O cuidado na perspectiva de Leonardo Boff, uma personalidade a ser
(re)descoberta na enfermagem
ENSAIO
O cuidado na perspectiva de Leonardo Boff, uma personalidade a ser
(re)descoberta na enfermagem
The care according to Leonardo Boff's perspective, a personality to be
rediscovered in nursing
El cuidado según la perspectiva de Leonardo Boff, una personalidad a ser re-
descubierta en la enfermería
Luzia Wilma Santana da SilvaI;Fabiane Ferreira FrancioniII; Edite Lago da Silva
SenaIII; Telma Elisa CarraroIV; Vera RandünzV
IEnfermeira. Professora Assistente do Departamento de Saúde da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia Campus de Jequié. Mestre em Enfermagem e Saúde
Pública pela UNIRIO/UESB. Doutoranda em Enfermagem PEN/UFSC. Membro do Grupo de
Pesquisa GESPI/UFSC.Bolsita CAPES PQI UESB/UFSC, luziawilma@bol.com.br e
wilma@nfr.ufsc.br
IIEnfermeira. Professora do quadro de docente da FURB - Universidade Regional
de Blumenau. Mestre em Enfermagem pela PEN-UFSC. Integrante do NUCRON/UFSC-
Núcleo de Estudos em Condição Crônica de Saúde. fabifrancioni@ig.com.br
IIIEnfermeira. Professora Assistente do Departamento de Saúde da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia-Campus de Jequié. Mestre em Enfermagem e Saúde
Pública pela UNIRIO/UESB. Doutoranda em Enfermagem PEN-UFSC. Membro do Grupo de
Pesquisa GESPI/UFSC.Bolsita CAPES PQI UESB/UFSC, edite@nfr.ufsc.br
IVEnfermeira.Professora. Mestre em Assistência de Enfermagem.Doutora em
Enfermagem. Docente do Deptº e da Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC.
Coordenadora do Grupo de Pesquisa Cuidando e Confortando PIPC&C/UFSC.Membro
do EDEN/UFSC, telmacarraro@nfr.ufsc.br
VEnfermeira. Professora. Mestre em Enfermagem. Doutora em Enfermagem. Docente
do Deptº e da Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Vice-coordenadora do Grupo
de Pesquisa Cuidando e Confortando PIPC&C/UFSC, radunz@nfr.ufsc.br
1. INTRODUÇÃO
Consideramos importantetrazer uma breve retrospectiva da vida de Boff, pois, em
face aos seus escritos é possível perceber a contribuição de sua obra para a
Enfermagem, por sua visão conceitual deSer humano,pois para ele, o ser humano é
uma manifestação do estudo de energia de fundo..., um ser cósmico, parte de um
universo...articulado em nove dimensões, formado pelos mesmos elementos físico-
químicos e pelas mesmas energias que compõem todos os seres ..., morando no
planeta terra. Um elo da corrente única da vida..., portador da psiqueancestral
de seu corpo, lhe permitindo ser sujeito, estruturada ao redor do desejo, de
arquétipos ancestrais e de várias emoções e coroado pelo espírito que é aquele
momento da consciência pelo qual se sente parte de um todo,que o faz sempre
aberto ao outro e ao infinito, capaz de criar e captar significados e valores e
se indagar sobre o sentido derradeiro do Todo, hoje em sua fase pioneira, rumo
à noosfera pela qual mentes e corações convergirão numa humanidade unificada
(1).
Assim, frente a este marco conceitual, que nos faz transcender enquanto
sujeitos com expressões de significados e de vivências passamos a discorrer
sobre este Ser humano difícil de tecer adjetivos, tamanha a dificuldade de
quantificá-los.
Leonardo Boff é o nome literário deste teólogo, professor, orador, humanista e
escritor que confessa ser um aprendiz da vida. O seu nome de batismo é Genésio
Darci Boff, nascido em Concórdia/SC, em 1938. Filho de imigrantes italianos que
chegaram ao Brasil no final do séc. XIX na região do Rio Grande do Sul. Seu pai
chamava-se Mansueto Boff um professor, quase jesuíta, tinha grande envolvimento
nas questões sociais de comunidade e sua mãe, Regina Fontana Boff; analfabeta
que se orgulhava em dizer que teve onze filhos e todos cursaram a universidade
(2).
2. HISTÓRIA DE SUA FORMAÇÃO
Boff teve como primeiro professor seu pai, iniciando aos dez anos, sua
caminhada de franciscano. Em 1959, ingressa na Faculdade de Filosofia em
Curitiba; Teologia em Petrópolis e pós-graduação em nível de doutorado, em
Filosofia a Teologia na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique/Alemanha,
desenvolvendo neste período, estudos de extensão para pós-graduação nas
Universidades de Wiirzburg, na Alemanha e Oxford, na Inglaterra, especialmente
em lingüística e antropologia(2).
Em 1970, assumiu a cátedra de teologia no Instituto Teológico Franciscano de
Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O escritor Boff acumulainúmeros prêmios conferidos aos seus escritos e outros
relacionados a sua capacidade dinâmica voltada às questões humanísticas e da
igreja(2).
O movimento de sua vida o consagra como uma personalidade de reconhecida
valorização no campo da docência, o qual lhe conferiu os títulos de doutor
honoris causa em política pela Univesità degli Studi de Turin em 1991, Lund na
Suíça em 1992; e o Prêmio dos Direitos Humanos, também em 1992(2).
A ele é dada a cidadania honorária de várias cidades brasileiras e do exterior.
É o que poderíamos chamar de cidadão do mundo pelas suas andanças e luta pelas
causas sociais e dos direitos humanos(2).
3. CONSIDERAÇÕES SOBRE BOFF
Leonardo Boff é considerado um dos "pais" da Teologia da Libertação, um
movimentoª que nasceu nos anos 60 no esforço de escutar o grito do oprimido
social e político(2).
Boff sofreu processo doutrinário pela Congregação para a doutrina da fé em
1984, ex-Santo Ofício em Roma em razão de suas teses ligadas à Teologia da
Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder", sendo submetido em
1985 à condenação de um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de suas funções
editoriais e de magistério no campo religioso; sendo suspensa em 1986. No
entanto, tinha que submeter, todos as suas obras à censura prévia da Igreja(2).
Em 1993, como conseqüência do cerceamento de liberdade de expressão pelo
Vaticano, renunciou as suas atividades de padre e se autopromoveu ao estado de
leigo, continuando como teólogo da libertação, escritor, professor, orador,
conferencista em várias regiões do Brasil e do exterior; e atuando em
movimentos sociais, a exemplo do movimento dos sem terra(2).
Por tais contribuições é considerado como advogado dos oprimidos em qualquer
parte do mundo. É uma pessoa voltada à essência humana, aberto aos novos
paradigmas, para a possibilidade de crescimento humano, social e ecológico.
4. PRODUÇÃO CIENTÍFICA DE BOFF RELACIONADA AO CUIDADO
Diante da vasta produção literária de Boff, buscamos desvelar aqueles escritos
que identificamos ter convergência com a Enfermagem, esta compreendida no
aspecto ontológico e epistemológico, visando as unidades de significados
reunidas na Profissão e na observância das contribuições das obras de Boff.
Outrossim, consideramos importante enfatizar que buscamos destacar aquelas
obras que acreditamos valorizar o cuidado e que sintonizam com o cuidar de
Enfermagem, conforme apresentamos no quadro abaixo.
Quadro_1
A partir deste, evidenciamos a significativa contribuição de suas obras para a
Enfermagem, ainda a serem (re) descobertas, ao nosso ver, por muitos
profissionais desta área. Tal afirmação deve-se ao fato de um trabalho
minucioso de pesquisa que realizamos sobre publicações na área de Enfermagem,
observamos que muito pouco das obras de Boff são citadas. Essa constatação nos
levou a refletir se o fatodeBoff ter uma fundamentação "forte" na teologia
seria o motivo da "pouca" citação de sua obra na enfermagem? Se assim o for, é
um pesar, pois enquanto profissionais de enfermagem cuidadores, precisamos
aprender a transcender e não se fechar ou tomar uma única direção e sim, estar
aberto às possibilidades de autotranscendência.
Não é nossa intenção gerar conflitos, mas despertar reflexões sobre o cuidado.
Observamos neste "vasculhar" nos trabalhos de Enfermagem que, dentre tantas
outras obras citadas, uma aparece com muita freqüência, Ser e Tempode Martin
Heidegger, a fenomenologia ontológica-hermenêutica, a obra mais importante
deste pensador; será o fato de tratar-se de um filosofo e não de um teólogo?
Heidegger entendia o homem como aquele em que a essência é ex-sistir, é
acontecer é estar fora da realidade e em direção à possibilidade. A linha
Heideggeriana tem auxiliado a produção de conhecimento em Enfermagem, visto sua
forma diferenciada de olhar o outro.
É importante resgatar quais obras de Boff, de forma singular, convergem com o
pensamento fenomenológico e aqui destacamos a obra Teologia da Libertação.
Assim, este pode ser um chamado para os profissionais de enfermagem
vislumbrarem novas "re" descobertas, conhecendo novos caminhos,
transversalizando com os já conhecidos. Desta forma, dentre as obras do autor,
destacamos o livro "Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra", que
acreditamos contribuir muito para o cuidado.
5. O SABER CUIDAR, A ÉTICA DO HUMANO E A COMPAIXÃO PELA TERRA: NOSSAS
PERCEPÇÕES
Ao remetermo-nos a história da Enfermagem, encontramos Florence Nightgale,
nossa Dama da Lâmpada,que refere-se ao zelo e ao cuidado para com os enfermos
da época da Guerra da Criméia, há dois séculos atrás, quando a mesma cuidava
dia e noite dos feridos da guerra.
Neste sentido, não pretende-se trazer uma retrospectiva do período de Florence,
mas sim realizar uma análise crítica e reflexiva sobre as ações de cuidado na
Enfermagem, à luz do livro de Boff (1999), "Saber cuidar: Ética do Humano-
Compaixão pela Terra". Dentre as obras listadas, buscamos a partir desta,
"inquietar" os profissionais de Enfermagem para os escritos de Boff, a quem
consideramos um brilhante escritor humanista. E a Enfermagem, profissão
comprometida com o cuidado definida como uma arte que, como tal, requer tão
exclusiva devoção, tão duro preparo, como qualquer trabalho com a tela inerte
ou com o mármore frio, comparado com o trabalhar com o organismo vivo... o
templo do espírito de Deus? Ela é uma das belas artes. Eu tenho dito, a mais
bela das artes(4).
Este é o conceito que acreditamos ser mais difundido na Enfermagem, e é assim,
portanto, que nós enfermeiras nos percebemos enquanto cuidadoras, buscando a
concretude do saber cuidar, envolvendo um dinamismo frente às novas tecnologias
do cuidado para se colocar aberto aos novos paradigmas e se perceber como ser
dialético, num mundo de constantes mudanças onde o exercício do cuidar deve
considerar o estado permanente de desenvolvimento pessoal, de transformações e
de vir-a-ser, uma autocompreensão ontológica pré-reflexiva para facilitar a
compreensão/reflexão epistemológica.
Retomamos Boff, quando nos chama a atenção para refletirmos sobre a sociedade
contemporânea, do conhecimento e da comunicação. Neste sentido, questionamos
sobre como estamos nos relacionando com nosso semelhante. Em sua obra,
inicialmente o autor faz uma alusão ao Tamagochi, um bichinho virtual que
requer cuidados, mesmo que mediante o apertar de um botão. Estranhamente hoje
estamos muito adaptados ao "apertar de um botão". O ser humano, para proteger-
se do mundo que o rodeia e até de si mesmo, de seus anseios, medos e outros
sentimentos, tem esquecido da beleza das coisas simples(5).
Na década de 50 do século passado, a televisão era acesso de poucos e muitos
nem conheciam o aparelho de "apertar o botão" e ver o mundo uma caixa". Nesta
época, as pessoas se reuniam na sala de estar para conversar, trocar idéias e
conviver com aqueles de seu cotidiano. As pessoas se olhavam, riam umas para as
outras, sonhavam com o progresso e conversavam. E o que temos hoje? Pessoas que
se reúnem, talvez na mesma sala de estar, porém sempre com pedidos de silêncio
para que todos possam assistir a televisão e o noticiário, que em mais de 50%,
com cenas de morte, estupro, roubos, entre outros.
Acreditamos na força positiva da televisão e sua relação com o mundo
globalizado. Porém, pensar que o ser humano tem se esquecido de formas singelas
de cuidado, gera certo grau de desconforto, porque o ser humano vai além de si
mesmo e deve estar aberto para o mundo(6).
Assim, necessitamos que os nossos pés sintam mais o macio da grama e as nossas
mãos precisampegar mais na terra escura e úmida, pois o mundo virtual criou um
novo habitat para o ser humano, caracterizado pelo encapsulamento sobre si
mesmo e pela falta do toque, do tato e do contato humano(5).
Tentamos, enquanto enfermeiras comprometidas com a ética e compaixão pelo
humano, nos aproximar das pessoas através das formas diferenciadas e
humanizadas do cuidado, embora, ao mesmo tempo, "cuidamos" para não nos
envolvermos demais e sermos poupadas. Então qual a essência do cuidado?
O cuidadoé mais do que um ato singular ou uma virtude ao lado das outras. É um
modo de ser, isto é, a forma como a pessoa humana se estrutura e se realiza no
mundo com os outros. Melhor ainda: é um modo de ser-no-mundo que funda as
relações que se estabelecem com todas as coisas(5).
Assim, ao falarmos sobre o processo de cuidado, nos remetemos, inicialmente a
questões tais como, estamos nos cuidando? E do outro, cuidamos preocupadas com
as questões que envolvem a pessoa cuidada, seu contexto e, sobretudo, os
aspectos que tangenciam sobre o ser-com-no-mundo? O que estamos fazendo para a
melhoria das condições do cuidado hoje? Se eu não me cuido, posso cuidar do
outro? O que é cuidado?
Saber cuidar implica aprender a cuidar de si e do outro, tendo sempre noção de
nossa realidade, possibilidades e limitações. Antes de sonhar eternamente com
um mundo por vir, sonhemos com uma sociedade onde os valores se estruturem e se
construam ao redor do cuidado com as pessoas, sobretudo, considerando as
diferentes culturas, saberes, idéias; com o planeta em que vivemos e com as
questões que envolvem este viver em relação de cuidado uns com os outros. Então
o que isso tem a ver com as ações de Enfermagem?
Diríamos, ancoradas em Boff, que estamos vivendo uma crise generalizada, onde o
descuido, o descaso e o abandono são seus sintomas mais dolorosos. Vemos hoje o
descuido com as crianças do planeta, com os marginalizados, flagelados pela
fome crônica e pela tribulação de "mil doenças", que já haviam sido erradicadas
que, em decorrência do grande aumento populacional global, voltam com toda a
sua força. As pessoas atualmente estão muitosozinhas, egoístas, medrosas e o
que é pior, enterrando seus sonhos.
Como profissionais de Enfermagem, podemos tentar modificar esta realidade, ou
contribuir para que a essência do cuidado humano, enquanto sensibilidade,
ciência e arte de Enfermagem, impere e o descuido para com o ser humano seja
revisto a fim de obter melhoria da qualidade de vida, com ética e dignidade,
neste espaço planetário em que vivemos.
A Enfermagem tem no cuidado o seu foco central de ação. A auto-responsabilidade
constitui o modo como o ser humano vive a sua totalidade. Neste sentido, o
cuidado de enfermagem implica em auxiliar as pessoas a buscarem um caminho que
lhes dêem o sentido do cuidado de si através da compreensão de que a vida é
repleta de sentidos, e que, a partir dessa compreensão, possam transcender
dentro de uma concepção holística de ser-no-mundo-com-o-mundo, cuidando e se
cuidando. A Enfermagem é entendida, ainda, como a arte de criar impulsos na
direção do prazer, fazendo com que as pessoas prolonguem ourenovem as formas de
ser e sentir-se saudável, através do cuidado de si.
Com o objetivo de gerar estes impulsos, o cuidado é entendido como o modo de
ser essencial, ou seja, é uma maneira do próprio ser estruturar-se e dar-se a
conhecer. O cuidado faz parte da constituição do ser humano, pois o modo de ser
cuidado o revela. Sem o cuidado ele deixa de ser humano.
6. QUESTÃO EPISTEMOLÓGICA E ONTOLÓGICA DO CUIDADO SEGUNDO BOFF
Ao ler Saber Cuidar,percebemos que o autor aponta duas dimensões para o cuidado
na perspectiva macro, expressando preocupação ecológica de preservação do
planeta; e micro, nos remetendo ao cuidado entre os seres humanos, tendo a ver
com o cuidado em saúde, revelando forte contribuição para a Enfermagem.
O mais importante para Boff não é se o cuidado é macro ou micro, mas sim que o
cuidado é visto para além da atitude e de atos dos seres humanos; o cuidado
está antes das atitudes humanas, e, portanto está em todas as situações e
ações, "representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e
de envolvimento afetivo com o outro"(5).
Esta forma de ver o ser humano imbuído do cuidado enquanto realização, que não
se prende a espaço ou tempo, é que desenvolve o processo existencial, tem sua
matriz teórico-epistemológica especialmente na abordagem fenomenológica
existencial de Heidegger em sua obra Ser e Tempo, onde este discorre acerca da
relevância do cuidado. Para este autor o cuidado é a raiz primeira do ser
humano antes que este faça qualquer coisa, e se fizer, esta coisa vem
acompanhada de cuidado; constituindo uma dimensão ontológica, um modo-de-ser
que revela a maneira concreta como é o ser humano(5).
A dimensão ontológica do cuidado em Boff perpassa por uma questão antropológica
que inquieta os seres humanos desde os tempos antigos a qual envolve o
significado do ser humano.Tanto a pergunta quanto à resposta a esta questão
varia conforme a visão de mundo de cada um, bem como de sua formação acadêmica,
social e vivencial. Na tentativa de compreender a concepção ontológica de
cuidado de Boff, encontramos respaldo naconcepção de Heidegger e outros
fenomenólogos.
Considerando o cuidado entre os seres humanos, a partir de suas relações e
interações, os situamos enquanto existentes, isto é, enquanto entes. O ente do
ponto de vista fenomenológico é o existente, o que se mostra ou o que aparece,
ou ainda o que se dá a conhecer. Quando Boff conceitua o cuidado, ele está
construindo um saber sobre o cuidado, buscando explicitar através de códigos
lingüísticos o ser do ente; o ser seria o que se diz do ente.
O ente, na abordagem de Boff, contém em sua raiz primeira, o cuidado. Assim, o
cuidado existe antes do agir humano, estando presente em todas as coisas e
situações dos seres humanos. O cuidado é uma atitude que gera múltiplos atos e
expressam a atitude de fundo, que é a essência ou cuidado em si(5).
Na perspectiva heideggeriana o ser entre nascimento e morte é a cotidianidade,
e, portanto, ser é tempo, ser é pre-sença, o fim do ser-no-mundo é a morte.
"Esse fim pertence ao poder-ser, isto é a existência, limita e determina a
totalidade cada vez possível da pre-sença. ..., a temporalidade constitui o
sentido originário da pre-sença, onde está em jogo o seu próprio ser"(3).
No exercício do cuidar em enfermagem, seja individual ou coletivo, permeiam
eventos de relações entre modos de ser no mundo, nas quais seres que cuidam e
seres cuidados se entrelaçam numa dinâmica intersubjetiva recíproca e até
imperceptiva. Nesse ir e vir do cuidado, pessoas (entes que cuidam) emprestam
percepções, emoções, sentimentos, valores e saberes ao fenômeno (o que aparece,
pessoa que está sendo cuidada) para fazer ver a partir de si mesmo o que se é
em si mesmo.
O ser humano é entendido como um ser-no-mundo-com-outrose estemodo-de-ser é o
cuidado que, enquanto essência humana, se expressa em eventos do aqui e agora
que retém vivências passadas e se projeta para o futuro, numa relação dinâmica
entre os vários atos de cuidar e a atitude de fundo, a qual aparece permeada de
elementos constitutivos da história da vida, imbuídos do aspecto psicossocial e
cultural, incluindo implementos acadêmicos. Cada vez que uma pessoa se empenha
na função de cuidar, mostra a si mesma, satisfazendo uma necessidade sua e do
outro, projetando-se para o futuro na perspectiva de sua qualidade de vida e do
outro, em um constante movimento em busca da realização existencial que é o
exercício do cuidado.
O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim.
Passo então a dedicar-me a ele; disponho-me a participar de seu destino, de
suas buscas, de seus sofrimentos e de seus sucessos, enfim, de sua vida(5).
7. REFLEXÕES FINAIS
Boff nos faz atentar para a ausculta de nossa natureza essencial, o cuidado,
sendo um modo-de-ser essencial do ser humano além de nos fazer pensar em
estratégias para uma nova prática de cuidado macro e o micro a partir de uma
conversão de nossos hábitos cotidianos e políticos, privados e públicos,
culturais e espirituais no sentido do respeito e preservação de tudo que existe
e vive.
Aponta algumas alternativas sobre o paradigma de convivialidade que propõe a
espiritualidade como forma de unir, ligar, re-ligar e integrar os seres humanos
entre si e com o mundo; a moral, nascendo de uma redefinição do ser humano e de
sua missão no contexto da aliança de paz e sinergia com a terra e seus
habitantes; mais educação, envolvendo formação e informação, através da
socialização do conhecimento, aumento da massa crítica da humanidade e
democratização dos processos de empoderamento dos cidadãos; conecção com o
todo, partindo da percepção da unidade de todas as coisas e da construção de um
novo estado de consciência para uma atitude madura e de sabedoria que ajudará
na busca de outros caminhos.
Saber cuidar implica em sentimentos éticos do ser humano para com o meio onde
se está inserido, ou seja, o meio ambiente, a Terra. Sabemos que o ser humano
não vive numa sesta biológica com a natureza. Pelo contrário, ele inter-age com
ela a fim de tornar a sua vida mais cômoda, fazendo isso através do trabalho,
mesmo que, em algumas situações, este torne-se sinônimo de descuidado. Isso é
visto, embora não de forma efetiva, ao tentarmos combinar, de forma
desafiadora, trabalho com cuidado(5).
Neste sentido, não se vê outra coisa no ser humano senão sua força de trabalho
cuidado, a ser vendida e explorada. Perdeu-se a visão do ser humano como ser de
relações ilimitadas, ser de criatividade, ternura, cuidado, espiritualidade.
Com base no acima exposto, podemos refletir sobre que ações de cuidado de si e
do outro estamos vivenciando. Refletir sobre o cuidado nos faz perceber que
cuidar das coisas implica ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las,
respeitá-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com,
auscultar-lhes o ritmo e afinar-se com ele. Dessa forma, o ser humano consegue
viver a experiência fundamental do valor, daquilo que tem importância e
definitivamente conta.
Tudo começa com o sentimento, este que nos faz sensíveis ao que está a nossa
volta, que nos faz gostar ou desgostar. É o sentimento que nos une às coisas.
Se formos capazes de sentir, podemosagir em prol da melhoria do eu e do outro.
Nas ações de cuidado, alguns sentimentos são fundamentais, tais como: A
ternura, que ésinônimo de cuidado essencial e afeto que devotamos às pessoas e
o cuidado que aplicamos às situações existenciais, ela emerge do próprio ato de
existir no mundo com os outros. O ato de ternura irrompe quando o ser humano se
descentra de si mesmo, sai na direção do outro, sente o outro como outro,
participa de sua existência e deixa-se tocar pela sua própria história de vida
(6).
Outro sentimento é a carícia que é, fundamentalmente, a mão. A mão que
acaricia, toca, afaga, segura, estabelece relação, acalenta e traz quietude.
A cordialidade e a convivialidade são também fundamentais no ato de cuidar,
visto que estreita as relações entre os seres humanos. Outrossim, a compaixão é
uma corroboração do cuidado não menos importante que as anteriormente. Talvez
uma das mais difíceis de sentir, sendo algumas vezes, confundida com pena. A
compaixão é a capacidade de compartilhar a paixão com o outro. Trata-se de sair
do seu próprio círculo e entrar no universo do outro em sinergia.
Por fim, amor, ternura, carícia, cordialidade, convivialidade e compaixão que
garantem a humanidade ao ser humano. Se estivermos imbuídos destes sentimentos
enquanto enfermeiras e seres humanos, cremos que o mundo estará mais iluminado
e mais sedento de vida do que se cultivarmos sentimentos pequenos de descaso e
descuido consigo e com o próximo.
A existência é um ciclo nascer-crescer-reproduzir-morrer, ou seja, é umprocesso
de crescimento, trabalhando o desapego e entendendo que somos do mundo e ao
mundo retornaremos.
Portanto, é importante salientar que o descuidado e a negação do cuidado
essencial podem ser considerados como patologias do cuidado. O ser humano não
vive sem cuidado - essência da vida humana. As ressonâncias do cuidado são sua
manifestação concreta nas várias vertebrações da existência e o seu alimento
indispensável.