Treinamento introdutório para enfermeiras dirigentes: possibilidades para
gestão do SUS
Treinamento introdutório para enfermeiras dirigentes: possibilidades para
gestão do SUS
Introductory training for manager nurses: some possibilities inside the SUS
Entrenamiento introductorio para enfermeras dirigentes: posibilidades para
gestión del SUS
Marisa Leal Correia MeloI; Maria Ângela Alves do NascimentoII
IEnfermeira, Professora Adjunto do Departamento de Saúde da Universidade
Estadual de Feira de Santana, BA, Coordenadora do Núcleo Interinstitucional de
Educação Continuada em Enfermagem, Pesquisadora do NUPISC, Mestre em Saúde
Coletiva
IIEnfermeira, Professora Titular do Departamento de Saúde da Universidade
Estadual de Feira de Santana, BA, Vice-coordenadora e pesquisadora do NUPISC,
Doutora em Enfermagem. E-mail do autor:nupisc@bol.com.br
1 Introdução
No Brasil, a partir da década de 90 foi observado um movimento social para
desconstruir a consciência sanitária centralista e monopolista do seu sistema
de saúde repassando as decisões e responsabilidades ao município.
Isto implica entender a saúde sob um novo paradigma, ou seja, como um processo
que busca desde a consciência da cidadania a formas mais expressivas de
qualidade de vida da população e do município, frente a realidade sócio-
histórica do país.
Dessa forma, impõe-se proposições alternativas que visem a inversão de tal
"estado das coisas"(1:18) e, sobretudo, à supressão da situação dos serviços de
saúde que denotam a questão- dentro da arquitetura estatal- de subsistemas
dominadas pelo terror, e sustentados, sobretudo pelo signo e por uma abrangente
cultura de iniqüidade. No centro prático da gestão encontra-se uma
hipervalorização de práticas médico-curativas, individualistas, altamente
fragmentadas, capitalizadas e que - a seu modo- reproduzem, na área da saúde,
as contradições do ideário capitalista.
Levando-se em consideração as transformações necessárias a serem feitas no
sentido de efetivar a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), é
importante que relembremos alguns aspectos tais como, a construção de um
conceito mais totalizante acerca do processo saúde-doença, a conotação de arena
política como um espaço aberto à negociação, além da saúde ser valorizada como
um produto da construção/ação social, na mudança de práticas intersetoriais.
Incorporar tais idéias implica, ainda, criar e eleger instrumentos alternativos
para a construção de novas modalidades de intervenções, o que pressupõe não só
a necessidade de (re)pensar modelos e práticas assistenciais mas também, a
forma de gestão dos serviços e sistemas de saúde.
Nessa perspectiva, os gestores locais, juntamente com os trabalhadores de saúde
e a população podem definir/construir um modelo de gestão, assim como também
uma política de formação/capacitação/educação em saúde de recursos humanos(1).
É neste contexto que observamos crescente ocupação de cargos de direção por
enfermeiras no nível central e operacional dos sistemas de saúde, seja na rede
básica ou na rede hospitalar(2-5).
Entretanto, estudo realizado por Mélo (1999) sobre a capacitação de recursos de
humanos em saúde apontou que uma parcela significativa das enfermeiras que
ocupam cargos de direção, demonstrava desconhecer os documentos técnicos-
administrativos que organizam o processo de trabalho do sistema/serviço da qual
é dirigente, o perfil sanitário da população usuária destes e principalmente
sobre a política de saúde do município que atua. Concluiu, ainda, o estudo, que
uma outra parcela, muito reduzida, quando possui estas informações são de forma
fragilizada e não as utilizam como referência para o desempenho no cargo.
Tais considerações assumem um caráter particular no contexto do SUS,
considerando que a partir deste uma série de proposições foram definidas nos
documentos orientadores das políticas de saúde para a capacitação dos recursos
humanos. Sendo inclusive recomendado nestes documentos, que o marco inicial
deste processo, oportunizado a todos os integrantes do sistema, seja o
treinamento introdutório.
A abordagem que direciona este estudo é a compreensão do treinamento
introdutório como toda e qualquer ação educativa realizada com o profissional
recém-admitido ou que assuma um cargo ou função pela primeira vez em uma
instituição. Mesmo que, desta, faça parte, com vista à construção de um corpo
de conhecimento - técnico, administrativo, político e ético - que lhe permita
direcionar suas ações no sentido do alcance dos seus próprios objetivos, do
serviço, dos usuários e dos recursos humanos a este vinculado.
Ao articular o treinamento introdutório com o campo da gerência, o estudo toma
como premissa que este deve ser considerado estratégico para as enfermeiras que
assumem cargo de direção pois, podem favorecer a sua adaptação e o seu percurso
pessoal e profissional no exercício do cargo.
Frente ao exposto, este estudo objetiva: apontar estratégias para o
direcionamento do processo de trabalho da enfermeira dirigente para a
viabilização da gestão do SUS; destacar as possibilidades do treinamento
introdutório no desenvolvimento do trabalho da enfermeira dirigente, tendo em
vista a reorientação da gerência como uma das estratégias para a consolidação
do SUS.
2 A gerência no contexto do SUS
A reorientação da gerência pode ser vista como uma das estratégias para a
consolidação do SUS, pois através de uma nova prática pode-se criar condições
para que seja possível direcionar o processo de trabalho para o desenvolvimento
dos serviços, aplicar os recursos na busca da melhoria de cobertura,
resolutividade e satisfação da clientela assim como, influenciar na melhoria
nas relações interpessoais(7).
A gerência tem sido colocada como área estratégica para a transformação das
práticas de saúde "pela sua posição intermediária entre as estruturas centrais,
com poder de definição de diretrizes políticas e a prestação direta de
serviços"(8:222).
Cabe também à gerência um caráter articulador e integrativo, desde quando, a
ação gerencial é determinada e determinante do processo de organização de
serviços de saúde e fundamenta-se na efetivação de políticas sociais e, em
específico, as de saúde(9).
Assim, a gerência pode ser percebida como um instrumento para a efetivação das
políticas, pois ela pode favorecer a manutenção ou a transformação de um
determinado contexto(10).
Articulada a esta discussão, merece ainda reflexão as concepções que têm
permeado a gerência contemporânea, que não a compreende como uma ação meramente
racional ou técnica. Porque, se de um lado podemos tratar a gerência como algo
científico, racional, enfatizando as análises e as relações de causa e efeito,
de outro, temos que aceitar a sua face da imprevisibilidade e de interação
humana, que lhe confere a dimensão do ilógico, do intuitivo, do emocional, do
espontâneo e do irracional(11).
Ainda nesta direção:
a gestão não é uma ciência, embora use o conhecimento das disciplinas
que estudam os processos de administração das organizações; não é uma
técnica, embora use um conjunto de métodos e instrumentos formais;
não é uma arte, que só pode ser praticada pelos indivíduos com
vocação inata, mesmo que necessite de intuição, empatia, visão e
imaginação. Na verdade, o gerir tem dimensões científicas, técnicas e
artísticas(12:17).
As diversas dimensões que assumem a gerência no contexto atual e,
particularmente no da saúde, remete-nos às colocações de Teixeira e Paim(13) de
que a formação de profissionais para o SUS deve envolver características como:
a capacidade de análise do contexto em relação às práticas que realiza; a
compreensão da organização e da gestão do processo de trabalho em saúde; o
exercício de um agir comunicativo ao lado do estratégico; a tolerância para
situações conflitivas; a atenção aos problemas e às necessidades de saúde.
Ainda nesta perspectiva,
na formação dos gestores dos serviços de saúde pode-se incluir
conhecimentos que ajudem a entender o funcionamento do sistema de
saúde, os fatores ligados à saúde e às necessidades de uma comunidade
assim como "o conhecimento do quadro jurídico e institucional da
organização e da prestação de serviços, da dinâmica das relações
entre os atores do setor saúde e da tomada de decisão em relação à
escolha das prioridades e à alocação dos recursos(12:17).
Apesar de várias destas características muitas vezes estarem incorporadas ao
ensino formal, compreendemos que outras envolvem um saber apreendido no
ambiente de trabalho, e cujo conhecimento no processo de inserção no cargo
poderá contribuir para a qualidade do trabalho do dirigente. Neste sentido,
temos clareza que é no interior do serviço e não fora dele, que este saber pode
ser construído e que os mesmos podem ser inclusos em processos educativos
microlocalizados, a exemplo dos Treinamentos Introdutórios.
Até porque,
adotando-se a premissa de que o perfil gerencial adequado para uma
organização depende de sua missão, sua estrutura e seu cliente, é
razoável admitir que para cada um desses tipos de estabelecimento
corresponda um determinado perfil gerencial e, conseqüentemente, o
respectivo programa de capacitação(14:16).
Assumir, assim, a direção de um serviço, de um setor, de um programa ou de um
sistema, não significa, apenas, controlar as suas questões internas garantindo
a sua funcionalidade, mesmo sendo esta uma dimensão importante no processo de
gerenciamento. Significa compreender que o gerenciamento se dá num espaço
político de disputa de poder, onde estão presentes as contradições e os
desafios impostos pelo cotidiano.
3 Treinamento introdutório: marco inicial do processo de capacitação
Compreendemos que para a área de saúde, o Treinamento Introdutório não deve ser
concebido, como uma prática educacional relacionada à modelagem de
comportamento e a aquisição de habilidade motora e que tem como finalidade
principal tornar o indivíduo apto para realizar tarefas específicas.
Uma visão diferenciada sobre o Treinamento também pode ser percebida ao
promover não só a capacitação técnica específica dos trabalhadores,
mas a aquisição de novos conhecimentos, conceitos e atitudes, tais
como, visão crítica dos problemas contemporâneos, responsabilidade
social e cooperação dentro e fora do ambiente de trabalho(15:368).
Como assinala Paim "não é só o domínio da consciência técnica, que permite ao
profissional e à população experimentar socialmente uma melhor expressão de si
mesmo, mas sobretudo, a consciência política e social"(16:65).
Por conseguinte, entendemos que o Treinamento Introdutório para a enfermeira
dirigente não pode configurar-se num processo de caráter técnico e mecanicista
que objetive a aquisição de habilidades técnicas com vista à execução de
tarefas específicas, mas que seja resultante de um projeto coletivo - serviço e
profissional ingressante no cargo - que propicie a esta o desenvolvimento de
competências - técnica, administrativa e política - que favoreça a sua
adaptação à nova situação, que facilite o seu processo de ser aceita e de ser
reconhecida pelo grupo como uma profissional com capacidade para o exercício
das suas atividades e que a torne capaz de empreender projetos coletivos de
mudança "das pessoas, dos seus valores, da sua cultura ou ideologia e de
providenciar alterações no funcionamento das instituições sociais"(17:30).
No aspecto organizativo, este processo deve ser planejado, organizado,
sistematizado, com objetivos e metas claramente estabelecidos além de ser
definido quando e como será implantado e particularmente a quem caberá a sua
coordenação e a sua implementação.
A proposta de sistematização de treinamento envolve informações sobre os
direitos e deveres com a instituição, visita/reconhecimento de todas as suas
dependências, história, filosofia, equipe de trabalho, especialidades que
atendem, sistema de organização da empresa, regulamentos, usos e costumes(18).
O treinamento introdutório pode ser, ainda, um espaço criado para favorecer
outras formas de adaptação do profissional ingressante ao seu novo ambiente de
trabalho, pois "adaptar-se e ser aceito no novo grupo de trabalho é uma das
preocupações mais freqüentes do profissional recém-admitido em uma organização"
(19:2).
Desta forma, ao ser incluso num processo educacional mais amplo, o Treinamento
Introdutório poderá propiciar à enfermeira dirigente a possibilidade de
desenvolver habilidades e atitudes e de adquirir conhecimentos numa dimensão
micro - a organização - e numa dimensão macro - a política de saúde - e,
principalmente, propiciar o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre o
contexto em que está se inserindo.
Na dimensão micro, a enfermeira dirigente deve buscar conhecer e analisar como
está organizado e como funciona o serviço, quais são os recursos disponíveis,
os instrumentos administrativos que reproduzem a sua estrutura formal e os
instrumentos técnico-políticos formuladores da política de saúde para o
referido serviço, a exemplo dos planos locais de saúde. Neste contexto, vale
ainda ressaltarmos a importância do conhecimento da filosofia organizacional e
dos objetivos do serviço.
A enfermeira dirigente, deve atentar para os aspectos quantitativos e
qualitativos da sua equipe de trabalho além das relações de poder e autoridade
que se estabelecem de maneira informal entre os grupos existentes no serviço e
que muitas vezes se contrapõem ao estabelecido na estrutura formal. Neste
sentido, ao analisar a estrutura de uma organização, a estrutura informal
também deve ser considerada pois ela "pode influir na dinâmica do serviço, na
atuação de seus elementos integrantes e no alcance dos objetivos propostos"(20:
24).
Ainda na dimensão micro, a enfermeira dirigente deve procurar conhecer a
situação de saúde dos grupos populacional usuários ou não, do serviço, a fim de
identificar os problemas de saúde (riscos/ agravos) e os problemas políticos
sociais que determinam o processo saúde -doença (saneamento básico, violência,
renda familiar, entre outros) desta população.
Tais informações poderão permitir num primeiro momento, um planejamento com
enfoque estratégico que, como uma tecnologia gerencial poderá contribuir de
forma efetiva para a sua consolidação.
Com relação à dimensão macro, o treinamento introdutório deve propiciar o
conhecimento dos documentos orientadores da política de saúde do município em
que o serviço estiver inserido, assim como, das formas como esta vem sendo
implementada, pois "a análise do discurso e das práticas de uma determinada
política implica uma compreensão abrangente dos contextos sociais onde esta se
realiza, considerando-se os níveis político, ideológico e econômico"(21:150).
4 Considerações finais
As capacitações na área de saúde devem ser consideradas estratégicas para a
consolidação do SUS. O treinamento introdutório emerge como marco inicial deste
processo, numa concepção diferenciada daquela que o toma como um processo de
caráter técnico e mecanicista, podendo constituir-se num espaço concreto de
construção de competência técnica, política e ética para os ingressantes do
Sistema de Saúde e de fortalecimento dos recursos humanos como sujeitos sociais
capazes de conduzir projetos coletivos de mudança.
Nesta perspectiva, o Treinamento Introdutório apresenta-se como uma
possibilidade diferenciada para enfermeiras que ingressam no sistema de saúde
em cargos de direção ao propiciar a aquisição de saberes, competências e
habilidades que venham contribuir para o exercício da função gerencial nos seus
diversos níveis.
Na sua operacionalização este deve estar pautado no desenvolvimento de ações
educativas formuladas e implementadas num processo participativo e democrático,
que permita às enfermeiras dirigentes apreender uma série de informações acerca
dos serviços de saúde (objetivos, finalidades, filosofia, instrumentos
administrativos...) do perfil sanitário da população usuária deste serviço, dos
recursos humanos a esta vinculado e da política de saúde.
O treinamento introdutório pode ainda, constituir-se em espaços coletivos de
reflexão e ação, de constituição de sujeitos críticos e, principalmente, de
recuperação de valores como a solidariedade, o vínculo e a cooperação mútua.