Produtividade da cultivar de uva de mesa niagara rosada sobre diferentes porta-
enxertos, em Monte Alegre do Sul-SP
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
FITOTECNIA
Produtividade da cultivar de uva de mesa niagara rosada sobre diferentes porta-
enxertos, em Monte Alegre do Sul-SP1
Yield of the niagara rosada table grape cultivar grafted on different
rootstocks, in Monte Alegre do Sul-SP
Maurilo Monteiro TerraI, II; Erasmo José Paioli PiresI, II; Celso Valdevino
PommerI, II; Renato Vasconcelos BotelhoI, III
IEng. Agr. Dr. Instituto Agronômico (IAC). Caixa Postal 28, CEP: 13001-970,
Campinas-SP. E-eletrônico: mmterra@iac.br
IIBolsista CNPq
IIIBolsista FAPESP
A uva 'Niagara Rosada' é o resultado de uma mutação somática ocorrida na uva
'Niagara Branca' (Vitis labrusca L. x Vitis vinifera L.) em 1933, em Louveira-
SP, que rapidamente predominou sobre a forma original (Sousa, 1996). Na
viticultura paulista as Niagaras são as uvas mais cultivadas, perfazendo uma
área de 7.626 hectares, o que representa 66,3% dos vinhedos (Ghilardi &
Maia, 2001).
Com a disseminação da filoxera, um afídio que danifica as raízes da videira, os
viticultores tiveram que fazer uso de porta-enxertos tolerantes ou resistentes
a esta praga. Entretanto, apesar da disponibilidade razoável de bons porta-
enxertos, cada um deles tem a sua limitação, e só a experimentação regional
poderá determinar qual é o mais adequado para cada condição de cultivo (Pommer
et al., 1997).
Em estudo desenvolvido na região de Jundiaí-SP com a cultivar Niagara Rosada,
as melhores produções foram obtidas quando utilizou-se o porta-enxerto
'Schwarzmann', o qual não diferiu dos porta-enxertos 'Golia', 'Traviú', 'IAC
572' e 'IAC 571-6'. No entanto, os porta-enxertos não influenciaram o peso
médio dos cachos (Terra et al., 1988).
Na região do Vale do Paraíba-SP, Pauletto (1999), comparando diferentes porta-
enxertos para a cultivar Niagara Rosada, verificou maiores produções quando as
plantas foram enxertadas sobre 'IAC 766', 'IAC 313' e 'Traviú', superando os
porta-enxertos 'Kober 5BB' e 'Schwarzmann'.
Em outro experimento conduzido na região de Mococa-SP por cinco anos
consecutivos, as melhores produções para a uva 'Niagara Rosada' foram
observadas quando utilizaram-se os porta-enxertos 'IAC 572' e 'IAC 313' e maior
desenvolvimento vegetativo com os porta-enxertos 'IAC 766' e 'IAC 313' (Terra
et al., 2002). Para a cultivar Concord, também na região de Mococa-SP, Terra et
al. (2001) verificaram maiores produções quando as plantas foram enxertadas
sobre 'IAC 313', 'IAC 571-6' e 'IAC 572'. A pior performance foi constatada
quando se utilizou o porta-enxerto 'IAC 766'.
No município de Caldas-MG, Alvarenga et al. (2002) observaram que o porta-
enxerto 'IAC 766' induziu a produção do maior número de cachos para a cultivar
Niagara Rosada. Para a variável produção total, estes autores verificaram
superioridade quando as plantas foram enxertadas sobre os porta-enxertos 'IAC
766' e 'IAC 572'.
Para a região de Jales-SP e outras localidades de clima tropical, Maia &
Camargo (2002) recomendam o uso do porta-enxerto 'IAC 572' para o cultivo da
'Niagara Rosada', no sistema de latada. Por outro lado, para as regiões de
Jundiaí e São Miguel Arcanjo-SP, Braga (1988) sugere a utilização dos porta-
enxertos 'IAC 766' e 'Traviú'.
Em Monte Alegre do Sul-SP, em trabalho onde se estudou o comportamento da
cultivar de uva para vinho IAC 138-22 'Máximo' sobre diferentes porta-enxertos,
Terra et al. (1990) verificaram maiores produções quando as plantas foram
enxertadas sobre 'IAC-572'.
Tendo em vista a grande variação de comportamento da combinação copa x porta-
enxerto para diferentes condições edafo-climáticas, este trabalho teve como
objetivo avaliar a produtividade da cultivar de uva de mesa Niagara Rosada
sobre diferentes porta-enxertos, na região de Monte Alegre do Sul-SP.
O experimento foi instalado em 1993 na Estação Experimental de Monte Alegre do
Sul-SP, do Instituto Agronômico de Campinas, situada a latitude de 22º43'S e
longitude 46º37'O, 740m de altitude, clima classificado como Cwa e, em solo
argissolo vermelho-amarelo.
A cultivar utilizada como copa foi a Niagara Rosada, plantada no espaçamento 2
x 1m e conduzida no sistema de espaldeira com três fios de arame e poda curta
de inverno, com uma gema, no cordão esporonado unilateral.
Os porta-enxertos estudados foram 'Schwarzmann', IAC 572 'Jales', IAC 313
'Tropical', 'Traviú', IAC 766 'Campinas' e 'Kober 5BB', cujas características
são apresentadas a seguir:
Schwarzmann - Híbrido natural entre Vitis riparia e Vitis rupestris,
selecionado na Moravia, por Bizenz. Apresenta vigor médio, adaptado a terrenos
secos, áridos, ácidos e arenosos, com bom pegamento (Pommer et al., 1997).
IAC 572 'Jales' - Obtido do cruzamento entre Vitis caribaea e 101-14 Mgt,
efetuado por Santos Neto e lançado ao cultivo em 1970. Apresenta alto vigor,
adaptado tanto a solos argilosos como arenosos, folhas resistentes às
principais doenças, ótimo enraizamento e pegamento (Pommer et al., 1997).
IAC 313 ' Tropical' - Originário do cruzamento do porta-enxerto 'Golia' com a
espécie de videira tropical Vitis cinerea realizado por Santos Neto. Apresenta
alto vigor, adaptando-se bem a diferentes tipos de solos e suas folhas têm boa
resistência às moléstias (Pommer et al., 1997).
Traviú - Híbrido entre Vitis riparia x (Vitis rupestris x Vitis cordifolia),
obtido por Millardet e De Grasset, na França, em 1882, introduzido como Vitis
riparia em Jundiaí. Possui bom desenvolvimento, porém pouco vigoroso, mas com
boa adaptação a solos ácidos (Pommer et al., 1997).
IAC 766 'Campinas' - Obtido pelo cruzamento do porta-enxerto Traviú com a
espécie de videira tropical Vitis caribaea realizado por Santos Neto, em 1958.
Apresenta alto vigor e boa adaptação às condições edafo-climáticas paulistas;
suas folhas são bastante resistentes às doenças (Pommer et al., 1997).
Kober 5BB - Resultado do cruzamento entre as espécies Vitis berlandieri e Vitis
riparia, realizado por Teleki e selecionado por Kober, na Áustria, no início do
século XX. Apresenta vigor médio e boa adaptação a diferentes tipos de solo e
boa resistência à seca e às doenças fúngicas (Pommer et al., 1997).
O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com seis tratamentos e
quatro repetições, totalizando 24 parcelas, cada qual constituída de 12
plantas.
Durante seis anos consecutivos, de 1996 a 2001, foram avaliadas as variáveis
produção total por planta, expressa em quilogramas; número de cachos por planta
e peso médio dos cachos, em gramas.
Os resultados foram submetidos à análise de variância conjunta, com agrupamento
por ano agrícola e comparação de médias através do teste de Tukey a 1% de
probabilidade.
No primeiro ano de avaliação, 1996, a maior produtividade foi verificada para
as plantas enxertadas sobre o porta-enxerto 'IAC 313', diferindo
significativamente dos demais porta-enxertos. Nos outros anos, este porta-
enxerto também conferiu maior produtividade às plantas, porém nos 2º, 3º e 6º
anos foi superior somente ao porta-enxerto 'Kober 5BB'. No 4º ano de avaliação
foi também melhor que o porta-enxerto 'IAC 572' e, no 5º ano superou ainda o
'Schwarzmann'. Pela comparação entre as médias dos seis anos, os porta-enxertos
'IAC 313', 'Traviú' e 'IAC 766' induziram as maiores produções por parcela sem
diferirem estatisticamente entre si (Tabela_1).
Os porta-enxertos 'IAC 572' e 'Kober 5BB' foram os que apresentaram menor
alternância de produção, sendo que não houve diferenças significativas entre os
diferentes anos de avaliação (Tabela_1).
Em todos os anos, o porta-enxerto 'Kober 5BB' induziu a produção de um menor
número de cachos por planta, diferindo significativamente de pelo menos um dos
outros porta-enxertos estudados. Os demais porta-enxertos não diferiram
estatisticamente entre si. Na média dos seis anos de estudo, todos os porta-
enxertos conferiram um número de cachos por planta superior ao 'Kober 5BB'. A
maior variação de número de cachos produzidos entre os anos de estudo foi
observado para o porta-enxerto 'IAC-313' (Tabela_2).
No primeiro ano do experimento, os porta-enxertos 'IAC-572', 'IAC-313' e
'Traviú' induziram maior peso médio dos cachos. No entanto, nos outros anos,
somente as plantas enxertadas sobre 'Kober 5BB' apresentaram peso médio de
cachos significativamente inferior aos demais. Variações entre os diferentes
anos somente foram verificadas para os porta-enxertos 'IAC-572' e 'IAC-766'
(Tabela_3).
Os resultados deste experimento são parcialmente condizentes com aqueles
obtidos por Terra et al. (2002) que verificaram maior produção da uva 'Niagara
Rosada' em Mococa-SP, com os porta-enxertos 'IAC-572' e 'IAC 313' e menor
produção com o 'IAC-766'. De forma semelhante, Terra et al. (1988), em
experimento realizado em Jundiaí-SP, verificaram bom desempenho não somente do
porta-enxerto 'IAC-572', como também do 'Traviú', do 'Schwarzmann' e do 'IAC-
571-6'.
Por outro lado, no presente trabalho o porta enxerto 'IAC-572' induziu menor
produtividade, enquanto que o 'IAC-766' possibilitou produtividade superior.
Estas divergências de resultados evidenciam a importância da realização de
experimentos regionais para a melhor indicação da combinação copa/porta-
enxerto, tendo em vista as diferenças edafo-climáticas de cada região.
O peso médio dos cachos, o número de cachos e a produção por planta da uva
'Niagara Rosada' foram drasticamente reduzidos em plantas enxertadas sobre
'Kober 5BB', possivelmente devido ao seu baixo vigor e pouca adaptabilidade aos
solos ácidos (Pommer et al., 1997), não podendo, portanto, ser recomendado para
o cultivo desta variedade.
Os porta-enxertos IAC-313 'Tropical', IAC 766 'Campinas' e 'Traviú' são
recomendados para a uva de mesa 'Niagara Rosada', na região de Monte Alegre do
Sul-SP.
A cultivar Niagara Rosada sobre o porta-enxerto 'Kober 5BB' teve menor
produtividade em comparação com os demais porta-enxertos avaliados, não sendo
recomendado para a região de Monte Alegre do Sul-SP.