Estratégia, competências e desempenho em empresas de pet shop: evidências de um
levantamento em Curitiba
1. INTRODUÇÃO
A abordagem teórica a respeito de estratégia empresarial apresenta vários
trabalhos que buscam levantar a evolução histórica do conceito e os vários
formatos possíveis em que a estratégia empresarial pode ser abordada. Em
relação à evolução histórica, segundo Vizeu e Gonçalves (2010), a origem
etimológica e conceitual da palavra estratégia ocorreu na área militar; a
similaridade das atividades empresariais com uma guerra teria proporcionado
condições para a emergência da área de estratégia empresarial. Em outro
trabalho, Bracker (1980) descreve o desenvolvimento histórico do conceito da
gestão estratégica por meio de uma análise cronológica de 17 definições de
estratégia empresarial de 1947 a 1980. Naquela década, o autor propôs que
estratégia fosse definida como:
"A análise do ambiente interno e externo da empresa com o
objetivo de maximizar a utilização dos recursos para alcançar os
objetivos" (BRACKER, 1980, p.223).
Uma forte contribuição em modelos de formulação de políticas estratégicas foi o
chamado SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats) concebido por
Andrews (1977). Segundo o modelo, também é importante levar em consideração o
ambiente, porque ele representa o espaço de competição e toda empresa tem a
finalidade de acumular riqueza (VIZEU e GONÇALVES, 2010). O modelo de Porter
(1980) identifica cinco forças no ambiente de uma organização que influenciam a
gestão estratégica adotada.
Bowman, Singh e Thomas (2002) apresentam a evolução das ideias críticas na
gestão estratégica empresarial. Entre outras, apontam que a abordagem por
competências organizacionais vinha ocupando lugar de destaque na prática do
gerenciamento estratégico. Convém, entretanto, ressaltar que estudos a respeito
da abordagem por competências não são recentes. Em um trabalho pioneiro,
Penrose (1959) destacou o valor dos recursos internos na configuração de
estratégias empresariais. Mais tarde, tal reflexão encontraria eco em
Wernerfelt (1984), propondo que estratégias bem-sucedidas seriam resultantes da
combinação e exploração adequadas de recursos que seriam únicos da organização,
difíceis de imitar pela concorrência, porém passíveis de transferência dentro
do próprio negócio. Tal abordagem estratégica tornou-se conhecida por visão
baseada em recursos(VBR).
Com vistas a contribuir com esses três temas, no presente estudo examina-se a
influência combinada do ambiente percebido, das competências empresariais e do
desempenho obtido na determinação da estratégia adotada por pequenas empresas.
A unidade de análise escolhida para este estudo é representada por lojas de
comércio e prestação de serviços para animais de estimação, doravante referidas
por pet shops. Trata-se de uma replicação adaptada da pesquisa realizada por
Gava Neto (2009) em pequenas empresas de software. O setor de
pet shop
(1) foi escolhido por tratar-se de um ramo predominantemente prestador de
serviços e, portanto, supostamente diferenciado pelas competências das pessoas,
uma vez que a diferenciação desse setor não decorre de máquinas, automatização
ou capital intensivo. Para distinção da estratégia, utilizou-se a taxonomia
proposta por Miles e Snow (1978), para os quais a estratégia pode ser
prospectora, analítica, defensiva ou reativa. Naturalmente, por tratar-se de
uma replicação, os resultados obtidos podem ser comparados entre as empresas de
ambos os setores. De forma mais específica, pretendeu-se constatar se o tipo de
estratégia utilizada advém das diferentes percepções dos respondentes das
características ambientais em associação com as diversas competências
organizacionais. Também se pretendeu constatar diferentes desempenhos por tipo
de estratégia adotada.
Do ponto de vista prático, o desenvolvimento da pesquisa justificou-se pela
possibilidade de divulgação dos resultados obtidos para outras organizações pet
shops como forma de contribuição para reflexão sobre as estratégias adotadas. A
partir de uma perspectiva teórica, a realização da pesquisa também é facilmente
justificada, mediante a constatação de que, embora a administração estratégica
esteja em evidência, tanto em trabalhos acadêmicos como na prática empresarial,
o consenso sobre a perspectiva de abordagem e os mecanismos construtores da
estratégia ainda está longe de ser obtido, conforme alertam Vizeu e Gonçalves
(2010).
Vale ressaltar que não é pretensão neste estudo avaliar a qualidade da gestão
estratégica praticada pelas organizações participantes. Apenas se pretendeu
identificar, além do tipo de estratégia praticada, sua percepção e sua relação
quanto aos fatores ambientais, competências empresariais e desempenho obtido.
Nas seções seguintes, após esta breve introdução, apresenta-se a abordagem
teórica subdividida em duas partes, que abordam conceitos e princípios
necessários à compreensão dos construtos utilizados. Depois, discute-se a
metodologia utilizada na coleta e na análise dos dados, seguida de sua
apresentação e discussão. Encerra-se o artigo com as conclusões e algumas
considerações finais, que incluem possíveis encaminhamentos para futuros
estudos e as limitações deste.
2. A TIPOLOGIA DE MILES E SNOW PARA ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
O tema estratégia tem sido predominantemente pesquisado em organizações de
grande porte, porém, nos últimos anos, a preocupação com o estudo das
estratégias nas pequenas organizações vem se tornando mais intensa (HAYASHI
JUNIOR, BARANIUK e BULGACOV, 2007; LUNARDI, DOLCI e MAÇADA, 2010; MIZUMOTO et
al., 2010).
Em recente análise dos artigos do Encontro da Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Administração (EnANPAD) e do Encontro de Estudos em
Estratégia (3Es) apresentados nos últimos 12 anos, Sehnem, Lazzarotti e
Bandeira-de-Mello (2010) apontam um declínio na utilização do paradigma
porteriano como eixo principal das pesquisas em estratégia. Segundo os autores,
os resultados indicam que a vida porteriana no Brasil foi marcada pelo uso
acrítico de seus conceitos para descrever a realidade da estratégia. Vizeu e
Gonçalves (2010) também se alinham com esse pensamento, apresentando esses
mesmos motivos como intensificadores da dificuldade de desenvolver-se em nosso
país um pensamento gerencial maduro e cientificamente fundamentado. De acordo
com Gimenez et al. (1999), a classificação de Porter (1980) não se mostra
adequada ao estudo de pequenas empresas, visto que todas elas se enquadrariam
na estratégia de foco. Wilson e Jarzabkowski (2004) também apontam que os
modelos analíticos e de posicionamento se encontram hoje em meio a uma crise.
Miles e Snow (1978) desenvolveram uma taxonomia de estratégias genéricas que
vem sendo considerada relevante para a análise do comportamento estratégico de
pequenas empresas (GIMENEZ et al., 1999). De forma geral, Miles e Snow (1978)
propõem que as organizações podem utilizar quatro tipos de estratégias
genéricas ' defensiva, prospectora, analítica e reativa ' para resolver três
problemas do ciclo adaptativo imposto pelo ambiente: o problema empreendedor, o
problema de engenharia e o problema administrativo.
O problema empreendedor refere-se à decisão da empresa quanto à escolha de um
domínio de produto ou serviço para um determinado mercado-alvo ou segmento de
mercado; por exemplo, uma empresa pode optar por um produto ou serviço do tipo
commodity com baixo custo de produção, para atendimento de um mercado em geral,
ou por um produto ou serviço personalizado de alto custo ou valor agregado,
para atendimento de um mercado específico.
O problema de engenharia refere-se à escolha da tecnologia empregada para a
concepção, a produção e a distribuição do produto ou serviço definido no
problema empreendedor. Por exemplo, o desenvolvimento do produto e os processos
de produção deverão ser de alta produtividade e baixo custo se o produto ou
serviço eleito for do tipo commodity; já o desenvolvimento de produtos
complexos e específicos geralmente implica soluções à base de novas tecnologias
de custo mais elevado.
O problema administrativo refere-se ao controle da organização em busca da
racionalização e estabilização da estrutura e do processo que solucionam os
dois problemas anteriores. O problema administrativo também envolve a seleção
de áreas para inovação futura.
Ao se referirem aos três problemas como formadores de um ciclo adaptativo,
Miles e Snow (1978) salientam o dinamismo com que os três problemas surgem e
como são tratados pela organização ao longo do tempo. Para tratar os três
problemas do ciclo adaptativo, os autores propuseram quatro tipos de
estratégias genéricas pelas quais as empresas podem adaptar-se aos problemas
descritos anteriormente:
Estratégia defensiva ' é aquela utilizada por empresas que preferem
manter seu status quo. Neste caso, elas dedicam sua atenção principal
a melhorar a eficiência de suas operações atuais. Trata-se de uma
estratégia que procura estreitos domínios de produto e mercado por
meio de ênfase muito grande em eficiência.
Estratégia prospectora ' é uma estratégia utilizada por empresas
que procuram estar sempre inovando, estar sempre em busca de
oportunidades de mercado em que experimentam respostas de produtos e
serviços com regularidade. Essas empresas frequentemente provocam
mudanças e incertezas de mercado para seus concorrentes. Por outro
lado, tais organizações em geral não são totalmente eficientes em
função de sua forte preocupação com a busca de novas oportunidades de
produto e/ou mercados.
Estratégia analítica ' trata-se de uma estratégia mista entre a
defensiva e a inovadora. Neste caso, as organizações operam em dois
domínios de produto e mercado, um estável e outro em mudanças.
Estratégia reativa ' trata-se de uma forma de não estratégia. As
organizações percebem as mudanças no ciclo adaptativo, mas são
incapazes de responder efetivamente a essas mudanças.
Essa taxonomia chamou a atenção de pesquisadores em administração estratégica
que a têm utilizado bastante, e desde então sua eficácia e validade têm sido
arduamente testadas (HAMBRICK, 1983; ZAHRA, 1987; THOMAS e RAMASWAMY, 1996).
Numa perspectiva crítica, Fiss (2011) e Malik e Naeem (2011), entre outros,
argumentam sobre a insuficiência e a falta de confiabilidade do modelo para
explicar o comportamento estratégico de organizações. Por exemplo, Malik e
Naeem (2011, p.809), em revisão sobre a tipologia, afirmam que elementos como o
desenvolvimento de parcerias e a implementação de estratégias funcionais
alinhadas aos valores da empresa influenciam a eficácia de cada tipo
estratégico e, dessa forma, é difícil afirmar que uma estratégia seja mais
eficaz do que outra ' assumindo-se que a estratégia reativa traga pior
desempenho ante as demais. Outra crítica, esta de Fiss (2011), não
especificamente à tipologia de Miles e Snow (1978), mas às tipologias em geral
' ainda que sua pesquisa empírica tenha elegido o referencial de Miles e Snow '
é o fato de as tipologias não especificarem com precisão as relações de causa e
efeito entre desempenho e tipo estratégico de base. Segundo Fiss (2011), boa
parte das pesquisas sobre tipologias limita-se a apontar tipos estratégicos
subjacentes a um conjunto de empresas e a utilizar essa descoberta para
justificar e entender desempenhos diferenciados.
Em defesa da tipologia, Gimenez et al. (1999) aplicam o modelo proposto por
Miles e Snow (1978) em um estudo que levantou o tipo de estratégia adotada por
pequenas empresas da cidade de Londrina, no estado do Paraná. Os autores
concluem que o estudo demonstrou a possibilidade de aplicação do modelo na
investigação das escolhas estratégicas adotadas por pequenas empresas em
diversos ramos de atividade. Pittino e Visintin (2009) aplicam o modelo de
Miles e Snow (1978) em empresas familiares de pequeno e médio portes
localizadas na Itália. Segundo os autores, a utilização do modelo permitiu a
descoberta de significativas variações da estratégia utilizada entre as
pequenas e médias empresas familiares estudadas.
Ainda em defesa da utilização dessa taxonomia para classificação da estratégia
utilizada por pequenas empresas, Zinn et al. (2008) conduziram uma pesquisa que
levantou a orientação estratégica de casas de repouso de acordo com a tipologia
de Miles e Snow (1978) e compararam os resultados de suas classificações com um
site acerca do nível de qualidade dessas organizações. Segundo os autores, os
resultados apontaram a existência de diferenças na classificação de qualidade
em função do tipo de estratégia utilizada. As organizações prospectoras e
analíticas eram as mais bem classificadas no ranking do site, seguidas das
organizações de estratégias defensoras e, por fim, as reativas.
Em estudo aplicado às pequenas empresas dos setores de vestuário e de alimentos
no estado do Paraná para verificar de que maneira os esquemas interpretativos
de seus dirigentes interferem nas estratégias de ação dessas organizações,
Cochia e Machado-da-Silva (2004) utilizaram a taxonomia proposta por Miles e
Snow (1978) para estabelecer o posicionamento estratégico também por
considerarem o modelo apropriado para pequenas empresas.
Dessa forma, diante de tantos indícios, entende-se que o modelo pode trazer
insightsinteressantes quando aplicado ao entendimento de estratégias em
pequenas empresas.
3. AMBIENTE, COMPETÊNCIAS E DESEMPENHO
3.1. Ambiente
De acordo com Bosquetti, Fernandes e Seifert Jr. (2007), as organizações podem
ser consideradas sistemas abertos e, portanto, desenvolvem relações de
interdependência com o ambiente em que se inserem. Hatch e Cunliffe (2006,
p.65) afirmam que o ambiente organizacional é o mais alto grau hierárquico de
uma empresa. Segundo eles,
"você pode imaginar os níveis de análise como um conjunto de
bonecas russas(2). Tome a maior boneca (o ambiente) e dentro você vai
encontrar outra menor (a organização), e dentro dessa outra menor
ainda (as divisões ou departamento)" (HATCH e CUNLIFFE, 2006,
p.65).
Nessa linha de interpretação de ambiente, Mintzberg (2008, p.155) alerta para o
uso inadequado do significado da palavra ambiente como representando
"tudo o que está fora da organização ' sua tecnologia; a
natureza de seus clientes; sua posição geográfica; o clima econômico
e até meteorológico em que deve operar".
Segundo Mintzberg (2008), tal concepção deixa de considerar certas dimensões
dos ambientes organizacionais, a saber:
estabilidade ' o ambiente de uma organização pode variar de estável
a dinâmico;
complexidade ' o ambiente, aqui entendido como tecnologia, pode
variar de simples a complexo;
diversidade de mercado ' os mercados de uma organização podem
variar de integrados a diversificados;
hostilidade ' esta dimensão pode variar de magnânimo a hostil.
Também em relação às dimensões do ambiente, Kabadayi, Eyuboglu e Thomas (2007)
afirmam que, embora a literatura tenha identificado muitas dimensões dos
ambientes organizacionais, três são vistas como particularmente importantes:
dinamismo ou volatilidade é a frequência de mudança associada ao grau de
imprevisibilidade dessas mudanças; munificência refere-se a abundância ou
escassez de recursos aos quais a empresa pode ter acesso; complexidade refere-
se a número e diversidade de competidores, fornecedores, compradores e outros
atores do ambiente. Na presente pesquisa, tomaram-se por base essas três
dimensões para a configuração do ambiente.
3.2. Competências organizacionais
O conceito seminal da visão baseada em recursos vem sendo atribuído a Penrose
(1959) e a Wernerfelt (1984). Para esses autores, o desenvolvimento de uma
organização decorre do uso que ela faz de seus recursos produtivos. Barney
(1996) argumenta sobre a necessidade de os recursos serem valiosos e raros,
difíceis de imitar e de substituir para gerarem vantagem competitiva. Em um
desdobramento alinhado à VBR, Prahalad e Hamel (1990) propõem o conceito de
competências essenciais (core-competences). Segundo os autores, as competências
essenciais possuem três atributos: serem capazes de gerar valor; serem difíceis
de imitar; serem passíveis de transferência a outros produtos e serviços da
organização. Mills, Platts e Bourne (2003) afirmam que competências são criadas
a partir de recursos; para os autores, isoladamente os recursos representam
apenas potencialidades, uma competência é configurada quando determinado grupo
de recursos são devidamente articulados e coordenados. Fernandes (2006, p.35)
sintetiza a diferença entre os dois conceitos ao afirmar que "um recurso é
uma potencialidade, enquanto a competência é uma ação".
A perspectiva da estratégia por competências tem sido amplamente utilizada na
literatura. Como exemplo, Bosquetti, Fernandes e Seifert Jr. (2007) apresentam
um estudo de caso comparativo em que explicam o sucesso no processo de
internacionalização a partir da adequação de competências organizacionais ao
ambiente institucional do país para onde a empresa estende suas operações.
Becker, Dutra e Ruas (2008), em um estudo de caso em uma empresa da cadeia
automobilística, demonstram como o desenvolvimento organizacional ocorre vis-à-
vis ao desenvolvimento de competências organizacionais. Crubellate, Pascucci e
Grave (2008) chamam a atenção para a natureza interpretativa dos recursos (e
competências), afirmando que seu valor será diferente segundo a estratégia
perseguida pela empresa possuidora desse recurso. Em resumo, as competências
estão relacionadas a estratégias adotadas e expressam-se na valorização de
determinados comportamentos por parte das empresas. Por exemplo, pode-se supor
que as competências valorizadas pelas empresas prospectoras devam ser
diferentes das competências valorizadas por empresas com estratégias
diametralmente opostas representadas pelas empresas reativas.
3.3. Desempenho empresarial
Não há dúvida de que a mensuração do desempenho ou do desempenho da organização
vem recebendo cada vez mais atenção nas últimas décadas. O assunto ganha
destaque em função da pressão por resultados decorrentes de um ambiente cada
vez mais competitivo (FERNANDES, 2006). Fernandes (2006, p.5) define desempenho
organizacional como sendo "os resultados que uma organização alcança em
decorrência de seus esforços".
De acordo como Fernandes, Fleury e Mills (2006), o modelo do balanced scorecard
vem sendo o mais utilizado para organizar as diversas perspectivas de
desempenho. O modelo propõe que as empresas monitorem seu desempenho de acordo
como quatro perspectivas:
perspectiva financeira ' que considera o valor criado pela empresa.
Os indicadores mais comuns são representados por rentabilidade,
crescimento e valor para o acionista;
perspectiva dos clientes ' que considera os mercados a que a
organização atende. Seus indicadores incluem satisfação, fidelidade e
aquisição de clientes;
perspectiva de processos internos ' indica como a empresa organiza
seus processos internos para criar valor para os clientes;
perspectiva de aprendizagem e crescimento ' que avalia a
infraestrutura e os recursos que a empresa deve construir para
assegurar sua capacidade de renovação em longo prazo (KAPLAN e
NORTON, 1997).
4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Um questionário estruturado dividido em cinco blocos foi utilizado como
instrumento de coleta de dados. No primeiro bloco, que replicou parte do
questionário adotado por Gava Neto (2009), constava um conjunto de 17
afirmações que deveriam ser respondidas por meio de uma escala Likert de cinco
pontos, que buscava averiguar a percepção dos respondentes quanto ao ambiente
em seus aspectos de munificência, complexidade e dinamismo.
O segundo bloco replicou o questionário adotado por Gimenez et al. (1999), um
conjunto de 11 questões com quatro alternativas de resposta, que buscava
averiguar a estratégia adotada pela empresa com base na tipologia proposta por
Miles e Snow (1978). A alternativa a aponta para uma empresa prospectiva; a
alternativa bpara uma empresa analítica; a alternativa c para uma empresa
defensiva; e a alternativa d para uma empresa reativa. A recorrência de
determinada alternativa sugere a predominância do tipo estratégico da empresa
respondente.
No terceiro bloco constavam nove afirmações, que também deveriam ser
respondidas por meio de uma escala Likert de cinco pontos, em que se buscava
investigar as competências mais valorizadas na empresa. Seguindo o rastro do
trabalho de Gava Neto (2009), as nove afirmações de pesquisa desse terceiro
bloco resultaram de uma etapa inicial de entrevistas realizadas com os
proprietários de três grandes pet shops. Utilizou-se a análise de conteúdo
dessas entrevistas para definir quais competências profissionais eram julgadas
relevantes na visão desses empresários.
Do quarto bloco, que replicou também parte do questionário adotado por Gava
Neto (2009), constava um conjunto de sete afirmações que deveriam ser
respondidas por meio de uma escala Likert de cinco pontos. Esse bloco tinha por
objetivo averiguar a percepção dos respondentes quando ao desempenho da
empresa. O quinto e último bloco continha nove questões versando sobre
informações pessoais do respondente e da empresa.
Como forma de oferecer maior profundidade em vez de amplitude, bem como
diversidade em vez de quantidade, os questionários foram impressos em papel e
entregues pelos pesquisadores diretamente aos proprietários dos pet shops
visitados. Assim, foi possível que os pesquisadores orientassem pessoalmente
eventuais dúvidas ou detalhes na forma de responder. Após dois ou três dias da
entrega, os pesquisadores retornaram às empresas para recolher os questionários
preenchidos. Em alguns casos foi necessário mais de um retorno para que o
proprietário tivesse oportunidade e disponibilidade para respondê-lo. Todas
essas medidas tiveram por objetivo promover respostas com bastante reflexão e
sinceridade por parte desses pequenos empresários, deixando-os à vontade e
evitando qualquer tipo de pressão. De forma geral, os autores depararam-se com
um ambiente bastante colaborativo no processo, pois apenas duas empresas
visitadas recusaram-se a responder. As empresas respondentes tiveram garantias
de que os dados seriam utilizados de forma exclusivamente agregada e anônima e
que receberiam o artigo final resultante das pesquisas, caso desejassem.
O processo de coleta de dados foi realizado nos meses de setembro e outubro de
2010. A aplicação do survey resultou na obtenção de 43 questionários
preenchidos. Os pet shops objetos desta pesquisa estão localizados na região
central da cidade de Curitiba. Tal amostra justificou-se, principalmente, pela
viabilidade da coleta de dados, considerando a facilidade de realização do
survey. Os dados obtidos nos questionários impressos foram tabulados pelos
próprios autores por meio do site SurveyMonkey, no qual o questionário foi
originalmente construído e hospedado. Os dados obtidos na pesquisa foram
analisados estatisticamente com o auxílio do software SPSS (Statistical Package
for the Social Sciences), versão 15.
5. Apresentação e análise dos resultados
As respostas obtidas dos grupos 1, 3 e 4 foram inicialmente submetidas a uma
análise descritiva de cada uma das 23 variáveis por meio da AED (Análise
Exploratória de Dados) que consiste, basicamente, em explorar os dados por meio
de técnicas gráficas, como recomendado por Dancey e Reidy (2006). A análise não
eliminou nenhuma das variáveis.
Essas variáveis correspondiam à análise do ambiente, das competências e do
desempenho e foram submetidas à análise fatorial, adotando-se a análise dos
componentes principais como método de extração. Avaliou-se a adequação fatorial
por meio dos testes Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e esfericidade de Bartlett. O
valor mínimo de confiabilidade aceitável foi consideradoα= 0,5, adotando-se a
recomendação de outros autores que realizaram pesquisas de caráter exploratório
(NUNNALLY, 1967; GLASER-SECURA e ANGHEL, 2003). Com os fatores de cada grupo
confirmados, os dados foram submetidos novamente a uma análise fatorial,
complementada por rotação varimax, objetivando melhorar a interpretação das
cargas fatoriais (DANCEY e REIDY, 2006; HAIR JR. et al., 2006).
Na segunda parte do tratamento e da análise dos dados visou-se relacionar as
variáveis identificadas por meio da análise fatorial com as variáveis que
indicavam a estratégia adotada pela empresa: prospectora, analítica, defensiva
ou reativa. O interesse foi verificar como as variáveis identificadas na
análise fatorial afetavam a diferenciação entre tais estratégias. Com as
dimensões identificadas, foi utilizado o método de análise da variância
(ANOVA). Tal método é adequado, pois buscou-se avaliar a influência de uma
variável qualitativa (tratada como independente) sobre um conjunto de variáveis
de escala ou de razão (dependentes e correlacionadas). Por sugestão de Field
(2009), avaliou-se a significância dos testes multivariados por meio do teste
Pillai's Trace.
5.1. Identificação das dimensões do ambiente
A análise dos histogramas de frequências e caixa de bigodes (box plots) gerados
não provocou a exclusão de nenhuma variável do conjunto. A tabela_1 expõe os
resultados da análise fatorial exploratória. O teste de esfericidade de
Bartlett mostrou-se significativo (p-value< 0,001) e o teste de Kaiser-Meyer-
Olkin (KMO) também se mostrou adequado (KMO > 0,5). Tais resultados
possibilitam o uso da análise fatorial como técnica de exploração para o estudo
pretendido.
Dos 17 itens originalmente sugeridos, descartaram-se cinco, pois contribuíam
negativamente para a confiabilidade dos fatores, restando somente 12 itens,
identificados na tabela_1. De acordo com os critérios de interpretação e
rotação varimax, optou-se pela adoção de quatro fatores com o total de
variância explicada de 58,67%. A tabela_1 mostra detalhadamente a estrutura
fatorial, bem como suas comunalidades e média dos fatores. Adicionalmente,
apresenta a variância explicada e acumulada dos fatores, além do índice de
consistência interna por meio do alfa de Cronbach. Em síntese, quatro
agrupamentos sobressaíram da análise fatorial: o primeiro remete a uma análise
da complexidade do ambiente; o segundo inclui questões relativas à
previsibilidade do ambiente; o terceiro fator reúne questões relativas a
condições favoráveis ao crescimento; e o quarto fator remete a uma análise do
dinamismo do mercado.
O fator 1, dimensão denominada complexidade do ambiente, é composto de quatro
itens que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados a quantidade de
produtos ofertados, número de competidores, variedade de produtos, serviços e
clientes. Este fator apresentou um índice de consistência interna, alfa de
Cronbach, igual a 0,754 e itens com carga fatorial variando entre 0,544 a
0,809. A média deste fator foi de 4,37, mostrando que os respondentes possuem
uma percepção fortemente elevada quanto à complexidade do ambiente.
O fator 2, dimensão denominada previsibilidade do ambiente, é composto de dois
itens que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados à frequência de
mudanças nos produtos, nos serviços e nas estratégias de vendas. Este fator
apresentou um índice de consistência interna, alfa de Cronbach, igual a 0,806 e
itens com carga fatorial de 0,804 e 0,832. A média deste fator foi de 3,28,
mostrando que os respondentes percebem uma tendência neutra, entre não concordo
nem discordo e concordo parcialmente, quanto à previsibilidade do ambiente.
O fator 3, dimensão denominada condições favoráveis ao crescimento, é composto
de quatro itens que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados a
exigências dos clientes, crescimento da demanda e oferta de recursos. Este
fator apresentou um índice de consistência interna, alfa de Cronbach, igual a
0,703 e itens com carga fatorial variando entre 0,541 e 0,836. A média deste
fator foi de 4,08, mostrando que os respondentes possuem uma percepção que
julga as condições favoráveis ao crescimento elevadas.
O fator 4, dimensão denominada dinamismo do mercado, é composto de dois itens
que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados à frequência de
mudanças nos produtos, nos serviços e nas estratégias de vendas. Este fator
apresentou um índice de consistência interna, alfa de Cronbach, igual a 0,720 e
itens com carga fatorial de 0,824 e 0,852. A média deste fator foi de 3,06,
mostrando que os respondentes percebem uma tendência neutra, entre não concordo
nem discordo e concordo parcialmente quanto ao dinamismo do mercado.
5.2. Identificação das estratégias adotadas
A análise das modas resultantes das respostas das 11 variáveis do segundo grupo
de perguntas do questionário permitiu identificar qual o tipo de estratégia
adotada pelos respondentes, segundo a taxonomia de Miles e Snow (1978). As
quatro formas de estratégia puderam ser identificadas. Na tabela_2 apresenta-se
a frequência das estratégias utilizadas pelos respondentes.

Com os resultados das modas que identificavam a estratégia individual adotada
por empresa, foi criada uma variável qualitativa no SPSS correspondente ao tipo
de estratégia aplicada. Essa nova variável possibilitaria analisar a relação da
estratégia com o ambiente, as competências e o desempenho.
5.3 Identificação das dimensões de competências organizacionais
A análise dos histogramas de frequências e caixa de bigodes (box plots) gerados
não provocou a exclusão de nenhuma variável do conjunto. Na tabela_3 expõem-se
os resultados da análise fatorial exploratória. O teste de esfericidade de
Bartlett mostrou-se significativo (p-value< 0,001) e o teste de Kaiser-Meyer-
Olkin (KMO) também se mostrou adequado (KMO > 0,5); tais resultados
possibilitam o uso da análise fatorial como técnica de exploração para o estudo
pretendido.
Dos nove itens originalmente sugeridos, descartaram-se dois, pois apresentaram
cargas fatoriais inferiores a 0,4 ou contribuíram negativamente para a
confiabilidade dos fatores, restando somente sete itens, identificados na
tabela_3. De acordo com os critérios de interpretação e rotação varimax, optou-
se pela adoção de três fatores com o total de variância explicada de 61,43%. A
tabela_3 mostra detalhadamente a estrutura fatorial, bem como suas
comunalidades e média dos fatores. Adicionalmente, apresenta a variância
explicada e acumulada dos fatores, além do índice de consistência interna por
meio do alfa de Cronbach. Em síntese, três agrupamentos sobressaíram da análise
fatorial, um primeiro que remete às competências de serviços de guarda de
animais, um segundo que aponta competências para serviços tradicionais e um
terceiro fator que remete à gestão empresarial.
O fator 1, dimensão denominada competência para serviços de guarda, é composto
de dois itens que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados à
competência para a prestação de serviços de creche e hospedagem de animais.
Este fator apresentou um índice de consistência interna, alfa de Cronbach,
igual a 0,845 e itens com carga fatorial de 0,896 e 0,912. A média deste fator
foi de 2,33, mostrando que as organizações respondentes não apresentam muita
força neste tipo de competência.
O fator 2, dimensão denominada competência para serviços tradicionais, é
composto de dois itens que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados
a serviços padronizados de tosa e banho. Este fator apresentou um índice de
consistência interna, alfa de Cronbach, igual a 0,500 e itens com carga
fatorial de 0,700 e 0,731. A média deste fator foi de 4,49, mostrando que as
organizações respondentes são muito fortes neste tipo de competência.
O fator 3, dimensão denominada competências gerenciais, é composto por três
itens que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados a gestão
estratégica, motivação e treinamento de funcionários e utilização de redes de
distribuição. Este fator apresentou um índice de consistência interna, alfa de
Cronbach, igual a 0,647 e itens com carga fatorial variando entre 0,566 e
0,868. A média deste fator foi de 3,57, mostrando tendência neutra entre não
concordo nem discordo e concordo parcialmente quanto à existência desta
competência nas organizações respondentes.
5.4. Identificação das dimensões de resultado da organização
A análise dos histogramas de frequências e caixa de bigodes (box plots) gerados
provocou a exclusão de uma variável do conjunto. Na tabela_4 expõem-se os
resultados da análise fatorial exploratória. O teste de esfericidade de
Bartlett mostrou-se significativo (p-value< 0,001) e o teste de Kaiser-Meyer-
Olkin (KMO) também se mostrou adequado (KMO > 0,5); tais resultados
possibilitam o uso da análise fatorial como técnica de exploração para o estudo
pretendido.
Nenhum dos seis itens dos sete originalmente sugeridos foi descartado, conforme
identificado na tabela_4. De acordo com os critérios de interpretação e rotação
varimax, optou-se pela adoção de dois fatores com o total de variância
explicada de 68,31%. A tabela_4 mostra detalhadamente a estrutura fatorial, bem
como suas comunalidades e média dos fatores. Adicionalmente apresenta a
variância explicada e acumulada dos fatores, além do índice de consistência
interna por meio do alfa de Cronbach. Em síntese, dois agrupamentos
sobressaíram da análise fatorial, um primeiro que remete para o resultado
econômico e um segundo que aponta para o resultado da gestão da organização.
O fator 1, dimensão denominada resultado econômico, é composto por quatro itens
que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados à satisfação quanto a
crescimento, lucratividade, volume de vendas e resultado do investimento. Este
fator apresentou um índice de consistência interna, alfa de Cronbach, igual a
0,816 e itens com carga fatorial variando de 0,918 a 0,692. A média deste fator
foi de 3,89, mostrando que as organizações respondentes se encontram
parcialmente satisfeitas com seus resultados econômicos.
O fator 2, dimensão denominada resultado da gestão, é composto de dois itens
que traduzem convicções ligadas a aspectos relacionados à gestão administrativa
da organização. Este fator apresentou um índice de consistência interna, alfa
de Cronbach, igual a 0,584 e itens com carga fatorial de 0,683 e 0,921. A média
deste fator foi de 4,22, mostrando que as organizações respondentes estão muito
satisfeitas com este tipo de resultado.
5.5. Relação da estratégia adotada em função de ambiente, competências e
desempenho
Nesta parte do tratamento e análise dos dados buscou-se verificar a existência
de relacionamento entre a estratégia adotada pelas empresas ' prospectiva,
analítica, defensiva ou reativa ' e os construtos confirmados na análise
fatorial ' ambiente, competências e desempenho ', procurando verificar a
interferência desses fatores na adoção da estratégia.
Com as dimensões identificadas, foi utilizado o método de análise da variância
(ANOVA). Na figura a seguir estão representadas as estratégias adotadas pelos
respondentes e a relação com os fatores do ambiente, das competências e do
desempenho.
De uma forma ampla, avaliando o poder de explicação dos modelos, que indica
como a variável estratégia afeta a diferenciação dos fatores, verificou-se que
esta não se mostrou significativa para nenhuma forma de estratégia. Avaliou-se
a significância dos testes multivariados por meio do teste Pillai's Trace. A
ausência de significância apresentada comprova que a estratégia adotada pelos
respondentes não exerceu influência nas respostas obtidas, como se poderia
supor.
Indo além, na comprovação dos resultados obtidos, foi realizado um teste de
ANOVA que objetiva descobrir se existem diferenças entre as médias de grupos.
Isso é feito pelo cálculo inicial da média geral, procurando identificar o
quanto cada grupo difere da média geral (DANCEY e REIDY, 2006). Na tabela_5
expõem-se os resultados obtidos.
Como é possível observar pelos resultados, com exceção da variável competência
em serviços de guarda, todas as médias por grupo não apresentaram significância
estatística. Mais uma vez, a ausência de significância apresentada comprova que
a estratégia adotada pelos respondentes não exerceu influência nas respostas
obtidas.
Levando-se em consideração o pequeno número de empresas não respondentes, foi
realizada uma análise de variância de um fator Kruskal-Wallis que é equivalente
não paramétrico de ANOVA. O teste de Kruscal-Wallis é utilizado quando os dados
não satisfazem as condições requeridas para uma ANOVA paramétrica (DANCEY e
REIDY, 2006). Os resultados encontrados, da mesma forma que os obtidos nos
testes paramétricos, também apontaram ausência de significância estatística,
com exceção da variável competência em serviços de guarda.
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6. CONCLUSÕES
No presente estudo, teve-se como objetivo geral investigar a influência da
combinação do ambiente percebido, das competências empresariais e do desempenho
obtido na determinação da estratégia adotada por pequenas empresas pet shop.
Foi possível identificar na amostra a adoção dos quatro tipos de estratégia
propostos pela tipologia de Miles e Snow (1978). A maioria das empresas
pesquisadas adota a estratégia prospectora; em seguida aparecem as empresas que
adotam a estratégia analítica e a estratégia defensiva; a postura reativa
mostrou ser o comportamento estratégico menos adotado no setor.
De acordo com a análise dos resultados, na percepção dos respondentes,
verificou-se que o ambiente do setor de pet shop se caracteriza como complexo e
medianamente previsível. O mercado apresenta-se pouco dinâmico, mas mostra-se
favorável ao crescimento. Por tratar-se de um setor tipicamente local e sem
grande tecnologia envolvida, faz sentido a percepção de média previsibilidade e
baixa dinamicidade; ainda, a perspectiva de crescimento vai em linha com o
aumento da população de pets em grandes cidades. Contudo, a percepção do
ambiente como complexo parece superestimada, dada a natureza local do negócio.
A percepção do ambiente ocorreu da mesma forma, independentemente do tipo de
estratégia utilizada pelo respondente. Tais resultados são curiosos, pois,
apesar de uma percepção similar sobre o ambiente, a resposta dos agentes é
distinta, variando de prospectora, analítica, defensiva e, em menor grau,
reativa. O resultado contradiz pressupostos cognitivistas da formação da
estratégia, segundo os quais a percepção do ambiente está na base da escolha
estratégica (MINTZBERG, AHLSTRAND e LAMPEL, 2000).
Há outra explicação possível para esse resultado (respostas estratégicas
diferentes para uma percepção do ambiente similar). Por ser baseada em
percepção, a pesquisa não chegou a investigar até que ponto, de fato, as
respostas são diferentes. Por exemplo, se de fato as empresas que se julgam
prospectivas testam possibilidades em seus mercados, ou as autoproclamadas
defensivas limitam o escopo de produtos e mercados com vistas à busca de
eficiência. Pode ocorrer de, no fundo, as respostas serem semelhantes ' por
exemplo, ofertando os mesmos serviços e produtos para a clientela local ' e o
que varia é o enquadramento ou a percepção de cada empresário sobre tal
resposta. Reforçando o argumento, pode-se supor que, no setor pet, dado um
padrão mínimo de qualidade, a tendência é o cliente recorrer a serviços não
muito distantes de sua residência. Dessa forma, basta a empresários do setor
oferecerem um portfolio de produtos e serviços básicos a sua base local de
clientes. Recorrendo a ideias da teoria institucional (DIMAGGIO e POWELL,
1983), pode estar se operando alguma forma de isomorfismo, não apenas numa
percepção similar do ambiente, mas também na própria atuação empresarial. Em
tempo, dados os processos isomórficos, o que parece operar é o mimético, uma
vez que não há pressões coercitivas significativas sobre o setor ' a não ser
leis amplas para concessão de alvará de funcionamento do negócio ', tampouco
normas profissionais que balizem práticas no setor.
Em termos dos resultados organizacionais, apesar dos diferentes tipos de
estratégia adotados, todos os respondentes afirmam, sem possibilidade de
distinção, estarem satisfeitos tanto com os resultados da gestão como com os
resultados econômicos alcançados por suas empresas. Interessante observar que
mesmo os proprietários das empresas que adotam estratégias reativas declaram-se
satisfeitos com os resultados obtidos. Sob esse aspecto, vale citar Fernandes
(2006, p.6) quando alerta para o fato de que os resultados decorrentes do
desempenho organizacional são múltiplos e, assim, o "sucesso não estaria
apenas nos balanços e demonstrações financeiras; está nos olhos de quem o vê, e
cada um o vê de uma maneira distinta". Dessa forma, pode-se supor que a
atividade de pet shop está intimamente ligada a um hobby e ao gosto por
animais, o que traz em si algum tipo de satisfação intrínseca.
Em termos de competências, o setor de pet shop enfatiza competências
gerenciais, competências em serviços tradicionais e competência em serviços de
guarda de animais. Apesar dos diferentes tipos de estratégia adotados, todos os
respondentes, sem distinção, afirmam ser possuidores em mesmo grau das
competências gerenciais (em nível mediano) e das competências em serviços
tradicionais (em alto grau). A posse de competências gerenciais em nível
mediano pode ser explicada por tratar-se de um setor de pequenas empresas,
desprovidas de instrumentos de gestão mais sofisticados. Esse fato pode sugerir
algumas conclusões. Uma primeira é que a implantação de estratégias
prospectivas, defensivas, analíticas e (por definição) também as reativas se dê
de forma assistemática e voluntarista, uma vez que não parece haver ferramentas
de gestão voltadas à execução da estratégia (como indicadores e controles
gerenciais). Tal ponto alinha-se à crítica de Malik e Naeem (2011) sobre a
similaridade no desempenho de empresas com diferentes tipos estratégicos, uma
vez que, sem mecanismos adequados de desdobramento e controle de estratégias,
não se tem garantia de que as intenções estratégicas se concretizem na prática
empresarial. Essa ausência de ferramentas, argumentam os autores, é mais comum
em pequenas empresas, e foi, de certa forma, confirmada nesta pesquisa.
O segundo ponto é que a ausência de competências de gestão dificulta a própria
aferição mais precisa de resultados (por exemplo, o custo de oportunidade do
capital investido no empreendimento). Dessa forma, a percepção de satisfação
dos empresários com o desempenho de suas empresas reforça a ideia de que há
fatores além dos econômicos ao empresariar em um setor como o pet, muitas vezes
relacionados a hobbies dos proprietários.
A similaridade da competência de gestão em um patamar mediano reforça a ideia
de que a resposta estratégica seja de fato similar, ainda que a percepção dos
respondentes as enxergue diferentes. Retomando os pressupostos da tipologia de
Miles e Snow (1978), o problema empreendedor dessa atividade volta-se à oferta
de produtos e serviços pet shop numa vizinhança; o problema de engenharia foca
operações clássicas de banho e tosa, além da compra e da disposição de produtos
em prateleiras para os clientes. O problema administrativo, voltado ao controle
da organização para racionalização e estabilização da estrutura e dos
processos, acaba não sendo o foco dessas organizações. Por conseguinte,
esperam-se respostas similares.
A única competência que distingue os grupos volta-se a serviços de guarda, não
enfatizada por empresas que adotam a estratégia reativa. Esse tipo de
competência demanda maior necessidade de espaço para instalações; daí se
poderia inferir que em empresas que adotam estratégias reativas seriam de menor
porte, porém a pesquisa ora empreendida não contempla tal verificação.
Finalizando, os resultados apresentados não se alinham com os obtidos no
trabalho de Gava Neto (2009), cujos resultados apontaram diferentes graus de
percepção do ambiente, das competências e dos resultados obtidos para
diferentes tipos de estratégia adotados. A explicação talvez se encontre na
diferença de complexidade da indústria de software comparada à menor
complexidade do negócio de lojas de pet shop, o que acaba por nivelar a
percepção do ambiente, o tipo de competência enfatizado e, ao final, o
resultado obtido, independentemente da postura estratégica.
No limite, o estudo põe em evidência o risco de ausência de competências
organizacionais consistentes por parte das empresas da amostra, no sentido de
desenvolverem atributos que sejam valiosos, difíceis de imitar e passíveis de
transferência para novos produtos, serviços e negócios da organização (PRAHALAD
e HAMEL, 1990; BARNEY, 1996). Sem tais competências e recursos, as empresas
correm o risco de não terem vantagem competitiva e ficarem na média do setor
(tostuck in the middle, PORTER, 1980).
Apesar do resultado, este estudo apresenta algumas limitações que reduzem o
alcance de suas conclusões. As principais delas estão relacionadas ao método:
quando se adota um questionário por adesão, não se pode afirmar que os
respondentes façam parte da mesma população (do ponto de vista estatístico)
daqueles que deixaram de responder à pesquisa, o que, por sua vez, impede a
realização de inferências. Ainda assim, embora não tenham realizado teste
adicional algum para procurar garantir a representatividade amostral, os
autores não acreditam que exista motivo significativo algum para eventuais
diferenças. Outra possível limitação relaciona-se à possibilidade de alguns
participantes terem se sentido inclinados a responder não com base em sua
percepção, mas naquilo que imaginavam ser a melhor resposta para seu tipo de
negócio, principalmente por tratar-se de proprietários.
Por fim, como limitação de desenho da pesquisa, deve-se observar que estudos
voltados a competências melhor se coadunam com recortes longitudinais,
relacionados à dependência de trajetória, em que se pode observar o ciclo
adaptativo mediante o qual recursos estratégicos se reconfiguram para
desenvolver competências (NELSON e WINTER, 1982). Este estudo, por seu corte
transversal, perde a possibilidade de explorar essa perspectiva.
Na continuidade dos trabalhos, os autores pretendem realizar entrevistas em
profundidade com pelo menos um respondente por tipo de estratégia utilizada
para aprofundar o estudo, na busca de um referencial teórico mais apropriado
para a explicação do fenômeno.
NOTAS
(1) Um estudo de Dias et al. (2004) concluiu que a razão entre a população
humana e a população canina era 5,14 e a entre a humana e a felina era 30,57,
não havendo diferenças significativas ao se compararem as razões entre as
populações humana e animal das áreas homogêneas.
(2) Uma matrioshka, ou boneca russa, é um brinquedo tradicional da Rússia
constituído por uma série de bonecas que são colocadas umas dentro das outras,
da maior (exterior) até a menor (a única que não é oca).