Maturação dos cachos da videira 'Rubi' quando submetida a diferentes épocas de
anelamento do tronco
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
FITOTECNIA
Maturação dos cachos da videira 'Rubi' quando submetida a diferentes épocas de
anelamento do tronco1
Cluster maturation of 'Rubi' table grape girdled on different periods
Sérgio Ruffo RobertoI; Fábio YamashitaII; Hernades Takeshi KanaiIII; Marcos
Yutaka YanoIII; Evandro Sasano MacenteIV; Werner GentaIV
IProfessor Adjunto, Área de Fruticultura. Pesquisador do CNPq em Produtividade
em Pesquisa. Depto. de Agronomia. Universidade Estadual de Londrina, C.P. 6001,
CEP 86051-990, Londrina-PR. (43) 3371 4774. e-mail: sroberto@uel.br
IIProfessor Adjunto, Área de Pós-Colheita de Frutas e Hortaliças. Depto. de
Tecnologia de Alimentos, Universidade Estadual de Londrina, C.P. 6001, CEP
86051-990, Londrina-PR. (43) 3371 4565 e-mail: fabioy@uel.br
IIIAcadêmico do Curso de Agronomia, Universidade Estadual de Londrina, Bolsista
do CNPq. e-mail: kanai@yahoo.com.br
IVEng. Agr. ANPEF (Associação Norte Paranaense de Estudos em Fruticultura). Rua
Atílio Ferri, 336. CEP 86990-000. Marialva-PR. (44) 232 1970. e-mail:
plantas@klnet.com.br
O uso de técnicas que favoreçam a antecipação da maturação de uvas finas de
mesa é extremamente desejado na região noroeste do Paraná, pois a remuneração
pode ser maior para o produtor que disponha de uvas maduras antes do período de
maior oferta deste produto no mercado. Além disso, em anos com ocorrência de
geadas, a poda de inverno pode ser retardada, resultando em colheita a partir
de janeiro, onde os preços são menores, o que poderia ser minimizado
empregando-se técnicas para antecipar a maturação dos cachos (Roberto et al.,
2002a).
Entre as possíveis práticas para antecipar a maturação, está o anelamento ou
incisão anelar. Essa técnica consiste na retirada completa de um anel da casca
do tronco ou de ramos lenhosos com largura de 3,1 a 6,3 mm. O efeito
fisiológico primário é o acúmulo de carboidratos nas partes acima da lesão
devido à interrupção temporária da translocação da seiva elaborada para o
tronco e as raízes, antecipando a maturação dos cachos (Winkler et al., 1974;
Pommer et al., 1991).
O anelamento, em função da época e da variedade, pode ser realizado com
diferentes objetivos, dentre os quais: melhorar o pegamento ou aumentar o
número de bagas nos cachos, principalmente para as variedades com excessivo
abortamento de flores; aumentar o tamanho das bagas, principalmente para as
variedades sem sementes, que têm dificuldade para o crescimento das mesmas, e,
finalmente, antecipar a maturação. Quando se visa a este último objetivo, a
técnica deve ser realizada durante o "véraison", fase que corresponde ao início
do amolecimento das bagas nas variedades brancas ou ao início da formação de
cor nas bagas das uvas rosadas ou pretas (Winkler et al., 1974; Carreño et al.,
1998; Terra et al., 1998). Isto é devido, a partir desta fase fenológica, a um
crescente acúmulo de açúcares nas bagas (Mullins et al., 1994).
Alguns trabalhos conduzidos no noroeste do Paraná mostraram a viabilidade de se
antecipar a maturação de uvas de mesa empregando-se o anelamento do tronco
(Roberto et al., 2002a;b). Entretanto, a determinação do momento correto para
se realizar o anelamento, baseada em parâmetros como o início do amolecimento
e/ou o início da formação de cor nas bagas, não tem sido caracterizado de forma
satisfatória pelos viticultores, o que tem levado, em alguns casos, a
resultados poucos significativos quanto à antecipação da maturação dos cachos.
Tendo em vista estes aspectos, o presente trabalho teve por objetivo avaliar o
efeito do anelamento do tronco realizado em diferentes épocas, sobre a
maturação dos cachos da videira 'Rubi', na região noroeste do Estado do Paraná,
tendo como parâmetro a porcentagem de sólidos solúveis totais (SST) no suco das
bagas, no momento da aplicação do anelamento.
O trabalho foi realizado em uma parreira comercial da cultivar Rubi (Vitis
vinifera L.) enxertada sobre 'IAC-766 Campinas' conduzida no sistema latada e
em espaçamento 4 m x 4 m, com aproximadamente 5 anos de idade e localizada no
município de Mandaguari-PR.
Este trabalho foi realizado sobre uvas destinadas à produção "fora de estação",
oriunda da poda de frutificação realizada em 23 de janeiro de 2002. A poda
longa foi realizada deixando-se de 6 a 8 gemas nas varas, e quebra da dormência
das 3 gemas apicais com cianamida hidrogenada a 2,5%.
Foram estudados os seguintes tratamentos de anelamento do tronco:
a.Testemunha sem anelamento;
b.Anelamento com 5-6ºBrix de sólidos solúveis totais (SST) no suco das bagas;
c.Anelamento com 7-8ºBrix de SST no suco das bagas;
d.Anelamento com 9-10ºBrix de SST no suco das bagas.
O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com quatro tratamentos e
cinco repetições, sendo cada parcela composta por uma planta útil. Em cada
parcela foram marcados oito cachos uniformes para posteriores análises química
e física.
O anelamento consistiu na remoção de uma porção da casca do tronco, de
aproximadamente 3-4 mm de largura, utilizando-se de um incisor de lâmina dupla,
a uma altura de 1,5 m do solo (Winkler et al., 1974).
Para a determinação do teor de SST, que determinou o momento da aplicação de
cada tratamento, foram coletadas aleatoriamente, antes do início da maturação,
50 bagas a cada 2 dias, as quais foram analisadas, utilizando-se de um
refratômetro de campo com precisão de +/-0,2 ºBrix e com compensação automática
de temperatura (Atago®, modelo ATC1-e, Japão). Os tratamentos b, c e d foram
aplicados nos dias 25-04, 09-05 e 23-05-2002. Em cada uma destas datas, as
plantas destes tratamentos encontravam-se aos 56; 70 e 84 dias após o
florescimento, respectivamente.
Nos períodos de aplicação de cada tratamento, avaliaram-se também a porcentagem
de cachos que apresentavam bagas amolecidas e a porcentagem de cachos coloridos
presentes em cada parcela, obtendo-se as médias: 1%, 66% e 100% de cachos com
bagas amolecidas e 2%, 36% e 100% de cachos coloridos para os tratamentos b, c
e d, respectivamente.
A partir da instalação do experimento, avaliou-se, a cada 7 dias, o teor de SST
e acidez titulável (AT), através da coleta de uma baga de cada cacho marcado,
as quais foram retiradas da porção terminal de cachos, até a colheita, em um
total de nove amostragens. Para tanto, após a trituração das bagas de cada
amostra, o teor de SST foi determinado em refratômetro de bancada com precisão
de +/-0,1ºBrix e compensação automática de temperatura (Krüss Optronic, modelo
DR300-45, Alemanha), sendo o suco previamente filtrado em algodão e os
resultados expressos em ºBrix (Instituto Adolfo Lutz, 1985). A determinação da
AT foi realizada por titulação do suco com solução padronizada de NaOH a 0,1M e
fenolftaleína como indicador, e o resultado expresso em g.ácido tartárico.100g-
1 (Instituto Adolfo Lutz, 1985). Através destes dados foi calculado o índice de
maturação, expresso pela relação SST/AT para cada tratamento, em cada data de
amostragem.
A análise de regressão permite verificar o comportamento das variáveis
analisadas (SST, AT e SST/AT) de cada tratamento em função do tempo pós-
anelamento. Para a determinação da estimativa do período ótimo de maturação
para cada tratamento, expresso em dias, adotou-se como referência o índice de
maturação (Carreño et al., 1998), e o índice adotado para as estimativas foi de
20 (Isepon, 2001). Para a determinação dos coeficientes e parâmetros
estatísticos das regressões, foi utilizado o programa Statistica® 5.0.
Avaliaram-se também, por ocasião da colheita, algumas características dos
tratamentos, como massa fresca (g) e comprimento (cm) dos cachos, e massa (g),
largura (mm) e comprimento (mm) das bagas (g), amostrando-se cinco cachos de
cada parcela. As características dos cachos e das bagas foram analisadas
através da análise de variância, e a comparação entre médias foi realizada pelo
teste de Tukey, a 5% de probabilidade.
O teor de SST no suco da uva 'Rubi', no período em que foram realizadas as
amostragens, apresentou aumento crescente em função do tempo (Tabela_1). Este
comportamento do teor de SST em videiras a partir do início da maturação das
bagas é devido principalmente ao aumento na concentração de açúcares e tem sido
relatado por outros autores (Carrol e Marcy, 1982; Roberto et al., 2002a;b).
Observa-se que a taxa diária de acúmulo de SST foi superior no suco das bagas
cujas videiras foram submetidas ao anelamento (Tabela_1), mostrando o efeito
fisiológico de maior acúmulo de carboidratos nas partes acima do anel, conforme
o relatado por Weaver e McCune (1959) e Pommer et al. (1991).
Mullins et al. (1994) descreveram que o acúmulo de SST nas bagas é dependente
da fotossíntese e da importação de sacarose das folhas, a qual é posteriormente
hidrolisada em glicose e frutose. Antes do início da maturação, as brotações do
ápice são os maiores drenos da planta e, a partir do início da maturação,
ocorre um crescente acúmulo de SST no suco dos frutos até que este atinge um
patamar máximo, variável em função da cultivar. Assim, a interrupção temporária
da translocação da seiva no floema, pela incisão anelar, resulta em maior taxa
diária de acúmulo de SST nas bagas, mostrada neste trabalho.
O teor de AT do suco das bagas foi decrescente ao longo do tempo e mostrou ser
afetado pelo anelamento, sendo as maiores taxas diárias de decréscimo
observadas para o anelamento realizado quando o suco das bagas apresentava teor
de SST entre 5-6 ºBrix (Tabela_2).
Estes resultados estão de acordo com os obtidos por Carreño et al. (1998), que
observaram taxas diárias de decréscimos de AT no suco das bagas superiores nas
plantas em que se realizou o anelamento do tronco durante o início da
maturação, em relação às obtidas por videiras não aneladas ou aneladas mais
tardiamente.
Mullins et al. (1994) descreveram que a concentração de ácidos orgânicos
presentes nas bagas, dos quais cerca de 90% são os ácidos tartárico e málico,
decresce significativamente a partir do início do amolecimento das bagas,
devido a diversos fatores. A partir do início da maturação, verifica-se que não
ocorre redução da quantidade de ácido tartárico "por baga" e, sim, sua diluição
crescente devido ao aumento do volume das mesmas. Por outro lado, observa-se, a
partir desta fase, que a concentração de ácido málico sofre significativa
redução devido à alteração do metabolismo da sacarose exógena (Possner et al.,
1983), até que o seu teor se estabilize em um patamar constante, próximo à
maturação plena dos cachos (Carrol e Marcy, 1982).
Em relação ao índice de maturação, as maiores taxas diárias foram observadas
para o anelamento realizado quando o suco das bagas apresentava teor de SST
entre 5-6 ºBrix, que propiciou uma antecipação de oito dias em relação à
testemunha sem anelamento (Tabela_3).
Estes resultados são semelhantes aos obtidos por Carreño et al. (1998), que
determinaram que o anelamento realizado no início da maturação dos cachos da
videira 'Itália' proporcionou a antecipação da maturação em até cinco dias em
relação às plantas não aneladas, tendo também como referência o índice de
maturação. Outros autores também descreveram resultados similares, para outras
variedades (Gonzalo et al., 1984; Dokoozlian et al., 1995).
O anelamento não exerceu influência sobre as características físicas dos
frutos, como massa fresca e comprimento dos cachos, e massa fresca, largura e
comprimento das bagas (Tabela_4), o que está de acordo com o observado por
Winkler et al. (1974) e Roberto et al. (2002b).
Ressalta-se que a aplicação desta técnica no tempo correto é essencial para que
se obtenham efeitos significativos na antecipação da maturação. Assim, o
viticultor deve levar em consideração, para esta decisão, o teor de SST
presente no suco das bagas e não somente aspectos visuais relacionados com a
produção, como a porcentagem de cachos com bagas amolecidas ou a porcentagem de
cachos coloridos.