Uso de subprodutos de carvão vegetal na formação do porta-enxerto limoeiro
'Cravo' em ambiente protegido
PROPAGAÇÃO
Uso de subprodutos de carvão vegetal na formação do porta-enxerto limoeiro
'Cravo' em ambiente protegido1
The use of byproducts of vegetal charcoal on growth of 'Rangpur' lime rootstock
under screen house
Marcelo ZanettiI; Jairo Osvaldo CazettaII; Dirceu de Mattos JúniorIII; Sérgio
Alves de CarvalhoIII
IEngº Agrº. Pós Graduando em Produção Vegetal - FCAV/Unesp, Jaboticabal, SP. E-
mail: zanettimarcelo@yahoo.com.br
IIEngº. Agrº. Dr., Professor Adjunto do Departamento de Tecnologia - FCAV/
Unesp, Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n, CEP 14884-900,
Jaboticabal, SP. Tel.: (16) 3209 2675. E-mail: cazetta@fcav.unesp.br
IIIEngº. Agrº. Dr., Pesquisador do APTA Citros "Sylvio Moreira" - CAPTACMS/IAC/
SAA, Cordeirópolis, SP. E-mail: ddm@centrodecitricultura.br
INTRODUÇÃO
Entre as doenças que afetam a citricultura, a clorose variegada dos citros
(CVC), causada pela bactéria Xylella fastidiosa, e a gomose, causada por fungos
do gênero Phytophthora, são bastante importantes quando ocorrem na fase de
produção de mudas. Assim, para garantir a qualidade sanitária das mudas foi
instituído em 1994, pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de
São Paulo, o Programa de Certificação de Mudas de Citros. Tais normas foram
consolidadas em janeiro de 2003, com a proibição da produção, comercialização e
trânsito de mudas cítricas provenientes de ambiente não protegido, neste estado
(Carvalho, 2003).
Em função das mudanças no sistema de produção, há necessidade de se adequarem
novas metodologias para a produção de mudas envasadas em ambiente protegido,
visto que o custo de manutenção dessas estruturas é elevado. Um dos principais
insumos utilizados na produção de mudas e porta-enxertos cítricos é o
substrato. Este insumo deve apresentar boas características químicas e físicas
e, principalmente, ser isento de plantas invasoras e patógenos prejudiciais à
sanidade e ao vigor das mudas. A escolha dos materiais e a proporção destes nos
substratos depende da sua disponibilidade e custo.
Há muito tempo utilizado no Japão e recentemente introduzido no Brasil, o fino
de carvão e o extrato pirolenhoso, subprodutos obtidos da produção de carvão
vegetal, são produtos promissores para a utilização na agricultura. No Brasil,
a produção de carvão vegetal é uma prática bastante antiga, porém, a grande
maioria se destina à obtenção apenas do carvão comercial, sem se preocupar em
aproveitar os demais componentes.
O fino de carvão, obtido no processo de peneiramento na classificação do carvão
vegetal, tem uma estrutura altamente porosa que, se misturado ao solo ou
substrato pode aumentar a porosidade, a capacidade de retenção de água e
facilitar a proliferação de microorganismos benéficos. De acordo com
recomendações de Miyasaka et al. (2001), o produto pode ser utilizado na forma
de pó, na granulação de 2 a 5 mm, de preferência umedecido com uma solução de
extrato pirolenhoso a 20 cm3 dm-3 e ser aplicado no solo, na base de 500 a 700
g m-2, uma semana antes da semeadura ou plantio.
O extrato pirolenhoso, líquido obtido através da condensação da fumaça durante
o processo de carbonização da madeira, é constituído de 800 a 900 cm3 dm-3 de
água e contém cerca de 200 componentes químicos diferentes, com destaque para o
ácido acético (± 80 cm3 dm-3), metanol (± 20 cm3 dm-3 ) e acetona (± 1 cm3 dm-
3). Este produto diluído em água em concentração variando de 5 a 20 cm3 dm-3,
quando aplicado ao solo, melhora suas propriedades físicas, químicas e
biológicas, proporciona aumento da população de microorganismos benéficos, como
actinomicetos e micorrizas, e favorece portanto, a absorção de nutrientes do
solo pelo sistema radicular das plantas (Miyasaka et al., 2001).
O extrato pirolenhoso pode ser utilizado para diversos fins na agricultura,
como "fertilizante orgânico" aplicado ao solo em arroz (Tsuzuki et al., 2000),
sorgo (Esechie et al., 1998) e batata doce (Shibayama et al., 1998);
desinfectante de solo (Doran, 1932), nematicida (Cuadra et al., 2000) e
fungicida (Numata et al., 1994). Outros estudos mostram os efeitos benéficos no
desenvolvimento radicular e produção, do extrato pirolenhoso associado ao fino
de carvão aplicado ao solo como "fertilizante orgânico" em arroz (Tsuzuki et
al., 1989), cana-de-açúcar (Uddin et al., 1995), batata doce (Du et al., 1998)
e melão (Du et al., 1997).
Mesmo com ação benéfica comprovada da mistura de extrato pirolenhoso e fino de
carvão em diversas culturas, melhorando a produtividade, a atividade radicular
e a qualidade dos produtos, nenhum estudo foi realizado com a cultura de citros
em condições brasileiras. Resultados obtidos no Japão com diversas culturas
indicam que, tanto o fino de carvão quanto o extrato pirolenhoso, podem ser
subprodutos promissores para a produção de porta-enxertos cítricos de alta
qualidade, com menor tempo de produção entre a semeadura até a repicagem.
Em função do acima exposto, este trabalho teve como objetivo avaliar o efeito
da adição de fino de carvão e extrato pirolenhoso, como mistura em substrato
comercial e pulverizado na parte aérea no desenvolvimento de porta-enxertos de
limoeiro 'Cravo' (Citrus limonia Osbeck) cultivados em tubetes.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi desenvolvido entre maio e outubro de 2002, em um viveiro coberto
por filme plástico transparente e com telado anti-afídeos nas laterais,
localizado no sistema de produção de mudas certificadas de citros, no Centro
Avançado de Pesquisas Tecnológicas do Agronegócio de Citros "Sylvio Moreira",
do Instituto Agronômico, em Cordeirópolis/SP.
O experimento foi instalado no delineamento de blocos casualizados e analisado
no esquema fatorial 3 x 2 x 3, correspondendo a: substratos contendo 3
concentrações de fino de carvão (0, 100 e 200 cm3 dm-3); umedecimento pré-
plantio dos substratos com 2 concentrações de extrato pirolenhoso (0 e 20 cm3
dm-3) e pulverização da parte aérea das plantas com 3 concentrações de extrato
pirolenhoso (0, 5 e 10 cm3 dm-3), totalizando 18 tratamentos. O experimento foi
realizado com 4 repetições, sendo cada unidade experimental composta de 48
plantas com as 12 centrais compondo a área útil.
Utilizou-se sementes de limoeiro 'Cravo' (C. limonia Osbeck), clone Limeira,
colhidas de plantas registradas em maio de 2002, provenientes do Banco Ativo de
Germoplasma do referido Centro. As semeadura foi realizada em tubetes de
plástico, em formato de cone com volume de 0,05 dm3. Os recipientes foram
alocados em bandejas plásticas perfuradas, contendo 96 células, fixadas sobre
armação de ferro suspensa com capacidade para 12 bandejas. Para a mistura com o
fino de carvão e o extrato pirolenhoso, foi utilizado o substrato comercial
Multiplant® (Terra do Paraíso Ltda: Holambra/SP) que é composto por casca de
pinus compostada (800 cm3 dm-3) e vermiculita expandida (200 cm3 dm-3), com
granulometria <5 mm. Após o preparo dos diferentes substratos a serem
estudados, os mesmos foram adubados com Osmocote® 18-5-9 (Scotts:USA), que é um
fertilizante de disponibilidade lenta (5 a 6 meses), misturado com os
substratos na proporção 4 g dm-3.
Foram determinadas as características físicas do fino de carvão (FC), do
substrato Multiplant®, bem como das misturas utilizadas no experimento. Os
substratos avaliados foram: FC = Fino de carvão; S = substrato comercial
(Multiplant®); S+10% FC = 900 cm3 dm-3 S1 + 100 cm3 dm-3 FC e S+20% FC =
800 cm3 dm-3 S1 + 200 cm3 dm-3 FC.
Determinou-se a porosidade total, o espaço de aeração e o espaço de água,
usando-se o método da mesa de tensão descrito por De Boodt & Verdonck
(1972). A distribuição do tamanho dos agregados (granulometria) foi realizada
submetendo-se 100 g de substrato, seco ao ar, a jogo de peneiras com malhas
4,00 - 2,00 - 1,00 - 0,50 - 0,25 e 0,125 mm acoplado a vibrador mecânico, por 3
minutos.
O fino de carvão foi misturado com enxada e o extrato pirolenhoso foi misturado
ao substrato uma única vez, uma semana antes da semeadura, na forma de solução
aquosa com extrato pirolenhoso a 20 cm3 dm-3 na proporção de 240 cm3 da solução
por dm3 do substrato. Os substratos sem extrato pirolenhoso foram molhados
antes do enchimento da bandeja com água, na mesma proporção.
O tratamento correspondente à pulverização do extrato pirolenhoso na parte
aérea iniciou-se 90 dias após o plantio (DAP), quando as plantas apresentavam
aproximadamente 5 cm de altura. Utilizou-se uma bomba de pulverização costal e
bico cone vazio com vazão de 0,5 dm3 minuto-1 e válvula de pressão constante (1
kgf. cm-2). As pulverizações foram realizadas semanalmente até 180 DAP,
totalizando 12 aplicações e a quantidade de calda aplicada variou de acordo com
o estádio de desenvolvimento da cultura, visando molhar as plantas até o ponto
de escorrimento.
Avaliaram-se a altura (cm) dos porta-enxertos, medindo-se desde a região do
colo até a ápice das plantas, e o diâmetro (cm) do caule na região do colo, aos
150 e 180 DAP. Ao final do experimento (180 DAP), quando os porta-enxertos
estavam prontos para o transplante, avaliaram-se o número de folhas, a produção
de massa seca da parte aérea e raízes (g planta-1), bem como o volume do
sistema radicular (cm3), inserindo as raízes em uma proveta graduada
parcialmente cheia com água destilada e medindo-se o volume de água deslocado.
Os resultados obtidos foram submetidos à análise de variância pelo Teste F e as
médias comparadas pelo teste de Tukey (p<0,05).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados da caracterização física dos materiais revelaram que, apesar do
FC apresentar granulometria muito fina (aproximadamente 36% das partículas
apresentando diâmetro menor que 0,125 mm), a sua presença no substrato na
proporção de 100 e 200 cm3 dm-3 não modificou de forma significativa a
distribuição do tamanho dos agregados das misturas. Tanto o substrato como as
misturas apresentaram granulometria inferior a 4,0 mm, com aproximadamente 60%
dos agregados retidos na peneira de 1,0 mm (Figura_1).
O substrato comercial, o fino de carvão e as misturas apresentaram proporções
semelhantes entre sólidos (28 a 32%) e poros (68 a 72%). Apesar da semelhança
entre as proporções de sólidos, tanto as misturas quanto o substrato comercial
e o fino de carvão variaram muito no espaço de aeração (de 3 a 24%) e na
capacidade de retenção de água (de 45 a 69%). O fino de carvão apresentou menor
espaço de aeração e, conseqüentemente, maior capacidade de retenção de água;
portanto, o espaço de aeração diminuiu e o espaço preenchido com água aumentou
de acordo com o aumento da proporção de FC na composição do substrato (Figura
2).
Para os porta-enxertos, foram observadas diferenças significativas em relação
às diferentes proporções de fino de carvão no substrato para altura aos 150 e
180 DAP e massa seca da parte aérea. O tratamento dos substratos com solução de
extrato pirolenhoso ocasionou diferenças significativas para todas as variáveis
analisadas e a pulverização do mesmo na parte aérea provocou diferenças
significativas apenas para diâmetro do caule aos 150 e 180 DAP. Também foram
constatadas diferenças significativas para as interações FC x EP no substrato
para a variável altura, em ambas as datas de avaliação, e para número de folhas
e massa seca da parte aérea (Tabela_1).
Nas Tabelas_2, 3, 4 e 5 estão apresentados os dados médios para os tratamentos
isolados de FC, EP no substrato e EP pulverizado na parte aérea, e interação
entre FC x EP no substrato, respectivamente.
A presença de fino de carvão no substrato, na proporção de 100 cm3 dm-3, não
influiu no desenvolvimento das plantas e, portanto, pode ser considerado como
alternativa para a formulação de substratos para a produção de porta-enxertos
de limoeiro 'Cravo' , já que esta mistura apresenta características físicas
desejáveis. Porém, quando a mistura continha o FC na proporção de 200 cm3 dm-3,
o desenvolvimento dos porta-enxertos de limoeiro 'Cravo' foi prejudicado,
provocando redução na altura e massa seca da parte aérea das plantas (Tabela
2). Possivelmente os baixos valores de espaço de aeração (9,6% v/v) encontrados
no substrato com 200 cm3 dm-3 de fino de carvão possam ter sido o motivo do
menor desempenho das plantas de limoeiro 'Cravo' (Figura_1). De acordo com
Milner (2001) e Abad et al. (1989), um substrato deve conter de 20 a 30% (v/v)
de espaço de aeração para que haja um bom desenvolvimento do sistema radicular
e, conseqüentemente, bom crescimento da parte aérea.
A aplicação, pré-semeadura, da solução 20 cm3 dm-3 de extrato pirolenhoso ao
substrato provocou redução de todas as variáveis analisadas (Tabela_3). Tais
resultados não estão em concordância com os obtidos em condições de campo por
Ichikawa & Ota (1982), que estudando a cultura do arroz antes do
transplantio, observaram que a aplicação do extrato pirolenhoso no solo
promoveu maior desenvolvimento da parte aérea e radicular dessas mudas,
melhorando, portanto, seu desenvolvimento após o transplantio. Shirakawa et al.
(1993) também relataram efeito positivo da atividade fisiológica de plantas de
arroz submetidas à aplicação de extrato pirolenhoso no solo. Deve-se ressaltar,
porém, que os trabalhos acima citados referem-se à utilização do EP em
condições de campo e aplicação no solo e que o presente estudo foi realizado em
recipiente com substrato orgânico.
A pulverização do extrato pirolenhoso na parte aérea não proporcionou
diferenças significativas para nenhuma das variáveis analisadas, exceto para
diâmetro do caule aos 150 e 180 DAP (Tabela_1). A pulverização com solução de
EP a 5 cm3 dm-3 provocou redução do diâmetro das plantas aos 180 DAP e a
pulverização a 10 cm3 dm-3 provocou redução no diâmetro das plantas aos 150 DAP
e 180 DAP (Tabela_4).
Para a análise da interação, foi constatado que a utilização conjunta do fino
de carvão e extrato pirolenhoso no substrato potencializou o efeito negativo em
relação às variáveis de crescimento do limoeiro 'Cravo' . Ficou evidenciado
redução da altura (150 e 180DAP), número de folhas e massa seca da parte aérea
nas plantas cultivadas em substrato contendo FC na proporção de 200 cm3 dm-3 e
tratado com EP, bem como redução da altura (180DAP), número de folhas e massa
seca da parte aérea para as plantas cultivadas em substrato com 100 cm3 dm-3 de
FC com adição de EP no substrato (Tabela_5).
A utilização do extrato pirolenhoso, tanto pulverizado na parte aérea quanto
incorporado ao substrato, não proporcionou resultados satisfatórios para o
desenvolvimento de porta-enxertos de limoeiro 'Cravo' , em ambiente protegido.
Considerando a existência de vários trabalhos com resultados comprovando o
efeito benéfico da utilização conjunta do fino de carvão e do extrato
pirolenhoso em diversas culturas em condições de campo, são necessários novos
estudos para avaliar diferentes concentrações e intervalos de aplicações em
outras variedades de porta-enxerto cítricos ou em plantas adultas cultivadas no
campo.
CONCLUSÕES
1) As misturas de fino de carvão e substrato comercial contendo fino de carvão
na proporção de 100 cm3 dm-3 não influíram no desenvolvimento de porta-enxertos
de limoeiro 'Cravo' , porém, na proporção de 200 cm3 dm-3 prejudicam o
desenvolvimento dos mesmos.
2) O umedecimento pré-plantio do substrato com solução diluída (20 cm3 dm-3) de
extrato pirolenhoso ou pulverização da parte aérea das plantas com soluções a 5
e 10 cm3 dm-3, provoca redução do desenvolvimento de porta-enxertos de limoeiro
'Cravo' .