TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Text view

BrBRCVHe0004-28032008000200008

National varietyBr
Country of publicationBR
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0004-2803
Year2008
Issue0002
Article number00008

Javascript seems to be turned off, or there was a communication error. Turn on Javascript for more display options.

Estudo de alterações na cavidade oral em pacientes com doença do refluxo gastroesofágico ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE

INTRODUÇÃO Considerada afecção digestiva de elevada prevalência e incidência em ascensão, a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) compromete a qualidade de vida dos pacientes, em virtude da gravidade das complicações, intensidade e diversidade dos sintomas(9, 16, 20, 25, 26, 28, 31).

O diagnóstico clínico da DRGE é bastante sensível, pois a maioria dos pacientes apresenta os sintomas clássicos da doença, representados por pirose e regurgitação. Todavia, outros sintomas podem ser referidos pelos refluidores, tais como rouquidão, pigarro, tosse crônica, crises de asma e precordialgias, classificados como atípicos. Tais sintomas podem se apresentar associados aos anteriores ou isoladamente(10, 17, 19, 30, 34, 37).

Recentemente vários autores têm sugerido que os doentes com DRGE podem apresentar, além dos sintomas citados, manifestações bucais, pois o refluxo, ao atingir a cavidade oral, pode causar lesões nos tecidos moles (aftas) ou mesmo nos dentes, levando a desmineralização, fenômeno conhecido por perimólise(2, 5, 6, 7, 15, 21).

Os objetivos da presente pesquisa foram analisar as alterações na cavidade oral de pacientes com a DRGE e compará-las com as observadas em indivíduos controles.

MÉTODOS Foram avaliados 100 pacientes, 41 homens e 59 mulheres, com idades variando entre 17 e 75 anos (média de 35,5 ± 12,9), sendo classificados em dois grupos de 50, sendo o grupo 1 constituído de indivíduos com sintomas de DRGE e o 2 (controle), de indivíduos sem tais queixas. Critérios de inclusão: pacientes de ambos os gêneros, com idade superior a 20 anos e com arcada dentária em bom estado de conservação, com no mínimo 20 dentes. Critérios de exclusão: pacientes com idade inferior a 20 anos, com prótese dentária ou com número de dentes inferior a 20.

Todos foram submetidos a exame clínico da cavidade oral, realizado por um único observador, e responderam a um questionário específico.

Os pacientes do grupo 1 foram submetidos a endoscopia, manometria e pHmetria esofágica prolongada. Tais exames não foram realizados naqueles do grupo 2, por questões éticas.

Após jejum de 12 horas, os pacientes foram avaliados endoscopicamente, usando o videoendoscópio (GIF ' Olympus), que permitiu verificar a presença de hérnia hiatal e/ou as alterações da mucosa esofágica, utilizando-se a classificação proposta por Savary-Miller modificada(35).

Para a realização da manometria esofágica foram utilizados sonda de oito canais, bomba de infusão microcapilar, fisiógrafo de oito canais (Synetics) e microcomputador. A sonda foi introduzida pela narina até o estômago, sendo a seguir tracionada de 1 em 1 cm, aguardando-se a estabilização do registro gráfico(29). A análise dos registros gráficos permitiu a obtenção da medida da amplitude da pressão nos esfíncteres inferior e superior do esôfago (mm Hg), bem como da atividade motora do corpo esofágico.

A pHmetria esofágica de 24 horas foi realizada após suspensão de medicamentos que interferem na secreção ácida por uma semana e jejum de 12 horas, utilizando cateter com sensor de pH de antimônio e eletrodo de referência externa. O exame foi realizado em ambiente de ambulatório e o processamento dos dados foi efetuado com auxílio de um software, que forneceu vários parâmetros, sendo escolhidos para essa pesquisa a percentagem de tempo nas 24 horas em que o pH assumia valores abaixo de quatro unidades e o escore de De MEESTER et al.(12, 23).

O exame clínico da cavidade oral foi realizado após adequada higiene bucal, onde foram diagnosticadas as lesões cariosas, abrasão, desgaste por atrito e erosões dentárias, segundo a classificação proposta por ECCLES e JENKINS(13).

Para as variáveis que apresentaram distribuição normal foi utilizado teste t de Student, caso contrário, o teste não-paramétrico de Mann-Whitney(11). Para estudo da associação entre as variáveis foi utilizado o teste do qui ao quadrado. Considerou-se o nível de significância de 5%.

RESULTADOS Com relação às características demográficas, observou-se que a proporção de indivíduos do sexo feminino no grupo 1 foi de 64%, superior ao do sexo masculino (P<0,05). O grupo 2 (controle) era composto de 23 homens e 27 mulheres (P >0,05). A idade média dos pacientes do grupo 1 (36,8 ± 11,2) não diferiu da observada dos controles (36,3 ± 14,5) (P >0,05).

A endoscopia digestiva alta (EDA) demonstrou hérnia hiatal por deslizamento (HHD) em 76% dos pacientes com sintomas da DRGE. Em 40% dos pacientes a EDA permitiu a visualização de erosões (esofagite de refluxo erosiva), que era de leve intensidade na maioria deles (graus I e II). Em 60% dos pacientes deste grupo não se detectou qualquer lesão na mucosa esofágica (esofagite de refluxo não erosiva ' Tabela_1).

A pressão no esfíncter inferior do esôfago (EIE) dos pacientes com sintomas de DRGE apresentou valores entre 2,1 e 20,4 mm Hg (média de 11,1 ± 4,8 mm Hg).

Hipotonia esfincteriana (pressão no EIE menor que 10 mm Hg) foi observada em 24 pacientes (48%). No esfíncter superior do esôfago (ESE) foram detectados valores pressóricos que variaram entre 28,6 e 153,6 mm Hg, sendo a média de 75 ± 26,5 mm Hg (Tabela_2).

A pHmetria esofágica de 24 horas foi realizada apenas nos pacientes do grupo 1 por motivos mencionados. Durante as 24 horas de estudo, a percentagem do tempo em que o pH esofágico apresentou valores abaixo de quatro unidades (episódio de refluxo gastroesofágico), variou entre 0,6 e 65,56%, sendo a média de 16,9 ± 13,7 (Tabela_3). Em 42 pacientes (84%) os valores observados foram indicativos de refluxo gastroesofágico patológico (maior que 4%)(12).

Quanto ao escore de De MEESTER et al.(11), os valores extremos observados foram 4,16 e 164,91, com média de 57,2 ± 13,7 (Tabela_3). Escore de De Meester patológico (maior que 14,7) foi observado em 84% dos pacientes do grupo 1.

O exame clínico oral detectou várias lesões, sendo erosões, cáries, abrasão e desgastes por atrito as mais comuns (Tabela_4). A análise estatística demonstrou que, com relação às erosões de graus 1 e 2 e ao número total de erosões, o grupo 1 superou o grupo 2 (Tabela_4). Com relação às lesões cariosas, o grupo 2 apresentou maior incidência que o grupo 1 (P <0,01).

Outro aspecto analisado ao exame clínico oral foi o número de faces dentárias acometidas pela erosão. A análise estatística demonstrou que quanto maior o número de erosões, maior era o acometimento da face palatina (Figura_1).

Todos os pacientes responderam ao questionário específico, em que foram analisados alguns sintomas que poderiam estar relacionados ao refluxo ácido para a cavidade oral. As respostas afirmativas encontram-se na Tabela_5. A análise estatística pelo teste do qui ao quadrado (Figura_2) demonstrou que os pacientes com sintomas da DRGE referiam percentuais mais elevados que os controles com relação à presença de aftas, sensibilidade dentária, ardência bucal e gosto azedo.

DISCUSSÃO Para o estudo das alterações da cavidade oral em pacientes com a DRGE optou-se pela pesquisa prospectiva, considerada na literatura como padrão-ouro de pesquisa em saúde(11) Neste estudo foi observado que no grupo 1 (DRGE), 64% dos pacientes pertenciam ao sexo feminino. A maior incidência da DRGE em mulheres tem sido referida por alguns autores(31, 32). Em extenso estudo populacional realizado em Pelotas, RS, OLIVEIRA et al.(31), observaram que a DRGE apresenta maior prevalência entre as mulheres, em geral associada a eventos estressantes negativos e mal estar psicológico.

A idade dos pacientes do grupo 1 (36,8 ± 11,2) não diferiu da observação no grupo controle (36,3 ± 14,5 P>0,05), mostrando que os grupos eram homogêneos. A idade média dos pacientes com DRGE (36,8 ± 11,2) foi semelhante à referida por SOMANI et al.(36), porém inferior à publicada por outros autores(3, 25, 27, 32).

O diagnóstico de HHD foi realizado em 76% do pacientes do grupo 1, resultado semelhante ao observado por LOFFELD e PUTTEN(26). A HHD tem sido considerada como importante fator patogênico da DRGE. Alguns autores(1, 4) demonstraram que em pacientes com HHD volumosa (maiores que 5 cm), a percentagem de refluxo ácido e a intensidade da esofagite são mais elevadas que naqueles com hérnia não-volumosa (P <0,05).

Em estudo epidemiológico realizado na Holanda, LOFFELD e PUTTEN(26) observaram que nos últimos 10 anos houve aumento do número de pacientes com esofagite de refluxo gastroesofágico em graus 1 e 2. Coincidentemente, foi observado nesta série que dos 20 pacientes com esofagite erosiva, 15 apresentaram-na em graus leve e moderado (1 e 2). A explicação para esse fato se deve ao crescente interesse dos médicos pela doença em questão, encaminhando os pacientes precocemente para avaliação endoscópica. O esôfago de Barrett foi diagnosticado em 6% desta casuística, índice inferior ao publicado por LOPES et al.(27) e PAULA(33), que referiram taxas de 35,6% e 25%, respectivamente.

O valor médio da pressão no EIE dos pacientes do grupo 1 foi de 11 ± 4,8 mm Hg, semelhante ao publicado por PASTORE et al.(32), porém mais elevado que o observado por vários autores, que referiram níveis pressóricos variando entre 4,8 mm Hg e 9 mm Hg(14, 27). A hipotonia esfincteriana (EIE) foi observada em 48% dos pacientes, índice que coincide com o referido por NASI(30).

Com relação ao ESE, o valor médio observado nos pacientes do grupo 1 foi de 75 ± 26,5 mm Hg, mais elevado que o publicado por LEMME et al.(24). O resultado encontrado no presente estudo causou surpresa, pois esperava-se valor mais baixo. Nesta eventualidade, o conteúdo refluído chegaria até a cavidade oral com mais facilidade. Em estudo realizado em 251 indivíduos com DRGE e sintomas típicos, CORSI(8) observou valor médio da pressão no ESE de 62,7 ± 37,2 mm Hg.

A pHmetria prolongada demonstrou refluxo anormal em 84% dos pacientes do grupo 1, índice semelhante ao publicado por LEMME et al.(23). Em oito pacientes (16%) a percentagem do tempo com o refluxo ácido esteve abaixo de 4%, isto é, dentro da normalidade, resultado inferior ao referido por CORSI(8). Tal discrepância pode ser explicada pela metodologia empregada. Enquanto que na presente série a pHmetria esofágica foi realizada em ambiente de ambulatório, no trabalho de CORSI(8), ela se fez em ambiente hospitalar.

O exame clínico oral foi realizado nos pacientes dos dois grupos, demonstrando maior incidência de erosões dentárias nos doentes com DRGE que nos controles (P <0,001 - Tabela_4), resultado semelhante ao observado por vários autores(2, 5, 7, 15, 22).

LAZARCHIK e FILLER(22) referem que as erosões decorrentes da ingestão crônica de ácido localizam-se na superfície vestibular dos dentes anteriores. Todavia, nas erosões de causa intrínseca (DRGE e distúrbios alimentares), o processo de descalcificação envolve as superfícies lingual e palatal dos dentes anteriores e oclusal dos dentes posteriores(6, 18). Neste estudo as erosões estavam localizadas em maior número nas superfícies lingual e palatal dos dentes anteriores, em concordância com os autores citados.

Com relação às lesões cariosas, foi observado que nos doentes com DRGE o número de cáries era inferior ao encontrado nos controles (P <0,001 - Tabela_4). Este resultado causou surpresa, pois pensava-se que a DRGE poderia favorecer o aparecimento de lesões cariosas, uma vez que a cárie necessita de pH ácido para se desenvolver.

Os resultados dessa pesquisa com respeito às cáries, estão em concordância com o publicado por CAZZONATO Jr. et al.(7), que referem a relação inversa entre cáries e refluxo gastroesofágico.

A etiologia da lesão cariosa é multifatorial, resultando do desequilíbrio entre fatores extrínsecos (microorganismos da placa bacteriana) e intrínsecos (hospedeiro). Os microorganismos envolvidos na cariogênese são estreptococos, lactobacilos, enterococos e actinomicetos.

Em raciocínio simplista, poder-se-ia supor que o material refluído com baixo pH destruiria os microorganismos da placa bacteriana, levando à redução das cáries nos pacientes com DRGE. Entretanto, tal explicação não tem respaldo científico, pois as bactérias acima listadas são ácido-resistentes(7). Outras hipóteses aventadas seriam que o ácido deixaria a superfície dos dentes lisas e polidas, impedindo o acúmulo de placa bacteriana ou ainda que os indivíduos com DRGE realizariam sua higiene oral maior número de vezes, devido ao gosto azedo provocado pelo refluxo ácido.

Além do fator bacteriano, outros relacionados ao hospedeiro são também importantes na fisiopatologia de lesão cariosa, todos relacionados à saliva, tais como o fluxo, a capacidade tampão e a concentração de eletrólitos e imunoglobulinas. Assim, novas pesquisas analisando esses fatores devem ser realizadas para melhor compreensão das alterações bucais observadas nos pacientes com DRGE.

CONCLUSÕES Os resultados da presente pesquisa permitem concluir que os pacientes com DRGE apresentam: a) maior incidência de erosões dentárias, aftas, ardência bucal, sensibilidade dentária e gosto azedo que os controles; b) número reduzido de lesões cariosas em relação aos controles.


Download text