Influência da irrigação na produção de pedúnculo e de castanha em clones de
cajueiro-anão-precoce
Influência da irrigação na produção de pedúnculo e de castanha em clones de
cajueiro-anão-precoce1INTRODUÇÃO
Um grande contingente populacional no Nordeste brasileiro tem no cajueiro
(Anacardium occidentale L.) uma importante fonte de geração de empregos e
renda. O Brasil é o segundo produtor mundial de castanha de caju, com cerca de
126.425 toneladas e 1.011.400 toneladas de pedúnculo em 2001 (IBGE, 2002).
Com a introdução do cajueiro-anão-precoce, o sistema de produção baseado no
emprego de clones melhorados, cultivos adensados, aplicação de fertilizantes,
controle fitossanitário e irrigação está evoluindo, direcionando-se para a
agregação de valor mediante a exploração comercial do pedúnculo ou pseudofruto
para o consumo in natura, também denominado "caju-de-mesa". Além disso, existe
no País uma tradição no aproveitamento do pedúnculo mediante sua transformação
em diversos produtos, como sucos, sorvetes, doces, licores, mel, geléia,
cajuína, refrigerantes gaseificados e aguardentes (Embrapa, 1991).
Estudos preliminares revelam produções de castanha e pedúnculo em cajueiro-
anão-precoce, sob condições de irrigação localizada, superiores às do cajueiro
sob sequeiro (Oliveira, 1999). Entretanto, a natureza e a dimensão da resposta
da planta a distintos regimes hídricos ainda não foram quantificadas, sendo
escassos os estudos e informações de pesquisa sobre irrigação, que permitam
recomendações mínimas para o emprego deste insumo, desconhecendo-se a sua
influência em algumas características produtivas da planta. Dentre estas,
destaca-se a produção de pedúnculo, bem como a relação peso de pedúnculo:peso
de castanha, de muita importância na seleção de clones e estimativa da produção
de pedúnculo em pomares destinados à exploração do caju-de-mesa.
Acredita-se que o emprego da irrigação afete o comportamento da planta,
provocando sensíveis mudanças na fenologia, com possíveis reflexos para o
manejo dos pomares, notadamente nas práticas de adubação, propagação
(disponibilidade de propágulos), frutificação e colheita. Espera-se, também,
que o uso da irrigação promova alterações nas características produtivas das
plantas, notadamente no período de colheita e na produção de castanha e de
pedúnculo. Nesse contexto, é crescente o número de cajucultores que estão
especializando-se, mediante o emprego da irrigação, na produção e
comercialização do caju in natura, cujo consumo tem apresentado um expressivo
crescimento em anos recentes.
O conhecimento dessas características é de fundamental importância na
determinação das exigências hídricas e na determinação do período de produção.
Para isso, parâmetros importantes em estudos de irrigação precisam ser
conhecidos, de modo a permitir melhor avaliação acerca do emprego desta prática
no cajueiro.
O presente estudo teve como objetivo avaliar a influência da irrigação na
produção de pedúnculo e na relação peso de pedúnculo:peso de castanha dos
clones de cajueiro-anão -precoce CP 09, CP 76 e CP 1001.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi conduzido no período de 1996 a 1998, no Campo Experimental do
Curu, da EMBRAPA-Agroindústria Tropical, localizado no município de Paraipaba,
Ceará, localizado a 31 metros de altitude, 3°26' de latitude Sul e a 39°08' de
longitude W Grm. A região possui tipo climático DdA'a', caracterizado como
semi-árido, com pequeno ou nenhum excesso hídrico, megatérmico e a concentração
dos três meses de verão responsável por 25,9 % da evapotranspiração potencial
normal. A pluviosidade média anual é de 923,7 mm (média histórica de 1975 a
1998). Os dados climáticos do local, durante a condução do experimento, segundo
EMBRAPA (1998a, 1998b e 1998c), encontram-se na Tabela_1.
O solo da área experimental é um Podzólico Vermelho-Amarelo distrófico A fraco,
textura arenosa, fase caatinga litorânea, relevo plano, cujas características
físicas e químicas, nas profundidades de 0 cm a 20 cm e de 20 cm a 40 cm são
apresentadas na Tabela_2.
Os clones estudados (CP 09, CP 76 e CP 1001) foram plantados em 21 de novembro
de 1994, no espaçamento de 7,0 m x 7,0 m, em uma área total de 1,12 ha. Foram
testados quatro tratamentos, assim definidos: A - testemunha (sem irrigação); B
- intervalo de irrigação de 1 dia; C - intervalo de irrigação de 3 dias; D -
intervalo de irrigação de 5 dias. O delineamento experimental foi em blocos ao
acaso, com quatro repetições, em parcelas subdivididas, com os regimes hídricos
nas parcelas e os clones distribuídos espacialmente nas subparcelas,
constituídas de quatro plantas, que foram observadas individualmente. Os
resultados de cada planta foram totalizados para estimação das variáveis
estudadas. Para comparação de médias, utilizou-se o teste de Tukey, a 1 e 5 %
de significância.
Cada planta foi irrigada por um microaspersor autocompensante, com vazão de 44
L.h-1. Na determinação da quantidade de água em cada irrigação, nos diferentes
tratamentos, utilizou-se a evaporação obtida no tanque classe A, instalado nas
imediações do experimento.
Para o cálculo das diferentes lâminas d'água, foram utilizadas as seguintes
expressões:
ETC = evapotranspiração de cultivo diária, mm;
ECA = evaporação diária do tanque classe A padrão, mm;
Kt = coeficiente de tanque (0,65), obtido a partir dos dados climáticos da
região, segundo Doorenbos & Pruitt (1984);
Kc = coeficiente de cultivo, variável de acordo com a idade da planta, segundo
Saunders et al. (1995): 1o ano (Kc=0,50); 2o ano (Kc=0,55); 3o ano (Kc=0,60);
V = volume aplicado por planta/dia, litros (L);
A = área ocupada pela cultura, m2;
fc = fator de cobertura (relação entre a área molhada e a área ocupada pela
cultura: 0,15; 0,30 e 0,35, respectivamente, para o 1o, 2o e 3o anos);
EI = eficiência de irrigação, %.
As colheitas foram realizadas manualmente, três vezes por semana, durante o
período de produção. Os frutos, após colhidos, foram destacados dos pedúnculos
e submetidos a pesagem. Aqueles com desenvolvimento fisiológico incompleto
foram considerados refugos e excluídos dos registros. Os dados obtidos foram
peso médio de castanha por fruto e peso médio de pedúnculo, com os quais foram
estimadas a relação peso de pedúnculo:peso de castanha e a produção de
pedúnculos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Produção de pedúnculo
As variáveis estudadas, ano e regime hídrico, isoladamente, e as interações ano
x clone e ano x regime hídrico, mostraram-se estatisticamente significativas
para a variável produção de pedúnculo. Não foi encontrada significância
estatística para clone, isoladamente, e para as interações clone x regime
hídrico e tripla (Tabela_3).
Apesar de a interação clone x regime hídrico não ter mostrado significância
estatística, merece destaque o comportamento dos clones CP 09 e CP 1001
submetidos ao tratamento B (intervalo de rega de 1 dia), pois, enquanto o CP 09
apresentou um incremento de produção de pedúnculo de 94,7 %, em relação ao
tratamento A (sem irrigação), o CP 1001 apresentou um incremento de apenas 7,4
%. Já o CP 76, embora não diferindo estatisticamente, apresentou a maior
produção quando submetido ao tratamento C (3 dias), com um incremento de 57,1 %
em relação à produção oriunda das plantas que receberam o tratamento A (Tabela
4). A variabilidade determinada pelo efeito "ano" sobre "clone" e "regime
hídrico" pode explicar por que diferenças desta magnitude não se mostraram
significativas do ponto de vista estatístico. Estes resultados podem ser
atribuídos, também, ao comportamento diferencial entre os clones, evidenciando
que os pseudofrutos do CP 09 e CP 76 seriam, provavelmente, mais eficientes
como drenos de fotoassimilados do que o CP 1001. A mesma superioridade em
termos de produção de pedúnculo do CP 09 em relação ao CP 76, cultivados sob
irrigação, também foi constatada por Paiva et al. (1998) em plantas no terceiro
ano de cultivo.
Observou-se, também, que as maiores produções de pedúnculo para os clones CP 09
e CP 76 foram obtidas quando os mesmos foram submetidos ao regime hídrico B
(irrigação diária). A mesma tendência não se verificou para o CP 1001, que
apresentou a maior produção de pedúnculo no regime hídrico C.
A variação no incremento de produção de pedúnculo observada nos tratamentos B,
C e D (Tabela_4) foi de 53,8% a 94,7 %. Sob sequeiro (Tratamento A), o CP 1001
apresentou valor de produção de pedúnculo 36,7 % superior em relação à média de
produção do CP 06 e CP 76. Este comportamento pode constituir-se num fator
importante, especialmente em regiões onde a escassez de recursos hídricos pode
limitar o emprego da irrigação, caracterizando o CP 1001 como um clone
promissor para o cultivo sob condições de sequeiro.
Interação regime hídrico x ano de colheita
Os resultados do efeito da interação regime hídrico x ano de colheita na
produção de pedúnculo encontram-se na Tabela_5. Notou-se que, no primeiro e
segundo anos de colheita, os valores para a variável em questão não diferiram
estatisticamente entre si, pelo teste F. A produção de pedúnculo foi reduzida
em 1998 no tratamento A (sequeiro), enquanto os tratamentos B, C e D não
diferiram estatisticamente entre si.
Observou-se, ainda, que as maiores produções médias de pedúnculo foram obtidas
nos anos de 1997 e 1998, as quais diferiram estatisticamente da produção
registrada em 1996. Quanto ao efeito do regime hídrico, analisado isoladamente,
verificou-se que o tratamento B influenciou significativamente a produção de
pedúnculo, tornando-a estatisticamente diferente dos valores de produção
obtidos pelo tratamento A (sequeiro). Os tratamentos C e D não diferiram
estatisticamente entre si e do tratamento A (Tabela_5).
Interação clone x ano de colheita
Comparando as produções de pedúnculo apresentadas pelos clones em cada um dos
anos de colheita (Tabela_6), constatou-se que, no primeiro e terceiro anos, os
mesmos não diferiram estatisticamente entre si. No segundo ano, os clones CP 09
e CP 1001 mostraram valores médios de produção superiores ao CP 76. No terceiro
ano, o CP 76 produziu 11.603,53 kg.ha-1, enquanto, no CP 09, a produção foi
13.548,4 kg.ha-1. Igual tendência foi obtida por Paiva et al. (1998), em clones
de cajueiro-anão-precoce cultivados sob irrigação, em Mossoró- RN. Estes
autores obtiveram, no terceiro ano de cultivo, produções de pedúnculo de
15.664,07 kg.ha-1 e 11.926,57 kg.ha-1 para os clones CP 09 e CP 76,
respectivamente.
Bezerra & Miranda (1998), por sua vez, obtiveram para o CP 76 irrigado, no
primeiro ano de colheita, 4.791,3 kg de pedúnculo.ha-1, produção inferior à
apresentada pelo mesmo clone neste trabalho. As diferenças observadas,
provavelmente, podem ser atribuídas a fatores não genéticos prevalecentes nas
diferentes áreas experimentais, especialmente pluviosidade, lâmina d'água
aplicada, turno de rega, luminosidade e adubação, dentre outros.
Embora a análise de variância para o fator clone não tenha revelado diferença
estatística, o exame dos valores médios de produção obtidos para cada clone
(Tabela_6) demonstra que o CP 09 (11.928,16 kg.ha-1) e o CP 1001 (10.727,63
kg.ha-1) apresentaram, respectivamente, valores de produção de pedúnculo 21,2 %
e 9,0 % superiores em relação ao CP 76 (9.842,20 kg.ha-1).
Por outro lado, os valores médios de produção de pedúnculo obtidos nos
diferentes anos, para cada clone, apresentaram-se estatisticamente superiores
no segundo e terceiro anos no CP 09 e CP 76. Para o CP 1001, o segundo ano de
colheita foi estatisticamente superior aos demais. Apesar de o período de
avaliação ser insuficiente para permitir inferências sobre uma possível
tendência de alternância de produção durante o período experimental, este fato
evidencia a necessidade de maiores estudos.
Peso médio de castanha por fruto
Os clones CP 76 e CP 09 apresentaram os maiores valores de peso médio de
castanha, com 7,76 g e 7,73 g, respectivamente, diferindo estatisticamente do
CP 1001, que obteve 6,25 g (Tabela_7). Estes valores foram inferiores aos
obtidos por Moura (1998) nos mesmos genótipos sob irrigação: 8,57 g (CP 09) e
9,01 g (CP 76). Esta variação de resultados pode ser atribuída às distintas
condições de manejo a que foram submetidas as plantas, bem como à interação
genótipo x ambiente.
Observou-se um decréscimo gradativo no peso médio de castanha do primeiro (7,95
g) até o terceiro ano de colheita (6,59 g), independentemente do clone estudado
(Tabela_7). Tal fato pode ser devido não apenas às condições experimentais
(plantas perenes e parcelas grandes), como também a aspectos relacionados ao
genótipo e à idade das plantas. Oliveira (1999) constatou que o incremento na
produção anual de castanha foi motivado principalmente pelo aumento do número
de castanha, já que o peso sofreu redução em função da idade da planta. Com
efeito, comparando-se as Tabelas_6 e 7, observa-se uma tendência de relação
inversa entre produção de pedúnculo e peso médio de castanha, sugerindo a
necessidade de estudos com metodologias específicas direcionados para a
investigação mais precisa deste comportamento. Além disso, embora inexistam
estudos disponíveis na literatura que expliquem esta tendência no cajueiro,
observada também por Almeida et al. (1998), sabe-se que, em algumas frutíferas,
como a goiaba, o maior número de frutos está normalmente associado ao menor
peso (Medina, 1988).
Relação peso de pedúnculo: peso de castanha
O teste F não detectou significância estatística para o fator regime hídrico,
isoladamente, e para as interações regime hídrico x clone e tripla quanto à
característica relação peso de pedúnculo:peso de castanha. Foram observadas
diferenças estatísticas para clone e ano, separadamente, e para as interações
regime hídrico x ano de colheita e clone x ano de colheita (Tabela_3).
Interação regime hídrico x ano de colheita
Conforme os dados contidos na Tabela_8, ocorreu um aumento da relação peso de
pedúnculo:peso de castanha dentro de cada ano de colheita, conforme o regime
hídrico empregado. No primeiro ano, os tratamentos B (10,19), C (9,69) e D
(10,25) não diferiram estatisticamente entre si, embora B e D tenham
apresentado tendência de serem superiores a C e diferirem da testemunha (9,14).
No segundo e terceiro anos de colheita, apesar de os valores das relações peso
de pedúnculo:peso de castanha serem estatisticamente iguais, observou-se uma
tendência de aumento nos tratamentos submetidos a irrigação. Este comportamento
demonstra que a irrigação contribuiu para aumentar o peso do pedúnculo, como
discutido anteriormente. Os valores médios obtidos nos três anos de avaliação
foram superiores aos observados por Almeida et al. (1998), em plantas de
cajueiro-anão-precoce irrigadas, no sexto ano de vida da planta, no município
de Caucaia-CE.
Interação clone x ano de colheita
Entre os clones, o CP 76 apresentou a maior relação média peso de pedúnculo:
peso de castanha (12,18) nos três anos, diferindo estatisticamente do CP 09
(9,55) e CP 1001 (9,92). Bezerra & Miranda (1998), avaliando o efeito da
densidade de plantio sobre o crescimento e a produção do CP 76 irrigado,
encontraram relações variando de 13,3 a 14,4 no primeiro ano de vida da planta.
Estes valores foram superiores aos registrados por Almeida et al. (1993), que
obtiveram, no sexto ano de vida da planta, uma relação média de 8,1, num
experimento composto de clones de CP 06, CP 09, CP 76 e CP 1001 sob irrigação.
Além disso, observou-se um aumento gradativo na relação peso de pedúnculo:peso
de castanha em todos os clones, do primeiro até o terceiro ano de colheita
(Tabela 9). Tal comportamento pode ser explicado, em parte, pela simultânea
diminuição do peso da castanha, discutida anteriormente. Estes resultados
demonstram que existe um comportamento diferencial dos clones de cajueiro-anão-
precoce com relação à variável em estudo, dentro de cada ano de colheita,
estando de acordo com os resultados obtidos por Paiva et al. (1998), estudando
a produção e a qualidade de pedúnculo de clones de cajueiro-anão-precoce sob
cultivo irrigado. Vale destacar, também, que a relação peso de pedúnculo:peso
de castanha é uma característica de interesse agroindustrial, especialmente
para a indústria de sucos e para o mercado de caju-de-mesa, o que faz com que o
CP 76, por mostrar uma maior relação média nos três anos do experimento
(12,18), se apresente, dentre os clones avaliados, como o mais promissor para
os mencionados mercados.
CONCLUSÕES
1 - A resposta do cajueiro-anão-precoce à irrigação é genótipo-dependente.
2 - O CP 1001 apresenta-se como o mais promissor para o cultivo sob condições
de sequeiro.
3 - O CP 76 apresenta a maior relação peso de pedúnculo:peso de castanha,
constituindo-se num clone mais apto para o mercado de caju-de-mesa.