Fenologia da floração da nogueira macadâmia (Macadamia integrifolia Maiden
& Betche) nas condições climáticas de Jaboticabal, São Paulo, Brasil
Fenologia da floração da nogueira macadâmia (Macadamia integrifolia Maiden
& Betche) nas condições climáticas de Jaboticabal, São Paulo, Brasil1
Flowering phenology of macadamia nut tree (Macadâmia integrifolia Maiden &
Betche) in the climatic conditions of Jaboticabal, São Paulo, Brasil
Célio Kersul SacramentoI; Fernando Mendes PereiraII
IProfessor Adjunto do Depto de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade
Estadual Santa Cruz, Km 16 Rod. Ilhéus-Itabuna, Ba 45.650.000 kersul@uesc.br
IIProfessor Doutor Voluntário do Depto de Produção Vegetal-FCAV-UNESP Rod.
Prof. Paulo Donato Castellane, km 5, CEP 14.870.000, Jaboticabal, SP
INTRODUÇÃO
A nogueira macadâmia (Macadamia integrifolia Maiden & Betche) é uma árvore
da família Proteaceae cuja noz é considerada a mais saborosa entre as nozes
comercializadas no mundo. Originária da Austrália, a nogueira macadâmia foi
introduzida no Havaí em 1878, onde ocupa uma área de aproximadamente 10.000 ha,
correspondendo a 70 % da produção mundial de nozes macadâmia (Bittenbender
& McGregor, 1991). No Brasil, foi introduzida em 1931, mas a expansão
aconteceu a partir da década de 80, nos Estados de São Paulo, Bahia, Espírito
Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (Sacramento, 1991).
Em se tratando de uma cultura recente no Brasil, as informações disponíveis
sobre a nogueira macadâmia e as tecnologias recomendadas para o seu cultivo têm
sido extrapoladas e adaptadas de pesquisas efetuadas para as condições
edafoclimáticas do Havaí e da Austrália.
No Havaí, a antese ocorre de novembro a maio com picos de floração entre
janeiro e março (Nagao et al., 1988), enquanto nas condições da Costa Rica a
floração de macadâmia se estende de novembro a fevereiro e a colheita vai
geralmente de maio a dezembro (Sequeira & Aste, 1984).
Moncur et al. (1985) estudaram a floração de macadâmia nas condições da
Austrália e verificaram que a iniciação floral ocorreu durante o mês de maio
com temperaturas mínimas entre 11 e 15º C seguido por um período de dormência
de 50 a 96 dias.
Apesar de ser originária de clima de floresta tropical, a nogueira macadâmia
desenvolve-se melhor em clima subtropical. Segundo Stephenson (1993), a
iniciação floral pode ocorrer sob uma ampla ordem de condições no campo e as
gemas florais permanecem dormentes por um período variável (50 a 96 dias). A
dormência terminou quando houve aumento da temperatura após alguma chuva.
Quando as condições são inadequadamente quentes, a floração de outono ocorre em
adição à principal floração na primavera. A quebra da dormência da gema floral
foi mais cedo em locais mais frios da Austrália.
O objetivo deste trabalho foi estudar os aspectos relativos à floração em duas
cultivares de nogueira macadâmia nas condições de Jaboticabal, Estado de São
Paulo.
MATERIAL E MÉTODOS
Os ensaios foram realizados no pomar da Faculdade de Ciências Agrárias e
Veterinárias, Universidade Estadual Paulista (FCAV-UNESP), Câmpus de
Jaboticabal, cujas coordenadas geográficas são latitude 21º 17'S, longitude 48º
18' W, altitude 590 m. O clima da região segundo a classificação de Köeppen é
do tipo Cwa, subtropical, relativamente seco no inverno, com chuvas de verão,
apresentando temperatura média anual de 22ºC e precipitação de 1552 mm. O solo
é classificado como latossolo vermelho-escuro.
Foram utilizadas as cultivares: IAC 5-10 e 8-17 (cultivares selecionadas pelo
Instituto Agronômico de Campinas, oriundas de polinização aberta das cultivares
havaianas Kakea e Waialua, respectivamente). As árvores, propagadas por
estaquia herbácea, foram plantadas em março de 1987, no espaçamento 11 m x 6 m.
A determinação do período de iniciação floral e crescimento de inflorescências
foi efetuada através de observações semanais, no período de abril a agosto, nos
anos 1993 a 1995. As observações foram efetuadas em ramos das partes interna e
externa da planta. A iniciação floral foi considerada quando havia gemas
intumescidas de coloração branca e o início de crescimento quando as mesmas
apresentavam cerca de 2,5 mm de comprimento.
Para a determinação do período de abertura de flores, foram marcados, a partir
de junho de 1995, 30 ramos em cada uma de 3 árvores da cultivar IAC 5-10 e 4
árvores da cultivar IAC 8-17. Os ramos marcados apresentavam gemas florais
intumescidas e inflorescências em crescimento. Semanalmente, foram contadas as
inflorescências com mais de 50 % de flores em fase de pré-antese (estilete
curvo) ou antese e, após o término do período de floração, foi determinada a
média semanal de inflorescências com flores abertas por árvore em cada cultivar
e os dados transformados em percentagem.
Para a determinação do número de dias e graus-dia entre o início de
inflorescência e antese, foram marcadas, em junho de 1994 e junho de 1995, em
árvores das cultivares IAC 5-10 e IAC 8-17, cerca de 10 a 20 gemas florais.
As inflorescências foram consideradas em início de crescimento quando
apresentavam comprimento de 2,5 mm e final quando 50% das flores se apresentam
em antese. O período decorrido entre as fases inicial e final foi convertido em
graus-dia, utilizando-se, como temperatura-base para a macadâmia, do valor de
12,8 ºC, conforme sugestão de Allan (1994). Em 1995, foram mensurados,
semanalmente, os comprimentos das inflorescências e das flores + pedicelos dos
ramos marcados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Observou-se, que nas nogueiras macadâmia, a maioria das inflorescências ocorre
em ramos maduros (com mais de um ano) com diâmetro entre 2 a 7 mm. Esses ramos,
originários de gemas axilares, desenvolvem-se pouco em virtude da competição
com o ramo principal originário, na maioria das vezes, da gema apical.
As gemas vegetativas existentes na axila das folhas, e alguns casos também as
gemas apicais, sofrem diferenciação e transformam-se em gemas florais. A
diferenciação é caracterizada por um intumescimento das gemas seguido por um
estágio em que as mesmas adquirem uma coloração branca, com cerca de 2 mm de
comprimento, permanecendo dormentes neste estado por períodos variáveis,
podendo até mesmo não evoluírem para inflorescências.
Das três gemas existentes na axila foliar, geralmente a gema superior e a
mediana diferenciam-se em gema floral, fato que ocorre com menor freqüência na
gema inferior. Desse modo, em cada nó, é possível a ocorrência de 1 até 9
inflorescências.
De acordo com Meyer (1965), as primeiras fases da transformação de um meristema
vegetativo em floral são invisíveis alterações fisiológicas que originam, nas
células meristemáticas, condições metabólicas que modificam completamente o
tipo de diferenciação do meristema. Acrescenta, ainda, que o período de tempo
em que um dado meristema apical permanece no estado vegetativo antes de
transformar-se num meristema floral, difere muito de uma espécie vegetal para
outra e, numa dada planta, de um meristema para outro, sendo condicionado em
parte por fatores genéticos e, em parte, por fatores ambientais. Em algumas
espécies, o meristema transforma-se num primórdio floral a partir do qual se
desenvolve a inflorescência.
Nas observações efetuadas durante o período de maio de 1993 a outubro de 1995,
verificou-se que o período de intumescimento das gemas florais brancas ocorreu
a partir de meados do mês de maio, nos anos de 1993 a 1995, com maior
incidência a partir de meados do mês de maio, nos anos de 1993 a 1995, com
maior incidência a partir do início do mês de junho (Tabela_1).
A fase de crescimento de inflorescências variou entre os anos, estendendo-se de
9 de junho a 15 de agosto em 1993; de 18 de maio a 12 de agosto, em 1994, e de
22 de junho a 30 de julho de 1995. Em 1994 e 1995, muitas inflorescências não
completaram o desenvolvimento em virtude da estiagem ocorrida nos meses de
abril a agosto (Figura_1). O período de maior concentração de flores em antese
foi verificado entre meados de agosto e meados de setembro, à exceção do ano de
1995, quando houve maior concentração no período de 9 a 23 de agosto (Figura
2).
Esses resultados estão de acordo com os períodos observados por Stephenson
& Gallagher (1986), para as condições da Austrália. Verificou-se, também,
que o período de início de intumescimento da gema floral coincidiu com a queda
de temperatura noturna para as condições de Jaboticabal.
Observou-se que não existe sincronismo de floração num mesmo ramo nem num mesmo
nó, pois tanto pode haver lançamentos simultâneos numa mesma axila ou nó, como
tais lançamentos podem ser seqüenciais.
A análise de variância do período de crescimento da inflorescência até a antese
não detectou diferença significativa entre cultivares com relação ao número de
dias e somatório de graus-dia (GD); entretanto, houve diferença significativa,
para ambos os parâmetros, entre anos e na interação cultivares x anos.
Na Figura_3, observa-se que, em 1994, as inflorescências da cv. IAC 5-10
levaram mais dias para alcançar a antese que as inflorescências da cv. IAC 8-
17, não havendo, entretanto, diferença significativa entre as cultivares, em
1995. O período de crescimento das inflorescências de ambas as cultivares, em
1994, foi mais prolongado que em 1995.
Os valores médios de números de dias ocorridos na fase de crescimento da
inflorescência das cultivares IAC 5-10 e IAC 8-17, em 1994 e 1995, nas
condições de Jaboticabal, são menores que a média encontrada por Moncur et al.
(1985), os quais relatam valores médios de 62 dias com extremos de 54 a 90
dias, para cultivares havaianas em diversos locais da Austrália. O período de
90 dias foi encontrado em nogueiras macadâmia cultivadas no local de maior
altitude.
Quando mensurado em graus-dia, o período de crescimento da inflorescência foi
diferente entre cultivares, em 1994, mas não em 1995 (Figura_4). Ambas as
cultivares apresentaram maior somatório de graus-dia para o crescimento das
inflorescências em 1995, diferindo significativamente de 1994.
Considerando-se que o somatório de graus-dia representa as diferenças de
temperatura média diária acima da temperatura-base da macadâmia (12,8 ºC) e
que, em 1994, as temperaturas médias foram relativamente mais baixas que em
1995, depreende-se, desses resultados, que o crescimento da inflorescência pode
ter sido afetado pelas baixas temperaturas, levando mais tempo para alcançar a
fase de antese.
A inflorescência (raque) e flor + pedicelo apresentaram crescimento de
tendência sigmoidal simples, caracterizado por três fases distintas: uma
inicial ou exponencial, na qual o crescimento é relativamente lento; outra
intermediária, em que o crescimento é acelerado e praticamente linear, e outra
final, onde ocorre estabilização (Figura_5).
No caso da inflorescência, houve um exponencial até o 10º dia e um período de
crescimento linear entre o 10º e 31º dia, ocorrendo, a partir deste, a
estabilização. Moncur et al. (1985) referem-se à fase de crescimento
exponencial e linear como fase de alongamento.
A flor, aos 24 dias, apresentou um comprimento médio em torno de 1,5 mm,
apresentando um crescimento linear do 31º dia (quando a raque já estava no
período de estabilização) até o 45º dia, quando ocorreu a antese das primeiras
flores.
Moncur et al. (1985) observaram que o alongamento dos racemos começou após a
temperatura mínima ter aumentado com a ocorrência de chuvas. O alongamento
começou mais cedo nos locais mais frios, sugerindo possível requerimento de
frio para o desenvolvimento floral. Segundo Moncur et al. (1985), o crescimento
do racemo pode ter influência na produção potencial através de um observado
decréscimo do número de flores a altas temperaturas para a cv. 246.
De acordo com Leopold & Kriedemann (1964), para células ou órgãos
individuais, o crescimento é potencialmente ilimitado e começa como um padrão
exponencial. Entretanto, interações mútuas dentro do indivíduo impõem
limitações sobre o crescimento, e a atual curva tende a uma maneira sigmoidal.
De modo geral, o crescimento de qualquer organismo inclui uma fase exponencial.
CONCLUSÕES
De acordo com os resultados obtidos, concluiu-se que , nas condições de
Jaboticabal, o florescimento da nogueira macadâmia ocorreu entre meados de
junho e meados de setembro e que as cultivares apresentaram variação, de um ano
para outro, no período ocorrido entre o início de crescimento da inflorescência
e a antese