Diferenças e inter-relações dos conceitos de governança e gestão de redes
horizontais de empresas: contribuições para o campo de estudos
1. Introdução
Neste artigo, tem-se como objetivo principal discutir os conceitos de
governança e gestão de redes interorganizacionais, argumentando quanto a suas
interrelações e utilização nos estudos de redes interorganizacionais. Parte-se
da constatação de que diversos estudos abordam somente a dimensão governança
(ALBERS, 2005; THEURL, 2005; PROVAN e KENIS, 2008), outros somente gestão
(SYDOW e WINDELER, 1994; RITTER e GEMÜNDEN, 1998; HIBBERT, HUXHAM e SMITH RING,
2008) e, em alguns casos, os elementos utilizados não são claramente definidos
como governança e/ou gestão (GRANDORI e SODA, 1995). Ao apresentar definições
de cada conceito e os elementos que os compõem, mostra-se no artigo que
governança e gestão são dimensões distintas da análise de redes
interorganizacionais que, no entanto, se interrelacionam.
A justificativa para a discussão do tema, além da falta de clareza teórica que
caracteriza os conceitos, é o aumento do interesse acadêmico pelo estudo de
relações interorganizacionais, como resultado do número de organizações que
adotam algum tipo de estratégia cooperativa ou interorganizacional (BALESTRIN,
VERSCHOORE e REYES, 2010). Além disso, há uma carência de estudos que adereçam
a temática da organização interna da cooperação, sua governança e gestão
(HIBBERT, HUXHAM e SMITH RING, 2008; PROVAN e KENIS, 2008). Até o momento, a
academia ocupou-se principalmente com estudos sobre os motivos para a formação
de redes interorganizacionais (AXELROD, 1984; CHILD e FAULKNER, 1998) e os
benefícios que as empresas podem alcançar (PROVAN e MILWARD, 1995; DYER e
SINGH, 1998; PODOLNY e PAGE, 1998; ZINELDIN e DODOUROVA, 2005; VERSCHOORE e
BALESTRIN, 2008), mas pouco com a forma pela qual essas redes podem ser
organizadas e coordenadas para potencializar os resultados.
Provan e Kenis (2008) argumentam ainda que analisar a governança e a gestão das
redes é uma forma de compreender o funcionamento desses arranjos e como certas
condições de sua organização podem influenciar os resultados obtidos. Trata-se
de analisar aspectos da rede como um todo e não das empresas individuais ou das
relações entre as empresas, como tem sido feito pela maior parte dos estudos.
São raros os estudos que utilizam a rede como unidade de análise, embora seja
justamente essa perspectiva que pode dar indicativos sobre como obter maior
sucesso por meio da cooperação.
A variedade de conceitos utilizados para caracterizar relações
interorganizacionais também é ampla, com diversos autores apresentando as
próprias tipologias e classificações dos modelos de redes de empresas (MILES e
SNOW, 1986; PERROW, 1992; ERNST, 1994; GRANDORI e SODA, 1995; TODEVA, 2006). As
redes interorganizacionais são arranjos em que três ou mais organizações
(públicas, privadas ou não governamentais) colaboram para alcançar objetivos
individuais e coletivos enquanto permanecem autônomas e independentes (HIBBERT,
HUXHAM e SMITH RING, 2008; PROVAN e KENIS, 2008). Neste estudo, é enfatizado o
modelo denominado rede horizontal de empresas, que apresenta algumas
características particulares que o distinguem de outros tipos de redes. Dentre
elas destacam-se:
* não existe a coordenação central de uma grande empresa;
* as decisões são geralmente tomadas em consenso ou pela maioria;
* na maioria das vezes são formadas por empresas de um mesmo setor;
* os integrantes podem muitas vezes ser concorrentes diretos (MARCON e
MOINET, 2001).
Além desta introdução, optou-se por organizar o artigo da seguinte forma: a
segunda e a terceira seções tratam, respectivamente, dos conceitos e elementos
componentes da governança de redes interorganizacionais e de sua gestão. Na
quarta seção apresenta-se uma análise das diferenças e interrelações desses
conceitos, com a indicação de direções para estudos futuros que se ocupem da
governança e da gestão de redes interorganizacionais. Na quinta seção são dados
contornos finais à discussão, retomando o objetivo proposto e as principais
conclusões que podem ser extraídas do artigo.
2. Governança de redes interorganizacionais
O conceito de governança é utilizado sob várias perspectivas nos estudos
organizacionais. Com maior frequência o termo é empregado em consonância com a
teoria do agente-principal, visando ao monitoramento e controle do
comportamento dos gestores em função da separação entre propriedade e gestão
(FAMA e JENSEN, 1983). Tem como foco o papel dos diretores e gestores em
representar e proteger os interesses dos acionistas. Albers (2005) lembra que o
tema também tem sido estudado no contexto de organizações sem fins lucrativos,
embora neste caso o foco normalmente seja em relação ao papel de conselheiros
em representar os interesses da comunidade ou de outros grupos políticos
importantes.
Nos estudos sobre redes interorganizacionais, o termo governança é utilizado
sob duas perspectivas. Williamson (1975) usa o conceito de governança em rede
como uma forma alternativa de governança das atividades econômicas, em um
continuum entre mercado e hierarquia. Essa perspectiva é seguida por outros
autores (JONES, HESTERLY e BORGATTI, 1997), quando analisam por quê e em que
condições uma empresa deveria optar pela formação de uma rede em vez da
estrutura hierárquica ou do mercado. Na outra perspectiva, a governança em
redes interorganizacionais é caracterizada como o desenho da estrutura e dos
elementos de organização e coordenação internos das redes (ALBERS, 2005;
THEURL, 2005; PROVAN e KENIS, 2008).
Uma explicação para o reduzido número de estudos na segunda perspectiva de
governança é que redes interorganizacionais são formadas por organizações
independentes e, em geral, são empreendimentos essencialmente cooperativos
(PROVAN e KENIS, 2008). Embora redes interorganizacionais não tenham o
imperativo legal para a governança, o fato de realizarem atividades complexas e
que demandam coordenação multilateral implica a necessidade de organizar a ação
coletiva e estabelecer um sistema de governança. O foco da governança envolve a
utilização de estruturas para coordenar e controlar a ação conjunta dentro da
rede. Segundo Provan e Kenis (2008, p.231),
* "embora a governança não seja uma exigência legal [em redes
interorganizacionais], como é a governança corporativa, nós argumentamos
que ela é crítica para a eficácia das redes",
que precisam ser governadas sem o benefício da hierarquia ou da propriedade.
A principal diferença entre a governança de redes e a governança corporativa
reside no fato de que os atores governados são firmas, não indivíduos. A
estrutura de governança cooperativa é resultado de um processo de barganha
entre as empresas participantes do arranjo ou seus respectivos gestores, cada
um considerando os benefícios de fazer parte da cooperação e com isso atingir
seus objetivos individuais. Essas empresas concordam em abrir mão de sua
liberdade individual em alguma medida e permitir ao arranjo cooperativo
coordenar certos aspectos de seu negócio sob o regime das regras criadas pelo
grupo (ALBERS, 2005, p.103). As regras de governança precisam equilibrar
interesses conflitantes para assegurar a viabilidade de longo prazo da rede,
especialmente quando há atores com interesses divergentes ou potencialmente
diferentes e assimetria de informações (THEURL, 2005).
A governança da rede refere-se à forma como essa rede será estruturada e
organizada, seus mecanismos regulatórios e de tomada de decisão, para garantir
os interesses dos membros e assegurar que as normas estabelecidas sejam
cumpridas tanto pelos gestores quanto pelos participantes. Trata-se da
sistemática de funcionamento do arranjo cooperativo, processos decisórios,
níveis de autonomia, formas de solucionar conflitos, mecanismos de controle e
de participação nas decisões que regulem as atividades desenvolvidas. Esse
conjunto de elementos pode ser definido como o sistema de governança da rede
(THEURL, 2005), capaz de organizar e alinhar os interesses distintos que
inevitavelmente surgem quando organizações diferentes constituem um grupo
cooperativo. Mesmo que haja objetivos comuns - sem os quais a cooperação não é
possível -, cada participante preserva seus objetivos particulares e procura
realizá-los também dentro da rede.
Albers (2005) denomina a governança de rede como um sistema de governança de
segunda ordem, que não implica a substituição do sistema de governança das
empresas participantes da rede, mas significa que um novo nível de governança é
adicionado. Esse sistema de governança é criado pelas próprias empresas
participantes da rede, mas busca influenciar os gestores dessas empresas a agir
de maneira que suportem os objetivos da rede. Os mesmos participantes que
definem o sistema de governança - as empresas da rede - são influenciados por
ele.
De forma geral, três características distinguem a governança de redes: natureza
transitória e/ou reversibilidade; ausência de autoridade central; barganha e
consenso. A natureza transitória refere-se à opção de saída que as empresas
participantes da rede possuem, que se dá no momento em que objetivos
individuais das empresas não são mais atingidos por meio da rede e/ou não há
mais alinhamento, por parte da empresa, com os objetivos coletivos. A ausência
de autoridade caracteriza-se pela permanência da autonomia geral da empresa e a
não submissão desta a uma autoridade central da rede. Como citado
anteriormente, as empresas são ao mesmo tempo governantes e governadas.
Imediatamente relacionado à característica anterior, o processo decisório da
rede é baseado na negociação e busca de consenso entre as empresas
participantes da rede (ALBERS, 2005).
Os estudos realizados sobre a governança de relações interorganizacionais
descrevem as macroestruturas ou os elementos internos da governança. Provan e
Kenis (2008), por exemplo, abordam as macroestruturas de governança utilizadas
por redes de empresas sem, no entanto, preocupar-se com os mecanismos internos
utilizados. Esses autores têm como foco central analisar quem é responsável
pela governança da rede e as implicações dessa escolha, e não como e com que
instrumentos essa governança é realizada. Uma segunda linha de estudos
conduzida por autores como Albers (2005) e Theurl (2005) concentra-se
justamente em descrever e analisar os mecanismos internos do sistema de
governança, como podem ser organizados e quais os resultados para o grupo.
Ainda que analisem a governança de perspectivas diferentes, tais estudos podem
ser utilizados de maneira complementar para analisar a governança de relações
interorganizacionais. As subseções seguintes apresentam brevemente essas duas
perspectivas.
2.1. Modelos de governança
Provan e Kenis (2008) descrevem três modelos básicos de governança em rede, a
partir dos quais podem surgir combinações e modelos híbridos: governança
compartilhada, governança com organização líder e governança por meio de uma
organização administrativa da rede. Cada modelo é utilizado na prática por
diferentes motivos e nenhum é necessariamente superior em todas as situações.
Cada um possui as próprias vantagens e desvantagens, de maneira que sua
utilização depende de um número de condições que são únicas à relação
interorganizacional, às características dos participantes e ao ambiente de
negócios em que o arranjo está inserido.
O modelo de governança mais simples é o da governança compartilhada. Redes com
governança compartilhada consistem em grupos de organizações que trabalham
coletivamente como uma rede, mas não possuem uma estrutura administrativa
formal e exclusiva. A governança pode ocorrer por meio de reuniões formais dos
representantes das empresas ou até mesmo informalmente, por meio das ações
daqueles que têm interesse no sucesso da rede. A efetividade deste modelo de
governança está apoiada exclusivamente no envolvimento e comprometimento das
organizações participantes, sendo elas próprias responsáveis pelo gerenciamento
dos relacionamentos internos da rede e com os atores externos. Nessa estrutura,
os próprios parceiros tomam todas as decisões e gerenciam as atividades da
parceria. Não há uma entidade administrativa formal e distinta, embora certas
atividades administrativas e de coordenação possam ser realizadas por um
conjunto de participantes.
O ponto forte do modelo de governança compartilhada é a inclusão e envolvimento
de todos os parceiros na tomada de decisões, bem como a flexibilidade e
responsividade da rede às necessidades dos participantes. Conforme Provan e
Kenis (2008), o problema desse modelo é que, embora tenha um forte apelo
ideológico (devido à ideia de participação e comprometimento dos
participantes), geralmente não é muito eficiente porque depende dos esforços de
atores com muitos outros comprometimentos de recursos e tempo. Objetivos e
necessidades desses atores podem inclusive ser conflitantes com os objetivos da
rede. Por tais motivos, o modelo de governança compartilhada é geralmente
difícil de manter, tendo maior probabilidade de funcionamento em redes com
poucos membros e que envolvam organizações mutuamente dependentes, com
objetivos complementares e compatíveis.
As principais dificuldades deste modelo de governança podem ser compreendidas
pela teoria da ação coletiva de Olson (1999), que descreve a organização e o
funcionamento dos grupos. A governança compartilhada pode funcionar em grupos
menores, em que há maior controle social, os participantes têm contato entre si
e podem cobrar participação e comprometimento uns dos outros. Mesmo assim, as
chances de comportamentos oportunistas e o surgimento de caronas têm maior
probabilidade de ocorrer. Em grupos maiores, a governança compartilhada tende a
ser ainda menos eficiente, a menos que haja mecanismos de controle e
coordenação instituídos e efetivamente aplicados pelos próprios participantes.
O tamanho reduzido do grupo e eventualmente a falta de recursos para investir
em uma estrutura administrativa exclusiva pode ser a justificativa para que
este e não outro sistema de governança seja utilizado pelo arranjo.
Um segundo modelo de governança descrito por Provan e Kenis (2008) é denominado
de modelo da organização líder que, tipicamente, ocorre em relacionamentos
verticais, de cliente-fornecedor, nos quais há uma organização maior e mais
poderosa e um conjunto de firmas menores e mais fracas. O modelo também pode
ocorrer em redes horizontais multilaterais, quando uma organização possui
recursos suficientes e legitimidade para exercer uma posição de liderança.
Nessa estrutura, os membros da rede compartilham ao menos alguns objetivos
comuns ao interagir uns com os outros, ao mesmo tempo em que mantêm objetivos
individuais. Essa estrutura de governança pode ser identificada nos keiretsu
japoneses (TODEVA, 2006), em redes verticais (CASAROTTO FILHO e PIRES, 1999) e
redes estratégicas (JARILLO, 1993) em que uma organização assume o papel de
coordenadora.
O terceiro modo de governança é denominado por Provan e Kenis (2008) como
modelo de organização administrativa da rede (OAR). Surge como consequência da
ineficiência das redes com governança compartilhada e dos problemas de
dominação e resistência das redes com organizações líderes. A ideia básica
deste modelo é que uma entidade administrativa separada seja criada
especificamente para gerenciar a rede e suas atividades, visando a coordenar e
sustentar a rede. No entanto, a OAR não é uma nova firma ou agência,
estabelecida para manufaturar os próprios bens ou oferecer seus serviços. A
gestão de uma rede neste modelo tende a ser mais eficiente, especialmente
quando comparada com a governança compartilhada, que pode tornar-se
extremamente complexa quando o número de participantes aumenta.
Na comparação com a governança de uma organização líder, os autores destacam
que a OAR dedica-se exclusivamente à governança da rede, enquanto naquele
modelo uma organização deverá desdobrar-se entre suas atividades e a gestão da
rede. A OAR pode ser modesta, consistindo somente em um indivíduo, ou uma forma
organizacional mais complexa, com diretor executivo, equipes de apoio e
diretorias que operam em um escritório da rede. Nessa estrutura, organizações
parceiras e grupos podem interagir e trabalhar uns com os outros, mas as
atividades e decisões-chave são coordenadas por uma entidade separada. As
vantagens desse modelo são sua eficiência, sustentabilidade e legitimidade,
especialmente para os atores externos à rede. Como pontos fracos, as empresas
da rede podem confiar demasiadamente na organização administrativa. Um risco é
que, na busca de eficiência, as decisões passem a ser tomadas para os
participantes pela OAR, mas não pelos participantes (PROVAN e KENIS, 2008).
A partir dessas três formas básicas de governança de redes podem surgir formas
híbridas. Participantes de uma rede com governança compartilhada podem, por
exemplo, instituir uma OAR para lidar com aspectos e atividades específicas, ao
mesmo tempo em que mantêm a governança compartilhada para que continue havendo
um nível mínimo de envolvimento e participação dos atores da rede nas decisões.
Provan e Kenis (2008) acreditam, ainda, que algumas formas de governança possam
ser estruturas transitórias, modificadas à medida que a rede se desenvolve. O
crescimento e o desenvolvimento da rede podem levar à necessidade de uma
estrutura mais formalizada. Em um estudo de uma rede interorganizacional,
Knight e Pye (2005) observaram que essa rede iniciou com uma governança
informal e auto-organizada, estruturando uma OAR formal com o passar do tempo.
Os três modelos de governança são apresentados na figura_1.
Provan e Kenis (2008), embora se refiram a modelos de governança, não abordam
os elementos internos que caracterizam a organização de um arranjo
interorganizacional, regras de interação das empresas, autonomia e participação
na tomada de decisões ou controles da rede sobre as empresas em relação ao
acordo cooperativo. Esses aspectos são abordados por autores preocupados com a
organização interna e as regras de funcionamento das redes
interorganizacionais, como apresentado adiante.
2.2. Elementos da governança
Em complemento à perspectiva macro adotada por Provan e Kenis (2008), Albers
(2005; 2009; 2010) analisa os elementos internos utilizados para configurar
sistemas de governança e suas influências para os resultados do arranjo
cooperativo. Albers (2005) não apresenta modelos predefinidos ou soluções para
a governança de redes, mas descreve conjuntos de elementos que podem ser
combinados e organizados de maneiras distintas para que redes
interorganizacionais atinjam seus objetivos. Esses elementos, divididos em
dimensão estrutural e dimensão instrumental da governança, preocupam-se com as
características operacionais da governança capazes de aumentar a eficiência de
redes entre duas ou mais empresas.
A dimensão estrutural da governança caracteriza a forma como o acordo
cooperativo é organizado e regulado, incluindo as regras formais sobre como a
rede será gerida (OXLEY, 1997; ALBERS, 2005). Compreende a definição dos
objetivos comuns, os direitos e as obrigações dos participantes, a divisão de
tarefas, as regras de tomada de decisão e a distribuição dos benefícios gerados
conjuntamente. Essa dimensão refere-se a centralização, especialização e
formalização da governança (ALBERS, 2005).
A centralização caracteriza em qual nível hierárquico das organizações
participantes da rede interorganizacional concentram-se as decisões e os
aspectos relevantes da rede, ou seja, uma rede é verticalmente centralizada
quando as decisões estão concentradas nos níveis hierárquicos mais elevados das
empresas e verticalmente descentralizada quando a autoridade está dispersa nos
níveis gerenciais. A especialização refere-se à amplitude, assim como ao grau
de controle que será exercido sobre as ações individuais das empresas
resultantes da divisão de tarefas estabelecidas. Por fim, a formalização faz
referência ao grau no qual as regras e regulamentos para diferentes
contingências serão predefinidos.
Por outro lado, a dimensão instrumental da governança encarrega-se dos
instrumentos pelos quais a gestão, organização, regulação e controle da rede
são operacionalizados de maneira a fazer com que as firmas participantes do
arranjo se comportem da forma desejada para alcançar objetivos estabelecidos
(OXLEY, 1997; ALBERS, 2005). Essa dimensão envolve instrumentos de coordenação,
incentivos e controle (ALBERS, 2005).
A coordenação inclui mecanismos utilizados na relação interorganizacional que
envolvam, por exemplo, o ajuste mútuo, a supervisão dos atores e a padronização
de processos e resultados. Conforme Albers (2005), o ajuste mútuo é uma
condição prévia para o surgimento da rede assim como para sua sobrevivência. A
elaboração de regras que visam a padronizar as atividades dos membros e a
supervisão direta (autoridade voluntariamente transferida pelos participantes
da rede a um membro ou a uma organização administrativa concebida para esse
fim) são instrumentos para a coordenação dos participantes. Além desses
aspectos, Albers (2005) inclui ainda como mecanismo de coordenação o mecanismo
de preço, nos casos em que a rede interorganizacional necessite estabelecer
preço de transferência para produtos e serviços resultantes da ação coletiva.
Mecanismos de incentivo ou recompensa, como parte integrante de um sistema de
governança, visam a mudar o comportamento de um agente para atingir objetivos
predeterminados do arranjo. Tais mecanismos podem prover incentivos materiais
ou recompensas tangíveis, os quais possuem valores monetários ou que podem ser
convertidos em valores monetários, ou ainda incentivos imateriais, que estão
relacionados à satisfação ou ao ego dos atores (ALBERS, 2005).
Por último, controle é o processo de monitorar e avaliar o desempenho dos
atores individuais em relação aos resultados esperados e aos comportamentos.
Segundo Nassimbeni (1998), apesar da manutenção da individualidade legal de
cada empresa, passam a existir interdependências entre os participantes de uma
rede a ponto de ser necessário criar mecanismos de controle (de resultados e
comportamentos). Duas alternativas para monitoramento e mensuração de
desempenho podem ser identificadas. Uma refere-se ao controle de resultados e a
outra ao controle de comportamentos. Conforme Albers (2005), a primeira
modalidade de controle refere-se à verificação do nível de adequação do
parceiro aos padrões estabelecidos. O segundo controle refere-se aos
comportamentos dos membros da aliança ou rede. Trata-se de verificar a
adequação a um padrão de comportamentos cooperativos e não oportunistas, por
exemplo.
As duas perspectivas de análise da governança de redes interorganizacionais
abordam aspectos diferentes, mas são complementares. A perspectiva de Provan e
Kenis (2008) está relacionada à macroestrutura de governança, que é adotada
pela rede quando ela é criada e pode ser ajustada ou adaptada durante seu
desenvolvimento. Isto é, há uma opção por parte das organizações que vão formar
a rede pela governança compartilhada, pela governança por meio de uma
organização líder (comum em redes estratégicas, quando uma organização cria uma
rede para atender a suas necessidades estratégicas) ou a governança por meio de
uma organização administrativa da rede. Em qualquer uma das situações e
independentemente do modelo básico de governança selecionado, existe a
necessidade de definição dos elementos internos de governança, descritos por
Oxley (1997) e Albers (2005; 2009). A relação entre essas duas perspectivas
complementares de análise da governança de redes interorganizacionais está
representada na figura_2.
A figura_2 mostra que, independentemente da macroestrutura definida pela rede
interorganizacional, os elementos da governança fazem-se presentes, podendo ser
combinados e organizados de maneiras distintas para que redes
interorganizacionais atinjam seus objetivos. Cabe ressaltar, entretanto, que
alguns fatores - como o aumento no número de empresas participantes, a
necessidade de maior controle, o aumento da complexidade da gestão, entre
outros aspectos - podem levar a rede a migrar para outra forma de
macroestrutura, que lhe sirva de suporte para alcançar de maneira mais
eficiente os objetivos estabelecidos. Dessa forma, os elementos internos da
governança podem impactar a macroestrutura da rede visando a seu ajuste aos
objetivos propostos.
3. Gestão de relações interorganizacionais
Além da governança, que trata de aspectos formais de estruturação e dos
processos de decisão e representação da rede (regras, incentivos, sanções,
restrições), os resultados das empresas participantes são potencializados por
meio de práticas de gestão da rede, as quais permitam que os objetivos sejam
atingidos e as empresas participantes melhorem seu desempenho individual. No
limite, a gestão de uma rede terá como meta atingir os objetivos propostos
pelas organizações integrantes e influenciar positivamente a competitividade
dos membros.
Segundo Hibbert, Huxham e Smith Ring (2008), a gestão de uma rede
interorganizacional refere-se a uma série de processos e práticas realizadas
por um time de indivíduos, focadas tanto na definição da direção a ser tomada
por uma entidade interorganizacional quanto na alocação e implementação de
recursos para alcançar esses fins. Sydow (2006) argumenta que a gestão de uma
rede interorganizacional implica significativas mudanças nas funções e práticas
gerenciais, em comparação com aquelas utilizadas em organizações hierárquicas e
corporações. Há que se considerar a existência de uma coletividade, de
interesses confluentes, mas não necessariamente consensuais, de
interdependências e a necessidade de estratégias que os participantes estejam
dispostos a implementar. Quanto mais complexas as redes se tornam, mas
problemática sua gestão. Segundo Hage e Alter (1997), a complexidade dessa
gestão ocorre porque tarefas mais complexas precisam ser realizadas nas
estruturas em rede, as redes cada vez mais ultrapassam os limites de setores de
atividade definidos e a diversidade dos atores participantes aumenta.
Uma revisão de estudos que abordam a gestão de relações interorganizacionais
permite identificar um conjunto de práticas consideradas importantes pelos
respectivos autores, ainda que utilizem nomenclaturas distintas. Ritter e
Gemünden (1998), por exemplo, argumentam que, além das quatro funções básicas
da gestão (planejamento, organização, direção e controle), é necessário
acrescentar três funções de caráter especificamente relacional, típico das
relações em rede:
* encaminhamento - trata-se de identificar, informar potenciais parceiros
para a cooperação e, finalmente, trazê-los para a rede. Consiste em
utilizar práticas para realizar a seleção de novos integrantes da rede.
Isto é, colocar em prática uma rotina para identificação e inserção de
novas organizações na rede, cujos objetivos sejam complementares ou
alinhados aos do grupo;
* troca - refere-se à troca de conhecimentos incorporados em tecnologias,
pessoas e organizações da rede, por meio de práticas que permitem a
disseminação dos conhecimentos disponíveis e a construção de novos
conhecimentos na rede. Tendo em vista que redes interorganizacionais
reúnem empresas e indivíduos com conhecimentos diferentes e que podem
gerar aprendizagem, é função da gestão da rede estimular a troca e
geração de novos conhecimentos;
* coordenação - consiste em configurar as relações entre os participantes
na busca por harmonização e sincronização de interesses, assim como por
soluções para os conflitos que podem surgir.
Sydow e Windeler (1994), por sua vez, sugerem quatro funções centrais para a
gestão de relações interorganizacionais em geral e redes de empresas em
particular:
* função de seleção - a escolha dos parceiros é crucial em uma rede
interorganizacional; se os objetivos não são compatíveis, a gestão da
rede pode tornar-se ineficiente e em casos extremos a própria existência
da rede estará ameaçada. A seleção é uma função essencial não somente
para a constituição inicial da rede, como também é uma função permanente
da gestão ao longo de todo o tempo de existência da rede, inclusive como
seleção negativa ou exclusão de empresas que não tenham o perfil adequado
para a rede;
* função de alocação - refere-se à distribuição de tarefas, recursos e
responsabilidades entre as empresas da rede. A ideia central é que essa
divisão de tarefas e responsabilidades leve em consideração as
competências específicas de cada empresa e suas vantagens competitivas
para realização daquela tarefa, como forma de oferecer a máxima
contribuição para os resultados da rede;
* função de regulação - consiste na implementação de regras para o trabalho
coletivo das empresas, para o gerenciamento de conflitos, a utilização de
sistemas de informação e o gerenciamento do conhecimento que circulará na
rede. A gestão também deve colocar em prática sistemas de sanções e
incentivos, que auxiliem na manutenção da confiança e no controle da
rede;
* função de avaliação - pode referir-se à avaliação da rede como um todo,
de relações empresariais diádicas ou mesmo à avaliação das contribuições
individuais de cada empresa para o sucesso da rede.
Além de Sydow e Windeler (1994) e Ritter e Gemünden (1998), que propõem um
conjunto de funções de gestão para redes de empresas que são, inclusive,
semelhantes em alguns aspectos, outros autores trazem contribuições teóricas e
empíricas específicas sobre a gestão de redes interorganizacionais. Balestrin,
Vargas e Fayard (2008), por exemplo, descrevem práticas utilizadas por uma rede
horizontal de empresas para estimular a troca de conhecimentos, gerando
aprendizagem, inovação e melhor desempenho das empresas, em alinhamento com a
função de troca proposta por Ritter e Gemünden (1998). O estudo daqueles
autores verificou que redes de empresas são um espaço para troca de
experiências e conhecimentos. Práticas específicas de gestão, pelas quais a
rede promove encontros, palestras e seminários em que os empresários têm
contato uns com os outros, podem estimular a aprendizagem e a inovação.
Grandori e Soda (1995), com base em uma revisão teórica, apresentam um conjunto
de mecanismos utilizados para sustentar a cooperação interorganizacional,
alguns dos quais podem ser caracterizados como práticas de gestão. Comunicação,
decisão e negociação são considerados os mecanismos menos custosos sobre os
quais as redes estão fundadas, estando sempre presentes em qualquer rede, em
maior ou menor grau. Segundo esses autores, para que a cooperação seja mantida,
a repetição de comunicações, decisões e negociações precisa ocorrer.
Ainda que redes de caráter cooperativo sejam diferentes de empresas
hierárquicas, há mecanismos de coordenação importantes para seu
desenvolvimento, como sistemas de incentivo, supervisão hierárquica,
planejamento formal, sistemas de informação e treinamento, que são bastante
similares aos utilizados nas firmas em geral. A cooperação também traz consigo
o problema de controlar os comportamentos cooperativos. Vários tipos de redes
empregam sistemas de planejamento e controle de resultados similares aos
encontrados nas firmas (GRANDORI e SODA, 1995). Finalmente, Grandori e Soda
(1995) também concordam quanto à importância de utilizar sistemas de seleção, a
exemplo das sugestões de Sydow e Windeler (1994) e Ritter e Gemünden (1998),
citadas anteriormente.
Além desses elementos de gestão, modelos específicos de redes de empresas (como
as redes horizontais) oferecem a seus participantes um portfolio de serviços
que tem o objetivo de suprir deficiências competitivas das empresas individuais
(BALESTRIN e VARGAS, 2004). Ahlert et al. (2006), em um estudo com as 15
maiores redes horizontais de empresas da Alemanha, identificaram um conjunto de
serviços oferecidos aos associados, desde negociação e compras com
fornecedores, marketing, desenvolvimento de pessoas, até serviços financeiros,
gestão da qualidade, otimização do sortimento e pesquisa de mercado. Cada rede
tem a possibilidade de definir aqueles serviços que sejam mais relevantes a
seus participantes.
Assim, é fundamental que os gestores da rede sejam capazes de identificar os
serviços de que as empresas necessitam e, acima de tudo, sejam capazes de
oferecer serviços eficientes e que contribuam para o aumento da competitividade
das empresas da rede. Também é papel da gestão da rede avaliar se os serviços
oferecidos aos participantes realmente atendem a seus interesses e são
reconhecidos como fatores que contribuem para sua competitividade. No Brasil,
diversos estudos que analisaram os benefícios obtidos por empresas
participantes de redes (ver, por exemplo, Balestrin e Vargas, 2004; Wittmann,
Dotto e Wegner, 2008) apontam também para os serviços de suporte oferecidos
pelas redes aos associados, como negociação com fornecedores, criação de
campanhas de marketing, atividades de capacitação para os empresários e seus
funcionários, seminários e consultorias.
No quadro a seguir sintetizam-se, com base nos autores citados, as principais
categorias relacionadas à gestão de redes interorganizacionais e que podem
influenciar o desempenho das empresas participantes do arranjo.
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A síntese não tem a pretensão de ser conclusiva, haja vista que o formato de
rede interorganizacional, as características dos participantes e das relações
entre eles, pode influenciar a opção por um conjunto de práticas de gestão.
Ainda que exista semelhança entre algumas das funções de gestão descritas pelos
autores apresentados, não é possível nem é objetivo neste artigo chegar a uma
classificação definitiva das funções de gestão de redes interorganizacionais.
4. O Sistema de Governança e Gestão de Redes Interorganizacionais
Nas seções anteriores deste artigo foi apresentada uma revisão de conceitos e
elementos de governança e gestão de redes interorganizacionais. Nesta seção
apresentam-se as distinções e a interrelação desses conceitos, argumentando que
ambos são necessários para que a rede interorganizacional seja estabelecida e
alcance os objetivos propostos pelos participantes. Conforme apresentado, a
governança encarrega-se da definição da estrutura da rede, do detalhamento de
sua organização, da instituição de mecanismos regulatórios e do processo de
tomada de decisão, enquanto a gestão se encarrega de planejar, executar e
controlar as estratégias e ações, dentro dos limites estabelecidos pela
governança.
Dada a complexidade dos relacionamentos interorganizacionais, sugere-se neste
estudo que a definição de um sistema de governança e gestão que contemple essas
duas dimensões é imprescindível para a organização e o desenvolvimento de uma
rede interorganizacional. A figura_3 sintetiza as discussões sobre os
conceitos, apresentando o sistema de governança e gestão de redes
interorganizacionais, no qual as duas dimensões se interrelacionam, com
influências sobre o nível de eficiência da rede.
Cabe ao sistema de governança constituir normas, regras, autonomia e limites de
funcionamento da rede, e à gestão a prática de atos gerencias. Dessa forma,
o papel da governança não é gerir, mas delimitar a gestão, tarefa que incumbe
aos gestores da rede. Dentro dos limites impostos pela governança da rede
interorganizacional, os gestores têm liberdade para usar seus conhecimentos e
habilidades para planejar e executar estratégias para alcançar os objetivos
estabelecidos.
O sistema de governança pode prever, por exemplo, que todas as estratégias
sejam definidas coletivamente e buscando consenso, com a participação de todas
as organizações da rede, ou pode conceder maior autonomia para os gestores da
rede. Dependendo das características da rede interorganizacional, as situações
apresentadas em termos de autonomia na tomada de decisões podem levar a
diferentes níveis de eficiência. Assim, argumenta-se que o sistema de
governança e gestão e suas interrelações afetam o nível de eficiência da rede.
A governança, sendo resultado de um processo de barganha e discussão entre os
integrantes da rede interorganizacional (ALBERS, 2005), tem caráter menos
flexível e tende a não ser modificada com tanta frequência pelos participantes
quanto a gestão. Essa, sim, é dinâmica e poderá adaptar-se às necessidades em
cada situação. Apesar disso, se a rede atinge um nível de eficiência
considerado insatisfatório, pode surgir a necessidade de revisar e adaptar o
sistema de governança, desenvolvendo-se novas regras de funcionamento, de
autonomia ou de limites para a gestão. Tem-se, portanto, uma relação de
influências mútuas, em que a gestão também impacta a governança da rede
interorganizacional.
Argumenta-se, portanto, que a criação, o desenvolvimento de uma rede
interorganizacional e, principalmente, o alcance dos objetivos propostos passam
pela instituição de um sistema de governança e gestão. Diferentes configurações
desse sistema afetam distintamente a eficiência da rede interorganizacional.
4.1. Direções para estudos futuros
A partir dos conceitos apresentados e do sistema de governança e gestão de
redes interorganizacionais delineado na figura_3, surgem várias possibilidades
de estudo. Sugere-se, por exemplo, a verificação empírica dos elementos de
governança e gestão em diferentes tipos de redes interorganizacionais, por meio
de estudos descritivos. Tais estudos permitirão compreender que soluções em
termos de governança e gestão foram desenvolvidas por redes em diferentes
contextos e situações. Em paralelo, é relevante identificar como diferentes
sistemas de governança e gestão levam a níveis distintos de eficiência.
Outra linha de estudos pode analisar a evolução do sistema de governança e
gestão ao longo do ciclo de vida ou de desenvolvimento das redes. Sabe-se que
redes interorganizacionais são dinâmicas, passam por diferentes etapas de
desenvolvimento e modificam-se ao longo do tempo. É provável que também ocorram
mudanças no modo como essas redes organizam sua governança e gestão, inclusive
como forma de oferecer suporte a seu desenvolvimento e crescimento. Em relação
a este último aspecto, há uma carência de estudos que analisam como a rede
precisa reorganizar-se de maneira a crescer em número de participantes,
complexidade das tarefas ou volume de negócios sem perder a eficiência.
Neste artigo, argumentou-se também quanto aos interrelacionamentos dos
elementos de governança e gestão. Sugere-se verificar como tais elementos
afetam-se mutuamente e como impactam a eficiência da rede.
Um aspecto amplamente estudado no âmbito das firmas e que permanece
praticamente inexplorado nos estudos interorganizacionais refere-se à
existência de problemas de agência, que podem surgir quando há gestores que
representam os interesses das organizações da rede e com autonomia para tomar
decisões. Pode-se investigar, por exemplo, a relação entre o grau de autonomia
dos gestores e a possibilidade de surgirem problemas de agência; ou ainda a
possibilidade de ocorrerem distanciamento e conflitos entre a gestão da rede e
os interesses dos participantes.
Finalmente, sugere-se a realização de estudos que analisem a possibilidade ou a
necessidade de acrescentar outros elementos ao sistema de governança e gestão
aqui apresentado, tais como estratégia ou confiança entre os atores, avançando
em relação à presente proposta.
5. Considerações finais
No presente artigo teve-se como objetivo principal apresentar os conceitos de
governança e gestão de redes interorganizacionais e suas interrelações. A
revisão teórica sobre o tema demonstrou que se trata de conceitos distintos,
porém interrelacionados e fundamentais para a organização de redes
interorganizacionais. Argumentou-se que os dois elementos formam o sistema de
governança e gestão de redes interorganizacionais, que precisa ser delineado e
implementado para obtenção dos resultados coletivos esperados.
A contribuição teórica do artigo está em proporcionar um melhor entendimento
dos conceitos de governança e gestão, seus limites e interrelações,
evidenciando que o primeiro conceito envolve um conjunto de definições quanto a
regras, processo de tomada de decisões, estrutura e organização da rede,
enquanto o segundo caracteriza-se pelo planejamento, implementação e controle
de práticas gerenciais dentro dos limites estabelecidos. O sistema de
governança e gestão delineado avança em relação aos estudos anteriores, que
abordavam apenas um dos dois elementos ou, quando apresentavam um conjunto de
elementos, não faziam distinção entre governança e gestão.
Como contribuição gerencial do artigo, destaca-se que, independentemente do
tipo de rede interorganizacional, número de participantes e grau de
formalização, será necessária a definição dos aspectos referentes à governança
e gestão. A definição dos elementos de governança é fundamental, mas não
suficiente para o alcance dos objetivos coletivos da rede. Para obter
resultados, é necessária a utilização de práticas de gestão, que podem variar
amplamente em função dos objetivos coletivos e do modelo de rede em questão.
Uma limitação da discussão apresentada é a não inclusão de alguns elementos que
são discutidos em estudos sobre relações interorganizacionais e que podem
influenciar e ser influenciados pelo sistema de governança e gestão. Um exemplo
é o grau de confiança entre os participantes da rede ou mesmo entre os
participantes (principal) e os gestores dessa rede (agentes), implicando a
adoção diferentes níveis de mecanismos de controle contratual e relacional.
Estudos futuros podem indicar a relevância de incluir esse ou outros elementos
no sistema apresentado.