Pesquisas em enfermagem e o perfil epidemiológico do nordeste
1 Introdução
Nos últimos anos, a pesquisa em enfermagem em nosso país vem alcançando
especial destaque e isso se deve, essencialmente, à ampliação dos cursos de
pós-graduação na área, para formar recursos humanos qualificados com o intuito
de promover o desenvolvimento da ciência no Brasil (1, 2 ).
O saber e o fazer ciência dependem do homem e da sua inter-relação com os
outros e com o mundo. Não se faz ciência isoladamente, pois a sua real
finalidade deve ser o bem comum, visando encontrar, de alguma forma,
alternativas e explicações para os problemas que assolam o mundo, considerando
suas múltiplas dimensões sejam elas sociais, políticas, econômicas e afetivas.
A política de globalização vem influenciando, sobremaneira, o contexto social
brasileiro, que por sua vez reflete nas políticas de saúde a necessidade de
adequação do mercado de trabalho. Ora, a saúde de um povo está condicionada
pela estrutura social, expressa de forma individual ou coletiva, bem como na
maneira de como será atendida pela organização existente nos Sistemas de Saúde
e nos processos de trabalhos específicos.
A enfermagem constitui um trabalho específico de saúde sendo, portanto, uma
prática social, que consubstanciada em um modelo de saúde hegemônico garante um
sentido político. Não obstante, os modelos tecnoassistenciais de saúde no
Brasil são diversificados, requerendo o posicionamento e o enfrentamento das
diversidades política e institucional. Assim, ainda parece coerente corroborar
com a literatura que destaca esse modelo da saúde coletiva como adequado aos
princípios e diretrizes constitucionais do SUS, "resultante da evolução técnica
e política dos modelos verticais de saúde" (3:23).
A complexidade das relações entre os fatores sociais, políticos e econômicos
que determinam a saúde da população, vem redimensionando a profissão de
enfermagem em categorias descritas por alguns autores(4)que compõem a prática a
nível assistencial, administrativa, educativa e organizativa.
Nesse processo de redimensionamento das práticas de enfermagem, o fazer ciência
é uma prática que tem sido estimulada e incorporada no cotidiano do enfermeiro
docente, e recentemente no do assistencial, estimulando a produção de
conhecimento em diversas áreas, na busca da integração entre ensino-
assistência-pesquisa.
Em se tratando das pesquisas de enfermagem, na Região Nordeste, estas vêm
contribuindo sobremaneira para o desenvolvimento mais crítico do pensamento em
enfermagem. Talvez, devido ao incremento da pós-graduação stricto sensu, na
difusão da pesquisa e no envolvimento tanto de docentes quanto de enfermeiros
assistenciais, alicerçando, assim, a fundamentação teórica na prática de
enfermagem por meio da estratégia de articulação entre o saber e o fazer (5 ).
A produção de conhecimento constitui a base de sustentação da Enfermagem
enquanto ciência e arte, qual seja pela investigação dos fatos do seu cotidiano
profissional, de indagações teórico-filosóficas ou de sua organização
profissional (6,7) .
Assim, com o intuito de refletir sobre o conhecimento até então produzido pela
enfermagem, alguns pesquisadores(1,7,8) vêm utilizando a proposta aprovada na
oficina de pós-graduação em enfermagem sobre Linhas de Pesquisa e Prioridades
de Enfermagem, no 51º Congresso Brasileiro de Enfermagem e 10º Congreso Pan-
americano de Enfermería, realizado em 1999.
Esta proposta contempla três áreas de conhecimento: profissional, assistenciale
organizacionalque agrupam linhas de pesquisa em Enfermagem e descrevem o
conhecimento profissional produzido dentro da esfera da epistemologia onde a
reflexão acerca das principais disciplinas, conteúdos teóricos e experiências
são inerentes à essência do saber profissional; a assistencial que permeia o
processo de cuidar em todas as fases do ciclo vital e a organizacional que
corresponde à esfera instrumental das disciplinas/conteúdos teóricos e
experiências de ciências afins e para a enfermagem (1) .
Por linhas de pesquisa, considera-se a definição do CNPq, quando afirma que são
temas aglutinados de estudos científicos e/ou tecnológicos, fundamentados em
tradição de caráter investigativo, de onde se originam projetos, cujos
resultados guardam relação entre si(9).
A produção científica em enfermagem requer um olhar que vá além da adequação
das pesquisas dentro de esquemas categoriais pois, o grande desafio da
atualidade está na reorientação das práticas que influenciam o panorama da
saúde no Brasil. E, para que isso ocorra é preciso lançar o olhar
interdisciplinar sobre os determinantes micro (individuais) e macro
epidemiológicos (coletivos).
Inegavelmente, não basta incrementar quantitativamente a produção científica,
mas, adequar essas pesquisas para o atendimento das demandas e prioridades de
saúde da população.
O impacto do presente cenário epidemiológico é gerador de mudanças no enfoque
dos cuidados no ciclo vital. São verdadeiros desafios que se colocam não
somente para a enfermagem, mas para outras áreas e estão relacionados ao
envelhecimento da população com o conseqüente aumento de doenças crônico-
degenerativas, os estilos de vida como determinante de saúde, a modificação da
estrutura familiar, diminuição e disputa dos recursos institucionais (10).
As previsões da Organização Mundial de Saúde, Organização Pan-Americana da
Saúde e do Banco Mundial para 2020 revelam as principais causas de doenças e
mortes, indicando a necessidade de adequação dos modelos de atenção à saúde, em
vários países e que se delineiam para o Brasil e com maior ou menor intensidade
para suas grandes regiões, entre elas o Nordeste. As previsões implicam na
tendência a doenças crônicas em idosos, no deslocamento da prática profissional
do indivíduo para a família e o envolvimento desta como provedora dos próprios
cuidados.
Diante do cenário que se abre é necessário investigar o conhecimento produzido
pelas pesquisas e a tecer análise das suas contribuições para a prática da
enfermagem. Dessa forma, este estudo pretende analisar a relação entre o perfil
epidemiológico da população da Região Nordeste e a produção científica do
Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/UFC. Vale ressaltar que, embora, o
objetivo central da filosofia desse Programa não seja a epidemiologia, entende-
se que como este é considerado um dos centros de referência para a qualificação
strictu senso dos enfermeiros na Região Nordeste, é necessária a produção de
pesquisas dirigidas à realidade de saúde da população.
2 Percurso metodológico
Trata-se de um estudo descritivo exploratório sobre a produção das pesquisas
desenvolvidas pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (P.P.G.E.) da UFC e
sua inserção no processo saúde-doença.
Investigou-se as teses e dissertações produzidas pelo P.P.G.E. no período
de1995 a 2001, defendidas e aprovadas até o primeiro semestre do último ano,
tendo como critério de inclusão as que estavam disponíveis no momento da coleta
de dados, ocorrida nos meses de outubro e novembro de 2001.
O P.P.G.E./UFC conta, desde que foi criado no ano de 1995, com 98 dissertações
e teses defendidas e aprovadas até o primeiro semestre de 2001. O processo de
produção das suas linhas de pesquisa resultou na criação de quatro linhas
intituladas: Assistência participativa no processo saúde-doença, Políticas e
práticas de saúde, Tecnologia em educação e saúde na enfermagem clínico-
cirúrgico, Enfermagem em saúde comunitária.
O instrumento utilizado foi um formulário considerando as seguintes variáveis:
área de conhecimento, linhas de pesquisa e o ano, objeto de estudo, título da
dissertação ou tese.Após a construção do formulário, os dados foram coletados a
partir da leitura dos resumos das dissertações e teses.
Os dados obtidos foram agrupados em tabela e analisados a partir do Esquema
Categorial, como forma de classificar os temas das pesquisas desenvolvidas pelo
PPGE./UFC (1).
Consideramos ainda, as informações epidemiológicas da Organização Pan-Americana
de Saúde ' OPAS e da Organização Mundial da Saúde 'OMS(10), e os indicadores
demográficos e sócio-econômicos dos Indicadores e Dados Básicos Para a Saúde -
IDB dos anos 2000 e 2001 do Ministério da Saúde para a Região Nordeste (11,12).
3 Apresentação e discussão dos resultados
Do total de 98 teses e dissertações defendidas e aprovadas foram analisadas 81,
ou seja, 85%. Destas, agrupou-se 66 na área assistencial, representando 77,8%,
11 na área organizacional, 13,6%, e 7 na área profissional, 8,6%.
Esses achados são semelhantes àqueles encontrados na literatura(9) em estudo
sobre os múltiplos problemas pesquisados e a pesquisar na produção científica
dos Programas de Pós-graduação em Enfermagem do Brasil, no período de 1998 a
2000, destacando, 45,0% na área assistencial e 38,8% na área organizacional.
A análise da relação existente entre a produção científica do PPGE/UFC e o
perfil epidemiológico foi desenvolvida em três categorias referentes às
projeções epidemiológicas para a área assistencial, a organizacional e a
profissional de enfermagem.
A primeira área a ser analisada é a área assistencial que representa o processo
de cuidar em enfermagem em todo o ciclo vital, classificado no esquema
categorial em três linhas de pesquisa: processo de cuidar em enfermagem, cuidar
em enfermagem no processo saúde doença e determinantes da qualidade de vida e
saúde doença.
3.1 A área assistencial de enfermagem e as perspectivas epidemiológicas
Dentro da área assistencial destacou-se a linha de pesquisa determinantes da
qualidade de vida e saúde doença, com 71,3% das teses e dissertações produzidas
pelo PPGE/UFC. Neste sentido, foram contemplados muitos indicadores
epidemiológicos de saúde da mulher em todo o seu ciclo vital e nos diversos
níveis de atenção à saúde, indo de encontro com a necessidade de estudos nessa
área na Região Nordeste, já que as taxas de mortalidade materna são superiores
a 70 óbitos (por cem mil nascidos vivos) em alguns estados da Região (10).
O perfil epidemiológico da Região Nordeste aponta, também, para a necessidade
de pesquisas que estudem comportamentos, atitudes, crenças e valores da
população, tanto quanto os fatores de risco que implicam na manutenção de
doenças e agravos freqüentes, visando a prevenção de doenças e a promoção da
saúde.
Assim sendo, com o incremento da violência, da alta taxa de mortalidade materna
e das doenças crônicas degenerativas, bem como o recrudescimento da dengue, da
cólera, a manutenção de alta prevalência da doença de Chagas, leishmaniose,
esquistossomose, tuberculose, hanseníase e taxas elevadas de mortalidade
infantil em suas micro-regiões requerem estudos que aprofundem as questões
sociais, comportamentais e educacionais que contribuiam para o perfil(10,11).
Face ao cenário epidemiológico que se apresenta, entende-se que a pesquisa tem
a capacidade de mobilizar as entidades envolvidas no processo de assistência à
saúde da população, pois, esta se alia aos indicadores para impactar sobre o
fenômeno saúde-doença.
As temáticas do PPGE/UFC caminharam nesta perspectiva, ao buscar o objeto na
dimensão do sujeito, para compreender as crenças, os sentimentos, os valores e
o comportamento do indivíduo ou da população nordestina frente ao fenômeno
saúde-doença, quer seja na área hospitalar ou na saúde coletiva.
Entretanto, as pesquisas com enfoque nas temáticas relacionadas às doenças
crônico-degenerativas tiveram número reduzido, dentre elas, o diabetes
mellitus, a hipertensão arterial, o câncer, a cardiopatia, a tuberculose e a
hanseníase.
Lembre-se que estas são determinantes do estado de saúde doença o que revela
uma lacuna de investigação que precisa ser preenchida pelo PPGE/UFC. Essas
evidências merecem reflexões e o repensar do saber/fazer em enfermagem e do
processo saúde-doença, já que com o aumento da expectativa de vida e como
conseqüência o envelhecimento da população(12).
Com o aumento das doenças crônico-degenerativas é necessário dispensar esforços
em pesquisar fatores que poderão afetar a qualidade de vida dessas pessoas pois
estas investigações podem melhorar a qualificação do profissional para lidar
com esses problemas, bem como contribuir para a adequação dos serviços de saúde
para bem atendê-los.
Os estudos epidemiológicos têm mostrado uma clara necessidade de pesquisas que
relacionem estilo de vida, comportamentos e problemas advindos da interação
homem e ambiente
Em 1999, as doenças do aparelho circulatório contribuíram com 30% das mortes
registradas na Região, enquanto que as neoplasias e as doenças do aparelho
respiratório representaram, respectivamente, 10,9% e 10%(11).Estas, na sua
maioria, são preveníveis e sofrem importante influência dos fatores ambientais
e do estilo de vida.
A violência é a segunda causa proporcional de morte na Região (15,8%),
vitimando majoritariamente jovens, que quando vista pelos Anos Potenciais de
Vida Perdidos (APVP) indica a primeira causa de morte. No entanto, essa
categoria foi pouco contemplada pela produção científica da PPGE/UFC.
Verificou-se, ainda, a necessidade de intensificar as pesquisas sobre os
determinantes do processo saúde-doença na criança, no adolescente e em todo o
ciclo vital do homem.
3.2 A epidemiologia para área organizacional da enfermagem
Na área organizacional, as temáticas se agruparam, em maior concentração nas
linhas de pesquisa Políticas e Práticas de Saúde e Enfermagem e Produção em
Saúde e Trabalho na Enfermagem, ambas com 27,3% , representando 6 teses e
dissertações. Para contribuir com as políticas e práticas de saúde, as
pesquisas tiveram como foco as redes de serviço na área de saúde mental, o
processo do Programa Saúde da Família e o atendimento da população na rede
básica de saúde.
As políticas de saúde vislumbradas para o século XXI enfatizam a necessidade de
maior articulação entre os gestores, serviços e academia que venha favorecer a
construção de modelos de atenção à saúde, capazes de atender às mudanças
epidemiológicas, culturais e institucionais que compõem o cenário atual (3).
Os estudos com ênfase na produção em saúde e trabalho na enfermagem abriram um
leque em suas temáticas que incluiu desde as relações de poder entre os
profissionais de saúde até as questões de gênero dentro das relações de
trabalho. Pode-se considerar as questões estudadas dentro de um enfoque crítico
e de resistência, utilizando os espaços do cotidiano de trabalho para
compreender como se dão essas relações, que segundo estudioso(13) podem
modificar e renovar a sua atuação para garantir o direito à saúde com
efetividade.
3.3 A tecnologia e o cuidado na profissão de enfermagem
Na área profissional, os temas produzidos se inseriram apenas em duas linhas de
pesquisa: Tecnologias de Enfermagem (57,2%) e Fundamentos do cuidar em
Enfermagem (42,8%) representando, respectivamente, 4 teses e dissertações para
a primeira e 3 para a segunda.
A busca, nos últimos anos, de instrumentos, modelos educativos e softwares
voltados para a educação em saúde com enfoque no planejamento familiar de jogos
educativos para pessoas com HIV e para o aprendizado da verificação de sinais
vitais foram tecnologias de enfermagem discutidas e sugeridas pelas teses e
dissertações do PPGE/UFC para mover as práticas do cuidado na busca da melhoria
da assistência.
As publicações nessa linha incentivaram a criação da linha Tecnologia em saúde
e educação em enfermagem clínico-cirúrgica dentro do PPGE/UFC, buscando
aprofundar as suas bases epistemológicas e situar essa necessidade profissional
às necessidades da população. Para outro autor(8) a enfermagem,
tradicionalmente, se ocupou com essas questões tecnológicas ao desenvolver
estratégias educacionais preventivas ou de manutenção de saúde para
adolescentes, adultos, gestantes, diabéticos, hipertensos para melhorar o
perfil epidemiológico desses grupos, embora não patenteadas. E, sugere a
necessidade de mostrar ao país o que a enfermagem sabe e pode fazer.
Os estudos voltados à capacitação e aprimoramento do cuidar, quer seja entre o
corpo discente e a clientela, ou enfermeiro e clientela foram construídos na
linha de pesquisa Fundamentos do Cuidar em Enfermagem. Além do que, percebe-se
nestes temas a busca de novos rumos para o cuidar, atrelado às tendências
inovadoras que façam surgir práticas amparadas por marcos conceituais capazes
de acompanhar as transformações sociais.
4 Considerações finais
A utilização do Esquema categorial foi suficiente para classificar as temáticas
em áreas de conhecimento, com exceção das linhas "Processo de cuidar em
Enfermagem" e "Cuidar em enfermagem no processo saúde-doença". A semelhança
entre estas duas dificultou a classificação, fato também citado pelos
pesquisadores anteriormente citados (1).
No que diz respeito a construção do conhecimento do PPGE/UFC, esta vem sendo
consolidada, contemplando alguns aspectos que caracterizam o perfil
epidemiológico da Região Nordeste, muito embora, tenha-se constatado que no
curso dessa trajetória, alguns determinantes do processo saúde-doença estão
sendo pouco pesquisados, tais como, a saúde da criança, do adolescente, do
adulto homem, do trabalhador, a violência e as políticas de saúde.
A produção científica do referido programa vem alcançando as prioridades do
CNPq, pois na classificação das linhas de pesquisa segundo o Esquema
Categorial, a sub-área "Determinantes da qualidade de vida e saúde-doença" foi
predominante, destacando-se com pesquisas voltadas para a coletividade.
A enfermagem, como ciência social, não pode deixar à margem estudos que
contemplem reais necessidades de saúde da população. Faz-se necessário, a
valorização dos determinantes micro e macro-epidemiológicos para que a pesquisa
traduza o real construto da práxis, aqui entendida como modo de cuidar que
impacta o processo saúde-doença e, que trata das questões sociais mais
veementes de uma determinada população.
Portanto, cabe agora, aos pesquisadores fazer uma reflexão profunda dos
construtos e rever os temas considerando o perfil epidemiológico, pois este
mostra as condições de saúde da população ao mesmo tempo em que revela a
complexidade dos sistemas de saúde em prover as necessidades de vida saudável.