O ensino sobre o processo de envelhecimento e velhice nos cursos de graduação
em enfermagem
1 Introdução
O envelhecimento populacional, atualmente, é um grande desafio para todo mundo,
porque afeta tanto os países desenvolvidos quanto os em desenvolvimento e os do
Terceiro Mundo.
A redução da mortalidade associada com a queda nas taxas de natalidade e
fecundidade vem causando preocupação em decorrência do acentuado crescimento
populacional dos idosos no Brasil, somado a mudanças no perfil epidemiológico.
Tal preocupação, pode ser demonstrada, no Brasil, pela criação da Política
Nacional do Idoso, concretizada na Lei nO 8.842, de 4 de janeiro de 1994,
instituída pelo governo brasileiro. Esta lei significa um avanço no sentido de
dar publicidade ao assunto, até então tratado com restrições nos serviços de
saúde e na sociedade.
No que diz respeito à educação, a lei estabelece a inclusão da gerontologia e
geriatria como disciplinas curriculares nos cursos superiores e, ainda, nos
currículos dos diversos níveis de ensino formal. Abrange conteúdos voltados
para o processo de envelhecimento, no intuito de eliminar preconceitos e
produzir interesses por conhecimentos sobre o assunto(1).
No processo de envelhecimento, a universidade é vista como a instituição que
poderia cumprir plenamente o papel de divulgadora de idéias positivas acerca do
envelhecimento humano(2). O ponto de partida seria a estruração de
microuniversidades temáticas voltadas para a terceira idade, onde os idosos
receberiam assistência médica, jurídica e social, além de ensino em vários
campos do saber, e poderiam desenvolver atividades de cunho cultural.
Nos cursos de enfermagem, o ensino deste conhecimento ainda é restrito a
iniciativas isoladas de professores interessados e conscientes da necessidade
de discussões em sala de aula e/ou campo de prática que abordem o processo de
envelhecimento humano, considerando a abrangência do tema e a importância na
formação de profissionais preocupados com a realidade social.
O campo de ação para enfermeiro em gerontologia possibilita o desenvolvimento
do exercício profissional em ampla variedade de cenários, razão pela qual seu
papel se estende por diferentes modelos de serviços, desde a comunidade até a
instituição da mais alta complexidade tecnológica. Cabe, portanto, ao
enfermeiro exercer atividades de educação, cuidado, planejamento e coordenação
de serviços. como também de avaliação dos idosos ao desempenhar funções ou se
preparar para isto(3).
É provável que a educação formalizada ao refletir o envelhecimento humano, não
apenas possibilite instrumentalizar os profissionais para o cuidado aos idosos
como permite elaborar estratégias de educação em saúde relacionada aos
cuidadores familiares e da comunidade.
Nesse contexto, o objetivo da enfermagem gerontológica é cuidar integralmente
do idoso, e, quando possivel ampliar este cuidado à família e à comunidade na
qual está inserida. Além disso, cabe-lhe facilitar a adaptação às mudanças
decorrentes do processo de envelhecer, desenvolver ações educativas nos
diferentes níveis de atenção à saúde, estimular sua participação ativa, assim
como de seus familiares, no processo de autocuidado, tornando estes últimos
responsáveis pela melhoria e manutenção da saúde e bem-estar(4,5).
Dessa forma, a implementação de conteúdos a abranger o envelhecimento humano
reflete a preocupação dos enfermeiros-professores em compreender as nuances
desse processo. Tal área de estudo busca contemplar os cuidados com idosos,
fundamentando-se na compreensão da gerontologia. Esta se caracteriza como
ciência em construção, com o propósito de utilizar os conhecimentos sobre
mencionado processo para orientar ações de enfermagem em serviços de atenção a
idosos, visando a promoção da saúde, independência e autonomia para realizar as
atividades da vida diária (AVD).
Mediante as recomendações da lei e demandas da população nos serviços,
questiona-se: Como tem se dado o ensino sobre o processo de envelhecimento e
velhice nos cursos de graduação de enfermagem?
Segundo a história das civilizações mais antigas, o envelhecer e a velhice são
vistos como decadência, isolamento social e doença. Ademais, são delimitados
por estudos biológicos e fisiológicos, fundamentalmente associados à
deterioração do corpo. Nessa pesquisa, serão utilizadas outras dimensões, além
desses fundamentos.
Nesse sentido, apenas recentemente essa visão sobre o processo de
envelhecimento como um fato orgânico foi perdendo sua força e a velhice e o
envelhecimento passaram a constituir objetos de reflexão de outras ciências
(6,7).
Diante disto, resolveu-se realizar este estudo, cujo objetivoé conhecer como
ocorre o ensino sobre o processo de envelhecimento humano e velhice, nos cursos
de graduação de enfermagem do Estado do Ceará.
A opção por esse conhecimento fundamentou-se nos ideais do Projeto Político-
Pedagógico que visam formar profissionais competentes para assistir o ser
humano em todo seu ciclo de vida. A finalidade é compreender o processo de
envelhecimento por considerá-Io fenômeno relevante à emancipação dos
enfermeiros nessa área, preparando-os para buscar alternativas de manutenção da
independência e autonomia com vistas a sanar problemas de saúde e
socioeconômicos. Tais estratégias exigem competências intelectivas e
integrativas do enfermeiro especialista em gerontologia. Esse conhecimento é
fundamental, pois permite refletir possibilidades e reconhecer dificuldades na
tomada de decisão em conjunto com os idosos, famílias e profissionais,
estabelecendo assim uma relação de interação com ganhos de confiança.
2 Metodologia
Pesquisa descritiva exploratória realizada no segundo semestre do ano de 2002,
com os cinco cursos de graduação em enfermagem existentes no Estado do Ceará ..
Entendemos que a pesquisa descritiva exploratória, além de observar, descrever
e classificar o fenômeno estudado, explora suas dimensões, a maneira pela qual
ele se manifesta e os outros fatores com os quais se relaciona(8).
Dos cursos pesquisados, três estão localizados na cidade de Fortaleza e dois no
interior do Estado, sendo quatro públicos e um particular. Quatro deles
oficializaram as discussões sobre o processo de envelhecimento mediante
reconhecimento de uma disciplina, no ano de 1997, enquanto um, localizado no
interior, iniciou em 1988. A elaboração do Projeto Político-Pedagógico também
possibilitou a implementação de uma disciplina específica para discutir as
questões relacionadas ao processo de envelhecimento, além da Política Nacional
do Idoso, Lei n o 8.842, que em um dos seus capítulos sobre competências da
educação sugere adequar currículos, metodologias e materiais didáticos aos
programas educacionais destinados a idosos e, ainda, inserir a gerontologia e
geriatria como disciplinas curriculares nos cursos superiores.
As disciplinas implementadas e formalizadas nos cinco cursos são nominadas
como: Enfermagem em Saúde do Adulto 111, comum a dois cursos, Enfermagem no
processo de cuidar IV- Idoso, Enfermagem Gerontologica e Geriátrica e
Gerontologia. São ministradas no quinto semestre, no curso "C", e no sétimos
nos demais cursos.
Para coleta de dados utilizou-se de um questionário com cinco perguntas abertas
que solicitava informações acerca do envelhecimento humano, no ensino de
graduação, a exemplo; conteúdo ministrado, estratégias e técnicas adotadas,
carga horária, atividades desenvolvidas do ponto de vista teórico e prático,
como também a apreciação dos alunos quanto à implementação desse conteúdo, no
curso.
Os questionários eram encaminhados às coordenadoras de cada curso, escolhidas
porque, seguramente, conhecem todo o currículo do curso. O retorno das
respostas aconteceu via correio eletrônico, convencional ou por professores que
ensinavam no interior e residiam na capital.
Para subsidiar todas as atividades do estudo, tomou-se como base o preconizado
nas normas éticas da pesquisa, prescrito na da Resolução 196/96. Junto com o
questionário enviado, associava-se o consentimento livre e esclarecido com os
objetivos, metodologia e apresentação das pesquisadoras. Este documento deveria
ser assinado e remetido de volta, juntamente com as respostas.
Para preservação e manutenção do sigilo quanto à identidade dos cursos,
nominou-se cada um por letras do alfabeto de A a E.
Todos os questionários enviados retomaram com um prazo de aproximadamente três
meses e, na medida em que se recebia, procedia-se paralelamente à sua análise,
com leituras e apreciação das respostas, organizando quadros a serem analisados
e discutidos, conforme respostas às questões realizadas.
3 Análise e discussão
A análise das respostas aos questionários, após as leituras, foi organizada em
quadros. com vistas a favorecer a compreensão do respondido para cada pergunta,
segundo o contexto de cada coordenador. Entretanto, as respostas de algumas
perguntas apresentavam várias alternativas percorridas nos cursos.
Por meio das respostas, percebeu-se interesse pela discussão da temática, em
todos os cursos, com elaboração e oficialização de uma disciplina específica.
Considerou-se como uma reflexão, associada à preocupação quanto às condições
atuais dos idoso,. e à necessidade de formar profissionais participativos e
atuantes referente à questão do envelhecimento e do idoso, no Brasil e
principalmente no Estado.
As perguntas requeriam comentários desde o conteúdo, carga horária até o
reconhecimento da necessidade de implementar as disciplinas a abordar o
processo de envelhecimento e velhice, no curso.
No quadro construido e demonstrado a seguir, apresenta-se uma síntese da
análise das respostas dos coordenadores de cada curso. quanto à carga horária
teórica e prática.
Em todos os cursos pesquisados, o conteúdo sobre envelhecimento humano é
ministrado ou como disciplina isolada ou em interação com as demais áreas do
curso. Quando oferecem o conteúdo mediante disciplina, conforme resposta de
quatro coordenadoras, esta é oferecida no sétimo semestre, nominada Saúde do
Adulto 111, de caráter obrigatório, cujos programas contemplam a área de
gerontologia e geriatria, mas em alguns a ênfase é maior na geriatria.
No curso "C", inicia-se a discussão sobre o tema, junto com a disciplina de
semiologia e semiotécnica, nos momentos do ensino da anamnese e do exame
fisico, e também, na Enfermagem Psiquiátrica, Saúde Pública, no Estágio
Supervisionado I e 11. Em relação a disciplina específica, o curso tem apenas
30 horas de carga horária.
Esta iniciativa de implementar uma disciplina específica capaz de atender à
compreensão do processo de envelhecimento e velhice, teve inicio após esforços
de professores estudiosos sobre o assunto, além de pesquisa para conhecer a
opinião dos alunos sobre essa necessidade.
Segundo, a coordenadora do curso "C", embora com pequena carga horária (30
horas), que se pretende pretendese ampliar, é possivel realizar uma discussão
ampla a se' iniciar com o entendimento conceitual, afora aulas dialógicas em
que se busca extrair do alunado suas vivências com pessoas que envelhecem e
idosos. A partir dos depoimentos, enveredam para a compreensão do processo do
envelhecimento e velhice.
Percebe-se a preocupação, principalmente, nos cursos "C" e "D" (que também
valorizam a interação com outras áreas), em discutir as questões relacionadas
ao processo de envelhecer e velhice na formação do enfermeiro, de maneira
interdisicplianar, relacionando conhecimentos de disciplinas anteriores com os
momentos específicos de cada conteúdo.
Conforme observa no quadro_1, a carga horária é comum a quatro cursos,
distribuída com, 60 horas e 90 horas. As aulas expositivas (teóricas) são
articuladas com momentos de atividades práticas, quando se faz a relação do
conhecimento apreendido e a realidade vivenciada.
A preocupação de formar profissionais que compreendam o processo de
envelhecimento e a condição do idoso, no país é relevante porque possibilita o
exercício profissional para entender toda essa situação, podendo, ainda,
afastar os estereótipos e preconceitos quanto a esse assunto e, ainda, alerta r
para a necessidade de traçar políticas globais de atenção à saúde do idoso.
Se o conhecimento é uma construção feita a partir de outros conhecimentos sobre
os quais se exercitam a apreensão, a crítica e a dúvida(9). Portanto,
implementar nos cursos de graduação as discussões sobre o processo de
envelhecimento e velhice, reflete a preocupação de formar profissionais
competentes para o desempenho de sua práxis cotidiana, em atendimento ao idoso,
clientela freqüente nas unidades de atendimento, tanto preventivas quanto
curativas.
Entretanto mudanças curriculares no sentido da atualização de conhecimento e
aquisição de habilidades gerais básicas no nível de graduação tornam-se
relevantes na atualidade(10). Portanto, os profissionais atuantes nos serviços
de assistência primária devem oferecer cuidados apropriados à especificidade do
cliente idoso, o qual dia-a-dia aumenta a procura pelos serviços de saúde.
Assim, as questões relacionadas ao processo de envelhecimento e a velhice
vêmexigindo dos profissionais de saúde conhecimento específico e adequação dos
serviços de saúde, não apenas pelo aumento da expectativa de vidados
brasileiros, mas, também, pela ausência de programas específicos voltados à
educação quanto às alterações peculiares a esse processo. Esta situação gera
demanda expressiva de interesses e reflexões das questões relacionadas ao
conhecimento sobre o envelhecer humano, que se inicia com a graduação, revelada
pelas estratégias e técnicas reconhecidas como necessárias para esse
aprendizado.
Tanto a tentativa de inserir o aluno nas comunidades onde existe uma população
de idoso, quanto as estratégias e técnicas implementadas para captar essa
realidades por meio do ensino enfatizam a preocupação de formar profissionais
conscientes para compreender o processo de envelhecimento quer seja no aspecto
biológico quer seja no social, cultural e econômico. Tais aspectos caracterizam
o fato inconteste de aumento de idosos no país e, principalmente, no Estado.
Como se verifica no quadro_2, cada curso utiliza estratégias e técnicas que
possibilitem o reconhecimento do aluno sobre a realidade quanto às questões do
processo de envelhecimento e da velhice. Procuram caminhos diferentes para
implementar e despertar o interesse pelo conteúdo. No entanto, cada um favorece
aos alunos conhecerem contextos diferentes, além dos citados em sala de aula.
Dos cursos investigados, apenas o .. C" não dispõe de carga horária que permita
realizar atividades de interação com comunidades. instituições asilares e/ou
hospitalares. mas. segundo a coordenadora. durante as aulas utilizam-se
recursos audiovisuais no intuito de propiciar aos alunos fazerem uma reflexão
adequada sobre o processo de envelhecer, a partir do cotidiano de cada um.
Entre os cinco cursos pesquisados, o "A" introduziu a disciplina Enfermagem
Geriátrica e Gerontológica, desde 1988, sendo, portanto. o pioneiro entre os
demais cursos. Em suas respostas, a coordenadora ressalta a importância de
buscar estratégias de interação com a comunidade facultando ao aluno
a oportunidade de participar, refletir acerca da realidade encontrada, como
tentativa de modificar os preconceitos e estereótipos, fugir das normas e dos
padrões de comportamento baseados na idade e criar novas idéias sobre o
processo de envelhecimento e velhice.
Além do trabalho com a comunidade, o curso "A" refere engajamento dos alunos e
professores com os profissionais do Programa Saúde da Família, mediante
momentos de atividades recreativas e palestras educativas sobre doenças que
poderão ser agravadas com o envelhecimento e/ou velhice, tais como: diabetes,
hipertensão arterial, reumatismo, coronariopatias. Ademais, discutem a Política
Nacional de Idosos, fundamenta na Lei nO 8.842, de 4 de janeiro de 1994, que
objetiva assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para
promover sua autonomia, integração e participação efetiva na comunidade.
De acordo com o quadro_2, as estratégias e técnicas desenvolvidas pelos cursos
priorizam as atividades denominadas de práticas e têm em comum a necessidade de
inserir o aluno na realidade, conforme preconizado nas Diretrizes Curriculares
Nacionais(11), quando enfatiza a necessidade de se construir um ensino de
graduação com qualidade e capaz de definir um diferencial na formação acadêmica
e profissional de acordo com as necessidades de desenvolvimento do país e do
contexto onde está inserido.
Logo, utilizar as visitas quer seja nas comunidades, quer seja nas instituições
asilares e/ou hospitalares, fugindo um pouco das aulas expositivas, está em
consonância com o perfil de profissional desejado e necessário á sociedade.
Essa estratégia favorece a reflexão acerca de cada realidade encontrada,
despertando interesse na busca de novos conhecimentos, facultando a elaboração
de novos caminhos que permitam oferecer melhores condições à população de
idosos, vislumbrando o processo saúde-doença.
Olhar para as representações sobre a velhice e o processo de envelhecer no
Brasil é atestar a presença dos dramas expressados sobretudo nas imagens de
idosos abandonados nos asilos ou em filas intermináveis à espera do dinheiro
minguado da aposentadoria. Entretanto, essas imagens convivem com as
representações da velhice e do processo de envelhecimento gratificante,
vibrante e produtivo, a ganhar expressão quando se investem em programas para
idosos, os grupos de convivência e lazer, as atividades educativas. Esses
espaços possibilitam que uma experiência inovadora possa ser vivida
coletivamente. Por isso, encorajase a busca de expressões positivas,
desestabilizando imagens negativas expressas pelo senso comum e pela mídia(6).
A Universidade tem o dever de sair de seus limites físicos, para mostrar a
realidade encontrada e trabalhá-Ia como estratégia de ensino. Esta experiência
de troca, de vivenciar a realidade, não anula o saber técnico/científico, nem
significa subestimar o saber popular, pois os valores não são colocados de
forma certa ou errada, mas discutidos e analisados. Dessa forma, talvez seja
possível ocorrer a transformação e o ganho da autonomia profissional(12).
Portanto, as estratégias e técnicas utilizadas nos cursos em análise estão
atendendo aos requisitos que contemplam o estudo sobre o envelhecimento. Mesmo
em iniciativas menores e apenas discutido em disciplinas especificas do curso,
considere-se um ganho o reconhecimento da neoessidade de formar profissionais
que compreendam as demandas da sociedade e busquem estratégias para satisfazê-
Ia, com domínio de conhecimentos.
No capítulo IV, da Lei nO 8.842/94, das Ações Governamentais, no artigo 10,
referente à implantação da Política Nacional do Idoso, a educação inclui, entre
suas competências; adequar currículo, metodologia e material didático aos
programas educacionais destinados aos idosos; inserir nos currículos mínimos,
nos diversos âmbitos do ensino formal, conteúdos voltados para o processo de
envelhecimento, de forma que elimine preconceitos e produza conhecimentos sobre
o assunto; incluir a Gerontologia e a Geriatria como disciplinas curriculares
nos cursos superiores e desenvolver programas educativos, especialmente nos
meios de comunicação, a fim de informar a população sobre o processo de
envelhecimento e velhice.
Dessa forma, a proposta dos cursos de estarem trabalhando o conteúdo do
processo de envelhecer e a velhice é relevante, porque possibilita a criação de
grupos de estudo, de programas no âmbito institucional, com vistas a
desenvolver ações voltadas para incentivar e gerar conhecimentos no intuito de
entender as alterações progressivas bio-fisiológicas, e como elas influenciam o
padrão de funcionamento das pessoas. É preciso, pois, saber por que o processo
ocorre e não apenas quais e como são suas características(3).
Outros aspecto a considerar é o visível aumento da população de idosos
demonstrado pela pirâmide etária que impõe mudanças nos serviços de atendimento
de saúde, conduzindo à expansão dos serviços e programas direcionados a essa
clientela.
Mediante essa situação, tornou-se necessário a inclusão do tema, desde a
graduação, como forma de despertar interesses e ampliar informações e
conhecimentos para que os profissionais possam, desde cedo, refletir sobre as
conseqüências desse processo para a sociedade e, ainda, vislumbrar métodos
favoráveis ao bom atendimento às demandas nos serviços.
Tais fatos justificam a necessidade de implementação de conteúdos que permitam
aos alunos compreender o processo de envelhecimento, tanto na perspectiva
gerontoJógica quanto na geriátrica, conforme a intenção de cada curso
pesquisado.
Sabe-se, portanto, ter a enfermagem como fundamento o estudo e prática do
cuidado humano, em todo seu ciclo de vida. Para que isso seja possível, busca
conhecimentos sobre o processo de viver e envelhecer das pessoas, de acordo com
as ciências biológicas e humanas. Referidos conhecimentos dão sustentação ao
cuidado durante o desenvolvimento da práxis profissional, como também
possibilitam o reconhecimento pela sociedade do profissional, uma vez que, as
pessoas vislumbram suas necessidades humanas básicas, além de adaptações a
mudanças possíveis de ocorrer ao longo da vida, de dimensões biológicas,
psicológicas, sociais, culturais e espirituais, considerando, nesse caso, o
processo de envelhecimento e a velhice.
Ao reconhecer tais necessidades, durante o processo de ensino, quando indagadas
sobre a aceitação dos alunos quanto à implantação desse conteúdo, as
coordenadores foram unânimes em afirmar que antes de introduzirem o conteúdo no
currículo fizeram uma avaliação com aos alunos, no intuito de identificar como
eles percebiam a criação de uma disciplina para discutir essa questão, na
graduação, como também conhecer o que sabiam os alunos sobre o processo de
envelhecimento e a velhice.
Conforme suas respostas, elaborou-se o quadro_3 que inclui a percepção dos
alunos sobre essa questão, além de alguns conceitos por eles utilizados para
caracterizar os a velhice e o processo de envelhecimento.
Nas respostas apresentadas no quadro_3, verifica-se terem os alunos ainda
muitas restrições em relação a processo de envelhecimento, mesmo reconhecendo a
importância que possa adquirir com as discussões sobre o conteúdo para a
prática profissional. Não entendem que esse processo envolve aspectos
políticos, sociais e culturais, necessários à formação e possa capacitá-Ios ao
diálogo reflexivo em relação às condições dos idosos e do processo de
envelhecimento nos dias atuais.
No entanto, os preconceitos difundidos ao longo dos anos, construidos e
fortalecidos historicamente, percebidos nas respostas, revelando o pensamento
dos alunos dos cursos em estudo, tais como" os pobrezinhos".
Conforme se percebe, os alunos vislumbram a importância do estudo do tema
relacionado à necessidade de sobreviver no mundo do trabalho e encontrar
alternativas que permitam fazer diferente.
Alguns também ressaltam o cuidado especifico quando se trata de idosos. Nesse
caso(10), o cuidado contínuo à pessoa
idosa é outra especificidade da enfermagem geriátrica e gerontológica, porque
vem se tornando um imperativo no processo de viver diário, considerando o
prolongamento da vida, uma evidência estatística a trazer consigo encargos
adicionais em face da instalação de possíveis deficiências físicasl funcionais,
fragilidade progressiva e sobre posição de doenças crônicas não-transmissíveis.
Essa preocupação é refletida quando afirmam dever o enfermeiro buscar
conhecimento que o fundamente na compreensão do processo de envelhecimento e
velhice.
Os alunos ainda ressaltam tratar-se de questão a refletir uma realidade atual e
preocupante para todos os profíssionais da área da saúde. Como afirmam, os
conhecimentos podem proporcionar caminhos capazes de auxiliá-Ios na melhor
maneira de cuidar dos idosos, a partir da compreensão do processo de
envelhecer. Todavia, suas idéias são basicamente voltadas a área biológica, ao
enfatizarem que os conteúdos possibilitam criar estratégias de cuidar de idosos
nas instituições hospitalares.
Por conseguinte, mesmo reconhecendo a importância das discussões para o preparo
profissional, ainda apresentam restrições quanto ao aprendizado e às atividades
práticas utilizadas pelos cursos, quando não manifestam interesse pelas
atividades nas comunidades e asilos.
Embora, utilizem estratégias e técnicas diversificadas propostas por cada
curso, segundo relato das coordenadoras, os alunos costumam tratar os idosos
com "peninha", como serem frágeis e dependentes, como demonstra a resposta
constante do no quadro_3, e fortalecem a perspectiva geriátrica. Tais conceito,
são fortalecidos pela ampla divulgação da fragilidade dos idosos por meio do
senso comum e não preocupação com a compreensão sobre o processo de
envelhecimento e a velhice.
No entanto, a implementação do conteúdo nos cursos é o ponto de partida para o
aprofundamento e interesse dessas questões.
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em
enfermagem(11), a graduação é a etapa inicial de formação e não um momento de
exaustão do conhecimento, pois em uma sociedade globalizada, onde as mudanças
no conhecimento são cada vez mais aceleradas, é na educação que está a chave
para o ensino superior acompanhar estas transformações. Entre elas, as mudanças
no perfil populacional, com o evidente aumento da população de idosos.
Dessa forma, despertar no alunado as questões correspondentes ao processo de
envelhecimento e a velhice possibilita a formação inovadora de profissionais
comprometidos com a realidade onde vivenciam a prática cotidiana e a elaboração
de ações com vistas à atenção à saúde dos que se encontram em processo de
envelhecimento e dos idosos, em especial.
4 Considerações Finais
A necessidade de formação de recursos humanos que contemplem a velhice e o
processo de envelhecer constitui inovação implementada nos currículos dos
cursos de graduação de enfermagem, com ênfase nos dias atuais. Esse alerta tem
em vista discutir dados referentes à transição demográfica e epidemiológica, ao
aumento da expectativa de vida, à diminuição da natalidade e mortalidade, e
preparar profissionais capazes de elaborar, eficientemente, ações que atendam à
demanda dessa população.
Conseqüentemente, iniciar a compreensão do processo de envelhecimento e da
velhice na graduação também favorece a eliminação de preconceitos e
estereótipos comuns às pessoas em relação a esse processo, e prepara
profissionais para atender uma demanda específica, com competência e autonomia
nas ações implementadas. Nesse caso, autonomia profissional significa ser
consciente, além de comprometido com a realidade em que se vive.
Os cursos pesquisados demonstraram encaminhar seus interesses por um
conhecimento a se ampliar em diferentes áreas de estudo, propiciando nova forma
de integrar e pensar cada contexto. Despertar para as questões relativas ao
processo de envelhecimento estimula os profissionais a transformar a realidade,
buscando diversificadas alternativas para compreender esse processo, com
percepções mais abrangentes da realidade onde se insere e na qual praticam suas
atividades cotidianas.
Portanto, quer seja por iniciativa espontânea e reconhecimento da problemática
desencadeada pela mudança da pirâmide etária, quer seja em atendimento à ação
governamental explicitada na Lei nO 8.842, os cursos de enfermagem existentes
no Estado do Ceará tentam acompanhar tais mudanças, porquanto demonstram
preocupação de formar profissionais que atendam à demanda da sociedade tendo em
conta o contexto vivenciado, onde desempenham suas práxis.
Conforme revelado nos dados dos questionários, todos os cursos, de acordo com
seu contexto, utilizam estratégias favoráveis ao desenvolvimento de ações
inovadoras no trabalho junto da população de idosos, assim como à compreensão
do processo de envelhecimento e da velhice em sua plenitude.
Toda esta discussão se traduz na necessidade de definir competência
profissional no tocante ao cuidado de idosos, tanto nas comunidades como nas
famílias ou nas instituições hospitalares, de modo que os preconceitos em
relação ao processo de envelhecimento e da velhice na sociedade sejam abolidos
pela implementação de estratégias elaboradas pelos profissionais da saúde,
principalmente os enfermeiros, preocupados com à atenção da saúde dos idosos.
Mas tal fato só será possível se esse despertar for iniciado no ensino de
graduação e formar profissionais comprometidos com a realidade social.