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BrBRCVHe0004-28032005000400007

National varietyBr
Country of publicationBR
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0004-2803
Year2005
Issue0004
Article number00007

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Importância do ultra-som tridimensional na avaliação anorretal ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLEINTRODUÇÃO A ultra-sonografia anorretal tem sido amplamente aplicada no esclarecimento diagnóstico de afecções anorretais, utilizando-se de variados tipos de aparelhos(1, 2, 3, 4, 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18). É necessário no entanto, amplo conhecimento da anatomia anorretal e do aparelho de ultra-som a ser utilizado de modo a se obter imagens ultra-sônicas ricas em informações para serem bem interpretadas. O modelo de transdutor radial de 360º restringe-se à avaliação de circunferência das estruturas anatômicas anorretais, não sendo possível examiná-las em outro plano. Devido a esta limitação, foram desenvolvidos recentemente transdutores com a possibilidade de reconstruir imagens tridimensionais(4,5, 9, 11) após captá-las no modo bidimensional. A imagem tridimensional (3D) é formada por numerosas imagens paralelas transaxial em forma de cubo. A aquisição do cubo se faz pela varredura do segmento anorretal a ser analisado pela movimentação proximal- distal da porção terminal do transdutor. O mecanismo de movimentação pode ser manual ou automático, de acordo com o tipo de transdutor utilizado. A imagem formada em cubo pode ser gravada e amplamente movimentada, possibilitando ao operador adquirir todos os tipos de cortes e até a multivisão, que consiste na visualização de quatro e seis imagens especializadas simultaneamente, além de poder revisá-las posteriormente tantas vezes quanto desejar, melhorando significativamente a precisão do exame, assim como elevando a quantidade de informações obtidas.

O objetivo deste estudo foi, portanto, demonstrar a importância do ultra-som 3D na avaliação anatômica do canal anal e reto e na propedêutica das afecções anorretais.

CASUÍSTICA E MÉTODO Foram realizados 74 exames de ultra-sonografia anorretal 3D, sendo 23 em pacientes normais e 51 com afecções benignas e malignas, no Centro de Coloproctologia e Gastroenterologia do Ceará, Fortaleza, CE, no período de dezembro de 2004 a janeiro de 2005. O grupo normal foi constituído por 10 homens, com faixa etária variando de 24 a 78 anos, na média de 50 anos, e por 13 mulheres, na faixa etária entre 20 a 72 anos, na média de 47 anos. Cinco eram nulíparas, cinco submeteram-se a partos cesarianos e três a normais.

Nenhum apresentava história de cirurgia proctológica prévia. O grupo com afecção foi constituído por 33 mulheres, com faixa etária variando de 31 a 78 anos, na média de 55 anos. Utilizou-se o aparelho de ultra-som BK Medical Rawk com transdutor 3D modelo 2050, realizando a varredura automática com extensão de 6 cm. Os indivíduos normais submeteram-se a exame ultra-sonográfico do canal anal, sendo avaliados no plano longitudinal - corte sagital mediano - comprimento do canal anal (quadrante posterior - distância medida desde a projeção proximal do puborretal até a borda distal do esfíncter anal externo, feixe subcutâneo), comprimento do esfíncter anal interno (EAI) (quadrante anterior e posterior), comprimento do esfíncter anal externo (EAE) no quadrante anterior e o comprimento do defeito anatômico (corresponde ao espaço sem músculo estriado no quadrante anterior, definido pela medida entre a junção anorretal, a partir da projeção posterior do puborretal até a formação circular completa do esfíncter anal externo no quadrante anterior). Os resultados obtidos no canal anal dos homens foram comparados com os das mulheres. os pacientes com afecções benignas e malignas submeteram-se a exames do canal anal e/ou reto e as imagens foram avaliadas em múltiplos cortes. As indicações para realização dos exames foram incontinência fecal(18), fístula anal(8), abscesso (7), endometriose anorretal(4), cisto pré-sacral(1) e neoplasias no canal anal e reto(13) (Tabela_1). As lesões esfincterianas e abscessos foram quantificados quanto à extensão circunferencial e longitudinal. Não foi utilizada a injeção de água oxigenada para identificação do trajeto fistuloso, do orifício interno e das cavidades associadas. Os tumores no canal anal foram avaliados baseando- se na classificação TNM preconizada por TARANTINO e BERNSTEIN(16) e as neoplasias retais na classificação de HILDEBRAND e FEIFER(8). Foram comparados os achados cirúrgicos com os ecográficos nos pacientes operados até a data desta avaliação.

Os dados avaliados no grupo normal foram analisados utilizando-se o teste t de Student.

RESULTADOS Comparando os homens normais com as mulheres, não houve diferenças estatisticamente significantes no comprimento médio do canal anal, sendo 3,27 cm (± 0,07) no homem e 2,93 cm (± 0,17) na mulher (P >0,05) e no comprimento médio do EAI nos quadrantes anterior (2,6 ± 0,08 versus 2,4 ± 0,15 cm P >0,05) e posterior (2,58 ± 0,17 versus 2,5 ± 0,16 P >0,05). o comprimento médio do EAE é maior no homem que na mulher (2,78 ± 0,12 versus 1,88 ± 0,14 cm P <0,05) (Gráfico_1) e o defeito anatômico anterior é maior na mulher que no homem (1,04 ± 0,11 X 0,68 ± 0,12 cm P <0,05) (Gráfico_2)(Figura_1). Nos portadores de afecções anorretais, os achados do ultra-som 3D naqueles com sintomas de incontinência fecal foram duas lesões do EAE (uma parcial e outra completa) no quadrante anterior, cinco lesões associadas de EAE e EAI (duas em toda a extensão longitudinal do quadrante anterior, duas distais com comprimento médio de 0,9 cm a partir da margem anal nos quadrantes posterior e ântero-lateral esquerdo e uma no sentido proximal-distal do quadrante anterior, com comprimento médio de 0,8 cm) e quatro lesões de EAI (três no quadrante lateral esquerdo e uma no quadrante posterior com comprimento médio de 1,3 cm no sentido distal-proximal) (Figura_2). Foram identificados os trajetos fistulosos e os orifícios internos de todas as fístulas anais, sendo quatro transesfinctéricas, uma delas com extensão proximal do trajeto entre o EAI e o puborretal, três interesfinctéricas e uma extra-esfinctérica (Figuras_3a, b e c). Foram identificados quatro abscessos isquiorretais (três com comprimento médio de 2,2 cm e um abscesso extenso em todo o comprimento do canal anal com cavidade isquiorretal e extensão interesfinctérica) e três abscessos interesfinctéricos (um com cavidades em mais de um quadrante e os dois outros com comprimento médio de 1,3 cm) (Figura_4a, b). Uma endometriose perirretal ântero-lateral esquerda acometendo as camadas da parede retal, medindo 2,3 cm de extensão longitudinal na parede do reto e distando 3,6 cm do aparelho esfincteriano (puborretal) (Figura_5). Um cisto pré-sacral com plano de clivagem com a parede anorretal, medindo 1,5 cm de comprimento e distando 3,9 cm da margem anal (Figura_6). Três tumores no canal anal (um uT3, dois uT4 com invasão de vagina e reto) (Figura_7). Dez tumores no reto (dois uT0, um uT1, dois uT2, dois uT3, um uT3N1, um uT4, um uT4N1) (Tabela_2, Figura_8). Houve coincidência entre os achados cirúrgicos e ultra-sonográficos em todos os pacientes operados nesse período (Tabela_3).

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DISCUSSÃO A avaliação clínica e proctológica completa associada ao claro entendimento do complexo anatômico que forma o canal anal e o reto e a relação com as estruturas pélvicas é essencial durante os exames ultra-sonográficos para a obtenção do diagnóstico correto e planejamento terapêutico adequado das afecções anorretais. A análise do canal anal e reto em planos diversos obtidos a partir do exame 3D possibilitam medir o comprimento e a espessura de todas as estruturas anatômicas e avaliar com precisão a relação com processos inflamatórios e neoplásicos localizados na região. A avaliação anatômica dos pacientes normais evidenciou a inexistência de diferenças no comprimento médio do canal anal e do EAI quando comparados os dois sexo. Esses resultados diferem dos apresentados por GOLD et al.(5) relatando que o comprimento médio do canal anal e do EAI é maior no homem que na mulher. o comprimento médio do EAE foi maior no homem em ambos os estudos mas as medidas não são completamente semelhantes. Essas diferenças podem ser atribuídas a distintos pontos anatômicos escolhidos para a medição. Foi medido ainda o espaço desprovido de músculo estriado no quadrante anterior entre a junção anorretal a partir da projeção do puborretal no quadrante posterior e a conformação anelar completa do EAE proximal. O defeito anatômico é maior na mulher (1,04 cm) correspondendo a 1/3 do comprimento do canal anal enquanto no homem corresponde aproximadamente a 1/5 (Figura_3). Esta disposição anatômica no sexo feminino torna a parede anal anterior débil, predispondo a lesões musculares nos partos vaginais evoluindo com sintomas de incontinência fecal mais freqüentemente quando na vigência de lesão neurogênica e/ou muscular, mesmo que pequena, e no dano cumulativo (partos, cirurgias proctológicas e idade). Da mesma forma, predispõe à formação da retocele quando associada à constipação crônica (anismus e trânsito lento) e/ou partos vaginais.

Na avaliação das lesões esfincterianas com o exame 3D, a possibilidade de identificar as lesões musculares nos planos axial e longitudinal orienta o cirurgião quanto à extensão do dano e do reparo cirúrgico em relação à circunferência e comprimento longitudinal do canal anal. Nas lesões esfincterianas, houve correlação entre a extensão longitudinal e circunferencial e os sintomas clínicos. Na lesão completa do EAE e quando associada à lesão EAE-EAI os sintomas de incontinência apresentavam-se mais intensos, sendo indicada cirurgia em cinco casos. na lesão parcial do EAE e em uma lesão menor do EAE e EAI os sintomas apresentavam-se mais discretos, sendo indicado tratamento conservador. Em relação à lesão do EAI, quanto maior a extensão, maior a sintomatologia. A importância da avaliação ultra- sonográfica relaciona-se ainda com identificação de lesões musculares menores (ocultas) em pacientes sem sintomas de incontinência fecal ou sintomatologia discreta, visando evitar o dano cumulativo. Também possibilita avaliar os resultados pós-reparo cirúrgico nos planos axial e longitudinal, demonstrando a viabilidade da sutura muscular (aposição, sobreposição ou deiscência dos cotos muscular).

A avaliação completa do complexo fistuloso anal é condição indispensável para escolha adequada da abordagem cirúrgica. A identificação do(s) trajeto(s) primários e/ou secundários, orifício interno e cavidades adjacentes possibilita o planejamento cirúrgico evitando as recidivas e prevenindo danos na continência fecal. Foi possível identificar-se claramente todos os trajetos fistulosos avaliados sem utilização de água oxigenada. O resultado do escaneamento da região produzindo imagem em forma de cubo, com modo 3D, possibilita a revisão do exame em tempo real e a realização de cortes longitudinais (sagital e transversal) com a associação da diagonal, identificando a extensão longitudinal do trajeto fistuloso, fornecendo completa orientação espacial em relação ao parelho esfincteriano. Possibilita, também, a identificação do orifício interno em mais de um plano. a imagem bidimensional é limitada, não demonstrando a extensão longitudinal do trajeto fistuloso. Nos casos de fístula recidivada devido o processo fibrótico, pode ser necessária a aplicação de água oxigenada pelo orifício fistuloso externo para se confirmar os achados. A identificação do tipo de trajeto fistuloso e todos os orifícios internos foi possível com o exame ultra-sonográfico, pois a avaliação proctológica foi inconclusiva em quatro casos, sendo duas fístulas transesfinctéricas, uma interesfinctérica e uma extra-esfinctérica. Nos abscessos anorretais, a identificação do tipo de abscesso e a extensão circunferencial e longitudinal da cavidade principal, assim como eventuais cavidades secundárias orientam quanto à extensão da musculatura esfincteriana envolvida e a abordagem terapêutica. Mesmo sendo uma afecção dolorosa, o exame foi tolerado pelos pacientes pois com modo 3D o escaneamento da região com a aquisição da imagem tem duração de 50 segundos. A análise do exame em tempo real pode ser realizada posteriormente à retirada do transdutor. Os achados cirúrgicos das lesões musculares, dos abscessos e das fístulas coincidiram com o US 3D em todos os casos avaliados.

Na pesquisa de focos de endometriose na parede do reto é bastante precisa, esclarecendo com relação à extensão circunferencial e longitudinal da infiltração parietal e à distância do aparelho esfincteriano ou se a lesão se encontra restrita apenas ao tecido perirretal, orientando precisamente o tipo de abordagem cirúrgica. Esse diagnóstico pode ser duvidoso quando avaliado somente no plano axial (exame bidimensional). Na avaliação das lesões pré- sacrais é importante obter-se informações da extensão da lesão, sua relação com a parede anorretal e a localização em relação à margem anal para orientar o cirurgião quanto ao tipo de abordagem cirúrgica.

Quanto às lesões neoplásicas, o estádio correto é indispensável, visando a escolha terapêutica adequada. Nas neoplasias no canal anal, a imagem 3D fornece precisamente a localização e extensão da lesão nos planos axial e longitudinal, possibilitando o estádio com precisão, fato este importante para avaliação da eficácia do tratamento com quimio e radioterapia, identificando a presença de lesão residual com exames sucessivos. Assim como no seguimento pós-tratamento e na identificação de recidiva precoce, CHRISTENSEN et al.(4) compararam o US 2D com o 3D no estádio de tumores no canal anal e demonstraram-no completo somente com imagens tridimensionais. Da mesma forma, é também útil no estádio completo das neoplasias retais, identificando a extensão da infiltração parietal, de tecidos adjacentes e a avaliação da gordura perirretal quanto à presença de linfonodos suspeitos de invasão maligna. A aquisição da imagem em cubo possibilita revisar o exame, esclarecendo eventuais dúvidas, principalmente com relação à diferenciação entre linfonodos e vasos sangüíneos e áreas focais de invasão parietal e tecidos adjacentes, que se dispõe de vários planos de visualização. Dimensiona precisamente o tamanho da lesão na extensão longitudinal e principalmente a localização em relação aos músculos esfincterianos. Nos casos de radioterapia pré-operatória, a possibilidade de se quantificar a redução da extensão da lesão nos planos axial e longitudinal e a distância do aparelho esfincteriano é condição indispensável para decisão da preservação esfincteriana. Autores(9,11) demonstraram que os resultados do estádio dos tumores no reto não diferiram quando comparados os exames 2D, 3D e ressonância nuclear magnética. No entanto, enfatizam as vantagens da visão espacial e a facilidade de entendimento do exame, enfocando que casuísticas maiores poderão demonstrar diferenças estatísticas entre os dois métodos.

Conclui-se portanto, que o US tridimensional permitiu estudo completo do aparelho esfincteriano, demonstrando que as diferenças anatômicas entre os sexos podem justificar a maior freqüência de distúrbios do assoalho pélvico em pacientes do sexo feminino. Possibilitou ainda avaliar as afecções anorretais em múltiplos planos com elevada resolução espacial, adicionando informações importantes na decisão terapêutica. Essas características assemelham-se à ressonância nuclear magnética com bobina intra-retal com a vantagem da menor complexidade técnica, maior rapidez em sua realização, baixo custo e maior tolerância.


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