O auxiliar e o técnico de enfermagem: categorias profissionais diferentes e
trabalhos equivalentes
PESQUISA
O auxiliar e o técnico de enfermagem: categorias profissionais diferentes e
trabalhos equivalentes*
Nursing auxiliaries and nursing technicians: different professional categories
and equivalent jobs
El auxiliar de enfermería y el técnico de enfermería: profesionales de
categorías diferentes y trabajos equivalentes
Marina PeduzziI; Maria Luiza AnselmiII
IEnfermeira. Professor Doutor do Departamento de Orientação Profissional da
Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
IIEnfermeira. Professor Associado do Departamento de Enfermagem Geral e
Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São
Paulo
Correspondência
1 Introdução
No campo da organização dos serviços de saúde e de enfermagem, particularmente
no que se refere aos recursos humanos, o trabalho tem sido utilizado como
importante categoria interpretativa(1), tanto na perspectiva macropolítica, da
dinâmica do mercado de trabalho e da força de trabalho, quanto da perspectiva
micropolítica, do cotidiano dos processos de trabalho(2,3) e do trabalho vivo
em ato(4). Assim, os estudos nessas duas vertentes, contribuem para a
compreensão de aspectos relacionados à prática de gerência, gestão e
administração em enfermagem.
Os distintos termos fazem referência a esferas de abrangência que comportam
diferentes níveis de tomada de decisão quanto à organização e controle dos
processos de trabalho, ou seja, a gerência refere-se ao nível local, a gestão
aos níveis centrais de decisão, os formuladores de políticas, e a administração
mais propriamente para as atividades de apoio intermediário, ou ainda como
referência às área de conhecimento(5).
Os conhecimentos gerados pelas investigações sobre o trabalho de enfermagem têm
permitido a compreensão e interpretação tanto da dimensão estrutural, tal como
a divisão do trabalho, o mercado de formação e de utilização de recursos
humanos, os modelos tecnológicos de organização dos serviços, quanto da
dimensão simbólica e das representações sociais, ou seja, a valorização/
desvalorização e a invisibilidade desse trabalho, dentre outros.
Estas duas dimensões estão presentes no cotidiano da gerência de enfermagem, à
medida que seu objeto de intervenção consiste na organização do trabalho e dos
recursos humanos. O processo de trabalho gerencial é exercido particularmente
pelo enfermeiro, que nessa atuação se configura como mediador junto à equipe de
enfermagem e de saúde(6).
O trabalho de enfermagem é realizado por diferentes categorias de
trabalhadores, abrangendo aquelas reconhecidas na legislação profissional e
também os trabalhadores sem qualificação técnica formal e regular, usualmente
denominados atendentes, cujo quantitativo vem decrescendo de forma mais
marcante nos últimos anos com a implantação do PROFAE (Projeto de
Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem).
A cada uma das categorias profissionais (auxiliar de enfermagem, técnico de
enfermagem e enfermeiro) corresponde um processo de formação próprio, que
pressupõe um conjunto distinto de atividades. No entanto, é escassa a
literatura sobre as peculiaridades do trabalho dos agentes de nível médio de
enfermagem, concentrando-se a produção teórica na investigação do processo de
trabalho do enfermeiro ou genericamente da enfermagem.
Com base nestas considerações, o artigo tem como objetivo identificar e
analisar as diferenças entre o trabalho desenvolvido pelos auxiliares de
enfermagem e pelos técnicos de enfermagem.
Quanto ao referencial teórico utilizam-se os estudos do trabalho em saúde e na
enfermagem e a teoria do agir comunicativo. Ambos, de forma articulada,
permitem investigar a relação recíproca entre o trabalho e a interação, ou
seja, a relação entre trabalho, como intervenção técnica dirigida a uma
finalidade e a obtenção de resultados, e a interação, como busca do
entendimento e reconhecimento mútuos e a construção de consensos por meio da
comunicação dos agentes envolvidos.
Na área de enfermagem, os estudos sobre o trabalho iniciam a partir de meados
dos anos 80 e se estendem até a atualidade(7-12).
A partir dos anos 90, as pesquisas pautadas na categoria trabalho, tanto no
campo da saúde quanto na enfermagem, buscam explorar de forma mais direta a
dimensão da subjetividade e da comunicação em saúde. Um dos quadros teóricos
adotados nesta direção, por vários pesquisadores, é a teoria do agir
comunicativo de Jürgen Habermas (13), tanto por constituir uma teoria crítica
da sociedade, quanto pelas possibilidades de aplicação a objetos mais
delimitados, como o objeto tratado neste estudo.
Nesse sentido
Pode-se dizer que, no final dos nos 90, todo um conjunto de questões
novas estabelece um divisor de águas para a reflexão e a pesquisa
centrada no trabalho em saúde. Na dimensão político-social do
trabalho: as questões da qualidade, da informalidade e da
flexibilidade; na questão ética e filosófica: as questões da
integralidade do cuidado e da autonomia do sujeito(1 260).
2 Aspectos metodológicos
A pesquisa foi desenvolvida na modalidade qualitativa em três hospitais no
Estado de São Paulo, considerando a sua diversidade em termos de natureza
jurídica, estrutura e finalidade. Um hospital público de ensino no Município de
São Paulo e dois hospitais do interior do Estado, sendo um privado filantrópico
e outro público estadual.
Em cada um dos três serviços foi selecionada uma unidade de estudo com base na
apreciação da coordenação da área de enfermagem e da direção do serviço, pois
ambos conhecem a dinâmica de funcionamento das unidades e podem indicar as
equipes de trabalho mais integradas.
O hospital público de ensino conta com 308 leitos e selecionou-se como unidade
de estudo a enfermaria pediátrica com 36 leitos e o seguinte quadro de pessoal
de enfermagem: 21 auxiliares de enfermagem, 01 técnico de enfermagem e 05
enfermeiros. O hospital privado filantrópico tem 339 leitos e a unidade
selecionada para estudo foi a maternidade com 55 leitos e um quadro de pessoal
de enfermagem de 35 auxiliares de enfermagem, 07 técnicos de enfermagem 04
enfermeiras. O hospital público estadual dispõe de 180 leitos e a unidade de
estudo foi a terapia intensiva de neonatologia que conta com 6 leitos e 6
auxiliares de enfermagem, 2 técnicos de enfermagem e 03 enfermeiras.
A seleção dos sujeitos da pesquisa em cada unidade foi feita com base nos
seguintes critérios: profissionais que atuam juntos no mesmo turno de trabalho
há pelo menos um ano; diversidade de categorias profissionais, contemplando
auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos; e
entrevista com mais de um profissional de cada uma dessas categorias. Também
foram entrevistados, o coordenador da unidade e o coordenador da área de
enfermagem do hospital. No total foram realizadas trinta e duas entrevistas,
sendo oito na enfermaria pediátrica do hospital público de ensino e doze,
respectivamente na maternidade do hospital privado filantrópico e na unidade de
terapia intensiva do hospital público estadual.
A coleta de informações foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada
por se tratar de técnica que permite captar tanto os significados que os
agentes atribuem à prática e ao trabalho cotidiano que executam, como apreender
a dinâmica de organização do serviço(14-17). As entrevistas foram gravadas e
transcritas, após o consentimento livre e esclarecido dos sujeitos da pesquisa
a
.
O roteiro de entrevista contemplou cinco questões centrais para a pesquisa: a
trajetória profissional do sujeito da pesquisa; o trabalho desenvolvido pelo
entrevistado; o trabalho desenvolvido pelos outros profissionais entrevistados;
a articulação entre as ações executadas pelos diferentes agentes; o trabalho em
equipe, as diferenças percebidas entre o trabalho do auxiliar e do técnico de
enfermagem e a formação ou capacitação que esses agentes requerem.
O processo de análise do material empírico foi realizado segundo a técnica de
impregnação, iniciando com leitura flutuante, seguida da leitura em
profundidade de cada um dos relatos até dominar o todo de um mesmo depoimento
e, por fim, leitura horizontal do conjunto dos relatos, que permite estabelecer
as relações entre os depoimentos, pois é esse sistema de relações que torna
possível as interpretações acerca das representações sociais(16-18).
3 Resultados e Discussão
De acordo com o referencial teórico-metodológico, a caracterização do processo
de trabalho de ambos os agentes da enfermagem será apresentada contemplando as
atividades executadas, pois estas expressam da forma mais evidente os
respectivos trabalhos e as diferenças observadas entre os trabalhos do auxiliar
e do técnico de enfermagem.
A análise das atividades realizadas por auxiliares e técnicos de enfermagem e
de suas relações com o saber que fundamenta as ações e com as atividades dos
demais, enfermeiras e médicos, permite compreender a lógica subjacente às
representações dos sujeitos entrevistados e identificar as características
desse trabalho, ou seja, aspectos marcantes que configuram um certo perfil de
ações e a racionalidade subentendida a este conjunto de atividades (2,3).
3.1 As atividades do auxiliar de enfermagem e do técnico de enfermagem
As atividades variam a depender do serviço em que estão inseridos os auxiliares
e técnicos de enfermagem e do setor em que atuam. Identifica-se, porém, um
conjunto de procedimentos técnicos que caracterizam as atividades rotineiras
desses agentes, tais como verificação de parâmetros vitais, administração de
medicamentos, sondagens (gástrica, vesical), cuidados de higiene e conforto aos
usuários, controle de ingestão e eliminações, coleta de material para exames
laboratoriais e curativos.
A orientação aos usuários consiste em ação educativa relevante no trabalho
desenvolvido por auxiliares e técnicos de enfermagem nos três serviços
estudados, sobretudo para o estímulo ao aleitamento materno e outros cuidados
com o recém nascido, bem como cuidados com a gestante e a puérpera. Além da
orientação, também merece destaque a atividade de observação, por meio da qual
esses trabalhadores são capazes de perceber aspectos das necessidades de saúde
que usualmente escapam dos demais profissionais da equipe.
Nos depoimentos obtidos junto às equipes da maternidade e da UTI neonatal,
pode-se observar a abrangência das atividades realizadas por auxiliares e
técnicos de enfermagem, que abarcam desde ações típicas destas categorias tais
como controle de parâmetros vitais e medicação, até ações de avaliação de
gestante, puérpera e recém-nascido, bem como a execução de procedimentos
complexos como gasometria arterial, aspiração de vias aéreas, sondagem
nasogátrica e troca de fixação de cânula endotraqueal.
Segundo a Lei do Exercício Profissional de Enfermagem(19) os auxiliares e
técnicos de enfermagem não estão autorizados a executar as ações de avaliação
da gestante no pré-parto e a realizar os procedimentos referidos nas duas
unidades acima referidas. Entretanto, esta situação também pode ser encontrada
em outros estabelecimentos de saúde do país, nos quais esses agentes
efetivamente fazem avaliações de pacientes e intervenções invasivas que expõem
os usuários a risco e potenciais danos, tal como identificado no estudo do
Perfil das Ações do Técnico de Enfermagem no Brasil(20).
Por outro lado, no hospital de ensino os auxiliares e técnicos de enfermagem
realizam apenas o conjunto de procedimentos reconhecidos como rotineiros e
próprios desses profissionais, ou seja, há uma delimitação mais precisa das
suas atividades, diferenciando-as daquelas que são executadas por enfermeiros e
por médicos.
Foram identificadas diferenças marcantes na estrutura organizacional dos três
serviços pesquisados, sobretudo no que se refere à educação continuada e ao
quadro de pessoal que mostra uma maior adequação entre o existente e o
projetado na enfermaria pediátrica do hospital de ensino. Entende-se que este
aspecto permite uma divisão e organização do trabalho de enfermagem mais
próxima do que é preconizado pela literatura e pelas resoluções dos órgãos de
fiscalização do exercício profissional.
O amplo espectro de ações executadas por auxiliares e técnicos de enfermagem
evidenciada nesta pesquisa e em outros estudos (20), introduz a necessidade de
uma discussão mais ampla sobre a esfera de atuação desses profissionais. Nesse
sentido, entende-se que não cabe nenhuma crítica em particular a estes ou
outros estabelecimentos de saúde, visto que se trata de prática vigente no
país. Cabe, sim, compreender, o que representa e significa a situação
identificada por referência ao modelo de atenção à saúde e à qualidade dos
serviços prestados à população.
Também merecem discussão os aspectos de regulamentação profissional, que
contemplam uma estrutura muito especial de regulação pública, constituída por
leis, instituições de fiscalização e controle do exercício. Países como Canadá,
Estados Unidos e da Comunidade Econômica Européia, nas últimas décadas, vêm
desenvolvendo esforços para mudar seus sistemas de regulação profissional na
área da saúde, avançando na direção de um novo paradigma no qual o interesse
público figura como o princípio inarredável da regulamentação profissional para
a proteção da clientela contra efeitos prejudiciais da prática das profissões
(21). Sob esse prisma, os sistemas devem exibir a maior flexibilidade possível,
tendo em vista atingir os objetivos do sistema de saúde e proteger o bem-estar
do público, deixando de priorizar os interesses das corporações profissionais e
enfocando o debate na defesa do interesse coletivo.
3.2 Diferenças entre os trabalhos realizados pelo auxiliar de enfermagem e pelo
técnico de enfermagem
Nos três serviços estudados, a descrição das atividades permite observar que se
trata do mesmo trabalho, não há distinção nas ações ou intervenções que ambos
os profissionais executam. Todos os auxiliares e técnicos de enfermagem
entrevistados referiram de forma clara e objetiva que não identificam qualquer
diferença efetiva nos trabalhos que realizam.
Os médicos referem desconhecer as possíveis diferenças entre as atividades e
responsabilidades pertinentes a cada uma dessas categorias profissionais e não
identificam qualquer distinção no desempenho de ambas. Contudo, um dos
depoimentos assinala que tanto os técnicos de enfermagem como os auxiliares que
estão fazendo a complementação para técnico mostram-se mais curiosos e
interessados no aperfeiçoamento de seus conhecimentos.
Nos relatos das enfermeiras também não se identificam distinções entre o
trabalho desenvolvido pelo auxiliar e técnico de enfermagem, entretanto em
alguns desses relatos observa-se uma preocupação com a ausência de critérios ou
parâmetros que permitam diferenciar ambos os trabalhos de modo a atender as
normas previstas na regulação profissional.
Alguns depoimentos de enfermeiras e de médicos mostram uma expressiva
valorização da experiência prática de trabalho como critério de desempenho
profissional dos auxiliares e técnicos, chegando a ressaltar que alguns
auxiliares com muitos anos de experiência são melhores do que os técnicos que
estão se formando.
A experiência profissional também aparece com destaque nos depoimentos dos
próprios auxiliares e técnicos de enfermagem, que tendem a valorizá-la para o
bom desempenho. Na enfermaria pediátrica, um dos auxiliares de enfermagem
entrevistado diz que a experiência de trabalho vale mais que a qualificação
técnica, o que mostra uma contradição entre qualificação profissional formal e
a experiência prática na área de enfermagem. Entende-se que não se trata de um
equívoco por parte do entrevistado, à medida que traduz a representação social
vigente sobre a enfermagem, que não distingue os diferentes trabalhadores da
área com suas respectivas qualificações técnicas (educação profissional com
ensino fundamental para o auxiliar de enfermagem, educação profissional com
ensino médio para o técnico de enfermagem e ensino superior para o enfermeiro).
Segundo um dos enfermeiros entrevistados na maternidade, embora auxiliares e
técnicos realizem as mesmas atividades e não existam diferenças estabelecidas
entre seus trabalhos, estão sendo introduzidas mudanças na organização do
trabalho da enfermagem nos últimos cinco anos que expressam o reconhecimento da
necessidade de qualificação técnica para exercê-lo e da maior potência do
técnico de enfermagem em termos de autonomia e visão de conjunto das
necessidades dos usuários e da unidade. As mudanças introduzidas foram no
sentido de excluir o atendente do cuidado direto aos usuários e viabilizar sua
profissionalização como auxiliares de enfermagem, além da alocação preferencial
dos técnicos de enfermagem no período noturno, no qual não há enfermeiro na
unidade, justamente pela premissa de que estes podem ou poderiam, segundo sua
qualificação técnica, ter uma visão de conjunto da unidade e maior autonomia
para detectar intercorrências e acionar o médico ou o enfermeiro, se
necessário.
A ausência de diferença entre o trabalho do auxiliar e do técnico de enfermagem
não é exclusiva das três unidades de estudo, pois também foi observada em
pesquisa de abrangência nacional desenvolvida pela Associação Brasileira de
Enfermagem sobre o Perfil de Ações do Técnico de Enfermagem no Brasil(20).
A referida investigação mostra que, embora a formação do técnico de enfermagem
esteja regulamentada, no país, desde 1966, ocorre expansão de cursos e dos
respectivos egressos, sem a criação de postos de trabalho correspondentes.
Assim sendo, observa-se nos serviços de saúde públicos e privados,
significativa contratação de técnicos de enfermagem como auxiliares de
enfermagem, desconsiderando sua formação. Dos 101 técnicos de enfermagem que
participaram como sujeitos da referida pesquisa, 31 deles estavam contratados
como auxiliares de enfermagem e 01 como auxiliar de farmácia, portanto 32
(40,5%) estavam contratados em outra categoria. A pesquisa evidenciou um
consenso tanto entre os sujeitos entrevistados por meio de grupos focais
(técnicos de enfermagem, enfermeiras e gerentes dos serviços de saúde) quanto
no processo de validação dos resultados (organizações e instituições de
enfermagem), segundo o qual não há delimitação de ações realizadas por técnicos
de enfermagem e auxiliares de enfermagem(20).
A pesquisa assinala ainda uma imprecisão conceitual sobre a esfera de
competências do técnico de enfermagem, à medida que mostra uma indefinição
acerca das "atividades que faz", as "atividades que faz e não deveria fazer" e,
por fim, as "atividades que não faz, mas poderia e deveria fazer" e analisa que
tal situação de trabalho penaliza econômica, ética e socialmente o profissional
(20).
Tênues diferenças podem ser percebidas entre auxiliares e técnicos de
enfermagem se considerado o turno de trabalho, pois tanto na maternidade quanto
na UTI neonatal, no noturno dá-se preferência à alocação de técnicos. A
enfermeira insiste que as diferenças estão definidas pelos setores de trabalho
e não pelo grau de qualificação técnica do agente da enfermagem. As diferenças
de atividades realizadas por auxiliares e técnicos de enfermagem, quando
existem, estão relacionadas ao turno de trabalho; às normas e rotinas da
instituição; às ordens ou solicitações dos médicos que atendem o paciente ou do
médico de plantão; ao quadro de pessoal de enfermagem, sobretudo o quantitativo
de trabalhadores em cada categoria(20). Portanto, trata-se de diferenças
circunstanciais ou do contexto de trabalho e não da educação profissional do
respectivo agente.
Vale ressaltar que a equivalência entre ambos os trabalhos, do auxiliar e
técnico de enfermagem, é referida de forma contundente nos relatos de todos os
entrevistados. Este é um resultado que precisa ser interpretado tanto no
contexto mais imediato dos hospitais e unidades estudadas, como no contexto
mediato do modelo assistencial e de organização das práticas de saúde e de
enfermagem, no país.
No contexto mais imediato da maternidade e da UTI neonatal destaca-se a
escassez de pessoal de enfermagem, particularmente de enfermeiros; a
insuficiência de educação continuada, sobretudo para o pessoal de nível médio e
a introdução recente e parcial da sistematização da assistência de enfermagem.
Na enfermaria pediátrica, embora com melhor infra-estrutura geral em relação às
outras duas unidades de estudo, foi identificado um modelo de funcionamento
organizacional de cunho mais burocrático que delimita de forma rígida as
atividades dos auxiliares e técnicos, acarretando, eventualmente, limitações da
atuação desses trabalhadores frente às necessidades de saúde dos usuários.
No que se refere ao contexto mediato do modelo assistencial, prevalece o modelo
biomédico, centrado na assistência médica individual na vertente clínica. Assim
sendo, a prática dos profissionais de saúde e, em particular, dos trabalhadores
de enfermagem é, em grande parte, modelada e orientada pelo trabalho médico,
tendendo a assistir, em primeira instância, às demandas da equipe médica e não
dos usuários.
Neste cenário, observa-se a predominância do modelo funcional de organização do
trabalho de enfermagem, centrado na tarefa e não no paciente. Também, observa-
se uma intensa divisão do trabalho que se desdobra em trabalhos parcelares, de
caráter progressivamente mais e mais manual e com reduzido valor social, tanto
do trabalho quanto do respectivo trabalhador _ o enfermeiro, o técnico de
enfermagem e o auxiliar de enfermagem.
Esse processo tende a reduzir o trabalho e o trabalhador a tarefas cada vez
menores e de caráter repetitivo, "desidratado", ou seja, expurgado de qualquer
conteúdo técnico-científico. No entanto, esta sucessiva divisão do trabalho da
enfermagem, no Brasil, parece ter criado trabalhos parcelares, portanto,
distintos, porém artificialmente distintos, pois se observa que não há
diferenças na prática concreta e efetiva de trabalho do auxiliar e do técnico
de enfermagem.
Importante lembrar que essa divisão do trabalho de enfermagem, aqui denominada
como "artificial", interessa sobremaneira ao mercado de trabalho que passa a
remunerar cada vez a menor o trabalho produzido por agentes que são, quase
indiscriminadamente, técnicos ou auxiliares. A hipótese da divisão de trabalho
entre auxiliares e técnicos de enfermagem ser artificial, tem como premissa o
cuidado de enfermagem integral e o modelo de atenção integral à saúde, pautados
em uma concepção ampliada do processo saúde _ doença, que requer a utilização
de uma gama variada de tecnologias em saúde, tecnologias duras, leve-duras e
leves(4). Nessa perspectiva, a comunicação e interação constituem importantes
ferramentas de trabalho, pois são o veículo por meio do qual é possível
introduzir mudanças na relação de poder profissional-usuário e integrar a "voz
do outro" no processo de cuidado (22).
Na enfermaria pediátrica já está implantado há anos e na maternidade e na UTI
neonatal está em curso, a introdução de um novo modelo de organização do
trabalho da enfermagem _ o cuidado de enfermagem integral. Neste modelo, cada
agente da enfermagem tem um número determinado de pacientes sob seus cuidados,
devendo executar todos as procedimentos de enfermagem necessários,
estabelecendo vínculo e responsabilização com base na prática dialogada, acima
referida, segundo a qual cabe aos profissionais "dar voz ao outro".
Na maternidade a transição do modelo funcional para o cuidado integral iniciou
com os cuidados a puérpera, tendo em vista abarcar o cuidado com o binômio mãe
_ bebê. Algumas dificuldades foram levantadas pelos enfermeiros na introdução
da mudança, entre elas a presença de atendentes até recentemente, a escassez de
recursos humanos de enfermagem e as limitações no desenvolvimento do processo
de educação continuada, necessária para efetivar a transição e mantê-la em
funcionamento com sucesso, ou seja, incrementando a qualidade do cuidado de
enfermagem e dos serviços prestados à população.
A implantação do modelo de organização do trabalho de enfermagem segundo o
cuidado integral, torna ainda mais artificial a divisão de trabalho entre
auxiliares e técnicos, pois, nessa proposta, cada um destes assume a
responsabilidade por realizar todos os procedimentos de enfermagem que o
cuidado do usuário requer, por meio de uma prática interativa profissional-
usuário. Portanto, não cabe a um agente realizar um certo conjunto de ações,
como banho, troca do leito, sinais vitais, enquanto outro agente executa um
conjunto diferente de intervenções, tais como medicação, coleta de exames,
entre outras.
4 Considerações finais
O conjunto de atividades realizadas por auxiliares e técnicos de enfermagem,
tal como identificado e analisado nesta pesquisa, mostra que o núcleo duro do
processo de trabalho desses agentes é o cuidado de enfermagem, tanto na
dimensão técnica como da comunicação e interação com os usuários.
No entanto, na execução desse cuidado não se identificam diferenças no rol de
atividades dos dois agentes, o que permite afirmar a ausência de distinção
entre os trabalhos do auxiliar e do técnico de enfermagem.
Haveria de se supor a existência de atribuições específicas para cada um desses
trabalhadores, pois, por um lado, trata-se de duas categorias profissionais
reconhecidas pela legislação vigente e, por outro lado, também constituem
trabalhos parcelares, originários do processo de divisão do trabalho de
enfermagem que ocorreu no país. No entanto, essas diferenças não foram
observadas.
As explicações para esta contradição residem em variadas dimensões da
realidade, entre elas a forte incorporação tecnológica em saúde; as mudanças no
mercado de trabalho que requerem trabalhadores polivalentes e com maior
qualificação técnica; e os novos padrões de gestão do trabalho, que estariam
sendo definidos pela reintegração da execução e da concepção, pela
horizontalização das estruturas organizacionais e pela emergência de uma nova
divisão do trabalho menos pronunciada do que no taylorismo e no fordismo, com
maior integração de funções(23,24).
Ainda há que se assinalar a possível influência da introdução de um novo modelo
de divisão e organização do trabalho de enfermagem, representado pelo cuidado
integral, em substituição ao modelo funcional, centrado na divisão de tarefas
entre os agentes de enfermagem.
Frente a esta análise, cabe perguntar qual o perfil de trabalhadores de
enfermagem de nível médio que é efetivamente necessário para a boa prática de
enfermagem nos serviços de saúde.
Embora, entenda-se que não seja pertinente no âmbito desta pesquisa e artigo
responder a abrangência desta questão, considera-se oportuno lembrar dois
fatores. A expressiva demanda por pessoal de enfermagem de nível médio
acarretada pelo envelhecimento da população brasileira, pela transição do
perfil epidemiológico que agrega as doenças transmissíveis com as crônico-
degenerativas e pela expansão da atenção básica e do atendimento domiciliar
(25). Outro aspecto consiste na elevação do nível de escolaridade dos
trabalhadores de enfermagem que têm encontrado maior facilidade em acessar o
ensino médio do que a educação profissional(26).
Finalizando, lembra-se que o debate em torno desta questão e de outras
relacionadas ao processo de trabalho é pertinente à gerência e necessário para
garantir a qualidade dos serviços de saúde e, deve ser remetida, mais
apropriadamente, aos próprios trabalhadores de enfermagem enquanto sujeitos
coletivos e a outros atores sociais tais como, os gestores dos serviços de
saúde, as instituições formadoras de recursos humanos de enfermagem e os
formuladores de políticas públicas.