionamento proposto por Melo Neto (2003) e Müssnich (2004), no
qual são avaliados os influenciadores da qualidade na busca da lealdade, visto
que esse processo está relacionado com os atributos do modelo a serem
investigados (Figura_1). Para examinar as relações causais entre os atributos
indicadores do marketing de relacionamento nos processos de troca com os
torcedores atleticanos e cruzeirenses, toma-se como base a revisão da
literatura sobre serviços ao cliente e marketing de relacionamento.
Para ampliar a abrangência do estudo proposto, a seguir apresenta-se o modelo
desenvolvido e testado por Melo Neto (2003), no qual as variáveis antecedentes
e mediadoras influenciam o principal resultante do relacionamento: a lealdade
(Figura_2).

Autores como Mathieu e Zajac (1990), Strandvik e Liljander (1994), Geyskens,
Steenkamp, Scheer e Kumar (1996) e Geyskens, Steenkamp e Kumar (1998) advertem
que o comprometimento pode ser influenciado por uma motivação espontânea,
identificada como comprometimento emocional ou afetivo. Nesse caso, o
relacionamento é motivado por um sentimento de parceria, desejando-se
fortalecer a relação, ou caracterizado pela coerção, quando é chamado de
"comprometimento calculado" ou "comprometimento planejado".
Nesse caso, a empresa e o consumidor relacionam-se porque precisam um do outro.
Estudos de Tinto, Goodsell-Love e Russo (1993), Tinto, Russo e Kadel (1994),
Hennig-Thurau, Langer e Hansen (2001) comprovam que o comprometimento com os
próprios objetivos, como ascensão social ou economia, é capaz de influenciar na
lealdade.
Garbarino e Johnson (1999) e Hennig-Thurau et al. (2001) identificaram que o
comprometimento influencia positivamente na lealdade. Pritchard, Havitz e
Howard (1999) também identificaram que o comprometimento está fortemente
correlacionado com a lealdade do consumidor. Morgan e Hunt (1994) analisam a
confiança e o comprometimento como variáveis da lealdade, examinando a relação
entre elas e chegando à conclusão de forte correlação entre esses construtos,
afirmando serem fundamentais para o marketing de relacionamento e também
variáveis mediadoras importantes.
Nessa mesma linha, Garbarino e Johnson (1999) argumentam que a confiança e o
comprometimento são construtos-chave para identificar como os grupos de
clientes distinguem as relações fortes ou fracas no referente à organização. Os
resultados mostram que as intenções futuras dos consumidores com baixo grau de
relacionamento são dirigidas pela satisfação total. Já as intenções futuras dos
consumidores altamente relacionais são dirigidas para o comprometimento e a
confiança.
Oliver (1999) utiliza a satisfação como uma avaliação global e refere-se à
confiança e ao comprometimento como construtos intercambiados, estabelecendo
que a confiança medeia os demais construtos, elevando os níveis de lealdade.
Ball, Coelho e Machás (2004) também pesquisaram sobre o construto confiança e
identificaram, no setor bancário, que a comunicação tem maior influência na
lealdade em comparação com a confiança, por ser um setor fortemente
regulamentado e visto como honesto e possuidor de crédito, por força do
governo. Dessa forma, em um mercado regulamentado, em que os serviços básicos
diferem pouco, a comunicação pode ser um importante diferencial estratégico da
empresa, uma vez que é um antecedente da confiança e da lealdade.
Chiou, Droge e Hanvanich (2002) comentam que nem todos os clientes têm a mesma
orientação para relacionamentos longos e sustentados e analisam se o
conhecimento dos consumidores afeta a forma como a lealdade é sustentada. Os
resultados mostraram que a confiança afeta positivamente a lealdade no que
tange à recompra somente para clientes de alto conhecimento, contrariamente à
satisfação, que afeta a lealdade em consumidores de baixo conhecimento. Em
termos práticos, significaria dizer que os consumidores de alto conhecimento
seriam mais dotados de sensibilidade, às ações do marketingde relacionamento,
em comparação aos clientes de baixo conhecimento.
Assim, Morgan e Hunt (1994) comentam que a relação entre confiança e lealdade
se embasa em uma reciprocidade. Dessa forma, quando uma empresa tem ações no
sentido de construir confiança no consumidor, o risco percebido com essa
empresa é provavelmente reduzido, permitindo a esse consumidor fazer
prognósticos confiáveis em relação a essa organização. Ao contrário, quando não
há valorização do relacionamento, há uma desconfiança que poderá diminuir o
comprometimento, uma vez que as partes procuram parceiros confiáveis. Com base
no modelo proposto por Müssnich (2004), tendo como referência as escalas de
mensuração previamente apresentadas por Wilson e Vlosky (1997), e na
constatação de Melo Neto (2003) de que a variável comprometimento, dentre as
demais apresentadas no modelo, afeta diretamente a lealdade dos clientes,
desenvolveu-se e testou-se o modelo final para esta pesquisa, ampliando-o em
relação aos citados anteriormente, ao agregar a variável lealdade.
2.1. Oferta de serviços ao cliente
Lovelock e Wright (2006) afirmam que, quanto mais valioso o serviço, maior será
o esforço que as organizações e as pessoas estarão dispostas a empregar para
obtê-lo. Mowen e Minor (2003) observam que uma perspectiva relacional deve ser
atribuída, inicialmente, pelo cliente ao seu interesse em relação à aquisição
de produtos, serviços ou ideia de uma empresa. No caso do produto futebol, sua
exploração torna-se mais eficaz quando os clubes promovem maior diversificação,
existindo, inclusive, uma segmentação dos tipos de torcedor-cliente (Leoncini,
2001). Tal aspecto tende a promover maior confiança nas relações entre as
partes devido ao conhecimento das preferências, das expectativas e do
comportamento desse torcedor.
2.2. Investimento no relacionamento
Müssnich (2004) revela que os investimentos feitos no relacionamento ocasionam
maiores custos de substituição do parceiro, tornando a manutenção do
relacionamento mais importante para alcançar os objetivos. Logo, quanto maior a
aplicação de recursos do comprador no relacionamento comercial, maior é o
sentimento de dependência em relação ao fornecedor. Para o produto futebol, os
investimentos estão relacionados à elaboração de uma infraestrutura adequada
para alcançar sucesso em campo (i.e. investimentos em centros de treinamentos,
estádios etc.). No entanto, o investimento no relacionamento é quesito de
complementariedade a esses investimentos (e.g. cartão fidelidade torcedor
etc.), pois, a partir deles, ajuda a reforçar a identidade, a imagem e a
lealdade do torcedor-cliente aos produtos licenciados pelos times de futebol.
2.3. Dependência
Müssnich (2004) ilustra como percepção do cliente a dificuldade de substituir o
atual fornecedor sem causar impactos originados do decréscimo do valor de uma
transação. Em outras palavras, quanto maior a oferta de serviços ao cliente,
maior é o sentimento de dependência do comprador em relação ao fornecedor.
Apesar de o produto futebol, com todos os seus aspectos de entretenimento, ser
tratado como o elemento principal da marca de um clube, pois é ele que dá
origem a diversos produtos licenciados e serviços de atendimento ao torcedor-
cliente, são esses que exercem papel primordial na promoção de maior
dependência nas relações de consumo.
2.4. Nível de comparação com fornecedores alternativos
Grönroos (1995) explica que os serviços ao cliente aumentam o valor ou
diferenciam os serviços daqueles criados pelos concorrentes. Assim, quanto
maior a oferta de serviços do fornecedor, maiores e mais vantajosas são as
alternativas de comparação do comprador. É importante observar que tal aspecto
se aplica aos produtos licenciados das marcas dos times de futebol, pois o grau
de relação de confiança e de dependência está ligado ao imaginário afetivo do
torcedor-cliente em relação à compra, geralmente produzido por um sistema de
garantias de autenticidade e um conjunto de facilidades oferecido (e.g.
instalações adequadas, qualidade no atendimento, sistema de crédito, serviço de
pós-venda etc.).
2.5. Confiança
Müssnich (2004) comenta que o nível de comparação do atual parceiro com os
demais disponíveis no mercado tende a ser positivo para aqueles que oferecem
maior valor agregado às transações e aos esforços, refletindo na qualidade dos
serviços e produtos e, por conseguinte, na confiança desenvolvida entre as
partes. Dessa forma, quanto mais vantajoso for o fornecedor para o comprador,
maior será o sentimento de confiança. Em outras palavras, no caso dos clubes de
futebol, estes deverão, além planejar e gerir o departamento de futebol na
direção da valorização da marca e do patrimônio, destinar especial atenção em
disponibilizar produtos e serviços de alta qualidade ao torcedor-cliente e dar
garantias na prestação de serviço que reforcem a identidade do clube.
2.6. Comprometimento
Morgan e Hunt (1994) e Müssnich (2004) afirmam que os relacionamentos
evidenciados na confiança são tão valorizados que as empresas desejarão
obrigar-se com eles, ficando claro que a confiança é o principal determinante
do comprometimento do relacionamento. Assim, quanto maior a confiança do
comprador no fornecedor, maior o comprometimento com o relacionamento
comercial. Em outras palavras, o comprometimento acontece quando não há
divergências, em longo prazo, entre os anseios do cliente e a habilidade de
satisfazê-los.
2.7. Troca de informações
Müssnich (2004) ensina que o comportamento das partes, em relação à circulação
de informações, é um indicador-chave para a avaliação da vitalidade da
interação entre as partes no relacionamento comercial. Dessa forma, quanto
maior a troca de informações entre comprador e fornecedor, maior é o sentimento
de confiança. Em síntese, é relevante para a compreensão não só o processamento
da informação, mas também o gerenciamento de uma variedade de quesitos
relativos ao consumidor, no caso o torcedor-cliente, podendo ajudar a
compreender a formação e a alteração de atitudes para a aquisição de produtos e
a valorização da marca (Mowen & Minor, 2003).
2.8. Lealdade
Morgan e Hunt (1994) e Grönroos (1995) argumentam que a lealdade ocorre quando
o consumidor resolve, de maneira contínua, adquirir produtos de uma mesma
empresa, e essas frequência e postura estão ligadas à estratégia de
relacionamento da organização. Logo, quanto maior o investimento no
relacionamento, maior é a propensão à lealdade dos consumidores. Assim,
finalmente, considera-se que o tamanho da torcida não é o único fator relevante
para a concretização do potencial de receita de um clube de futebol, mas
também, sobretudo, os investimentos no relacionamento com o torcedor-cliente.
2.9. Hipóteses de estudo
Para a estimação do modelo de equações estruturais, em princípio é necessário
levantar as hipóteses de pesquisa. A seguir, apresentam-se as hipóteses deste
estudo.
• H1 - Quanto maior a oferta de produtos e serviços, maior é o
investimento no relacionamento comercial.
• H2 - Quanto maior a oferta de produtos e serviços, maior é o
sentimento de dependência do cliente para com as lojas.
• H3 - Quanto maior a oferta de produtos e serviços da loja,
maior é o sentimento de confiança do cliente.
• H4 - Quanto maior o investimento no relacionamento comercial,
maior é o sentimento de dependência do cliente em relação à loja.
• H5 - Quanto mais vantagens oferecidas pela loja, maior é o
sentimento de dependência do cliente em relação a ela.
• H6 - Quanto mais vantagens oferecidas pela loja, maior é o
sentimento de confiança do cliente.
• H7 - Quanto mais intensa a troca de informações entre cliente
e loja, maior é o sentimento de confiança do cliente em relação a
ela.
• H8 - Quanto mais intensa a troca de informações entre cliente
e loja, maior é o investimento no relacionamento.
• H9 - Quanto maior a dependência do cliente em relação à loja,
maior é o comprometimento do cliente no relacionamento comercial.
• H10 - Quanto maior a confiança do cliente em relação ao
fornecedor, maior é o comprometimento do cliente no relacionamento
comercial.
• H11 - Quanto maior o comprometimento do cliente no
relacionamento comercial, maior é a lealdade do cliente à loja.
3. METODOLOGIA
O objetivo básico na pesquisa foi identificar e analisar as variáveis
determinantes da lealdade dos torcedores atleticanos e cruzeirenses em Belo
Horizonte, tendo em vista o consumo dos produtos de suas equipes, adotando-se o
modelo proposto por Melo Neto (2003) e Müssnich (2004) sobre marketing de
relacionamento. Para sua realização, foram selecionadas as lojas oficiais do
Clube Atlético Mineiro e do Cruzeiro Esporte Clube, em Belo Horizonte. Visando
identificar e analisar as variáveis que influenciam o processo de lealdade dos
torcedores atleticanos e cruzeirenses em relação ao consumo dos produtos
disponibilizados nas lojas oficiais desses clubes no contexto do marketing de
relacionamento, realizou-se um estudo transversal de caráter descritivo, para
responder aos objetivos da pesquisa.
Inicialmente, foram levantadas as hipóteses de estudo (item 2.9), com base nas
diversas variáveis determinantes do marketing de relacionamento e de serviços
ao cliente, tomando-se como referência os modelos propostos por Melo Neto
(2003) e Müssnich (2004), adaptados aos objetivos e ao contexto da pesquisa. A
partir dessas hipóteses, criou-se um modelo de relações múltiplas para
respondê-las. Como instrumento de coleta de dados, foram utilizados
questionários estruturados, baseando-se nas escalas utilizadas por Melo Neto
(2003) e por Müssnich (2004), com o objetivo de mensurar os determinantes de
marketing de relacionamento entre lojas e consumidores, além dos serviços ao
cliente e de suas inter-relações. O questionário criado foi submetido ao
julgamento de profissionais especializados da área, além de pré-teste aplicado
a 30 clientes. A partir desse processo, o instrumento foi avaliado segundo a
validade de conteúdo e o entendimento das questões propostas pelos
respondentes, a redundância e a confiabilidade das escalas utilizadas. Após a
conclusão desse processo, criou-se a versão final, com 80 questões, divididas
em três grupos: de caracterização sociodemográfica dos clientes; de
identificação do marketing de relacionamento; de serviços ao cliente.
A primeira parte do questionário contém 12 questões relativas à descrição dos
respondentes; a segunda, questões referentes à forma de relacionamento entre a
loja e o cliente, sob o ponto de vista do marketing de relacionamento,
divididas em dependência da loja (Q1 a Q5), comparação com lojas alternativas
(Q6 a Q9), investimento da loja no relacionamento com os clientes (Q10 a Q16),
troca de informações entre as partes (Q17 a Q19), confiança (Q20 a Q26),
comprometimento (Q27 a Q33), lealdade dos clientes em relação à loja (Q34 a
Q45) e oferta de serviços ao cliente (Q46 a Q68). As questões referentes ao
relacionamento da loja com os clientes contêm respostas na escala Likert de 5
pontos, variando de discordo totalmente (1) a concordo totalmente (5), exceto
as questões referentes à oferta de serviços ao cliente, que também contêm
respostas na escala Likert de 5 pontos, porém com descrições variando de não
existe ênfase (1) a existe grande ênfase (5).
A população de estudo constituiu-se dos clientes das lojas oficiais do Clube
Atlético Mineiro e do Cruzeiro Esporte Clube, situadas na cidade de Belo
Horizonte. A amostra foi composta por 300 clientes dessas lojas esportivas, que
se propuseram a responder à entrevista no ato da conclusão da compra. O tamanho
da amostra satisfez o critério empírico apresentado por Hair Júnior, Black,
Babin, Anderson e Tathan (2009), segundo o qual, para modelos que apresentam
comunalidades moderadas - ou seja, as variáveis manifestas explicam de
forma moderada a variação dos construtos -, caso algum dos construtos
apresente menos de três itens a amostra mínima exigida será de 200. A coleta
dos dados baseou-se no método survey, por meio de entrevistas individuais. Para
que a amostra coletada fosse fiel à população do estudo, os 300 respondentes
foram divididos em proporções iguais para as lojas dos dois clubes. Salienta-se
que a coleta se apoiou no critério de aceitação dos clientes em participar da
pesquisa.
Os dados coletados foram tabulados e submetidos a análises uni e multivariadas,
com o auxílio do software Statistical Package for the Social Science(SPSS),
versão 15.0, e do SmartPLS, versão 2.0, com o intuito de elaborar o tratamento
estatístico para responder às questões levantadas na pesquisa. O exame dos
dados iniciou-se com a utilização de técnicas de análise descritiva e tabelas
contendo frequências, absoluta e relativa, e métodos estatísticos, como média,
mediana e desvio padrão, para a identificação das principais características
sociodemográficas dos clientes. Segundo Triola (2005), esses métodos são
utilizados para descrever características importantes de um conjunto de dados.
Os outros aspectos avaliados, como inovação, troca de informações e preservação
do meio ambiente, foram descritos no corpo do texto.
A comparação dos resultados obtidos de atleticanos e cruzeirenses, em termos de
frequência e valor médio anual de compra e lealdade, realizou-se por meio do
teste não paramétrico de comparação de dois grupos independentes de Mann-
Whitney. A utilização desse teste deve-se à não normalidade dos dados na
maioria dos itens utilizados para comparação dos grupos, tendo em vista que a
sua eficiência é bem próxima à dos testes paramétricos. Procedeu-se à análise
exploratória dos dados, em que foram identificados outliers, definidos como
observações que apresentam grande afastamento das restantes ou são
inconsistentes com elas, também chamados de pontos anormais. Esses pontos não
foram excluídos da amostra, tendo em vista o pequeno número encontrado e o fato
de não terem sido identificados erros na coleta e na digitalização dos dados,
de forma a manter a importância dessas informações no conjunto de respostas
obtidas.
A partir da análise de missings, identificou-se que nenhuma das variáveis
apresentou mais do que 5% de dados faltantes. Assim, para a construção do
modelo estrutural, essa informação foi substituída pela média das respostas
obtidas para os outros candidatos na mesma questão, a fim de minimizar o efeito
dessa perda sem reduzir o tamanho da amostra. Segundo Hair Júnior et al.
(2009), esse método tem a vantagem da fácil implementação e provê, assim, todos
os casos com informação completa. Uma desvantagem seria o risco de subestimar a
variância, mas só nos casos em que os missings representam percentuais muito
elevados.
Para atender aos objetivos da pesquisa, utilizou-se a modelagem de equações
estruturais, cuja técnica geral possibilita a análise das múltiplas relações de
dependência entre os construtos avaliados, bem como as relações entre as
variáveis latentes e suas indicadoras (Hair Júnior et al., 2009). Para avaliar
a confiabilidade interna das escalas empregadas no questionário, utilizou-se
como análise preliminar o alfa de Cronbach, cujo valor mínimo obtido deve ser
maior do que 0,6, segundo Hair Júnior et al. (2009).
Entretanto, autores como Chin (1998), Brown (2001) e Vehkalahtin, Puntanen e
Tarkkonen (2006) recomendam o uso da confiabilidade composta do construto, que
considera como aceitáveis os níveis acima de 0,7. Dessa forma, optou-se pela
confiabilidade composta como parâmetro de análise da confiabilidade interna das
escalas deste estudo. Para o problema em questão, tendo em vista o objetivo de
aprimorar o modelo proposto com o acréscimo de uma variável (lealdade) e de uma
conexão (comprometimento => lealdade), realizou-se a análise de equações
estruturais para o desenvolvimento do modelo. A estimação do modelo proposto
foi feita por meio do método Partial Least Squares (PLS), por ser mais robusto
em termos de suposições e tamanho da amostra, uma vez que não requer
normalidade multivariada, além do menor tamanho de amostra exigido (Hair Júnior
et al., 2009).
O método PLS é descrito por dois modelos: o de mensuração, que descreve a
relação entre as variáveis manifestas e as variáveis latentes, e o estrutural,
que descreve a relação entre as variáveis latentes (Tenenhaus, Amato, &
Vinzi, 2004). Ainda com base em Tenenhaus et al. (2004), o modelo deste estudo
caracteriza-se por ser reflexivo, já que cada uma das variáveis manifestas é
utilizada para refletir somente uma variável latente. De acordo com os autores,
uma variável latente que em nenhuma das relações aparece como variável
dependente - ou seja, não é explicada por outra variável latente -
é chamada de variável exógena. Caso contrário, é chamada de variável endógena.
Em relação às variáveis do modelo, observa-se que, das oito variáveis
utilizadas para sua construção, três são exógenas, a saber, oferta de serviços
ao cliente, nível de comparação com lojas alternativas e troca de informações,
as quais não podem ser explicadas pelo modelo estrutural. As demais variáveis
- investimento no relacionamento, dependência, confiança, comprometimento
e lealdade - caracterizam-se por serem endógenas, podendo ser explicadas
pelo modelo proposto. Tanto para a avaliação do modelo de mensuração, que
utiliza as variáveis indicadoras para explicar as variáveis latentes, quanto
para o modelo estrutural, que descreve a relação entre essas variáveis
latentes, utilizou-se o método PLS. A significância delas foi obtida por meio
do método de reamostragem bootstrap.
A proporção da variabilidade dos construtos propostos explicada pelo modelo foi
obtida por meio do coeficiente de determinação (R2), que é uma medida de
adequação do modelo estrutural. Já a variabilidade média extraída (AVE) foi
utilizada para avaliar a adequação do modelo de mensuração, ou seja, a
variabilidade dos construtos explicada pelas variáveis indicadoras. Além dessas
características, determinaram-se a validade convergente, a validade
discriminante e a confiabilidade das escalas de medidas. O critério de validade
convergente foi avaliado segundo a AVE, por meio das cargas fatoriais do
modelo, em que se descreveu a validade discriminante. A confiabilidade foi
verificada por meio da confiabilidade composta. A avaliação geral do modelo PLS
foi realizada com base na proposta de Tenenhaus et al. (2004), consistindo em
um índice de adequação do modelo (Goodness of Fit - GoF), que,
basicamente, é a média geométrica entre o R2 médio (adequação do modelo
estrutural) e a AVE média (adequação do modelo de mensuração). Para determinar
se as associações encontradas são estatisticamente significantes, utilizou-se o
nível de significância de 5%. Assim, considera-se como significativa a
diferença cuja probabilidade de significância do teste (valor p) é menor ou
igual a 0,05.
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
4.1. Modelo revisado e ajustado
Neste tópico, propõe-se descrever o modelo de equações estruturais final.
Inicialmente, são descritos os resultados obtidos para o modelo de mensuração
proposto. O modelo de mensuração avalia a relação entre as variáveis manifestas
(itens do questionário) e os construtos estudados, indicando a magnitude dessa
relação, bem como a tendência e a significância dela. As cargas fatoriais
obtidas para cada uma das variáveis manifestas utilizadas para mensuração dos
construtos apresentaram-se elevadas, acima de 0,6, e são significativas, tendo
em vista o valor p menor do que 0,001. No entanto, as variáveis significativas
referentes às questões Q46 (0,317), Q50 (0,563) e Q55 (0,523) apresentaram
carga fatorial abaixo de 0,6, referente ao fator Oferta de Serviços ao Cliente,
observando-se que, ao todo, eram 24 questões compostas pelo instrumento
representando esse fator.
Quanto ao modelo de mensuração previsto, permanece conforme apresentado na
Figura_3, mantendo-se as cargas fatoriais e a significância, com exceção do
construto nível de comparação com lojas alternativas, excluído do modelo
juntamente com suas variáveis manifestas (Tabela_1).
[/img/revistas/rausp/v48n4/a17tab01.jpg]
Percebe-se que, em relação ao construto nível de comparação com lojas
alternativas, somente a variável Q8 apresentou carga fatorial elevada e foi
significativa (p<0,001), sendo que as outras apresentaram cargas abaixo de 0,2
e não foram significativas, pois o valor p é maior que 0,05. Uma explicação
para esses resultados seria, talvez, a peculiariedade desses produtos, além do
número reduzido de fornecedores relacionados a eles e da impossibilidade de
indissociação do cliente e do torcedor.
A seguir, apresentam-se os resultados do modelo estrutural modificado com a
exclusão da variável nível de comparação com lojas alternativas. Na Figura_4
apresentam-se os resultados do modelo estimado via PLS, bem como a
significância das relações, estimada via bootstrap.
Percebe-se que, em relação às diversas associações avaliadas, existe impacto
positivo para todas as relações propostas pelo modelo final, sendo esse impacto
significante em todos os casos, pois o valor p obtido a partir do teste t de
significância dos coeficientes apresentou valores menores do que 0,001 em todas
as relações estimadas. As medidas de qualidade do modelo estrutural estimado, a
variância média extraída, o coeficiente de determinação estimado para cada um
dos construtos endógenos do modelo e a confiabilidade composta para cada um dos
construtos são apresentados na Tabela_2.
Para a avaliação da validade convergente, utilizou-se a AVE, que é uma medida
de qualidade do modelo de mensuração, a qual mostra o quanto as variáveis
manifestas explicam os construtos. A análise da Tabela_2 revela que os
construtos oferta de produtos e serviços e lealdade apresentam AVE iguais a
0,423 e 0,407, respectivamente, indicando que as variáveis manifestas
referentes a essas duas variáveis latentes explicam 42,3% da variabilidade da
oferta de produtos e serviços e 40,7% da variabilidade da lealdade. Esses
valores observados estão abaixo de 50%, considerado como ponto de corte, ou
seja, explicações acima de 50% são consideradas satisfatórias. Todos os outros
construtos avaliados apresentam AVE acima de 50%. Porém, apesar do valor
relativamente baixo da AVE, a relação entre os construtos e suas variáveis
manifestas foi significativa em todos os casos, sendo, portanto, considerada
também adequada. A partir dos resultados obtidos, pode-se concluir que 53,1%
(AVE média) da variabilidade dos construtos pode ser explicada pelas variáveis
manifestas.
A confiabilidade das escalas foi avaliada também segundo a confiabilidade
composta do construto, que considera como aceitáveis os níveis acima de 0,7,
como mencionado na seção 3. Percebe-se, a partir da análise da Tabela_2, que
para todos os construtos avaliados a confiabilidade composta está acima de 0,7,
indicando que existe confiabilidade das escalas utilizadas para o modelo final.
A validade discriminante foi verificada mediante a comparação das cargas
fatoriais de cada indicador com sua variável latente e as outras variáveis
latentes. Desse modo, com exceção da variável nível de comparação com lojas
alternativas, excluída do modelo final, todas contribuíram para a validade
discriminante do modelo estrutural final.
A adequação geral do modelo foi avaliada segundo o índice de adequação do
modelo (estatística GoF, proposta por Tenenhaus et al., 2004), que considera a
média geométrica entre o R2 médio (adequação do modelo estrutural) e a AVE
média (adequação do modelo de mensuração). Para o modelo estrutural final, o
GoF estimado foi de 0,536, sendo considerado adequado, pois está acima de 0,5.
Observa-se que os construtos oferta de serviços ao cliente e troca de
informações têm impacto significativo e direto no construto investimento no
relacionamento, sendo que, quanto maior a oferta de produtos e serviços, bem
como a troca de informações, maior será o investimento no relacionamento
(Figura_4). Essas variáveis conseguiram explicar 47,5% da variabilidade do
construto investimento no relacionamento (Tabela_2).
Em relação ao construto confiança, percebe-se que tanto a variável troca de
informações quanto a variável oferta de produtos e serviços têm impacto direto
e significativo nesse construto (Figura_4). Assim, quanto maior a troca de
informações e a oferta de produtos e serviços, maior é a confiança. A partir do
modelo estimado, é possível observar que 47,0% da variabilidade do construto
confiança podem ser explicados por essas duas variáveis (Tabela_2).
Já os construtos oferta de serviços ao cliente e investimento no relacionamento
impactam de forma significativa e direta no construto dependência da loja,
sendo que, quanto maior o escore dessas variáveis, maior é a dependência dos
clientes em relação à loja, segundo os repondentes (Figura_4). Isso significa
que, quanto maior a oferta de produtos e serviços e o investimento no
relacionamento, maior é a dependência do cliente em relação a essa loja. Nota-
se que 57,2% da variabilidade do construto dependência da loja foram explicados
por esses dois construtos (Tabela_2). Nota-se que tanto a variável dependência
da loja quanto a variável confiança têm impacto direto e significativo no
comprometimento dos clientes, indicando que, quanto maiores a dependência da
loja e a confiança, maior é o comprometimento dos clientes. Essas duas
variáveis (dependência e confiança) conseguiram explicar 61,2% da variabilidade
do construto comprometimento.
Ao final, avaliou-se o impacto do comprometimento na lealdade. A partir do
modelo estimado, percebe-se que existe um impacto direto e significativo do
comprometimento na lealdade, sendo que quanto maior o comprometimento, maior é
a lealdade dos clientes. O comprometimento conseguiu explicar 57,7% da
variabilidade da lealdade dos clientes.
Além da associação direta entre os construtos, o modelo possibilitou a
estimação do impacto indireto dos construtos segundo o modelo apresentado na
Figura_4. Observou-se que existe um impacto direto e significativo para todas
as associações avaliadas pelo modelo. Na Tabela_3, é apresentado o resumo das
hipóteses levantadas, bem como as decisões tomadas em relação às hipóteses a
partir do modelo estimado.
4.2. Comparação entre atleticanos e cruzeirenses em relação à lealdade
A comparação dos torcedores atleticanos e cruzeirenses em relação à lealdade
foi feita por meio da mediana, da medida descritiva e do teste não paramétrico
de comparação de dois grupos independentes de Mann-Whitney. Inicialmente,
tratar-se-á cada item específico e, logo após, a lealdade de forma geral,
obtida por meio do modelo de mensuração da análise do modelo PLS.
Assim, construiu-se a Tabela_4, em que se descreve, para cada um dos itens que
compõem a lealdade, a mediana obtida para os torcedores das duas equipes, bem
como a probabilidade de significância do teste (valor p).
[/img/revistas/rausp/v48n4/a17tab04.jpg]
Observa-se, a partir da análise da Tabela_4, que, em geral, os atleticanos
apresentam escores de lealdade maiores que os dos cruzeirenses para a grande
maioria dos itens observados. Somente para os itens Q42 (De maneira geral, você
mantém a preferência pelos produtos do clube: camisas, preservativo, leite
etc., mesmo quando há desvantagem de preço e qualidade?) e Q45 (Existe grande
variedade de produtos?), os cruzeirenses apresentaram pontuação um pouco mais
elevada. No entanto, as diferenças observadas não são significantes, sendo o
valor p maior do que 0,05 para todos os itens utilizados para mensurar a
lealdade dos torcedores. Assim, conclui-se que os torcedores atleticanos e
cruzeirenses são bem similares no que diz respeito à lealdade aos produtos e às
lojas temáticas dos clubes, não existindo diferenças significantes entre eles
em relação a todos os itens utilizados para mensurar a lealdade.
A seguir, tem-se a comparação entre os torcedores em relação à lealdade geral,
medida alcançada por meio da utilização dos escores obtidos para mensurar essa
característica. Para cada torcedor avaliado, a nota atribuída a cada questão
foi multiplicada pelo peso do respectivo item. O resultado final obtido é a
soma de todos os produtos obtidos entre as respostas e os respectivos pesos. A
Tabela_5 mostra esses resultados.
[/img/revistas/rausp/v48n4/a17tab05.jpg]
Assim como foi analisado para os itens de forma específica, quanto à lealdade,
de forma geral, os atleticanos apresentaram escores mais elevados, tanto em
média quanto em mediana. O desvio padrão dos escores para os dois grupos é
similar, mostrando que eles apresentam variabilidade muito próxima. No entanto,
o teste de Mann-Whitney mostra que não existe diferença significativa entre os
grupos em relação à lealdade à loja e aos produtos do clube, sendo a
probabilidade de significância do teste igual a 0,442 (valor p), valor acima do
nível de significância utilizado no estudo, que é de 0,05.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, buscou-se testar o modelo proposto por Müssnich (2004), adaptado
de Wilson e Vlosky (1997) e Melo Neto (2003), a partir das variáveis latentes
que afetariam o relacionamento de consumo no segmento esportivo de marcas
oficiais das lojas temáticas de clubes de futebol.
Assim, a partir da análise das variáveis que influenciam na propensão de
lealdade dos torcedores cruzeirenses e atleticanos de Belo Horizonte, em
relação ao consumo dos produtos oficiais dos dois clubes, inicialmente se
buscou pesquisar contribuições na literatura para estruturar o tema abordado.
Compõem o modelo proposto as variáveis oferta de serviços ao cliente,
investimento no relacionamento, troca de informações, nível de comparação com
lojas alternativas, dependência, confiança, comprometimento e lealdade. Com a
revisão da literatura, buscaram-se subsídios para, a partir do modelo proposto
por Müssnich (2004), ampliar e adaptar esse modelo ao segmento esportivo
estudado. Contudo, essa ampliação foi possível e devidamente testada com base
também nos estudos de Melo Neto (2003).
Depois de aplicados os questionários a 300 torcedores-clientes, divididos
proporcionalmente entre atleticanos e cruzeirenses, obtiveram-se subsídios para
analisar as variáveis dos diversos construtos, bem como a força de associação
entre si e entre os construtos e suas variáveis. A confiabilidade foi avaliada
inicialmente por meio do cálculo do alfa de Cronbach. Entretanto, com o
objetivo de realizar uma análise mais profunda, optou-se pela modelagem de
equações estruturais, pelo método PLS.
Observou-se que os clientes estão propensos a investir no bom relacionamento
com o estabelecimento comercial que fornece os produtos. Entretanto, caso não
haja correspondência por parte do fornecedor, não há transtorno algum em
substituí-lo por outro.
A partir dos modelos propostos, foram criadas escalas adaptadas para a situação
em questão. O modelo de equações estruturais mostrou que as escalas utilizadas
para mensurar as variáveis do marketing de relacionamento apresentaram
confiabilidade. Observou-se, ainda por esse modelo, a existência de validade
convergente e validade discriminante. O modelo de equações estruturais proposto
explicou 53,6% das inter-relações entre os construtos e deles com suas
variáveis manifestas. O modelo de mensuração explicou 53,1% da variabilidade
dos construtos e o modelo estrutural explicou 54,1% dessas mesmas variáveis.
Tendo em vista que se trata de uma pesquisa social, em que o controle das
respostas é mais restrito, consideraram-se esses resultados como satisfatórios,
por explicarem mais da metade da variabilidade das variáveis avaliadas.
Os resultados obtidos a partir do modelo revisado, analisados pelo coeficiente
e por seu valor p, permitiram aceitar 9 das 11 hipóteses. As hipóteses 5
("Quanto mais vantagens oferecidas pela loja, maior é o sentimento de
dependência do cliente em relação a ela") e 6 ("Quanto mais vantagens
oferecidas pela loja, maior é o sentimento de confiança do cliente em relação a
ela") foram rejeitadas, pois o modelo de mensuração não foi capaz de
explicar a variável vantagens oferecidas pela loja, sendo excluídas do estudo,
juntamente com suas relações com outras variáveis. O construto lealdade, que
foi agregado aos modelos anteriores [Melo Neto (2003); Müssnich (2004)], teve
resultado satisfatório, o que comprova que o modelo desenvolvido e testado na
pesquisa mostrou-se adequado, contribuindo para o aprofundamento do estudo
acadêmico do marketing esportivo. Portanto, trata-se de uma importante
ferramenta para aplicação no marketing de relacionamento, direcionada para o
segmento esportivo de produtos oficiais de clubes de futebol profissional,
contribuindo para o contexto gerencial deles. Em relação à lealdade aos
produtos do time, o teste de Mann-Whitney mostrou que não existe diferença
significativa entre os grupos cruzeirenses e atleticanos. Observou-se também
que há um aumento em torno de 30% na venda dos produtos oficiais quando as
equipes têm um bom desempenho nos campeonatos de que participam.
Quanto às limitações, apresentaram-se como dificultadores da pesquisa a
especificidade regional desse mercado para testar a propensão à lealdade e a
análise discriminada dos dados, proporcionalmente aos respondentes de cada
equipe, já que foram 50% atleticanos e 50% cruzeirenses, ficando como sugestão
para pesquisas posteriores ampliar para outras regiões, considerando a
proporção desses consumidores e a amplitude do mercado de clube esportivo.
Sugere-se também, para estudos futuros, analisar se as equipes de futebol
profissional sabem otimizar a rentabilidade financeira com seus torcedores, ao
mesmo tempo em que lhes proporcionam satisfação e entretenimento.