O critério de positividade para a análise imunoistoquímica da p53 na
confirmação da displasia do esôfago de Barrett faz diferença?
ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLEINTRODUÇÃO
O esôfago de Barrett (EB) é uma condição adquirida, presente em até 2% dos
pacientes submetidos a esofagogastroduodenoscopia e em 10% a 15% dos doentes
crônicos de sintomas de refluxo duodenogastroesofágico(4, 8, 10), na qual uma
extensão variável do epitélio escamoso esofágico é substituído por um epitélio
colunar glandular, contendo células caliciformes(8, 22, 26, 31).
A importância desta metaplasia reside no fato deste epitélio anômalo poder
evoluir para o adenocarcinoma, com a doença sendo constatada, geralmente, em
estádios avançados. A sobrevida média não costuma ultrapassar os 12 meses, com
menos de 10% dos doentes contando com sobrevida superior a 5 anos(7, 26).
Visto o adenocarcinoma apresentar incidência não desprezível e prognóstico
reservado, recomenda-se vigilância endoscópica e histológica por toda a vida do
paciente com epitélio de Barrett(26, 31). Quando da opção pelo programa de
vigilância, a detecção da displasia ainda representa o padrão-ouro para a
avaliação da progressão para o câncer ou para a detecção do próprio carcinoma
in situ(18, 26). No entanto, embora considerada condição neoplásica inequívoca
sobre certas circunstâncias, sua detecção apresenta certa ambigüidade no
diagnóstico histopatológico, não apresenta nenhuma característica macroscópica
específica e conta com imensa variação interobservador na avaliação
histológica, além de poder apresentar resultados falso-negativos por erros de
amostragem na coleta das biopsias(1, 14, 29). Mais ainda, a história natural
das displasias, tanto as de baixo quanto as de alto grau, não está totalmente
esclarecida e a diferenciação celular com mudanças reacionais secundárias à
inflamação pode ser de difícil avaliação em casos de displasia de baixo grau
(10).
Assim, compreendendo-se a dificuldade em acompanhar com segurança os doentes
com EB e de intervir precocemente antes da evolução para o adenocarcinoma, a
literatura tem demonstrado grande apreço na busca de marcadores tumorais para
detectar os casos de EB propensos ao desenvolvimento do câncer. Entre os
marcadores em estudo, uma das opções é a p53, passível de avaliação pela
imunoistoquímica, método relativamente simples, rápido, de custo acessível e
disponível na maioria dos laboratórios de patologia(24). Contudo, ainda não há
consenso quanto ao valor deste marcador entre pacientes com displasia, bem como
o critério de positividade a ser empregado.
Sendo assim, foi objetivo deste estudo avaliar, por meio de dois critérios de
positividade, se a p53 apresenta ou não maior expressão em doentes com EB com
alterações displásicas estabelecidas, pelo acordo no diagnóstico
histopatológico entre três patologistas.
MATERIAL E MÉTODOS
O material, avaliado no laboratório de Patologia do Programa de Pós-Graduação
em Patologia da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre,
RS, foi constituído por 42 blocos de parafina contendo múltiplos fragmentos de
esôfago provenientes de biopsias endoscópicas. Foram utilizados como critérios
de inclusão, presença de epitélio colunar especializado confirmado pela
coloração com hematoxilina-eosina (H-E) e pelo PAS-alcian blue (PAS-AB),
displasia confirmada por três patologistas, e ausência de adenocarcinoma.
MÉTODOS
Exame histopatológico
O material, fixado em formalina a 10%, foi previamente submetido a
processamento em soluções com concentração crescente de álcool e xilol e
incluído em blocos de parafina. Destes, foram obtidos cortes histológicos de 3
micrômetros através de micrótomo manual, que foram depositados em banho-maria a
37ºC e distendidos em duas lâminas: uma para coloração com H-E e outra para
coloração com PAS-AB em pH ácido. A leitura das lâminas coradas com H-E e com
PAS-AB para a confirmação da metaplasia intestinal e para a avaliação da
presença e do grau da displasia, quando presente, foi realizada simultaneamente
por dois examinadores (C.V.L. e A.A.H.) de maneira cega, em microscópio óptico
(Olympus BX 40f-3), com ocular de 10x e objetivas de 10, 20 e 40x. A troca de
opiniões só foi permitida quando da ocorrência de diagnósticos divergentes, com
o intuito de se atingir um consenso.
A avaliação histológica foi realizada somente em biopsias endoscópicas
intactas, providas de lâmina própria. As alterações com suspeita de displasia
deveriam estar presentes em, pelo menos, mais de duas glândulas de proximidade
ao epitélio escamoso adjacente. Quando mais de um fragmento da mesma biopsia
endoscópica estivesse presente no mesmo corte, o grau de displasia da peça foi
considerado o maior grau presente em qualquer dos fragmentos. Os critérios
histopatológicos para a caracterização da displasia seguiram os critérios de
MONTGOMERY et al.(25), ou seja:
* displasia de baixo grau (DBG): núcleos aumentados, hipercromáticos, com
contornos irregulares, respeitando a polaridade celular, acompanhados
pela redução expressiva do número de células caliciformes e da mucina no
ápice celular;
* displasia de alto grau (DAG): perda da polaridade nuclear e ausência de
relação consistente entre os núcleos, demonstrando acentuada distorção da
arquitetura glandular, com superfície mucosa de configuração viliforme,
presença de pontes epiteliais intra-glandulares de aspecto cribiforme,
além de ausência de células caliciformes.
Posteriormente, um terceiro patologista (K.S.) foi convidado para analisar as
mesmas lâminas, seguindo os mesmos critérios, a fim de avaliar a concordância
interobservador com os diagnósticos de displasia dos laboratórios de origem e
com a leitura aqui realizada. Os casos indefinidos para displasia, quando
presentes, foram agrupados com aqueles com DBG, conforme sugerido por
MONTGOMERY et al.(25). Foram considerados como verdadeiramente com displasia os
casos concordantes entre três diferentes patologistas.
Reações de imunoistoquímica
Para o estudo da expressão da p53 foi empregada a técnica da estreptavidina-
biotina-peroxidase. Cortes de 3 micrômetros de espessura foram fixados em
lâminas silanizadas e armazenados à temperatura ambiente por, no máximo, 48
horas. Para a recuperação antigênica foi utilizado o calor úmido em banho-
maria. O anticorpo primário foi o anticorpo monoclonal de camundongo contra a
p53 humana (clone DO-7, DAKO Corporation, Carpinteria, CA, EUA). O cromógeno
utilizado foi a diaminobenzidina. A diluição adequada do anticorpo primário foi
1:800. O controle positivo foi o carcinoma de mama. Por sua vez, como controle
negativo, foi utilizada uma lâmina com cortes teciduais, sem o emprego do
anticorpo primário durante o processamento do material. A avaliação da
expressão imunoistoquímica do material analisado também foi realizada de
maneira cega por dois dos autores desta casuística (A.A.H. e C.V.L.), de forma
independente. Dois critérios de positividade foram empregados: 1. a forte
coloração acastanhada nuclear de, no mínimo, metade das células e 2. a
coloração nuclear de qualquer número de células em campo de grande aumento
(400x).
Análise estatística
Um P<0,05 foi considerado significativo para todos os procedimentos
estatísticos do estudo. A análise de variáveis categóricas empregou o teste do
Qui-quadrado. A comparação de médias empregou o teste t de Student. A
reprodutibilidade intra e interobservador quanto à positividade para a p53,
utilizou o teste Kappa. Com o emprego deste teste, quatro possibilidades de
acordo entre diferentes leituras poderiam ser obtidos: muito bom (0,81-1), bom
(0,61-0,80), razoável (0,41-0,60) e fraco (0,01-0,40). Os dados foram
processados e analisados com o auxílio do programa SPSS (SPSS Inc., Chicago,
EUA), versão 10.0 para Windows.
O presente estudo foi apreciado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Santa Casa
de Porto Alegre, tendo sido aprovado no dia 7 de maio de 2002 e protocolado sob
nº 434/02.
RESULTADOS
Características da população estudada
A população foi constituída por 42 pacientes, sendo 27 homens e 15 mulheres,
com média etária de 55,8 (19-84) anos.
A extensão média do epitélio metaplásico foi de 3,4 cm e o número total de
fragmentos provenientes das biopsias endoscópicas foi de 229, com média de 5,4
(1 a 18) fragmentos por paciente.
Graduação da displasia
O diagnóstico de displasia resultante da análise individual do mesmo grupo de
lâminas por cada patologista variou de 21,4% a 54,8%, com maioria sendo
rotulada como DBG (88,9% a 95,6%).Para análise análise do estudo estudo foram
considerados como pacientes com displasia os casos concordantes entre os três
patologistas. Assim, a displasia foi constatada em seis casos, sendo de baixo
grau em cinco casos e de alto grau em apenas um caso, perfazendo 14,3% da
amostra.
Expressão da p53 no esôfago de Barrett
Antes da avaliação da expressão imunoistoquímica da p53 no EB, alguns fatores
de confusão para sua expressão foram revisados. A idade, o sexo masculino e a
extensão do epitélio metaplásico não influenciaram a positividade da p53
(P>0,05).
A reprodutibilidade tanto intra, quanto interobservador, para a expressão da
p53 com qualquer critério de positividade foi muito boa (Kappa >0,80).
Ao se considerar como critério de positividade, pelo menos, metade dos núcleos
corados, a p53 foi detectada no EB, com ou sem displasia, em 6 (14,3%) dos 42
casos. Por sua vez, ao se considerar como critério de positividade a presença
de qualquer número de núcleos corados, a p53 foi detectada em 18 (42,8%) casos.
Especificamente para os com epitélio metaplásico nãodisplásico, com os
diferentes critérios de positividade, a p53 foi detectada, respectivamente, em
5 (13,9%) e 14 (38,9%) casos.
Expressão da p53 no epitélio de Barrett com displasia
Antes da avaliação da expressão imunoistoquímica da p53 no epitélio metaplásico
com displasia, algumas variáveis foram testadas para verificar sua influência
no processo displásico. A idade, o sexo masculino, o número de fragmentos e a
extensão do epitélio metaplásico não influenciaram a presença de displasia
(P>0,05).
Entre os seis casos displásicos, quando da necessidade de, pelo menos, metade
dos núcleos corados como critério de positividade, a p53 foi detectada em
apenas um (16,7%) caso com DBG. Ao se avaliar qualquer expressão da proteína
entre os pacientes com displasia, quatro (66,7%) casos expressaram a p53, três
com DBG e outro com DAG (Tabela_1).
DISCUSSÃO
Apesar de a metaplasia intestinal, quando francamente presente, ser um
diagnóstico com adequada reprodutibilidade(20), o mesmo não ocorre para as
displasias(1, 10, 14, 21, 29), ponto de extrema relevância na tomada de
decisões quanto ao acompanhamento clínico e à opção terapêutica entre doentes
com EB.
Na experiência dos autores deste estudo(21), em cada uma das leituras
realizadas por diferentes patologistas, a displasia foi detectada, em média, em
um terço dos casos (39%), oscilando de 21% a 52%. Quando a displasia esteve
presente, esta foi de baixo grau em 92% dos casos. Apesar da plena concordância
para a displasia entre os diferentes patologistas ter sido de apenas 14%, este
índice beira a real prevalência da displasia em diferentes séries(27, 33).
Procurando contribuir na confirmação da displasia e na predição do risco para
degeneração maligna, a expressão imunoistoquímica da p53 constitui uma das
maiores experiências sobre o tema. A p53 é ativada sobretudo pelo dano ao DNA,
garantindo a manutenção da estabilidade genômica e suprimindo a carcinogênese
pela indução ou repressão da transcrição de genes envolvidos na regulação do
ciclo celular, no reparo do DNA e na indução da apoptose quando o dano celular
é irreversível(16,19). Nas neoplasias malignas epiteliais, como no
adenocarcinoma oriundo do EB, as mutações da p53 são comumente encontradas, com
cerca da metade de todos os casos com alguma forma de mutação(16). Uma vez
alterada, a p53 perde sua capacidade de interação ao DNA, assim permitindo a
proliferação de células com instabilidade genômica, etapa primordial para a
progressão ao câncer(5,12). Além disso, ao contrário da proteína nativa, a
proteína mutante apresenta maior expressão e conta com meia-vida mais
prolongada, tendo maior possibilidade de ser detectada pela imunoistoquímica
(16).
O emprego de anticorpos específicos contra a p53 revela-se um meio indireto
para a detecção de mutações, embora ainda haja discordância entre a
hiperexpressão da proteína anômala e a verdadeira presença de mutações, sem a
hiperexpressão da p53 contar com um limiar abaixo do qual a associação entre a
detecção imunoistoquímica da proteína e a mutação do material genético seja
perdida(19). Contudo, os critérios de positividade para sua detecção são
extremamente divergentes, ainda não havendo um consenso. Especificamente quanto
ao melhor anticorpo para a detecção da proteína de casos com mutações, BAAS et
al.(2)avaliaram seis anticorpos em neoplasias colorretais com mutações
confirmadas pela reação em cadeia da polimerase. Na presença de mutações do
gene TP53, o anticorpo monoclonal DO-7 demonstrou os melhores resultados quanto
à detecção nuclear da proteína anômala, com sensibilidade de 67% e
especificidade de 90%. Este estudo é único pela avaliação de diferentes
anticorpos também empregados rotineiramente na avaliação da p53 no EB. Ainda
sobre o tema, BIAN et al.(3) compararam diferentes mutações avaliadas através
da PCR, com a expressão da proteína mutante, avaliada pela imunoistoquímica com
o mesmo anticorpo. Houve concordância dos resultados entre os dois métodos
tanto no adenocarcinoma (57% vs 67%), como na DAG (77% vs 85%). Por sua vez,
não houve concordância adequada entre os métodos na DBG (29% vs 71%), que
representou 78% dos resultados positivos por imunoistoquímica naqueles sem
mutações, quando avaliados pela PCR. Desta maneira, a detecção imunoistoquímica
da p53, independente do critério de positividade empregado, ainda não teve
definida sua real aplicabilidade no EB. Mesmo com o emprego de um mesmo
anticorpo (clone DO-7), a literatura demonstra achados conflitantes, podendo
culminar com sobreposição ou mesmo perda de resultados positivos. Sem padrões
definidos, os critérios variam desde a presença de qualquer núcleo corado, até
a utilização de complicadas escalas de quantificação com valorização do
percentual de núcleos corados, sua distribuição e intensidade de coloração
(Tabela_2).
SYMMANS et al.(32), empregando como critério de positividade um limiar de 50%
ou mais dos núcleos corados, não detectaram a p53 no EB não-displásico e sim em
30% dos com displasia, sendo 37% nos casos com DBG e 20% entre os com DAG. Por
sua vez, embora com critérios semelhantes, WU et al.(34) detectaram a p53 no EB
não-displásico em 5% dos casos, na DBG em 31% dos casos e em 71% dos com DAG.
ILLUECA et al.(15), utilizando escala com quatro intervalos de 25% dos núcleos
corados como critério de positividade, detectaram a p53 no EB não-displásico em
não-displásico em 15% dos casos, perante 30% entre os com DBG e 57% nos casos
com DAG, embora predominantemente com menos de 25% dos núcleos corados. Já com
o emprego de um critério de positividade mais abrangente, com pelo menos 10%
dos núcleos corados, o EB não-displásico expressou a p53 em 6% dos casos, com
cifras elevando-se para 28% e 89%, respectivamente, naqueles DBG e DAG(17). Com
o mesmo critério, BIAN et al.(3) não detectaram a p53 no Barrett não-
displásico, porém a detectaram em 71% dos com DBG e em 85% dos com DAG.
Desta maneira, visto ainda não se contar com padrões uniformes para definir a
positividade da p53, optou-se pelo emprego de dois critérios para definição da
positividade da reação imunoistoquímica: um abrangente, de leitura muito fácil
e com adequada reprodutibilidade, sendo a detecção de qualquer núcleo
fortemente corado no epitélio metaplásico; o outro, mais restritivo, porém sem
grandes dificuldades inerentes ao estabelecimento de múltiplas escalas
numéricas de graduação, que poderiam acarretar maior divergência tanto intra,
como interobservador(6), foi a presença de, pelo menos, metade dos núcleos
corados. Após o estabelecimento dos critérios de positividade, a
reprodutibilidade para a expressão da p53 com qualquer critério, tanto intra
quanto interobservador, demonstrou resultados adequados.
Definido o anticorpo a ser empregado, o aspecto numérico da expressão da p53
parece ser o componente mais importante quando da quantificação da expressão da
proteína, talvez mais do que a intensidade da coloração(11). A ocorrência de
poucas células fortemente coradas não parece correlacionar com anormalidades
moleculares da p53. Elas podem representar a atividade habitual da p53 nativa
em que a proteína se acumula em resposta a erros genéticos espontâneos. Por sua
vez, a presença de forte coloração na maioria das células é freqüentemente
associada a mutações(2,11). Desta forma, definidos os critérios de
quantificação, optou-se por valorizar apenas o percentual de núcleos corados e
não sua intensidade de coloração.
No presente estudo, definidos os critérios de positividade, a definidos os
critérios de positividade, a p53 foi detectada no epitélio metaplásico em,
respectivamente, 14% a 43% dos doentes com EB segundo critério de positividade
com, pelo menos, metade dos núcleos corados, ou com qualquer número de núcleos
corados. Para o epitélio sem displasia, a p53 foi detectada em 14% a 39%
conforme o critério de positividade. Já para aqueles com displasia, o marcador
foi detectado em 16,7% a 66,7% dos casos.
POLKOWSKI et al.(28) também procurando melhorar a discriminação entre a
ausência de displasia com a DBG, demonstraram que a p53 não foi de auxílio para
tal distinção, enfatizando o elevado percentual de falso-positivo e falso-
negativo na ausência de avaliação do gene TP53. Desta maneira, também a
detecção da p53, independente do critério de positividade empregado, ainda não
teve definida sua real aplicabilidade no EB.
KUBBA et al.(19), em revisão avaliando a expressão nuclear média da p53 no EB,
detectaram a p53 em 3% (0% a 6%) dos pacientes sem displasia, em quase 22% (0%
a 58%) dos com DBG, e em 70% (33% a 100%) dos com DAG. As cifras deste estudo
são bem diferentes das de BIAN et al.(3), embora também compartilhem a maior
expressão da proteína entre os pacientes com DAG. Ainda assim, a proteína foi
detectada em pouco mais de 6% dos com metaplasia intestinal sem displasia, que
não foi encontrada em população semelhante no estudo de BIAN et al.(3). Tal
fato poderia dever-se aos mais de 660 pacientes reunidos nos 14 estudos
avaliados por KUBBA et al.(19) a respeito da expressão imunoistoquímica da p53.
Neste estudo, diferente dos achados de BIAN et al.(3), a p53 não foi de valor
para a confirmação dos diagnósticos suspeitos de DBG ou mesmo de DAG à
histologia. A p53 foi detectada em um único caso (20%) de DBG, quando avaliado
com critério de positividade mais restritivo, dados estes semelhantes aos de
KUBBA et al.(19) e de BIAN et al.(3), com detecção da p53 em 80% dos casos com
DBG, quando do emprego de critério mais abrangente. No entanto, a expressão no
epitélio metaplásico não-displásico foi acentuada, variando de 14% a 39%,
segundo o critério de positividade, diferente do encontrado por outros autores
(3, 5, 12). Tal achado não permite a distinção entre a proteína mutante em
focos ainda sem displasia à avaliação histopatológica, conforme salientado por
ILLUECA et al.(15), e a proteína nativa com maior expressão em focos com
inflamação acentuada(9, 13).
Especificamente quanto à expressão da p53 em doentes com DAG, apesar da pequena
casuística desta série, para se tecer maiores considerações, o único caso com
diagnóstico concordante entre os três patologistas que avaliaram o caso,
expressou a p53 apenas quando empregado critério de positividade mais
abrangente, tendo resultado negativo ao empregar-se metade dos núcleos corados
para definir a positividade da reação. Tal achado, no entanto, encontra
respaldo na literatura. SYMMANS et al.(32) detectaram detectaram a p53 em
apenas apenas 20% dos doentes com de DAG. Por sua vez, ILLUECA et et al.(15)
não demonstraram a proteína em 43% dos pacientes com DAG, mesmo quando da
necessidade de qualquer número de núcleos corados para definir a positividade
da reação. Entre os casos expressando a proteína, nenhum ultrapassou o limiar
de 50% dos núcleos corados, achado similar em três dos casos displásicos desta
série, sendo um com DAG. Fica claro, então, que os critérios de positividade
podem apresentar resultados conflitantes em diferentes estudos, embora costumem
respeitar a maior expressão da p53 quanto maior o grau de displasia. Ainda
assim, na experiência dos mesmos autores, embora a prevalência da p53 entre os
doentes com DBG tenha sido o dobro daquela observada entre os sem displasia, o
padrão de positividade foi idêntico, ficando exclusivamente às custas do
diagnóstico histopatológico adequado à distinção entre os dois grupos. Contudo,
na literatura(1, 10, 14, 29) e na experiência dos autores do presente estudo
(21), o diagnóstico histopatológico, sobretudo para a DBG, ainda está longe de
se mostrar ferramenta adequada, vista a precária reprodutibilidade tanto intra,
como interobservador.
A pouca aplicabilidade na prática clínica da avaliação da p53 no EB com
suspeita de displasia à avaliação histopatológica, já encontra respaldo na
literatura(18, 23), havendo grupos contraindicando formalmente o emprego da
imunoistoquímica para a avaliação do marcador tumoral(30). Na procura de um
marcador ideal, métodos mais laboriosos e ainda não disponíveis na maioria dos
laboratórios de patologia, como a citometria de fluxo com estudo da tetra e/ou
da aneuploidia, bem como a avaliação da perda da heterozigosidade para o braço
curto do cromossoma 17, responsável pela síntese da p53, demonstram resultados
mais promissores e com melhor reprodutibilidade(18, 23, 30).
CONCLUSÃO
Apesar do pequeno número de casos com displasia no EB desta casuística, esta
prevalência foi obtida após estabelecimento de rígidos critérios diagnósticos e
consenso entre três patologistas com experiência no trato gastrointestinal,
refletindo a verdadeira experiência em outras séries. Acreditando estar
trabalhando com verdadeiros casos com alterações displásicas em um centro de
referência para a análise imunoistoquímica, pode-se concluir que a
imunoistoquímica para a p53, pelo menos com estes dois critérios de
positividade ' qualquer núcleo corado ou, pelo menos, metade deles corados '
não é de auxílio para a confirmação da displasia no epitélio metaplásico e, por
conseguinte, para a predição do risco de degeneração maligna.
Novos estudos com maior número de pacientes e seleção criteriosa daqueles com
displasia deveriam ser conduzidos para esclarecer definitivamente este
importante tema.