Sistema de pré-aviso para o controle da sigatoka-amarela da bananeira no
Recôncavo Baiano
DEFESA FITOSSANITÁRIA
Sistema de pré-aviso para o controle da sigatoka-amarela da bananeira no
Recôncavo Baiano1
Forecasting for the control of banana 'yellow sigatoka' in the Recôncavo Baiano
region, Brazil
Danúzia Maria Vieira FerreiraI; Zilton José Maciel CordeiroII; Aristoteles
Pires de MatosIII
IEng. Agr., M. Sc., ADAB Barreiras; E-mail: danuzia@cdlmma.com.br
IIEng. Agr., D. Sc., Embrapa/CNPMF; E-mail: zilton@cnpmf.embrapa.br
IIIEng. Agr., Ph. D., Embrapa/CNPMF; E-mail: apmatos@cnpmf.embrapa.br
INTRODUÇÃO
A bananicultura é uma atividade de elevada importância econômica e social,
respondendo pela produção de alimento básico para as populações carentes de
diversos países, mas também presente na mesa de todas as camadas sociais da
população. A banana ocupa o segundo lugar em volume de frutas produzidas no
Brasil, que é o terceiro maior produtor do mundo, com uma produção de 5.499.970
toneladas, numa área cultivada de 521.285 ha, sendo superado apenas pela Índia
e Equador (FAO, 2001).
Um dos grandes problemas da bananicultura nacional é a Sigatoka-amarela, uma
doença endêmica, com picos durante o período chuvoso no Brasil. É causada pelo
fungo Mycosphaerella musicola Leach, que, ao infectar as folhas, provoca a
morte prematura das mesmas, causando perdas superiores a 50% na produção
(Martinez, 1970). O cultivo de variedades suscetíveis à Sigatoka-amarela torna
a aplicação de fungicidas uma prática indispensável no controle da doença.
Assim, o uso sistemático de produtos químicos, além de aumentar o custo de
produção, constitui prática agressiva ao meio ambiente e ao ser humano, podendo
ainda selecionar formas resistentes do patógeno. Sistemas de pré-aviso
biológico começaram a ser trabalhados por Ganry & Meyer (1972) e por
Ternesien (1985); Fouré (1988) e Marín & Romero (1992), que procuraram
simplificá-los e, consequentemente torná-los práticos. O objetivo do presente
trabalho foi estabelecer parâmetros, num sistema de pré-aviso biológico, que
permitam um controle químico racional da Sigatoka-amarela no Recôncavo Baiano,
estabelecendo quando e com que freqüência as pulverizações deverão ser
realizadas. O método de previsão se baseia na interação entre o estádio de
desenvolvimento da folha vela e a severidade da doença nas folhas mais novas,
tornando-se uma alternativa altamente importante na racionalização do uso de
fungicidas.
MATERIAL E MÉTODOS
O sistema de plantio utilizado foi em fileiras duplas, no espaçamento 4m x 2m x
2m; a cultivar foi a Grande Naine (grupo AAA), suscetível à Sigatoka-amarela. O
experimento foi constituído por oito tratamentos, cada tratamento com quarenta
e oito plantas, avaliando-se dez plantas de cada tratamento. Os tratamentos
utilizados foram: 1. Controle sistemático, normalmente utilizado nos plantios
comerciais com aplicação de fungicida a cada 21 dias; 2. Soma bruta 1000; 3.
Soma bruta 1300; 4. Soma bruta 1600; 5. Soma bruta 1900; 6. Soma bruta 2200; 7.
Soma bruta 2500 e 8. Sem controle da doença. Nos tratamentos 2 a 7, o controle
foi realizado sempre que o valor da soma bruta era atingido.
A coleta de dados semanais foi feita em dez plantas por tratamento em função do
seu desenvolvimento regular e homogêneo. Em uma ficha foram anotados o estádio
da folha vela (Brun, 1963) e a incidência (estádio da lesão) da doença nas
folhas 2, 3 e 4 (Fouré, 1994). Em outra ficha, foram anotados os dados sobre
severidade da doença de acordo com Gauhl (1994). Na época da colheita foram
anotados os dados referentes a peso do cacho e severidade da doença.
Os dados coletados nas folhas 2, 3 e 4 incluem o estádio da lesão e a densidade
de ataque observada, tomando-se como referência o número de 50 lesões no nível
mais elevado de desenvolvimento. Ou seja, quando se tinha mais de cinquenta
lesões do estádio mais desenvolvido, assinalava-se com (+), quando se tinha
menos de cinquenta lesões do estádio mais desenvolvido, assinalava-se com (-).
Para o cálculo do valor de soma bruta, os dados referentes ao estádio da lesão
e a densidade de ataque nas folhas 2, 3 e 4 foram multiplicados pelos
coeficientes estabelecidos por Ganry & Laville (1983).
Com os dados de doença e crescimento do hospedeiro alimentou-se um programa de
computador, cedido pela Corporación Bananera Nacional (CORBANA), Costa Rica,
que calculou o ritmo de emissão foliar, a soma bruta e o estado de evolução da
doença, fornecendo desta forma os parâmetros fundamentais para o
desenvolvimento do sistema de pré-aviso. Sempre que o estado de evolução da
Sigatoka-amarela atingiu os valores de soma bruta preestabelecidos para cada
tratamento foi implementado o controle da doença. As aplicações foram feitas
utilizando-se atomizador costal motorizado modelo MK 30, com capacidade 20L. O
produto utilizado foi o propicanazole, na dosagem de 100 gramas por hectare, em
mistura com 5 litros de óleo mineral e água para completar aproximadamente 22 a
23 litros da calda por hectare. O delineamento estatístico utilizado foi o
inteiramente casualizado, com oito tratamentos e 10 repetições.
Os dados de produção foram submetidos à análise de variância, utilizando-se o
programa estatístico SAEG. O teste de Tukey, a 5% de probabilidade, foi usado
para comparação das médias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As curvas de evolução da doença (Figura_1) mostram um efeito sazonal bastante
significativo, com elevada severidade nos meses de maio a agosto, decrescendo a
partir daí e atingindo níveis pouco expressivos no período compreendido entre
os meses de dezembro a março, que corresponde ao período menos chuvoso (Stover,
1968; Pérez, 1978). Isto mostra o quanto os fatores umidade e temperatura são
importantes na epidemiologia dessa doença.
Analisando separadamente os tratamentos, observa-se que as curvas seguem a
mesma tendência com pequenas variações nos diferentes meses. Os tratamentos 1,
2, 3 e 4 apresentam os menores valores de soma bruta. O tratamento que mais se
aproxima deste grupo é o 5, todavia, observa-se que os valores da soma bruta
estão sempre mais altos. Como os tratamentos, do um ao oito, decrescem em rigor
em relação ao controle da Sigatoka-amarela, pode-se dizer que os resultados
estão refletindo o aumento da severidade da doença com a redução do rigor
empregado no controle químico.
Comparando a curva apresentada pelo tratamento um (controle sistemático) em
relação às demais (Figura_1), observa-se que a mesma apresenta variações menos
bruscas em relação aos outros tratamentos. Isto pode ser creditado à manutenção
da doença em níveis sempre baixos com a utilização de fungicida em intervalos
pré-fixados. Já os demais tratamentos apresentam curvas com variações mais
bruscas, representando as intervenções com fungicida, feitas quando a
severidade da doença atingia o estádio de evolução pré-estabelecido. Ainda
comparando o tratamento um com os demais, observa-se que, em alguns pontos, os
tratamentos dois (SB 1000), três (SB 1300) e até mesmo o quatro (SB 1600)
apresentaram valores de soma bruta menores do que o mesmo. Isto mostra que as
aplicações de fungicidas, quando realizadas no momento correto, podem
apresentar efeito benéfico até mais acentuado do que aquelas aplicações
realizadas em intervalos regulares, sem considerar o nível de severidade da
doença.
Analisando a curva de progresso da doença, obtida com os dados de soma bruta
(Figura_1), os dados de produção e o número de atomizações efetuados por
tratamento (Tabela_1), conclui-se que entre os tratamentos que apresentaram
produções significativamente superiores à testemunha sem controle (tratamento
oito), o tratamento quatro é o que mais se destaca, uma vez que possibilitou a
redução do número de pulverizações de treze (controle sistemático) para oito e
sem comprometer a produção, a qual foi similar àquela apresentada pela
testemunha absoluta (controle sistemático). Estes resultados têm importantes
implicações financeiras porque reduzem o custo de produção ao reduzir o número
de aplicações em 40%, é preservacionista ao reduzir a quantidade de pesticidas
jogados no ambiente e, além disto, reduz a pressão de seleção sobre o patógeno
e o aparecimento de variantes resistentes aos fungicidas que, conforme
enfatizado por Boreau et al. (1982) e Bureau (1984), é hoje um dos grandes
problemas vividos pelas regiões de cultivo intensivo de banana.
No tocante à produção, os tratamentos um (controle sistemático), três (SB 1300)
e quatro (SB 1600) foram os que possibilitaram os maiores pesos médios de cacho
com 31,18kg, 30,69kg e 30,86kg, respectivamente, diferindo significativamente
da testemunha não pulverizada (Tabela_1). Ainda com relação à produção, os
tratamentos dois (SB 1000), cinco (SB 1900), seis (SB 2200) e sete (SB 2500),
embora sendo estatisticamente semelhantes ao um, três e quatro, não diferiram
significativamente do tratamento testemunha sem controle, indicando que os
níveis de redução da doença obtidos com esses tratamentos não foram suficientes
para evitar quedas na produção.
Ressalta-se que o tratamento dois possibilitou elevada eficiência de controle
da Sigatoka-amarela, expressa pelos valores médios reduzidos para soma bruta
(Figura_1). Assim sendo, o menor peso médio do cacho evidenciado nesse
tratamento (Tabela_1) deve ser atribuído a outros fatores relacionados com o
processo produtivo e não a perdas causadas pela doença. Vale salientar ainda
que a fertilidade do solo, além de propiciar maiores produções, também
interfere na severidade da Sigatoka-amarela sobre a bananeira (Cordeiro &
Matos, 2000). Por estas razões e considerando a produção obtida (Tabela_1),
pode-se dizer que, na Região do Recôncavo Baiano, o controle químico da
Sigatoka-amarela deve ser iniciado quando a Soma Bruta atingir o valor 1600.
CONCLUSÕES
Para as condições do Recôncavo Baiano, a aplicação do sistema de pré-aviso
biológico, para o controle da Sigatoka-amarela, deve utilizar o valor de soma
bruta 1600 como indicador para se efetuar o controle químico da doença.
Todavia, é importante estar atento para a curva de progresso da doença e
fatores climatológicos, principalmente previsão de chuva.