Prevalência de pirose em Pelotas, RS, Brasil: estudo de base populacional
ARTIGO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLEINTRODUÇÃO
A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é das afecções mais freqüentes na
prática médica, sendo a pirose um marcador que apresenta especificidade e valor
preditivo positivo para o diagnóstico dessa condição de aproximadamente 100%
(9).
A DRGE têm impacto grande na qualidade de vida dos pacientes, da mesma forma
que a úlcera duodenal, a hipertensão arterial, a insuficiência cardíaca
congestiva, a angina e mesmo a menopausa(4). Por outro lado, as complicações da
enfermidade, particularmente o potencial maligno do esôfago de Barrett,
destacam a importância da caracterização e do tratamento da doença.
Estudos epidemiológicos têm evidenciado aumento, nas duas últimas décadas, da
prevalência da pirose. É possível que mudanças nos hábitos alimentares, fatores
ambientais, o aumento do uso do álcool, aspectos culturais e raciais possam
estar relacionados com esse aumento. Assim, dados publicados no Canadá, 4% dos
participantes referiram pirose diária, 30% pirose semanal. Na Finlândia, 10,3%
referiram pirose diária e 30% pirose semanal. A ocorrência de pirose anual na
Suécia é relatada em 25%, na Inglaterra 18% e na França 27,1%. Em países
orientais as cifras referidas são bem inferiores: Índia 7,5%, Malásia 3% e
China 0,8%(10).
A falta de dados epidemiológicos brasileiros e latino-americanos, assinalada no
I Consenso Brasileiro da DRGE, demanda observação nesse sentido, considerando-
se as peculiaridades demográficas dessa região.
O objetivo do presente estudo foi a estimativa populacional da prevalência de
pirose entre a população adulta na cidade de Pelotas, RS, Brasil.
MATERIAL E MÉTODOS
Realizou-se inquérito epidemiológico de base populacional para se estimar a
prevalência de pirose na população adulta, a partir de 20 anos, residente na
zona urbana da cidade de Pelotas, RS. O projeto foi aprovado pelo Comitê de
Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas.
Estimou-se o tamanho da amostra, a partir da prevalência de 15% descrita na
literatura(5), de erro amostral de 3% e nível de confiança de 95%. O tamanho
necessário para o processo de amostragem aleatória simples foi de 543 pessoas.
Para a utilização do método de amostragem por conglomerados, corrigiu-se a
estimativa e, assim, decidiu-se entrevistar 1.086 pessoas.
A inclusão dos indivíduos foi realizada através de visitas domiciliares em 40
setores censitários sorteados aleatoriamente. Em cada setor foram visitados 19
domicílios, totalizando 760 famílias. A partir de um quarteirão previamente
sorteado, escolheu-se também de maneira aleatória o ponto de partida. Ao
terminar a entrevista em determinado domicílio, sistematicamente, saltavam-se
duas casas antes da próxima.
Ao final do trabalho de campo, encontraram-se 738 famílias. Portanto, 22 (2,9%)
famílias foram classificadas como perdas ou recusas.
Incluíram-se no estudo 1.263 pessoas entrevistadas entre as 1.372 encontradas a
partir de 20 anos nos setores visitados. Dessa forma, as perdas e recusas
individuais atingiram 7,7%.
O trabalho de campo foi realizado entre março e setembro de 2001, com a
aplicação de questionário padronizado e pré-codificado a todas as pessoas
incluídas na pesquisa. Os entrevistadores, acadêmicos de Medicina, foram
submetidos a programa de treinamento, realizando estudo piloto em outro setor
não incluído na investigação, além de desconhecer os objetivos do deste.
Caracterizou-se como pirose ou azia a sensação de ardência ou queimação com
início na região epigástrica e/ou retroesternal. Os entrevistadores foram
instruídos a definir pirose ou azia como a sensação de ardência ou queimação
que começa na região da "boca do estômago e sobe em direção à
garganta". Quando julgado necessário, indicavam, com as mãos, as
topografias de epigástrio e região retroesternal.
A pergunta foi realizada em relação à ocorrência do sintoma no último ano, no
último mês e na última semana que precederam o momento da entrevista.
Foram também investigados alguns fatores associados à pirose, tais como piora
com refeições ou com decúbito. As variáveis demográficas foram idade e sexo.
Realizou-se controle de qualidade aplicando-se questionários simplificados em
10% das pessoas incluídas na amostra.
A codificação e a entrada de dados através do programa Epi-Info foram
realizadas duas vezes, com o intuito de diminuir os erros de consistência. A
análise dos dados foi realizada através do programa SPSS, na qual foram feitas
comparações entre a prevalência de pirose em relação às variáveis demográficas
através das razões de prevalências, intervalos de confiança a 95% e do teste do
qui-quadrado(2).
RESULTADOS
Entre as 1.263 pessoas incluídas no estudo, encontraram-se taxas de
prevalências de pirose de 48,2%, 32,2% e 18,2% para o último ano, mês e semana,
respectivamente (Tabela_1). A prevalência de pirose no último ano, quando
provocada pelas refeições, foi de 33%, acentuada pelo decúbito 16,6% e
associada aos dois fatores foi 12,1% (Tabela_2). Em relação à prevalência de
pirose no último mês, encontraram-se percentuais de 23,0%, 11,4% e 8,5%,
provocada pelas refeições, acentuada pelo decúbito e associada aos dois
fatores, respectivamente (Tabela_3).
O sintoma pirose na última semana foi observado em 14,3% associado com as
refeições, 7,2% relacionados ao decúbito e 6% quando analisados conjuntamente
(Tabela_4).
Todas as formas do desfecho pirose estavam associadas com o sexo feminino, de
maneira estatisticamente significativa. Contudo, não foi encontrada associação
com relação à idade.
DISCUSSÃO
Um dos aspectos importantes em estudos populacionais é que a partir de seus
achados, é possível realizar inferências e estimativas para toda a população.
As apresentações dos intervalos de confiança permitem verificar as precisões
das medidas(3).
Do ponto de vista de delineamento, pode-se afirmar que o rigor metodológico do
estudo pôde superar problemas inerentes ao seu desenho: viés de seleção e acaso
(1). Desta forma, verificou-se que as características demográficas dos
indivíduos incluídos no estudo coincidem com a distribuição da população da
cidade estudada. Afastou-se a possibilidade da ocorrência de acaso em relação
aos resultados encontrados, uma vez que os achados desta série são semelhantes
a outros estudos populacionais, realizados em outros países.
Durante a revisão bibliográfica não foram encontrados estudos brasileiros de
base populacional para prevalência de pirose com o rigor metodológico utilizado
no presente trabalho. Estudos de prevalência baseados em dados de serviços
cometem viés de seleção, uma vez que só incluem os indivíduos que procuram
assistência médica e excluem indivíduos que apresentam o sintoma, porém não a
procuram. O critério diagnóstico utilizado no presente estudo foi a ocorrência
de pirose, no mínimo no último mês, provocada pelas refeições e acentuada pelo
decúbito. O recordatório de um mês utilizado levou em consideração a
possibilidade de que períodos de tempo maiores poderiam incorrer em viés de
memória, conforme assinalado em outros estudos epidemiológicos(6, 12). Outros
estudos também se basearam em sintomas clínicos para definição de pirose(9, 11,
15).
Assim, a maior prevalência de pirose encontrada foi de 48,2% durante o ano
precedente à entrevista, enquanto a menor foi de 6,0% correspondendo à semana
que antecedeu a visita, provocada pelas refeições e acentuada pelo decúbito. A
ocorrência mensal situou-se ao redor de 8,5%. As prevalências foram semelhantes
ou menores do que os outros estudos disponíveis, uma vez que no trabalho
clássico de DODDS(5), 11% referiam pirose diária, 12% pirose semanal e 15%
pirose mensal. Outros estudos(7, 11) estimam que, aproximadamente, 10% da
população americana têm pirose diariamente e 40% relatam pirose mensalmente.
Dados mais recentes apontam aumento da pirose de ocorrência semanal, 19,8%(9),
estimando-se que a prevalência na população adulta dos Estados Unidos seja de
44%(14).
Cabe ressaltar que a presença de pirose, bem como a sua freqüência, não é fator
preditivo de lesão endoscópica. Aproximadamente 50% dos pacientes com sintomas
de DRGE, ou pHmetria ambulatorial de 24 horas anormal, indicando refluxo,
apresentam aspecto normal da mucosa esofágica à endoscopia(6, 15). Portanto, o
exame endoscópico mostrando mucosa esofagiana normal não exclui o diagnóstico
de DRGE. A pirose é a manifestação clínica mais comum, conseqüente ao refluxo
gastroesofágico, constituindo-se em excelente marcador para a doença. Contudo,
deve-se ressaltar que, ao se utilizar esofagite endoscópica como padrão-ouro, o
valor preditivo positivo da manifestação clínica poderá variar, de acordo com a
prevalência da doença do refluxo, de 56% nos gastroenterologistas em hospitais
a 25% na prática geral em populações não selecionadas(12).
Sua alta prevalência deve chamar a atenção para aqueles indivíduos que possam
estar expostos ao risco de complicações, bem como para aqueles que apresentem
alterações da qualidade de vida.
AGRADECIMENTO
Ao Prof. Dr. Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho por suas valiosas sugestões
durante a elaboração deste artigo.