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BrBRCVHe0034-71672004000100008

National varietyBr
Country of publicationBR
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0034-7167
Year2004
Issue0001
Article number00008

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Enfoque bioético na produção científica do enfermeiros: caracterização e análise

1 Introdução A palavra bioética significa, literalmente, ética da vida. A Bioética é fruto, essencialmente, da democracia, ou seja, do direito de decisão do cidadão, das novas tecnologias na área da saúde e dos limites que a sociedade deve dar à ciência e tecnologia. A Bioética se impulsiona no horizonte científico das novas descobertas como o estudo interdisciplinar dos problemas criados pelo progresso biomédico, sua repercussão na sociedade e seu interesse de valores.

Aborda três grandes áreas de problemas, os quais se referem ao início e fim da vida humana e os que se situam numa área intermediária(1).

A Bioética evoluiu velozmente como poucas áreas, se tomarmos como primeira obra de referência - Bioethics: a Bridge to the Future - a publicação do cancerologista e biólogo norte-americano Van Rensselaer Potter, a qual data de janeiro de 1971. Sua visão original da Bioética tomava-a como necessária frente ao equilíbrio e preservação da relação dos seres humanos com o ecossistema e a própria vida do planeta(2). Heillegers(3), obstetra, fisiologista fetal e demógrafo utiliza o novo termo após seis meses, aplicando-o restritamente à ética médica e pesquisa biomédica. Todavia, ela concretizou-se, cientificamente, a partir da publicação do livro The Principles of Bioethics (2).

Um dos modelos de análise teórica mais divulgado e utilizado pela Bioética é o principialista (4). Nele, quatro princípios determinam a ação. São eles: o princípio da beneficência, o da não-maleficência, o da justiça e o da autonomia.

O Principialismo ou Bioética dos Princípios tenta buscar soluções para os dilemas éticos a partir de uma perspectiva aceitável pelo conjunto das pessoas envolvidas no processo por meio dos princípios selecionados. É uma ética que não vai se adaptar a todas as teorias éticas nem ao modo de apreciar o que é bom e ruim de cada uma das pessoas de nossa sociedade. Nenhum dos princípios tem o peso suficiente para decidir, prioritariamente, em todos os conflitos morais(5).

Beneficência, (bonum facere), em seu sentido filosófico moral, quer dizer fazer o bem. O princípio da beneficência tem como regra norteadora da prática médica, odontológica, psicológica e da enfermagem, entre outras, o bem do paciente, o seu bem-estar e os seus interesses, de acordo com os critérios do bem fornecidos por estas áreas de conhecimento. O princípio da beneficência é limitado, no que diz respeito a não-aceitação do paternalismo, ao surgimento da autonomia, às novas dimensões da justiça e 'a definição do que é o bem do paciente(1,5).

Não-maleficência vem como princípio no sentido de não causar danos. Faz-se necessário, nos diversos casos, examinar conjuntamente os princípios da beneficência e da não-maleficência. A dor ou dano causado a uma vida humana poderia ser justificado, pelo profissional de saúde, no caso de ser o próprio paciente a primeira pessoa a ser beneficiada (5).

O princípio da autonomia traz a idéia de autogoverno, autodeterminação da pessoa para tomar decisões que afetam a sua vida, sua saúde, sua integridade físico-psíquica, suas relações sociais. No entanto, nem todas as pessoas estão em condições de exercer este autogoverno, por restrições intrínsecas ou extrínsecas. Neste caso, hipoteticamente, deve ser abstraído qual seria a escolha do paciente em razão de seu bem. No Brasil, desde a década de 80, códigos de ética profissional, com enfoque nos pacientes, têm dado importância à ampliação da autonomia - fugindo da tradição paternalista do profissional de tudo decidir pelo cliente(1,6).

O princípio da justiça procura dar a cada pessoa o que é seu ou devido, de maneira que a pessoa receba o que merece e o que tem sido legitimamente reclamado(7). Coloca a saúde como direito eqüitativo, igualitário e universal (1).

Muitas críticas emergiram ao principialismo, apesar de ser, ainda, hoje conhecido e utilizado na área da Bioética, especialmente nos países periféricos. As críticas às Teorias dos Princípios acabaram por apontar a própria Bioética que, ao repousar na tranqüilidade destes princípios, esqueceu sua proposta primordial de proteção dos vulneráveis, de respeitar as diferenças e de mediar os conflitos morais. Dentre as críticas direcionadas à Bioética, destaca-se aquela apoiada na teoria feminista, críticas essas que emergiram formalmente nos anos 90, apesar de existirem alguns escritos a partir dos anos 80(8).

As interrogações bioéticas mais complexas na América Latina, incluindo o Brasil, se voltam menos para como se usa a tecnologia médica. Sua ênfase é no sentido de acesso a ela(3).

Apesar de a Bioética ter sido incorporada no Brasil apenas nos anos 90, atribui-se um crescimento significativo, sendo que está presente em programas de pós-graduação lato-sensu em Bioética e em currículos de formação de futuros profissionais(9).

Considerando que a Bioética se faz presente em várias áreas como o direito, a política, a sociologia, a psicologia, a biologia, a filosofia, entre outras, a ética muda seu enfoque de visão no individual microética passando para o sujeito social, macroética(7,10).

Até os anos 80, período em que a bioética estava razoavelmente consolidada nos principais centros de ensino e pesquisa existentes pelo mundo, a ausência de enfermeiras pesquisando no campo da Bioética se dava concomitantemente com a ausência de bioeticistas do sexo feminino. Foi somente com a entrada dos primeiros estudos éticos baseados nas relações de gênero na Bioética pesquisas conduzidas por mulheres, que a Enfermagem despertou para os estudos bioéticos (11).

O Conselho Federal de Medicina criou a revista Bioética, em 1993, de circulação semestral, abordando temas bioéticos e casos clínicos, abrangendo artigos de outros profissionais além do médico, evidenciando uma preocupação multiprofissional e interdisciplinar.

A Enfermagem possui periódicos de grande contribuição para o estímulo e divulgação de sua produção científica. No entanto, não existe um periódico de Enfermagem que aborde especificamente temas bioéticos.

Estudos direcionados à análise de conhecimento produzido vêm merecendo a atenção em diversas áreas. Na Enfermagem, o conhecimento produzido e divulgado sobre vários temas vem sendo analisado, seja ele fonte da produção de graduandos, enfermeiros assistenciais ou pós-graduandos. Essa análise pode envolver produção de conhecimento divulgada em eventos científicos, artigos divulgados em periódicos e produções de pós-graduação(12-15) . estudos que ressaltam que a construção do saber em Enfermagem ocorre principalmente nos cursos de mestrado e doutorado(16).

Diante da evidência da crescente necessidade de análise do conhecimento produzido na área da Enfermagem e de nosso interesse no conhecimento acerca da Bioética e suas implicações para esta profissão, nos propusemos a realizar um levantamento e análise da produção de conhecimento gerado por enfermeiros no que tange à discussão de questões bioéticas, à luz do referencial da Bioética.

2 Metodologia Para a realização deste estudo procedemos a um levantamento bibliográfico e posterior análise em busca de produção do conhecimento, com enfoque bioético, produzido por enfermeiros como autores ou co-autores.

O levantamento da produção da pós-graduação foi realizado através do CD ROM Pesquisa e Pesquisadores em Enfermagem referente aos catálogos CEPEn -Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem, no período de 1990 a 2000. Para os anos de 2001 e 2002 foram utilizadas as publicações usuais dos catálogos do CEPEn.

A busca pelas referências foi realizada nos periódicos nacionais de Enfermagem listados a seguir: Acta Paulista de Enfermagem; Revista Gaúcha de Enfermagem; Revista Latino-Americana de Enfermagem; Texto e Contexto Enfermagem; Revista Baiana de Enfermagem; Revista Paulista de Enfermagem; Revista Brasileira de Enfermagem; Revista Enfermagem da UERJ; Revista da Escola de Enfermagem da USP; Bioética; esta foi incluída, por ser um periódico temático.

Os periódicos foram selecionados segundo o critério de existência de indexação em Base de Dados nacionais e/ou internacionais. O local de consulta foi a Biblioteca Central do Campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e a Sala de Leitura, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP. Os volumes que eventualmente não estivessem disponíveis nos locais acima citados eram pesquisados e obtidos através do Sistema COMUT (comutação bibliográfica).

Foram realizadas leituras dos artigos publicados no período de 1990 a 2002. A escolha por este período é justificada pela inexistência da inserção da Enfermagem na área bioética até a década de 80, assim como de outras áreas (8,11). Acrescenta-se, também, que o desenvolvimento da bioética ocorreu no Brasil a partir da década de 90(7). A leitura dos artigos divulgados em periódicos seguiu um modelo de análise para a sua melhor apreensão, testado em outra pesquisa, ao qual acrescentamos algumas especificidades que se mostraram pertinentes em testes sucessivos, de forma a contemplar o tema central do estudo(15). O modelo final engloba características dos autores, especificidades dos periódicos, foco bioético principal do texto e instrumento metodológico principal utilizado.

Para a leitura da produção de pós-graduação procedente do CEPEn - Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem - criamos um modelo de leitura que contemplou sua análise em que estão inseridos especificidades dos autores e das produções.

Em ambos os modelos procurou-se atingir os seguintes objetivos: - Identificar os autores das produções, observando características tais como: sexo, titulação e área de atuação na Enfermagem; - Identificar os dilemas bioéticos abordados por esses autores.

3 Análise dos dados Os artigos encontrados nos periódicos mencionados foram analisados quanti- qualitivamente, a fim de evidenciar o enfoque das discussões bioéticas pelos profissionais de enfermagem, através do seu tema central e subtemas. O detalhamento da forma de análise ocorreu à medida que os dados foram sendo disponibilizados e, assim, foi possível detectar tendências de mudanças inter- relacionadas às transformações sociais, à inclusão de temas emergentes na sociedade ou outras sinalizações que se mostraram relevantes, na busca de: compreender quais as concepções bioéticas que vêm se configurando na enfermagem, ou seja, como é que o enfermeiro analisa, bioeticamente, os dilemas em seus estudos; conhecer quais os direcionamentos dos estudos bioéticos dados por estes profissionais: se o enfoque se no cliente, no profissional, na sociedade, no sistema de saúde, nas relações entre profissionais, entre outros; quantificar a produção de enfermagem acerca do tema bioético em temas e subtemas.

4 Resultados e discussões Apresentamos a seguir alguns quadros que possibilitam uma visão quantitativa do levantamento bibliográfico realizado nos periódicos de enfermagem e no periódico Bioética.

Os agrupamentos de temas centrais foram delineados após a análise de todos os artigos, possibilitando, assim, compreender o interesse dos profissionais enfermeiros em discutir dilemas bioéticos semelhantes.

O foco bioético que se mostrou de maior interesse foi o denominado Enfermeiros- relações profissionais, em 13 artigos, representando 48,15%. O exercício profissional vinculado ao código de ética dos enfermeiros e a tomada de decisões éticas estiveram marcantes nessa classificação. Foi abordado ainda o cuidado ao idoso segundo a perspectiva do profissional enfermeiro e até mesmo a anotação de enfermagem foi estudada nos artigos à luz do referencial bioético.

A comunicação entre os agentes profissionais e o paciente foi alvo da bioética em um artigo. Outro enfocou a autonomia do paciente e do enfermeiro. O posicionamento de médicos e enfermeiros de uma instituição frente à autonomia do paciente analisou a relação entre os enfermeiros e outros profissionais como possível causa de prejuízo para os pacientes.

A classificação Modelo de Assistência/ Sistema de Saúde representou 26,92%, ou seja, 7 artigos. A temática presente nesse grupo correspondeu, na organização da assistência ao paciente, no que tange a regimentos que controlam pesquisas com seres humanos e sua importância, a tecnologia versus humanização no modelo assistencial vigente e o papel do enfermeiro frente a estes dilemas. Essa classificação pode evidenciar que o enfermeiro também se interessou em ampliar suas discussões para a direção da Macro Bioética, não se resumindo ao Modelo Principialista.

Direcionam o foco bioético para a classificação o paciente 18,52% do total, 5 artigos. A abordagem se concentra nos princípios da autonomia e beneficência, na humanização da assistência e dependência dos pacientes.

O direcionamento dos caminhos da bioética mereceu destaque em 2 artigos, o que corresponde a 7,41%. Estes foram agrupados na classificação Bioética- discussão.A estagnação da Bioética no modelo principialista e o surgimento da corrente feminista foram analisadas em um dos artigos. O outro analisou como a Bioética refletiria as tecnologias reprodutivas.

Ainda no intuito de caracterizar a produção científica dos enfermeiros nas publicações de periódicos, construimos um quadro que permitisse mostrar algumas especificidades dos autores e co-autores.

Assim, no quadro_2, pode-se observar que a parcela expressiva de autores de artigos se concentra entre os Enfermeiros docentes (doutores/doutorandos), com 37 de 49 autores, representando 75, 51%. Podemos observar que a pós-graduação em nível de Doutorado está se despertando para a importância da produção de estudos bioéticos. Os Docentes - sem especificação do grau acadêmico possuem 5 autores, ou seja, 10,20% do total. Graduandos de enfermagem e Enfermeiros assistenciais são autores de 4 (8,16%) e 03 (6,12%) dos artigos, respectivamente. Quanto ao sexo, 47 autores, 95,92% são do sexo feminino e apenas 2, 4,08%, do sexo masculino.

A busca pela produção de enfermeiros acerca da temática bioética na pós- graduação compreendeu o período de 1990 a 2002. Foram analisados 12 estudos, sendo 07 Dissertações de Mestrado (58,33%) e 05 Teses de Doutorado (41,67%). Um dos estudos de Doutorado foi excluído da análise, pois, embora contivesse a palavra bioética em seu subtítulo, a leitura da tese não possibilitou a apreensão do enfoque bioético, sendo 11 o total de produções de pós-graduação.

É possível observar que, a partir do ano de 1997, a produção de pós-graduação acerca da temática investigada assume certa regularidade e representa 10 produções do total. O sexo dos autores enfermeiros também se revelou predominantemente feminino em 8 produções do total de 11, o que corresponde a 72,73%.

É apresentada a seguir uma classificação da produção de pós-graduação, segundo foco bioético que se mostrou durante a análise do material. O foco bioético principal Pacientesfoi encontrado em 03 do total de 11 produções, 27,27% do total, sendo abordado o princípio da autonomia do paciente institucionalizado, submetido às ações de profissionais de saúde, e a busca sobre o conhecimento de valores morais expressos pelos pacientes. O foco bioético principal Enfermeiros/Graduandospossui 06 produções, o que representa 54,55% do total. A preservação do princípio da autonomia do paciente pelo profissional Enfermeiro e pelo graduando em Enfermagem e a análise da atuação do profissional de Enfermagem segundo sua consciência ética foram inseridos nessa classificação.

Para as classificações que tiveram como foco bioético principal Outros Profissionais de saúde e Comitê de ética-foram encontradas 02 produções , o que corresponde a 9,18% do total.

A maior produção científica na Enfermagem provém dos cursos de Mestrado e Doutorado, que surgiram nas décadas de 70 e 80(16). Podemos evidenciar essa realidade nesse estudo.

5 Considerações finais O estudo envolvendo levantamento bibliográfico é acompanhado por algumas dificuldades que vão desde o acesso ao material a ser estudado, à obtenção e seleção correta do mesmo.

A seleção cuidadosa da temática abordada foi realizada seguindo criteriosamente o que propomos no estudo. No entanto, a identificação dos autores enfermeiros, requisito deste estudo, foi permeada por dificuldades. Alguns artigos de periódicos não referiam a formação profissional do autor, mas somente cargos ocupados ou títulos de pós-graduação obtidos. A insistente busca pela natureza de graduação deveu-se a um cuidado para não subestimar o número de produções totais.

O estudo quanti-qualitativo proposto por esta pesquisa permitiu respostas à medida que trazia ao nosso conhecimento os trabalhos científicos produzidos e publicados pelos enfermeiros acerca do tema bioético. Através da leitura e análise da produção identificamos o grau acadêmico dos autores enfermeiros e o foco bioético principal por eles abordado, assim como o escasso número de publicações sobre a Bioética.

A pós-graduação mostrou-se, neste estudo, interessada nas discussões de natureza bioética, mesmo que informalmente. As discussões acerca do tema bioético abrangeram principalmente o exercício do enfermeiro e suas relações profissionais. Outras discussões colocaram em foco o paciente, o modelo de assistência/sistema de saúde, comitês de ética, outros profissionais e a própria Bioética.

A Bioética na Enfermagem deve estar presente nas relações que estabelecemos com outros profissionais, com os clientes e com a instituição empregadora. A importância do trabalho em equipe é fundamental considerando que a participação do cliente ou de seus familiares e representantes deve ser incentivada no que tange às decisões a serem tomadas, não se resumindo essa atividade em simples atos como o preenchimento de Termos de Consentimentos(17).

A Bioética vem se impondo como tema de investigação. Nesse sentido, a questão da autonomia impõe-se à discussão, com todas as suas interfaces e, sob essa ótica, falar em bioética pode significar falar do nosso cotidiano profissional, das relações que estabelecemos com nossos colegas, com nossos clientes, com a instituição empregadora, quando este relacionamento torna-se objeto do nosso pensamento reflexivo, indagador, problematizador(17). Sua abordagem é inerente ao cotidiano dos enfermeiros e deve estar incorporada em sua formação profissional. A prática da enfermagem, como a de outros profissionais de saúde, está permeada por dilemas bioéticos que necessitam de conhecimentos que vão além de procedimentos técnicos tradicionais.


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