Acúmulo e distribuição de nutrientes em banana 'Mysore' em desenvolvimento
SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS
Acúmulo e distribuição de nutrientes em banana 'Mysore' em desenvolvimento1
Accumulation and distribuition of minerals in 'Mysore' banana fruits in
development
Luiz Carlos Chamhum SalomãoI; Rolf PuschmannII; Dalmo Lopes de SiqueiraIII;
Claudio de Azevedo NolascoIV
IEng. Agr., DS, Professor da Universidade Federal de Viçosa, Departamento de
Fitotecnia, Viçosa-MG, 36570-000, e-mail: lsalomao@ufv.br. Bolsista do CNPq
IIEng. Agr., PhD, Professor da Universidade Federal de Viçosa, Departamento de
Biologia Vegetal, Viçosa-MG, 36570-000, e-mail: rolf@ufv.br
IIIEng. Agr., DS, Professor da Universidade Federal de Viçosa, Departamento de
Fitotecnia, Viçosa-MG, 36570-000, e-mail: siqueira@ufv.br. Bolsista do CNPQ
IVEng. Agr., Mestrando em Fitotecnia, Universidade Federal de Viçosa,
Departamento de Fitotecnia, Viçosa-MG, 36570-000
INTRODUÇÃO
A dinâmica do acúmulo de nutrientes em frutos é de grande importância, devido
aos processos do desenvolvimento a que estão associados, como amadurecimento,
senescência e desordens fisiológicas (Bangerth, 1979; Johnson et al., 1987;
Monro & Lee, 1987; Fergunson et al., 1999). Apesar disso, a maior parte dos
trabalhos trata do acúmulo de nutrientes em fases estáticas (Bollard, 1970;
Borges & Silva, 1995).
Em maçãs, a condição nutricional do fruto desempenha papel fundamental na sua
conservação pós-colheita, particularmente na relação existente entre a
concentração de Ca na fruta e o aparecimento de desordens fisiológicas durante
seu armazenamento (Johnson et al., 1987; Sams,1999).
O conhecimento das alterações nas concentrações de nutrientes durante o
desenvolvimento pode contribuir para se estabelecerem estádios de maturação
mais adequados à colheita, avaliar-se o risco de incidência de desordens
nutricionais, a necessidade de adoção de medidas preventivas para a correção de
deficiências e a quantidade de nutrientes exportada devido à colheita (Souza,
1992).
O presente trabalho objetivou determinar a curva de crescimento de frutos de
bananeira 'Mysore' e as quantidades de nutrientes extraídas por esse órgão
desde a antese até a colheita do cacho.
MATERIAL E MÉTODOS
Cachos de banana (Musa spp.) 'Mysore' (AAB) foram colhidos em plantas de,
aproximadamente, dois anos de idade, espaçadas de 4,0 x 3,0 m, em pomar da
Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Visconde do Rio Branco, Minas Gerais
(21° 07' S, 42° 27' W, 349 m de altitude). O clima da região é do tipo Cwa,
segundo a classificação de Köeppen, com médias anuais de temperatura,
precipitação pluvial e umidade relativa do ar de 24,6°C, 1.331 mm e 86%,
respectivamente.
A área experimental compreendia um terreno de topografia plana. O solo é um
Argissolo Vermelho-Amarelo Câmbico, Fase Terraço, de classificação textural
franco-argilo-arenosa. As propriedades químicas do solo, na época de instalação
do experimento, estão apresentadas na Tabela_1.
O bananal foi conduzido em regime de sequeiro e submetido a desfolhas e
desbrotas periódicas. Não foram aplicados agrotóxicos durante o período
experimental. Anualmente, durante o período chuvoso, foram aplicados 600g de
sulfato de amônio, 500g de cloreto de potássio e 500g de superfosfato simples e
20 litros de esterco bovino.
Foi utilizado o delineamento experimental em blocos casualizados, com três
repetições. Em cada bloco, foram agrupadas plantas em que as datas da antese da
primeira penca feminina do cacho ocorreram em dias próximos. Cada parcela
experimental foi constituída de três cachos, portanto, cada ponto nas figuras
constitui a média de nove cachos. As coletas dos cachos foram iniciadas no dia
da antese floral da primeira penca feminina (dia zero após a antese) e
realizadas a cada sete ou 14 dias, dependendo do estádio de desenvolvimento e
encerradas aos 119 dias de desenvolvimento, quando os frutos já amadureciam na
planta.
Cada cacho foi colhido pela manhã e transportado imediatamente para o
laboratório, no câmpus da UFV, onde foram amostrados cinco frutos da porção
central da fileira distal da segunda penca. Os frutos foram cortados rentes à
almofada floral, limpos superficialmente e deixados em repouso por alguns
minutos para o escorrimento do látex.
A massa da matéria fresca do fruto e de suas partes foi determinada
gravimetricamente. Para a determinação da massa da matéria seca, amostras de
casca e polpa foram secas em estufa a 70°C até peso constante e pesadas. Após a
separação dos frutos em casca e polpa, foram retiradas e armazenadas a -20ºC,
até o momento das determinações, amostras frescas de cada um dos componentes,
adequadas para as digestões sulfúrica (Lindner, 1944) e nitroperclórica (Lott
et al., 1956).
No extrato sulfúrico, determinou-se o N total, pelo método do fenol-alcalino
(Cataldo et al., 1974) e, no extrato nitroperclórico, quantificou-se P, K, Ca,
Mg, Zn, Fe e Mn. O P foi determinado pelo método descrito por Lindeman (1958),
o K por fotometria de emissão de chama e os demais nutrientes, por
espectrofotometria de absorção atômica (AOAC, 1975).
Para a interpretação dos resultados, procedeu-se à estatística descritiva,
sendo os resultados discutidos com base nas médias das observações.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Acúmulo de matéria fresca e matéria seca
A banana 'Mysore' acumulou matérias fresca e seca continuamente, desde a antese
até quase o final de seu desenvolvimento (Figura_1). O crescimento do fruto
seguiu um padrão sigmoidal simples. Os acúmulos de matérias fresca e seca foram
lentos até o 42º dia após a antese, acelerando-se posteriormente. O diâmetro de
34 mm, a partir do qual já é possível proceder-se a colheita (Salomão, 1995),
foi atingido próximo ao 90º dia após a antese. O rápido desenvolvimento dos
cachos justifica-se pelo fato de sua emissão ter ocorrido a partir de setembro,
coincidindo com a elevação da temperatura e o início do período chuvoso em
Visconde do Rio Branco, devido ao fim do inverno.
O padrão de desenvolvimento da polpa assemelhou-se ao do fruto. Os acúmulos de
matérias fresca e seca da casca (Figura_1) ocorreram de forma lenta e quase
linear durante todo o desenvolvimento do fruto. A partir de 30 e 45 dias, a
polpa passou a contribuir com a maior parte das matérias seca e fresca do
fruto, respectivamente. Decorridos 112 dias após a antese, iniciou-se um
amadurecimento quase generalizado dos frutos na planta. Aos 119 dias após a
antese, a maior parte dos frutos amostrados encontrava-se senescente,
justificando a redução nas massas das matérias seca e fresca.
Acúmulo de nutrientes
Os padrões de acúmulo de N (Figura_2), P (Figura_3), K (Figura_4), Mg (Figura
5) e Fe (Figura_6) em fruto, casca e polpa mostraram-se bastante semelhantes
aos dos respectivos acúmulos de matérias fresca e seca (Figura_1). Os conteúdos
de N, P e Mg predominaram na polpa durante a maior parte do desenvolvimento. O
K e o Fe predominaram na casca até cerca de 70 dias após a antese. O acúmulo de
N, P, K e Fe no fruto e na polpa foi inicialmente lento, acelerando-se,
posteriormente. Na casca, o acúmulo foi lento até próximo ao 91º dia após a
antese, e após houve pequeno acréscimo.
O acúmulo de N pelo fruto foi pequeno no início de seu desenvolvimento (até 42
dias após a antese), observando-se redução na concentração do mesmo neste
período (Figura_2). Posteriormente, o suprimento de N acentuou-se, acompanhando
o acúmulo de matéria seca, o que resultou na estabilização da concentração
desse nutriente. O N concentrou-se mais na matéria seca da polpa do que na da
casca até o 28º dia após a antese. Desse ponto em diante, a casca apresentou
maior teor até o final do desenvolvimento do fruto.
A concentração de K na casca oscilou de 3,42 a 4,47 dag/kg de matéria seca
desde a antese até o amadurecimento (Figura_4). Contudo, a polpa e o fruto como
um todo apresentaram redução até o 56º dia após a antese, permanecendo
constantes a partir daí.
A concentração de P na polpa foi maior que na casca em quase todo o
desenvolvimento do fruto, só apresentando maior concentração na casca a partir
de 105º dia após a antese, período coincidente com o amadurecimento do fruto
(Figura_4). Observa-se que o acúmulo do P foi semelhante ao do N (Figura_2),
sendo seu suprimento maior a partir do 42º dia após a antese.
O Mg (Figura_5) e o Zn (Figura_7) acumularam-se contínua e linearmente ao longo
do desenvolvimento do fruto. Na polpa, o padrão de acúmulo de Mg foi semelhante
ao do fruto. No entanto, na casca, o acúmulo ocorreu até o 42º dia após a
antese, estabilizando-se até o fim do desenvolvimento. A concentração de Mg,
por sua vez, reduziu-se, tanto na casca quanto na polpa, a partir de 14 dias
após a antese. Nessa última, a concentração tendeu a estabilizar-se após 56
dias. O acúmulo de Zn na casca também se procedeu de forma quase linear, porém
com taxa menor que a observada no fruto. Na polpa, o Zn acumulou-se até o 98º
dia, estabilizando-se a partir daí.
Diferentemente do comportamento de N, P, K, Fe, Mg e Zn, as quantidades de Ca
(Figura_8) e Mn (Figura_9) no fruto variaram segundo um padrão sigmoidal duplo.
O Ca, que é o nutriente mais comumente associado a desordens fisiológicas em
pós-colheita (Fergunson et al., 1999), acumulou-se rapidamente no fruto até os
42 dias após a antese e, depois, do 84º ao 98º dia. Nas demais fases do
desenvolvimento, seu conteúdo manteve-se praticamente estável. Na casca, o
acúmulo de Ca foi acelerado até os 42 dias após a antese, mantendo-se estável a
partir daí. Na polpa, observou-se um padrão sigmoidal duplo, semelhante ao
descrito para o fruto. Aparentemente, o rápido acúmulo até os 42 dias na casca
e após o 84º dia após a antese na polpa foram os grandes responsáveis pelo
padrão de acúmulo apresentado pelo fruto.
Até o 42º dia após a antese, a concentração de Ca na casca apresentou grandes
variações, reduzindo-se a partir daí (Figura_8). Na polpa, houve redução de
concentração de Ca até o 56º dia após a antese, estabilizando-se
posteriormente. A exemplo do observado em kiwi (Clark & Smith, 1988) e maçã
(Van Goor & Van Lune, 1980), a maior parte do Ca do fruto acumulou-se nos
estádios iniciais do desenvolvimento. Naqueles frutos, atribui-se uma relação
entre o acúmulo do nutriente e a fase de divisão celular. Na casca de banana,
tal relação também parece existir, pois a quase totalidade do Ca acumulou-se
nas primeiras semanas após a antese, coincidindo com a fase final de divisão e
inicial de expansão celular (Salomão, 1995). Quanto à polpa, o acúmulo de Ca
parece estar associado mais à fase de expansão celular, pois a divisão cessa
por volta da quarta semana após a emissão do cacho (Ram et al., 1962). A maior
proporção desse Ca está associada aos pectatos da parede celular (lamela média)
e à superfície externa da membrana plasmática, onde exerce funções estrutural e
relacionada à permeabilidade de membranas, respectivamente (Marschner, 1986).
O Mn acumulou-se rapidamente no fruto até os 28 dias e do 56º ao 98º dia após a
antese (Figura_9). Nas demais fases do desenvolvimento, o conteúdo permaneceu
estável. Na casca, o acúmulo foi acelerado até o 28º dia, reduzindo-se o
conteúdo daí até o 56º dia. Depois, voltou a elevar-se, tendendo à estabilidade
a partir do 98º dia após a antese. Nos períodos de estabilidade, observou-se
redução na concentração devido ao efeito de diluição. Na polpa, ocorreu acúmulo
até o 70º dia após a antese, com tendência à estabilidade a partir daí. A
redução da quantidade de Mn na casca do 28º ao 56º dia após a antese pode estar
associada a uma redistribuição para a polpa, a exemplo do que já se observou
para outros órgãos vegetais (Hocking, 1980, 1982; Hocking et al., 1980).
A fase de acúmulo máximo de nutrientes no fruto e em suas partes coincidiu, em
geral, com a de acúmulo máximo de matéria fresca, ou seja, 112 dias após a
antese (Figura_1). Nessa fase, os conteúdos de N (Figura_2), P (Figura_3) e Mg
(Figura_5) na polpa foram várias vezes maiores que na casca. Ainda aos 112 dias
após a antese, os conteúdos de K (Figura_4) e Fe (Figura_6) na polpa foram até
duas vezes maiores que os da casca. Ao contrário, Ca (Figura_8), Mn (Figura_5)
e Zn (Figura_7) acumularam-se mais na casca do que na polpa do fruto.
A concentração de todos os nutrientes avaliados foi maior na casca do que na
polpa, aos 112 dias após a antese. Isso desperta à perspectiva de uso da casca
como alternativa alimentar.
A ordem de extração de macronutrientes pelos frutos em seu estádio de máximo
acúmulo de matéria fresca foi, em kg.t-1 de fruto fresco, K (3,61) > N (0,98) >
Mg (0,27) > P (0,19) > Ca (0,12). Essa ordem foi semelhante à encontrada por
Borges & Silva (1995), K (4,00) > N (2,20) > Mg (0,36) > P = Ca (0,25 kg.t-
1 de fruto fresco), para 'Nanica', 'Nanicão', 'Mysore', 'Pacovan' e 'Prata',
embora os valores absolutos observados pelos autores tenham sido superiores aos
do presente trabalho. Quanto aos micronutrientes, a ordem de extração foi, em
g.t-1 de fruto fresco, Mn > (7,92) > Fe (5,99) > Zn (2,92).
O padrão de extração de macronutrientes pelos frutos pode ser um indicativo
para os programas de adubação, a fim de se suprir as necessidades nutricionais
desses órgãos.
CONCLUSÕES
A banana 'Mysore' apresentou padrão de crescimento sigmoidal simples, com
acúmulos máximos de matérias seca e fresca aos 112 dias após a antese. O
acúmulo máximo de nutrientes também ocorreu nesse período, sendo a seguinte
ordem decrescente de exportação pelos frutos: potássio, nitrogênio, magnésio,
fósforo, cálcio, manganês, ferro e zinco. Ao final do desenvolvimento do fruto,
a concentração de todos os nutrientes avaliados foi maior na casca do que na
polpa.