A enfermagem frente a problemas de relacionamento na família
PESQUISA
1 Introdução
Foi só nos últimos anos, mais precisamente a partir da década de 80, que
começamos a observar na literatura uma preocupação por parte da enfermagem
brasileira em dar conta de um novo/velho objeto de trabalho, que é a família;
preocupação esta que, ao mesmo tempo, tem representado um desafio e, para
transpô-lo, temos verificado uma busca constante de conhecimentos, tendo em
vista a criação e desenvolvimento de um referencial teórico que fundamente a
assistência de enfermagem à família. Neste sentido, vários estudos têm sido
realizados com o objetivo de conhecer e compreender a família brasileira - que
possui características e peculiaridades próprias de sua cultura - em seu
processo de viver (1).
Em nosso entendimento, o que deve mover a prática e a pesquisa da enfermagem
são as situações concretas vivenciadas pelas famílias em seu cotidiano e a
necessidade de compreender suas relações com seus membros e com outros grupos
que compõem a sociedade, não de forma isolada, mas como elas ocorrem na
realidade.
A preocupação da enfermagem brasileira em se instrumentalizar para assistir
adequadamente a família enquanto unidade de cuidado tem desencadeado uma série
de pesquisas(2)cujos resultados nos têm permitido concluir que para assistir a
família, a enfermagem necessita desenvolver e utilizar uma metodologia de
trabalho específica, já que a família se caracteriza por ser um "corpo social",
onde prevalece a rede de relações e as interações entre os indivíduos;
interações estas que podem assumir diferentes formas em diversos momentos no
ciclo da vida em família.
Dada a relevância da qualidade destas interações na manutenção da saúde de seus
membros, ao cuidar da família, os profissionais de enfermagem precisam voltar-
se para todas as suas relações, tanto intra como extrafamiliares, visto que
interações perturbadas entre dois membros de uma família podem, em algum
momento e dependendo do suporte da família ou de suas reservas de
enfrentamento, perturbar toda a rede de interação da mesma, pois já é consenso
entre pesquisadores nesta área que, dependendo das condições das interações
entre os membros familiares, a saúde da família como um todo estará
comprometida. Portanto, ao assistir a família, os profissionais de enfermagem
devem se interessar pelas relações familiares e pela interação global da
família, onde se inclui, de maneira determinante, a comunicação, já que
comunicação é a base da interação, para não dizer que é a própria interação
humana(3).
A comunicação é uma forma de o ser humano sair de sua solidão e relacionar-se
com o outro, processo ao sair do qual ele estará enriquecido(4). Apesar de nem
sempre a comunicação ser um ato positivo e satisfatório, toda interação produz
conhecimento, pois os seres humanos aprendem com as boas e más experiências no
decorrer da vida, basta apenas que eles encontrem um significado nelas(4).
2 Buscando comrpeender o papel da comunicação em nossas vidas
A proposta de focalização do tema Comunicação automaticamente nos leva a
refletir sobre uma velha tese: a de que grande parte dos problemas vivenciados
pelos usuários dos serviços de saúde estão relacionados, de alguma forma, a
problemas de comunicação, seja entre eles mesmos, seja com seus familiares, com
a equipe de saúde e com as pessoas com quem vivem no seu dia-a-dia.
Isto por sua vez, nos impulsionou a desenvolver este paper com o objetivo de
refletir sobre as relações familiares a partir de dados coletados em 1998, em
um estudo cujo objeto de investigação não era a comunicação/relação familiar.
A ausência de comunicação ou mesmo uma comunicação não efetiva entre a
população e os profissionais de saúde, ao lado de fatores individuais, têm
dificultado o estabelecimento de comportamentos preventivos em saúde, como, por
exemplo, a aderência de indivíduos hipertensos ao tratamento recomendado, além
de contribuir negativamente no estabelecimento de desmame precoce, despreparo
para o aleitamento materno, gravidezes não planejadas, descontentamento com a
assistência à saúde recebida, entre outros.
Como profissionais de saúde precisamos estar atentos para o fato de que a
comunicação, a confiança e o risco desenvolvem-se como um paradigma ou um
constructo no qual cada fator afeta e é afetado por todos na comunicação
interpessoal(5), como uma variável importante que influencia a qualidade de
nossas interações. Na verdade, a confiança permite maior efetividade da
comunicação na medida em que, a depender dela, a pessoa sente-se mais à vontade
para externar de modo sincero o que pensa e o que sente. A comunicação ser mais
aberta ou mais fechada dependerá, em primeira instância, do grau de confiança
que existe entre emissor e receptor da mensagem. De qualquer maneira, sempre
existirá o risco de a mensagem ser rejeitada ou distorcida, o que na área da
saúde concorre para a adoção ou não de medidas preventivas.
Comunicação também é convivência, está na raiz da comunidade, que nada mais é
do que um agrupamento caracterizado por forte coesão derivada do consenso
espontâneo entre os seus componentes(6). Existem autores que defendem que o
grande objetivo da comunicação é o entendimento entre os homens(5), que ao se
comunicarem compartilham elementos de comportamento, ou modos de vida, pela
existência de um conjunto de regras(7).
A comunicação permite ao ser humano se relacionar com os demais, atuando como
um intercâmbio recíproco de informações, idéias, crenças, sentimentos e
atitudes entre duas pessoas ou entre um grupo de pessoas(8), constituindo por
isto, um processo natural, universal de interpelação e influencia recíproca
entre as partes de uma organização e entre esta e seu ambiente. É portanto, um
processo dinâmico que exige adaptações contínuas por aqueles envolvidos. Um
ditado popular afirma que, conversando, a gente se entende. No entanto, nos
dias atuais, existe uma real preocupação com a ausência de diálogo vivenciada
em muitos lares, dada a exiguidade de tempo, decorrente da correria diária
observada nos grandes centros. As famílias, nas raras oportunidades em que se
encontram todos juntos, não conversam a fundo acerca de seus problemas comuns,
porque, além de ser pouco o tempo disponível, existe algo que monopoliza a
atenção e a conversa, e que todos os outros se calam para ouvir: a televisão.
Mas a comunicação não se dá apenas através de palavras, que apenas são uma de
suas manifestações, a verbal; existem também a não verbal, representada por
gestos, expressão facial, postura corporal, e a comunicação paraverbal,
exemplificada pelo tom de voz, ritmo das palavras, pausa. Todas estas formas de
expressão podem ser utilizadas para a comunicação de nossos mais íntimos
sentimentos e pensamentos(9). Além disso, os seres humanos, com sua capacidade
intelectual, descobriram e/ou inventaram outras formas para manifestar os
sentimentos básicos da natureza humana, como a pintura, escultura, arquitetura,
dança, música, entre outros.
Surge daí a grande importância da comunicação na família; afinal, nós, pais, se
não queremos ser traídos por nossas atitudes e comportamentos, não devemos nos
preocupar só com o que falamos na frente de nossos filhos, mas sim com o
conjunto de todo o nosso comportamento. Afinal, todos estamos sujeitos a esta
traição, uma vez que os filhos, via de regra, estão atentos à forma como agimos
para nela se espelharem, e o resultado é que, como eles não têm o senso de
discernimento, acabam por reproduzir tanto os bons como os maus exemplos.
Lembramo-nos de um caso em que uma mãe, ao questionar o filho de sete anos
sobre o porquê de ele sempre responder a qualquer questionamento (especialmente
quando feito pela mãe) com aspereza e em um tom de voz bastante elevado, ouviu:
Ué, não é assim que você fala com a gente! Eu falo igual você fala.
Portanto, se aceitamos que comunicação é a ação de pôr em comum, de
compartilhar idéias, sentimentos e atitudes e que por isto identifica-se com o
processo social básico - a interação(10); e mais, que comunicação é uma troca
de experiências socialmente significativas, um esforço para a convergência de
perspectivas e para a reciprocidade de pontos de vista, ousamos inferir que no
cotidiano das famílias, muitas vezes não há comunicação efetiva e sim, uma
circulação de informações e isto, com certeza, não contribui muito para o
crescimento e desenvolvimento dos indivíduos.
3 A família e os problemas cotidianos de comunicação
A nossa experiência em desenvolver trabalhos com famílias há pelo menos seis
anos nos faz perceber que a ausência ou o déficit de comunicação prejudicam os
relacionamentos, tanto os intra como os extrafamiliares. Muitas vezes o
profissional que cuida da família não está preparado para desenvolver uma
comunicação terapêutica com ela, o que é referido como falta de habilidade do
profissional em realizar uma comunicação com o cliente de forma a ajudá-lo a
comunicar-se, identificar e enfrentar seus problemas emergentes e encontrar um
sentido na sua experiência(9). Assim sendo, acreditamos que, se os
profissionais estiverem instrumentalizados para se comunicarem com a família de
forma terapêutica, talvez eles possam ajudá-la em suas dificuldades,
favorecendo assim sua relação com o mundo que a cerca.
Desta forma, apresentamos a seguir, à luz do referencial de Stefanelli(9),
alguns exemplos que demonstram a existência de problemas na comunicação
familiar, problemas estes que muitas vezes passam despercebidos pelos
profissionais de saúde e até pela própria família, enquanto unidade. Os
exemplos apresentados foram extraídos de uma pesquisa relacionada com a
experiência vivenciada por famílias ao criarem seus filhos.
As premissas da Interação Simbólica, referencial adotado no desenvolvimento do
estudo, reforçam a idéia de que existe relação entre qualidade da comunicação e
saúde familiar, pois, de acordo com este referencial, a saúde familiar é uma
experiência dinâmica de vida, decorrente de uma interação positiva, ou seja,
aquela que possibilita a cada membro da família e à própria família (enquanto
unidade) crescer, desenvolver-se e desempenhar seus papéis. O comprometimento
na saúde familiar, por sua vez, surge em decorrência de uma interação
perturbada, negativa, ou de uma superinteração, que dificulta ou impossibilita
o desempenho de papéis, o crescimento e o desenvolvimento da família e de cada
um de seus membros.
Os dados do referido estudo apontaram a existência de mudanças e mesmo de
algumas divergências intergeracionais sobre "a criação dos filhos",
especialmente a normas, formas, estratégias e disponibilidades. Estas mudanças,
por sua vez, têm interferido na comunicação familiar, no que se refere à forma,
qualidade, quantidade, tipo, recursos, entre outros aspectos.
Os problemas de comunicação identificados são tanto de ordem inter como
intrageracional. Na comunicação intergeracional, por exemplo, observamos que os
avós de hoje se ressentem muito da forma como são tratados pelos netos:
Depois que eles pegam uma certa idade, não conversam mais com a gente [...]
chegam aqui, sentam na frente da televisão e ali ficam, só respondem o que lhes
é perguntado sem nem sequer tirar os olhos da televisão, às vezes nem bênção
pede.
Neste exemplo podemos constatar que a avó se queixa do não-atendimento de uma
das funções da comunicação, o entretenimento, que tem por objetivo aliviar a
ansiedade, divertir e criar clima favorável entre o emissor e receptor da
mensagem(9).
O clima favorável ao início da interação, como pode ser percebido, é abortado
pelo neto por uma manifestação não verbal, o "não tirar os olhos da televisão",
revelando a influência direta da televisão, bem como do papel que esta
desempenha na vida diária, principalmente de crianças e adolescentes.
Observamos, através deste exemplo, que os avós passaram muito rapidamente de
uma posição onde eram respeitados e tinham suas opiniões e experiências de vida
valorizadas, para uma posição de quase desprezo na família, configurado pela
ausência de tempo para escutar suas histórias. Isto é preocupante à medida que
sabemos que estes comportamentos refletem, em certa medida, os valores e
ensinamentos da família como um todo. Ou seja, hoje não existe uma preocupação
real por parte dos pais em valorizar, perante as crianças, a experiência de
vida dos mais velhos, o que muitas vezes era expresso pelo respeito para com
eles.
E isto, a falta de respeito aos mais velhos, é um aspecto bastante reprovado
pelos avós:
No meu tempo meu pai não permitia que um filho faltasse com respeito aos mais
velhos, a gente sabia que se tivesse alguém em casa, a gente só ia na sala
cumprimentava e já saía, não é como hoje que as crianças nem deixa a gente
conversar, querem tudo na hora, respondem e gritam o tempo todo com os pais.
Os avós também se queixam do distanciamento dos netos. Queixam-se de que hoje
em dia raramente são procurados por eles, especialmente os adolescentes, para
opinarem sobre algum problema ou mesmo para um desabafo, o que nos leva a
inferir que pode existir uma falta de confiança na capacidade deles em
contribuir, de alguma forma, na solução de problemas corriqueiros, o que
desvaloriza e não reconhece suas experiências de vida.
Quando são pequenos, eles chegam e abraçam, beijam, gostam de ficar no colo
[...] depois eles nem chegam perto, a bênção não pedem mais, só fala "oi" de
longe mesmo.
Aliás, isto não acontece só com os avós: os pais também revelam que os jovens
freqüentemente demonstram não confiar neles, o que é exemplificado com o relato
a seguir:
[...] às vezes parece que somos desconhecidas, que não existe nenhum laço entre
nós... ontem mesmo, os meninos não estavam em casa e almoçamos só nós duas.
Sabe o que é duas pessoas sentarem na mesma mesa e não abrirem a boca. Com as
amigas ela está o tempo todo sorrindo e conversando."
Os problemas de relacionamento entre pais e filhos têm início na mais tenra
idade. Os atritos relacionados à dificuldade que se enfrenta cotidianamente, na
hora de vestir a criança, por exemplo, ao que parece, constituem um problema
recente na família brasileira de classe média, pois pelo que lembramos, as
crianças de nossa geração não discutiam com suas mães o que vestir e o que
deixar de vestir, mas nossos filhos fazem do vestir uma questão de honra e por
conseguinte, uma fonte de discórdia na família. Isto mesmo, discórdia sim,
visto que a constância deste tipo de reação não se restringe a causar problemas
apenas entre a mãe e a criança (já que a mãe quase sempre é responsável pela
vestimenta da criança), pois muitas vezes a interferência do pai, no sentido de
achar que é a mãe que não sabe conduzir a situação, passa a constituir causa de
atrito também na relação conjugal.
Os modos de comunicação que estão sendo adotados por estes pais podem ser
considerados patológicos para o desenvolvimento da criança, pois além de muitas
vezes discutirem sobre as divergências educacionais na frente da criança,
também têm se utilizado da dupla mensagem e da desconfirmação. A primeira
ocorre quando nela estão implícitos conteúdos contraditórios ou quando a forma
verbal da mensagem dá uma informação contraditória ao que é demonstrado na
forma não verbal, gerando ansiedade, insatisfação e insegurança. Já a
desconfirmação surge quando os pensamentos e sentimentos do outro não são
considerados(9).
No exemplo citado anteriormente, as manifestações patológicas da comunicação
ocorrem porque, embora os pais quase sempre iniciem o duelo (expressão usada
por uma mãe), dizendo não aos pedidos dos filhos, à medida que eles começam a
fazer algum tipo de birra, para se livrarem mais rapidamente da situação, eles
acabam cedendo.
Contudo, os problemas de comunicação na família não são só no âmbito
intrageracional, visto termos identificado, inclusive com bastante freqüência e
de forma bastante clara, a presença destes problemas no relacionamento entre
casais, por exemplo. O não-saber-ouvir fica evidente no seguinte depoimento:
Não sou estimulada a contar as coisas que acontecem no serviço para o meu
marido, porque a sensação que tenho é de que estou falando com as paredes. Ele
não faz nenhum tipo de comentário, às vezes vai saindo enquanto ainda estou
falando [...].
Neste exemplo podemos dizer que não houve comunicação, pois no sentido
etimológico, a palavra comunicar vem do latim comunicare, que significa pôr em
comum. Comunicação também pode ser vista como um processo de compreender,
compartilhar mensagens enviadas e recebidas, sendo que as mensagens e o modo
como se dá seu intercâmbio exercem influência no comportamento das pessoas nele
envolvidas, a curto, médio e longo prazo(9). É também através da comunicação
que podemos satisfazer nossas necessidades de inclusão - aceitação pelo outro,
controle - ser responsável e capaz de se adaptar ao meio; e afeição - expressar
e receber amor(9)
Além disso, no cotidiano da vida de alguns casais, a presença de determinadas
barreiras à comunicação é uma constância, sendo que no estudo realizado junto
às famílias sobre a criação dos filhos, a barreira identificada com maior
freqüência foi a imposição de esquema de valores:
A gente não conversa sobre isto, não dá para conversar [...] para ele eu nunca
estou certa, tudo que faço ele critica [...] ele faz com que eu me sinta uma
péssima mãe e às vezes eu fico até com dor na consciência, achando que não
estou sendo mesmo [...].
[...] isto é uma coisa que me irrita profundamente, qualquer coisinha eles já
vêm falando em tom de ameaça que vão contar para o pai que eu briguei ou que
bati e o pai, de certa forma, reforça este comportamento, porque mesmo quando
eu estou totalmente certa, tudo o que ele consegue fazer é, inclusive na frente
das crianças, ficar balançando a cabeça negativamente, ou então fala mesmo,
critica minha atitude dizendo que tenho que conversar mais, e etc.
Com relação a estes exemplos temos a considerar que esta mãe, por não perceber
suas crenças e valores respeitados e, provavelmente, também por se sentir
desvalorizada pelo esposo e, de certa forma, ameaçada pela tirania dos filhos,
não consegue estabelecer uma comunicação eficiente em seu meio familiar com
relação, especificamente, às normas e valores necessários à criação dos filhos.
Porém, o pior é que, muito provavelmente, todo o processo de comunicação desta
família deve estar comprometido, interferindo numa interação familiar
harmoniosa e consequentemente na saúde familiar. É possível relacionar esta
questão com a já discutida anteriormente quando o marido não valoriza a
expressão da esposa em relação a seu trabalho. É notória a dificuldade dos
membros familiares em comunicar-se, levando a uma reação em cadeia de
desrespeito e desvalorização entre as pessoas que compõem o ambiente familiar,
o que nos leva a inferir que isto faz com que todos se sintam insatisfeitos e
algumas vezes infelizes.
O desrespeito a valores e crenças existentes na comunicação intergeracional no
que se refere ao cuidado das crianças, além de bastante comum entre os casais,
também pode existir entre irmãos, como pode ser constatado no exemplo a seguir:
[...] achei melhor ir morar sozinha, apesar das dificuldades. Minha irmã
adorava ele, comprava de tudo, mas ele começou a assimilar os valores dela e
não os meus, algumas coisas assim [...] que eu pensava de outra forma [...]
isso de dar mais autonomia para ele. E ficava muito paparicado, muito em cima
dele, uma criança que não podia se sujar, não podia cair. Na alimentação
também, de agasalhar demais. [...] era um cuidado excessivo mesmo. Eu queria
que fosse mais solto, mais [...] que fosse normal.
Outra barreira também identificada com muita freqüência na comunicação familiar
é a "ausência de significação comum", como pode ser constatada no exemplo a
seguir:
[...] depois que os meus pais se separaram, a nossa relação com a minha mãe não
é mais a mesma, parece que ficou uma relação vazia, não tem assunto. Na verdade
a gente evita ficar sozinha com a minha mãe, mas também [...] a gente tem que
se policiar o tempo todo, pensar em tudo o que vai falar, porque senão, dá a
maior confusão: muito choro, ela acaba passando mal, a pressão sobe [...] A
gente também não consegue aceitar a idéia de uma pessoa se autodestruir da
forma que ela esta fazendo por causa de uma separação.
Neste caso, a separação conjugal da mãe não tem o mesmo significado para as
filhas, provavelmente porque estas não vivenciaram este processo, além do que,
na geração delas, isto é bem mais freqüente do que na geração de sua mãe. A
ausência de um significado comum faz que as filhas se sintam impacientes para
conversar sobre estes assuntos; o que as leva, inclusive, a evitar uma
comunicação efetiva com a mãe, pois temem que o assunto venha à tona e não
consigam controlar-se, no sentido de não dizer o que pensam, pois acreditam que
isto poderia piorar o estado de saúde da mãe. Outro aspecto que sobressai deste
exemplo é a ausência de empatia por parte das filhas. A empatia existe quando
ocorre a percepção do mundo do outro, o que por sua vez está relacionado ao
envolvimento emocional e respeito mútuo que ocorrem no relacionamento
interpessoal(9). No exemplo em questão, não está ocorrendo uma comunicação
empática, já que as filhas, embora estejam muito preocupadas com a saúde da
mãe, não estão conseguindo transmitir-lhe que compreendem como ela vivencia seu
mundo, o que seria mais eficaz em sua recuperação.
É possível perceber então que, de maneira geral, no interior da família podem
ser observadas "perturbações" em todas as formas de comunicação. Em algumas
situações a comunicação não verbal, representada por algumas características da
fala, favorece uma ausência de efetividade na comunicação, inclusive quando os
indivíduos não estão ocupando o mesmo espaço físico, o que possibilitaria a
observação das referidas manifestações, como pode ser observado no exemplo a
seguir:
Eu telefono para a minha mãe praticamente todos os dias e às vezes percebo que
ela não está bem pelo tom de voz, mesmo que ela insista em dizer que está tudo
bem e que é só impressão [...] A voz fica um pouco pastosa, parece que ela está
sonolenta. Sei que ela faz isto para não me preocupar, mas é pior porque daí
não conversamos sobre o problema real e eu fico mais preocupada. Tem dias que
eu chego ligar 3 ou 4 vezes só para ver se, pela voz, descubro se ela está
melhor.
Neste exemplo entra em cena uma outra forma de comunicação, a qual é denominada
de paraverbal ou paralingüística, que é expressa pelo tom da voz, ritmo com que
são pronunciadas as palavras, presença de choro, pausa, entre outros. Apesar de
este tipo de comunicação ser muito importante para as pessoas observarem algum
tipo de mensagem não expressa por palavras, ela muitas vezes passa despercebida
pelas pessoas, devido à atribulação presente nos dias de hoje. É neste sentido
que o profissional precisa saber ouvir, ou seja, ouvir nas entrelinhas(9). Este
tipo de comunicação paraverbal é um veículo muito importante para os
profissionais de saúde perceberem a individualidade de cada um e oferecer um
cuidado integralizado e único.
Ainda referindo-nos a este tipo de comunicação, é importante destacar que ele é
fácil de ser percebido entre os membros familiares, em função da convivência
cotidiana, o que favorece a percepção de alterações na saúde e bem-estar das
pessoas através de suas formas de agir, aqui denominadas de comunicação
paraverbal. Neste contexto, se faz necessário que o profissional discuta com os
membros familiares a importância de cada um conhecer e comunicar-se com o outro
e, assim, evitar problemas cotidianos que possam interferir na saúde física ou
mental da família como um todo.
3.1 Relação familiar e comunicação
A família pode ser vista como um "ambiente" seguro, aonde todos retornam para
descansar e repor suas energias físicas ou mentais, ou como o reduto que "suga
energia", ao invés de revitalizar as pessoas. Isto porque a constância de
problemas emocionais, tensões e brigas no meio familiar acaba por prejudicar a
produtividade de todos (seja na escola seja no trabalho), além de atrapalhar o
desenvolvimento afetivo de cada um de seus membros e da família como um todo.
Para que o indivíduo possa se desenvolver e adquirir as condições físicas e
mentais necessárias a cada etapa de desenvolvimento na vida, assim como
garantir o alcance de uma identidade, de uma maneira própria de ser, ele
precisa ter a oportunidade de estabelecer vínculos afetivos significativos.
Neste contexto, a família, que é o primeiro grupo do qual a criança faz parte,
tem por função socializá-la e adaptá-la à convivência na sociedade, oferecendo
e ensinando-lhe os padrões e os modelos de comportamentos adotados em sua
cultura. Isto inclui, entre outras coisas, ensinar-lhe o cuidado físico, a
lidar com as emoções, a se relacionar em família e também dentro de outros
grupos.
Levando-se em consideração as mudanças no ciclo de vida familiar, evidenciamos
que ao longo dos anos não são só os filhos que crescem fisicamente e precisam
se desenvolver emocionalmente: os pais também precisam aprender a ser pais,
aprender a atuar como orientadores de uma família em constante transformação.
As experiências vivenciadas são únicas para cada família e todos os seus
membros, independentemente de quaisquer condições, têm um papel a desempenhar
dentro da família, de forma que todos devem ser responsabilizados pelo produto
final.
O percurso enfrentado pela família não é possível nem tranqüilo se não se
trocam impressões sobre como uns vêem os outros e como todos vêem o
funcionamento da família que, no mínimo, ajudam a compor. A comunicação,
portanto, é extremamente importante. É através do dialogo que os pais poderão
encontrar a fórmula ideal para conduzirem da melhor forma possível a educação e
o desenvolvimento dos filhos e da família como um todo.
Se aceitamos que os pais são as figuras significativas que funcionam como
modelo e que através dos padrões oferecidos, o indivíduo aprenderá não só a se
comportar socialmente - e diante de certas situações, segundo os padrões de sua
cultura -, como também incorporará disposições emocionais (maneiras típicas de
reagir afetivamente) aceitamos o fato de que os pais estão o tempo todo
ensinando a seus filhos muito mais do que imaginam. Assim, nem é preciso que
eles falem sobre tudo, a criança por si só está constantemente atenta ao modo
pelo qual os pais se relacionam com ela, entre si e com outras pessoas.
Disso concluímos que, mesmo por trás de comportamentos mais superficiais do
dia-a-dia, como por exemplo, aprender a se comportar à mesa de refeições, na
rua ou no mercado, estão presentes modelos psicológicos menos aparentes. Isto
é, os padrões de relacionamento ocorridos entre a criança e os pais constituem
modelos para seus relacionamentos futuros.
Diante dessas questões, pressupomos que numa família sadia, as necessidades de
todos os seus membros, independentemente de suas condições (sexo, idade, estado
físico e psiquismo, etc.), são, dentro do possível, atendidas. Isto porque
existe interesse mútuo sobre como cada um se sente em relação ao convívio com
os outros e quais as suas necessidades.
Do mesmo modo, numa família sadia, todos aprendem de alguma maneira a dar de si
e a receber dos demais, pois existe a consciência de que depende essencialmente
da família o alicerce necessário para garantir o crescimento individual de cada
um de seus membros. A família sadia portanto, é a que lida com várias verdades
possíveis, e não com um comportamento em bloco, onde todos devem funcionar da
mesma forma. Pais e filhos são capazes de dialogar sobre qualquer assunto, não
só porque os pais em sua maioria, esperam que os filhos possam se comportar
dentro dos valores que eles adotam, mas porque acreditam que os filhos
necessitam receber informações e que o diálogo e a conversa mais aberta podem
ser os principais recursos para a aprendizagem entre eles.
4 Cosiderações finais
A agitação diária e as dificuldades das mais variadas ordens nos fazem colocar-
nos, de forma geral, como ouvintes desatentos, o que favorece a criação ou
solidificação de obstáculos concretos à comunicação efetiva. Isto porque, além
de percebermos a mensagem parcial ou superficialmente, sem captar sua intenção
ou a do emissor, também desvalorizamos os demais tipos de comunicação, os quais
são emitidos continuamente, com o intuito de facilitar o entendimento ou
aceitação do que é comunicado.
As dificuldades de comunicação entre os seres humanos são reais e estão
presentes em todos os segmentos, a começar pela família. Estas dificuldades
atuam como verdadeiros entraves na efetivação de interações sociais. Na
família, isto é particularmente acentuado em situações intergeracionais,
traduzidas por expressões tais como: Eu não consigo conversar com ele e Não
existe diálogo entre nós, que constituem a maioria das queixas de adolescentes
em relação aos pais e destes em relação àqueles.
Percebemos que a família, ao longo dos tempos, em decorrência de algumas
mudanças na sociedade (evasão rural, migrações para as cidades grandes,
desemprego, pobreza, falta de espaço, baixa remuneração, etc.), sofreu mudanças
e inovações em sua forma de organização, influenciando o modo de vida das
pessoas e sobremaneira, a forma de relacionamento entre pais e filhos e na
família de modo mais amplo.
Ademais, estas mudanças relacionam-se também com a influência externa, ou
melhor, com a influência negativa dos meios de comunicação, que de certa forma,
impõem alguns valores, representados, por exemplo, pelas "coisas de marca" que
as crianças e jovens tanto fazem questão de ter, provocando uma verdadeira
revolução no sistema de crenças e valores da família.
Além disso, as mudanças evidenciadas na comunicação familiar também guardam
relação com a necessidade de sobrevivência e com a competitividade hoje
existente no mercado de trabalho, a qual afasta os indivíduos do seio familiar;
afastamento este que pode ser físico ou não, visto que mesmo quando as pessoas
não são obrigadas a passar muitas horas fora de casa, trabalhando e/ou
estudando, elas não permanecem verdadeiramente em casa, pois suas preocupações
com o trabalho/estudo dominam seus pensamentos, sentimentos e comportamentos.
Isto é particularmente acentuado na enfermagem, que, devido às dificuldades
econômicas decorrentes de baixos salários, leva os profissionais, de todas as
suas categorias, a enfrentarem duas e às vezes até três jornadas de trabalho,
levando-nos a questionar: A comunicação em nossas famílias tem sido efetiva?
Assim, o cuidar da família torna-se muito complexo, uma vez que envolve
compreendê-la em sua totalidade e interagir com ela em seu processo de viver,
ser saudável/ adoecer. Esta interação é uma troca de saberes, onde ambos, a
família e os profissionais de enfermagem, podem sair enriquecidos. Para tanto,
precisamos estar cônscios de que a família, além de se constituir em unidade de
cuidado, também deve ser considerada responsável pelo cuidado de seus membros,
e nestes casos, a forma como se dá a comunicação no interior da família
representa um importante aspecto não só de investigação da enfermagem, mas
também de sua prática, visto que comunicação não efetiva pode conduzir a uma
deficiência no nível de saúde familiar.
Sabemos que existem muitos problemas de comunicação no interior da família. Se
as comunicações no uso diário podem ser efetivas e produtivas ou a causa de
confusão e desalento(5), a enfermagem, que pretende uma assistência global à
família, deve estar atenta a estas questões.
Acreditamos que no cotidiano de sua prática profissional, os enfermeiros são
capazes de identificar uma série de problemas na comunicação mantida no seio
das famílias, porém, é bem possível que eles não se sintam preparados para
atuar neste campo, basicamente por 3 (três) motivos: 1) em sua formação
profissional eles não foram suficientemente preparados para trabalhar tais
aspectos; 2) eles próprios vivenciam uma série de problemas de comunicação na
sua família e no social mais amplo; e 3) para atuar neste nível é preciso
existir um canal aberto à sua comunicação com a família, o que pressupõe a
existência de interação e confiança.
Não obstante, acreditamos que os motivos citados podem ser, com algum esforço,
superados, cabendo ao profissional enfermeiro a busca do conhecimento
necessário para embasar a sua atuação e dos recursos que favorecerão o
estabelecimento de novos meios de relacionamento com a sua e com outras
famílias (aquelas que são clientes), procurando abordá-las, não só de forma a
valorizar o seu ciclo de desenvolvimento, mas também de percebê-las enquanto