Historicizando a enfermagem e os pacientes em um hospital psiquiátrico
1 Introdução
O Hospital Colônia Sant'Ana foi construído no distrito de Salto do Imaruim, no
município de São José - Santa Catarina/Brasil e inaugurado em novembro de 1941,
durante o governo do Interventor Nereu Ramos. O local era eminentemente rural e
ficava a uma distância de 22 km da capital, Florianópolis(1). Na época, havia
uma filosofia do governo federal em construir hospitais colônias, distante das
cidades e destinados a grandes hospícios, cuja finalidade era manter os
internos agrupados, segregados, trabalhando e produzindo, grande parte do que
consumiam, para que o Estado tivesse o menor ônus possível com a manutenção
destes doentes e dos respectivos hospitais.
Embora na época, no continente europeu, os hospícios já fossem considerados
como locais de incurabilidade, no Brasil, eram considerados um misto de cura e
assistência, medicalização e marginalização, serviam para reestruturar o espaço
urbano, na medida em que ocorria a explosão das grandes cidades e a necessária
organização e desenvolvimento destes espaços, associados a necessidade de
controlar os desviantes, em especial "os doidos"(2).
A Colônia Sant'Ana fazia parte da grande reforma promovida pelo Dr. Adauto
Botelhoª que visava adequar espaços destinados ao tratamento e manutenção dos
então chamados de psicopatasb. O modelo de tratamento preconizado destinava-se
a locais de grande porte, onde houvesse possibilidades de atendimento adequado
às normas psiquiátricas: não apenas segregar o doente, mas para procurar
alternativas de tratamento e cura. Este modelo, idealizado por Pinel na França,
começava a ser pensado no Brasil a partir da criação do Hospício Pedro II em
1852, no Rio de Janeiro, e passava a ganhar novos contornos durante o século XX
(3).
O processo da criação e implementação do HCS confunde-se ainda, com o
surgimento dos primeiros médicos psiquiatras no estado de Santa Catarina, entre
os quais, o Dr. Percy João de Borba, o Dr. Agripa de Castro Faria e o Dr. Denis
Malta Ferraz, responsáveis pela escolha do local para instalação do hospital
(4). Além disso, havia um discurso médico que permeava a época, respaldado
pelas palavras do então médico e historiador catarinense, Oswaldo Rodrigues
Cabral, no seu livro Problemas Educaceonais de Hygiene, que evidenciava a
necessidade de regeneração muscular, física e mental, além de encaminhar
propostas para a formação de uma raça nova mixta de bravura e força(5).
Getúlio Vargas, enquanto Presidente do País, influenciou fortemente Nereu Ramos
na proposta de criação de uma unidade nacional de melhoria da raça, priorizando
a criação e construção de escolas, creches, maternidades, hospitais e
instituições correcionais. Através de intensas campanhas de educação e
propaganda sanitária, estimulou a população a melhorar suas condições de saúde
e higiene. Nesse bojo de mudanças no Estado, a HCS surge como uma solução para
os problemas dos doentes mentais catarinenses, que, até então, não dispunham de
uma instituição pública específica. Esta, era considerada uma das mais modernas
na época, vinha para substituir as velhas estruturas meramente asilares e não
terapêuticas existentes no interior do estado(4).
No Brasil, os macro hospitais psiquiátricos estatais coloniais já vinham sendo
construídos desde o início do século XX, em muitos estados da federação. Em
Santa Catarina, este tipo de instituição psiquiátrica, surge muitas décadas
após.
Os primeiros doentes psiquiátricos que internaram na HSC, foram trazidos do
Asilo de Azambuja, Brusque/SC (distante 130Km de Florianópolis), acompanhados
pelas irmãs da Congregação da Divina Providênciac - CDP, que já os atendiam
desde o início do século.Vieram também os doentes procedentes de Joinville/SC,
do Hospício do Dr. Schneider. Havia entre estes doentes, crianças e velhos(4).
Para o atendimento destes, o interventor Nereu Ramos solicitou que as irmãs da
CDP, que já vinham cuidando de alguns destes doentes em Brusque, assumissem o
Hospital e o administrassem. Elas eram muito organizadas e econômicas, além de
manterem a boa ordem e limpeza onde se faziam presentes(6).
Passados mais de seis décadas da criação deste Hospital, muitas modificações
ocorreram, mudanças de paradigmas e muitos trabalhos(7) já foram escritos a
respeito do mesmo, porém poucos informaram sobre quem eram os doentes, como
viviam e principalmente sobre os funcionários de enfermagem que lá trabalharam.
Quase não existem registros acerca da enfermagem como profissão. Quem eram os
cuidadores? Qual a formação que possuíam? O que faziam? Como viviam? Que
práticas de enfermagem realizavam? Estas são algumas das questões que este
trabalho se propõe em responder.
Fundamentalmente o estudo tem como objetivo geral: historicizar a equipe, o
contexto da Enfermagem e a situação dos pacientes no antigo HCS, (atual
Instituto de Psiquiatria do Estado ' IPQ), no período de 1941 a 1960. Este
período foi escolhido em função de ser o início do funcionamento do Hospital,
finalizando com o momento em que passaram a ocorrer algumas importantes
modificações no seu interior. Acreditamos que este trabalho é original e tem,
sua relevância no fato de inexistir no período focado (1941-1960), registros
acerca da enfermagem desenvolvida, nem sobre os pacientes internados, assim
como as respectivas terapêuticas utilizadas.
2 Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa com abordagem histórica. Para tanto, foram
realizadas entrevistas semi ' estruturadas com cinco funcionários (três irmãs
religiosas: uma responsável pela lavanderia, uma pelo serviço de enfermagem e
uma pela nutrição e dois leigos da enfermagem), que trabalharam no Hospital
durante período do estudo (1941 a 1960). Estas entrevistas foram realizadas nos
meses de abril e maio de 2002, na residência dos próprios entrevistados,
utilizando-se do Método de História Oral (H.O).
A HO caracteriza-se:
por ser um recurso moderno utilizado para a elaboração de documentos,
arquivamento e estudos referentes à vida social de pessoas. É um
conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um
projeto e continua com a definição de pessoas (ou colônia) a serem
entrevistadas, com o planejamento da condução das gravações, com a
transcriação, com a conferência do depoimento, com a autorização para
o uso, arquivamento e, sempre que possível, com a publicação dos
resultados que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as
entrevistas(8:16).
Além das entrevistas, foram utilizadas outras fontes documentais, como: livros,
revistas, jornais, relatórios do governo estadual, monografias, dissertações e
teses de doutorado, entre outros. Posteriormente as entrevistas foram
transcritas, encaminhadas aos entrevistados para conferência e posteriormente
foram categorizadas. Para análise dos dados utilizou-se o referencial
Foucaultiano(9,10).
Os entrevistados foram orientados acerca dos objetivos da pesquisa e do desejo
de participar ou não da mesma, e, tiveram seus direitos respeitados, conforme
os princípios da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, relativos à
pesquisa com seres humanos.
3 Resultados
3.1 A Equipe de Enfermagem
Desde o início do funcionamento do Hospital, foram as irmãs da Congregação que
assumiram todos os serviços que lá foram criados. A Igreja Católica teve grande
influência na formação do pessoal de enfermagem e na atuação nos serviços
hospitalares(11). Os serviços de limpeza, cozinha, lavanderia, rouparia,
costura, horta, farmácia, até a enfermagem, eram elas que comandavam. Em geral,
decidiam sobre tudo e todos, costumavam determinar as necessidades e
estabelecer as prioridades e soluções, embora o diretor da instituição
estivesse permanentemente presente, pois morava em frente ao Hospital, e,
ficasse envolvido com a mesma. Em determinadas situações consideradas
domésticas, eram as irmãs que tomavam as decisões, conforme pode ser
visualizado através da seguinte fala:
As irmãs eram importantes naquele tempo para o hospital, trabalhavam
na cozinha, na horta, nós tínhamos o armazém lá na padaria, que
trabalhava uma irmã. Nas enfermarias quase todas tinham irmãs que
ajudavam, cuidavam das roupas, elas tinham prática e na enfermagem
era a mesma coisa, assim como na farmácia, eram elas quem sabiam de
tudo e decidiam(Amaral).
Além das irmãs que atuavam no serviço de enfermagem, haviam o enfermeiro chefe
e os vigilantes:
O enfermeiro não era formado, nem era universitário, era um prático
com conhecimento razoável. Era o chefe. Tinha a sala dele. Era ele
quem fazia a escala e autorizava a troca de plantão. Enquanto que "os
vigilantes" atendiam o doente, davam banho, remédio oral, comida e
observavam os doentes. Davam os cuidados gerais, mais simples, iguais
aos que os atendentes de enfermagem fazem hoje. O vigilante ficava
dentro da enfermaria, cuidando do doente. Se o vigilante estivesse
indo para a casa e avistasse um doente na rua, tinha a obrigação de
voltar e trazer ele de volta(Scheweitzer).
Era muito comum, por ser uma macro instituição, não totalmente murada, que os
pacientes costumassem se evadir do Hospital, associado ao fato, de não haver
número suficiente de funcionários, conforme pode ser observado através do
relatório administrativo do Dr. Antonio Santaella(12), que assinala ao
Governador do Estado na época, Eriberto Hülse: que o número insuficiente de
guardas no HCS, resultava na dificuldade em realizar a praxiterapia com os
doentes, porque estes tinham facilidade para se evadir.
Quanto às irmãs que atuavam na enfermagem, estas, além de ministrarem os
cuidados de higiene, conforto e alimentação, realizavam os procedimentos
considerados os mais complexos na época, tais como: injeções, curativos, soros,
e algumas poucas, costumavam realizar as anestesias, utilizando-se para isto as
máscaras de Obredamed, nas pequenas cirurgias feitas no Hospital. Além disso,
eram as responsáveis em realizar a supervisão de todos os cuidados prestados
nas respectivas enfermarias. Havia ainda, a restrição de que cuidados para com
os pacientes homens coubesse exclusivamente aos enfermeiros, por causa das
questões ligadas a sexualidade. Eram vedados às irmãs, contatos com a
intimidade masculina.
Basicamente, esta era a equipe de enfermagem que atuava na Colônia: irmãs,
vigilantes e enfermeiros. Embora todos fossem funcionários, as formas de
ingresso no Hospital, variavam. As irmãs eram sempre encaminhadas pela
Congregação, através de uma decisão da Madre Superiora, como pode ser
visualizado através da seguinte fala:
A madre mandava uma cartinha pra gente, que era a transferência, a
gente não gostava. Eu disse para Madre: pelo amor de Deus, não me
manda prá lá, que eu tenho medo. Aí a gente ía. Na primeira semana eu
fiquei doente, de medo. Depois fui me acostumando e até gostei.
(Furini)
Para as irmãs não havia nenhum tipo de entrave a admissão na instituição. Era
comum na Congregação as transferências coercitivas logo após o início do ano,
depois do Retiro. Fazia parte da política religiosa, fazer um revezamento entre
irmãs nas diversas instituições de saúde onde prestavam serviços. Em geral,
eram recebidas de forma natural e até carinhosa, não tendo que se submeter a
qualquer tipo de decisão da direção ou mesmo preparar-se para lá trabalhar.
Eram submetidas somente às decisões religiosas, onde não cabia nenhum tipo de
discussão. Deviam obedecer, pois para se tornarem religiosas haviam feito três
votos: o de obediência, o de castidade e o de pobreza. Uma vez dentro da
Colônia, poderiam assumir variadas atividades, ou nas enfermarias ou nos
diversos serviços existentes, as decisões ficavam por conta da irmã superiora
da casa.
Em relação aos enfermeiros e vigilantes, estes normalmente, recebiam
informações através de amigos ou parentes, da existência de vagas no Hospital.
Geralmente os futuros funcionários eram moradores das imediações da Colônia. De
posse das informações, entravam em contato com o diretor e este os encaminhava
para o Departamento de Saúde Pública para realizarem exames que pudessem
constatar, estarem aptos para trabalhar na instituição. Não havia uma
preocupação com o conhecimento desses trabalhadores em relação ao trabalho que
iriam realizar. Em geral, eram contratados para funções inespecíficas, para só
posteriormente serem efetivados e finalmente nomeados pelo Estado. Podemos
perceber mais claramente através da fala:
Fui contratado em janeiro de 1959. Naquele tempo a gente fazia um
contrato. Primeiro, eram feitos todos exames do Departamento de
Saúde, e depois ia uma carta para o diretor para dizer se a pessoa
estava em condições de trabalho. Fui contratado para os Serviços
Gerais, trabalhei de carpinteiro, numa obra que estavam fazendo e
depois fui chamado na parte de enfermagem. Me chamavam de vigilante,
mas na folha já recebi como auxiliar de serviços médicos, o salário
de vigilante era menor. (Amaral)
Interessante observar que a decisão de onde o funcionário iria trabalhar partia
das necessidades institucionais, não havendo uma clareza nem preocupação com a
capacidade e o interesse do trabalhador na função que iria desenvolver. Isto se
repete e pode ser observado em outros hospitais da capital, nessa mesma época.
Era muito comum, as pessoas procurarem a instituição hospitalar para
trabalharem na enfermagem, entretanto por decisão administrativa, estas
passavam por inúmeras outras atividades até poderem atuar no serviço de
enfermagem. Parece até, que havia a necessidade de conhecer outros serviços e
irem se gabaritando para só depois assumirem as atividades junto aos doentes
(13).
Quanto ao preparo do pessoal para atuar na enfermagem, não havia nenhum tipo de
treinamento básico. Em geral os funcionários mais antigos, costumavam ensinar
os mais novos. Muitas vezes aprendiam, na base da tentativa de acerto e erro.
Até porque, em Florianópolis, não havia nenhuma escola de formação de pessoal
auxiliar, nem de Curso de Graduação em Enfermagem. A primeira Escola de
Auxiliares de Enfermagem foi criada em 1959, no centro de Florianópolis, pela
Congregação e o primeiro Curso de Graduação em Enfermagem, na Universidade
Federal de Santa Catarina, em 1969(14,15).
Observa-se neste período que, o funcionário na medida em que fosse se
capacitando, através da prática do cotidiano e de cursos esporádicos, raros,
oferecidos pelo Hospital, poderia ir agregando um maior nível de conhecimento e
consequentemente poderia assumir atribuições mais complexas na instituição, não
significando com isso um aumento nos vencimentos, apenas um reconhecimento
maior por parte dos profissionais que lá trabalhavam e até dos próprios
pacientes. Em alguns casos, há relatos de que muitas vezes pela prática, o
funcionário, conseguia fazer o diagnóstico(12):
Eu nunca fiz nenhum curso, eu era o guarda chefe, mas no final mesmo
não sendo da enfermagem, eu só olhava para o paciente e já sabia o
diagnóstico que ele tinha. Uma vez um médico chegou a me mandar ver o
que o doente tinha, e eu falei para ele o que achava. (Amaral)
É comum observar que com a prática do cotidiano, as pessoas passam a
desenvolver algumas habilidades no sentido de melhor observar, analisar e
avaliar, isto ocorre com freqüência nos serviços de saúde, quando funcionários
de nível médio, de tanto cuidar de doentes, conseguem muitas vezes, até fazer
um diagnóstico clínico.
No que se refere as condições de trabalho, os funcionários de enfermagem da
Colônia, trabalhavam em média 24 horas e folgavam 48. Tinham um mês de férias.
Costumavam receber uniforme confeccionado nas oficinas da instituição, duas
vezes por ano. Os enfermeiros tinha direito a uma calça azul marinho e um
jaleco branco, além de um par de sapatos. Os vigilantes recebiam uma farda
amarela parda, igual a utilizada pela polícia, era constituída por calça,
camisa, gravata, paletó tipo jaqueta e um quepe. No verão, a roupa fornecida
era feita de tecido mais leve. Além disso, recebiam um par de sapatos. Segundo:
O uniforme era obrigado a usar todo dia. Era cobrado. Quem não estava
de uniforme, nem dava a cara. Se o diretor pegasse, suspendia. Não
era advertido, era suspenso logo. Para a enfermagem não tinha moleza.
(Schweitzer)
Em relação as irmãs, estas se utilizavam do hábito e por cima deste, colocavam
um avental branco. Esta roupa era fornecida pela Congregação e apenas os
sapatos, eram doados pelo Hospital.
3.2 Os pacientes
Na Colônia no período compreendido entre 1940 a 1960, costumavam internar,
diferente dos dias atuais, todos os tipos de doentes psiquiátricos, de classes
sociais variadas, com maior predominância daqueles que possuíam uma baixa renda
mensal ou até mesmo, nenhuma assim como, pacientes com diferentes diagnósticos.
Afinal era a única instituição psiquiátrica no Estado.
Haviam basicamente dois tipos de internos, os pensionistas e os
indigentes. Os primeiros costumavam pagar pelo tratamento, as vezes
não integralmente, enquanto que os indigentes não pagavam nada. As
vezes, tinham alguns, que até tinham algum dinheiro guardado, no
entanto traziam consigo algum tipo de autorização simples, fornecidos
por pessoas ou prefeitura de origem e assim acabavam não pagando nada
da internação. (Amaral)
Haviam alguns pacientes dignos de pena, carentes em todos aspectos, eram
provenientes do Oeste do Estado, chegavam ao Hospital depois de uns quatro dias
de viagem, chegavam exaustos e nunca mais recebiam visitas, perdiam o vínculo
familiar e acabavam para sempre na instituição(6). Muitos destes residem até
hoje na Colônia.
No que se refere aos diagnósticos médicos, os doentes apresentavam os mais
variados, desde uma crise leve de depressão até casos graves de epilepsia,
alcoolismo, deficiência mental associado a quadro psicóticos e até, situações
em que o sujeito não apresentava problemas psiquiátricos aparentes e sim uma
problemática social.
Era comum a polícia recolher pessoas que estavam na rua sem ter para
onde ir, que muitas vezes não se sabia de onde vinham e encaminhar
para a Colônia. Era gente que perambulava pela cidade, aí a
Prefeitura sempre dava um jeitinho de trazer para a Colônia. Era a
mãe Colônia que abrigava à todos. (Schweitzer)
Uma vez internado na Colônia, o sujeito era taxado de louco e cada coisa que
fazia quando retornava ao seu meio social, por menor que fosse a gravidade e as
conseqüências, os familiares, amigos e a própria comunidade, acabavam trazendo
de volta para a Colônia como se isso fosse solução para o doente. Na verdade,
era para a família e para a própria comunidade que acabava se livrando do
sujeito, sem mais nem menos. O paciente fazia a verdadeira carreira do doente
mental(17).
Ao chegar no Hospital, aqueles que se apresentavam extremamente agitados eram
encaminhados para o Quinto. Uma enfermaria que se caracterizava por receber
pacientes agitados e transformá-los em seres dóceis. É o que Foucault(9)
descreve sobre a docilização dos corpos. Esta enfermaria possuía dez celas, o
paciente ficava isolado dentro de uma cela individual. Neste local, passava a
receber a alimentação e medicação, só recebendo alta, quando estivesse bem mais
calmo (docilizado) para então, ser transferido para outra enfermaria, até
receber alta hospitalar ou não.
Os pacientes que não estivessem tão comprometidos, ou melhor que não
apresentassem uma sintomatologia muito produtiva, com delírios e alucinações,
tinham a possibilidade de realizar o tratamento, trabalhando, considerado como
praxiterapia na época. Em geral, poderiam participar das inúmeras atividades
que a Colônia proporcionava como: serraria, olaria, carpintaria, moinho de
trigo, matança de suíno, horta, capinação, engenho de cana, mandioca e
destilaria, entre outros. Poderiam ajudar inclusive, nas enfermarias, fazendo a
limpeza; nos refeitórios, servindo as refeições e até na cozinha e lavanderia.
Era comum que em função do reduzido quadro de funcionários da Colônia, os
pacientes assumissem as tarefas não como simples participantes, mas como
membros efetivos a fim de darem conta do serviço.
Os pacientes que estivessem um pouco mais agitados e que não podiam permanecer
nas enfermarias, pois estas ficavam durante o dia, limpas e fechadas, estes
poderiam vagar pelos corredores do Hospital ou permanecer na sombrinha. Havia
duas, uma na ala feminina e outra na masculina. Este local possuía uma forma
arredondada, feito de concreto, com cobertura de telhas e bancos a sua volta,
não havia porta. Os pacientes costumavam realizar voltas circulares, por tempo
indeterminado. Permaneciam neste local, por longos períodos. Um local que não
proporcionava nenhuma ajuda terapêutica, ao contrário, mantinha-os isolados,
dentro de seu próprio mundo, proporcionando a manutenção do seu quadro
psiquiátrico.
Havia portanto, duas possibilidades para os pacientes da Colônia, ou participar
de atividades laborativas e retornar tanto quanto possível ao meio sadio, com a
possibilidade ou não de alta hospitalar, ou permanecer restrito ao seu próprio
mundo, mantendo-se doente. Muitos pacientes permaneceram isolados o que
resultou numa superpopulação de pacientes crônicos, sem perspectivas de retorno
ao convívio social.
Quando se aborda a questão das acomodações, observa-se que na Colônia da época
do estudo, não haviam quartos individuais. Os pacientes dormiam em grandes
enfermarias, denominadas de pavilhões, com mais de cem leitos em cada uma. Nos
fundos, destas, haviam os banheiros com alguns poucos vasos sanitários e
chuveiros. As camas eram posicionadas lado a lado, com um restrito espaço de
separação entre as mesmas, o que dificultava enormemente a circulação de
pacientes na enfermaria. No meio desta, havia o posto de enfermagem, de onde os
funcionários vigiavam constantemente cada um dos pacientes. É o que Foucault
(10) denomina de vigilância perpétua, pois não basta ver o que fazem, mas é
preciso vigiar durante todo o tempo e submeter a uma perpétua pirâmide de
olhares.
Quando a enfermaria estava superlotada, havia mais de um paciente por leito.
Era comum, os pacientes dormirem no chão, quando não havia leitos para todos
(denominado de leito-chão). Alguns pacientes, às vezes, costumavam rasgar seus
próprios colchões, espalhando a crina pelo chão. Pela manhã, havia a
necessidade, urgente, de realizar uma grande faxina, devido a sujeira acumulada
tanto dos colchões, como por outros dejetos eliminados pelos pacientes durante
a noite.
As refeições dos pacientes eram feitas em dois grandes refeitórios, o da ala
feminina e o da masculina. Nestes locais:
Os pacientes costumavam fazer suas refeições sendo servidos em pratos
e canecas de alumínio. Somente muito tempo depois, é que foram
introduzidos, os copos e os pratos de plástico. (Amaral)
Quando se aborda a questão da roupa, verifica-se que haviam problemas crônicos
de falta de roupas, como: lençóis, fronhas e principalmente a roupa de
vestuário. Uma vez que o serviço de costura e o da lavanderia não davam conta
de produzir e lavar a quantidade necessária. Não havia tecido suficiente para
confeccionar as roupas do enxoval básico como: vestidos, calças, camisas,
calcinhas, entre outros. E não haviam máquinas de lavar. Além disso os
pacientes costumavam rasgar suas próprias roupas, diminuindo ainda mais a
quantidade.
No começo a roupa era lavada manual... as funcionárias ficavam com
pulso inchado de esfregar e torcer tanta roupa. Eram 400 vestidos por
manhã e não sei quantas calças e camisas, que secavam num varal ou
até pelos pastos. Não tinha máquinas de lavar na Sant' Ana, mas já
havia no país. Depois é que vieram as máquinas, em 1965. Por causa
disso, muitos pacientes tomavam banho, há cada 8 dias. (Jesus)
É importante registrar que um grande número de pacientes internados eram
provenientes do meio rural, em especial do Oeste de Santa Catarina, onde não
havia a cultura do banho diário, como acontece no centro urbanos, onde a
higiene diária (banho, higiene dental) é muito enfatizada. Associado a este
fato, verifica-se que quando as pessoas adoecem psiquiatricamente, um dos
principais problemas que ocorre é o desleixo com o cuidado pessoal. Como
conseqüência destas questões, da falta de roupa e a higiene precária, resultava
em infestações por parasitos diversos, as chamadas escabioses, pediculoses,
entre outras.
Finalmente, quando se aborda a terapêutica utilizada no tratamento dos
pacientes na época, verifica-se que esta era basicamente constituída pelo
eletrochoque (ECT), pelo cardiazol e a Insulinoterapia.
O eletrochoque, a insulina e o cardiazol eram tratamentos violentos
na prática. Quem aplicava era a enfermagem. O médico prescrevia. Numa
enfermaria era feita a insulina, e na outra, o ECT. Os enfermeiros é
que aplicavam o ECT e a insulina. A insulina tinha muitos pacientes
que não gostavam de fazer. O cardiazol era uma injeção que se fazia
na veia e provocava uma convulsão. O paciente dizia que entrava num
estado violento. Parecia que tudo se acabava Parecia que estava
caindo no fundo do poço. A insulina, o problema era que começava com
uma dose baixa e ia aumentando, até provocar a convulsão. O paciente
entrava em coma. Tirava do coma, aplicando glicose na veia. A gente
deixava o paciente de 5 a 10 minutos em coma, e ele então voltava.
Acordava com outro astral. O paciente melhorava. Para fazer o
tratamento do ECT, os funcionários eram obrigados a fazer um curso
com os médicos. (Schweitzer)
A partir da década de 50, ocorreu uma reviravolta no tratamento psiquiátrico
com o início da utilização de psicofármacos que passaram a ser empregados
amplamente no tratamento dos pacientes. Como reflexo, na Colônia também
passaram a ser utilizadas as medicações como: clorpromazina (Amplictil®),
levomepromazina (Neozine®) e o haloperidol (Haldol®), entre outros. Entretanto
estas medicações não substituíram imediatamente os outros recursos
terapêuticos, mas inicialmente se tornaram um tratamento coadjuvante.
4 Conclusões
O Hospital Colônia Sant'Ana foi criado com a perspectiva de ser um marco na
assistência psiquiátrica catarinense, e durante os seus primeiros anos teve um
excelente desempenho, segundo diversos autores, funcionários e pacientes. No
entanto, no transcurso de sua existência sofreu inúmeras transformações.
Neste estudo foi possível perceber que o Hospital se caracterizou como o
principal pólo de assistência psiquiátrica no Estado de Santa Catarina. Suas
condições físicas, estruturais e materiais oferecidas aos funcionários de
enfermagem e aos pacientes, bem como, o tratamento para estes últimos, estava
distante do ideal, no entanto fazia parte da política do Governo Federal,
caracterizado pela criação de macro hospitais colônias inviabilizando um
tratamento mais digno, justo e humanizado aos doentes psiquiátricos. Além
disso, a Colônia Sant'Ana, a exemplo de outros hospitais brasileiros desse
gênero, mais segregava os doentes e excluía do convívio social do que os
tratava, pois, uma única vez internado no Hospital, bastava para que a família
e a comunidade, passasse a rejeitá-los, por causa dos preconceitos relacionados
à loucura. O que dificultava enormemente o retorno, ao seu meio social, após a
alta hospitalar. Como conseqüência, o Hospital passou a ter um exército de
doentes residuais, ou seja, em 1941, data de sua criação, sua capacidade máxima
estava restrita a trezentos leitos, nos anos 60, a Colônia abrigava mais de
dois mil doentes, demonstrando claramente a falência deste modelo na
assistência psiquiátrica catarinense.