Relação entre idade e motilidade do esôfago em pacientes com doença do refluxo
gastroesofágico
ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLESINTRODUÇÃO
A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é conseqüência da exposição
prolongada da mucosa esofágica ao conteúdo gástrico(22), da baixa resistência
da mucosa à agressão pelo refluído e da agressividade deste material.
A duração da exposição está relacionada com o número de episódios de refluxo,
da capacidade do esôfago em retirar o volume refluído, devolvendo-o ao
estômago, e da neutralização do seu componente ácido com a chegada de saliva ao
esôfago distal(11).
A retirada do material refluído do esôfago é dependente da motilidade do órgão
(13). Contrações não propagadas, de baixa amplitude ou simultâneas, o que
define a motilidade do esôfago ineficaz(15, 16), comprometem o mecanismo de
depuração esofágica(22).
O objetivo deste trabalho foi estudar a motilidade do corpo do esôfago em
pacientes com sintomas de refluxo gastroesofágico com e sem esofagite, com a
hipótese de que pacientes com esofagite mais grave têm alterações na motilidade
do esôfago mais intensas do que aqueles sem esofagite. Examinou-se, também, a
possibilidade daqueles com mais idade terem mais alterações do que os com menos
idade, considerando que há resultados que mostram que a amplitude da contração
esofágica e a proporção de contrações peristálticas diminuem com o
envelhecimento(7) e a hipótese de que as possíveis alterações da contração
estejam restritas à parte distal do esôfago, uma vez que em trabalho anterior
observou-se que as contrações em parte proximal do esôfago de pacientes com
sintomas de DRGE são semelhantes às de controles(4).
MATERIAL E MÉTODO
Em período de 2 anos realizou-se manometria do esôfago em 104 pacientes com
queixas de pirose e regurgitação ácida. O exame foi parte da investigação
diagnóstica de DRGE, que incluía também exames radiológico e endoscópico do
esôfago. Neste grupo de pacientes o exame radiológico foi normal.
A endoscopia foi normal em 42 pacientes (10 homens), com idades entre 17 e 78
anos (mediana 41 anos), revelou esofagite moderada em 47 (17 homens), com
idades entre 19 e 73 anos (mediana 46 anos), e esofagite grave em 15 (8
homens), com idades entre 36 e 81 anos (mediana 50 anos). Os pacientes com
endoscopia normal não apresentavam qualquer lesão em mucosa do esôfago, aqueles
com esofagite moderada tinham lesões que correspondiam aos graus I e II da
classificação de Savary-Miller(21), e com esofagite grave aos graus III e IV
desta classificação, sendo que seis pacientes tinham esôfago de Barrett. Os
pacientes referiam melhora dos sintomas, em diferentes graus de intensidade,
com o tratamento clínico com inibidor da bomba de prótons.
Na avaliação da motilidade esofágica utilizou-se o método manométrico, com um
cateter de polivinil de oito canais com diâmetro externo de 4,5 mm e diâmetro
interno em cada canal de 0,8 mm (Arndorfer Specialties, Inc, Greendale,
Wisconsin, EUA). Os quatro canais proximais tinham aberturas laterais
distanciadas de 5 cm, formando ângulos de 90º. Foram conectados a transdutores
de pressão (pub Medizintechnick Gmb H, Kirchseeon, Alemanha), ligados ao
aparelho PC Polygraph HR (Synectics Medical, Stockholm, Suécia). Os sinais
manométricos foram arquivados em computador. Durante o exame, o cateter foi
perfundido continuamente com água a um fluxo de 0,5 mL/minuto em cada canal,
por uma bomba de infusão de baixa complacência (JS Biomedicals, Ventura, CA,
EUA).
Os pacientes foram estudados na posição supina após 12 horas de jejum. O
cateter foi introduzido pela narina. Na avaliação das contrações utilizaram-se
os quatro canais do cateter, distanciados de 5 cm entre si. Localizou-se a
abertura do canal proximal 2 cm abaixo do esfíncter superior do esôfago (ESE) e
as outras a 7 cm, 12 cm e 17 cm distal ao ESE. Nesta posição foram realizadas
cinco deglutições de 5 mL de água, com intervalo mínimo de 20 segundos entre
elas. Os pacientes eram orientados a realizar uma única deglutição e, caso
houvesse deglutição dupla, tosse, náusea ou movimentação do paciente, ela era
repetida. O marcador de evento para deglutição líquida foi utilizada para
indicar cada deglutição.
Utilizando o programa Polygram Upper GI versão 6,4 (Gastrosoft, Stockholm,
Suécia), mediram-se a amplitude, a duração, a área sob a curva (ASC) e o tempo
de propagação das contrações, bem como o percentual de falhas de contração e de
contrações peristálticas, simultâneas e não propagadas. A contração foi
considerada falha quando, após a deglutição de água, não havia aumento de
pressão no local onde ela era registrada. As contrações foram consideradas
peristálticas quando o início do aumento de pressão entre dois locais
consecutivos ocorreu com intervalo de um segundo ou mais, e consideradas
simultâneas quando este intervalo foi inferior a um segundo. Contrações não
propagadas foram aquelas interrompidas entre dois locais consecutivos do
esôfago. Consideraram-se as medidas realizadas a 2 cm do ESE como sendo
representativas do esôfago proximal, e aquelas realizadas a 17 cm como sendo
esôfago distal(6).
Para análise estatística, utilizou-se o teste de análise de variância (ANOVA),
o teste de Tukey para múltiplas comparações e o teste de Fisher. Os resultados
são apresentados como média, desvio padrão e percentagem.
RESULTADOS
Aos 12 cm e 17 cm do ESE a média da amplitude da contração dos pacientes com
esofagite grave foi menor do que a amplitude dos pacientes sem esofagite ou com
esofagite moderada (P <0,05, Tabela_1). Aos 2 cm e 7 cm do ESE não houve
diferenças entre os grupos.
Aos 17 cm do ESE a área sob a curva das contrações foi menor nos pacientes com
esofagite grave, quando comparada com os pacientes sem esofagite ou com
esofagite moderada (P <0,01, Tabela_2), sem diferenças aos 2 cm e 7 cm do ESE.
Não houve diferenças entre os grupos quanto à duração das contrações e ao
intervalo de tempo entre o início das contrações (Tabelas_1, 2). Também não
houve diferenças entre os grupos em relação à percentagem de falhas de
contração e percentagem de contrações peristálticas, simultâneas e não
propagadas (Tabela_3).
Nos três grupos não houve diferença entre os pacientes com mais e aqueles com
menos de 50 anos (Figuras_1, 2).
DISCUSSÃO
Os resultados indicam que os pacientes com lesões mais intensas provocadas pelo
refluxo gastroesofágico, têm menor amplitude das contrações esofágicas em parte
distal do esôfago, do que pacientes com lesões menos intensas ou sem lesões, e
que o fato de o paciente ser mais idoso não deve influenciar as contrações.
A amplitude das contrações em parte distal do esôfago nos pacientes com
esofagite grave, não diminuiu até valores que caracterizam a motilidade de
esôfago ineficaz(15), descrita como amplitude em esôfago distal inferior a 30
mm Hg ou proporção de contrações não propagadas igual ou maior que 30% do total
de deglutições líquidas. Entretanto, a amplitude das contrações observadas em
parte distal do esôfago dos pacientes com esofagite grave foi inferior à dos
pacientes sem lesões esofágicas ou com esofagite moderada, bem como inferior a
de pessoas normais estudadas pelo método(3, 5, 8, 20).
Se pacientes com doença mais grave têm amplitude da contração diminuída em
parte distal do esôfago, é importante entender o que isto significa para a
evolução da doença. Pacientes com diminuição da amplitude presente na
motilidade do esôfago ineficaz (<30 mm Hg) têm aumento do tempo total de
exposição do esôfago ao pH inferior a 4, e dificuldade na depuração esofágica
de ácido, quando comparados com pacientes com motilidade normal(15). Outro
estudo demonstrou que perda importante das contrações esofágicas provoca
aumento da exposição do esôfago distal ao volume e pH ácido quando na posição
supina, havendo depuração normal quando na posição ortostática(22).
Independente da presença ou não das contrações esofágicas em partes média e
distal do esôfago e independente da posição, a chegada da saliva deglutida ao
esôfago distal não é interrompida ou mais demorada(6). Entretanto, quando as
contrações esofágicas estão ausentes, a depuração da saliva na posição supina
está prolongada(6). É sugerido que este maior tempo para a depuração aumenta a
possibilidade de desenvolvimento de adenocarcinoma na transição esofagogástrica
(18). Adenocarcinomas ocorrem no local onde a saliva encontra o suco gástrico
ácido. A mistura dos dois gera compostos nitrogenados potencialmente
mutagênicos e carcinogênicos(18).
Motilidade do esôfago ineficaz de grau moderado não afeta a depuração de volume
ou química do ácido refluído(22). Os pacientes com esofagite grave estudados
não tinham diminuição tão expressiva das contrações em esôfago distal, portanto
não é esperado haver grandes prejuízos na depuração. Mesmo com esta
consideração, a maior intensidade da esofagite esteve associada com diminuição
média da amplitude distal, sugerindo que esta possa ter importância na
determinação da gravidade da esofagite. Entretanto, há resultados que não
confirmam a associação entre motilidade do esôfago ineficaz e a presença de
lesão esofágica(16). No esôfago proximal não foram observadas diferenças entre
os grupos, o que confirma resultados anteriores(4, 14).
Não se observou efeito do envelhecimento nas contrações deste grupo de
pacientes. O envelhecimento afeta as contrações, compromete o trânsito pelo
esôfago(8) e diminui a amplitude da contração(7). Quando da ocorrência de
refluxo gastroesofágico, o tempo de exposição ao material refluído é maior nas
pessoas idosas do que nos jovens(9). Estes estudos foram realizados em
pacientes com média de idade maior do que as idades daqueles estudados nesta
série, portanto é possível que pacientes com DRGE mais idosos tenham alterações
de motilidade esofágica com maior freqüência do que pacientes mais jovens.
Em pessoas normais, o trânsito de bolo líquido de baixa ou alta viscosidade, em
posição supina ou sentada, é mais longo em parte distal do esôfago, quando
comparado com a parte proximal(25). A amplitude da contração é maior em parte
distal do esôfago do que em parte proximal(3, 20, 25). Nos resultados deste
estudo os pacientes sem lesão esofágica ou com esofagite moderada tiveram
amplitude das contrações em parte distal (17 cm do ESE), em média um pouco
superior à amplitude em parte proximal (2 cm do ESE), mas nos pacientes com
esofagite grave a média de amplitude foi menor em parte distal, quando
comparado com a parte proximal, o que poderia aumentar o naturalmente mais
longo tempo de trânsito pelo esôfago distal. Entretanto, existe a possibilidade
do trânsito em esôfago distal não depender da amplitude da contração(6, 25), o
que faz com que a presente observação de baixa amplitude de contração em
pacientes com esofagite grave, como já havia sido observado anteriormente(14),
seja analisada com reservas quanto à associação causa-efeito. Outros fatores
podem estar envolvidos determinando tanto a diminuição da amplitude, quanto a
gravidade da esofagite. O comprometimento da motilidade em região distal do
esôfago e proximal do estômago poderia determinar a baixa amplitude da
contração, o relaxamento transitório do esfíncter inferior do esôfago associado
ao refluxo gastroesofágico, a baixa pressão deste esfíncter e as alterações na
acomodação do estômago proximal ao volume ingerido(2, 12), alterações que,
embora bastante estudadas nos dias de hoje, ainda não são completamente
conhecidas quanto a sua fisiopatologia.
É possível que a diminuição da amplitude seja conseqüência da esofagite. Este
fato é sugerido por estudos que mostram que a amplitude e a proporção de
contrações peristálticas aumentam após o tratamento clínico da esofagite de
refluxo(7, 19). Outros trabalhos, porém, não confirmam estes resultados(23,
24). Prevalece a idéia de que o comprometimento da motilidade do esôfago é
irreversível(15), o que coloca esses pacientes, em conseqüência à má depuração
esofágica, em maior risco para complicações do refluxo gastroesofágico, como
esôfago de Barrett e estenoses, indicando a necessidade de supressão ácida mais
efetiva.
Durante o exame manométrico posicionou-se a abertura lateral mais proximal do
cateter a 2 cm do ESE com o objetivo de se avaliar as contrações em esôfago
proximal. O comprimento do corpo do esôfago varia de 18 a 25 cm(1, 10) e não
tem relação com a altura ou peso do indivíduo(17). Estudo realizado em um
número grande de pacientes (n = 212) encontrou que o comprimento do corpo do
esôfago, medido pelo método manométrico, tem média e desvio padrão de 22,9 ±
2,9 cm, mediana de 23,0 cm(17). Tendo em consideração estes resultados,
entende-se que as medidas realizadas a 17 cm do ESE eram representativas das
contrações em metade distal do esôfago, a menos de 8 cm do esfíncter inferior
do esôfago(6), embora não se possa afirmar que foram todas realizadas à mesma
distância do esfíncter.
Em conclusão, a amplitude das contrações esofágicas em parte distal do esôfago
de pacientes com esofagite grave foram menores do que de pacientes com sintomas
de refluxo, mas sem lesão esofágica, e de pacientes com esofagite moderada. Não
se observou efeito da idade nas contrações esofágicas.