Germinação de sementes e crescimento inicial de maracujazeiros irrigados com
água salina em diferentes volumes de substrato
Germinação de sementes e crescimento inicial de maracujazeiros irrigados com
água salina em diferentes volumes de substrato1INTRODUÇÃO
A produção de mudas, em geral, das culturas e particularmente das espécies
frutíferas tropicais, representa um dos mais importantes pré-requisitos para o
sucesso do empreendimento agrícola. Nesse sentido, pelo menos três critérios
devem ser adotados para a aquisição de material biológico de boa qualidade: 1)
sementes ou outro órgão da planta, homogêneos e fitossanitariamente adequados
para reprodução (Ruggiero & Oliveira, 1998); 2)componentes, composição e
volumes do substrato (Silva et al., 2001); 3) qualidade da água para irrigação
(Miguel et al., 1998).
Nas áreas semi-áridas do Brasil, a água de irrigação, quase sempre, possui
concentração salina que compromete a qualidade de mudas da grande maioria das
fruteiras (Cavalcante et al., 2001a). No caso do maracujazeiro, a adversidade
revela-se ainda mais agressiva devido à cultura ser sensível à salinidade da
água ou do solo (Ayers & Westcot, 1999). Para os respectivos autores, toda
e qualquer planta sensível aos efeitos salinos apresenta perda potencial do seu
rendimento quando a concentração de sais do substrato evidenciar condutividade
elétrica superior a 1,3 dS m-1.
Os efeitos marginais da salinidade atuam durante todas as fases das plantas
(Sá, 1999). No entanto, o primeiro contato entre o ambiente salino e as
plântulas tem início durante o crescimento do eixo embrionário da semente. Por
isso, o processo germinativo constitui-se na fase mais importante para a
avaliação do comportamento de determinada cultura à salinidade (Lauchi &
Epstein, 1984; Costa, 2000). Entretanto, algumas frutíferas, como goiabeira
(Pereira, 2000), gravioleira (Cavalcante et al., 2001b) e inclusive o
maracujazeiro (Costa, 2000), revelaram-se menos tolerantes aos sais durante o
crescimento inicial das plantas que por ocasião da germinação das sementes.
Além da ação química depressiva dos sais, da água ou dos substratos às plantas,
há também os efeitos negativos da salinidade sobre a condição física do solo.
As interferências do complexo que representam a mistura salina e/ou da ação
específica de boro, cloreto, nitrato e sódio tornam-se mais danosas quando os
sais induzem a dispersão da argila e depauperam a estrutura do solo (Richards,
1954; Costa, 2000). Quando isso ocorre, os atributos físico-hídricos do meio,
como infiltração, disponibilidade de água, aeração e drenagem são marcadamente
reduzidos e o pH é sensivelmente elevado. Nessas situações, na maioria dos
casos, não há espaço, com condições químicas, físicas e biológicas, para o
desenvolvimento do sistema radicular e, com efeito, para o crescimento inicial
das plantas em substratos de pequenos volumes (Santos, 1999).
A utilização da água salina na agricultura, isto é, acima de 1,5 dS m-1, que
contém 0,96 g de sais por litro, está tornando-se cada vez mais necessária (Paz
et al., 2000). Contudo, a literatura constata que a água de conteúdo salino
acima desse valor tem comprometido a produção de mudas de goiabeira,
gravioleira, mamoeiro, maracujazeiro e pinheira, todas de significativa
importância para a região semi-árida do Brasil. Grandes perdas de mudas também
têm sido registradas em áreas onde a água de mananciais de superfície (açudes,
barragens e rios) tem a concentração salina aumentada, do início para o final
da estiagem, provocando toxidez e até a morte das plantas.
O trabalho objetivou avaliar os efeitos da água salina, em volumes de
substrato, sobre a germinação de sementes e crescimento inicial do
maracujazeiro-amarelo e roxo.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi conduzido em abrigo protegido do Departamento de Fitotecnia/CCA/
UFPB, no período de novembro de 2000 a fevereiro de 2001. Os tratamentos foram
distribuídos em blocos inteiramente casualizados, em 5 repetições, sendo as
paracelas constituídas por 15 unidades experimentais de cada genótipo,
empregando o esquema fatorial 22 x 6, correspondente às cultivares de
maracujazeiro-amarelo e roxo (Passiflora edulis f. flavicarpa Deg.), submetidas
a dois volumes de substrato: 0,34 e 1,41 litro, irrigados com águas com
salinidades de: 0,5; 1,0; 2,0; 3,0; 4,5 e 6,0 dS m-1 de condutividade elétrica
(CE).
Os respectivos níveis de salinidade (CE) foram obtidos mediante a diluição de
uma água oriunda de uma barragem altamente salina com condutividade elétrica de
16,9 dS m-1 e relação de adsorção de sódio (RAS) de 17,8 (mmolc L-1)1/2, com
água não salina de CE = 0,5 dS m-1. A diluição foi feita tomando-se um volume
constante da água salina com volumes de água sem problemas de sais e medindo-se
a condutividade elétrica para cada tratamento, conforme procedeu Pereira
(2000).
O substrato, sem calcário e fertilizante, foi composto de volumes iguais de
areia lavada, material da camada superficial (10 cm) de um Latossolo Vermelho-
Amarelo e esterco bovino de relação C/N de 12:1, acondicionado em bolsas de
polietileno preto com 18 x 10 cm e 12 x 6 cm, correspondentes aos volumes de
1,41 e 0,34 litro, respectivamente. Imediatamente após preparado, o substrato
apresentava caráter salino devido, em maior parte, à solubilização dos
componentes da matéria orgânica: cálcio = 15,8; magnésio = 12,4; sódio = 36,7;
e potássio = 2,0 mmolc L-1 e condutividade elétrica do extrato de saturação 6,9
dS m-1, determinados no extrato de saturação, empregando a metodologia de
Richards (1954). Para reduzir o índice de salinidade, cada unidade experimental
foi irrigada semanalmente com água não salina de CE = 0,5 dS m-1 e RAS = 2,2
(mmolc L-1)1/2. Ao final de 45 dias, após uma lavagem para lixiviação dos sais,
o substrato continha condutividade elétrica do extrato de saturação de 1,8 dS
m-1 e, portanto, apresentava conteúdo não salino .
No início da segunda quinzena de novembro de 2000, foi efetivada a semeadura de
8 sementes de cada cultivar com 87% de germinação para o maracujazeiro-amarelo
e 81% relativo ao roxo. Os respectivos valores foram obtidos com base em
plântulas normais emergidas conforme metodologia adotada pelas Regras de
Análises de Sementes descritas em Brasil (1992). Antes da semeadura, o
substrato apresentava porosidade total de 0,62 m3m-3 e a umidade volumétrica ao
nível de capacidade de campo à tensão de ' 0,010 MPa de 0,22 m3m-3 (Richards,
1954).
Antes de iniciar a irrigação, as unidades experimentais foram pesadas e
acrescentadas à massa de água referente ao valor do substrato ao nível de
capacidade de campo. Esse valor foi adotado como padrão para as irrigações
seguintes. O fornecimento de água, referente a cada nível de salinidade, foi
feito com base na pesagem das respectivas unidades experimentais, repondo-se
diariamente a água evaporada em relação ao peso-padrão no dia da semeadura,
tomando-se o cuidado para não molhar o caule e as folhas e não induzir a
toxidade pelo contato com as águas mais salinizadas.
No período de 29 de novembro a 11 de dezembro de 2000, foram contadas as
sementes germinadas. Ao final do processo germinativo, o número de sementes
germinadas foi dividido por 8 e multiplicado por 87%, as referentes cultivares
amarelas e por 81% à roxo (Brasil, 1992). Aos 10 dias após a emergência, foi
efetivado o desbaste mantendo-se a planta mais vigorosa de cada unidade
experimental.
Aos oitenta dias após a emergência, isto é, ao final do ensaio, foram obtidos
os valores de crescimento em altura, diâmetro do caule à altura do colo das
plantas, com auxílio de um paquímetro de precisão 1:50, área foliar estimada
pelo produto do comprimento pela maior largura da folha. O material vegetal de
cada repetição foi separado para quantificação dos pesos das matérias secas da
parte aérea e do sistema radicular. Posteriormente, o substrato foi colocado
numa bandeja com malha fina, umedecido paulatinamente até a saturação para
liberação das raízes. Em seguida, mediu-se o comprimento da raiz principal com
auxílio de uma régua milimetrada.
A correção da área foliar foi feita, efetuando-se o produto da área estimada
pelo fator 0,78 para a cultivar amarela e 0,81 para a roxa. Cada um dos fatores
correspondeu à relação entre os pesos do papel referente à área real e à área
estimada de cada genótipo (Santos, 1999).
Os dados foram submetidos à análise de variância, pelo teste "F", confronto de
médias, pelo teste de Tukey, e regressão polinomial. Para efeitos de regressão,
foram utilizados os intervalos salinidade da água versus volume de substrato,
devido à maioria das variáveis não diferirem entre as cultivares.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A salinidade da água de irrigação prejudicou mais significativamente a
germinação de sementes e o crescimento do maracujazeiro-roxo que do amarelo
(Tabela_1). Essa situação mostra que genótipos de uma mesma espécie podem
responder diferenciadamente à ação da salinidade da água e do substrato durante
a germinação de sementes e o crescimento inicial das plantas (Richards, 1954;
Ayers & Westcot, 1999; Pereira, 2000). Por outro lado, verifica-se que,
comparativamente, pelo diâmetro do caule, área foliar, comprimento da raiz
principal e produção de matéria seca das raízes e parte aérea (Tabela_1), as
plantas de ambas as cultivares responderam sem diferença estatística aos
efeitos da salinidade.
O aumento da condutividade elétrica das águas, independentemente da cultivar,
interferiu negativamente sobre o poder germinativo das sementes e as demais
variáveis de crescimento das plantas (Tabela_1). No entanto, os menores valores
foram sempre registrados no substrato em menor volume (Tabela_1, Figuras_1 e
2). Nessa condição, o estresse salino tornou-se mais danoso às sementes e às
plantas. A redução do volume, do menor recipiente, para menos de 25% de 1,41
litro além do estresse de sais resultou em impedimento à expansão radicular e,
em conseqüência, ao desenvolvimento adequado das plantas (Santos, 1999). Pelos
resultados deste trabalho nas áreas onde as águas apresentarem condutividade
elétrica igual e/ou superior a 1,0 dS m-1 ou que possam atingir esse valor do
meio para o final do período de estiagem, a produção de mudas de maracujazeiro
em recipientes de volumes inferiores a 1,41 litro pode ser expressivamente
comprometida. Essas inconveniências foram também registradas por Cavalcante et
al. (2001a) ao estudarem a possibilidade do uso da água salina no cultivo do
maracujazeiro.
O diâmetro do caule das plantas foi negativamente afetado, pelo incremento
salino da água, com maior intensidade nos tratamentos com menor volume do
substrato (Tabela_1, Figura_3). O contato das raízes com o meio adversamente
salino contribui para maior e mais rápida absorção de sais que provocam
depressividade a todos os órgãos das plantas, inclusive ao caule (Araújo et
al., 2000).
Independentemente da cultivar, a diminuição do volume do substrato e o aumento
da salinidade da água de irrigação resultaram em declínio marcante da área
foliar, com maior significância às plantas desenvolvidas no substrato de menor
volume (Tabela_1, Figura_4). A redução da área foliar, muitas vezes, é reflexo
de estresse no ambiente radicular e pode provocar desequilíbrio fisiológico nas
plantas em geral (Lauchi & Epstein, 1984; Ayers & Westcot, 1999). Como
na maioria das plantas cultivadas, no maracujazeiro, a queda dos valores de
expansão das folhas resulta em baixa eficiência fotossintética, desequilíbrio
na absorção e translocação de nutrientes, prejuízos à dinâmica de funcionamento
dos estômatos e na síntese de auxinas para o crescimento, retardamento na
emissão dos botões florais e, com efeito, queda na qualidade fitotécnica das
mudas (Costa, 2000).
O crescimento da raiz principal apresentou o mesmo comportamento estatístico
das demais variáveis entre as distintas cultivares nos respectivos recipientes.
Entretanto, com o incremento de sais nas águas, houve maior redução desse
parâmetro em condições de menor volume de substrato (Figura_5). Ao admitir que
todas as variáveis foram estatisticamente inferiores (Tabela_1) no substrato de
menor volume, constata-se que as águas de mesmo índice salino são
potencialmente mais danosas em condições de menor espaço destinado ao
crescimento radicular (Richards, 1954; Sá, 1999; Cavalcante et al., 2001b).
As produções de matéria seca pelas raízes e parte aérea das plantas também
foram estatisticamente diminuídas com o aumento da concentração salina das
águas e com a redução do volume do substrato (Tabela_1, Figuras_6 e 7).
Comparativamente, os resultados do maracujazeiro-amarelo foram superiores aos
apresentados por Sá (1999) em plantas irrigadas com água salina e inferiores
aos de Araújo et al. (2000) por plantas de mesma idade tratadas com água não
salina.
Numa avaliação global, verifica-se que o crescimento em altura, diâmetro do
caule, comprimento da raiz principal, área foliar e produção de matéria seca
das raízes e parte aérea das plantas foram mais drasticamente afetados que a
germinação das sementes. Esse fato indica que, apesar de a cultura ser sensível
aos efeitos salinos (Ayers & Westcot, 1999), a sua sensibilidade aos sais é
maior na fase de formação das mudas quando comparada à germinação das sementes.
CONCLUSÕES
1. A salinidade da água diminuiu a taxa de germinação das sementes, o
crescimento e desenvolvimento das cultivares de maracujazeiro.
2. Os menores valores de germinação das sementes, do crescimento em altura, do
diâmetro do caule, área foliar, comprimento da raiz principal, produção de
matéria seca das raízes e parte aérea das plantas, provocados pela salinidade
das águas, foram registrados no substrato de menor volume.
3. Os efeitos da salinidade foram mais agressivos sobre crescimento em altura,
diâmetro do caule, área foliar e biomassa das plantas que na germinação das
sementes.
4. Não foram produzidas mudas com qualidade para cultivo quando irrigadas com
águas de salinidade superior a 1,0 dSm-1.