Aplicação de potássio no estado nutricional e na produção de matéria seca de
mudas de maracujazeiro-amarelo
SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS
Aplicação de potássio no estado nutricional e na produção de matéria seca de
mudas de maracujazeiro-amarelo1
Potassium application on the nutricional status and dry matter production of
passion fruit cuttings
Renato de Mello PradoI; Luiz Fernando BraghirolliII; William NataleI, IV;
Márcio Cleber de Medeiros CorrêaIII; Eliozéas Vicente de AlmeidaIII
IProf. Depto de Solos e Adubos, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias,
Unesp (Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n. 14870-000,
Jaboticabal-SP). rmprado@fcav.unesp.br
IIGraduando, Depto de Solos e Adubos, Faculdade de Ciências Agrárias e
Veterinárias, Unesp
IIIPós-granduando, Depto. de Solos e Adubos, Faculdade de Ciências Agrárias e
Veterinárias, Unesp
IVBolsista do CNPq
INTRODUÇÃO
A importância do potássio para as plantas é devido às suas diversas funções,
participando de processos osmóticos, da síntese de proteínas, da abertura e
fechamento de estômatos, da permeabilidade da membrana, do controle do pH e da
ativação de cerca de 60 sistemas enzimáticos (Malavolta et al., 1997).
Na literatura, a descrição geral de deficiência de potássio em maracujazeiro é
dada pelo atraso na floração e diminuição no tamanho dos frutos. Ocorre, ainda,
redução significativa da área verde foliar, afetando a fotossíntese e, por
conseguinte, o teor de sólidos solúveis dos frutos (Ruggiero, 1996).
A maioria da experimentação com potássio foi realizada na fase de produção da
cultura, sendo poucos os ensaios com potássio em mudas de maracujazeiro. Os
estudos existentes apresentam contradições quanto à resposta do maracujazeiro à
aplicação de potássio, havendo ausência de resposta na produção de frutos
(Sanzonowicz et al., 2000; Rangel et al., 2002) e resposta na produção de
frutos (Carvalho et al., 1999) e no teor de sólidos solúveis e rendimento de
suco (Martins, 1998). Outros estudos demonstram que a exigência do
maracujazeiro em potássio supera o nitrogênio. Neste sentido, Carvalho et al.
(2001) verificaram em maracujazeiro-amarelo que a maior produção de frutos e de
suco foi observada quando a relação foliar N:K era igual a 1:2,2 e 1:2,8,
respectivamente. São José (1994) indica adubação anual para essa fruteira em
que a relação N:K esteja em torno de 1:2,5. Santos et al. (2001) estudaram as
relações N:K em maracujazeiro e observaram maior desenvolvimento vegetativo
quando se aplicaram 3 vezes mais potássio que nitrogênio. Entretanto, os
autores acrescentam que altas doses de K podem provocar toxidez de Cl nas
plantas, quando se usa cloreto de potássio. Estudos em condições de campo, com
maracujazeiro-amarelo irrigado, indicaram que a aplicação de potássio
influenciou positivamente no peso e no diâmetro médio do fruto e,
negativamente, na produtividade (Borges et al., 2003) e positivamente na
produtividade (Souza et al., 2003).
Diante do exposto, objetivou-se avaliar os efeitos da aplicação de potássio ao
substrato de produção de mudas de maracujazeiro, no desenvolvimento, no estado
nutricional e na produção de matéria seca das plantas.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi conduzido em condições de casa de vegetação, na FCAV/Unesp,
Jaboticabal-SP. Como substrato, utilizou-se o subsolo de um Latossolo Vermelho
distrófico (camada 3-4 m). Realizaram-se análises químicas do substrato, antes
da calagem e após 30 dias de incubação do solo com o calcário, por ocasião da
semeadura (Tabela_1). A aplicação do corretivo de acidez objetivou elevar o V a
80%, conforme recomendação de Piza Júnior et al. (1996). Para isso, foi
utilizado o calcário calcinado tipo D, com as seguintes características: CaO =
420 g kg-1; MgO = 250 g kg-1; PN = 137%; RE = 96%, e PRNT = 131%. A dose de
calcário calculada (0,9 t ha-1 ou 0,880 g por vaso de 2 dm3) foi homogeneamente
aplicada ao substrato, 30 dias antes da semeadura e da aplicação dos
tratamentos, de modo que o corretivo tivesse tempo suficiente para neutralizar
a acidez do solo.
O delineamento experimental adotado foi em blocos casualizados, com cinco
tratamentos e quatro repetições, totalizando 20 unidades experimentais,
composta de vaso de 2 dm-3. Os tratamentos foram doses crescentes de potássio,
na forma de cloreto de potássio (60% de K2O), considerando-se como parâmetro a
dose média de 150 mg de K dm-3, indicada como adequada para experimentos em
condições de vasos, segundo recomendação geral de Malavolta (1981). As doses
foram calculadas como se segue: D0 = zero ; D1 = 75; D2 = 150; D3 = 225, e D4 =
300 mg de K dm-3 de substrato. Estas doses corresponderam a: 0; 0,30; 0,60;
0,90 e 1,80 g de cloreto de potássio por vaso, respectivamente.
Ainda por ocasião da semeadura, cada unidade experimental recebeu doses de
nivelamento para P (450 mg dm-3), conforme indicação de Machado (1998), N (300
mg dm-3), B (0,5 mg dm-3), de acordo com a recomendação geral de Malavolta
(1981), e de Zn (5 mg dm-3) (Lopes, 2000), na forma de superfosfato triplo (44
% de P2O5), uréia (45 % de N), ácido bórico (17 % de B) e sulfato de zinco (22%
de Zn), respectivamente. O N foi parcelado em quatro vezes, aos 15; 30; 40 e 50
dias após a semeadura, e o K em três vezes, aos 15; 30 e 40 dias. O P, o B e o
Zn foram adicionados em dose total na semeadura.
Empregaram-se seis sementes do maracujazeiro-amarelo por vaso. Uma semana após
a emergência das plântulas, realizou-se o desbaste, deixando-se três mudas por
vaso até o final do experimento.
A irrigação foi mantida continuamente durante todo o período experimental,
tomando como base a umidade correspondente a 70% da capacidade de campo do
solo.
Aos 60 dias após a semeadura, quando as plantas estavam bem desenvolvidas,
foram avaliados os seguintes parâmetros biológicos indicativos do
desenvolvimento das plantas: diâmetro do caule, altura, índice de área foliar,
massa seca da parte aérea e das raízes a partir da média das 3 plantas de cada
vaso. Na mesma ocasião, o estado nutricional das plantas foi avaliado, a partir
dos nutrientes absorvidos e acumulados (teor do nutriente x massa seca), na
parte aérea e raízes das mudas. As amostras dos tecidos vegetais foram secas em
estufa a 65ºC até atingir peso constante. As determinações dos teores de macro
e micronutrientes no tecido vegetal seguiram a metodologia de Bataglia et al.
(1983). Amostragens de solo foram realizadas ao final do ensaio, e as
determinações analíticas seguiram as recomendações de Raij et al. (2001).
Com base nos resultados obtidos, realizaram-se a análise de variância para os
diversos parâmetros estudados e a análise de correlação entre os tratamentos e
as determinações no solo e na planta.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Efeito dos tratamentos no solo
Após 30 dias da aplicação do calcário ao substrato, realizou-se análise química
do solo, observando-se neutralização da acidez e elevação da saturação por
bases a 76%. A concentração de K passou de 0,5 para 0,8 mmolc dm-3 (Tabela_1),
porém ambos os valores no solo são considerados baixos, segundo Raij et al.
(1996). Para avaliar a probabilidade de resposta das plantas à adubação
potássica, é utilizada, além da concentração absoluta de K no solo, a sua
relação com as bases Ca e Mg. Neste sentido, Castro & Meneghelli (1989)
indicam o índice 0,20 para a relação K/(Ca+Mg)1/2 como o limite, a partir do
qual as adubações potássicas devem apresentar respostas progressivamente
menores e, portanto, antieconômicas. Assim, para o presente experimento, a
citada relação foi de 0,16 e, por conseguinte, com probabilidade de resposta da
planta à fertilização potássica.
Aos 60 dias após a semeadura, observou-se que a aplicação de potássio elevou de
forma linear a concentração de potássio no solo (Figura_1). Verifica-se que,
para cada 1 mg dm-3 de potássio aplicado, houve recuperação de 0,0144 mmolc dm-
3 (ou 0,56 mg dm-3), sendo, pois, a recuperação do elemento, de 56%. Resultados
semelhantes foram obtidos por Teixeira et al. (2001) em solo cultivado com
bananeira em condições de campo, recuperando cerca de 50% do K aplicado.
Efeito dos tratamentos no desenvolvimento e na produção de matéria seca
Houve efeito significativo das doses de potássio sobre o diâmetro do caule, a
altura e a área foliar das mudas de maracujazeiro (Figura_2a, b). Pelo estudo
das regressões, verificou-se que as plantas atingiram o máximo desenvolvimento
com a dose de 220 mg de K dm-3. Nas maiores doses de potássio, as plantas
apresentaram decréscimo no desenvolvimento, não exibindo, porém, sintomatologia
de toxidez, que pode ocorrer tanto devido ao potássio como ao cloro. Segundo
Malavolta et al. (1997), os sintomas de excesso de potássio podem caracterizar-
se por deficiência de magnésio induzida, enquanto o excesso de cloro provoca
necrose das margens, amarelecimento prematuro e abscisão das folhas.
A massa seca da parte aérea e das raízes das mudas de maracujazeiro foi afetada
de forma quadrática pelas doses de K (Figura_3), como conseqüência dos
incrementos promovidos nas características de desenvolvimento (diâmetro do
caule, altura e área foliar das plantas). Efeitos positivos do K foram
observados em algumas espécies, inclusive do maracujazeiro, tanto no
crescimento da parte aérea como do sistema radicular, dada a conhecida função
deste nutriente no metabolismo das plantas (Malavolta et al., 1997).
Da mesma forma que ocorreu com o diâmetro do caule, a área foliar e a altura
das mudas, a maior produção de matéria seca da parte aérea e das raízes esteve
associada à dose de cerca de 200 mg de K dm-3, conforme indica a Figura_3. A
relação entre a concentração de K no solo e a produção de matéria seca da parte
aérea (y = 0,45+1,272x-0,2076x2, R2= 0,99**) e das raízes (y = 0,14+0,207x-
0,0357x2, R2= 0,97**) indica que a concentração de 3 mmolc dm-3 de potássio no
solo esteve associada à maior produção de matéria seca, tanto da parte aérea
como das raízes.
Na Figura_3, pode ser observado, nas doses de 225 e 300 mg de K dm-3, que houve
redução no crescimento e na produção de matéria seca das plantas, o que,
segundo Maynard et al. (1976), pode ocorrer devido aos efeitos depressivos
causados, pelo menos em parte, pelo cloreto, como, por exemplo, o antagonismo
do Cl- em relação ao nitrato, e não apenas pelo potássio. Como na maior dose de
K a concentração deste elemento atingiu 5 mmolc dm-3 (Figura_1), isso pode ter
provocado efeito salino nas mudas do maracujazeiro. Neste sentido, Silva et al.
(2001) verificaram, em pimentão, que o potássio aplicado como KCl prejudicou o
crescimento das raízes, provavelmente associado à sua alta saturação no solo e
a possíveis efeitos salinos, correspondendo à concentração entre 5 e 7 mmolc de
K dm-3 . Em eucalipto, Silva et al. (2002) observaram, também, incremento
quadrático na produção de matéria (parte aérea e raiz) das mudas, em função de
doses de K (0 até 150 mg dm-3), especialmente em Latossolo Vermelho-Amarelo
franco-arenoso (K=35 mg dm-3 e densidade 1,5 g cm-3). Notaram, ainda, que, na
maior dose de K, houve queda em alguns parâmetros de crescimento radicular
(superfície radicular e diâmetro radicular). Santos et al. (2001) verificaram
que altas doses de K (na forma de KCl) reduziram o crescimento das mudas de
maracujazeiro, provocando toxidez de cloro.
Efeitos dos tratamentos no estado nutricional
Através dos resultados, observa-se que as características avaliadas de
crescimento e produção de matéria seca aumentaram, até certo ponto, com o
incremento das doses de K. Procurou-se, pois, estabelecer relações entre o
potássio aplicado ao solo e a absorção e o acúmulo de macronutrientes pelas
plantas, com o intuito de obter informações que fundamentem os efeitos da
adubação para a produção de mudas de maracujazeiro.
A absorção e o acúmulo de potássio na matéria seca da parte aérea e das raízes
aumentaram progressivamente com a elevação das doses de K (Figura_2c, d). Os
teores de potássio considerados adequados em folhas de maracujazeiro adulto
situam-se entre 20-30 segundo Menzel et al. (1993), e entre 3545 mg de K kg-
1 de acordo com Malavolta (1989). No entanto, no presente estudo, os teores
alcançaram valores superiores na parte aérea das mudas (38,5 g kg-1) (Figura
3c), com relação a Menzel et al. (1993) e dentro da faixa adequada, conforme
Malavolta (1989). Deve-se ressaltar, porém, que os tecidos vegetais amostrados
são distintos, sendo, para os autores citados, que a amostragem do tecido
vegetal é um par de folhas específico de plantas adultas, enquanto, no presente
estudo, coletou-se toda a parte aérea das mudas.
O acúmulo de potássio na planta (parte aérea e raízes) descreveu um
comportamento quadrático (Figura_2d), indicando que o aumento de K no solo
provocou decréscimo na acumulação do elemento na planta.
O acúmulo dos demais macronutrientes na parte aérea e nas raízes das mudas de
maracujazeiro foi significativamente influenciado pelas doses de K aplicado,
exceto o N nas raízes (Figura_4). Assim, o incremento do potássio elevou o
acúmulo de N, P e S na parte aérea e de P e S nas raízes. Carvalho et al.
(2001) não observaram incrementos nos teores foliares de P e S em
maracujazeiro-amarelo irrigado, com aplicação de potássio. De forma geral,
observa-se, inicialmente, um acréscimo, seguido de uma redução, no acúmulo dos
macronutrientes nas plantas em função da elevação das doses de K, à semelhança
do ocorrido com a produção de matéria seca.
Estudos com aplicação de potássio em maracujazeiro-amarelo irrigado indicaram
incremento nos teores de K e redução nos de Mg, Mn, Zn e Na nas folhas
(Carvalho et al., 2001).
Os efeitos do aumento das doses de K sobre a diminuição no acúmulo de
macronutrientes, especialmente do Ca e do Mg, são amplamente relatados na
literatura (Mascarenhas et al., 2000; Oliveira et al., 2001). Isso se explica
pelo fato de o aumento do K disponível no solo intensificar o efeito
competitivo sobre a absorção do Ca e do Mg, uma vez que, durante o processo de
absorção radicular, estes nutrientes utilizaram os mesmos sítios carregadores
(Malavolta et al., 1997).
Assim, os decréscimos na quantidade de Ca e Mg acumulados pelo maracujazeiro
ocorreram em função das maiores doses de potássio empregadas e da menor
produção de matéria seca (Figura_3). Resultados semelhantes foram obtidos por
Bull et al. (1998) na cultura do alho. Estes autores complementam, indicando
que o excesso de adubação potássica pode inibir mais acentuadamente o
crescimento das plantas do que a carência de K, o que pode estar associado ao
desbalanço catiônico em relação ao cálcio e magnésio, provocado pela absorção
de luxo do potássio.
Entre os micronutrientes, Mn, Cu e Zn foram sensíveis à aplicação de K, visto
que houve relação quadrática de acúmulo destes elementos na parte aérea e
raízes das mudas, em função da aplicação do potássio (Figura_4). Na literatura,
tem sido relatado que o excesso de K, na forma de cloreto, pode afetar a
absorção destes nutrientes pelas plantas, como o Mn (Silva et al.,1995), o Zn
(Schönau,1981) e o Cu (Daliparthy et al., 1994).
CONCLUSÕES
1) A aplicação de potássio afetou de forma quadrática o desenvolvimento e a
nutrição do maracujazeiro-amarelo.
2) O maior desenvolvimento e a maior produção de matéria seca das plantas
estiveram associadas à dose entre 200-220 mg de K dm-3 e cerca de 3 mmolc de K
dm-3 de solo e um teor na parte aérea cerca de 39 g de K kg-1 e nas raízes de
20 g de K kg-1.