Educação em Saúde: uma experiência transformadora
RELATO DE EXPERIÊNCIA/EXPERIENCE REPORT/RELATO DE EXPERIENCIA
Educação em Saúde: uma experiência transformadora
Health education: a transforming experience
Educación en salud: una experiencia de cambio
Hadelândia Milon de OliveiraI; Maria Jacirema Ferreira GonçalvesII
IEnfermeira. Hospital Universitário Getúlio Vargas
IIEnfermeira. Mestre e docente da Escola de Enfermagem de Manaus. Universidade
Federal do Amazonas
E-mail: mjacir@uol.com.br
1 Introdução
A educação em saúde, pela sua magnitude, deve ser entendida como uma importante
vertente à prevenção, e que na prática deve estar preocupada com a melhoria das
condições de vida e de saúde das populações.
Para alcançar um nível adequado de saúde, as pessoas precisam saber identificar
e satisfazer suas necessidades básicas. Devem ser capazes de adotar mudanças de
comportamentos, práticas e atitudes, além de dispor dos meios necessários à
operacionalização dessas mudanças. Neste sentido a educação em saúde significa
contribuir para que as pessoas adquiram autonomia para identificar e utilizar
as formas e os meios para preservar e melhorar a sua vida(1).
Considerando que a educação em saúde está relacionadaà aprendizagem, desenhada
para alcançar a saúde, torna-se necessário que esta seja voltada a atender a
população de acordo com sua realidade. Isto porque a educação em saúde deve
provocar conflito nos indivíduos, criando oportunidade da pessoa pensar e
repensar a sua cultura, e ele próprio transformar a sua realidade.
Geralmente, a educação em saúde é realizada por meio de aconselhamentos
interpessoais ou impessoais, os primeiros realizados em consultórios, escolas
de forma mais direta e próxima do indivíduo, e os aconselhamentos impessoais
são os que ocorrem utilizando-se a mídia, com o objetivo de atingir grande
número de pessoas. Ambos visam o mesmo objetivo que é levar conhecimento, na
intenção de provocar mudança de atitude(2).
A educação em saúde em nível nacional tem passado por constantes mudanças.
Primeiramente denominada educação sanitária, esta se limitava a atividades
voltadas para a publicação de livros, folhetos, catálogos os quais eram
distribuídos em empresas e escolas, porém era ineficiente já que não era capaz
de alcançar todas as camadas da sociedade. Por volta da década de 70 a então
denominada educação sanitária passa a ser educação para saúde, sendo importante
ressaltar que mais que uma mudança terminológica, começava a partir de então um
novo conceito na promoção da saúde com o objetivo de introduzir os programas de
saúde desenvolvidos pelo Ministério e pelas Secretarias Estaduais de Saúde(3).
Até a década de 70 a educação em saúde no Brasil foi basicamente uma iniciativa
das elites políticas e econômicas, voltada para seus próprios interesses.
Depois, com o regime militar, a política de saúde voltava-se para a expansão de
serviços médicos privados, principalmente hospitais, portanto, as ações
educativas não tinham espaço. Com a conquista da democracia política e a
construção do Sistema Único de Saúde na década de 1980, os movimentos sociais
passaram a lutar por mudanças mais globais nas políticas sociais e de saúde(4).
Então, surge a educação em saúde como um instrumento de construção da
participação popular nos serviços de saúde e, ao mesmo tempo, de aprofundamento
da intervenção da ciência na vida cotidiano das famílias e sociedades(4).
O desafio principal da educação em Saúde é trazer abertura para debates no
âmbito governamental, com os profissionais e a população. Com isso terá um
avanço apontando para a construção e difusão do saber e do conhecimento visando
à melhoria na qualidade de vida(1).
A prática da Educação em Saúde requer do profissional de saúde, e
principalmente de enfermagem, por sua proximidade com esta prática, uma análise
crítica da sua atuação, bem como uma reflexão de seu papel como educador(2).
O enfermeiro desempenha função importante para a população, pois participa de
programas e atividades de educação em saúde, visando à melhoria da saúde do
indivíduo, da família e da população em geral. Sendo ele um educador está
inserido no contexto que norteia a Educação em Saúde, visto que é necessário
orientar a população, e por que não dizer, mostrar alternativas para que esta
tome atitudes que lhe proporcione saúde em seu sentido mais amplo(2).
O educador é o profissional que usa as palavras e gestos como instrumento de
trabalho nesta luta coletiva(4). A educação em saúde engloba todas as ações de
saúde, deve estar inserida na prática diária do Enfermeiro.
Este artigo descreve a experiência positiva e transformadora da prática da
educação em saúde, destacando os resultados produzidos tanto nos educadores
quanto nas pessoas que participaram do processo educativo. O desenvolvimento
das atividades educativas foi baseado na metodologia para assistência de
enfermagem em saúde coletiva descrita por Queiroz & Egry(6).
2 Aspectos Metodológicos
Esta é a descrição de um relato de experiência, baseado na metodologia para a
Assistência de Enfermagem em Saúde coletiva, fundamentada no materialismo
histórico e dialético(6), cujo método ocorre em cinco fases, e para fins
didáticos buscou-se seguir cada fase, sendo elas:
2.1 Captação para a realidade objetiva
Aatividade educativa foi realizada em uma escola pública estadual no município
de Manacapuru-Amazonas, durante a disciplina Estágio Curricular II, módulo
internato rural do curso de Enfermagem em junho de 2003.
Inicialmente foi realizada visita para reconhecimento e captação da realidade
objetiva escola, onde em diálogo com a diretora, houve a sugestão dos seguintes
temas para serem abordados aos estudantes: Doenças Sexualmente Transmissíveis
(DST), planejamento familiar, palestras para adolescentes grávidas e higiene
pessoal. Considerando o exíguo período de estágio, foram desenvolvidos apenas
os temas de DST e higiene pessoal.
As atividades educativas foram realizadas com alunos do ensino fundamental e
médio, com idades variando de 12 a 20 anos, de ambos os sexos nos turnos da
manhã e tarde.
2.2 Interpretação da realidade objetiva
Verificou-se a necessidade de compartilhar com os alunos as questões
relacionadas a higiene pessoal, pois foram observadas precárias condições de
higiene dos alunos, e sabe-se que a higiene corporal está diretamente ligada ao
processo saúde-doença.
Sobre DST percebeu-se a necessidade de esclarecer aspectos importantes
pertinentes a este assunto, por se tratar de uma clientela jovem e que
demonstrava baixo nível de informação sobre o assunto, fato que foi confirmado
pela diretora da escola, em conversas com os alunos e por ser verificado que no
município há muitos casos de DST em adolescentes.
De posse dessas informações, seguiu-se a elaboração do plano de atividades
educativas contendo assunto, objetivos, conteúdo, metodologia, recursos audio-
visuais e avaliação da aprendizagem.
2.3 Construção do projeto de intervenção na realidade objetiva
A priori, procurou-se estabelecer com os estudantes uma relação empática, por
meio de conversas informais, visando aproximação para manter uma relação de
confiança.
As atividades educativas ocorreram separando-se estudantes do ensino
fundamental e médio, devido às diferenças etárias. utilizando-se os seguintes
materiais didáticos: Palestra sobre DST - álbum seriado, prótese (pênis),
preservativo masculino (camisinha), quadro negro; e para higiene, cartazes e
quadro negro.
Foram elaboradas estratégias para que a atividade fosse dinâmica e envolvente,
onde era oportunizado o tempo para que houvesse a participação de todos,
estreitando o elo entre profissional e clientela, com o intuito de alcançar o
objetivo proposto.
2.4 Intervenção na realidade objetiva
As atividades educativas foram ministradas no auditório da escola, onde era
ocupado por três turmas de cada vez, cuja atividade foi repetida várias vezes.
Nesta fase foi observado um interesse significativo por parte dos alunos, os
quais expressavam suas dúvidas e curiosidades sobre o tema abordado, ocorrendo
participação tanto dos alunos quanto dos professores presentes.
Foi demonstrado o modo correto da colocação do preservativo masculino, com a
participação dos alunos. Este foi um momento de muita descontração, já que
estava sendo utilizada uma prótese de pênis.
Quanto a higiene corporal, foi surpreendente que diversas ações explicadas
pareciam ser desconhecidas pelos estudantes.
2.5 Reinterpretação da realidade objetiva
Os objetivos propostos foram alcançados de maneira satisfatória, de acordo com
os critérios de avaliação propostos, pois houve um interesse mútuo em que a
realidade objetiva encontrada fosse transformada, ou seja, houve uma mudança de
atitude por parte dos alunos e da escola com relação ao tema abordado.
Realizou-se uma avaliação junto à direção da escola sobre o impacto que a
atividade proporcionou nos alunos, e foram discutidas propostas para que todos
os alunos, professores e pais tivessem a oportunidade de participar das
atividades educativas. Portanto, descreve-se a seguir, os resultados e
discussão desse processo.
3 A repercussão do processo educativo entre os indivíduos e profissionais de
saúde
Com relação à palestra de DST, aconteceu muito emocionante após atividade, pois
cerca de 73 alunas procuraram a direção da escola porque queriam auxílio
médico, achando que poderiam estar com alguma DST.
Houve então uma campanha na escola, os pais foram avisados sobre a palestra e
muitas mães pediram para que a escola conseguisse atendimento para a coleta de
citologia de colo de útero.
Foi gratificante ouvir a diretora falar sobre 02 meninas, uma de 13 e outra de
15 anos, ambas profissionais do sexo, que queriam não só o tratamento, mas
queriam mudar de vida. Portanto, só este fato já compensou a estada e o
trabalho no município de Manacapuru-AM, todo o investimento, tanto financeiro
quanto moral; isso é o que leva à realização profissional. Verificar que as
ações de educação em saúde não são inócuas, mas podem gerar mudanças positivas
e transformadoras como esta revelada.
Compreende-se que os objetivos da Educação em Saúde são de desenvolver nas
pessoas o senso de responsabilidade pela sua própria saúde e pela saúde da
comunidade a qual pertençam e a capacidade de participar da vida comunitária de
uma maneira construtiva. Então é preciso avaliar realmente estes objetivos e se
de fato está trazendo mudança na vida das pessoas.
Um dos pontos para o entendimento da clientela sobre o conteúdo trabalho é a
adequação da linguagem ao contexto cultural desta população, é algo que se
precisa valorizar. Outro ponto relevante dentro deste contexto é a motivação da
clientela em expor suas reais dificuldades para a adoção de ações que reduzam
seus riscos e provoquem mudanças. É importante ter a confiança da população e
isto está inserido no processo comunicativo e isto se dá através de um diálogo
(6).
Uma pesquisa com pacientes glaucomatosos mostra que a eficácia de um programa
de educação eficaz traz mudança de comportamento individual, pois conscientiza
esses clientes sobre a importância do tratamento, aumentando a prevenção da
cegueira. O programa de educação à saúde, realizado de forma contínua e
progressiva, através de tecnologia simples é fundamental para a eficácia no
tratamento e prevenção dos agravos à saúde(7).
Na prática, a educação em saúde constitui apenas uma fração das
atividades técnicas voltadas para a saúde, prendendo-se especialmente
à habilidade de organizar logicamente o componente educativo de
programas que se desenvolvem em quatro diferentes ambientes: escola,
o local de trabalho, o ambiente clínico, em seus diferentes níveis de
atuação e a comunidade entendida como população-alvo(9).
É interessante notar que mesmo sabendo da importância e eficácia da educação em
saúde, na prática ainda não há uma verdadeira avaliação das mudanças causadas
na vida das pessoas envolvidas em todo o processo educativo.
Esta experiência em Manacapuru-Amazonas provou que de fato, a educação em saúde
é essencial para a reflexão e mudança de comportamento na vida dos indivíduos.
Portanto, a educação em saúde precisa ser sistematicamente planejada, pois
proporciona medidas comportamentais para alcançar um em efeito intencional
sobre a própria saúde.
O Enfermeiro, como profissional de saúde precisa ser capaz de identificar os
níveis de suas ações no processo educativo, refletindo a necessidade de se
desvincular da sua prática assistencial, colocando-se como educador justamente
pela ação recíproca da reflexão das pessoas, entendendo que ele não é o dono do
saber e sim um cooperador e partícipe deste processo transformador.