Crescimento de bananeiras sob diferentes níveis de salinidade da água de
irrigação
SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS
Crescimento de bananeiras sob diferentes níveis de salinidade da água de
irrigação1
Growth in banana cultivars under different salinity levels of irrigation water
Gilcimar Alves do CarmoI; José Francismar de MedeirosII; José Celesmário
TavaresII; Hans Raj GheyiIII; Ana Maria de SouzaIV; Elba Araújo de Queiroz
PalácioV
IProfessor EAF de Iguatu-CE, M.Sc. Fitotecnia, Rua Eng. Barreto, 524, CEP
63.500-000, Iguatu-CE
IIProfessor ESAM-RN, Km 47 BR 110, B. Costa e Silva, CEP 59625-900, Mossoró-RN
IIIProfessor UFPB, Av. Aprígio Veloso, 882, Bodocongó, CEP 58.109-970, Campina
Grande - PB
IVEngenheiro Agrônomo ESAM-RN, Km 47 BR 110, B. Costa e Silva, CEP 59625-900,
Mossoró-RN
VProfessor EAF de Iguatu-CE, Lic. em Ciências Agrícolas, Rua Tancredo Neves,
82, CEP 63.5500-000. Iguatu-CE
INTRODUCÃO
O Nordeste brasileiro é a principal região produtora de bananas, com mais de
39% da área total do país, cerca de 166.887 ha de área colhida e uma produção
em torno de 1.660.685 Mg/ano (AGRIANUAL, 2000), possuindo em quase toda a sua
extensão condições climáticas tropicais para o desenvolvimento e produção da
cultura. Apesar dessas condições favoráveis, a produtividade obtida tem sido
aquém do seu potencial, devido a não utilização de tecnologias disponíveis e
adequadas para a sua exploração. A salinização das áreas irrigadas, nas regiões
áridas e semi-áridas do mundo inteiro é notória. No Nordeste do Brasil, tem-se
constatado problemas de salinidade, praticamente, em todos os grandes
perímetros irrigados. Normalmente a salinidade em áreas irrigadas é
conseqüência do uso de água de qualidade não adequada, associado ao manejo do
solo-água-planta (Medeiros et al., 1993). O objetivo desta pesquisa foi avaliar
os efeitos da salinidade da água de irrigação nas bananeiras Pacovan (AAB) e
Marmelo (ABB), no seu desenvolvimento vegetativo.
MATERIAL E MÉTODOS
Características da área experimental
O experimento foi desenvolvido na área do Parque Zôo-botânico da Escola
Superior de Agricultura de Mossoró-RN - ESAM, entre julho de 1999 e janeiro do
ano 2001. O solo da área experimental utilizada foi classificado como Argissolo
Crômico, textura franco-argilo-arenosa (EMBRAPA, 1999) e os resultados das
análises químicas e físicas realizadas no Laboratório de Solos da ESAM (Tabela
1). O relevo da área é considerado plano a suave ondulado. O município de
Mossoró está situado na região semi-árida do Nordeste brasileiro, no Estado do
Rio Grande do Norte, localizado pelas coordenadas geográficas 5o11'de latitude
sul, 37o20'de longitude W. Gr. e 18 m de altitude, com uma temperatura média
anual em torno de 27,50 C, umidade relativa de 68,9%, nebulosidade média anual
de 4,4 décimos e precipitação média anual de 673,9 mm. Segundo classificação
climática de Köppen, o clima de Mossoró-RN é do tipo BSwh', ou seja, quente e
seco, tipo estepe, com estação chuvosa no verão atrasando-se para o outono
(Carmo Filho et al., 1987).
Tratamentos e delineamento experimental
Os fatores estudados nos tratamentos foram quatro níveis de salinidade da água
(S1=0,55 dS/m, S2=1,7 dS/m, S3=2,8 dS/m e S4=4,0 dS/m) e dois cultivares de
bananeiras: Pacovan (AAB) e Marmelo (ABB). O delineamento experimental adotado
foi em blocos completos inteiramente casualizados em parcelas subdivididas 4x2,
com quatro repetições, totalizando 8 tratamentos. O espaçamento utilizado foi o
de 3,0 x 2,0 m e as parcelas experimentais foram compostas de uma fileira com
10 plantas, sendo cinco plantas da cultivar Pacovan e cinco da cultivar
Marmelo, com as três plantas centrais de cada sub-parcela consideradas úteis.
Irrigação e preparo das águas
O sistema de irrigação utilizado foi o de gotejamento com duas linhas laterais
por fileira e quatro gotejadores por planta, com vazão de 3,75 L/h cada. A
lâmina de irrigação era controlada pelo tempo, usando-se abertura e fechamento
das válvulas. Os níveis de salinidade foram obtidos a partir de misturas de
águas naturais de poços do arenito (CE=0,55 dS/m) e do aqüífero calcário
(CE=4,0 dS/m), sendo estas armazenadas em tanques de alvenaria revestidos de
cimento, com os níveis de salinidade pré-estabelecidos e verificados
diariamente com o auxílio de condutivímetro. As irrigações foram feitas
diariamente ou a cada dois dias, de modo a proporcionar uma fração de
lixiviação de 0,15%, colocando-se volumes aproximados de água para manter o
solo próximo à capacidade de campo. As necessidades hídricas da cultura foram
estimadas conforme metodologia recomendada por Allen et al., 1996. Ao longo do
ciclo, a umidade do solo foi monitorada por tensiômetros. As baterias de
tensiômetros foram instaladas nas oito subparcelas de um bloco e nas
profundidades de 15, 30 e 45 cm.
Preparo do solo, plantio e adubação
Constou de uma aração e uma gradagem para melhorar aeração e nivelamento do
mesmo e foi amostrado nas profundidades de 0-20, 20-40 e 40-60 cm para a
realização de análises químicas. Foi adubado conforme resultados das análises
feitas no Laboratório de Fertilidade de Solo da ESAM que estão apresentadas na
Tabela_1. A adubação de fundação foi feita, visando a correção do solo,
acrescida de 5 kg de esterco de ave curtido por cova e, as adubações de
manutenção foram feitas via água de irrigação de acordo com a necessidade
nutricional da cultura. O plantio ocorreu na primeira quinzena de agosto, feito
em covas de 50x50x50 cm de profundidade. As mudas da cultivar Pacovan ficaram
armazenadas por duas semanas devido à falta de mudas da cultivar Marmelo e a
quantidade utilizada foi de 80 de cada cultivar e todas do tipo chifre. Durante
o primeiro mês após o plantio, foram feitas irrigações com água de 0,55 dS/m,
usando-se 10 a 15 L/planta a cada dois dias até iniciar pegamento destas. Após
30 dias começaram-se os tratamentos com águas salinas com duração de 1 hora, o
que corresponde a 15 L/cova, realizada a cada dois dias no segundo mês. A
partir do terceiro mês, as irrigações foram feitas diariamente.
Observações experimentais
A partir dos 110 dias após o plantio das mudas no campo, foram realizadas as
medições de altura de plantas, diâmetro de pseudocaule, número de folhas, área
foliar unitária e área foliar total.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Efeitos dos níveis de salinidade da água de irrigação na evolução da salinidade
e na umidade do solo
A evolução da salinidade no solo a partir dos valores de condutividade elétrica
do extrato de saturação (CEes), ao longo do tempo, nas diferentes profundidades
e épocas, encontra-se na Figura_1. O maior acúmulo de sais no solo na época
inicial (sem chuvas) ocorreu, provavelmente, devido à elevada evapotranspiração
e irrigação com as respectivas águas aplicadas com frações de lixiviação
inferior a 0,15%. Nos períodos de chuvas (150 a 300 dias), constataram-se
diminuições dos teores de sais no solo, onde a CEes foi notadamente reduzida,
ficando inclusive abaixo de todos os níveis de salinidade da água de irrigação.
No período sem chuva subseqüente, como as lâminas de irrigação proporcionaram
frações de lixiviação maiores (FL > 0,15), a salinidade do solo cresceu menos
do que na fase inicial de cultivo. Rhoades et al. (1992) afirmam que as
lixiviações mais intensas são obtidas com chuvas ou irrigações sucessivas, e
são as responsáveis pelo controle da lixiviação dos sais do solo. De acordo com
a Figura_2, a salinidade média do solo ponderada com o tempo pode ser explicada
pelo modelo potencial ou linear em função da salinidade da água. Verifica-se
que houve acúmulo de sais no solo, na profundidade estudada, sendo
proporcionais aos níveis de salinidade da água de irrigação, principalmente no
final do ciclo.
Efeitos de diferentes níveis de salinidade da água de irrigação no
desenvolvimento das bananeiras Pacovan e Marmelo (Musa sp.) - Altura de Plantas
A altura das plantas foi significativamente afetada pela salinidade da água de
irrigação aos 110, 160 e 240 dias, apresentando efeito linear. A Tabela_2
mostra as equações de regressão e os coeficientes de determinação, onde se
verifica redução da altura das plantas com o aumento da salinidade da água de
irrigação para essas épocas. Observa-se na Figura_3 a altura das plantas para
cada nível de salinidade em cada época e que, para os níveis de salinidade S3 e
S4 houve um crescimento mais acentuado ente 240 e 300 dias, continuando até 360
dias, fato não ocorrido para os níveis S1 e S2. Isto, provavelmente, foi devido
ao período chuvoso, entre 150 e 270 dias, e à redução da salinidade do solo,
principalmente para os níveis de salinidade mais elevados (Figura_1), como
também, pelo fato das plantas dos níveis S1 e S2 já estarem no final do ciclo
reprodutivo, o que fez a planta paralisar o crescimento. Santos (1997) também
verificou a recuperação de plantas estressadas por sais no período seco após o
período chuvoso. Entretanto, para cultivares, houve efeito significativo apenas
para 110 dias. Verificou-se, também, efeito não interativo entre cultivares e
salinidade da água de irrigação, ou seja, ambas as cultivares foram afetadas
semelhantemente pela salinidade. A cultivar Marmelo foi superior a Pacovan em
altura na medição inicial, provavelmente, devido ao fato de terem sido
adquiridas em pomares diferentes e a Pacovan ter ficado armazenada alguns dias
antes do plantio, o que fez com que parte de suas reservas nutricionais fossem
consumidas, enquanto a Marmelo teve o plantio imediatamente após a sua
retirada. Considerando a altura de planta no final do ciclo, verificou-se que
as cultivares não atingiram a sua altura potencial (Tabela_6). De maneira
geral, o menor crescimento e desenvolvimento vegetativo das plantas em
tratamentos mais salinos podem ser associados à diminuição da absorção de água
pelas plantas, dado o aumento da pressão osmótica da solução do solo provocado
por acumulações de sais solúveis provenientes das águas de irrigação (Ayres
& Westcot 1991). Araújo Filho (1990) verificou, comparando cultivares de
bananeiras, a um determinado nível de salinidade do solo, que as cultivares do
grupo AAA apresentaram maior tolerância que as do grupo AAB, embora não tenha
sido possível estabelecer os valores de salinidade limiar para a bananeira,
pois houve uma redução linear, desde o menor nível de salinidade estudado (0,9
dS/m), para a maioria dos parâmetros avaliados, sobretudo para a Pacovan.
Santos (1990) e Santos (1997) também verificaram reduções na altura de plantas
de bananeiras Nanica em função da salinidade da água de irrigação, em
diferentes idades.
Diâmetro de Pseudocaule
A salinidade da água de irrigação afetou de forma significativa o diâmetro do
pseudocaule, tendo efeito linear para 110, 240 e 300 dias e cúbico para 160
dias, embora linear já explique em 81% e não significativo (P > 0,05) para 360
dias. A Tabela_3 apresenta as equações de regressão e os respectivos
coeficientes de determinação. Através da Figura_4, verifica-se, também, que,
para o final do ciclo, o efeito da salinidade sobre o diâmetro do pseudocaule
foi menos acentuado, o que pode ter ocorrido devido à planta cessar o seu
desenvolvimento vegetativo, logo iniciando a sua diferenciação floral, o que
aconteceu mais precocemente, quanto menos salina era a água de irrigação, pelo
fato da redução da salinidade do solo, entre os tratamentos, em decorrência do
período chuvoso ter ocorrido entre o 6o e 11o mês do cultivo (Tabela_7). Santos
(1990) observou efeito semelhante da salinidade para o diâmetro do pseudocaule,
estudando a bananeira Nanica, entretanto, o mesmo constatou maior efeito da
salinidade à medida que as plantas foram ficando mais velhas. Nesse caso, o
autor atribuiu ao aumento da salinidade do solo ao longo do ciclo cultural.
Número de Folhas
Esta característica foi afetada significativamente pela salinidade da água de
irrigação, exceto aos 300 e 360 dias, tendo um efeito linear para as plantas
com 110, 160, 240 e 360 dias. A Tabela_4 apresenta as equações de regressão e
os respectivos coeficientes de determinação. Observa-se, na Figura_5, que a
partir de 160 dias o efeito da salinidade foi ficando cada vez menor, passando
a ter efeito positivo aos 360 dias, ou seja, a salinidade da água de irrigação
aumentou o número de folhas por planta. Isto, provavelmente, devido às plantas
irrigadas com menores níveis de salinidade entrarem no estágio de diferenciação
floral mais cedo, paralisando assim o seu crescimento vegetativo, e de ter
havido redução da salinidade do solo entre os tratamentos, promovida pelas
chuvas ocorridas a partir do 150º dia de cultivo. Todavia, para cultivares,
houve efeito significativo apenas aos 110 dias. Verificou-se, também, efeito
não interativo entre cultivares e salinidade da água de irrigação, ou seja, que
ambas as cultivares foram afetadas igualmente pela salinidade. Santos (1990)
observou que, de maneira geral, folhas de plantas de bananeiras Nanica
irrigadas com águas contendo concentrações salinas maiores tiveram crescimento
lentos e, conseqüentemente, períodos de abertura maiores.
Área Foliar Total
Verifica-se que a área foliar total das plantas foi significativamente afetada
pela salinidade da água de irrigação aos 110 e 240 dias, apresentando efeito
linear. A Tabela_5 mostra as equações de regressão e os respectivos
coeficientes de determinação. Entretanto, para cultivares, houve efeito
significativo apenas para 110 dias. Observou-se, também, efeito não interativo
entre cultivares e salinidade da água de irrigação, ou seja, que ambas as
cultivares foram afetadas igualmente pela salinidade. Na Figura_6, observa-se a
maior taxa de crescimento até 240 dias, para as médias menos salinas, e que as
para águas S3 e S4 a maior taxa de crescimento ocorreu entre 240 e 300 dias,
confrontando os resultados verificados entre as variáveis de crescimento
(Tabela_8). Santos (1990) constatou que os efeitos dos níveis de salinidade
foram muito acentuados, principalmente nos tratamentos com concentrações a
partir de 25 meq/l, reduzindo a área foliar unitária em média 60%, em relação à
testemunha, e que as reduções de área foliar total foram mais acentuadas,
sobretudo nos tratamentos com 25 e 40 meq/l (variando entre 74 e 85% em relação
à testemunha) e foi atribuída a morte exagerada de folhas nos tratamentos a
partir de 25 meq/l, causada por necroses, principalmente, em plantas irrigadas
com águas bicarbonatadas.
CONCLUSÕES
O crescimento das bananeiras Pacovan e Marmelo foi afetado significativamente
pelos níveis de salinidade, verificando-se reduções nas variáveis estudadas
(altura, diâmetro do pseudocaule e área foliar) até 240 dias; a cultivar de
bananeira Marmelo apresentou parâmetros de crescimento superiores a cultivar
Pacovan apenas no início, se equiparando a partir de 160 dias; as cultivares
responderam igualmente à salinidade.