Produção convencional x integrada em pessegueiro cv. Marli na depressão central
do Rio Grande do Sul
Produção convencional x integrada em pessegueiro cv. Marli na depressão central
do Rio Grande do Sul1
Conventional production x integrated production of peaches 'Marli' in the
central depression of Rio Grande do Sul state
Roseli de Mello FariasI; Jose Luis da Silva NunesII; Carlos Roberto MartinsIII;
Denis Salvati GuerraII; Claiton ZaniniIV; Gilmar Arduino Bettio MarodinV
IEngª Agrª MSc. Profª FZVA/PUCRS Campus II ' Uruguaiana. 55 4118052, e-mail
roselifarias@bol.com.br
IIEngº Agrº Pós Graduando em Fitotecnia, DHS/UFRGS, e-mail tobnunes@ig.com.br_
IIIEngº Agrº MSc. Pós Graduando em Agronomia, FAEM/UFPEL, 53 2757158,
marticar@ufpel.tche.br_
IVBolsista de Iniciação Científica, Faculdade Agronomia/UFRGS, CNPq/Rhae
VEngº Agrº Dr Profº Faculdade Agronomia, UFRGS. Av. Bento Gonçalves 7712,
C.P.776, Porto Alegre, RS e-mail marodin@ufrgs.br
INTRODUÇÃO
A área plantada com pessegueiros no Brasil é de aproximadamente 21.000
hectares. O estado do Rio Grande do Sul detem 58% desta área, em torno de
12.000 hectares. A produção brasileira gira em torno de 130.000 toneladas/ano,
da qual, mais de 40% é produzida no Rio Grande do Sul (Jornal da Fruta, 2002).
Embora o consumo percapita de pêssegos no Brasil seja baixo, em torno de 0,25
kg/hab/ano, comparado aos 5 kg/hab/ano de países como Itália, Espanha, França e
Inglaterra, houve crescimento da demanda desta fruta. Em algumas regiões, como
a de Porto Alegre, atingiu em 2000 cerca de 1 kg/hab/ano (Marodin &
Sartori, 2000).
Aliado ao aumento da demanda, cresceu o grau de exigência dos consumidores, o
que tornou necessária uma nova postura do produtor para satisfazer os mercados.
O consumidor tem se tornado cada vez mais exigente quanto à qualidade do
produto final. Inicialmente buscavam-se frutas com bom calibre, boa aparência e
características peculiares da cultivar. Embora nestes requisitos os produtos
ainda deixem a desejar, o mercado passou a exigir novos atributos. Nesta nova
fase, são contemplados aspectos ligados às características organolépticas, à
segurança alimentar e à proteção ao ambiente. Isso contrasta com o sistema de
produção praticado nos últimos tempos, com excesso no uso de insumos e pouca
preocupação com o impacto ambiental (Martins et al., 2001).
A Produção Integrada de Frutas de Caroço (PIFC) apresenta-se como alternativa
para a produção de frutas de qualidade, com a utilização de técnicas e práticas
de forma integrada, com ênfase na redução de agroquímicos, priorizando métodos
biológicos, culturais e físicos no controle de pragas e doenças, minimizando
assim, os riscos de contaminação ambiental, preservando a saúde humana. Vários
autores (Sansavini, 1998; Deckers, 2000; Fachinello et al., 2000; Molinari,
2001) relatam que o surgimento da Produção integrada de frutas (PIF) iniciou
efetivamente nos anos 70, como uma extensão do "Manejo Integrado de
Pragas" (MIP) e como uma necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos e de
preservar o ambiente.
O sistema já é amplamente empregado em vários países com resultados positivos,
tornando-se rapidamente um pré-requisito para a comercialização de frutas em
vários centros internacionais e, mais recentemente, no Brasil (Sanhueza, 2000).
Neste contexto, o objetivo principal deste trabalho foi comparar os sistemas de
produção convencional, utilizado pelo produtor, com o preconizado pelas normas
de produção integrada de pessegueiro, em relação às principais práticas
agronômicas.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado em um pomar comercial de pessegueiros, com 10 anos
de idade, localizado no município de São Jerônimo, Depressão Central do RS,
situado à latitude 30º 05' S e longitude 51º 39' W, altitude média de 50
metros. Utilizaram-se plantas da cultivar Marli, enxertadas sobre o porta-
enxerto de pessegueiro Capdeboscq, conduzidos em sistema de vaso com
espaçamento de 6,0 X 4,0 m. Dois pomares adultos de aproximadamente 1 ha cada
um, distanciados 500 metros, foram conduzidos no sistema de produção integrado
(PI) e no sistema convencional (PC). Em cada área foram escolhidas ao acaso 10
plantas para se proceder as avaliações.
Na PC prevaleceu o manejo e práticas culturais normalmente utilizadas pelo
produtor e de acordo com sua opção, como segue: Tratamentos fitossanitários com
calendário fixo; manejo do solo com grades nas linha; sem poda verde; raleio
leve e sem monitoramento de pragas e doenças. Nesse sistema foram realizadas
dez aplicações de fungicidas: captan, iprodione, fluatriofol, carbendazin,
clorotalonil e tiofanato metilico. Foram realizadas sete aplicações de
inseticidas: dimetoato, fenitrotiom clorpirifós e phosmet. Na PI foram
aplicadas as práticas recomendadas nas Normas de Produção Integrada de Frutas
de Caroço (NPIFC), Versão 1 (Fachinello & Herter, 2000), onde prevalece o
manejo do solo com a cobertura vegetal com aveia nas entre linhas, aplicação
única de herbicida pós-emergente na linha (com princípio ativo de glifosate ou
glufosinato de amônio), adubação das plantas realizada com base na análise do
solo e análise foliar respeitando os limites máximos de fertilizantes químicos,
principalmente os nitrogenados. Na poda hibernal foram retirados poucos ramos,
eliminando aqueles voltados para o centro da planta, ramos doentes e os
atacados por cochonilhas ou em excesso. Nos locais de corte de ramos com
diâmetro superior a 3 cm foi feito tratamento com pasta fúngica (tinta plástica
e cobre). Não se realizou o desponte dos ramos remanescentes. A poda verde
ocorreu aproximadamente 15 dias antes da colheita, retirando-se os ramos nos
quais o crescimento estava dirigido para o interior da copa ou muito próximos
às frutas. Em meados de outubro, aproximadamente 40 dias após a plena florada,
foi realizado manualmente o raleio das frutas, procurando deixar um espaço
mínimo de 10 cm e retirando as frutas da extremidade dos ramos.
O manejo e monitoramento para controle de doenças foram realizados levando-se
em conta os estádios fenológicos do pessegueiro (mais suscetíveis a
determinados patógenos), as condições climáticas antes e após a aplicação do
produto e o histórico da disponibilidade de inóculo da área. Neste sistema
foram realizados seis aplicações de fungicidas: captan e iprodione. Sendo três
aplicações com inseticidas: fenitrotion, dimetoato (isca tóxica) e triclorfom.
O manejo das pragas como a mariposa oriental (Grapholita molesta) foi avaliado
nas áreas de PI e da PC, por meio do monitoramento de duas armadilhas/área,
modelo delta contendo o feromônio sexual sintético, com contagem do número de
machos capturados semanalmente. A mosca-das-frutas (Anastrepha fraterculus) foi
monitorada colocando-se em cada área experimental duas armadilhas tipo Mc-Phail
contendo suco de uva a 30% e avaliada semanalmente. Os ácaros fitófagos
(Panonychus ulmie Tetranychus urticae) foram monitorados através de avaliações
visuais dos sintomas de ataque em toda a área experimental.
O período de colheita estendeu-se de 01 a 20 de dezembro, totalizando 6
repasses na PI e de 06 a 20 de dezembro, com 5 repasses na PC. Em cada colheita
foram realizadas avaliações de produção (número e peso expressos em kg/planta),
classificação (determinada pelo tamanho (calibre) em três categorias: pêssegos
com diâmetro superior a 57 mm foram definidos como CAT I, com diâmetro entre 57
e 48 mm como pêssegos de CAT II e diâmetro inferior a 48 mm pertencentes a CAT
III), qualidade e danos nas frutas produzidas em ambos os sistemas (realizada
pela contagem do número de frutas com sintomas de podridão parda, tanto no solo
como na planta; atacadas por grafolita e mosca-das-frutas; outras podridões,
bacteriose, ferrugem, antracnose e sarna e injúrias nas frutas como rachaduras
e batidas). Todos os dados foram transformados em %.
O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, com 10
repetições, sendo cada planta uma unidade experimental. Os dados foram
submetidos à análise de variância e a comparação de médias pelo Teste t
(P<0,05). As análises das variáveis estudadas foram executadas pelo programa
SANEST.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A produção de pêssegos não foi afetada pelos sistemas de produção, mas as
frutas provenientes da área da PI apresentaram maior peso médio, resultado da
menor carga de frutas por planta (Tabela_1). Ressalta-se que os princípios da
Produção Integrada não contemplam a maximização da produtividade, mas sim a
produção de frutas de qualidade, promovendo a preservação do ambiente e o
respeito à saúde do consumidor e do próprio produtor, de maneira a manter a
sustentabilidade da atividade. O maior peso das frutas obtido na PI deve-se a
menor quantidade de frutas por planta e uma maior relação folha/fruta,
conseqüentemente uma menor quantidade de frutas competindo por fotoassimilados,
o que é comum para praticamente todas as frutíferas.
A intensidade de coloração vermelha na epiderme nas frutas conduzidas em ambos
os sistemas de produção não apresentaram diferenças significativas (dados não
apresentados). A variação da coloração depende do grau de maturação e da
cultivar. A mudança de coloração da epiderme, observada durante a maturação das
frutas, é o principal critério utilizado pelo consumidor para julgar o estádio
de maturação e a qualidade aparente (Martins, 2001). Assim, os pigmentos da
epiderme do pêssego são importantes, pois a preferência pela cor de uma fruta
está associada a aspectos culturais do consumidor (Vendrell & Carrasquer,
1994). Segundo estes autores esta característica é fortemente influenciada por
fatores edafoclimáticos como luz solar, temperatura e exposição das frutas à
luz, além de práticas como a poda e o raleio, porém essas diferenças na
pigmentação não foram verificadas em ambos os sistemas em relação à cor.
As frutas do sistema de PI apresentaram superioridade quanto ao calibre,
decorrente principalmente da maior intensidade da prática do raleio,
proporcionando condições de menor competitividade por fotoassimilados,
promovendo o maior crescimento das frutas remanescentes. Verifica-se que 62,66%
dos pêssegos produzidos sob o sistema de PI pertence a CAT I, 36,91% das frutas
a CAT II e apenas 0,43% das frutas a CAT III. Os pêssegos produzidos sob o
sistema de PC tiveram a maioria das frutas, 51,51%, pertencentes a CAT II
(Figura_1).
A intensidade de danos ocasionados por pragas e doenças foi significativamente
maior em pêssegos produzidos no pomar conduzido sob sistema de PI, comparados
com o sistema de PC, sendo o ataque de pragas o fator determinante no aumento
de danos às frutas da PI. A principal praga responsável pelos danos foi a
grafolita (Grapholita molesta), que atacou com maior intensidade o pomar da
área da PI. Isto se deve a uma falha de manejo onde o produtor não fez uma
aplicação no momento adequado, pouco antes da colheita. Quanto aos danos
ocasionados por moléstias, não houve diferença significativa entre os sistemas,
sendo que a podridão parda (Monilinea fructicola)foi responsável pelos maiores
índices de danos às frutas (Figura_2).
Os demais danos avaliados nas frutas, como Xanthomonas, sarna, mosca-das-
frutas, rachaduras e danos mecânicos, não foram constatadas diferenças
significativas ocasionados nos pêssegos provenientes de ambos os sistemas
(Figura_2).
No pomar conduzido sob o sistema de PI, as plantas receberam menor número de
aplicações de agroquímicos do que às do pomar sob o sistema convencional,
determinando assim frutas com um menor risco de contaminação e menor impacto
ambiental (Figura_3). Das nove intervenções químicas feitas no pomar conduzido
sob o sistema de PI, três aplicações foram com inseticidas utilizados no
controle de grafolita e seis aplicações com fungicidas, principalmente para o
controle de doenças como podridão parda. Na área da PC foram realizadas sete
aplicações com inseticidas e nove com fungicidas.
Assim, com a utilização da PI é possível oferecer à sociedade pêssegos com
qualidade, respeitar o ambiente, diminuir riscos ao produtor e ao consumidor.
Além disso, permite que se faça a rastreabilidade do sistema de produção das
frutas em todo seu ciclo, uma vez que tudo é registrado em Caderneta de Campo
(Fachinello et al., 2001). No entanto, ressalta-se a necessidade de condução e
acompanhamento de outros estudos no decorrer das safras a fim de validar o
sistema para que assim possa ser recomendado e empregado pelos produtores sem
maiores riscos econômicos para o empreendimento frutícola.
CONCLUSÕES
No primeiro ano de observação foi possível obter na área da PI produção similar
ao manejo convencional do produtor e um aumento no peso médio dos frutos. O
monitoramento de pragas e moléstias é uma ferramenta eficaz de manejo,
proporcionando redução da utilização de agroquímicos.