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BrBRCVHe0004-28032007000200009

National varietyBr
Country of publicationBR
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0004-2803
Year2007
Issue0002
Article number00009

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Polipose gastroduodenal em doentes com polipose adenomatosa familiar Pós- Retocolectomia ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLE

Polipose gastroduodenal em doentes com polipose adenomatosa familiar Pós- Retocolectomia

Gastroduodenal polyposis in patients with familiar adenomatous polyposis after rectocolectomy

Raquel Franco Leal; Maria de Lourdes Setsuko Ayrizono; Cláudio Saddy Rodrigues Coy; Francisco Callejas-Neto; João José Fagundes; Juvenal Ricardo Navarro Góes Grupo de Coloproctologia, Disciplina de Moléstias do Aparelho Digestório, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, SP Correspondência

INTRODUÇÃO A polipose adenomatosa familiar (PAF) é doença autossômica dominante que afeta de 1 a 8 indivíduos a cada 10.000 habitantes, distribuídos igualmente em ambos os sexos e presente em todos os grupos étnicos. Geralmente o aparecimento dos pólipos ocorre na puberdade, sendo caracterizada pela presença de mais de 100 pólipos adenomatosos no cólon e reto(7, 14, 17).

Mesmo após a retocolectomia, a morbimortalidade é influenciada pelas manifestações extracólicas, como os tumores desmóides, pólipos gastroduodenais e os tumores duodenais, sendo os tumores desmóides e duodenais as principais causas de óbito pós-retocolectomia(8).

O rastreamento endoscópico pós-operatório para pesquisa de pólipos gastroduodenais tem mostrado incidência de 90% a 95% de pólipos, sendo que 5% desenvolvem câncer(4, 5, 10). No entanto, este risco é 100 a 300 vezes maior que na população em geral, na qual o carcinoma duodenal é de ocorrência rara(3, 11, 12). Os achados endoscópicos muitas vezes geram dúvidas a respeito das condutas a serem realizadas, não estando suas freqüências bem estabelecidas na literatura(6).

O objetivo deste estudo foi investigar a freqüência de pólipos gastroduodenais na população de doentes com PAF em seguimento de retocolectomia em hospital universitário, a ocorrência de neoplasia local decorrente da transformação maligna desses pólipos e o grau de aderência ao esquema de acompanhamento pós- operatório.

MÉTODOS Trata-se de estudo retrospectivo, descritivo, a partir da análise de prontuários. Entre 1984 a 2005, 62 doentes com PAF foram submetidos a retocolectomia, pelo Grupo de Coloproctologia do Hospital Clinicas da Universidade Estadual de Campinas, SP.

Trinta e cinco (56,5%) eram do sexo feminino, com média de idade de 29,1 (13- 65) anos. Dez (16,1%) apresentavam adenocarcinoma do cólon/reto no momento da cirurgia. Cinqüenta e quatro doentes (85,5%) foram submetidos a retocolectomia com reservatório ileal e oito (14,5%) a retocolectomia com anastomose ileoretal. Nas cirurgias de reservatório ileal foram realizadas mucosectomia e anastomose ileoanal manual.

Os critérios de inclusão foram doentes com polipose adenomatosa familiar em seguimento pós-operatório e realizando regularmente o acompanhamento endoscópico. Foram excluídos os que perderam seguimento ou que evoluíram para o óbito.

O tempo médio de pós-operatório foi de 81,9 (2-264) meses, sendo que sete doentes perderam seguimento, sendo excluídos da análise. Ocorreram três óbitos, um doente no pós-operatório recente ainda no início da casuística, outro no 60 mês de pós-operatório por tumor cerebelar e um no pós-operatório tardio por abdome agudo obstrutivo e perfurativo 3 meses. Este último não possuía pólipos gastroduodenais até esta data e foi incluído no estudo, uma vez que participou regularmente do seguimento pós-operatório até apresentar a intercorrência referida.

No seguimento, esses doentes foram regularmente submetidos a endoscopia digestiva alta (EDA), sendo que a freqüência dos exames foi estabelecida como sendo anual nos doentes com pólipos gastroduodenais e nos demais, a cada 3 anos. Os dados referem-se à última EDA realizada. Os pólipos encontrados foram retirados por via endoscópica e enviados para exame anatomopatológico.

RESULTADOS Dos 53 doentes com PAF em seguimento pós-operatório de retocolectomia, 27 (50,9%) apresentavam adenomas gastroduodenais. Oito (15,4%) possuíam somente pólipo gástricos, 14 (27%) somente pólipos duodenais e 5 (9,6%), pólipos gástricos e duodenais.

Dos 27 doentes que possuíam pólipos, 18 (66,6%) eram do sexo feminino, com média de idade de 32 (18-76) anos. Dentre os 19 (36,5%) com pólipos duodenais, uma paciente com 28 anos de idade, apresentou duodeno repleto de pólipos pequenos, com biopsias aleatórias, mostrando adenoma com displasia de alto grau, sendo submetida a duodenectomia com preservação pancreática e reinserção da papila na alça jejunal. A doente encontra-se no 60 mês de pós-operatório com boa evolução. Outra doente de 31 anos apresentou pólipo em papila duodenal com displasia de alto grau, sendo submetida a duodenectomia, ressecção e reimplante da papila duodenal, evoluindo bem no 60mês de pós-operatório (Figura_1).

Adenocarcinoma em papila duodenal foi encontrado no seguimento de uma doente, de 76 anos. Devido à idade avançada e co-morbidades, optou-se pela realização de duodenotomia, ressecção e reimplante da papila duodenal. Está em seguimento pós-operatório 9 meses sem evidência de recidiva (Tabela_1).

DISCUSSÃO A EDA tem possibilitado o rastreamento de pólipos gastroduodenais nessa população, detectando precocemente áreas de displasia e neoplasia duodenais, além de ser procedimento de baixa morbidade. A ocorrência de pólipos gastroduodenais em doentes com PAF em seguimento neste serviço foi elevada (50,9%), ao passo que a ocorrência de adenocarcinoma duodenal foi de 1,9%, número este semelhante ao da literatura(6, 8, 11, 16).

NUGEN et al.(10) relataram 95% de ocorrência de pólipos duodenais e 5% de adenocarcinoma duodenal nessa população. CHURCH et al.(4), observaram adenomas no trato gastrointestinal superior acima de 90%, principalmente no duodeno.

VASEN et al.(18) descreveram adenomas duodenais em 90% dos pacientes com PAF, e adenocarcinoma duodenal em 3% a 4%. BULOW et al.(2), em análise de 368 casos com PAF, encontraram pólipos duodenais em número menor que a dos autores anteriores (65%) e taxa cumulativa de incidência de câncer duodenal de 4,5%.

TULCHINSKY et al.(17) estudaram 50 doentes com PAF pós-retocolectomia total, dos quais 41 tiveram seguimento endoscópico e, destes, 11 desenvolveram adenomas duodenais (26,8%). Esses autores apresentaram taxa de aderência ao seguimento de 82%, próxima a obtida neste estudo (88,7%).

A causa de mortalidade dos doentes com PAF que foram submetidos a retocolectomia, tem mudado substancialmente, sendo o tumor duodenal e o tumor desmóide as causas mais freqüentes de óbito nesta população(9, 17).

SPIGELMAN et al.(16) propuseram uma classificação para os pólipos duodenais de acordo com o número de pólipos encontrados, além do tamanho, histologia e grau de displasia. A cirurgia estaria indicada, segundo os autores, no estágio III e IV de Spigelman. Neste estudo não foi utilizada a classificação de Spigelman.

No entanto a indicação de intervenção terapêutica nos casos de adenocarcinoma e adenomas com displasia de alto grau são indiscutíveis(3).

A escolha da melhor opção terapêutica a realizar-se nestes casos pode, no entanto, não ser tão clara e irá depender das condições clínicas do doente e a localização dos pólipos(15). A polipectomia endoscópica e a duodenotomia com polipectomia cirúrgica são condutas mais conservadoras que previnem o câncer temporariamente, com baixa morbidade, porém com alta taxa de recurrência dos pólipos(1, 3, 13). a duodenectomia ou duodenopancreatectomia são condutas mais invasivas, "curativas", porém com alta taxa de morbimortalidade(3).

CONCLUSÕES Dentro dos limites metodológicos propostos para este estudo, com análise retrospectiva da casuística, o rastreamento endoscópico foi eficiente em detectar as lesões gastroduodenais e principalmente o caso de adenocarcinoma duodenal ainda em fase precoce, e também demonstrou boa aderência ao programa de acompanhamento pós-operatório. Estudos prospectivos, no entanto, são necessários para melhor avaliar a eficácia e necessidade desse acompanhamento e desenvolver estratégias preventivas e curativas efetivas.


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